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A bem da Nação

BARBARIDADES CONTRA A LÍNGUA PORTUGUESA

 

Brasil pretende acabar com o “h” no princípio das palavras e substituir o “ch” pelo “x”

 

A actual discussão no Senado brasileiro sobre a simplificação da ortografia revela-se contraprodutiva em relação ao acordo ortográfico. A crença de Ernani Pimentel e do ‘Movimento Simplificando a Ortografia’ de que "a simplificação ortográfica é a porta para a eliminação do analfabetismo”, revela-se como despiste ou desorientação. A iniciativa pretende inverter o desenvolvimento linguístico ao copulá-lo com a camada social menos desenvolvida; enfim, uma posição decadente tendente a que as árvores passem a ter a rama na terra e as raízes no céu.

 

Os Diálogos Lusófonos, tal como outros meios de comunicação brasileiros têm vindo a referir que o senador Cyro Miranda, presidente da Comissão de Educação, lidera um projecto da Comissão conducente à simplificação da ortografia da língua portuguesa. O projeto “propõe a extinção da letra "h" no início das palavras e a troca de todas as expressões com "ch" pelo "x", passando palavras, tais como ‘homem e hoje’, a serem escritas com a grafia ‘omem e oje’ e palavras como ‘macho’ a serem escritas ‘maxo’. Exemplos das intenções em vista: Flecha Flexa, Analisar Analizar, Blusa Bluza, Exigente Ezigente, Exame Ezame, Amassar Amasar, Açúcar Asúcar, Moço Moso, Deuses Deuzes.

 

Segundo intenções dos mentores do projecto, este poderia ser aplicado em 2016, após consulta aos países de língua portuguesa. 

 

É estranho que o Brasil queira fazer equivaler a língua escrita à língua oral quando escreve dia e pronuncia dʒja ou dja. A língua não

pode ser posta à disposição arbitrária de ideologias (socialismo mal-entendido) nem de lógicas a que falta a supervisão racional abrangente. Sem respeito pela linguística, atacam a ortografia, a etimologia, a conexão entre palavras cognatas.

 

Depois do tao discutido acordo ortográfico da língua portuguesa aprovado em 16 de Dezembro de 1990 que pretende criar uma ortografia unificada e em vigor desde 2009 parecem forças radicais quererem colocar-nos na fase antes dele; na realidade pretendem o desacordo agora incentivado em nome de uma massa anónima ‘não consumidora de cultura’.

 

Ainda o acordo ortográfico não se encontra aplicado e já surgem novas propostas de tendências partidárias e nacionalistas a pretender novas mudanças em nome de uma democracia que quer ver a inclusão social dos seus povos à custa de simplificações arbitrárias e desaferidas, como se a produção intelectual, artística e científica se devesse orientar, pelo princípio do menor esforço, como parece pretender o ‘Movimento Simplificando a Ortografia’. Pretende um nível simplista que evite o analfabetismo e que reduza o tempo de ensino da ortografia para impedir reprovações no currículo de aprendizagem. Esquece que as suas razões de liberdade, igualdade e economia teriam como consequência mais lógica a extinção da educação e das escolas ou a emigração de grupos mais conscientes para o ensino particular. Na sequência ter-se-ia de acabar com o estudo da História e de muitas coisas mais; sim, até porque, na realidade, em termos imediatos cultura não enche barriga.

 

Querer motivar a mutilação do português, com argumentos de que grande parte do povo brasileiro tem dificuldade em “escolher a letra adequada entre x/ch, j/g, s/x/z, s/ç/c/ss/sc/sç/xc/xç, presença/ausência de h inicial”, seria desconhecer a história e a lógica da língua e desqualificar o ensino brasileiro e a capacidade de aprendizagem de um povo que é tão inteligente como outros países lusófonos que parecem ter menos dificuldades com a ortografia da língua.

 

Por trás da problemática em torno da ortografia, esconde-se também uma falta de sistemática na aprendizagem da língua e de um ensino que domine os rudimentos da língua mãe (o latim). 

 

Não é certamente por falta de tinta mas talvez por protagonismo político de interesses ideológicos que se equivoca ao qualificar rigor de qualidade intelectual com “alienação do povo” . Por trás de uma identificação com os interesses da pretensa massa popular esconde-se a atitude paternalista de que o povo simples deve ser poupado de elucubrações complexas querendo apresentar a língua como produto fácil e barato à altura do porta-moedas de um mercado orientado pelo poder da oferta e do mais barato.

 

A questão da língua não pode ser equacionada em perspectivas meramente políticas, geralmente de vistas reduzidas a mentalidades condicionadas a períodos eleitorais quatrienais ou quinquenais e a ideologias de massa anónima sem consideração pelos processos de individuação e diferenciação inerentes à evolução individual e colectiva. 

 

A evolução da língua também não pode ser abandonada a pessoas, talvez de boa vontade mas que não têm a mínima ideia do assunto nem o respeito advindo do conhecimento do evoluir da língua.

 

Para trás anda o caranguejo!

 

A iniciativa é absurda e prejudicial porque para corresponder às necessidades imediatas de gente simples, opta por cortar os ramos frondosos da árvore linguística pelo facto de se estar com o sentido na sua madeira ou porque se quer fazer da árvore um arbusto para que qualquer gaiato possa subir a ela sem o mínimo de esforço ou dificuldade. Deixem-na continuar a ser uma grande árvore, uma casa grande onde todas as espécies de pássaros, grandes e pequenos, possam fazer o seu ninho, segundo as suas capacidades e potenciais.

Seria disparate cortar as asas às aves grandes para que todas possam viver nos primeiros ramos da árvore. Se a natureza e o desenvolvimento se deixassem reger apenas por princípios de massa ou democráticos não teria produzido a humanidade, para nos manter na igualdade do estádio das amoebas ou das medusas.

 

A estratégia de comunicação anunciada pelo senador, de tencionar chegar a acordo com os outros países lusófonos, através de videoconferências, é testemunho de método manipulador de quem quer forçar a sua ideia de legitimação dúbia fruto do arbitrário para evitar a discussão nas legítimas instituições científicas competentes para a língua. Nestas coisas precisa-se tempo, calma, independência e ponderação para se evitar confundir um pirilampo com uma estrela. A iniciativa não passa de uma tentativa de desorganização e de desinformação no sentido de desviar as energias do último acordo ortográfico.

 

A reforma da língua é assunto para linguistas e disciplinas afins atentas às massas e aos diferentes interesses dos países lusófonos, longe de qualquer interesse hegemónico ou de estratégica particular. O resto corresponde a uma perspectiva minimalista e míope de que sofre em grande parte o nosso sistema democrático. O nivelamento da cultura por baixo tem sido um facto tendente a desacreditar e banalizar a democracia (de interesse comum a um capitalismo e a um socialismo radical); a democracia não deveria merecer tal desconsideração. Imaginemos que, para acabar com o racismo, os brasileiros determinavam manipular o gene da sua pele, de modo a todos os brasileiros conseguirem uma cor neutra para os seus habitantes! A intenção que se encontraria por trás do objectivo seria boa mas a estratégia e os meios para o alcançar seria inadequada, indiferenciada e de consequências catastróficos. A ideologia, por muito potente que seja, não deve desprezar as leis da evolução nem a variedade da realidade integral. Para trás anda o caranguejo!

 

A ignorância e a precaridade não podem constituir motivo de desenvolvimento cultural e linguístico. Os programas correctores de língua em via na internet serão um grande serviço para aqueles que confundem o ‘ch’  com o ‘x’.

 

A língua portuguesa não existe isolada no mundo e, também por isso, não deve ser avaliada por critérios proletários simplistas nem pela dimensão populacional de uma nação! É óbvio que se mantenham os critérios de qualidade. O seu desenvolvimento não pode ignorar a riqueza atingida pelas línguas latinas nem o seu rico contexto. Tão-pouco poderá ser critério da afirmação de identidade de um país a negação da História nem o estádio cultural de um grupo social. Tal proposta, como o emprego de energia unilateral e exagerada na integração do galego no mundo lusófono só complica e ajuda a desmotivar a reflexão e a aplicação do acordo ortográfico em via.

