«Le Grand Meaulnes» é um livro de Alain Fournier, um escritor jovem, morto na guerra em 1914, que se celebrizou com esse único livro, retratando experiências pessoais num universo encantatório de juventude, em que Augustin, de 17 anos, “le grand Meaulnes” como será chamado pelos alunos da escola onde a mãe o vai inscrever – a dos pais de François, nela professores, e, aliás, locatários havia alguns anos, será protagonista. O narrador, François, de 15 anos, vai contando, com passividade e graça de percepção, a vida na sua aldeia e na sua família, de rapazinho tímido e refugiado em leituras, repentinamente desperto para o fascínio e a amizade por esse companheiro rebelde, espécie de fogo-fátuo nos seus desaparecimentos e aparecimentos bruscos de aventuras de deslumbramento, amor e feeria. Foi um livro que ganhei como estudante em Coimbra, só porque ajudei a passar uns diapositivos, com a necessária presteza, ilustrando uma conferência de um conferencista francês, conforme escrevi na primeira página: “Offert par le Révérend Père Merveille, le 15/2/55, le lendemain de sa Conférence sur “Provence, terre qui chante” au Théâtre de la Faculté. Éramos duas colegas, foram dois os livros oferecidos – “Le Grand Meaulnes”, de bonita encadernação e pinturas ilustrativas de um universo mágico, e um livro de história da França, igualmente ilustrado e apetecido. Lembro-me de que hesitei, também porque pensava que a minha colega tinha o mesmo direito a decidir primeiro, mas, instada a fazê-lo, escolhi “Le Grand Meaulnes”, o que valeu a aprovação não só do conferencista francês, como do nosso professor de Francês, M. Jean Girodon. A minha colega, de resto, mostrou a sua preferência pelo livro de história, estudiosa e ponderada que era, a querida Conceição Sarmento.
E aqui estou eu, quase sessenta anos depois, revisitando momentos de feeria pessoal, como são tantos da juventude, mau grado o pessimismo existencial de tantos poetas de que Camões seria expoente maior, e o seu soneto “Erros meus” um dos marcantes nesse universo de desespero e renúncia a “ser contente”.
Lembrei-me desse livro encantatório – “O Grande Meaulnes”, que me conduziu a uma mocidade de ilusões, apenas por uma semelhança com o título “A Grande Ilusão”, do artigo de Vasco Pulido Valente (Público, 29/8/14), sobre a fé de alguns analistas da política interesseira dos povos, que faz recusar eminências de guerras – de uma primeira guerra mundial, no caso de Norman Angell, que a negava, no seu livro assim chamado e que se enganou, pois que a guerra eclodiu em força. A de uma terceira guerra, impensável segundo o economista Miguel Beleza, pelos mesmos motivos que orientaram Norman Angell – e que aparentemente constituem erro. Uma nova guerra estará, assim, na mesa.
Mas a referência ao livro de Alain Fournier não implica analogia de temas, é claro. Apenas uma releitura de um romance poético, algo que ajude a vencer o medo de mais uma monstruosidade que pende sobre o mundo, como Pulido Valente esclarece com saber. Todos nós, de resto, como Miguel Beleza, (e Pulido Valente, sem dúvida), também gostamos de comer e dormir nas quatro estações do ano, e não somente no verão, pertença de Miguel Beleza, segundo informação do articulista. E alguns até também gostam de comunicar pensamentos à plebe bem como às outras classes sociais - caso elas estejam interessadas na dita leitura, já que os esforços intelectuais não vão com os novos tempos, dispersos em muita diversão, pese embora o excesso de publicações livrescas actualmente em voga.
Mas é tempo de nos assustarmos com o artigo de Vasco Pulido Valente, passando um traço vermelho sobre o que foi dito antes. Já não temos direito a sonhar.
A Grande Ilusão
Vasco Pulido Valente
Em fins de Agosto, o dr. Miguel Beleza deu uma entrevista ao jornal i em que dizia o seguinte: “Os russos não podem entrar na Ucrânia como se fosse uma política de terra queimada (…). As relações comerciais entre a Europa e a Rússia são de tal maneira estreitas que é altamente improvável qualquer intervenção militar. Quando as relações económicas são muito estreitas, não há interesse maior em haver guerra. Ninguém quer fazer guerra a quem nos dá o ganha-pão.”
O dr. Miguel Beleza goza de uma enorme reputação como economista e foi, entre outras coisas, ministro das Finanças do dr. Cavaco e governador do Banco de Portugal. No Verão gosta de comer e dormir. De quando em quando não se importa também de comunicar à plebe os seus pensamentos sobre o mundo.
Para azar dele, em 1911, saiu um livro que se tornou universalmente conhecido:A Grande Ilusão,de Norman Angell. O Czar leu o livro, o Kaiser leu o livro, toda a gente leu o livro, que trazia uma inesperada consolação a uma Europa tensa e pouco segura. Que “grande ilusão” era essa? Era a ilusão de que as potências da Europa, incluindo a Rússia, estavam na iminência de uma guerra geral. Contemplando com desprezo esse erro universal, Angell explicava que a interdependência económica e financeira das potências não lhes permitia qualquer acto de hostilidade grave sem se arruinarem, porque sem excepção precisavam (mesmo as mais fortes) de um “ambiente” previsível e pacífico para alargar os seus mercados e principalmente conseguir investimento estrangeiro.
