Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

DE CUMPRIMENTO INCUMPRIMENTO

 

 

Releio – e ouço, recitado pelo seu autor, Ary dos Santos (1937/1984), na Internet, o vasto poema «As portas que Abril abriu», que conclui:

 

https://www.youtube.com/watch?v=p-Whzw-RA7M

 

….De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

 

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

 

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

 

Lisboa: Ed. Comunicação, 1975

 

Também eu publiquei, em 1981, (no livro «Cravos Roxos – Croniquetas verde-rubras»), uma pequena peça - Exercício Escolar (modesta homenagem aos dramaturgos que eventualmente leccionava ao acaso das turmas que me cabiam em sorte, e que hoje mais identificaria com azar) - em que mostrei idênticas afeições sobre as ditas portas abertas uns anos antes, como prova o seguinte desenlace:

 

CORO DO PARTIDO:

 

Neste país transformado

Por revolução de flores

Que aniquilou prepotências

E irmanou ricos e pobres

Trabalhadores e gestores

Num ideal renovado

De comum realização

Só se escuta o martelar

Dos malhos dos ferradores

Dos maços dos calceteiros

E os gritos dos operários

E os olés dos boieiros

E o chocalhar das ovelhas

E os protestos dos doutores

E os risos dos proletários

E os discursos partidários

E o gorjear dos cantores.

Pelas ruas transformadas

Em caminhos pedregosos

Onde as flores são espontâneas

E os frutos tão saborosos,

Brotam as almas mais cândidas

E os sentimentos mais soltos.

Eis a mensagem, senhores,

Da nossa festa das flores.»

 

(Assim fenece a farsa)

 

Ora, as imagens e os sons que nos chegam em catadupa pela imprensa falada e escrita, é que me fizeram lembrar o poema de Ary dos Santos de entusiasmo e libertação ditadas pelo ódio a um regime opressor. Ary dos Santos faleceu em 1984, a tal minha peça, foi de 1981, mas ele não foi informado disso, doutra forma teria explodido em nova mensagem de veemência democrática, por ter encontrado uma alma gémea, embora não do mesmo calibre de genialidade criativa como foi o seu, e que se limitava a imaginar um postigozito de abertura abrilina.

 

Mas na questão de portas abertas, agora é que ele teria pano para mangas para se regozijar plenamente. Não podemos, é certo, implicar o nosso rubro Abril em tudo o que foi trazido por um mundo já aberto de par em par, em traições, corrupção, incestos, pedofilia, destruição, violência, sexo, crime, discrepâncias sociais, e tais…

 

E o que está a dar agora, perfeitamente escancarado, não por portas mas por ondas de natureza vária, entre as quais as da fibra óptica, são essas imagens vindas do deserto de gente encapuçada e de faca em punho, por trás de jornalistas ajoelhados que vão morrer.

 

 Berta Brás

Mais um ano. Parabéns, "Linhas de Elvas"!

 

 

Decorria o ano de 1950 quando a cidade viu nascer um novo jornal que. rapidamente se tornou de grande importância, não só para Elvas, mas para todo o Alentejo. O nome: Linhas de Elvas. Era seu Director o Casimiro Abreu e Editor e proprietário o dinâmico Ernesto Ranita Alves e Almeida – o Ernesto Alves, como era geralmente tratado –, que algum tempo depois passaria a ser o Director. 

 

A Cibele era uma livraria onde se encontravam o Director, o  Editor e proprietário, do jornal,  alguns dos colaboradores – entre os quais tive a honra de ser incluído – e mais algumas pessoas, numa sempre agradável tertúlia.

 

Com excelentes colaboradores, a sua leitura é sempre agradável, com amplo noticiário local e artigos sobe os mais variados temas. Em tempos mais recentes aponto como exemplo, entre muitos outros escritos, as crónicas semanais do médico Amaral Marques sobre temas de saúde, muito úteis e esclarecedoras. Em 64 anos tornou-se um valioso repositório de notícias do concelho.

 

Por tudo isto e o mais que se poderia acrescentar, quero dizer, ao Director e a todos os que fazem o jornal, Parabéns, Linhas de Elvas!

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 4 de Setembro de 2014

 

 

Miguel Mota

AS MÃOS

 

De Tiago Moreira de Sá e Diana Soller, “O Hino de Leonard Cohen ao Mundo” , artigo saído no Público de 24/8, apologia da importância da “hegemonia americana” para o estabelecimento da paz no mundo.

 

E reescreve a história desse mundo de conflitos que, ao pretender tomar as rédeas de um maior poder sobre a momentânea perda de poder dessa potência maior, em várias ocasiões – durante a Guerra Fria, com Eisenhower, após a Guerra do Vietnam com Nixon - torna o mundo joguete de novos valores desestabilizadores, levando ao caos em que estamos de novo mergulhados, a partir do 11 de Setembro e da Grande Recessão. Daí que o “retraimento estratégico” dos Estados Unidos sob a presidência de Obama seja absolutamente negativo para essa paz ansiada.

