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A bem da Nação

A PROPÓSITO…

 

 

… do livro de Luís Soares de Oliveira «Guerra Civil de Espanha», um comentário

 

Também tive acesso ao livro “Guerra Civil de Espanha” de Luís Soares de Oliveira, que vou lendo nos espaços de outros momentos do baloiçar da vida. Parece-me um livro sensacional – pela informação, que nos faz rever os nossos próprios momentos de um acordar abrilino para as realidades a que éramos alheios, “protegidos” por manuais de estudo da História omissos nas estreitas relações entre a doutrinação comunista e os movimentos revolucionários de “Frentes Populares” em França e Espanha que só conhecíamos de nome.

Este livro esclarece sobre as lutas pelas melhorias de condição dos trabalhadores, e o sindicalismo e o anarquismo, que começaram mais cedo do que aqui, ou pelo menos de forma mais decidida, a nossa primeira República parecendo uma brincadeira de crianças num povo dependente e imaturo, em comparação com o que se passava em Espanha, de povo aguerrido, a caminho da segunda República, em que «A crescente influência da CNT (Confederação Nacional do Trabalho, fundada em 1910) - (a UGT fora fundada em 1889) – junto dos trabalhadores colocou o Estado espanhol nos braços da “tenaz infernal”: corrupção, à direita; terrorismo à esquerda.», retrato perfeito da nossa própria vivência actual - e cujas crises várias, vividas por Afonso XIII, entre as quais a da “peseta”, em 1929, o forçariam a renunciar, a II República proclamada em 14 de Abril de 1931, apesar da descrença nesta, segundo Miguel Unamuno: «Miguel Unamuno afirma que “em Espanha ninguém crê no que diz ser o seu credo: os socialistas não crêem no socialismo. nem na luta de classes, nem na lei férrea do salário e outros símbolos marxistas; os comunistas não acreditam na comunidade e ainda menos na comunhão; os conservadores não acreditam na conservação; nem os anarquistas na anarquia. Povo de pedintes! E crê alguém em si mesmo? O povo cala-se!”» E Soares de Oliveira contesta, com ironia: «No caso, Unamuno pecou por excesso de redução. O embuste na descrição não significava fraqueza de convicções. Havia crenças e fortes: os anarquistas acreditavam no terrorismo, e por mor deste, acreditavam que tudo é possível; o baixo clero nem sob tortura abjurou, e em Marrocos surgira entretanto a crença no valor militar que também iria ter fortes consequências, O problema não seria o cepticismo; seria talvez a multiplicação dos credos. A ética não tolera a diversidade.»

 

Uma obra para ler devagar, na revelação de factos e nomes e envolvência das histórias, conflitos, participações ou artimanhas de outros povos, um livro de grande elegância expositiva, a par do domínio dos dados de uma história para mim desconhecida ou vaga, que nos interessa sobremaneira. E que nos diz respeito, como bem o afirma Francisco Gomes de Amorim, a respeito das duplicidades de Salazar no conflito intestino espanhol.

 

Um livro que merece entusiástico Bravo!

 

  Berta Brás

DA CLAUSURA

 

 

[Um dos ramos] das paixões sociais é aquele que diz respeito à sociedade em geral.

 

Quanto a isto, observo que a sociedade, meramente enquanto tal, sem quaisquer relevos particulares, não nos dá qualquer prazer positivo quando a gozamos; mas a solidão completa e absoluta, isto é, a exclusão total e perpétua de toda a sociedade, é uma das maiores dores positivas que somos capazes de conceber.

 

Logo, quando comparamos o prazer da sociedade em geral com a dor da solidão absoluta, a dor é a ideia predominante. Mas o prazer de qualquer gozo social particular ultrapassa bastante a perturbação causada pela falta desse gozo particular, de modo que as sensações mais poderosas que dizem respeito aos hábitos da sociedade particular são sensações de prazer.

 

A boa companhia, as conversas animadas e os laços de amizade enchem a mente de grande prazer; uma solidão temporária, por outro lado, é em si mesma agradável.

 

Isto talvez prove que somos criaturas concebidas tanto para a contemplação como para a acção, uma vez que tanto a solidão como a sociedade têm os seus prazeres.

 

Tal como a partir da observação anterior podemos discernir que uma vida inteira de solidão é contrária aos propósitos do nosso ser, já que nem a própria morte nos causa terror maior.

 

Edmund Burke

 

In «Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo», ed. Edições 70, Setembro de 2013, pág. 62

O “STATUS’’ DA COZINHA À MESA

                                                            

 

                       

 

A alimentação sempre foi para nós, simples mortais, questão de sobrevivência, mas a degustação, avaliação sensorial dos alimentos através do paladar, era a arte dos “connaisseurs”, privilégio de abonados e reis.

 

No passado remoto, o que se comia vinha do meio em que se habitava. Hoje, com as facilidades de transporte e comunicabilidade, pode-se ter produtos de qualquer parte do mundo para o jantar. Os costumes, a cultura, os níveis social e económico, até a religião, regiam e ainda regem os hábitos alimentares. Porém, se ontem só a nobreza e os grandes Senhores se podiam brindar com iguarias feitas pelas mãos dos mestres da arte culinária, na actualidade, quem tem gosto e algum dinheiro para gastar, pode-se dar ao luxo de desfrutar a gastronomia oferecida pelos “chefs” que actuam em restaurantes de alto padrão, onde a cozinha é laboratório de pesquisa de novos e exóticos sabores e a mesa é o palco de apresentação de pratos que agradam a vista e deleitam o paladar.  

 

A gastronomia nos países mais ricos e desenvolvidos voltou a ganhar destaque, não só pela preocupação em se valorizar a saúde, como também na confirmação da sua importância na vida social e política das pessoas.   Desde a antiguidade, a mesa é o local de reunião, de confraternização, de comunhão, de decisões que afectaram famílias e destinos de nações.