Angell, o contrário de Beleza, não tinha o menor prestígio académico ou político. Fora cowboy, criador de porcos, pesquisador de ouro e jornalista. Não passava, em resumo, de um autodidacta, que seria injurioso comparar com a persona sabedora e grave de Miguel Beleza. De qualquer maneira, bastaram uns meses para se verificar o engano monstruoso de Angell. Um erro que vinha de confundir economia e finanças com necessidade política. As potências arrasaram a Europa e, de caminho, a elas próprias sem a mais vaga hesitação. É curioso que no momento em que a “Europa” se desfaz e demonstra a sua fraqueza no Médio Oriente e na Ucrânia, e em que vários regimes seculares (o Reino Unido, a França, a Espanha e até Portugal) tremelicam à beira da falência, se volte a falar, embora discretamente, da “grande ilusão”. E logo pela boca de um economista.
Conheço esta estátua da “Menina Nua”, no Porto. Quando perguntava quem era diziam-me simplesmente que era a estátua da “Menina Nua” mas ninguém sabia quem era ou outros pormenores.
Curiosamente, todo o “tripeiro” respeitava a estátua e todo o estrangeiro a fotografava.
Só agora sei todo o seu historial… Mais vale tarde que nunca.
Agostinho Barbosa Pereira
Chamava-se Aurélia Magalhães Monteiro e era conhecida por Lela, Lelinha ou pela “Ceguinha do 9” – para a eternidade ficará sempre a ser a “Menina Nua” da Av. dos Aliados, estátua que toda a cidade conhece e aprecia.
Nasceu no dia 4 de Dezembro de 1910, na freguesia do Bonfim e, pouco tempo antes de falecer, dizia-me que “tinha sido uma das mulheres mais apreciadas e cobiçadas do seu tempo...”.
Vivia no rés-do-chão do Bloco 9 do Bairro da Pasteleira, numa casa simples e humilde com flores a enfeitarem a entrada e a sala de jantar.
Um dia convidou-me a entrar e contou-me um pouco da história da “Menina Nua”:
- Tinha 21 anos quando fiz de modelo para o Henrique Moreira, o mestre que fez a estátua. Mais tarde colocaram-me na Avenida dos Aliados – que belos anos aqueles! Estive duas semanas a “posar” e ainda hoje recordo com alegria e saudade aqueles momentos de trabalho, pois posso morrer amanhã que todos ficarão a saber quem era a Lela... Além disso, nessa altura, dava-me bem com os artistas, era bonita e eles convidavam-me. Andava por toda a parte, ganhei uns “cobres” com o Henrique Moreira, mas hoje... Resta-me a consolação de estar ali, de costas voltadas para o Almeida Garrett e de frente para o D. Pedro IV.
Perguntei-lhe nessa altura se não tinha havido problemas com a nudez da estátua – por exemplo, proibições, censuras. Ela respondeu-me:
- Bem, sabe que naquela época havia certos sectores que se opunham claramente e até ficaram escandalizados com a “Menina Nua”. Nós éramos muito tacanhos e veja bem que há 50 anos as ideias eram realmente diferentes. Havia o Salazar, a PIDE e o povo era mais fechado, mais religioso. Felizmente o mestre Henrique Moreira conseguiu “levar a água ao seu moinho” e lá fiquei, de pedra e nua, assim como Deus me botou ao Mundo...
Sorriu de imediato, mostrando ainda réstias de um rosto bonito e de uma boca fina, onde já rareavam os dentes, vítima do peso dos anos e das canseiras e desgraças da vida. Além disso, imagine uma “moçoila”, no tempo da “outra senhora”, a expor-se toda nua perante uns homens de tela e pincéis ou bocados de pedra. Bem... era quase como ser comunista ou mulher da vida.
Fez-se uma pausa para mandarmos umas “bocas” contra o sistema do antigamente.
Prossegui, perguntando-lhe quando e onde tinha começado a ser modelo. Antes de me responder, fica um pouco pensativa, levanta-se e encaminha-se para o seu quarto, vasculha dentro do guarda-vestidos e traz-me um amontoado de papéis e fotografias.
- Vá, veja lá tudo isto – diz-me. (Anotei visualmente uma série de fotografias, pequenas referências, recordações e memórias da “Menina Nua”). - De qualquer modo, e se a memória não me falha, comecei com o mestre Teixeira Lopes, na figura-modelo da rainha D. Amélia. Esta estátua encontra-se actualmente no museu com o mesmo nome, em Vila Nova de Gaia. Nessa época tinha muita vergonha. Era uma “moçoila” com 18 anos, bem feita e bonita. A minha mãe tinha falecido e fiquei mais tarde com uma madrasta, de quem por acaso não gostava nada; por isso mudei-me para o Bonfim, para casa da minha santa avó. Que tempos... Nessa altura, iniciei-me como modelo nas Belas Artes do Porto e lentamente fui-me habituando, até que fiquei mais descarada...