 

O Português não é uma língua difícil. É uma língua muito rica e como tal complexa, com moradas para todos os estados do desenvolvimento social e intelectual até hoje possível e conseguido. Na riqueza de uma língua e na sua complexidade se reflecte o desenvolvimento de um povo. Tentar aniquilar as leis da evolução pode ser democrático mas não natural nem razoável. A existência de favelas e de casas sem jardim não pode ser o motivo para se destruir os palácios e os jardins. O objectivo será construir acesso aos jardins e aos palácios para todos.

 

Sem querer negar a luta de classes e de interesses, precisamos primeiramente de sociedades adultas que discutam os problemas do seu desenvolvimento e daquilo que constitui a sua identidade, com realismo, sem complexos de superioridade nem de inferioridade.

 

 António da Cunha Duarte Justo

A CULTURA E ... – 4

 

 

Estávamos na “cultura brasileira”!

 

Se cultura é um conjunto de tradições, comportamento, etc., de um povo,parece que a cultura “cultuada” nestas bandas será o emprego público, sempre que possível com acesso a manobras de “mão baixa” para enriquecimento rápido!

 

Que pena.

 

O Brasil que tem gente maravilhosa, e alguns nomes que se destacam de forma admirável mundo fora, fica restrito a essas figuras que quase se transformam em figuras de legenda, lendárias.

 

Há dias perdemos uma dessas personalidades, impar, na cultura brasileira. Professor, escritor, dramaturgo, profundamente conhecedor da cultura do nordeste, uma figura ímpar, adorado pelos alunos e aplaudido pelo público.

 

Homem de extrema simplicidade, uma graça incomparável a contar histórias, teve uma vida longa, nunca assaz longa para admiradores, como eu, se poderem beneficiar do seu saber e humildade.

 

Resultado de imagem para Ariano Suassuna 

Ariano Suassuna tinha 87 anos e fará imensa falta.

 

Relembro, ano 2000, vésperas dos festejos da primeira Missa no Brasil, quando alguns dos que insistem em renegar a história, foram, em delegação, pedir ao Mestre Suassuna, que os apoiasse na tese e que o Brasil tinha sido primeiro descoberto (achado, encontrado, etc.) por Pinzon e não por Cabral. Suassuna respondeu-lhes:“Pode até ser. Mas, ninguém sabe onde terá sido, ele também não contou para ninguém, não deixou qualquer testemunho, de modo que quem primeiro aqui chegou, e documentou, foi mesmo o “seu” Cabral”!

 

O Brasil tem dado grandes homens à cultura, nas letras, na música, nas ciências; é fácil lembrar Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro igualmente desaparecido há poucos dias, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Alberto da Costa e Silva, sem nunca esquecer o homem que escreveuRaízes do Brasil,Sérgio Buarque de Holanda, e tantos outros nas letras, nas músicas inesquecíveis, mundiais, e cientistas que se destacam no mercado internacional, como a grande senhora que foi Dona Zilda Arns.

 

Indivíduos de altíssima craveira; exemplos. Mas que ficam em pedestais enquanto o ensino se mantem num nível de péssima qualidade.

 

Já disse e escrevi inúmeras vezes: o mais simpático e acolhedor povo do mundo é o brasileiro. Não só nas camadas mais desfavorecidas. Conheço algumas pessoas em altas posições tanto na vida privada, como na esfera oficial. Nos vários ramos das Forças Armadas, juiz num Superior Tribunal, professores universitários, executivos fora da política, gente com imensas qualidades humanas e conhecimento. Poucos, porque aqui cheguei já tarde, mas gente que respeito e admiro; alguns hoje são como meus irmãos. Uns com a idade dos meus filhos, outros um pouco mais, a quem considero muito e me honram com a sua amizade.

 

Infelizmente uma só andorinha não faz a primavera, e por todo o lado esvoaçam os urubus da política a inequivocamente procurarem o bom que o Brasil tem para o destruírem.

 

Mas também não me canso de apontar os erros, aliás a ganância e a corrupção, e sobretudo o manifesto desinteresse pela educação.

 

A alguns destes urubus já recusei estender a mão. E disso não me arrependo até hoje.

 

No texto anterior reproduzimos uma “brilhante”e ininteligível passagem de um pronunciamento da madama presidentA, e podem recordar-se outras brilhantes frases do ex-atual presidentO, como por exemplo, logo no início do seu reinado, um jornalista do New York Times escreveu um artigo dizendo que o presidente era um grande cachaceiro! Um pinguço que até discursos fazia de cara cheia. Sexa quando soube não gostou, nada, berrou e mandou que expulsassem o jornalista para fora do Brasil! Quando lhe disseram que isso ia provocar um clamor internacional além de ir contra a Constituição que autoriza a liberdade de opinião, o tal sexa, com outro grito, altamente contaminado de aroma alcoólico, ripostou:“Que sef.*@ >. a Constituição!”

 

Brilhante cultura e primorosa educação!

 

O que se pode esperar dum país onde se vão gastar com a propaganda eleitoral dos candidatos às eleições deste ano, mais de setenta e dois bilhões de reais (R$ 72.000.000.000 = € 24.000.000.000) mais do dobro do que foi prometido previsto gastar-se com a Copa 2014, incluindo infraestrutura de estradas, estádios, segurança, etc.?

 

(Concorrem às vagas de tudo que é rápida e altamente rentável – senado, assembleias federais e estaduais, governos de estados, e presidência da República – 25.366 candidatos! Entre eles três jovens de mais de noventa anos, cem sacerdotes, dois coveiros, vinte e três motoboys, vinte e um garis, com nomes muito prometedores de boa gestão pública: Hora do Rango, Cachorrão, Chiclete, Chupa Cabra, Cição Bandido, Barack Obama, Mister M, Filho do Padre, Eu te Amo, Bagunça, e outrossui generis.) 

 

Que tal para uma população de 200 milhões de habitantes estarem nos tribunais 100 milhões de processos aguardando julgamento?

 

E a previsão do PIB, só para este ano, que baixa toda a semana (está agora em 0,7%... oficial) ?

 

Vale a pena falar em cultura?

 

Viva o Povo Brasileiro.

 

 

7-AGO-14

 

 Francisco Gomes de Amorim

“CÂNTICO NEGRO”

 

 

Foi este comentário que me acudiu, ao ler o artigo de Salles da Fonseca,  «XICUEMBO – XICUEMBO (3)», sem resposta para as questões postas, julgando que o que deixámos de civilização valeu a pena, em termos universais:

 

 

A Igreja e os seus missionários e missionárias foram sempre um bom meio de difusão da cultura e da língua portuguesa, sendo ainda elementos suavizadores da exploração feita pelos colonos. Mas outras “igrejas” havia e missões protestantes, que se iam insinuando e alimentando ódios contra o domínio português, além da catequização maometana e os próprios rituais indígenas  que o governo português sempre admitiu nos seus territórios. Mas o papado, que se “modernizou” em teorias de fraternidade e libertação dos povos, ao assumir a defesa dos “explorados”, mostrou ele próprio  o seu pendor não evangélico de difusor do cristianismo, mas de difusor de doutrinação marxista, que era o que “estava a dar” na altura do terrorismo lá pelas Áfricas, além de que tais mostras de bondade visavam redimir todo um seu passado de esplendor, avidez e crueldade inquisitorial, nem que para isso tivesse que espetar a faca num povo ridiculamente apagado, mas que se arrogara do direito de possuir terras onde, apesar de tudo, contribuíra para levar a palavra de Cristo, o que não era importante. “O próprio clero, por intermédio da rádio, faz-se pregão das teorias democráticas contra o “terrorismo branco”, deturpando por completo a intenção nobre dos que assim reagem”, escrevi eu em 1974 («Pedras de Sal»).