 

Em tempos mais evoluídos, à mesa, reis demonstravam o seu poder e refinamento na ostentação das suas ricas baixelas e requinte na apresentação de seus pratos. Ritual alimentar executado pelos nobres da corte, que os assistiam com reverência e guardavam sua cozinha com o rigor de Ministros de Estado. 

 

Diz-me o que comes, e como comes, e eu te direi quem és. É um ditado popular adaptado que muito pode esclarecer sobre quem está à mesa. Come-se à francesa, à inglesa, à americana,..., pratos portugueses, comida brasileira, indiana,... . Comer é um acto social. Conta-se que durante a segunda grande guerra mundial um espião americano infiltrado nas hostes alemãs foi descoberto quando, ao comer, pegou os talheres à moda americana, isto é, faca na mão esquerda e garfo na direita. A mesa é reveladora, é litúrgica, ritual, nos aproxima ou afasta dos deuses.

 

Na idade média, a alta nobreza europeia gastava na cozinha mais da metade do seu orçamento doméstico com alimentos para a família, parentela, sustento e pagamento de empregados e agregados.  As pratarias, vidros, porcelanas, taças, saleiros, talheres, baixelas eram verdadeiras obras de arte. Personalizadas, encomendadas a renomados artífices e ourives, eram extremamente valorizadas. Trancadas a sete chaves, por gentes da Corte, especificamente responsáveis pelos valores a eles confiados (manteeiros-mores), eram a demonstração da riqueza e refinamento do seu Senhor ou rei.

 

A civilização ocidental conheceu novos mundos e trouxe de lá desconhecidos produtos e costumes. Empregou condimentos do Oriente, desenvolveu exóticos paladares, deu mais durabilidade aos alimentos. Frutos e tubérculos como a batata, o tomate, o ananás, o milho e aves, como o peru da América, na Europa, ganharam sofisticadas maneiras de confecção e refinamento.  As ervas nas mãos de frades passaram a ter propriedades medicinais, remédios para o corpo e a alma das pessoas.

 

O comer, acto essencial à vida, exercício social onde se aprende a arte de conviver, que dá prazer e até “status”,  devia ser um direito de todos os seres deste nosso planeta.   

 

Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 23/08/2014

TRÈVE DE SOUCIS

 

Um meu grande prazer, quando leccionava literatura, era encontrar respostas bem escritas nos testes, que logo dava como modelo, na correcção que apresentava por escrito, também com a minha própria versão, não para efeitos de sobreposição mas de outras hipóteses de solução. Guardo ainda algumas dessas correcções, que reencontrei  na mudança de casa e me fizeram recuperar vivências felizes de outro tempo.

 

 

Um dia, nos avanços maravilhosos da modernidade, a Internet proporcionou-me leituras que igualmente me entusiasmaram e me fizeram participar nestes espaços cibernéticos de distância e proximidade. Os meus filhos Artur e Ricardo acharam que eu podia ter o meu blog, Ensinaram-me as manobras indispensáveis, o Artur criou os adornos artísticos da sua envolvência – uma bandeira portuguesa de especial fabrico, na cimeira, umas flores de cacto, tão belas quanto efémeras, do nosso jardim, no final da página. Assim fui participando e reagindo, desde 2008, nos vendavais do nosso mundo, para sentir a vida, embora tendo presente as críticas ferinas do Velho do Restelo aos mareantes atrevidos, que se deve sempre rever com atenção - para saborear paralelamente.

 

Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome, esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá:


Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?


Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe;
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia.

(Lus. IV, 99-101)

 

Assim, mau grado as condenações, sempre possíveis, sinto prazer nesta aventura participativa, e no meu blog transcrevo muitas vezes os textos que me tornam feliz, nesta parcimónia em que vivemos actualmente em questão de beatitude, uma felicidade de descoberta de valores que servem de apoio ao nosso orgulho pátrio, também parcimonioso.

 

 

Desta vez, foi o artigo de Teresa de Sousa, saído no Público de 10/8, o responsável  pelo bem-estar espiritual, artigo que retrata, com seriedade e firmeza, os cordelinhos por que se move o mundo conturbado, de violência e condenação da dita, de interesses e cinismos sem trégua, e de ajudas que pretendem muitas vezes encobri-los.

 

Uma análise feita com rigor de informação e escrita com elegância e clareza, em torno do Presidente de um povo líder nos destinos do mundo, condenado a  participar numa guerra que antes condenara – a do Iraque – onde o terrorismo sectário se impôs, como, de resto, em outros focos incendiários em que os fundamentalismos estrebucham e provocam, para impor os seus interesses a coberto da bandeira dos seus dogmas religiosos. E Obama, de repente, não tem mãos a medir para acudir aos focos de incêndio que estalam – no leste europeu, na Palestina que exige generosidade incondicional no socorro humanitário contra a vizinha e invejada Israel, a quem não admite retaliação contra as suas próprias provocações. E Obama, que não quer sacrificar os seus homens, e dentro das premissas pacifistas que estabeleceu quando chegou ao poder, é obrigado, de repente, a agir - na Ásia com quem estabeleceu acordos económicos, na África, onde pretende avançar em termos económicos, já atrasado em relação à China, na Rússia de Putin, cuja impassibilidade e aparente cooperação de repente se revelam na sua fragilidade, por conta do cinismo e ambição de comando de antiga superpotência que o caso da Ucrânia aclarou…

 

Sintamos a justeza de análise de Teresa de Sousa… Nada de novo, afinal, num mundo de ambições e tentativas. Temos outras prioridades por cá.

 

«O mundo trocou as voltas a Obama»

 

 

Quem diria que, três anos depois de pôr termo a uma guerra a que sempre se opôs, Barack Obama se visse confrontado com a decisão de intervir militarmente no Iraque?