Levantou a cabeça e, numa reflexão interior, com risos de vaidade e inconformismo, continuou:
- Ah, nesse tempo, punha a cabeça dos rapazes em fogo, era bonita e não havia ninguém que não me conhecesse como a “Menina Nua”. Depois passei alguns anos como modelo, andei pelo Norte, pelo Sul e até a Lourenço Marques (hoje Maputo) eu fui. Fiz de modelo para vários mestres, entre eles: Acácio Lino, Joaquim Lopes, Dórdio Gomes, Sousa Caldas, Augusto Gomes, Camarinha e os consagrados Henrique Moreira e Teixeira Lopes. Além da “Menina Nua”, estou no Buçaco, no Cinema Rivoli, em Lisboa e em Moçambique... E hoje? Como vê, aqui estou, desde os 43 anos cega, uma vida difícil de adaptação, um mundo escuro, negro. E mais negro se tornou aquando da morte do meu marido. Fiquei completamente só. Hoje, passados alguns anos, tenho um casal a viver comigo, sempre me ajudam a pagar a renda e a fazer-me um pouco de companhia. Tenho umas ajudas do Centro de Dia da Terceira Idade, ligado ao Centro Social cá do bairro, onde vou almoçar e lanchar. Enfim, sempre ajuda a passar o tempo e a velhice. Mas o que eu mais desejava na vida, além de mais dinheiro para viver, era dos meus ricos olhos...
Algumas lágrimas correram-lhe pelas faces, enquanto se preparava para ir almoçar ao Centro.
Despedi-me dela, tentando consolá-la com frases de carinho e amizade, mas a vida é um cão que não conhece o dono… Ela despediu-se (nessa altura), com um bom dia, entrecortado com um sorriso morgaiato, misto de Ribeira, Bonfim e Pasteleira...
Aurélia Magalhães Monteiro, a Lela, a Lelinha ou a “Ceguinha do 9”, faleceu no dia 2 de Junho de 1992, com 82 anos de idade.
No entanto, a “Menina Nua” continua viva, fixa e eterna, ali na Avenida dos Aliados, envolta nos nevoeiros citadinos, perpétua e ardente, nos dramas e vitórias deste povo.
Do livro "Pasteleira City", de Raul Simões Pinto – Edições Pé de Cabra – Fevereiro de 1994 (com ligeiras adaptações)
Sempre se contou a história que, a região hoje chamada Europa, Próximo Oriente e Magreb, era o “Centro do Mundo” que rodeava um mar “particular”, que estava no meio desse mundo fechado, o Medi-Terrâneo.
Foi preciso Marco Polo nos dizer que havia um país de maravilhas, lá, nos confins, mas só muito mais tarde se acordou para o Oriente.
Os indo europeus, que até hoje não se sabe muito bem de onde vieram – excepto o princípio que tudo começou em África – terão sido os primeiros a ocupar a Europa nos modernos tempos de há uns 9.000 anos a.C. Alguns milénios mais tarde começaram a separar-se, línguas diferentes, e cerca de 2.500 a.C. chegaram os arianos vindos da região onde hoje fica o Cazaquistão, – arianos que em sânscrito significa nobres – e encontraram já inúmeros grupos etno-linguísticos espalhados no velho continente (uralianos, eslavos-germânicos, lapónios, celto-ligúrios, itálicos, trácios, gregos, hititas e outros) além dos afro-asiáticos (semitas, berberes, egípcios, cushitas, sumérios, e mais alguns).
É à volta destes povos que se desenvolve a civilização... do ocidente.
No continente indiano, a sua própria civilização corria “isolada”, bem como em todo o continente asiático.
Hititas para lá, arianos para cá e lá, gregos que se espalham, como os trácios e os celtas, para chegarmos ao século XX d.C. quando o mundo começa a perceber que o centro não está em lugar algum, somente dentro de cada um!
Velho continente, a Europa agoniza.
Hitler não tinha suficiente inteligência para perceber que conquistar a Europa não precisava de guerra. A Alemanha de hoje ainda pensa que só com a sua economia e liderança o poderá fazer. É tarde.
Onde os sindicatos assumiram o controle da política e do estado, o futuro adivinha-se com facilidade: basta ver a Argentina, o Brasil (que tem futuro, sim, mas... quando?) a França, com um presidente mais perdido do que cego no meio de um tiroteio e um primeiro ministro catalão, convencido que é o Einstein/Napoleão do pedaço, continuam a levar o país para o fundo do poço. A Grande Bretanha, conseguiu no tempo da Thatcher mostrar quem manda, mas ainda se imagina com a maior e mais gloriosa marinha do mundo mas isolada numa ilha de soberba e arrogância. Estes dois últimos são a maior incubadora do Islão na Europa, fingem que não vêem, mas no fundo estão aterrados com as consequências a breve espaço. A Rússia não tem mais que petróleo, gás e ladrões. Todos os outros baixam a cabeça e estão a ser conduzidos como suave e dócil manada.