 

Hoje, que a doutrinação islâmica pretende fazer alastrar cada vez mais a sua influência dogmática e fundamentalista causadora de tantos distúrbios, anda o Papa novamente a evangelizar e a apelar à paz, papel que gosta de assumir. Mas  as misérias que vão por África, de fome e torturas, que levam a África a assaltar a Europa em fuga aterrorizada, parece que lhe são indiferentes, mais propenso às deslocações pela Ásia, com outras comodidades e menos riscos …

 

 Berta Brás

UM HUMORISTA DE GABARITO

 

Nunca os discursos acalorados de Marinho Pinto, preenchidos de inflamados axiomas sobre os males morais e físicos que assolam o país, com o sucedâneo apregoar das respectivas mezinhas, ditadas pelos seus bons sentimentos, as quais desatariam os nós das embrulhadas pátrias, causaram em mim senão asco, pela imediata inferência da demagogia interesseira que os ditava. Uma voz altissonante e virulenta, mastigando os ss e outras consoantes com apetite, provavelmente desejoso de descarregar o arrocho, como o fez o padre polemista José Agostinho de Macedo, zurzindo nas doutrinas e doutrinadores liberais que, em nome da liberdade, instalaram a guilhotina. Mas a “Besta Esfolada” de Agostinho de Macedo continha autenticidade e brilho nas mordidelas satíricas aos salteadores da nação da sua época, pese embora a excentricidade do seu azedume de miguelista ferrenho, enquanto que as zargunchadas de Marinho Pinto não denotam mais que mesquinha ambição de trepar, como tem, aparentemente, conseguido, agora com os olhos postos na presidência da república do seu país, por ineficácia, numa Europa superior, da projecção que as últimas eleições lhe deram no seu país e na convicção vaidosa e tola de que o país espera em si.

 

Por isso foi com muito prazer que li no DN de 17/8 a “Carta aberta a Marinho Pinto”, de Alberto Gonçalves, em «Dias Contados», um mimo de ironia desdenhosa no seu discurso ambíguo que, aparentando compreensão pelas frustrações de Pinto, o incita a retomar a obscuridade e o silêncio da cabana remota:

  Alberto Gonçalves

 

Carta aberta a Marinho e Pinto

 

Verifico com desgosto que, embora se lamente imenso os portugueses que emigram, celebra-se pouquíssimo os emigrantes que regressam a Portugal, aliás em grande número segundo recente estudo do ISEG. Veja-se o exemplo de V. Exa. Numa semana, ruma a Bruxelas decidido a pôr o dedo na ferida, colocar os pontos nos "ii" e todas aquelas modalidades de franqueza que o celebrizaram. Na semana seguinte, ou quase, anuncia o retorno a casa, pronto a candidatar-se à Assembleia da República, à presidência da República e ao que a República lhe providenciar. E isto porque, com a perspicácia que o caracteriza, V. Exa. descobriu que "o elemento agregador da Europa não está nos ideais nem nas políticas, mas no dinheiro".

 

Lamento informar V. Exa. que tal facto não é exactamente novidade. E que em vez de gastar o seu precioso tempo na campanha para as "europeias" e a procurar um grupo parlamentar que o aceitasse, V. Exa. podia ter perguntado a alguém: "Ouve lá, achas que o elemento agregador da Europa está nos ideais e nas políticas?" A resposta óbvia teria poupado V. Exa. a incontáveis maçadas.

 

Antes que V. Exa. se envolva em maçadas adicionais, aproveito para esclarecê-lo que o elemento agregador de Portugal também não está nos ideais ou nas políticas. Fatalmente, está também no dinheiro. Por isso, não vale a pena V. Exa. concorrer ao Parlamento indígena, a Belém ou à junta de freguesia da sua terra natal. Para usar uma expressão a que V. Exa. recorre com insuperável acerto, aquilo é tudo uma fantochada. E, escusado dizer, uma fantochada indigna de si.

Mesmo nos programas televisivos onde a voz de V. Exa. era a voz dos injustiçados e dos ramos da Justiça amigos do eng. Sócrates, a importância do dinheiro supera a do resto. Até os injustiçados e o eng. Sócrates, esses ingratos, apreciam dinheiro. A humanidade é assim pérfida e vendida. Se V. Exa. deseja manter-se fiel à sua verdade, afinal a única, sugiro-lhe que, volte ou não volte à pátria, não volte ao convívio dos homens. Ocupe uma cabana remota nas montanhas e dedique-se em silêncio às reflexões filosóficas que o consomem. Se ouvir turistas, esconda-se em silêncio. Principalmente em V. Exa., o silêncio é fundamental. Apenas Deus sabe o quanto o País precisa de V. Exa.: os portugueses não fazem ideia.

 

Outros temas fazem parte deste conjunto de comentários semanal, de grande engenho no seu humor sadio e corajoso, conhecedor dos maquiavelismos que movem os habituais orientadores das “sensibilites” humanas, caso do artigo que segue, «Onde fica a Embaixada da Letónia?» revelador da paralisia mental que o Ocidente está sofrendo nas manipulações da opinião, que criam, no articulista, o desejo agarotado de contribuir para o caos, na inanidade das muitas propostas possíveis, como essa de se centrar exclusivamente nos problemas da Letónia, desligando-se do mundo:

 

Terça-feira, 12 de Agosto

 

Onde fica a Embaixada da Letónia?

 

Enquanto no Iraque jihadistas (psicopatas em português) de um grupelho "dissidente" da Al-Qaeda decapitam centenas de civis curdos, meio Ocidente continua a manifestar-se contra Israel. Se parece idiota é porque é idiota. No entanto, qualquer um - até os idiotas - é livre de exibir as suas preferências, incluindo em matéria de conflitos e genocídios. Eu, por exemplo, decidi que daqui em diante só me indignarei com os crimes, as malfeitorias e os desaforos cometidos pelo Governo letão. Não tenho de argumentar nem de avançar com razões, sólidas ou gasosas: simplesmente ganhei cisma à Letónia e pronto.

 

A mutilação de meninas na Serra Leoa? Não quero saber: a minha preocupação vai para a discriminação da comunidade letã de língua russa. O esclavagismo de castas na Mauritânia? Não me interessa, já que na Letónia existem abusos verbais contra os homossexuais. O despotismo dos militares no poder na Birmânia? Deve ser chato, embora o meu coração esteja inteiramente reservado às vítimas de humilhação no sistema prisional da Letónia. A fome na Coreia do Norte? Desculpem lá, mas importa exclusivamente a larica dos letões, sobretudo os que ainda não almoçaram às duas da tarde. Os presos políticos em Cuba? Coitados, se bem que ando ocupado com a violência doméstica entre meia dúzia de casais letões.

 

Apenas o regime da Letónia me ofende, apenas os oprimidos na Letónia me fazem sair à rua, equipado com cartazes furiosos e vestuário regional. Por enquanto, é uma luta que travo sozinho. Amanhã, seremos inúmeros. Ou, com sorte, dois ou três.

 

O terceiro artigo visa o Tribunal de Contas e, sobretudo, a Constituição portuguesa, em perguntas capciosas sobre a necessidade de reforma dos ditos:

 

Sexta-feira, 15 de Agosto

 

Vetar em branco

 

O recente veto do Tribunal Constitucional levanta desde logo uma primeira questão: será que o TC tem razão? Ninguém sabe. Pelo menos ninguém que desconheça o dialecto justificativo de todos os vetos, o qual, embora vagamente evocativo da nossa língua, difere da mesma em matéria de léxico, pontuação e sintaxe. Depois vem a segunda questão: será que a Constituição de Portugal está bem protegida por pessoas que nitidamente embirram com o português? Se não, convinha verem isso. Se sim, surge uma última questão: será que uma Constituição acarinhada por quem luta com vírgulas desnorteadas e esquarteja frases sem compaixão merece ser protegida?