 

Trata-se de uma intervenção limitada, também de natureza humanitária, para evitar um massacre e para impedir que os jihadistas do “Estado Islâmico” (uma nova versão mais radical da Al Qaeda) cheguem à cidade de Erbil, capital do Curdistão iraquiano. Desde Junho que o Iraque está a ferro e fogo, com uma poderosa e violenta a ofensiva do “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” que ninguém viu chegar, correndo o risco sério de desagregação. “Bagdad pediu oficialmente a Washington que bombardeie a ofensiva jihadista” escreve o Monde no dia 20 de Junho a toda a largura da sua primeira página. Obama ignorou o apelo. Na quita-feira, subitamente, invocou razões humanitárias para lançar raids aéreos no Norte do país. Mas também garantiu aos americanos que “não haverá botas no terreno” nem os EUA se deixarão arrastar para um novo conflito.

 

Simbolicamente, esta decisão do Presidente mostra até que ponto o guião que apresentou para construir uma nova relação da América com o mundo foi demasiadas vezes posto em causa. O Presidente, como reconhecem muitos analistas em Washington, fez muitas coisas certas. Quis dar prioridade à diplomacia e reduzir o uso da força ao último recurso. Quis partilhar a responsabilidade da América pela segurança mundial com os aliados regionais e através das organizações multilaterais. Prometeu estender a mão aos “inimigos” para abrir um caminho à negociação. Dirigiu-se directamente ao mundo islâmico (no Cairo) para lhes garantir que a América não era sua inimiga. O mundo trocou-lhe as voltas. Talvez porque amigos e inimigos se deixaram cair na tentação de sobrestimar o declínio do poder americano, que a Grande Recessão veio acentuar. Obama prometeu uma nova forma de liderar o mundo. Os seus adversários entenderam a mensagem como um sinal de fraqueza. Os seus aliados também.

 

África foi, provavelmente, o continente que mais vibrou com a sua eleição e também aquele que menos lhe exigiu. Só agora Obama teve tempo para organizar uma cimeira africana, com uma nova estratégia que vá além do combate ao terrorismo. A África começa hoje a ser olhada como a nova “economia emergente”. O Presidente sabe que ainda tem capital político para gastar. “A influência americana no continente é pateticamente pequena, quando comparada à chinesa e à europeia”, escreve o colunista do New York Times David Brook. Mobilizou as empresas americanas, que corresponderam com um montante de 14 mil milhões de dólares para investir. Provavelmente, Obama não poderia imaginar, quando preparou a cimeira que devia aos africanos, que, na mesma semana, teria de ordenar raids aéreos sobre o Iraque, reforçar as sanções económicas contra a Rússia ou tentar pôr cobro à guerra de Gaza, lembrando-lhe que falhou na promessa de resolver um conflito que retirava aos palestinianos a sua própria dignidade. A incerteza e a imprevisibilidade são as características que predominam em períodos de transição da dimensão daquele que estamos a viver. Obama queria dedicar-se à “reconstrução” da nação americana e envolver-se o menos possível num mundo cuja segurança continua a depender, em grande medida, da América. Não teve essa sorte.

 

A invasão do Iraque foi a guerra desnecessária que a América travou, que Obama sempre criticou e à qual quis pôr termo o mais depressa possível. Não antecipou o risco de fragmentação. Entretanto, a Primavera Árabe transformou-se num triste Inverno (a única excepção é a Tunísia), sem sequer dar tempo aos EUA para rever a sua estratégia regional. “Felizmente”, escreve Robert Kagan, um crítico de Obama, “o Presidente ignorou os realistas que o aconselhavam a manter-se ao lado dos ditadores em colapso”. A Síria trava uma guerra civil sem fim à vista, que se traduz numa gigantesca tragédia humana. A Líbia está em desagregação. Um embaixador americano morreu em Bengazi. O Presidente recebeu na Casa Branca o Presidente egípcio Mohamed Morsi (membro da Irmandade Muçulmana) democraticamente eleito. Agora precisa do novo poder militar instalado no Cairo para intermediar a guerra em Gaza. O Grande Médio Oriente, que Bush queria democratizar à força, está mergulhado no caos. A dúvida paira sobre as negociações com o Irão para encontrar uma solução pacífica para o seu programa nuclear, que foram o maior êxito da sua política. Teerão partilha com os EUA a mesma preocupação perante o risco de desagregação do Iraque entre xiitas (no poder), sunitas e curdos. Pelo contrário, a Arábia Saudita, velha aliada da América, olha com desconfiança essa aproximação, enquanto arma as forças jihadista na Síria e no Iraque. Também as alianças já não são o que eram nesta perigosa rivalidade entre xiitas e sunitas pela hegemonia regional.

 

O pivô asiático

 

Quando chegou à Casa Branca em 2009 Barack Obama tinha a sua própria concepção sobre as prioridades externas da América e a forma de as alcançar. A primeira visita de Hillary Clinton depois de tomar posse como secretária de Estado foi à Ásia. Com o centro de gravidade da economia a passar do Atlântico para o Pacífico e com a cada vez mais rápida ascensão da China ao estatuto de superpotência, o novo Presidente considerou que estava aí o maior desafio estratégico que os Estados Unidos tinham de enfrentar nas próximas décadas. Foi o tempo em que muito se falou de G2, apesar do G20, e em que a Europa ficou a roer as unhas sem saber qual era o seu papel na nova doutrina americana.