Entretanto os loucos e covardes jihadistas crescem, aterrorizam e conquistam. Como fez Hitler no seu começo: terror e conquista. Agora os extremistas sunitas do ISIS, liderados por Abu Bakr al-Baghdadi, divulgaram nas redes sociais, os seus planos de conquista a cinco anos. E em 2020, os jihadistas querem não só dominar os países muçulmanos, mas também um extenso território que vai desde a fronteira sul do Quénia, até Portugal e Espanha, passando pela Áustria e Balcãs, sem esquecer o seu tão querido Israel (!!!).
REI ABDULLAH: Em um mês, Europa será o próximo alvo
RIAD - Sem mencionar directamente o Estado Islâmico, o rei Abdullah, da Arábia Saudita, fez uma advertência:
Grupos extremistas sunitas vão atacar os Estados Unidos e a Europa em breve, caso a comunidade internacional não haja com "força e rapidez".
—O terrorismo não conhece fronteiras, e o perigo pode afectar vários países fora do Oriente Médio. Não é segredo para vocês o que fizeram e o que ainda vão fazer. Se agirmos diante deles com negligência, tenho certeza de que chegarão à Europa em um mês e, no mês seguinte aos EUA— disse ele à imprensa saudita.
A Arábia Saudita é um dos principais países sunitas do mundo e tem feito condenações públicas ao extremismo religioso dos jihadistas do Estado Islâmico.
— Vemos como promovem decapitações e obrigam as crianças a exibir cabeças cortadas pelas ruas— afirmou Abdullah.
O grupo conquistou territórios na Síria e no Iraque e declarou a criação de um califado islâmico nas áreas dominadas. O rei Abdullah, um aliado dos EUA, considera inadmissível que não ocorram acções efectivas contra o grupo.
Abdullah convocou os países a se unirem ao centro antiterrorista da ONU criado em 2011, ao qual Riad concedeu US$ 100 milhões.
Este alerta vindo dos sauditas, talvez o principal financiador da Irmandade Muçulmana que está divulgando, através das madrassas de todo o mundo o culto da sharia e do abate – sim, pura e simplesmente ABATE – dos não muçulmanos, é para ser tomado a sério.
O Grande Mufti, da Arábia, Sheikh Abdul Aziz Bin Abdullah bin Baz, uma das maiores autoridades do Islão, veladamente ameaça o trono do rei, porque para ele a autoridade máxima é o Corão... daí... ele! Como é evidente o trono do rei Abdullah, como o da Jordânia e da Síria, estão tão ameaçados quanto os cristãos da Síria, Iraque etc.
No Iraque, os ISIS, sunita, que não parece tardarem a tomar conta do destroçado país deixado pelos EUA depois sua da “maravilhosa” intervenção, devem estar também a pensar que desta vez vão acabar também com os xiitas! Há muito que aguardo a reacção do Irão, país xiita, com arsenal nuclear. Aguardar para ver.
F. Rahman, no seu livro Islam and Modernity (Chicago 1982), escreve:
A liderança do homem ocidental no mundo humano está chegando ao fim, não porque a civilização ocidental esteja em bancarrota material ou tenha perdido sua força económica ou militar, mas porque a ordem ocidental já cumpriu sua parte, e não possui mais aquele acervo de “valores” que lhe deu sua predominância. A revolução científica concluiu seu papel, como concluíram o “nacionalismo” e as comunidades territorialmente limitadas que surgiram na sua época. Chegou a vez do Islão.
Um olhar, mesmo muito superficial que seja, vê a Europa a degradar-se. O Euro a fingir que é o salvador, o povo a não acreditar mais nos seus próprios valores e muito menos nos seus políticos, a imigração a crescer de forma imparável, a teoria dos direitos humanos a fechar os olhos, jovens a abandonar os países para se juntarem à guerrilha terrorista, tudo isto forma um quadro que não engana nem o mais ingénuo.
Em 1964 Dayid Qutb, no seu livro Ma’alim Fi’l-tariq – (Sinalizações da Estrada), definia a sociedade islâmica: aquela que aceitava a autoridade de Deus, o Corão, como fonte de toda a inspiração humana, porque só ele podia dar origem a um sistema de moralidade.
Todas as outras eram sociedades jayiliyya (ignorância da verdade religiosa), quaisquer que fossem os seus princípios: comunistas, capitalistas, nacionalistas, baseados noutras religiões, falsas, ou dizendo-se muçulmanos mas não obedecendo à sharia.
Que moralidade se vê hoje no chamado mundo ocidental, ou para melhor o definir, no mundo cristão? Filmes em que a indecência, a pornografia, as drogas e a violência ocupam a quase totalidade do que aparece. As revistas, aos milhares, expostas por todo o lado com mulheres, e homens, nus ou quase, uma ganância financeira onde vale tudo, não podem servir de exemplo a ninguém. Só à autodestruição.
A Europa está a fazer o seu hara kiri.