 

A foto com que a página do Público ilustra o artigo em foco – de Obama e Putin – é bem explícita da simbologia a ele aplicável. Uma foto de Obama e Putin, sentados em iguais cadeiras, sob o pano protector das respectivas bandeiras alternando em duplicado, ambos os rostos fechados - de preocupação nos lábios contraídos de Obama, mas olhando frontalmente a objectiva; de indiferença e seriedade - aborrecimento? astúcia? – o rosto de Putin, olhando as próprias mãos, em desprezo pelo mundo que cinicamente engana e atropela.

 

São expressivas as mãos de ambos, tal como os seus rostos: as de Obama, fincados os cotovelos nos braços da cadeira, formam um tecto protector – talvez do mundo que o necessita; as de Putin, apoiados os braços suavemente nos braços da cadeira, estão viradas maciamente para o próprio ventre, em jeito de voracidade.

 

Conseguirão as mãos em forma de templo desfazer o efeito de posse, específica das macias mãos?

 

O Hino de Leonard Cohen ao Mundo

Tiago Moreira de Sá e Diana Soller

 

17 de Julho de 2008. Pavilhão O2 Arena. Londres.

 

 

 https://www.youtube.com/watch?v=_e39UmEnqY8

 

Tocam os primeiros sons do célebre "hino" (Anthem) de Leonard Cohen. Em frente a cerca de 20 mil pessoas, o músico canadiano, regressado aos palcos após longa ausência, introduz a canção: "É um privilégio estarmos reunidos aqui esta noite quando grande parte do mundo esta mergulhado na escuridão e no caos". Aplausos e breve silêncio, seguidos dos seus mais conhecidos versos: "Ring the bells that still can ring/ Forget you perfect offering/ There is a crack in everything/ That’s how the light gets in".

 

O mundo está de facto a passar por uma fase de crescente instabilidade. Estamos a assistir à criação de um grande arco de violência e de conflito que passa por várias regiões – da Europa de Leste ao Médio Oriente, da Ásia Central a África do Norte, do Sahel ao Corno de África – atingindo muitos países, como a Ucrânia, Israel, Síria, Iraque, Líbia, e Afeganistão, para referir apenas alguns exemplos muito actuais.

 

O que é que todos estes desenvolvimentos coincidentes no tempo têm em comum, independentemente das diferenças entre eles e das suas causas e características próprias? A atenuação da hegemonia dos EUA. Dito de uma forma simples: goste-se ou não, apenas a enorme superioridade de poder de Washington foi capaz de manter a ordem internacional no pós-Guerra Fria. Qualquer diminuição desta significa um mundo mais instável.

 

Normalmente, o termo usado para designar o vasto poder dos Estados Unidos é “hegemonia americana”. Usa-se para descrever o alcance de poder que permite influenciar, de uma forma mais ou menos directa, as decisões e os acontecimentos em várias regiões do mundo. Mas hegemonia não é só isso. É uma espécie de troca tácita entre uma grande potência e um grupo de Estados do sistema internacional: o grande poder providencia uma série de bens comuns, sendo o mais importante a estabilidade política e comercial, e em troca ganha a possibilidade de organizar as instituições internacionais e escrever o “manual de instruções” sobre o que é legítimo ou não nas relações entre Estados. Enquanto a hegemonia não é verdadeiramente questionada – ou pela emergência de outras grandes potências excluídas da ordem internacional e que entendem que chegou a sua vez de determinar as regras e os valores do mundo, ou por um rotundo falhanço das políticas da grande potência que torna a defesa das regras do jogo impossível – a ordem vai-se mantendo, sofrendo pequenos ajustes, consoante os novos acontecimentos e necessidades.

 

No Ocidente tem sido assim desde o fim de Segunda Guerra Mundial. A partir de 1945, os Estados Unidos assumiram o seu papel de estabilizador hegemónico, construindo com a ajuda dos aliados um número sem precedentes de organizações internacionais de regulação das políticas de segurança, bem como da economia globalizada. Determinaram interesses estratégicos – fortemente ligados às rivalidades da Guerra Fria e à segurança energética –, cunharam a ordem com valores liberais e estenderam a sua influência no mundo em conjunto com os amigos europeus e japoneses.

 

Quando a Guerra-Fria acabou, a ordem tornou-se global e parecia à prova de bala. Os apoiantes saudavam o momento de estabilidade unipolar e os críticos preocupavam-se com a concentração de poder da “hiperpotência”. Mas o tom dominante era o do triunfalismo do Fim da História, de Francis Fukuyama, materializada durante a administração Clinton na doutrina do “Alargamento” (Enlargement) e traduzida na expansão da comunidade mundial das democracias de mercado e no alargamento da NATO, bem como da União Europeia com o apoio de Washington, a vários países do antigo bloco soviético, aspecto decisivo da ordem europeia no pós-colapso do comunismo.

 

O 11 de Setembro veio pôr a claro as vulnerabilidades americanas e as intervenções no Afeganistão e no Iraque, sobretudo esta, puseram em causa a legitimidade da hegemonia dos EUA e lançaram dúvidas sobre a extensão do seu poder militar. A “Grande Recessão” de 2008 (que os Estados Unidos iniciaram, mas da qual, convém dizer, já saíram), que desencadeou debates internos difíceis e divisores sobre o modelo económico americano (esses ainda a decorrer), foi a gota de água, lançando a ordem e a legitimidade de Washington numa crise que não está ultrapassada e que tem sido reforçada pela percepção generalizada da ascensão da China e pela adopção de políticas externas cada vez mais assertivas por parte da Rússia, Índia e Brasil.