 

Carlos do Carmo é o alvo da sátira seguinte, que não poupa o próprio cançonetista premiado nem o pretensiosismo do seu discurso demagógico, de afectos diferenciadores e de vaidosas e constantes referências pessoais, os gestos sempre contidos na postura trabalhada:

 

Sábado, 16 de Agosto

 

O que diz o Grammy Latino

 

Gosto muito de ouvir Carlos do Carmo, menos em disco do que nas entrevistas que concede. Na última, publicada no Diário Económico, o Grammy Latino fala de si próprio, da educação suíça, da crise económica, do cansaço de colegas como Fernando Tordo e Rui Veloso. Por fim, cita Fidel Castro, dono de uma fortuna avaliada em 900 milhões de dólares ("Não tenham medo da guerra nuclear, os ricos não querem morrer") e, sobretudo, alerta as elites para o dia em que "os jovens saírem para a rua "a sério". Nesse momento, "isto vai mudar": "As elites políticas ou ganham juízo ou pode-lhes acontecer alguma coisa de muito desagradável, porque o português não é tanto de brandos costumes como se diz."

 

É invejável o talento dos grandes artistas para interpretar, além de cançonetas, os sentimentos do povo (ou da "população", palavra que Carlos do Carmo prefere). Como um médium dedicado aos vivos, ou como Mário Soares, Carlos do Carmo comunica intimamente com o espírito das massas e descobre que estas não tardam a irromper furiosas de modo a colocar os poderosos na ordem e a devolver a "dignidade" (sic) à pátria.

 

Embora não me lembre da última vez em que o País foi assim particularmente digno, fico muito satisfeito com a previsão.

Só me angustia uma coisa: e se a população que "não estava habituada a pedir esmola" não distinguir as elites dos artistas que costumam rondar as elites à cata de subsídios e patrocínios? O que acontecerá se a indignação das multidões também se voltar contra a rapaziada dos espectáculos pagos pelas autarquias e decididos por ajuste directo? Carlos do Carmo garante que "a população desta terra gosta" das gentes da "cultura", mas não consigo ficar descansado.

 

  Berta Brás

XICUEMBO – XICUEMBO (3)

 

Zavala

 

Na sequência do que afirmei no final do texto anterior, dá para perguntar agora: se as velhas misérias missionárias em Moçambique (exploração de «prazos» com base no trabalho escravo) se passaram muito antes de a moderna administração portuguesa ter iniciado a corrida do desenvolvimento no âmbito de um modelo em que multidões de pretos, brancos, pardos, mistos e amarelos eram directa e significativamente beneficiados, como se explica que a Igreja se voltasse então contra Portugal apoiando os movimentos de rebeldia? Só tenho uma resposta: a Igreja quis lavar a sua própria história naquelas paragens. Mais: se o próprio Papa se recusava a admitir que a Deus se pudesse chamar Xicuembo e que as almas dos que já partiram e por quem se reza na Missa pudessem ser invocadas por esse nome de Deus, que tinha aquela Igreja a ver com a cultura dos povos que se propunha defender contra um «usurpador» que, esse sim, beneficiava os «oprimidos»? Só tenho uma resposta: a Igreja continuava a desprezar as culturas desses povos e simultaneamente não queria repetir experiências para si difíceis como a dos ritos na Índia. Mais ainda: a Igreja queria transmitir a ideia de ser muito «boazinha», coisa que naquelas paragens nunca fora. Ou será que a Igreja, habituada a preponderar localmente através da sua rede de Missões, temia a concorrência qua a Administração Civil portuguesa lhe fazia com a sua revigorada rede de Postos?

 

É evidente que não me posso fundamentar em sussurros de confessionário mas toda esta acção adversa da Igreja contra Portugal foi claramente contrária à tradição paulina.

 

Mas é também claro que esta é argumentação facilmente contestável pela Igreja se afirmar que o segredo do confessionário é inviolável e que a tradição paulina não constitui dogma nem chega sequer a ser imperativa. E tudo continuará sem a explicação lógica que nós, portugueses, lhe poderíamos pedir.

 

O facto de termos sido nós a dar «boleia» ao cristianismo até às paragens que palmilhámos, isso é «coisa» menor que a Igreja considera por certo como não tendo nós feito mais do que a nossa obrigação como cristãos confessos.

 

E como teria sido a História se as engrenagens da nossa corrida pelo desenvolvimento não tivessem sido emperradas, nomeadamente pela Igreja?

 

Como teria sido a História se nós tivéssemos dado a devida importância às culturas genuínas dos povos que governávamos em vez de as vermos apenas como simples folclore?

 

Como teria sido a História se as nossas Forças Armadas não tivessem sido corroídas pelo Partido Comunista Português como forma de colocar o Império Português nas mãos do Império Soviético?

 

E as perguntas poderiam continuar, até que alguém nos lembrasse que nunca poderemos conhecer os resultados de experiências não experimentadas.

 

Valha-vos, moçambicanos, o facto de entretanto o Império Soviético ter implodido.

 

Valha-vos, moçambicanos, Vocês serem genuinamente civilizados mesmo sem as religiões que os forasteiros vos quiseram impor substituindo Xicuembo pelos nomes de Deus e de Alá.

 

É que, em Moçambique, o erro de todos os forasteiros, leigos e religiosos, europeus ou outros, foi o de, tomando-vos por atrasados animistas, não reconhecerem a vossa como uma civilização que poderia ter sido aprimorada em vez de combatida.

 

E agora?

 

«Agora é tarde e Inês é morta».

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

O NÚMERO DE DOUTORAMENTOS

 (*)

 

Governos das últimas décadas, principalmente os do PS, apregoaram como, nos últimos tempos, aumentou muito o número de doutorados em Portugal. A afirmação está correcta mas exige algum esclarecimento para que quem está longe destes assuntos não fique com a ideia de que Portugal não tinha, no antigamente, gente qualificada ao nível de doutoramento.

 

Durante muitos anos, o doutoramento não estava no percurso normal de algumas carreiras. Nos grandes laboratórios de investigação, iniciados em 1936, com a criação da Estação Agronómica Nacional (EAN), a progressão na carreira (paralela da carreira docente universitária) era feita por concursos. (Não estou a defender ou a atacar os sistemas então vigentes. Estou apenas a constatar factos.

Aliás, concordo com o sistema actual). Por estas razões, existiam, nessas instituições, pessoas de muito alto nível científico, bem para além do nível do doutoramento.

 

Mesmo nas Universidades, as admissões e progressão na carreira eram frequentemente feitas por convite ou por concursos, documentais ou de provas públicas. Muitos professores catedráticos e até reitores nunca tinham feito o doutoramento, embora tivessem nível muito superior ao de um recém-doutorado. O Eng.º Manuel Rocha, fundador e  primeiro Director do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), nunca fez o doutoramento. Recebeu mais tarde, merecidamente, o grau de Doutor Honoris Causa. Faleceu recentemente um professor catedrático do Instituto Superior Técnico, o Eng.º J. Delgado Domingos, que nunca fez o doutoramento, o que não o impediu de ser uma figura importante na ciência.

 

Em Espanha, o curso de engenheiro agrónomo era semelhante ao que havia em Portugal e exigia, após os cinco anos de cadeiras, uma tese de investigação original que levava, em média, três anos a completar. Quando a Espanha mudou esse sistema para um como o proposto pela Declaração de Bolonha, entregou o diploma de Doutor em Agronomia a todos os engenheiros agrónomos que tinham completado o curso com média igual ou superior a 14 valores. (As notas, em Agronomia, tal como em Portugal, eram muito apertadas).