Tudo por falta de carácter, ética, princípios morais.
O Islão está à porta.
Não parece que alguém seja capaz de a manter fechada! E o papa Urbano II morreu há quase mil anos!
Segundo dados do Instituto Federal de Estatística na Alemanha, o Estado gastou em média, por aluno da escola pública 5800€ em 2010.
A despesa escolar por aluno diferencia-se segundo o tipo de escola. Assim os custos por aluno nas escolas primárias totalizaram 5200 euros, nos liceus e escolas abrangentes 6600 Euros, nas escolas profissionais do sistema dual 2500 euros por aluno (neste sistema o aluno passa metade do tempo na escola e a outra metade no local profissional de aprendizagem, isto, é na empresa).
Na Alemanha há 5.600 escolas privadas. As escolas particulares, reconhecidas pelo Estado, recebem subvenções financeiras num montante de 84% (dos custos do ensino estatal); destes 78 % são suportados pelos estados federados, 4% pelos municípios e 2% pelo governo federal (referência de 2009).
As escolas privadas ficam mais baratas que as estatais; assim em 2011 o Estado poupou, através das escolas particulares, cerca de 1,2 bilhões de euros (cf. http://de.wikipedia.org/wiki/Privatschule) .
O ensino particular ou privado destaca-se, segundo estudos PISA, em maior qualidade e eficiência. Naturalmente que também há uma certa diferença entre muitos alunos frequentadores das escolas privadas e das públicas, o que relativizará um pouco os termos de comparação a nível de eficiência de notas.
Ensino privado na minha cidade
A cidade Kassel, onde de momento me encontro, tem 200.000 habitantes e destes 32.600 são alunos de escolas estatais e privadas. 2.600 frequentam o ensino privado. Nos últimos anos o ensino privado tende a aumentar. As escolas de maior referência são a Católica e a Waldorf. A escola católica teve de recusar aceitar mais alunos por falta de espaço. Este ano, a Escola Waldorf aumentou a sua capacidade de 780 para 800 alunos. As taxas escolares levantadas pelas escolas privadas orientam-se pelo porta-moedas das famílias. A contribuição base é 90€ mensais (Na Alemanha o ensino é da competência dos estados federais pelo que há diferenças entre eles). No Estado da Baixa Saxónia, a taxa escolar não pode ultrapassar os 300€ mensais. Naturalmente que há diferentes tipos de escolas privadas ou particulares com diferentes serviços.
A maior parte dos pais pagam mensalmente em Kassel, na Escola Waldorf, 200 euros por filho. Uma família com um vencimento ilíquido mensal de 4500€ paga, nesta escola, por 4 filhos, 764€ mensalmente (Cf. HNA, 5.9.2014). As 10 escolas privadas existentes em Kassel são financiadas pelo Estado e pela taxa escolar que cada escola privada levanta. Das 10 escolas 4 são Escolas de fomento especial; estas são financiadas integralmente pelo Estado não podendo elas levantar taxas próprias. Os pais vêem contemplado nas Finanças, no acerto dos impostos do final de ano, os gastos tidos com a educação.
A Procura do ensino privado ou particular aumenta
O aumento de procura das escolas privadas deve-se à crescente insatisfação dos pais em relação às escolas estatais, ao aumento de exigências das famílias em relação à escola, ao ensino bilingue nalgumas delas, ao fomento individual do aluno, etc.; a escola particular tem de se preocupar com a satisfação dos clientes (alunos e pais) de que estão também dependentes, as escolas colocam os professores, o que permite escolha mais acurada, menos horas de falhas, maior estabilidade e menos ingerência educativa do Estado no foro privado da pessoa (educação sexual), etc.
Oferta e procura regulam o mercado para satisfação de uns e de outros. Uma vez que o sector público financia justamente o ensino privado, este não se torna tanto apanágio dos ricos. Por isso não se torna acuta uma discussão polarizante entre o sector estatal e o privado. Ou uma discussão de trincheiras ideológicas como se observa nalguns países entre os defensores das razões do estado e os protagonistas das razões do cidadão particular. A missão dos Governos e dos partidos é servir bem as crianças e não as ideologias. Trata-se de uma política de complementaridade respeitadora da diversidade, de todos para todos. A Alemanha fez a experiência do fascismo alimentado no ensino da escola pública e por isso reconhece também os problemas que este pode gerar.
No Estado do Hesse 7% dos alunos frequentam escolas privadas. Segundo as estatísticas dos países da OCDE, 14% dos alunos dos países membros frequentavam em média, uma escola privada. Na Alemanha 8%, na Holanda 67% , na Irlanda 58% , na Espanha 35% e na Dinamarca 24% dos alunos.
Adão estava perambulando triste pelo jardim do Éden, muito sozinho, quando Deus perguntou: - O que há de errado com você?
Adão disse que não tinha com quem conversar e era muito solitário...