 

A administração Obama respondeu à crise com retraimento estratégico. O retraimento consiste numa retirada parcial e temporária da hegemonia para terrenos mais resguardados. Não significa que os Estados Unidos tenham abdicado de seu papel de liderança, mas antes que, por falta de recursos, os interesses, as causas, o número e a intensidade das intervenções diplomáticas ou militares do país serão mais delimitados e alvo de uma escolha mais cuidada.

 

O retraimento estratégico não é necessariamente uma escolha dramática. Aliás, é uma estratégia de que os EUA fizeram uso pelo menos duas vezes durante a Guerra Fria com grande sucesso: na administração Eisenhower, para respirar do início abrupto da Guerra Fira; na administração Nixon, para fazer face ao trauma do Vietname e à crise energética e económica de 1973. O retraimento permitiu a reorganização material da hegemonia e o seu regresso em termos reforçados.

 

Mas o resultado positivo de uma estratégia no passado não significa o seu sucesso no presente. Além disso, ela tem consequências completamente diferentes em bipolaridade e em unipolaridade. Acresce que o retraimento tem dois riscos interligados, como sejam, uma abrupta perda de influência que pode contribuir para um declínio real – que não seria desejável para Estados que organizaram a sua política externa em torno da hegemonia Americana (como é o caso de Portugal) – e a criação de vazios de poder que permitem que tenham lugar acontecimentos internacionais trágicos, que seriam contidos caso a hegemonia tivesse uma presença mais activa.

 

Claro que a importância e a incidência desta hegemonia variam entre os vários casos aqui referidos. É marginal no Sahel, mas essencial na Europa de Leste e no Médio Oriente. Por exemplo, a abdicação de uma posição dura relativamente à questão da Ucrânia tem permitido a Moscovo violar as regras e leis básicas do direito internacional, como o respeito pela soberania e integridade territorial dos Estados. O mesmo no Iraque e Síria, onde os mais extremistas dos radicais islâmicos, como o ISIS, levam a cabo práticas que pensávamos que já não eram possíveis, muito menos admissíveis, perante a passividade da chamada comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos.

 

Na nossa opinião há três grandes conclusões a tirar. Primeiro, o retraimento estratégico não enfraqueceu apenas os Estados Unidos: deixou um vazio de poder que está a ser preenchido pela desordem, em muitos casos violenta, em vez de estabilidade.

Segundo, a hegemonia americana, como contrato social global, está longe de estar esgotada. Apesar das inúmeras críticas que tem sofrido nos últimos anos, não existe uma fonte alternativa de estabilidade internacional. Terceiro, a alternativa é, pelo menos por agora, uma maior generalização do caos e da guerra.

 

Leonard Cohen quase certamente discordaria, mas nos nossos dias a fenda por onde pode entrar a luz continua a estar na América e na sua disponibilidade para voltar a exercer o poder no sistema internacional.

 

E porque de Hino se fala, de sinos que tocam enquanto ainda conseguem tocar, num mundo a desfazer-se, lembro outros sinos, os nossos, de simplicidade e modéstia, que Villaret interpretou, do poema de António Lopes Ribeiro, não hino mas marcha de outros tempos, embora não sirvam de apoio ao apelo implícito no texto de Tiago Sá e de Diana Soller para a continuidade americana como “estabilizadora hegemónica”:

 Resultado de imagem para joão villaret

https://www.youtube.com/watch?v=c9pKhCYZEoQ

 

 

Procissão

 

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

 

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

 

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

 

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

 

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

 

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

 

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

 

 

 Berta Brás

IMBRÓGLIO FINANCEIRO

 

 

O turista inglês que se instalara com a mulher em Vilamoura, para um merecido descanso algarvio, estava perplexo. Ligeiramente nervoso contava a outros compatriotas que tinha transferido o dinheiro para financiar a vilegiatura através de um Banco – Holy Ghost – que afinal não existe. Um dos convivas procurou tranquilizá-lo e explicou:

 

- You know, there was a complaint from the financial authorities of the Vatican City. They claimed that Holy was a Trade Mark of their State. The use of it was misleading and abusive. A lot of people thought that it was a Vatican Bank and vaticaners did not feel happy about it. The portuguese bankers concluded that it was better for them to change the name of their Bank and avoid the risk of an extension of their purgatory time. They dropped the Hole and now the Bank is called simply Ghost Bank.

- And where is its location, perguntou o sobressaltado veraneante. O outro respondeu com um "very british" AUUUH! e acrescentou:

- As you certainly know, a ghost has no fixed address.

 

 Luís Soares de Oliveira

UM POUCO DE HISTÓRIA DO KONGO

 

Dona Beatriz Kimpa Vita (1684-1706)

 

O antigo Reino do Kongo, que os portugueses, em 1483, encontraram, estava limitado a norte pelo Rio Zaire, sem limites definidos para qualquer outro lado.