Um professor catedrático de Agronomia de Espanha, Mateo Box, que esteve em Portugal como arguente num concurso, disse-me que ele tinha sido um desses casos.

 

Quando foram criados, em Portugal, os mestrados (que eu sempre considerei um erro), o Ministério convidou, através do Instituto Britânico, alguns professores da Universidade de Reading para virem “ensinar” a fazer esse grau. Vieram ver, não só as escolas de ensino superior, mas também as instituições de investigação científica onde se poderiam fazer teses de mestrado. Os de engenharia civil, além do Técnico, foram ver o LNEC. Dois de agronomia foram à EAN. O Prof. Watkin Williams foi ao Departamento de Genética, então da minha responsabilidade. O outro, cujo nome não recordo, foi ao Departamento de Pedologia. Durante a conversa, o Prof. Williams perguntou-me como era a tese que lhe tinham dito ser exigida até há pouco tempo para se ser engenheiro agrónomo. Disse-lhe que um pequeno número de teses, normalmente com uma classificação modesta, seriam aceites em Inglaterra como teses de mestrado. A grande maioria seria certamente aceite como teses de doutoramento.

 

Convidei esses dois professores para jantar e, em minha casa, durante a conversa, o Prof. Williams, que sabe espanhol, disse: "Estive na biblioteca da Estação Agronómica a ver teses e tudo o que vi eram boas teses de PhD” (doutoramento). Ouvi mais alguns comentários de estrangeiros no mesmo sentido.

 

Repito: Apenas pretendi que, ao referir-se o grande aumento do número de doutoramentos – que, aliás, também se verificou noutros países – não fique a ideia errada de que o nível de conhecimentos em Portugal seria muito mais baixo do que na realidade era.

 

Publicado no Público de 17 de Agosto de 2014

 

Miguel Mota

 

 

(*)http://www.casadasciencias.org/investigadores/mformacao.html

NÃO SE PODE DIZER QUE SEJAM MAUS CONDUTORES OS PORTUGUESES

 

Sintra, uma cidade de verdes e penhas, de alturas e planuras, de monumentos e muitos carros, de travesseiros da Periquita. Fomos lá na quinta-feira passada, mas, por não termos conseguido um espaço para o carro junto do Palácio da Vila, continuámos subindo, à procura de Seteais, onde, por idêntica falta de espaço, na entrada para o seu parque, os carros enfileirados num e noutro lado das bermas, continuámos subindo até Monserrate. Contava rever em Seteais o descritivo d’ OS MAIAS, da paisagem vista através do arco, como fizera há tantos anos – “Foi há vinte? Há trinta? / Nem eu sei já quando…”, diria um Junqueiro saudoso - com umas turmas do 11º , para sensibilizar o Bruno, que, coitadinho, ainda está no 6º, mas poderia isso despertá-lo  em termos pictóricos, pois é bom observador.

 

 

Em Monserrate, onde só entrevira, quando lá fora, (eram as minhas netas mais velhas ainda adolescentes), o Palácio e o Parque, pudemos percorrer os espaços deste até ao Palácio, «uma das mais belas criações arquitectónicas e paisagísticas do Romantismo em Portugal: o Parque e Palácio de Monserrate, testemunhos ímpares dos eclectismos do século XIX», segundo extraio da Internet.

 

O Palácio combina influências góticas, indianas e sugestões mouriscas, bem como  motivos exóticos e vegetalistas que se prolongam harmoniosamente no exterior… Os jardins receberam espécies vindas de todo o mundo e foram organizados por áreas geográficas. O relvado fronteiro ao Palácio permite o descanso merecido, durante a descoberta de um dos mais ricos jardins botânicos portugueses... O palácio foi projectado pelo arquitecto James Knowles e construído em 1858, por ordem de Sir Francis Cook, Visconde de Monserrate, enquanto a elaboração dos jardins foi entregue ao pintor William Stockdale, ao botânico William Nevill, e a James Burt, mestre jardineiro. Este palácio que foi a residência de Verão da família Cook, foi construído sobre as ruínas da mansão neo-gótica edificada pelo comerciante inglês Gerard de Visme, que possuiu a concessão da importação do pau-brasil em Portugal e foi o responsável pelo primeiro palácio de Monserrate. William Beckford alugou a propriedade em 1793, realizando obras no palácio, começando a criar um jardim paisagístico… 

Durante a década de vinte o palácio seria posto à venda, acabando por ser adquirido pelo Estado em 1949… Nos jardins deste Palácio podem ver-se vários exemplares botânicos. Encontra-se classificado como Imóvel de interesse Público desde 1978.

 

A subida, lá dos fundos onde descemos para visitar o palácio em reparação, foi menos difícil do que a descida, pela nobre calçada à portuguesa desfeiteadora dos pés e do equilíbrio. Não houve mais pés para percorrer a mata, várias vezes amparada que fui pelo Luís e pela Ângela, os pais do Bruno. No Palácio, aparelhos sofisticados, do tipo de écran táctil, segundo o esclarecimento da Ângela, tornavam-se morosos e de informação débil, fracos substitutos dos cicerones de antes, fossem estes competentes, (o que raramente, contudo, acontecia, os designados para esses cargos sem grande preparação técnica, como o do Palácio de Vila Viçosa, que visitámos  com a minha mãe, e que limitava as suas informações – irónicas - aos aspectos anedóticos das biografias dos nobres que lá viveram).

 

Regressando a Sintra, passámos por Seteais, a estrada cada vez mais bordejada de automóveis impossibilitando uma vez mais a visita  ao parque do arco merecedor do belo descritivo queirosiano. Quando arrumámos o carro - no adro de uma pequena igreja - soubemos que estávamos em S. Pedro de Sintra, muito longe do centro da cidade. Comemos bitoques numa esplanadazinha, o Bruno estava contente, uma família feliz que decidira visitar palácios após a descodificação de um roteiro de passeio em Sintra do seu livro de leitura, passeio que o avô se prontificara a custear, preservando, contudo, comodamente, a sua integridade física, escusando-se a participar no passeio a pretexto do necessário acompanhamento do nosso Fox. Regressados a Sintra, em lenta fila, demos volta ao Palácio sempre no lento carro, mas em vão procurámos poiso. Decidimos subir para a Pena, o que pôs à prova a arte de condução do Luís, que precisa de vencer um certo pânico actual de guiar e que se revelou um ás do pedal. De resto, guiar em Sintra é uma autêntica odisseia, que requer perícia e nervos. A própria subida à Pena, bem íngreme, era percorrida por carros que, desistindo, se alinhavam nas bermas, subida a serra a pé por inúmeros visitantes. Mas o Luís foi avançando, receoso de ter que amparar a mãe, decididamente em knock-out de pés.

Arrumado o carro, num lugar providencial do último parque, comprados os bilhetes numa construção propícia, que contém ainda esplanada e casas de banho, resolvemos subir até ao Palácio num dos carros eléctricos Hop on hop off que o desenvolvimento turístico criou.

 

 

 

O Palácio da Pena tem um exterior deslumbrante, e a vista em redor é-o igualmente, nos espaços mais longínquos e mais próximos, casado o colorido das casas com o verde do monte e do parque. Um breve texto da Internet o apresenta:

 

O Parque e o Palácio da Pena, implantados na serra de Sintra e fruto do génio criativo de D. Fernando II, são o expoente máximo do Romantismo do século XIX em Portugal, com referências arquitectónicas de influência manuelina e mourisca. O Palácio foi construído para ser observado de qualquer ponto do Parque, floresta e jardins luxuriantes com mais de quinhentas espécies arbóreas oriundas dos quatro cantos do mundo.