Deus disse-lhe que então iria lhe fazer uma companhia e que seria uma mulher. Disse mais: - Ela será muito bonita, recolherá alimento para você, irá cozinhar para você e quando você sujar suas vestimentas, ela lavará para você. Concordará sempre com cada decisão que você tomar e não o enganará. Será sempre a primeira a admitir que está errada quando vocês tiverem um desentendimento. Elogiará e o apoiará sempre. Carregará suas crianças e nunca pedirá que você se levante no meio da noite para cuidar delas. Nunca terá uma enxaqueca e sempre terá vontade e disposição para lhe dar amor e carinho sempre que você necessitar.
Adão então perguntou a Deus: - Quanto me custará essa mulher?
Deus respondeu: - Um braço e uma perna!
Adão, pensou por um momento e então, falou: - Senhor, o que posso conseguir por uma costela?
Naturalmente, o resto da história Você conhece... Olha o que dá ser mão de vaca!
Naqueles anos sessenta, quem quisesse ser bem recebido em S. Francisco (da Califórnia, é claro), devia levar flores no cabelo, para ser esplendidamente lá recebido, o próprio Marco Paulo também o frisou, na esteira da canção de Scott Mckenzie que estava então na berra. Bem nos fartámos de o cantar, na consciência gradual para uma aventura de beleza e libertação, que não mais pararia, teríamos ocasião de o viver. Ou seja, talvez tenha parado, em termos musicais, por alturas do “We are the world”, quando as afectividades se apuraram em torno das criancinhas, como mundo capital no mundo da travessura que finaliza, nestes tempos do terror, com as imagens dos jovens encobertos da travessura ocidental, (sem ilibar os da oriental, igualmente idóneos nisso), prestes a assassinar os repórteres que se limitavam a cumprir as suas obrigações de jornalistas viageiros no mundo da guerra. Mas na verdade estamos a enganar as crianças do mundo, que não são, de facto o mundo, como informa a canção, mas puros joguetes do mundo adulto bem apessoado, como tantas vezes verificamos.
Esta referência às canções com o nome de terras, como “Alentejo da minh’alma” de Luís Piçarra, “Figueira” de Maria de Lurdes Resende, “Coimbra menina e moça”, não sei se de Edmundo Bettencourt, e tantas mais, sem olvidar as terras estrangeiras como o «New York New York» da “voz”, isto é, de Sinatra… e mais os poemas como o de “Nambuangongo”, de Manuel Alegre – referindo heroísmos de homens com medo aos que apenas reconheciam em Hiroxima o caso extremo da monstruosidade – e sem esquecer referências literárias mais primitivas no nosso país, caso da cantiga de amor
Tu que ora vens de Monte Maior
Tu que ora vens de Monte Maior
Digas-me mandado de minha senhor
Digas-me mandado de minha senhor
que mostra muito simplesmente, sem pedantismo algum, um coitado de trovador (Gil Sanches) ansioso por notícias da “senhor” amada, para se sentir feliz…
Dizia eu que esta referência a poemas ou cantigas com indicações toponímicas, me surgiu a propósito da entrevista de Fátima Campos Ferreira a António José Seguro exactamente na terra natal de Seguro, Penamacor, de lindas vistas, terra de um homem bom, o que imediatamente me fez acudir o desejo de que tal facto implique a criatividade dos poetas e cantores da nossa terra, em entoações de louvores melódicos por ela merecidos, como terra de um futuro provável governante importante. E bondoso, querendo o bem de todos, como Mandela, seu ídolo.
De facto, de tudo o que por cá se diz e faz, nestas vilegiaturas turísticas dos candidatos do PS a 1ºs Ministros, em incómodas caminhadas obrigadas aos beijos do mulherio e a breves referências aos pontos de vista sem importância, de cada um, restou Penamacor como terra para musicar, no rasto das melodias citadas e tantas mais que há.
É também verdade que artigos como “A geringonça”, de Vasco Pulido Valente, com os retratos de Seguro e António Costa, sendo impecável de precisão e de rigor satírico sobre as nulas diferenças entre ambos em caso das políticas a seguir, de que eles não falam, são peças fulcrais de análise que superam qualquer melodia, mesmo que esta fosse em torno de uma terra de pedras sólidas, onde se formou o carácter de Seguro, que nelas colheu a solidez e a teimosia para a continuidade.
Ei-lo, o artigo de Pulido Valente (Público, 31/8):
A geringonça
António Costa e António José Seguro não vão ganhar nada, excepto um partido desorganizado e dividido. Nesta longa campanha de verão, nenhum deles se conseguiu explicar. Fora a repetição dos lugares comuns da seita e alguns disparates que foram buscar à extrema-esquerda, não disseram uma palavra capaz de esclarecer ou de entusiasmar o “eleitorado” dessas desgraçadas “primárias” para “primeiro-ministro”, sem regras claras, nem objectivos definidos. No meio da confusão, só se percebeu que António José Seguro se recusa a sair e que António Costa quer entrar. Os dois perderam o seu tempo a trocar insinuações de velha azeda e mal disposta, que não resiste a espicaçar os vizinhos. Os jornais, de quando em quando, falam em “diferenças” entre eles. Mas na realidade não há diferenças que se vejam.
