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A bem da Nação

O “TUDO NA MANGA” DA ACTUALIDADE

 

Um ano antes da Revolução dos Cravos, vim a Portugal, não direi de férias, que a vida passa depressa, no aumento constante das despesas, mas por interferência de um cunhado amigo, ao proporcionar-me o prazer de vir mostrar os meus dois filhos mais novos aos meus pais, regressados dez anos antes às suas origens, acabado o ciclo de trabalho do meu pai nas terras onde eu fiquei, para prosseguir, confiante na obra e nos homens que ajudaram a distinguir, desde há séculos, uma nação pequena, nas côdeas que lhe alargaram o tamanho.

 

Ciente da tal “frenética corrida contra o tempo”, não me passava pela cabeça que tantos empreendimentos que se faziam por lá, para segurar a terra em termos de desenvolvimento - apesar do sentimento de carência de produtos e subida de preços que se fazia também sentir - fossem algum dia por água abaixo, o ritmo de obras e aumento populacional inspirando confiança às pessoas crédulas, que se limitavam a viver, cumprindo.

 

Mas as pessoas crédulas sabiam reagir, e prova disso é o meu artigo “Sauve qui peut” de “Pedras de Sal” (1974), em 2ª edição em “Cravos Roxos” (1981), que transcrevo, em resposta ao artigo XICUEMBO - XICUEMBO (2)

 

 

«SAUVE QUI PEUT»

 

A voz corrente na Metrópole é que ela, a Metrópole, não necessita do Ultramar para nada. Se alvitramos um tímido protesto, lembrando todo um próspero passado comercial traduzido pela antiga e sugestiva expressão estilística «árvore das patacas», respondem-nos que nem isso explica este apego da terra-mãe aos pedaços de terra espalhados pelo continente africano e que vai contra a maneira de pensar não só da maioria dos pedaços de terra estrangeiros e agressivos, como dos próprios pedaços metropolitanos ainda mais agressivos e estrangeiros. Ficamos muito vexados e sentimo-nos oprimidos por tão pouco contribuirmos para o nível civilizacional da terra-mãe, apesar da árvore estilística.

 

Regressamos ao nosso rincão, que é como quem diz, à nossa terra africana, amada e portuguesa pelo nosso profundo sentir, e dispomo-nos a trabalhar ainda com mais amor, para conservar a jóia preciosa, legada pelos antepassados metropolitanos e esquecidos.

 

Deitamos, entretanto, um olhar mais vivo e mais extenso sobre o que nos rodeia. Verificamos que não é tanto assim. Mesmo agora, ainda contribuímos capazmente para o nível económico-cultural da Metrópole: em muitas repartições ultramarinas, os chefes incontestados vieram de lá, em comissão de serviço cheia de facilidades. Os bons contratos são lá que se obtêm, protegem-se com especial ternura os que de lá se dispõem a vir cá dar o seu corpo aio manifesto em comissão de dois anos, oferecendo-se-lhes as comodidades compensadoras, como sejam os bons carros e as boas geleiras que porventura nunca possuíram antes do sacrifício.

 

E no fim da comissão regressam à base, enriquecidos económica e culturalmente e afirmando, em legítima defesa dos seus filhos, que não precisam disto para nada e os de cá bem podem amanhar-se sozinhos.

 

Notaram, nos seus passeios para além fronteiras, um certo atraso para aquém delas, em relação às vizinhas terras inglesas, muito mais cheias de recantos paisagísticos e económicos explorados, e criticam-nos por não alargarmos a nossa rede de estradas e os nossos recantos económicos e paisagísticos. Não reconhecem que as tais comissões, cheias de facilidades compensadoras, em bons cargos citadinos, não favorecem a construção das estradas.

 

“Salve-se quem puder”: É uma boa divisa actual, aplicável a tantos de nós, tal como o são as geleiras e os carros à ordem e as disponibilidades orçamentais nas comissões de serviço ultramarinas.

 

A verdade é que uns meses depois, em 25 de Abril de 1974, se deu a Revolução demonstrativa de que, de facto, «a “Metrópole” não precisava do “Ultramar” para nada». Precisava, sim, da Europa, em sujeição de avidez deslumbrada, prova do que sempre fomos afinal, amantes do poder, no egoísmo do “sauve qui peut” mesquinho e antidemocrático, em que os defensores da democracia mais gritantes o são só enquanto não atingem o estrelato da riqueza, logo mergulhando, alcançada esta, na indiferença e no mutismo, propiciadores  de outras manobras de realização que projectam as redes impunes dos secretismos, sob o “manto diáfano” da sombra propícia, apesar do tanto que se gritou, nos inícios, do “sem nada na manga” ou “tudo às claras”, ou “transparência”, lembro-me bem.

 

 Berta Brás

XICUEMBO – XICUEMBO (2)

 

 

Recusando-se a admitir qualquer evolução política, Salazar incumbiu as Forças Armadas de manterem Moçambique como terra portuguesa e quando Marcello Caetano falou da evolução na continuidade, logo os «ultras» do regime o torpedearam e os progressistas o tomaram por fraco. Pior ainda: acabava a guerra do Vietname e tornou-se logo evidente que o próximo alvo dos abutres seria o Império Português.

 

Foi frenética a corrida contra o tempo que se disputou em Moçambique naqueles dez últimos anos anteriores à independência, uma corrida pelo desenvolvimento como nunca antes se vira: Universidade em Lourenço Marques, Centro de Formação Profissional dos Transportes e Comunicações em Inhambane e Escola de Regentes Agrícolas em Vila Pery a que se somaram obras públicas como estradas, pontes, aeródromos, todas numa perspectiva longitudinal unindo o território moçambicano quando até então preponderava a perspectiva horizontal de serviço ao interland, o Império Britânico. E, claro, as grandes barragens como a de Cabora Bassa na perspectiva energética e diversas outras com fins agrícolas e de abastecimento de água às populações.