 

Lembrava-me de um interior mofento, quando o visitara há mais de trinta anos, mas o Palácio está a ser reparado e as lembranças dos aposentos – o quarto onde a Rainha D. Amélia passou a sua última noite antes de partir para o exílio, em 1910, os quadros pintados por D. Carlos, com motivos da serra, e os seus objectos de geógrafo, além da riqueza dos mobiliários e objectos, tudo foi encantador para mim. Apreciei também a ordem na disposição das filas dos visitantes, com cordões a separar as filas, tudo apresentado com boa orientação, que os mais de 5000 visitantes diários, no verão, requerem - no inverno descendo para 2000 - mas são dados gratificantes para o desenvolvimento do nosso turismo. Admirei os turistas de tantas nacionalidades, muitos com filhos, investindo sadiamente na educação destes.

 

O regresso no Hop on hop off  levou-nos ao Chalet da Condessa d’Edla, cantora de ópera, segunda mulher de Dom Fernando de Coburgo, após a morte de D. Maria II. O descritivo da internet informa sobre as características, sem referir que o recheio foi leiloado, e que por isso o “coquette” chalet se encontra vazio:

 

Na segunda metade do século XIX, D. Fernando II e a sua futura segunda mulher, Elise Hensler, Condessa d’Edla, criaram no Parque da Pena um Chalet e um Jardim de caráter privado e sensibilidade romântica, espaço de refúgio e recreio do casal. Localizado de forma estratégica a poente do Palácio da Pena, o edifício segue o modelo dos Chalets Alpinos, então em voga na Europa. Da ecléctica decoração sobressaem as pinturas murais, os estuques, os azulejos e o uso exaustivo da cortiça como elemento ornamental. No exterior, o jardim que envolve o Chalet reúne vegetação autóctone e espécies botânicas provenientes dos quatro cantos do mundo, conformando uma paisagem exótica em que se destacam a Feteira da Condessa, o Jardim da Joina, o Caramanchão e os lagos.

 

O maestro  Cruges, no passeio a Sintra com o apaixonado Carlos, que aí busca ansiosamente a sua amada Maria Eduarda,  após peripécias de um pendor humorístico nesse capítulo VIII d’ OS MAIAS, que se lê e se relê com riso, emoção e deslumbramento, após as várias referências às queijadas que deverá comprar para a mãe - (“Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas!”) - coroará o final do capítulo com o berro que faz parar o break e assusta os dois companheiros de regresso, Carlos e Alenquer, quando este, embalado, recitava um dos seus poemas românticos: “Esqueceram-me as queijadas!” Não aconteceu comigo que tinha a mente fisgada, não nas queijadas, mas nos travesseiros da Periquita. Mas ao almoço, perguntando à nossa hospedeira prestável, se não havia travesseiros da Periquita noutro sítio que não na Periquita, inconquistável na avalanche de carros em torno, fui informada de que os havia no café da Natália, pouco distante dali. Surgiu, então, a ideia do regresso a casa passando pelo café da Natália em S. Pedro de Sintra. Fomos aos travesseiros, a Ângela e eu, ao tal café, que se revelou um espaço sensacional de bolos de deslumbrante aspecto, e quando regressámos ao carro abri com ânsia a caixa dos travesseiros, para terminarmos em imediata delícia gustativa um dia delicioso em todos os sentidos, (pés esquecidos), embora, naturalmente, incompleto, tantas são as possibilidades de visitas maravilhosas em Sintra.

 

Mas  o descritivo de Eça do quadro visto de Seteais, sintetizará em beleza o que foi para nós um dia de encanto:

 

(Alencar) Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes num sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:

 

- Agora, Cruges, filho, repara tu naquela tela sublime.

 

O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor.

Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta escura, coroada pelo castelo da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro...

 

 Berta Brás

NO BRASIL: A CULTURA E A SUA FALTA

 

 

 

Falar de cultura pode até ser atrevimento. De cultura brasileira. Vão-me cair em cima os mestres, aqueles que sabem tudo de coisa pouca, talvez os mestres de algumas escolas que pensam ensinar disciplinas mas esquecem da cultura, e não os Mestres que sabem um pouco de quase tudo, aprendido ao longo da vida e do seu interesse pelo Outro.

 

O Brasil vive com culturas dispersas, o que é natural face às origens dos emigrantes. Entre umas desanimadas festas da cerveja, Oktoberfiest com nome alemão e tudo, lá pelo sul, passando pela da Madona da Quiropita para os italianos do Bexiga em São Paulo, ao Bumba-Meu-Boi lá para o Norte, este de tradição e cultura antiga, pode-se assistir a algumas outras isoladas que as populações locais se empenham em ano após ano aumentar o brilho e a participação de forasteiros. Pouco mais.

 

 

Nacional só o Carnaval, que se transformou em “mercadoria de exportação”, dificilmente se encontrando já aquele verdadeiro carnaval de bairro, do povo. Hoje o carnaval, aquele carnaval grande, espetáculo de “exportação”, não é mais para o povo. Só para turista ou brasileiro rico que pode pagar milhares para assistir.

 

Então, friamente analisadas as festas “nacionais”, podemos ainda encontrar algumas de caráter religioso em Minas, e a cada quatro anos, tipo festa bissexta, a subida da rampa em Brasília de um novo presidente a inaugurar um “novo ano e um novo período de promessas”, que o povo, quer assista ou não, fica a torcer para que dê certo, e nunca dá. Teoricamente a festa seria para ele, povo. Mas é para ele, o eleito, e sua camarilha. E que festa...

 

Ah! É verdade. O futebol. A maior festa nacional... sobretudo quando o Brasil ganha.

 

Mas até aqui, de cultura brasileira... tudo isto sabe a pouco. A nada.

 

Falando de língua, temos a língua portuguesa a unir este quase continente, e se os paulistas não a deturparem muito pronunciando os plurais à moda italiana, sem o “s” no final (dois pão, quatro homem, etc.), perdurará por muitos e muitos anos. Ainda. Porque pelo meio da multidão estão mauricinhos e patricinhas que queriam mudar a nossa língua para a inglesa, o que lhes facilitaria as idas aos states fazer compras. (É evidente: lá custa tudo menos de metade do que custa aqui!

 

(E ainda temos aquele crime de se reescrever Machado de Assis, porque alguns ministros não sabem o que significa “sagacidade” e outras palavras assim difíceis e vão mudá-las para esperteza e afins! E o governo vai distribuir 600.000 exemplares, de uma nova edição “revista e assassinada” de o Alienista, de graça, o que evidencia uma negociata, - ver roubada – das grandes e um imenso crime contra a cultura).

 

Línguas nativas então... nem cheiro delas, e entre os quase 200 milhões de brasileiros deve ser difícil encontrar um, unzinho só, que fale alguma em profundidade. Tirando alguns índios que ainda vivem no meio das florestas, como é óbvio, e que serão os últimos guardiões de um valor inestimável que parece ninguém se interessar em preservar!

 

Vamos tendo, haja Deus, mas muito raramente uma boa música, mas que se está a degenerar com essa proliferação virótica dos “rap” e “funk” que nem é música nem coisa alguma, mas que se difunde como vírus na Internet, e pelo mundo. O tempo da Bossa Nova passou e hoje está difícil entrarmos num outro período de tanta criatividade e beleza!

 

Mas cultura não é só isso, assim como somente saber muito de matemática ou física ou outras ciências também não se pode chamar cultura.

 

Diz o Aurélio (sempre a mania de consultar os Mestres) sobre cultura: “O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade; civilização.” E diz mais: O desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores.

 

Aqui é que está o nó do póbrema! Para se atingir essa civilização, essa cultura, há que transmitir coletivamente as nossas crenças, os nossos valores espirituais e das instituições. E pior quando tentamos transmitir, e coletivamente, padrões de comportamento tão ignóbil com aquele que, todos os dias, todos, se nos apresentam através dos órgãos de informação expondo claramente o descalabro e desmando nos mais altos escalões da vida pública, os que deviam dar o exemplo, sem que nada aconteça aos ladrões. Ladrões, sim. O povo, pode não ter muita cultura mas não é besta, e recebe esta transmissão de valores – invertidos – como se fossem os verdadeiramente bons, ou pelo menos os mais rentáveis, e fica almejando alcançar posições semelhantes para se locupletar também do aparente inesgotável erário público.