António Costa, quando apareceu, tinha uma fama de homem sereno e reflectido, criada num programa de televisão, em que quase não abria a boca e deixava confortavelmente a berrata a Pacheco Pereira. Faziam um excelente par. Pacheco Pereira ficava com a indignação e o excesso e António Costa com a prudência de estadista. Infelizmente, na propaganda das primárias (nas suas voltinhas de candidato que em Portugal nunca variam) está sempre rodeado por um bando de jornalistas sem senso à procura de uma frase ou de uma notícia; e a oportunidade para se aliviar de altos pensamentos é nula, tanto mais que na cabeça dele convivem ideias vagas e mutuamente exclusivas: a da maioria absoluta e a do entendimento com a esquerda radical, por exemplo, ou a da “negociação” com a “Europa” contra Merkel e Hollande.
Entretanto, as “primárias” de Seguro em vez de o aliviarem, como ele julgava, só lhe trouxeram desgostos. Primeiro, a trafulhice das cotas pagas por defuntos e mais categorias de ausentes. Segundo, a radical ambiguidade do conceito eleitoral de “simpatizante”. E, terceiro, a licença ecuménica aos maníacos da política para meterem o bico onde não são chamados. Peregrinando pelos tristes cafés da província adormecida, bem longe dos “festivais” de música, gastronomia e artesanato, Seguro recita as fórmulas do costume, sem acrescentar uma única variação ao breviário. O país que o ouviu, já não o ouve. O eleitor médio de qualquer partido reforça a sua compreensível repugnância em votar nele, e sobretudo para “primeiro-ministro”. Mas começa também a fugir da geringonça a que se chama PS.
Em sociedades escolarizadas, as salas de aula constituem núcleos-chave de regulação da vida social quotidiana, infelizmente tomadas de assalto há décadas por diletantismos irresponsáveis.
O tempo transformou a indisciplina no mais grave obstáculo à qualidade do ensino. O fenómeno é alimentado por sete pecados mortais ou, noutra terminologia, sete falácias capitais.
Primeira falácia: "Os professores não têm autoridade". Apoiado no ensaio de Miguel Morgado, "Autoridade" (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010), sublinho que a forte tendência para a ineficácia disciplinar nas salas de aula não tem tanto a ver com a autoridade dos professores. Esta funda-se no conhecimento, atributo raramente central em episódios de indisciplina. No âmago desta está um outro núcleo-chave: o do poder dos professores. Esse poder resulta dos instrumentos de que a autoridade legítima deve dispor para se tornar directa, simples, imediata, pragmática, efectiva. O valor da palavra é o instrumento que confere, por excelência, conteúdo concreto ao poder hierárquico dos professores sobre os alunos sem o qual deixa de fazer sentido o dever moral, deontológico e cívico de regular atitudes e comportamentos. Quer dizer que a autoridade (que os professores possuem) e o poder (que não lhes é reconhecido) não são confundíveis. Para se enfrentar o fenómeno da indisciplina, o foco tem de se deslocar da questão inócua da autoridade para a questão substantiva do poder dos professores nas salas de aula.
Segunda falácia: "A indisciplina é inter subjectiva". É fortíssima a tentação de conceber a indisciplina como um fenómeno que se joga nas idiossincrasias de cada contexto, caso a caso entre um dado docente e os respectivos alunos. Contudo, as evidências há décadas que demonstram que o fenómeno é sistémico, não confundível com um agregado de ocorrências pontuais.
Terceira falácia: "A indisciplina nas escolas é própria das sociedades actuais". Gente douta e gente comum fingem acreditar que o sentido da vida colectiva é imposto por um destino inelutável. A verdade é que nenhuma sociedade é abúlica. As características dominantes dos sistemas que as regulam, entre eles o ensino, resultam de escolhas colectivas entre inúmeras possibilidades que uns poucos influentes fazem num dado sentido e não noutros, e os demais toleram. Tais escolhas têm implicações directas nas relações de poder dentro de uma sala de aula e foi por elas que, nas últimas décadas, foi pesando bem mais o prato da balança do lado dos alunos-crianças-adolescentes-jovens e bem menos o prato da balança do lado dos professores-adultos, transformação coincidente no tempo com o agravamento da indisciplina. Como também não existem perversões nas hierarquias institucionais caídas dos céus, sobretudo quando elas nem sempre foram relevantes num sistema que atravessa gerações, o que vimos assistindo nas salas de aula tem, por isso, propósitos e agentes responsáveis. É por essas razões que o essencial na minimização da indisciplina não se joga na intimidade da sala de aula, antes entre quem as tutela no quotidiano, os professores de facto, e quem de fora das escolas tutela o sistema de ensino nas decisivas dimensões política, legislativa, académica, administrativa e quem influencia a opinião pública. Nesta ampla configuração de poderes e vontades, aos professores de sala de aula sobra o papel de elo mais fraco na longa cadeia tutelar.