 

Segundo antiga lenda “o Reino do Kongo, foi fundado, muito tempo atrás por um sábio e hábil ferreiro, vindo de longe, da margem norte do rio, que resolveu as diferenças entre as pessoas e estabeleceu a paz.”

 

Em toda a África central, míticos ferreiros foram considerados como representando um princípio de paz e de reconciliação e até com características “femininas” de governo, possivelmente porque o ato de criar aço da terra foi comparado a gravidez. Daí a força que em quase todo o território bantu os ferreiros tiveram, como também em relação ao N’Gola, um ferreiro que se fez chefe duma nação.

 

Ao aportar à foz do rio Zaire, Diogo Cão foi recebido com grande festa, e na sua segunda viagem o Manicongo manda a Portugal uma embaixada pedindo “clérigos e todas as coisas para ele e seu Reino receberem a água do baptismo.”

 

Em 1490 chegam ao Congo os primeiros missionários, que começam a sua ação pela província, sendo solenemente baptizados o rei e a rainha que tomaram os nomes de João e Leonor, em honra aos reis de Portugal, rei este que dura pouco.

 

Sucede seu filho Afonso, grande partidário dos portugueses que tanto o ajudaram e começam as lutas pelo poder.

 

Em duzentos anos intitularam-se rei do Congo 34 nobres.

 

Portugal procurava sempre apoiar o rei, criar estruturas administrativas ao estilo europeu abandonando o modo tribal de governo, ensinando-o ainda, por exemplo, a dar títulos de nobreza aos chefes, que chegou a tal ponto, como deixou escrito o capuchinho frei Bernardo da Gallo, que “havia mais nobres no Kongo do que em toda a Europa junta!” Reis, rainhas, duques, grão duques, marqueses, condes, era uma festa de permanente guerra entre eles, tão mortífera e brutal que São Salvador do Congo foi totalmente destruida, saqueada e abandonada.

 

Dona Beatriz Kimpa Vita nasce em Kipangu, sede do rei, e frei Lorenzo da Lucca dá a sua ascendência à mais alta nobreza, que implica a associação ao Mwana Kongo, o rei. Daí ser tratada como Dona.

 

No final do século XVII eram constantes, permanentes, as lutas entre os vários nobres, mais pelo poder sobre os outros do que propriamente pelo acumulo de terras e regiões.

 

Os derrotados eram sempre escravizados e carregados com correntes de ferro no pescoço e, ou ficavam a serviço dos vencedores ou eram por estes vendidos, através de Luanda de onde eram mandados em navios portugueses para o Brasil, ou pelo porto de Soyo, aí comprados por traficantes holandeses que pagavam preço melhor, encaminhados para as Antilhas e América do Norte, e que além disso vendiam armas e munições por preços inferiores aos dos portugueses.

 

Entre 1700 e 1709 foram exportados do Congo cerca de 70.000 de uma população que não atingia 600.000 almas! No contexto da guerra a exportação era importante, porque os escravos podiam ser trocados por munição, mas a razão principal destas guerras tinha mais raízes políticas do que económicas para a exportação, porque visavam enfraquecer os adversários.

 

Dona Beatriz, filha de nobre – daí o tratamento de “dona” - quando chegou à idade própria foi iniciada nos mistérios de nkisi, feitiço, ela que desde pequenita tinha propensão para a meditação e transe, nunca se interessou por problemas pessoais, mas pela situação do povo.

  (*)

 

E “ressuscitou” dois dias depois, dizendo que Santo António tinha entrado no corpo dela e que ela agora era o próprio Santo António.

Sempre atenta à politicagem que a rodeava, já senhora dos “poderes” da feitiçaria, casou e descasou duas vezes e um dia teve “morte aparente” e “ressuscitado” dois dias depois ao ser possuída pelo corpo de Santo António.

 

Considerado um milagre pelo povo, começou a pregar e a intitular-se, ela mesma, Santo António. Mulher atraente e sobretudo muito inteligente foi conquistando grande parte da população, alterando as orações convencionais ensinadas pelos missionários e afirmando que Santo António era o primeiro dos santos, acima de Nossa Senhora, e igual a Jesus!

 

Como era muito forte a influência da religião no Congo, e através de influência de marinheiros holandeses que se “abasteciam” de escravos no Congo, passou a pregar que os sacramentos da Igreja católica não valiam nada se no interior de cada um não houvesse uma aceitação total.

 

Era uma “nova religião”, com algumas características especiais: era dirigida por uma mulher e, sobretudo, africana.

 

Passou a pregar por toda a região do Congo cativando uma grande parte da população.

 

Foi um movimento sobretudo pela paz, coisa que há muitos anos não havia entre os nobres do Congo. A devastação era imensa e as populações não tinham sossego, fugindo constantemente de um ou outro.

 

O rei do Congo, Dom Pedro IV, Nsanu a mbemba (Agua Rosada), não a atacava mas não queria, de modo algum, perder o apoio dos missionários que consideravam a atitude da Dona Beatriz Kimpa uma profunda e insana heresia.

 

Dona Beatriz, já disse era uma mulher bonita, inteligente, cativante, e arranjou um “secretário”, Barro, uma espécie de Santo António de 2ª categoria! Até que um dia “a” Santo António” engravidou! Esteve escondida um tempo até nascer a criança que entregou aos cuidados de outra mulher para cuidar dele, mas a actividade da “Santo” mais o “secretário, naquelas noites frias era... e a segunda criança nasceu.