 

 

Crescimento formidável, sem dúvida, feito numa perspectiva claramente integradora de todos os moçambicanos sem olhar a cores nem a credos, hostil a qualquer espécie de apartheid mas, naturalmente, à imagem e semelhança do que nós, europeus, considerávamos ser o verdadeiro desenvolvimento. No rodopio daquele modelo de desenvolvimento, nada foi feito contra as culturas locais mas compreende-se que os mais conservadores possam ter achado que a administração portuguesa não atribuía a essas culturas mais do que um valor folclórico. Mas seria injusto ir contra esse desenvolvimento pois, calem-se os maledicentes, foram hordas de moçambicanos de todas as cores e credos que dele beneficiaram. Tratava-se de um modelo que pretendia beneficiar todos e que, há que reconhecê-lo, deixou raízes: Moçambique é hoje um país claramente integrado no mundo ocidental, nada tem a temer de qualquer desarmonia no concerto internacional dos Estados modernos. E isso deve-se ao modelo de desenvolvimento que Portugal ali implantou, sobretudo no século XX.

 

E não houve erros? Sim, houve e os magaíças são disso testemunhas não tanto pela acção dos nossos mas sobretudo pelo silêncio perante a acção de empresas sul africanas de «recrutamento» de mão de obra nativa. E porquê esse silêncio? Porque na nossa perspectiva, só iam trabalhar nas minas da África do Sul os moçambicanos que queriam mesmo ser mineiros e porque, sendo individualmente pagos em dinheiro, contavam para uma estatística ao abrigo da qual a África do Sul pagava a Portugal uma certa quantidade de ouro por cada magaíça dactiloscopicamente controlado na fronteira portuguesa pelo Serviço que anos mais tarde passou a ser o SEF mas que então se integrava na PIDE. Não foi por acaso que o Banco de Portugal amealhou tantas barras de ouro e isso fazia a ira de todos os que invejavam tal acordo. Portanto, a imoralidade do processo não estava no método de pagamento mas sim no método de «recrutamento» que as empresas sul africanas aplicavam em Moçambique. Houve quem visse coisas que mais vale calar, que promovesse a imediata libertação desses «voluntários» e desse voz de prisão aos algozes que os conduziam.

 

Dava para imaginar cenas como as que levaram o P. António Silva, SJ a escrever não há muito tempo que uma das causas do grande fracasso jesuíta em Moçambique nos séculos anteriores teve a ver com os «métodos de acção» resultantes do «mau exemplo dos europeus, a fraca ou má opinião que alguns missionários tinham dos africanos (incapacidade para as coisas da religião), aliada a uma progressiva mediocridade da actividade missionária, desviando os esforços mais para campos temporais que espirituais»[1].

 

E se estas misérias missionárias se passaram muito antes de a moderna administração portuguesa ter iniciado a dita corrida contra o tempo, ninguém hesitou em no-las atirar à cara como se tivéssemos sido nós os culpados. E quem encabeçou essas críticas? Um, de grande relevo: o Papa Paulo VI, que nunca quis admitir que a Deus se pudesse chamar Xicuembo e que as almas dos que já partiram e por quem se reza na Missa possam ser invocadas por esse nome de Deus.

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca



[1] - In «A Companhia de Jesus em Moçambique», P. Francisco Augusto da Cruz Correia, SJ, in BROTÉRIA, ed. Julho de 2014, pág. 57 e seg.

AINDA AS PEDRAS E AS ORQUÍDEAS

 

 

Disse há dias da comunicação social o que Maomé não disse do chouriço mas, sem me negar no diagnóstico, creio conveniente para a serenidade dos espíritos de quem me leu, transcrever um pequeno texto de Gilles Lipovetsky do seu livro «O CREPÚSCULO DO DEVER», ed. D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010, pág. 265 e seg.

 

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Em escassos quarenta anos, a comunicação social adquiriu, em particular através da hegemonia cultural da televisão, um papel e um poder excepcionais. Assim se impõem como poder autónomo capaz de modificar notoriamente tanto a vida política como a económica, cultural e a moral.

 

Esta omnipresença mediática, traduzida num poder de influência sem precedentes está na origem do regresso em força da preocupação ética: quando o poder aumenta, a interrogação sobre os limites justos do poder torna-se inevitável; quando os órgãos de comunicação se transformam em «quarto poder», a questão central já não é a dos direitos da informação, mas a dos deveres que resultam do papel crescente da «mediacracia».

 

Acontece com a ética da informação o mesmo que com a bioética ou a ética ecológica: a consideração das consequências deploráveis ou catastróficas para os homens e as instituições democráticas serve sempre de alavanca para a reactivação do princípio da responsabilidade.

 

Na sociedade pós-moralista, a ética não emerge socialmente como ideal incondicional, mas como resposta das sociedades liberais aos receios suscitados pela excrescência dos novos poderes, quer eles sejam tecnocientíficos ou mediáticos.

 

A vontade de uma ética da informação existe à imagem das sociedades pós-modernas viradas prioritariamente para as preocupações do presente e afastadas dos grandes desígnios colectivos e históricos.

 

A exigência social de uma informação responsável acompanha a falência de todas as «religiões seculares»; quanto menor é a fé futurista, mais se intensifica a importância da fidelidade aos acontecimentos do presente; quanto menos for a ideologia messiânica a dar uma visão de conjunto do mundo, maior será a preocupação de recolha, selecção e apresentação de factos pontuais; quanto menos se detém as chaves da história, mais se impõe o valor mínimo de honestidade na apresentação quotidiana da informação.

 

Quando os grandes confrontos sobre o sentido da história estão caducos, os debates em torno da responsabilidade da informação e da cidadania mediática tornam-se preponderantes.

 

O ressurgimento da intenção ética nos órgãos da comunicação constitui a resposta.

 

***

 

Como serão as orquídeas que vão brotar das pedras da actual «intifada»?

 

Se vier a ser como diz Lipovestky, então dá para acreditar que será possível das pedras nascerem orquídeas. Mas… ou somos nós a fazer por isso ou nem a Senhora dos Aflitos nos valerá.