 

Obama quis mostrar a Pequim que os EUA continuavam a ser uma potência asiática embora disposta a cooperar com a China na resolução dos grandes problemas mundiais. Seria sempre um exercício difícil: combinar a “contenção” com a “cooperação”. A China já deixou para trás a “ascensão pacífica”, afirma-se em África ou na América Latina como um actor político importante, investe nas economias europeias do Sul, fragilizadas pela crise da dívida, enquanto reforça o seu poderio naval para impor o seu domínio nos mares da China do Sul e da China Oriental. Não hesita em “exercitar os músculos” na disputa que trava com o Japão em torno de uma ilha habitada por tartarugas. A chegada de Shinzo Abe ao poder, com um discurso nacionalista e alguns gestos desnecessários que lembraram a memória das calamidades cometidas na II Guerra, criou um clima de tensão. O problema é que os japoneses, com razão ou sem ela, começam a duvidar da vontade americana de travar uma guerra para defendê-los. Abe “iniciou uma agenda de reformas da política de defesa, destinadas a melhorar o capacidade do Japão para responder às grandes tendências regionais”, escreve Sheila Smith do Council on Foreign Relations. As economias dos dois países asiáticos têm hoje um elevado nível de interdependência (o Japão é o maior investidor na China) mas a História também ensina que o poder destruidor do nacionalismo é ilimitado. Numa crítica à política de Obama na Ásia, Gideon Rachman, colunista doFinancial Times, escreve que “até à data, os esforços americanos foram suficientes para antagonizar a China mas não para tranquilizar os aliados.”

 

Visto do lado de cá do Atlântico, o pivô americano para o Pacífico suscitou algum nervosismo. Obama chegou à Casa Branca determinado reconciliar-se com os aliados europeus (o que não seria difícil vista a onda de entusiasmo que a sua eleição causou), cansados das guerras de Bush, mas também a inverter as péssimas relações entre Washington e Moscovo herdadas da fase final do mandato do seu antecessor. Avisou que a relação transatlântica tinha um preço: partilhar mais equitativamente o fardo da segurança europeia, incluindo uma maior responsabilidade pela segurança regional. A América continuaria a “liderar” só que “do banco de trás”. Esse foi o modelo aplicado à Líbia, quando o Reino Unido e a França decidiram que era preciso intervir.

 

O jogo de Putin

 

 

A cimeira da NATO em Lisboa, em Novembro de 2010, serviu para adoptar um novo conceito estratégico que reafirmava o compromisso do Artº 5º do Tratado de Washington. Mas serviu também para encenar uma nova era de cooperação com a Rússia que anunciava um ponto final definitivo à Guerra Fria. Dmitri Medvedev apresentava a face mais simpática da Rússia e parecia entender que o Ocidente era essencial para sua modernização. Obama ofereceu-lhe a participação no sistema de defesa antimíssil destinado a proteger o território da Aliança. O Presidente via na Rússia um parceiro importante para a resolução de alguns conflitos regionais e um interlocutor fundamental para o seu objectivo de reduzir drasticamente as armas nucleares. O alargamento da NATO ficava implicitamente congelado, cabendo à Europa integrar esses países de fronteira através de acordos de associação. Nada ainda fazia suspeitar da reviravolta a que acabamos de assistir nos últimos meses.

 

O regresso de Vladimir Putin mudou tudo, ainda que não imediatamente. Foi o Presidente russo que poupou Obama a uma guerra que não queria travar contra o regime sírio, quando Bashar Al-Assad atravessou a linha vermelha, ao utilizar armas químicas contra a população. Obama ficou sem alternativa, senão um castigo militar. Londres disse que sim mas David Cameron conseguiu tirar a água do capote, levando a decisão a Westminster, que a rejeitou. Obama seguiu-lhe o exemplo, prometendo ir ao Congresso. Acabou por serPutin a salvá-lo in extremis (salvando ao mesmo tempo os seus enormes interesses na Síria) ao obter de Damasco a garantia de entrega do seu arsenal químico. Putin já dissera muitas vezes ao que vinha: restituir à Rússia o estatuto de superpotência respeitada a nível global. Na Geórgia, pôs em prática a maneira como tencionava fazê-lo, alegando a protecção das minorias russas perante a passividade ocidental. Este era o pretexto. O objectivo era recuperar a sua influência sobre o chamado “estrangeiro próximo”, da Ucrânia até à Ásia central. Quando em Dezembro de 2013 impediu o governo pró-russo de Kiev de assinar um acordo de associação negociado com a União Europeia, estabeleceu um novo limite para a sua relação com o Ocidente. Com a anexação da Crimeia, ultrapassou outro tabu: a alteração das fronteiras europeias pela força. Putin escolheu definitivamente o seu lado: contra o Ocidente. O anúncio do fim da Guerra Fria apenas durou três anos. Obama dizia há um ano perante as Nações Unidas que o mundo “não estava no tempo da Guerra Fria nem existe um ‘Grande Jogo’  a ganhar”. A dureza com que se tem referido à Rússia revela um sentimento de traição. Numa entrevista recente à Economist afirma sem contemplações que “a Rússia não fabrica nada nem os imigrantes fazem bicha para ir para Moscovo à procura de uma oportunidade”. Acrescenta que é preciso garantir “que eles não entrem numa escalada até ao ponto em que as armas nucleares voltem a entrar na discussão”.

 

Não se sabe ainda onde vai acabar este antagonismo entre o Ocidente e a Rússia que Putin está a testar na Ucrânia. Desta vez, são os bálticos ou os polacos que temem que a América não esteja disposta a morrer por eles. A NATO vai reunir-se em Setembro numa cimeira onde terá de reavaliar de novo a sua missão. A Economist interrogava recentemente: “A América está disposta a lutar por quem?” É esta a questão que assombra os aliados”. Obama quis libertar-se do fardo da segurança europeia. Putin obrigou-o a reconsiderar. Conter a Rússia ou conter a China? Ou conter ambas? A China também quer criar a sua própria zona de influência na Ásia.