 

Aí o rei, que tinha medo das argumentações dela, não teve outra alternativa senão condená-la à morte: “Por ter enganado o povo com heresias e mentiras, sob o falso nome de Santo António, o Rei e o seu Real Conselho condenam você a morrer pelo fogo, e olhando Barro, o “secretário”, junto com o seu amante.”

 

Depois mandou que toda a população trouxesse lenha, muita lenha que juntaram numa pira enorme.

 

No dia 2 de Julho de 1706, Dona Beatriz Kimpa Vita subiu a montanha de lenha, serenamente, com o “secretário” e mais o filho ao colo, que queria que morresse com ela. Os missionários tiveram dificuldade em convencê-la a deixar o filho e ainda que, antes de morrer, se arrependesse de todas as mentiras que tinha pregado, e do modo como tinha enganado o povo: “A minha morte será a penitência para os meus pecados”.

 

O movimento conhecido como Antoniano, levou anos a desaparecer.

 

(*) Aquarela original feita pelo Padre Bernardo da Gallo incluída na última página da sua carta para a Sagrada Congregação para a propagação da fé, sobre Dona Beatriz; datada de l7 dezembro, 1710. Está no Archivio De Propaganda Fide, "Scritture Originali riferite em Congregazioni generale”, Vol. 576, fol. 314. Tem o título, "Antoniano colla corona in testa".

 

Julho 2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM

 

 

ELE AVISOU

 

Hoje a minha irmã não fez parte do nosso convívio domingueiro, pois que está de férias no Algarve, depois de me deixar ficar os Públicos que repartimos fraternalmente - eu recebendo-os para me ilustrar, ela pagando-os e dando-mos fraternalmente para ler, após a sua própria ilustração, e deste modo cumprindo nós ambas as funções alienantes e aprazíveis que competem à imprensa, exemplares que encaminho seguidamente para a minha amiga, atida ao princípio de partilha que nos define a época, para mais sendo o Público um jornal com muita qualidade, a exigir difusão.

 

A minha amiga vinha armada dos seus saberes, e largou, quando me mostrei assustada com a situação de ameaça de guerra que paira estupidamente no mundo:

 

- O que se está a ver, a Guerra está aí. Putin avisou do seu poder. Aos jihadistas: “Vocês sabem todos qual é o nosso poder nuclear!” Ao mais pequeno atrevimento entra em campo. Ele avisou! Ouvi em S. João do Estoril. Ele avisou do seu poder.

 

Lançada que estava, nem me deixou mostrar os meus próprios receios que têm a ver sobretudo com a Ucrânia, onde Putin joga todo o seu cinismo ameaçador. Mas eu estava sobretudo excitada com uma notícia que ontem ouvi na TV Cinq, sobre um Metropolitano 2 de Moscovo, ao que parece construído no tempo de Estaline, mais profundo do que o Metropolitano público, estreado em 1935, o qual era secreto, só conhecido do poder e do KGB. Uma das novas que ouvi foi a de que os construtores foram mortos depois de findo o trabalho, para o Metro 2 reservado à espionagem e sequelas, não vir a ser divulgado. Mas a minha amiga era alheia à informação, e fiquei na dúvida do que ouvira, receando ter-me equivocado. A informação não se arreda, contudo, dos íntimos pensamentos que o receio da terceira guerra, de grandes possibilidades arrasadoras, confirma, a propósito das crueldades das guerras anteriores – mundiais – e da Revolução Russa e do que se viveu sob o poder de Estaline, incluindo os pânicos da Guerra Fria, do Muro de Berlim, do comunismo na Ásia, de Mao Tsé-Tung… Presentemente, dos olhos álgidos de Putin. Não devo ter-me enganado a respeito da notícia sobre o Metro 2 de Moscovo, de execução dos seus construtores. O resto… é silêncio, para que todos tendemos, em precipitação laboriosa.

 

Mas entre os Públicos da semana que a minha irmã me deixou antes de partir para férias, o Público de 24  de Agosto vem pleno de referências a esta expectativa, que cada vez  mais estamos augurando, de um conflito mundial por conta das disponibilidades cortantes dos olhos álgidos de Putin. São vários os articulistas, prova da preocupação geral, mas  o extenso artigo deTeresa de Sousa -«Europa: o mundo está a entrar-lhe pela casa dentro sem pedir licença»é uma lição que gostarei de guardar. Transcrevo-o da Internet, precedido da síntese e dos conceitos orientadores ali expostos. Uma lição para meditar:

 

 

Teresa de Sousa

 

«Europa: o mundo está a entrar-lhe pela casa dentro sem pedir licença»

 

A Europa joga o seu futuro na forma como agir na Ucrânia e no Médio Oriente. Deixou de poder ignorar o mundo. Mas ainda não sabe como pode lidar com ele. A Alemanha, pelo menos, já mudou.