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

NÓS ESTÁVAMOS LÁ

 

Se bem me lembro… O bispo de Nampula… Nós estávamos lá – eu, em Lourenço Marques - e falava-se nele, deu muito nas vistas… A falar de direitos dos povos humildes, aparentemente maltratados por senhores, que foram usurpadores… Não viu mais nada, só usurpação. Eu estava lá, e dava aulas nocturnas e diurnas, outros noutras suas vidas e trabalhos, como em toda a parte do mundo. Mas o bispo de Nampula deu muito nas vistas, nesses anos sessenta, vinha nos jornais. Tão insignificante como todos aqueles de que falou Camões, pela voz de Vasco da Gama, ao Rei de Melinde:

 

Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros dos antigos
Que contra vossas pátrias com profano
Coração vos fizestes inimigos:
Se lá no reino escuro de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns traidores houve algumas vezes
. (Lus. IV, 33):

 

Nem vale a pena tentar “esclarecer”, como dizia – não o fazendo – Agildo Ribeiro, no seu “posso esclarecê?” de malícia trapalhona. Quaisquer esclarecimentos seriam inúteis e desatendidos, como esclareceu o grande poeta democrata António Gedeão, na sua “IMPRESSÃO DIGITAL” de extrema compreensão – “Cada um é seus caminhos” – que, como todas as frases da libertação humana se aplicam em termos de univocidade, o que é extremamente falso, pelo menos nas escolas, onde é necessário impor doutrina, apesar do que se dizia de que todos os saberes se equivalem, os dos alunos também, valem tanto como os saberes dos mestres e das mestras, mesmo que esses seus saberes perturbassem o ritmo das aulas. Pecados velhos de que o bispo de Nampula já não se lembra, todo carinhoso mas apenas em termos de simpatia unívoca. Mas eu relembro, dada a inutilidade dos meus esclarecimentos, embora não tão trapalhões como os do Agildo Ribeiro, um texto do meu blog, que “A Voz de Moçambique” também publicou, de troca de comentários de dois moçambicanos, em 2009::

 

Do Blog Moçambique para todos assinado por Fernando Gil - (Moçambique para todos  retiro uma curiosa e já antiga – de 2009 - troca de comentários entre Januário Sitoe e Umbhalane a propósito da história de Samora Machel contada por algum português – um dos muitos - aproveitador da nova era e não se coibindo de denegrir a história do seu próprio país e do colonialismo português – opressor, está visto – como imagem de pobreza moral e espiritual que os próprios africanos denunciam, repondo a verdade sobre o tema e sobre a realidade de exploração e penúria que agora vive o povo moçambicano, sem uma lei justa que o defenda da exploração das elites governativas ou outras.

 

januário sitoe said...

 

Oh Umbhalane....

 

....Francamente não te entendi: explica lá isso melhor se faz favor.

 

Eu, cumpre-me lamentar o facto de saber mais da história portuguesa do que estes "tios" que pelos vistos escreveram estas barbaridades todas de uma penada só... que são heróis por terem fugido à guerra colonial, e que agora ficam bem na foto a denegrir o seu próprio passado...uns pobres portanto.

 

Não tenho memória de ver os americanos (povo) a bater na sua história pelos (muitos) erros de estratégia internacional(o Vietname, a Somália, agora o Iraque...); não vejo os Franceses a pensar entregar Guadalupe, a Antiqua ou a Polinésia; os ingleses a pensar entregar as Malvinas; os Americanos o Havai...e vão lá perguntar aos "indígenas se querem ser independentes!!!...da-se!!!!!

 

Oh Umbhalane!!

 

Vai às profundezas da Zambézia; do Niassa; de Cabo Delgado....ou um pouco por todo o pais... e fala com os anciãos do povo!!! é lá que se aprende a história e o passado!!! Com quem viveu a fartura servida com controlo.... e quem agora experimenta a miséria misturada com "histórias da tanga", contadas por comunistóides a quem a revolução portuguesa deu a possibilidade de viverem sem trabalhar, acomodados nos corredores da mixórdia politica que só a eles serve!!! Ah, que saudades os portugueses de bom senso devem ter do "Oliveirinha"...... Reply 22/06/2009 at 10:06

 

Umbhalane said...

 

Avião de Samora Machel

 

Mesmo em Moçambique, Samora Machel já está marginalizado da história, ostracizado...

 

É apenas uma efeméride, que em determinada data se evoca, a custo, como que a engolir um sapo...

 

Isto em Moçambique de há uns anos para cá,...e ainda com a Frelimo no poder...

 

Quando a verdadeira história puder ser universalmente conhecida, escrita e ensinada, vai-lhe acontecer o mesmo que a Estaline na

URSS, e Rússia de hoje...

Para esquecer, apenas. E não vale a pena estrebuchar, insultar... Inexorável. Reply 22/06/2009 at 08:39 »

 

Tudo isto a propósito do primeiro artigo de Salles da Fonseca no seu blog “A Bem da Nação”, «Xicuembo, Xicuembo», referindo esse pobre bispo de Nampula que tanto deu nas vistas, por pregar um evangelho de pacotilha.

 

 Berta Brás

XICUEMBO – XICUEMBO (1)

 

 

Fará por agora meio século que me desafiaram para naquela noite, depois do jantar, ir à igreja de S. Francisco, em Évora – onde eu então frequentava o curso de Economia – para assistir à palestra de um Padre que andava a dizer coisas novas à juventude, a falar sobre o futuro. E o meu amigo falou-me com tanto entusiasmo, que eu lá fui...

 

Logo no adro, comecei por constatar que a igreja de S. Francisco, afinal, era pequena para a quantidade de gente que nela queria entrar. Parecia que toda a cidade lá estava. E eu, na cidade, nada saberia daquilo se o meu amigo não me tivesse avisado. Sim, há universos que nos passam ao lado e nós nem damos por eles. Por vezes, andamos mesmo muito distraídos.