 

Paralelamente, as instituições, e aqui deviam entrar o congresso, o judiciário e etc., que também não podem gabar-se de dar ao povo o exemplo que ele tanto queria receber e necessita! Lá aparecem vários senadores que..., deputados que..., juízes que... , outros políticos e funcionários do alto escalão que... , enegrecem e desacreditam todas as instituições, que elas em si, não têm vontade própria. A imensa quantidade do povo vive de mão estendida às “graças” do des-governo que assim comanda legislativo e judiciário e eleições. A chamada farsa dos Três Poderes.

 

Como primeira transmissão de valores, estamos não só a empobrecer a nossa cultura como a roubá-la!

 

Depois o Aurélio fala-nos nas crenças. Acreditar em que? Nos governantes e políticos, já ninguém acredita. Reverenciar a história, toda deturpada... ninguém se interessa. Numa religião? Povo composto de gente de tão diferentes culturas originais, tinha conseguido um modus vivendi bastante harmonioso, casando o catolicismo com tradições africanas, não só dando origem ao candomblé, mas adoçando por todo este imenso país o rigor romano. Criou os seus santos, e porque não, se todos o fizeram, desde a Senhora de Aparecida à Senhora do Rosário e ao Padinho Páde Cíço, e mais devoção menos devoção, essa religião brasileira, brasileira sim, serviu como meio de união. Há poucos anos chegaram os vendedores de milagres, os grandes marqueteiros vendedores de crendice. Assistimos agora a outra virose bem mais perigosa do que as músicas funk, que logo logo vão saturar também e não fazem bem a alguém, as igrejas de enriquecimento rápido, o melhor negócio neste momento no Brasil, depois de banco, é claro.

 

Há dias, nas janelas de uma dessas igrejas estava colocada uma larga faixa, que eu vi, e dizia:

 

“Esta semana grande promoção de milagres”

 

Incrível! Milagres por atacado. Talvez até para revenda. Preços módicos. Pagamento no cartão de crédito ou em “n” parcelas sem juros. Entrega em domicílio?

 

Lamentei não ter comigo uma máquina fotográfica! Mas muito povo acorre e paga para ver. Sem impostos nem inspetores de espécie alguma a perturbar o negócio, uns quantos milagritos combinados com silenciosos empregados ou familiares, promovem o rápido enriquecimento desses pastores ou bispos. O povo vai lá porque procura qualquer coisa. Ele passa mal, há pobreza, desemprego, fome até num país que produz 200 milhões de toneladas de grãos o que dá uma média uma tonelada por cabeça e por ano, quantidade mais do que suficiente para engordar a todos! Procura milagres assim como joga na loteria à espera deste outro milagre. E milagres não acontecem. Cada um de nós é que os faz!

 

Então que crença devemos transmitir aos jovens e vindouros? Que valores espirituais? O que se entende por valores espirituais? A educação cristã? A hebraica? Porque não hindu? E o candomblé?

 

Isto de religião é complicado, mas valores espirituais não tanto. O espírito é eterno, a carne limitada a um curtíssimo espaço de tempo entre a concepção e a morte. Daí que mausoléus e outros mais ou menos bem enfeitados jazigos possam ser úteis se nos ajudarem a reter o exemplo que o defunto eventualmente nos deixou! De outro modo não passa de mais uma demonstração de estratificação social, abominável.

 

Sem valores espirituais, morais e éticos, não conseguiremos, jamais, alcançar valores materiais. Não os materiais representados por riqueza, ostentação, esbanjamento, mas as obras de arte e infra-estrutura que identifiquem e ajudem a unir o povo.

 

Infelizmente também poucas são as escolas e faculdades confiáveis, e para a ignorância vale mais um diploma do que o conhecimento.

Com isto talvez se possam resumir os valores espirituais a pouco mais do que aquele ensinamento cristão: Ama o teu próximo com a ti mesmo, acrescentando o que naquela época era ainda desnecessário lembrar, ou impor: Respeita a natureza.

 

Ainda o nosso Aurélio diz por fim que O desenvolvimento de uma nação é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores.

 

Temos que começar por valorizar o que temos e o que tivémos. Porque enquanto os desprezarmos não os podemos aprimorar.

 

Onde fica então o desenvolvimento da nação?

 

Talvez com esta demonstração de “cultura” vinda do altíssimo topo, onde se destaca a objetividade, o conhecimento político-científico, a erudição e a...

 

Tem uma infraestrutura muito importante para o Brasil, que é também a infraestrutura relacionada ao fato de que nosso país precisa ter um padrão de banda larga, tanto backbone como backroll, compatível com a necessidade que nós teremos para entrarmos na economia do conhecimento, de termos uma infraestrutura, porque no que se refere a outra condição, que é a educação, eu acho importantíssima a decisão do Congresso Nacional de Brasil em relação aos royalties.

 

Esta maravilha de linguajar é parte de um pronunciamento, oficial, da madama dona presidenta!

 

Entendeu o que ela disse? Nem ela.

 

E o pior é que está lá desde 2011 e quer ficar mais quatro anos.

 

Só um backroll nos salva.

 

Rio de Janeiro, 01-jan-03 / + ago-2014

 

Francisco Amorim, Junho 2013, Lisboa.jpg Francisco Gomes de Amorim

DOIS PRETOS PÁLIDOS

 

 

 

O medo provoca uma tonalidade na pele a que nas pessoas de raça branca chamamos palidez porque o sangue foge da cara para afluir a uma outra qualquer parte do corpo. Talvez para a região abdominal pois já se ouviu falar de gente que se «borrou de medo». Em situação equivalente, as pessoas de raça negra ficam cinzentas. 

 

No início dos idos de 70 do século passado, estava eu a cumprir o serviço militar em Nampula no Quartel-general de Moçambique quando fui nomeado para ir a Porto Amélia (actual Pemba) integrando uma Comissão de Inspecção Administrativa a várias Unidades militares do Sector de Cabo Delgado. Deveríamos visitar o Batalhão de Comandos situado em Montepuez e o aquartelamento da Mataca que era uma unidade subterrânea de Infantaria, isolada em plena Serra Mapé, no interior de Macomia.

                       

Aurora em Porto Amélia/Pemba

 

A Comissão era composta por um Major e dois Alferes, todos do Serviço de Administração Militar e, mais concretamente, nós os subalternos, da especialidade de Contabilidade e Pagadoría. Como hoje se diria, todos do software e ninguém do hardware tais como a Intendência e suas especialidades ligadas às padarias.

 

E se no plano oficial íamos inspeccionar as ditas Unidades, na realidade o que o nosso Comandante queria era que nós, os «Alferes do ar condicionado», víssemos como viviam os militares operacionais para que nós, na retaguarda, pudéssemos ter uma vida regalada.

 

Chegados a Porto Amélia instalámo-nos num hotel muito confortável acabado de inaugurar cabendo-me um quarto com vista deslumbrante sobre o Índico. Os vários tons de azul do mar resultam das barreiras de coral que se formaram paralelas à praia constituindo um obstáculo natural e eficaz contra a aproximação de tubarões. Nadei à vontade mas confesso que «mantive um olho sempre no burro e outro no dono», não fosse o Diabo tecê-las. Não teceu e eu estou aqui agora a contar a história.

 

Dos três militares que compunham a Comissão, apenas o Major inspeccionou alguma coisa pois nós, os subalternos, só fizemos turismo. O que mereceu a atenção do Major foi o fundo de algumas garrafas de whisky e lá pelas 3 ou 4 da manhã a esposa dele bateu aflita à porta do quarto do meu camarada de canetas a pedir ajuda pois já não sabia como manter o marido sossegado no quarto. Não faltou muito para que o meu camarada me telefonasse a acordar-me para que eu também acudisse a dar uma ajuda. É que, para além de, no meio da aflição, a muito respeitável Senhora se ter apresentado à porta do quarto dele em baby-doll, o marido insistia em que queria naquele instante ir à caça e exigia com modos algo bruscos que se lhe dissesse onde a mulher tinha escondido a espingarda.