 

Conceitos:

 

- Europa: o medo de existir

- A superpotência continua a ser indispensável

- Putin não invadirá a Ucrânia, fará pior

- Está em movimento a engrenagem da tensão

- O jogo das sanções contra a Rússia é lento e o prémio não é uma catástrofe económica

- Brasil aproveita oportunidade aberta pelas sanções russas

- Europa é afectada pela guerra comercial de forma desigual

- Merkel reafirma apoio à Ucrânia enquanto procura equilíbrio com a Rússia

 

Ângela Merkel não costuma brincar em serviço. Concorde-se ou não com ela, provou-o na forma como geriu a crise do euro. Também não quis deixar dúvidas sobre a viragem súbita da política alemã em relação a Vladimir Putin. É verdade que foi preciso um avião com 300 pessoas a bordo, na sua maioria europeus, para fazê-la acelerar a mudança. Também aprendemos que gosta de agir no último minuto e com o menor custo possível. Desta vez, corrigiu a rota tão rapidamente que a imprensa ocidental ainda levou alguns dias a mudar, ela própria, de registo.

 

Desde o início da crise, a chanceler tinha decidido coordenar a resposta ao desafio bélico de Vladimir Putin com o Presidente Obama e foi o que fez, mesmo que alguns passos atrás. Manteve um contacto permanente com o Presidente russo. “Ele vive noutro mundo” disse a Obama pouco antes da anexação da Crimeia. Sempre disse que a Rússia teria de pagar um preço. Finalmente, a 29 de Julho, a decisão de passar ao “nível três” das sanções, aquele que verdadeiramente dói à economia da Rússia, foi o primeiro sinal claro dessa mudança. 

 

A chanceler percebeu que era a segurança europeia que estava posta em causa e que a geoeconomia que inspirou a sua política externa (muitas vezes com a fúria dos seus principais parceiros europeus) e que determinou a relação da Alemanha com a Rússia, deu lugar à geopolítica.

 

A Alemanha é o terceiro maior parceiro comercial da Rússia (a seguir à China e à Holanda) e um dos maiores investidores. Berlim sempre entendeu que as relações com Moscovo eram para tratar ao nível bilateral e não ao nível europeu. Merkel limitou-se a corrigir os excessos do anterior chanceler social-democrata Gerhard Schroeder, o grande amigo de Putin. Percebeu que não podia relacionar-se com Moscovo ignorando pura e simplesmente a Polónia e deu-lhe um lugar a bordo. O chefe da diplomacia polaca, Radeck Sikorski agradeceu a diferença. Elogiou a chanceler com uma frase estranha na boca de um polaco: “Tenho mais receio da falta de liderança alemã do que da sua liderança”. A Polónia e a maioria dos países de Leste que são hoje membros da União e da NATO sempre avisaram que Putin não era de fiar. Foram muitas vezes ignorados. Os líderes dos restantes países europeus encontraram no “unilateralismo” alemão na sua relação com a Rússia a desculpa ideal para prosseguirem com os seus negócios.

 

A crise na Ucrânia, que a Europa não conseguiu antecipar, pôs em causa este estado de coisas. O papel da Alemanha seria sempre crucial.

 

 “Não estás a entender, George”

 

 

“Tu não estás a entender, George, a Ucrânia nem sequer é um Estado, parte do seu território pertence à Europa de Leste mas a parte maior foi uma oferta que lhe fizemos”. A frase é de Vladimir Putin. Foi dita no dia 24 de Abril de 2008, depois da última cimeira da NATO em que George W. Bush participou, em Bucareste. Estava de partida, queria fazer as pazes com os aliados europeus, aceitou a pressão alemã para deixar cair a promessa de alargamento da Aliança à Geórgia e à Ucrânia. Três meses depois, a Rússia invadia a Geórgia a pretexto das minorias russas que viviam nos enclaves da Abekhazia e da Ossétia do Sul.

 

Nicolas Sarkozy partiu para Moscovo e para Tbilissi forçando um acordo que tinha duas versões diferentes, conforme a capital onde foi negociado. A Europa enterrou o problema e seguiu em frente. Alguns meses depois da ocupação, Varsóvia propôs a Berlim uma nova parceria de vizinhança virada para Leste, incluindo os países de fronteira entre a Rússia e a Europa. Frank-Walter Steinmeier, então e hoje o chefe da diplomacia alemã dos governos de coligação, rejeitou a proposta. O ministro estava a negociar na mesma altura uma “Parceria para a Modernização” com a Rússia. Sikorski uniu-se à Suécia onde o seu homólogo Carl Bildt percebia o que estava em causa. Hoje, a parceria já uma política europeia. Seguiram-se os acordos de associação que Bruxelas tratou de negociar, incluindo com a Ucrânia. Percebeu que qualquer coisa se passava quando, na véspera da cimeira em que o acordo devia ser assinado (Novembro de 2013), Kiev não compareceu. O que ninguém previu foi que os jovens que queriam ligar o destino do seu país à Europa, fossem para a rua defender a sua causa. Em seis meses, tudo mudou.