 

D. Manuel Vieira Pinto.png

O orador era o Padre Manuel Vieira Pinto que à época era o responsável em Portugal pelo «Movimento por um mundo melhor» e que logo de início arrebatou a audiência com uma fala vigorosa mas enxuta, objectiva na ideia de que «todos somos iguais perante o Pai». E esta – e, no fundo, bastando esta - deveria ser a base de construção de um mundo melhor; laicamente, advogando o primado da Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU de 1948. E assim, em duas penadas, juntou crentes e não crentes na mesma causa.

 

E dali partiu para sonhos que hoje já não recordo… Mas lembro-me de que vi a concretização desses sonhos quando soube que o tal Padre tinha sido nomeado Bispo de Nampula pelo Papa Paulo VI. Foi então que pensei que o mundo não estava assim tão perdido como nos diziam nos jornais e TV da época e que a sua salvação estava nas mãos de cada um de nós: se nos empenhássemos na melhoria do mundo, não seria necessário orgulharmo-nos da solidão[1]; mas também havia que merecer os mortos para que não tivéssemos que os chorar[2].

 

Fazendo logo ali por melhorar o mundo, ajudei a difundir a ideia da constituição de uma cooperativa que congregasse os criadores de porcos nas cercanias de Évora e muito mais não fiz sob pena de o meu curso poder sofrer algum percalço. Concluído o curso com a desejada lisura, regressei a Lisboa e preparei-me para ir para a tropa.   

 

Encurtando razões, eis-me mobilizado para Moçambique em rendição individual como Oficial Miliciano de Contabilidade e Pagadoria do Serviço de Administração Militar. Encurtando ainda mais razões, fui a Nampula (capital militar de Moçambique) receber colocação e lá fui eu destinado a Lourenço Marques (capital política e administrativa). Sempre encurtando razões, regressei passados dois ou três meses a Nampula onde fiquei durante mais 13 meses regressando depois a Lourenço Marques para acabar a comissão de serviço militar e regressar à Metrópole para passar à disponibilidade. Civil de novo, meti-me no avião de regresso a Lourenço Marques onde me aguardava trabalho e… «cherchez la femme».

 

Como se imagina, tive muitas oportunidades para conhecer moçambicanos pretos, brancos, mistos, indianos e chineses. A ordem por que os cito tem a ver com a expressão demográfica no conjunto de Moçambique à época.

 

E se os pretos se dividem por várias nações (a que muitos ainda hoje chamam tribos) com línguas tão diferentes que os levam a usar o português para se poderem entender, os brancos dividiam-se fundamentalmente em dois grupos: o dos estabelecidos - que em Lourenço Marques se reviam em associações como a dos «Velhos Colonos», dos «Antigos Estudantes de Coimbra», no «Grémio» e por aí fora noutras instituições equiparáveis um pouco por todo o território moçambicano; o grupo dos «comissários de serviço» que verdadeiramente consistia num não-grupo pois raramente havia qualquer base unificadora que lhes desse homogeneidade – os militares contando os dias que faltavam para que a comissão acabasse. Relativamente aos indianos, com importantes ligações ao culto muçulmano ismaelita (Aga Kahn), ligavam-se sobretudo ao comércio e, numa fase mais refinada, às finanças. Os chineses eram poucos e comigo serviu um Furriel Miliciano que, nascido em Moçambique e com a nacionalidade portuguesa, falava com dificuldade a nossa língua. Claramente, os chineses estavam noutra.

 

E foi de propósito que deixei os mistos para o fim pois foi um deles que me falou de Xicuembo. Já lá vamos…

 

Agosto de 2014

 

 

Henrique Salles da Fonseca



[1] - «Orgulhosamente sós» - expressão de Salazar

[2] - «Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem» - frase de Salazar

CABEÇAS, SENTENÇAS, CONTENDAS

 

 

Mais uns “Dias Contados” da nossa leitura dominical, do Fórum do DN, assinado por Alberto Gonçalves, no prazer da leitura de um discurso de ironia brincalhona e corajosa, de free-lancer que não se submete a ditames por encomenda, porque sabe bem ponderar escolher os seus. Um discurso de rebeldia, mas de pessimismo também, que aliás é o que se pode ter num hoje em dia progressivamente absurdo, nas notícias, nacionais e estrangeiras, reflexo de acções por conta dos povos e dos governos, num encaminhar de descalabro em paralelo com um viver de liberdade e bem-estar material sem peso nem medida.

 

Trata o primeiro artigo de Alberto Gonçalves - A tragédia menor - da inanidade dos discursos solucionadores da “tragédia” de mais uma imundície nacional – desta vez do BES – com a estranha proposta de solução de dois Bancos – o Bom e o Mau – (a que faltou, em meu parecer, a do Banco assim-assim). Acusado de favorecer o Governo de Passos Coelho, Alberto Gonçalves conclui que antes de irromper no fascinante universo partidário, tentaria a sorte como chofer de praça, carpinteiro de limpos ou pequeno traficante de analgésicos. A dignidade acima de tudo. Se pareço tolerar um Governo atroz é apenas porque as alternativas me parecem intoleráveis. Parece absurdo? Eis a política, sobre a qual toda a repulsa peca por escassa.

 

Segue-se “Boicotes”, sobre o anti-semitismo actual,  que se dá o caso de ter longa tradição histórica, por vezes condenada quando é grande o exagero  no extermínio daqueles, hoje defendido por Israel demonstrar a força do seu poder – o que não é tolerável: «O que distingue a indignação perante as crianças, reais ou encenadas, mortas em Gaza da indiferença face às crianças mortas em qualquer outro lugar é a autoria das mortes. A Israel está vedada a possibilidade de defesa, ainda que contra a maior selvajaria. É habitual acusar os judeus de "vitimização", mas o papel de vítimas é o único que os anti-semitas, perdão, anti--sionistas, historicamente permitem aos judeus: o direito de se deixarem assassinar em silêncio. Absurdamente, Israel discorda, resiste e, graças ao poderio bélico, subjuga o adversário. Tamanha perversão não se admite. Só se admite Israel resignado e de preferência extinto. Até lá, os "boicotes" continuam, embora possamos chamá-los pelo seu verdadeiro nome.