“Kerry simboliza o dilema do papel global dos Estados Unidos no século XXI”, escreve a Spiegel alemã, comentando os esforços do chefe da diplomacia americana, que corre de incêndio para incêndio sem conseguir apagar as chamas. “Até que ponto pode a política externa americana ser bem-sucedida se depende mais de palavras fortes do que de tanques e porta-aviões”. Esta é a crítica dos velhos falcões republicanos, que acusam Obama de ter alienado a credibilidade americana. 

 

Edward Luce escreve na sua coluna habitual no Financial Times que “é a incerteza, e não a China, que está a substituir o poder americano”. O estado do mundo parece dar-lhe razão. Os adversários de Obama na América acusam-no de não compreender as ameaças que a América enfrenta quando reduz o orçamento da defesa. Que é, no entanto, sete vezes maior do que o russo e igual ao dos 10 países seguintes na lista dos maiores orçamentos. A economia começa a dar sinais da sua tradicional vitalidade. E, ao contrário da China ou da Rússia, a América continua a ser o íman que consegue atrair toda a gente que quer uma nova oportunidade.

 

 Berta Brás

LER HISTÓRIA DRAMÁTICA E RIR

 

A primeira reação de quem ler o título acima, vai ser: este sujeito ou é louco ou masoquista. Rir da desgraça? Pior ainda quando souber que me rio quando vejo a inteligência e astúcia do “patego de Santa Comba”, como lhe chamava o meu sogro, meter no bolso os grandes dirigentes mundiais.
Para grande espanto, e encantamento meu, recebi há dias um presente magnífico de um “amigo” que não conhecia, a não ser de nome, que muito simpático e amável, me ofereceu o livro que acabou de ser publicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, uma segunda edição revista e aumentada: Guerra Civil de Espanha – Intervenção ou não intervenção Europeia – Uma análise, do embaixador Luis Soares de Oliveira.
 

Análise sem pretensão de tomar partido de um ou outro beligerante, mas relatando, com base em documentos oficiais, toda a trama que envolveu a horrível guerra civil em Espanha, o modo como se envolveram, ou camufladamente “não” se envolveram, os diversos países europeus.

 

Muitíssimo bem escrito e minuciosamente detalhado e informado, a sua leitura, para quem conheceu a habilidade de Salazar (é bom ler Kennedy e Salazar - o Leão e a Raposa, de José Freire Antunes, onde é evidente a habilidade do tão querido, odiado e mal tratado dirigente português, em lidar, baseado na sua diminuta dimensão geopolítica com o “rei” do mundo na ocasião, o presidente dos EUA), tem passagens que são uma delícia.

 

Nos anos trinta, quando a guerra estava para se declarar em Espanha, ou já em andamento, as potências europeias eram a Grã-Bretanha e a França, crescia a força da Alemanha e da Rússia, a Itália também queria impor-se, e Portugal permanecia aquele pequeno retângulo “à beira mar plantado”, mas sabendo-se ameaçado pela União das Repúblicas Ibéricas Soviéticas, que incluía nos seus planos a sovietização da Espanha e, a bem ou à força, de Portugal.

 

É evidente que Portugal estava a par de toda a trama, e o que ninguém queria era a mentira soviética implantar-se no país, mentira essa propalada pelos jovens aliciados pelo Comintern que acreditavam que na União Soviética não existiam patrões, que os operários viviam na abundância, o que arrastava os idealistas que pensam, alguns ainda hoje, que o comunismo e o anarquismo são os “Elíseos terrenos”!

 

Os poderosos ingleses faziam da política externa a alavanca para se manterem no poder interna e eternamente. A França dividida entre comunistas, anarquistas, socialistas e liberais, metia os pés pelas mãos e não sabia se devia ajudar abertamente os nacionalistas espanhóis ou entregar a batata quente nas mãos dos ingleses. Queria vender-lhes oficialmente armas, sobretudo aviões obsoletos, e passá-los de contrabando através das fronteiras norte e sul dos Pirenéus.

 

Este livro tem que ser lido por quem gosta de história. A abrangência ali tratada, as intrigas, as falsidades, os congressos e comités, tudo feito para nada fazer, a nossa tão querida e velha aliada a ver se nos prejudicava, e o Salazar a meter os “caras” todos no bolso: desde os frios e arrogantes britânicos, aos franceses, italianos, russos, nem que seja só para ver essas manobras dum homem de raras qualidades, o livro já merece ser lido.

 

Mas toda a sua leitura faz-nos compreender a razão porque essa horrenda guerra civil durou mais de três anos e fez meio milhão de vítimas, deixando o país arrasado, roubado e, até hoje, dividido.

 

Obrigado, embaixador Luis Soares de Oliveira, primeiro por ter escrito o livro, e principalmente... por mo ter oferecido.

 

Uma bela obra. Voltarei a falar nela.

 

 Francisco Gomes de Amorim

HISTÓRIAS POUCO CONTADAS

Igreja de São José  (ou do Hospital do Espírito Santo ) Tavira 

Hospital do Espírito Santo - reconstrução do séc. XVII após destruição por terramoto

 

Era ainda Faro uma vilória quando os frades da Ordem da Santíssima Trindade e da Redenção dos Cativos decidiram mudar-se para Tavira, essa sim, cidade importante onde assentava a cruzada lusitana e donde partiam as caravelas à conquista do Norte de África. Era em Tavira que os frades poderiam servir no seu quarto voto, o de se privarem da liberdade para resgate dos combatentes cativos dos mouros.

 

Sim, para além da obediência, da castidade e da pobreza, os trinitários tinham mais esse voto de se entregarem como reféns para libertação de combatentes cativos. E para serem oportunos, tinham que estar no local onde as notícias chegavam sobre o desenrolar da cruzada portuguesa, Tavira.