 

Ângela Merkel resolveu garantir essa mudança com actos que nunca imaginaríamos como possíveis. Na semana passada foi a Riga dizer aos letões: “Quero insistir em que o Artigo 5.º da NATO – o dever de garantir apoio mútuo – não é uma coisa que apenas exista no papel, tem de ter uma tradução concreta”. Anunciou que jactos alemães vão participar numa missão da NATO de policiamento aéreo das fronteiras e que a Aliança está a acelerar a constituição de uma força de reacção rápida, “se a Rússia tentar desestabilizar a vizinhança dos Bálticos como fez na Ucrânia”. A Letónia e a Estónia, membros da União e da NATO, têm vastas minorias russas. Qualquer sinal de fraqueza em Kiev iria colocá-los na linha de mira de Putin.

 

No sábado, a chanceler foi a Kiev mostrar de que lado está, mesmo que também para encontrar com o Presidente ucraniano uma solução política que salva a face ao Presidente russo. Escreve Quentin Peel, o correspondente do Financial Times em Berlim: “Putin esperava que a Alemanha resistisse a qualquer medida que afectasse as suas exportações”. Enganou-se. “Cometeu um enorme erro de cálculo sobre a chanceler”. A crise na Ucrânia apenas acelerou uma revisão da política externa que já vinha de trás. Ulrick Speck escreve no site do Carnegie Europe: “Putin está a aprender que não colhe grande simpatia no seu estrangeiro próximo e, ao contrário do que ele pensava, quando confrontada com um desafio vital, a UE pode ser um opositor muito duro”. Os europeus perceberam, depois da anexação da Crimeia, que Putin “tornou claro que rejeita totalmente a ordem pós-Guerra Fria na Europa”, diz Stefan Meister do European Council on Foreign Relations.

 

A NATO não escondeu os perigos que a situação envolve, reafirmando por palavras e alguns actos que o artigo 5.º é para cumprir. A 17 de Agosto, uma opinião assinada pelo secretário-geral da NATO Anders Fogh  Rasmussen e pelo comandante supremo aliado, Philip Breedlove, notava  que, “pela primeira vez desde o fim da II Guerra um país europeu anexou parte de outro pela força”. “A nossa missão é garantir que a NATO quer defender todos os aliados contra qualquer ameaça”. Americanos, franceses, ingleses deslocaram para os Bálticos e para a Polónia aviões e soldados. Cada vez mais, mesmo que a contragosto, a Europa começa a perceber que o seu mundo “pós-moderno” e a sua visão normativa das relações internacionais, à imagem e semelhança da sua própria integração, já saiu de moda e que a espera lá fora um mundo cada vez mais vestefaliano, onde imperam as relações de poder. Não ligou grande coisa ao mundo mas o mundo, como se esperava, entrou-lhe pela casa dentro, sem se fazer convidado.

 

Estamos, porventura, perante um ponto de viragem que é o fim de um longo caminho que os europeus prosseguiram nos últimos 25 anos para tentarem adaptar-se ao mundo pós-Guerra Fria. Com o Tratado de Maastrich, em Dezembro de 1991, ficou garantido o compromisso da Alemanha unificada com a integração europeia (através do euro). Em 1992, durante a primeira presidência portuguesa, a Europa considerou que podia gerir os riscos de desagregação violenta da Jugoslávia, sem ter de recorrer aos EUA. A ilusão durou três anos e duas centenas de milhares de mortos. Sucederam-se os enviados especiais e os capacetes azuis.

 

Os fantasmas do passado regressaram quando Bona reconheceu a independência da Croácia sem sequer informar os seus parceiros, enquanto Mitterrand se mantinha fiel à Sérvia. Em 1995, apenas restou à Europa ir à Casa Branca com uma corda ao pescoço pedir ajuda a Bill Clinton para forçar uma negociação e garantir uma força militar suficientemente grande para fazer cumprir os seus resultados. No Kosovo a história repetiu-se. Tony Blair apresentou a sua doutrina da intervenção humanitária. A ONU integrou-a sob a forma do novo princípio da “responsabilidade de proteger”. Cansados da humilhação que sofreram nos Balcãs, com a sua incapacidade política e militar, Tony Blair e Jaques Chirac reuniram-se em St. Malo em 1999 para lançar as bases de uma defesa europeia. Depois veio o 11 de Setembro, o Afeganistão e o Iraque, que quebrou a meio a NATO e a União Europeia. Foi preciso a chegada de Nicolas Sarkozy ao Eliseu para que a França abandonasse a ideia de uma defesa europeia fora da NATO, que Londres recusava aceitar. O anterior Presidente integrou a França de novo na estrutura militar da Aliança (De Gaulle retirara-a de lá em 1966) e aproximou-se dos Estados Unidos, abrindo as portas a um novo entendimento com Londres. François Hollande não pôs essa reorientação em causa. Faltava a Alemanha definir o seu lugar.

 

A decepção do Tratado de Lisboa

 

Há precisamente cinco anos a União dedicava-se pela primeira vez à escolha dos novos cargos que o Tratado de Lisboa criava para garantir um perfil mais forte da Europa na cena internacional: o presidente do Conselho Europeu e o Alto representante para a política externa e de segurança. Os líderes europeus, a começar pela chanceler, ainda olhavam de cima para a crise financeira como um problema americano. Os sinais de bancarrota eminente na Grécia já eram visíveis mas Merkel acreditava piamente na célebre cláusula do “no bail-out”. 