 

O terceiro artigo – “Autarca em digressão” – sobre António Costa, não requer comentário, o assunto acatando diferentes pontos de vista.

 

Quanto ao quarto artigo – A Alegoria da Caverna sobre o caso dos professores submetidos a  exame, negativo para estes, pelos erros de ortografia, há um lapso na metáfora escolhida, creio que por distracção apressada, a questão tendo mais a ver com a aquisição gradual do verdadeiro conhecimento, o do conhecimento filosófico, (as Ideias segundo Platão) que superam as do senso comum (as sombras da Caverna) que Camões traduz magistralmente nas redondilhas «Sobolos rios que vão»:

 

E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da Fermosura,
que só se deve de amar.

 

23

Que os olhos e a luz que ateia

o fogo que cá sujeita,
não do sol, mas da candeia,
é sombra daquela Ideia
que em Deus está mais perfeita.

 

E os que cá me cativaram
são poderosos afeitos
que os corações têm sujeitos;
sofistas que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

 

Eis os textos de «Dias Contados» de Alberto Gonçalves:

 

A TRAGÉDIA MENOR

10 Agosto 2014

 

A propósito da solução para o BES, António José Seguro teme que os contribuintes venham a assumir os erros dos privados, António Costa lamenta que os pequenos accionistas se afundem com o "banco mau", a menina Catarina do BE disse umas coisas naturalmente desvairadas e o PCP, que ainda há semanas pedia a nacionalização do banco, acusa o Governo de resgatar o banco com dinheiros públicos. Eu, que acho misteriosa qualquer operação financeira acima dos cem mil euros, tenho uma única certeza: com ou sem BES, o "novo" ou o "velho", o fisco continuará a aliviar-me com regularidade.

 

Se o caso BES serve de alguma coisa, é de lição. O arranjinho encontrado é uma desgraça? Talvez, mas talvez não pudesse ser melhor, ou talvez, a julgar pelas assarapantadas reacções da esquerda, pudesse ser bastante pior. E este falso paradoxo é, afinal, uma educação acerca do máximo que se deve esperar da acção governativa, que nunca é a arte de procurar a resposta ideal, e sim a de tentar fugir à resposta catastrófica. Décadas de recorrentes desilusões democráticas teriam sido evitadas se os cidadãos - e os políticos - observassem esse simples preceito.

 

Esqueçam o pormenor (desculpem o eufemismo) do BES e pensem no "quadro geral": o Governo é lamentável? Das indecisões às péssimas decisões, da retórica reformista à incapacidade de reformar, da fama "neoliberal" ao proveito dos impostos, do folclore de Relvas aos amigos na Santa Casa, claro que sim. Só que a questão é outra: descontados os fiéis e os oportunistas, alguém encontra nas oposições o esboço de um governo preferível? Dito de maneira diferente, o País estaria menos sufocado com o dr. Seguro ou o dr. Costa (a fim de evitar embaraços, nem menciono o PCP e as setenta agremiações destinadas a unir a esquerda)?

 

Semanalmente, diversos exaltados acusam-me, nas "caixas" de comentários do DN online, de escrever a expensas do poder ou de sonhar em alcançá-lo. Para mal da minha conta bancária, a primeira acusação é falsa; para bem da nação, a segunda é delirante: antes de irromper no fascinante universo partidário, tentaria a sorte como chofer de praça, carpinteiro de limpos ou pequeno traficante de analgésicos. A dignidade acima de tudo. Se pareço tolerar um Governo atroz é apenas porque as alternativas me parecem intoleráveis. Parece absurdo? Eis a política, sobre a qual toda a repulsa peca por escassa.

 

BOICOTES

6/8

 

Dentro do interessante debate anti-semitismo versus "anti-sionismo", há a notícia de que no Reino Unido um deputado quer declarar a zona que representa "Israel free", ou seja interdita a produtos e pessoas de Israel.

 

Nem é preciso evocar certo acontecimento do século XX: das cruzadas às limpezas de guetos no Leste, passando pelos regulares massacres no Norte de África e pelos pogroms russos, enxotar "israelitas", ou frequentemente exterminá-los, é costume antigo. E se os tempos vigentes exigem acrescida impostura, a verdade é que "boicotes" assim são muito mais do que uma consequência do conflito do Médio Oriente: são, na sua essência, uma tradição com longuíssimos séculos.

 

O que distingue a indignação perante as crianças, reais ou encenadas, mortas em Gaza da indiferença face às crianças mortas em qualquer outro lugar é a autoria das mortes. A Israel está vedada a possibilidade de defesa, ainda que contra a maior selvajaria. É habitual acusar os judeus de "vitimização", mas o papel de vítimas é o único que os anti-semitas, perdão, anti--sionistas, historicamente permitem aos judeus: o direito de se deixarem assassinar em silêncio. Absurdamente, Israel discorda, resiste e, graças ao poderio bélico, subjuga o adversário. Tamanha perversão não se admite. Só se admite Israel resignado e de preferência extinto. Até lá, os "boicotes" continuam, embora possamos chamá-los pelo seu verdadeiro nome.

 

O AUTARCA EM DIGRESSÃO

7/8

 

Nem Agosto cala o dr. Costa, para mal dos nossos pecados e das suas ambições políticas. Se o homem nada tem de extraordinário, quase tudo o que diz o é. Agora deu uma entrevista à Visão na qual afirma que "muita gente votou" nele nas autárquicas a fim de lhe "dar força para assumir outras responsabilidades". Jura? Como se mede tal intenção? Havia um post scriptum ao lado do "x" a rezar "Salve a pátria, doutor!"? Qualquer dia, o edil de Salvaterra de Magos aparece a explicar que afinal a sua eleição destinava-se a pousá-lo em Belém. Ou o chefe da freguesia de Nespereira (Lousada) a garantir que de facto foi escolhido a pensar na Comissão Europeia.