 

Quantos frades se sacrificaram por combatentes reféns de mouros? Não nos chegou esse número e resta a dúvida sobre se tal voto mereceu a pena. Duvido, contudo, que os mouros quisessem frades em vez do dinheiro que pediam pela libertação dos prisioneiros.

Mas se nem todas as caravelas de retorno traziam notícias sobre cativos a libertar, com muito maior frequência traziam feridos e doentes que urgia tratar.

 

Não se sabe ao certo quando essa mudança de Faro para Tavira ocorreu mas sabe-se que em 1430 já existia o Hospital do Espírito Santo, esse que ainda hoje existe e que até meados/finais do séc. XX era dos hospitais mais importantes do Algarve. Hoje queda-se por uma missão muito nobre, a de ministrar pouco mais do que cuidados paliativos. E o que fazia ele quando nasceu?

 

Mas, esperando pelo futuro, subsiste de pé!

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

«QUANDO ESTIVER LIMPO O SISTEMA»?

 

 

Quod sensus?

 

Um artigo – de João César das Neves, «Não há desgraças grátis» (DN, 18/8) - que tenta justificar a queda do GES e do País com o colapso mundial de 2008, de que o último crime pretende ser uma terceira fase no processo.

 

Sempre se falou, em todos estes anos, em governos de esbanjamento sem critério, apoiados em capitais que jorraram como maná no deserto, sem prever a estiagem, e que possibilitaram as manobras sucessivas de manipuladores que souberam dilapidar e desviar e corromper, no esconso dos seus trejeitos mansos e felinos que de repente se aclaram, no prejuízo dos vitimados, nas tentativas de solução pelo sacrifício de todos, no castigo aparente dos que realmente vão ficar impunes e continuam fossando na sordidez das suas justificações que nada justificam.

 

Ao que parece, Ricardo Salgado é o único que dá a cara do seu grupo, assumindo traços de herói por assim se disponibilizar, explicando que cada um do grupo era responsável pela sua “banca”, mas estes camaradas não são chamados à liça para responsabilização pessoal.

 

E factos como estes têm sido uma constante neste “estábulo” em que vivemos chafurdando, e que, estranhamente, se atribuem ao colapso de 2008, em explicação que lembra a autodefesa de Sócrates. Não, não é a sujidade moral dos fautores desses crimes a responsável pelo enchimento do estábulo. Prefere-se designá-la com o elegante nome de catástrofe, que envolve em manto protector os que foram e vão enchendo o estábulo, sem pejo e sem castigo.

 

Por isso o título «Não há desgraças grátis»,de César das Neves, ao insinuar que são desgraças e não crimes estas misérias que rebentam a cada passo sob os nossos pés, como as explosões da guerra no oriente asiático, nos coloca sob a capa do fado que tudo justifica. Temos que pagar.

 

«Não há desgraças grátis»

 

Por João César das Neves

 

Numa catástrofe só há más soluções, mas são melhores do que nada. Estas duas ideias, apesar de evidentes, são sempre difíceis de entender precisamente devido à catástrofe. A discussão à volta da recente queda do Grupo Espírito Santo (GES) é típica deste diálogo de surdos, como foram as conversas durante a crise económica. Acusar o Banco de Portugal do descalabro do GES só mostra incompreensão do problema, como antes dizer-se que a política do Governo ou da troika empobreceram Portugal. O GES e o País caíram com a crise. A política apenas serve para depois distribuir a perda pelos vários grupos envolvidos. Naturalmente, ao receberem o seu quinhão, todos se dizem injustiçados, porque acreditavam ficar imunes. Isso é ilusão, porque não há crises grátis.

 

O paralelo dos dois casos não é fortuito, porque afinal o terramoto é o mesmo. A queda do GES em 2014 é um episódio da terceira fase da via particular que Portugal escolheu para lidar com o colapso mundial de 2008. Podíamos ter feito de outro modo desviando ou adiando o peso. O que nunca poderíamos era evitar os enormes custos do buraco global.

 

Alguns países, como os EUA, aguentaram o embate em cheio. Sofreram muito, limparam o sistema e recomeçaram a crescer; em 2011 a economia americana recuperou o nível de 2007, anterior à queda. Portugal optou por um caminho diferente. Grande parte da nossa economia também sofreu o embate inicial, com falências, desemprego, perda de rendimentos. Mas certos sectores da sociedade, como o Governo e o GES, preferiram negar o desastre, pedir dispensa, adiar medidas, reclamar direitos adquiridos. Assim, só na segunda fase, a partir de 2011 e com a chegada da troika, se começou um ajustamento a sério, afectando sectores protegidos pelo Estado:

funcionários, pensionistas, serviços e afins. Estes fizeram mais barulho do que todos e ainda negam a necessidade dos cortes ou prometem revertê-los. Em 2014, seis anos após o choque e com o ajustamento alegadamente terminado, começa a terceira fase. Então, surpreendentemente, vêm à tona velhos e enormes buracos, escondidos todo este tempo.

 

A aberração do GES é espantosa. Primeiro por se tratar do mais antigo e central grupo da economia portuguesa, sempre no cume do poder. Depois por ter mantido tantos anos uma fachada triunfante, cobrindo as ruínas. O episódio atingiu já dimensão histórica por, segundo o Financial Times, estar no "topo da tabela dos piores aumentos de capital de sempre na indústria financeira" (5 de Agosto), anulando o investimento em dois meses. Indiscutível é que desabou uma das peças mais imponentes e centrais da economia portuguesa. Não há soluções adequadas. A resposta do Banco de Portugal a 3 de Agosto não é boa pois, entre os escombros, dessas já não há. Barafustar e apontar inconvenientes é repetição óbvia e ociosa. Queixas e críticas são compreensíveis, mas o grupo ruiu; resta resgatar nos destroços os valores recuperáveis. O governador, como lhe competia, salvou a parte central do edifício, o banco. No meio da desgraça, tal sucesso deve contentar-nos, pois a sua queda teria efeitos devastadores em toda a sociedade.. Além disso, envolvendo um Fundo de Resolução, pretendeu, se tudo correr como previsto, não afectar o défice orçamental. Risco há sempre. Desabando uma das peças mais nucleares da economia, toda a sociedade portuguesa sofrerá, e não pouco. Viver por cá e dizer-se alheio exigindo imunidade é não entender o que aconteceu.