 

O Tratado de Lisboa dava muito maior importância à política externa e de segurança europeia. Criava uma nova estrutura diplomática (o Serviço Europeu de Acção Externa) chefiada por um Alto representante que presidiria também ao Conselho dos Negócios Estrangeiros e ocuparia uma das vice-presidências da Comissão. Não foi preciso muito tempo para perceber que os grandes países não tencionavam abdicar um milímetro do controlo da política externa e, ainda mais, das decisões militares. A nova chefe da Diplomacia europeia era uma ilustre desconhecida britânica sem qualquer experiência diplomática. Catherine Ashton compreendeu que pouco mais se esperava dela a não ser montar o Serviço Europeu de Acção Externa e produzir declarações suficientemente vazias para não incomodar ninguém. Só na parte final do seu mandato conseguiu apresentar trabalho. A discreta negociação entre o Kosovo e a Sérvia, que levou a bom fim, provou até que ponto a perspectiva de aderir à União ainda é suficientemente forte para enterrar os ódios nacionalistas do passado. Hillary Clinton estabeleceu uma boa relação com ela. Mas ninguém pode dizer que a Europa tenha hoje uma política externa e de segurança mais forte e mais coerente. Tem as estruturas institucionais e militares. Não tem a vontade política.

 

Nem tudo correu mal desde Maastricht. A Europa conseguiu levar a cabo a sua missão estratégica mais importante a seguir ao euro: unificar o continente europeu através da democracia e dos mercados. Na primeira década do novo século ainda se escreveram longos ensaios sobre a eficácia do seu poder de atracção, que se estendia para além das fronteiras europeias e que se revelava uma arma muito mais poderosa de “regime change” do que as guerras de Bush. As potências emergentes ainda não tinham emergido e o modelo europeu chegou a ser tentado em várias latitudes. A crise do euro gastou-lhe energias e uma boa parte do seu soft-power. Ninguém compreendeu, em Brasília, em Nova Deli ou Pequim, como é que o bloco económico maior e mais rico do mundo não conseguia vencer uma crise que começou por atingir um país que representava 2% da sua riqueza, ao ponto de ir mendigar apoio ao FMI e ao G20. Não ignorou apenas o seu flanco Leste. Ignorou a Turquia, deixando Erdogan à vontade para a sua deriva em direcção ao autoritarismo.

 

Quem vão escolher os líderes europeus no próximo dia 30 de Agosto para substituir Lady Ashton? Já ninguém acredita em milagres. Mas Putin fez à Europa um grande favor de mostrar ao obrigá-la a encarar o mundo tal como ele é. A Síria e o Iraque mostraram-lhe até que ponto um Médio Oriente mergulhado em violência é, como disse Laurent Fabius, um problema de segurança europeia. As imagens da decapitação de um jornalista americano fizeram-na acordar para uma realidade demencial da qual não pode fugir. A França teve de ir quase sozinha ao Mali para impedir a tomada do poder por um grupo jiahdista radical. Merkel ainda não estava disponível para “pagar as

guerras dos outros”. Antes disso, quando o Conselho de Segurança decidiu sobre a operação na Líbia, resolveu abster-se ao lado da China, da Rússia e do Brasil. Desde aí tentou corrigir o tiro.

 

Até às imagens insuportáveis do jornalista americano degolado por alguém de forte acento britânico, europeus e americanos queriam ver o Iraque como um problema humanitário. Na sexta-feira, François Hollande disse o mesmo que o secretário da Defesa americano Chuck Hagel: “Creio que a situação internacional é a pior que vimos desde o 11 de Setembro”. Diz o editor europeu da BBC, Gavin Hewitt, que o Presidente francês foi ao cerne da questão: “Já não podemos manter o debate tradicional sobre intervenção ou não intervenção.” David Cameron não resistiu à tentação de recorrer ao tom churchiliano a que nenhum primeiro-ministro britânico resiste para proclamar o combate a esta nova era do terror. A imprensa diz que foi apenas o tom. O primeiro-ministro conservador tem sido um desastre em matéria de política externa, levando o seu país para uma marginalidade europeia e transatlântica, incluindo militar, onde nunca esteve. Desta vez, a própria Alemanha não precisou de tempo para se juntar à decisão francesa de envio de armamento para os curdos iraquianos. Paris quer uma conferência para uma estratégia internacional em Setembro.

 

Para além da importância crescente da relação transatlântica, o futuro da Europa num mundo que lhe é cada vez mais hostil vai depender da forma como resolver a crise ucraniana e enfrentar a nova ameaça da barbárie jihadista. Vivem na Europa mais de 20 milhões de muçulmanos. Não é uma coisa que possa ficar lá fora. O problema é que a segurança tem um custo que os europeus podem não estar dispostos a pagar, habituados que estão a não ter de escolher entre a manteiga e a espingarda, graças à garantia americana. Na próxima cimeira da NATO, no início de Setembro, os EUA vão insistir novamente em que a Europa não pode continuar a reduzir os seus orçamentos de defesa. No clima de austeridade criado pela crise, vai ser muito difícil aos governos explicarem isso aos seus eleitores. Mas alguma coisa vai ter de mudar na economia e na política externa, se a Europa não quer mergulhar na instabilidade e na irrelevância.

 

 Berta Brás

Pág. 6/6

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D