 

Brincadeiras à parte, a verdade é que se confirma uma concepção muito peculiar da democracia e da relação de confiança entre eleitor e eleito. Para o dr. Costa, a democracia é, em mais do que um sentido, um cheque em branco. E a confiança é ilimitada.

 

Só isto explica que o dr. Costa ignore orgulhosamente as funções que deveria desempenhar em benefício da campanha interna do PS.

Um dia, se o deixarem, tratará de trocar "outras responsabilidades" pelas responsabilidades que bem entender, leia-se trocar a salvação da pátria pelo empenho em afundá-la com rapidez. A começar pelos lisboetas, já toda a gente percebeu que o dr. Costa não é brilhante. Convinha perceber-se que esse filho da leviandade e da ambição é capaz de ser perigoso. E perigos temos que cheguem, obrigadinho.

 

A ALEGORIA DA CAVERNA

9/8

 

Dez mil professores foram sujeitos a uma prova de avaliação de conhecimentos. A maioria considerou a prova "básica" e "ridícula".

Quase dois terços cometeram erros de ortografia, além de erros de pontuação e sintaxe. Uma percentagem indeterminada (e o sr. Nogueira do sindicato) atribuiu os erros ao Acordo Ortográfico. Contas feitas, apenas 10% dos erros se deveram a alterações na grafia.

Uma federação sindical (a Fenprof) acha que a prova serve "para denegrir a imagem dos professores, achincalhá-los publicamente e, dessa forma, contribuir para a degradação da sua imagem social".

 

Permito-me discordar. Quem sai denegrido, achincalhado e degradado de tudo isto é o Ministério da Educação, que acaba por aprovar cerca de 85% dos candidatos, muitos dos quais se preparam para leccionar através de variantes da língua que só existem nas respectivas cabeças. Trata-se, claro, da "geração mais qualificada de sempre". Suponho que a menos qualificada comunicasse por rabiscos em cavernas. E mesmo assim enganava-se a soletrar.

 

 Berta Brás

A IMPORTÂNCIA DE SER POLIDO

 

 

Estudando a “ficção jurídica” denominada Ética nas últimas décadas, pude constatar que uma das carências do convívio contemporâneo é a polidez. A indigência vernacular dos que não leem pode suscitar a indagação: “O que é polidez?”. Não custa, então, fornecer sinônimos: amabilidade, civilidade, cortesia, delicadeza, diplomacia, educação de berço, gentileza, lisura, urbanidade.

 

Um ser “polido” é a criatura afável, amável, atenciosa, ética, áurea, bem-criada, bem-educada, cerimoniosa, correcta, cortês, distinta, galante, luzidia, urbana.

 

Dá para entender por que falta polidez na convivência? O que mais se vê é a grosseria, a indelicadeza, a falta de modos. Mesmo pessoas escolarizadas – nada a ver com polidez o facto de ostentar diplomas – não cumprimentam, não se levantam diante de mulher ou de pessoa mais velha. Ignoram a presença do próximo.

 

Daí para a rispidez, para a irritação, para a impaciência em grau crescente, até à violência, é um caminho inevitável. Reflectir sobre isto é fundamental para um Brasil cada vez mais pródigo em ostentar níveis preocupantes de violência. Aquela escancarada, a resultar em número absurdo de mortes – somos o 5º país em perdas vitais resultantes da violência – e aquela disfarçada na insensibilidade, na frialdade do trato, na indiferença que não deixa de ser uma espécie de crueldade.

 

O mundo inteiro apercebeu-se de que algo há-de ser feito para reverter a tendência egoística. Foi assim que aplaudiu Tony Blair que, em 2003, declarou guerra à incivilidade. Após a sua terceira vitória nas eleições legislativas, insistiu na urgência de restabelecer a “cultura do respeito”.

 

Para nós, militantes da arena jurídica, o respeito não é senão reflexo do princípio norteador da dignidade humana. Ver o outro – qualquer outro – como finalidade intrínseca, não como meio, é imperativo categórico kantiano. Mas não precisamos de sofisticação alguma, nem de singular erudição para sermos polidos. “Sem a polidez”, dizia o ensaísta Alphonse Karr, “não nos reuniríamos senão para combater. É preciso, portanto, ou viver só, ou ser polido”.

 

É o que pais e mães – ou os que exercerem o seu papel – têm obrigação de lembrar a seus filhos.

 

 Renato Nalini

Juiz

COMPARAR COM 1974

 

Dívida Pública em % do PIB (1850-2010)

 

 

Constantemente ouvimos comparar estatísticas actuais com as de 1974, como se Portugal tivesse parado no tempo nesse ano. Um jornal escreveu que “Cravinho disse que Portugal está hoje muito melhor do que em 1974”. Não podemos saber como estaria o país se não tivesse havido a revolução. Mas, 40 anos depois, estaria certamente bem diferente do que era em 1974.

 

Sem que isto seja uma apologia da anterior ditadura –  que o regime actual também é, pois os cidadãos, além de não se poderem candidatar a  deputados, só podem eleger quem meia dúzia de ditadores escolheu –  gostaria de ver algo mais do que a simples comparação apresentada. Deveriam ser apresentados os gráficos da evolução dessas estatísticas, não apenas de 1974 a 2014, mas também dos quarenta anos antes, ou seja, de 1934 a 2014. Só assim seria legítimo ver como os diferentes valores evoluíram.
É muito longa a lista que deveria ser considerada, lembrando apenas alguns: população; esperança de vida; PIB (valores e taxa de crescimento anual); inflação; dívida pública (valores e taxa de crescimento anual); défice governamental (em valor absoluto, em percentagem do PIB e taxa de crescimento anual); leque salarial; analfabetismo; escolaridade (descriminando básico, secundário e superior); escolas construídas (descriminando básico, secundário e superior, em número de escolas e em metros quadrados de construção); saúde; ciência (separando a produzida pelas universidades, pelos laboratório de investigação do estado, por entidades privadas sem fins lucrativos e por entidades empresariais e indicando os quantitativos investidos nessa actividade, descriminando, quando houver, os que foram dados pelo estado a estas entidades); marinha, de pesca, de recreio, mercante e militar; exército; aviação, civil e militar; agricultura, incluindo florestas e pecuária; indústria, extractiva e transformadora; comércio, etc.