 

Porque ruiu o GES? Por erros graves após a crise global de 2008. Porquê só em 2014? Devido ao caminho escolhido por Portugal para lhe responder. A crise é antiga e dura, mas alguns, afectados como todos, conseguiram defender-se ao longo de todo o ajustamento. Uns às claras, sob o Tribunal Constitucional, outros no silêncio das influências políticas ou de forças económicas. Mas todos os que cá vivemos nos últimos 20 anos somos parte do problema. Cedo ou tarde, esta verdade vem ao de cima. Uma coisa é certa: só quando o sistema estiver limpo recomeça a crescer.

 

 Berta Brás 

POR QUE SE ESCREVE

Três costumam ser os fins por que se escreve: ou por virtude, ou por vaidade ou por interesse.

 

Os que escrevem por virtude não podem ter mais nobre fim pois é o de mostrar aos pecadores a torpeza dos vícios que erradamente seguem e dar-lhes os documentos necessários para a eternidade.

 

Os que escrevem por vaidade são aqueles que podem justamente conciliar a atenção dos Leitores com a delicadeza dos pensamentos que, quando eu era moço e se falava outra língua, ouvia chamar conceitos com a propriedade das vozes e com a constância harmónica dos períodos.

 

Os que finalmente escrevem por interesse, são os que sem eleição de assunto nobre tratam somente de agradar ao povo, a que só parece bem o que se conforma com a grosseria dos seus juízos.

 

Sou da terceira classe mas com certa distinção porque o interesse que me persuade a escrever não é o do lucro, é o interesse da glória da Pátria tirando do esquecimento, a que tudo está sujeito por fatal decreto da natureza, as memórias daqueles homens que por todas as razões a mereceram.

 

Dom José Barbosa

 

In «Elogio Fúnebre (MDCCXXXVIII)», Biblioteca Nacional

 

 

SOBRE O AUTOR: Dom José Barbosa nasceu em Turquel, Concelho de Alcobaça, em 1674 e faleceu em Lisboa em 1750. Padre, foi co-fundador da Academia Real da História Portuguesa, sócio da Academia Ericeirense, Cronista da Casa de Bragança, Examinador do Patriarcado e das três Ordens Militares. Por testamento, deixou a sua biblioteca à Ordem de S. Caetano que, com a extinção das Ordens, foi integrada na Biblioteca Nacional.

 

Alcobaça, 29 de Setembro de 2013

 

 Domingos José Soares Rebelo

 

 

ASSOCIAÇÕES DE AGRICULTORES

 

 

No mesmo número da revista “Empresas & Negócios” de que comentei a notícia sobre o melhoramento genético do arroz (LE de 31-7-2014), é referida uma entrevista com a ministra Assunção Cristas, que exortou os jovens a agregarem-se em associações ou cooperativas de agricultores. É realmente importante esse conselho e há dezenas de anos que escrevo que a única forma de os agricultores, individualmente, deixarem de ser explorados pelos comerciantes é a associação em cooperativas, para terem dimensão, já que a maior parte da produção agrícola vem de pequenos ou médios empresários.

 

 

Mais de uma vez citei o caso do Cachão, a cooperativa agrícola do Nordeste Transmontano. Uma cooperativa daquela dimensão exige um gestor de grande capacidade, algo muito escasso em Portugal. Mas já não será tão difícil, pelo menos para iniciar, fazer uma cooperativa de menores dimensões.

 

Não cabe ao Ministério da Agricultura organizar essas cooperativas. Mas é tarefa dum serviço de extensão rural – que o ministério devia ter – sugerir e ensinar como se organizam e como devem funcionar, pois nem sempre da parte dos agricultores há a iniciativa e os conhecimentos necessários para que elas se concretizem. Algumas das actuais podem servir de modelo e se, em outras, há deficiências de funcionamento, há que chamar a atenção e sugerir as modificações necessárias para maior eficiência. Não deve ser esquecida a produção de publicações e vídeos sobre o tema, para serem distribuídas em larga escala, algo que o ministério em tempos fez bastante bem.

 

Há poucos dias vimos na televisão a notícia dos protestos de produtores de batata, que não conseguiam escoar os seus produtos. Não sabiam a solução para o seu problema. Ela certamente não nasce desses protestos.

 

Publicado  no "Linhas  de Elvas" de 21 de Agosto de 2014

 

 

Miguel Mota

 

O MUNDO

 

 

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor, nem pior que a Espanha, só que mais jovem. Gostei dessa teoria e, vai daí, inventei um truque para descobrir a idade dos países baseando-me no 'sistema cão'. Desde meninos explicam-nos que para saber se um cão é jovem ou velho, deveríamos multiplicar a sua idade biológica por 7.

 

No caso de países temos que dividir a sua idade histórica por 14 para conhecer a sua correspondência humana. Confuso? Neste artigo exponho alguns exemplos reveladores.

 

A Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividirmos estes anos por 14, a Argentina tem 'humanamente' cerca de 13 anos e meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne.

 

Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade e como acontece nesses casos, eles formam gangues. O gangue do Mercosul é formado por quatro adolescentes que tem um conjunto de rock. Ensaiam numa garagem, fazem muito barulho e nunca gravaram um disco.