 

Apesar de em tempo de guerra não se limparem armas, logo fui agarrar uma toalha que cobria uma mesa no meu quarto para a Senhora se poder recatar um pouco melhor enquanto o meu sóbrio companheiro de aventura foi tentar acalmar o Major. Fui eu então ao telefone do meu quarto pedir ajuda médica à recepção do hotel, não fosse necessária alguma actuação para que nós, ambos economistas, não tivéssemos treino. Em pouco tempo chegou um paralelipipédico enfermeiro militar que não esteve com meias medidas e, não olhando a hierarquias, deu dois safanões no Major que lhe fizeram de imediato passar a mania da caça. Ainda hoje tenho sérias dúvidas sobre se ele era mesmo Cabo Enfermeiro como se apresentou ou Oficial da Polícia Militar pelo modo como actuou. Àquela hora, chamado de urgência, vinha vestido com um fato de treino civil mas eu inclino-me mais para a segunda hipótese e reconheço que a terapêutica foi claramente acertada.

 

No dia seguinte, mal dormidos, tomámos boleia com um civil para irmos a Montepuez. Ainda bem que me esqueci do nome dele pois assim não corro o risco de alguma inconfidência. Tratava-se de um importante empresário de camionagem natural da Cova da Piedade e residente em Porto Amélia cujos camiões percorriam todo o norte moçambicano em transportes quer civis quer militares. Só que naquela zona e naquela época esta diferença significava que as mercadorias militares poderiam ou não ser inocentes géneros alimentícios mas uma parte substancial das mercadorias civis estavam seguramente afectas a gente relacionada com o inimigo. Ou seja, este cavalheiro trabalhava em zona de guerra e não ia desperdiçar uma parte do mercado correndo o risco de ser considerado personna non grata pela outra parte. É que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém …

 

Como ricalhaço, tinha um Mercedes amarelado espampanante de duas portas no qual se pavoneava pela cidade e praias das cercanias passeando esposa e rebentos mas quando ia para fora da cidade, para o mato, usava um Fiat 600 azul celeste que, como ele dizia, era o carro conhecido pelos “rurais”. E foi junto deste que nos apresentámos, o outro Alferes e eu, para a viagem de cerca de 200 quilómetros na ida e os mesmos na volta. O nosso anfitrião apareceu logo de seguida mas acompanhado dum velhote que nunca víramos antes. Apresentou-nos o seu Pai, Sargento reformado da Marinha que vivia habitualmente no Alfeite (daí o filho ser natural da Cova da Piedade), estava ali de visita durante um ou dois meses e queria conhecer o interior moçambicano pois já estava farto do pequeno círculo da cidade. E assim foi que me lembrei da anedota que pergunta como se metem quatro elefantes num Fiat 600: dois à frente e dois a trás. Foi o que fizemos: o camionista ao volante, o seu Pai no «lugar do morto» e nós os dois Alferes, devidamente fardados, nos lugares de trás. Lá fomos estrada fora sem novidades até à chamada Curva da Viúva, local onde a estrada bifurcava com um ramo que virava a Sul com destino a Nampula que distaria quase 400 quilómetros e o outro, o nosso, em direcção a poente. Parámos para esticarmos um pouco as pernas e tomarmos um café na cantina à beira da estrada. Havia alguma actividade no estabelecimento com o casal de cantineiros brancos a aviar os fregueses quase todos pretos mas fizemos o que tínhamos decidido fazer sem a mais pequena espécie de problemas e seguimos ao destino com a maior naturalidade.

 

E foi então que o nosso líder nos disse que a partir dali entrávamos «na terra do ele». Aquela ligeira inflexão que a estrada fazia para norte era o suficiente para entrar em território não controlado por nós, portugueses, mas sim pelo inimigo e a cantina da curva em que tínhamos estado era uma verdadeira fronteira em que raramente apareciam fardas do Exército Português. E quando o faziam não seria por certo com a calma com que nós os dois lá tínhamos estado. Santa ignorância…

 

Mas lá fomos por ali fora até que a certo momento vimos à distância uma linha de homens armados, parados de frente para nós barricando a estrada de um lado ao outro. O nosso condutor apanhou um susto tremendo que o levou a assobiar nervosamente, a pôr o dedo na businita do Fiat 600, a colocar-se meio fora da janela acenando com o braço direito bem esticado (em Moçambique conduz-se à esquerda) e a acelerar o mais que a carripana conseguia dar. Ou porque reconheceram o carro como de um «amigo» ou porque acharam que tudo aquilo era de uma incrível desfaçatez, abriram alas para que passássemos. Puseram-se metade de cada lado da estrada e essa foi a prova de que não iam disparar pois que se matariam a eles também e não apenas a nós, o verdadeiro alvo. O silêncio que se fez no carro só foi cortado daí a um par de quilómetros pelo velhote quando desabafou baixinho, quase em segredo e cerimoniosamente, com um «Porra, desta já nos safámos».

 

Sim, tínhamo-nos safado de boa.

 

E foi um pouco mais à frente que vimos um Volkswagen Carocha parado em sentido contrário ao nosso com um branco do lado de fora sem saber o que fazer à vida. O nosso empresário logo reconheceu o carro à distância e disse que se tratava do Padre “qualquer coisa” que devia estar com uma avaria que não conseguia resolver. Parou e logo aproveitámos para sair e esticar um pouco as pernas que estavam bem contraídas depois do susto que tínhamos apanhado. O meu companheiro saiu para o lado da estrada e eu para o da berma. Mas não tive o devido cuidado e dei por mim no meio de um tufo de “feijão macaco”, espécie cujo pólen faz uma comichão terrível perante o que só há a solução de nos despirmos e sacudirmos a roupa o mais possível. Nem hesitei: despi-me rapidamente e sacudi calças e camisa até não ver vestígios do famigerado pólen. E foi nestes preparos, em cuecas, meias e sapatos no meio da picada a sacudir a roupa que me apresentaram o Padre “qualquer coisa” que amavelmente me respondeu com sotaque estrangeiro sem saber se se devia rir com a cena insólita que eu representava ou se devia manter-se sério no acto de apresentação social.

 

Retomada a compostura, vim a saber que a avaria no carro de Padre era coisa menor a que o nosso camionista dera rápida solução e foi então que reparei que no banco traseiro do Carocha estavam dois pretos à espera da continuação da viagem. Como nada mais tinha que fazer, aproximei-me para lhes dizer qualquer coisa do género “tanto os vossos como os meus problemas já estão resolvidos” mas calei-me imediatamente quando lhes vi as caras cinzentas e os olhos esbugalhados de terror. Dei meia volta em direcção aos que já estavam a limpar as mãos depois de reparada a avaria, fizemos as despedidas protocolares e cada carro seguiu viagem de costas voltadas um para o outro.

 

Não sei se aqueles membros das forças que então eram nossas inimigas sabem ler e escrever mas teria uma certa graça que um dia destes viéssemos a descobrir um escrito a referir um Alferes português em cuecas no meio da estrada a sacudir a roupa depois de um ataque de “feijão macaco” e a pregar um susto enorme a dois guerrilheiros eventualmente desarmados mas completamente encurralados no banco traseiro dum Carocha avariado no meio de lado nenhum, algures na savana africana plantada a esmo de imbondeiros e árvores de sumaúma. Ah e de algum “feijão macaco”. Seria giro ler a história contada pelo outro lado da cena.

 

Magestoso imbondeiro junto à estrada para Montepuez

 

Dezembro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

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