 

Não é um trabalho difícil de fazer, pois a recolha de dados é possível consultando as estatísticas. Do estudo da evolução desses dados, que gostaria de ver em tabelas e em gráficos, deverá ser possível tirar interessantes conclusões. Ao longo desse período de 80 anos, os valores deveriam ser dados ano a ano. Alguns autores, talvez para encurtar o gráfico, usam as médias dos decénios. É um sistema perigoso, que pode levar a conclusões erradas, como já tive ocasião de mostrar a propósito de um gráfico apresentado pelo Dr. Medina Carreira.

 

Afigura-se-me que um estudo como este, certamente com muitos acrescentos e algumas alterações, daria uma boa tese de doutoramento em economia ou sociologia. Abrangendo um período relativamente longo – 80 anos – e, portanto, atravessando diferentes situações do mundo, as conclusões que permitiria tirar talvez até atingissem o campo da ciência política.

 

Publicado no Público de 11 de Agosto de 2014

 

 

 

Miguel Mota

SE VALEU A PENA?

 (*)

Extraordinário, este Ricardo Reis, das Odes ao modo clássico, metro e escrita alatinados, temática humanística. Extraordinário porque, vivendo no mundo inquietante do seu egocentrismo de génio sem ilusão, constrói um pensamento de um falso epicurismo, trágico, pois que não esconde senão uma infinita angústia existencial pela incompreensão do mundo na sua dimensão entre o infinito e a finitude, o ser e o nada do absurdo que os filósofos do existencialismo tentaram (em vão?) explicar.

 

Assim são odes como as seguintes – 1,2 – reveladoras, não da atitude blasée de tantas personagens queirosianas expressivas de inércia, mas de uma inquietação bem sentida:

 

1 - Frutos, dão-nos as árvores que vivem,

Não a iludida mente, que só se orna

Das flores lívidas

Do íntimo abismo.

Quantos reinos nos seres e nas cousas

Te não talhaste imaginário! Quantos,

Com a charrua,

Sonhos, cidades!

Ah, não consegues contra o adverso muito

Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê

Rei de ti mesmo.  6-12-1926.


2 - Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.  
Ricardo Reis, 1-7-1916

 

De facto, Fernando Pessoa não teve filhos,  não teve que se esforçar em termos de uma continuidade de presença, Fénix no seu mundo de génio multifacetado, ciente de que «Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.»

 

Vem este assunto a propósito de um email enviado pelo Dr. Salles, a justificar determinado ponto de vista relativamente ao livro da sua amiga Manuela Gonzaga - «Moçambique – Para a mãe se lembrar como foi», em que se refere «à sordidez da vida em ambiente de guerra».

 

Afirma ainda Salles da Fonseca:

 

 

 

Ela tem uma escrita enxuta, como eu gosto, sem deixar de ser emotiva como se espera duma adolescente e achei que retratava muito bem a sociedade global que nós (os idos da Metrópole que por lá andávamos em comissão de serviço) fazíamos e que era algo diferente da dos europeus que lá viviam de pedra e cal como era o caso da Senhora Professora.

Sim, nós andámos por lá a fazer umas coisas e eu sempre me perguntei o que terá Moçambique ganho com a minha passagem por lá. Creio que pouco mais terá ganho do que um amigo, eu. E que terão ganho os moçambicanos de Vila Cabral ou de Tete com as aulas de canto coral que a Leonor Paixão (mãe de Manuela Gonzaga) lhes deu? Creio que bastante menos do que as aulas que a Manuela Gonzaga deu em voluntariado a alguns terroristas para se poderem apresentar a exame do 5º ano dos liceus. Pela minha parte, tudo espremido, deu um telhado numa casa em Nampula cujo proprietário me pediu o aval para o Montepio lhe emprestar o dinheiro para a construção. Mais do que isso? Muito pouco e um dia contarei para remissão dos pecadilhos. Já comecei a contar em http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/126124.html e ainda não sei se me apetece contar muito mais. Logo se verá...

 

Mas em Vila Cabral e em Tete elas viveram bem perto do terrorismo e é das histórias que os combatentes lhe contavam que ela retirou a conclusão de que a sordidez do ambiente de guerra é muito grande e que dali não há qualquer hipótese de extrair coisa boa. Assim nasceu a metáfora que diz que das pedras não nascem orquídeas.

 

Resultado: gostei bastante do livro porque me serviu de introspecção. Não creio que se trate de alta literatura, não. Mas deu para me lembrar de muitas coisas por que passei num daqueles Universos paralelos que existiam em Moçambique e que frequentemente nada tinham uns a ver com os outros. E, curiosamente, tudo sem apartheid; mas com muito desconhecimento. Eu, por exemplo, fui para lá em missão de civilização e aprendi muito.

 

Talvez o livro de Manuela Gonzaga tenha tido o efeito poderoso – mas espero que momentâneo - sobre um espírito que sempre reconheci como corajoso, incapaz de pôr em causa a acção que os portugueses desenvolveram no seu passado distante e mais próximo, em condições quantas vezes míseras, mas tendo presente sempre o amor  pela Pátria distante que os tais “novos mundos ao mundo”  mostrou. Penso que o súbito cepticismo do Dr. Salles não resulta senão de uma qualquer fatiga momentânea, resultante dos «o tempora o mores» da nossa rotina diária. O próprio Ricardo Reis se desdisse em odes como a seguinte:

 

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

 

Não, não creio no cepticismo de Salles da Fonseca.

 

 Berta Brás

 

(*) Simplificação do retrato imaginado de Ricardo Reis, esboço de Cristiano Sardinha.

COMO TORNEAR O DEGRAU?