 

A Venezuela, que já tem peitinhos, está a querer juntar-se-lhes para fazer o coro. Em realidade, como a maioria das miúdas da sua idade, quer é sexo, neste caso com o Brasil.

 

O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo cigarrito de barbas de milho, como o resto dos seus amiguinhos. Mastiga coca e junta-se aos Estados Unidos, um retardado mental de 17 anos que se dedica a atacar os meninos famintos de 6 anos noutros continentes.

 

No outro extremo está a China milenar. Se dividirmos os seus 1.200 anos por 14 obtemos uma Senhora de 85, conservadora, com cheiro a xixi de gato, que passa o dia a comer arroz porque não tem - ainda - dinheiro para comprar uma dentadura postiça. A China tem um neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível. Está divorciada há tempos do Japão, um velho chato, que se juntou às Filipinas, uma jovem pirada, que está sempre disposta a qualquer aberração em troca de dinheiro.

 

Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do pai.

 

Por exemplo, a Austrália e o Canadá. Típicos países que cresceram sob o amparo de paizinho Inglaterra e mamã França, tiveram uma educação restrita e antiquada e agora fingem-se loucos.

 

A Austrália é uma pateta de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a África do Sul. O Canadá é um rapazinho gay emancipado, que a qualquer momento pode adoptar o bébé que é a Gronelândia para formar uma dessas famílias alternativas que estão na moda.

 

A França é uma separada de 36 anos, mais prostituta que uma galinha, mas muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6 anos, Mónaco, que vai dar em gay ou bailarino... ou ambas as coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um camionista rico que está casado com a Áustria, que sabe que é chifruda mas que não se importa.

 

A Itália é viúva há muito tempo. Vive a tomar conta de São Marino e do Vaticano, dois filhos católicos gémeos idênticos. Esteve casada em segundas núpcias com a Alemanha (por pouco tempo e tiveram a Suíça), mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que usa calças e fala de política de igual para igual com os homens (a Bélgica também fantasia de vez em quando fingindo que sabe preparar esparguete).

 

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se lhe iguale, mas perde espontaneidade por usar tanto perfume). É muito tetuda e quase sempre está bêbada. Geralmente deixa-se enganar pela Inglaterra e depois denuncia-a. A Espanha tem filhos por todas as partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles mas perturbam-na quando têm fome, passam uma temporada na sua casa e assaltam-lhe o frigorífico.

 

Outro que tem filhos espalhados no mundo é a Inglaterra. Sai de barco de noite, transa com alguns patetas e nove meses depois aparece uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela. Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra alimenta-as.

 

A Escócia e a Irlanda, os irmãos da Inglaterra que moram no andar de cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol. São a vergonha da família.

 

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão bem de corpo, apesar da idade, mas não passam cartão a ninguém. Transam e trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com a Holanda (quando necessitam maconha, haxixe e heroína); outras vezes cutucam a Finlândia, que é um fulano meio andrógino de 30 anos, que vive só num apartamento sem mobília e passa o tempo a falar pelo telemóvel com a Coreia.

 

A Coreia (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gémeas, mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou estúpida. Passou a infância a usar pistolas e agora, que vive só, é capaz de qualquer coisa. Os Estados Unidos, o atrasadinho de 17 anos, vigia-a muito, não por medo, mas porque quer agarrar nas pistolas.

 

O Irão e o Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as peças até que ao dia em que roubaram uma peça da motoreca dos Estados Unidos e acabou o negócio para eles. Agora comem lixo. O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem casar) com a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos esquisitos, alguns mongolóides, outros esquizofrénicos.

 

Há uma semana e por causa de um conflito com tiros e mortos, os habitantes sérios do mundo descobriram que há um país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira, presidente, hino, flora, fauna... e até gente! Eu fico com medo quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que sabíamos, para não passarmos por ignorantes.

 

Mas aí, eu pergunto: por que continuam a nascer países, se os que já existem ainda não funcionam?

 

E Portugal?

 

Por esta ordem de ideias Portugal será um kota de 62 anos, que não quer saber dos filhos que fora de horas teve em África duma mãe trintona (todos agora com cerca de dois anos e meio) enquanto se perde de amores pela enteada katorzinha que do outro lado do Atlântico se insinua emergente e tesuda ao som do Samba. Proxeneta por tradição, sendo o mais velho na Europa acha que os outros têm obrigação de o sustentar e para tal usa de todos os estratagemas e de chantagem emocional: quando necessário até canta o Fado. Fabulosa localização com..."aquela janela virada para o mar"! Já para não falar das vinhas ancestrais que lhe crescem nas traseiras do quintal, do azeite das oliveiras que bordejam a propriedade, do peixinho fresco que só falta conhecer o caminho para o assador para ser perfeito!

 

Ah! À sua custa vivem duas belas filhas solteironas já quarentonas: uma toda virada para a ecologia, com uns olhos azuis lindos como lagoas; e a outra, muito rebelde, a ameaçar casar sempre que a mesada tarda. Ambas com um temperamento assaz vulcânico, prometem ainda dar que falar: a primeira tem sempre a cama feita para um jovem ricaço que a visita amiúde de avião; e a segunda, de tão bela, dá-se ao luxo de nem se depilar da sua floresta laurissilva, recentemente eleita para Património Mundial da Humanidade.

 

 Hernán Casciari

 

 

NOTA SOBRE O AUTOR:

 

Hernán Casciari nasceu em Mercedes (Buenos Aires), a 16 de Março de 1971.

 

Escritor e jornalista Argentino, é conhecido pelo seu trabalho ficcional na Internet onde tem trabalhado na união entre literatura e blog, destacado na blog novela. A sua obra mais conhecida na rede,'Weblog de una mujer gorda', foi editada em papel, com o título: 'Más respecto, que soy tu madre'.

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