Quarta falácia: "Os professores têm poder excessivo". A relação dos professores com o poder obedece a lógicas inversas às da indisciplina. Quanto mais distantes da sala de aula, tanto maior o poder dos professores até ao topo da elite sindical. Contudo, a falácia não se desfaz se nos limitarmos ao universo dos professores. O que está em causa são disputas pelo controlo da capacidade de influência sobre crianças, adolescentes e jovens de hoje, adultos de amanhã. Tal capital social sempre foi extremamente valioso. Foi esse poder que os partidos políticos e respectivas derivas sindicais, os académicos cientistas da educação, os auto denominados representantes dos pais, os notáveis do regime, entre outros, uns por acção e outros por omissão, há décadas retiraram ou toleraram que se retirasse aos docentes do ensino básico e secundário a pretexto da invasão democratizante das salas de aula, movimento que redundou num estulto igualitarismo institucional gerador de indisciplina.
Quinta falácia: "A escola perdeu importância social". A massificação efectiva do acesso ao ensino e o alargamento do tempo médio de permanência no sistema (entra-se mais cedo e sai-se mais tarde) resultaram na perda da influência de outras instituições que permitem aos adultos tutelar os mais novos: famílias, igrejas, comunidades de residência, organizações cívicas, partidos políticos, serviço militar, entre outros. Tal reconfiguração foi transformando as salas de aula em espaços cada vez mais na mira das mais agressivas leis do mercado do poder. Qualquer um, indivíduo ou instituição, passou a julgar-se no direito de sobre elas opinar ou nelas intervir, pressão social que coloca constantemente em causa a autonomia das escolas, fragilizando a sua dignidade e identidade institucional. É sintomático que quanto mais o futuro das sociedades foi ficando umbilicalmente dependente do trabalho de todos os dias nas salas de aula, tanto mais se foi propalando a tese de que as escolas perdiam influência social e tudo se tem feito para tornar esse desejo em evidência, ainda que colida com a realidade factual. A tese perdura porque legitima a conversão do ensino num peão de disputas pelo poder.
Sexta falácia: "Crianças, adolescentes e jovens são responsáveis pela erosão do poder dos professores". Confunde-se a consequência com a causa. Quando as pressões dos adultos de fora para dentro das salas de aula mudarem de sentido, as atitudes e comportamentos dos estudantes também mudarão. Em democracias e sociedades civilizadas, o respeito pelos poderes legitimamente instituídos constitui um dever moral e cívico alimentado nas interacções quotidianas. Quanto mais predominante for essa atitude, tanto maiores as possibilidades de redistribuição efectiva do inescapável poder social de uns sobre outros quase sempre hiper concentrado nos "grandes". A valorização da atitude referida reforça as predisposições sociais para que se confira forte legitimidade aos "pequenos" poderes, fundada na autonomia e autoridade profissional dos seus agentes. O contrário é um vazio social de poder que desemboca invariavelmente em maus resultados. Nas nossas sociedades, professores de sala de aula e polícias de rua são fundamentais na regulação da vida quotidiana. As utopias revolucionárias em voga – variante das mais incisivas da anacrónica pedofilia na luta pelo poder político, cujo papel se foi tornando tanto mais saliente no ensino quanto mais perderam espaço noutros domínios da vida social – fomentam o oposto da democratização da presença e respeito por figuras de poder em contextos institucionais e sociais onde a função e prestígio dos "pequenos" poderes se revelam cruciais. Fragilidades a este nível tornam as sociedades bem menos competentes na garantia da dignidade, segurança, promoção social e sentido de responsabilidade cívica dos indivíduos, em particular dos mais vulneráveis.
Sétima falácia: "Os estatutos do aluno servem para combater a indisciplina". Para simular um pretenso combate continuado à indisciplina gerou-se uma interminável paz podre sustentada na credulidade na via escrita e burocrática enquanto estratégia de regulação de atitudes e comportamentos em sala de aula, no caso português convertida na relevância política, social e institucional atribuída aos estatutos do aluno. Os estatutos do aluno desceram à terra para ratificar em forma de lei escrita a negação do poder da palavra aos professores. Tais documentos legais nunca foram parte da solução, antes peça central na perpetuação da indisciplina. A minimização efectiva do fenómeno não necessita de se escudar em estatutos do aluno, regulamentos internos das escolas ou burocracias adjacentes. Necessita acima de tudo de se focar num pressuposto bem mais decisivo: renovar o contrato social profundamente desgastado entre as sociedades e as escolas. Sociedades que sobrevalorizam estatutos do aluno porque não confiam directamente nos seus professores na sala de aula têm o que merecem. Professores que não pugnam por exames nacionais e por um sistema de classificação de resultados escolares simples, estável e transversal do primeiro ciclo do básico ao ensino superior para que as suas lógicas e consequências sejam de fácil e transparente interpretação pelo senso comum, não percebem o quanto eles mesmos têm colocado em causa referentes fundadores da confiança que as sociedades depositam nos seus profissionais de ensino.
Em sociedades escolarizadas, as salas de aula constituem núcleos-chave de regulação da vida social quotidiana, infelizmente tomadas de assalto há décadas por diletantismos irresponsáveis.