 

 

Foi o Sr. Grandet que morreu a contemplar avidamente os montes de ouro que acumulara ao longo da sua vida de negociante avarento e arguto. Ninguém mais atento aos pormenores do que Balzac para nos dar retratos magistrais das figuras que se propôs descrever na sua Comédie Humaine e o seu romance “Eugénie Grandet”, publicado nos anos trinta do século XIX, e que se estudava no 7º ano dos liceus portugueses nos anos cinquenta do século XX, foi bem uma escola de vida para o mundo ledor dos séculos XIX e XX, pertinaz herança para o século XXI. Nunca esqueci o episódio do degrau periclitante de uma escada da sua casa, que a grande Nanon desceu em dia de anos da Eugénie, virtuosa e sofredora filha do Sr. Grandet, degrau que só não provocou a queda da criada carregada com o cassis para festejar os anos de Eugénie, porque se tratava da grande e dedicada Nanon, que mais depressa esfolaria o cotovelo do que se deixaria cair e partir a garrafa. Também por isso teve direito a um cálice de cassis, não sem ouvir o comentário do amo, disposto finalmente a consertar o degrau, porque eram os anos de Eugénie, outra quase vítima do malfadado degrau:

 

- Vocês não sabem pôr o pé no canto, no sítio onde o degrau ainda está sólido!

 

Este episódio, mais o da sua morte a contemplar o ouro, mais a forma como ele se punha a gaguejar, nos seus negócios ardilosos, para impacientar o opositor, arrastando e obscurecendo o discurso, e outras manhas que Balzac descreve  com tanta perícia, me acudiram à memória ao ler o artigo de Vasco Pulido Valente, do Público, de 20/7/14 - «Um mistério» – que, após a narrativa das nossas trapaças financeiras ao longo dos séculos XIX e XX, põe a interrogação sobre o porquê da miserável conduta de Ricardo Salgado, cujos «vinte anos de glória (do “Dono disto tudo”) são anos de funcionário».

 

Julgo que Ricardo Salgado, se leu o livro de Balzac, nele colheu manancial de sabedoria para o seu muito aforrar. Outras personagens por lá passam, interesseiras e até odiosamente exploradoras e sem escrúpulos, como o primo de Eugénie, no seu tráfico de escravos, como modo de enriquecer.

 

Mas o que mais dói no artigo de Vasco Pulido Valente é esta redução de Salgado a uma ofensiva designação de funcionário, subentendendo a falta de ambição cultural dos ditos funcionários, no encardimento dos dias cansados e repetitivos, sem as leituras concedidas às profissões livres, de variados interesses.

 

Para todos os efeitos, o que se diz também é que Ricardo Salgado pôs a bom recato a sua fortuna, obtida por traficâncias que talvez nada tenham a ver com as do avarento e esperto Sr. Grandet, nem com as do Charles Grandet, o primo da Eugénie, desaparecido o tráfico de escravos, (ou antes, desviado para outros géneros mais modernizados).

 

Também é triste pensar que um dia Ricardo Salgado não poderá morrer no deslumbramento  da contemplação dos seus ouros, como o Sr. Grandet, porque os pôs lá fora.

 

Mas é ponto assente que somos todos pó, Ricardo Salgado o será um dia, devia sabê-lo. Não valia a pena tanta falta de escrúpulos e de vergonha a sujar este chão de degraus podres, e a desgraçar tanta gente, que se limitou a confiar num Banco, pessoa de bem.

 

Eis a lição de História de Vasco Pulido Valente:

 

«Um mistério»

 

A aristocracia liberal não foi um substituto decente para a aristocracia histórica, que lutara por D. Miguel. Quase toda de origem militar, passou quinze anos a organizar “revoluções”, golpes de Estado e pronunciamentos. Era geralmente pobre, vivia mal e, fora um ou outro caso, não se distinguia nem pela educação, nem pela inteligência. Claro que havia meia dúzia de excepções entre a gente que se atropelava por um lugar no governo ou por um comando de prestígio. Mas vinha quase sempre de trás: Terceira, Palmela, Fronteira e o irmão, o conde de Vila Real e mais meia dúzia. Um pequeno grupo que não chegava para “civilizar” a corte ou exercer qualquer influência sobre uma sociedade brutal e beata; e que ele mesmo se sentia deslocado nos novos tempos de agitação e mudança.

 

À medida que o regime da Carta se estabilizou (principalmente depois de 1851) apareceu uma aristocracia de “conselheiros”, com títulos mais do que recentes, que se aguentou até à República. O ódio visceral que Eça lhe tinha, aliás partilhado por Portugal inteiro, acabou por se tornar um lugar-comum da visão ortodoxa do século XIX. Os representantes por excelência desta pouco saborosa raça não deixaram nada que merecesse ficar na memória dos portugueses. E a parte principal acabou em escândalos financeiros, desde a “falência” do marquês da Foz, que financiava o Partido Progressista, aos sucessivos roubos do Crédito Predial, que envolviam os chefes dos dois partidos do “rotativismo” e lhes criaram uma tristíssima reputação. O que é de certa maneira injusto. O liberalismo roubava, mas roubava pouco.

 

Na República, apesar da retórica oficial, ainda se roubou mais. E, durante a Ditadura, se, como é óbvio, Salazar não roubava, deixava roubar. De qualquer maneira, nenhuma das centenas de criaturas que nos pastorearam do século XVIII ao século XXI serviu de exemplo ou educou o gosto da classe média ou da alta burguesia indígena. É este o mistério de Ricardo Salgado. Segundo consta, andava de Mercedes, passava as férias na Comporta com Marcelo Rebelo de Sousa, talvez fosse de quando em quando a Nova Iorque e a Paris, mas não se lhe conhece a menor extravagância ou o menor vício. Os vinte anos de glória do “Dono disto tudo” são anos de funcionário, que se consolava com a ideia imaginária do poder. Para quê, então, os riscos sem nome que tomou? Para quê a arrogância vácua que ele pessoalmente gostava de exibir? Suspeito porque, no fundo, ele não tinha mais nada na cabeça.

 

 Berta Brás

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