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A bem da Nação

BARBAS E CORNETAS

 

 

Nascido em Londres em 1724, Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe foi um notável político e militar alemão que esteve ao serviço de Portugal durante o consulado pombalino. Remodelou totalmente o Exército Português que comandou durante a Guerra Fantástica (1762-69) e a ele se deve o nosso primeiro Regulamento de Disciplina Militar, o célebre RDM. Ficou na nossa História conhecido por Conde de Lippe.

 

Conta-se que nessa primeira versão do RDM o Conde mandou escrever que “o Sargento deve saber ler, escrever e contar pois o Oficial, sendo nobre, pode não saber”. Mais consta que deviam “ir para corneteiros os ciganos, raianos, algarvios e outra gente de mau porte”. Altri tempi, outros pensares…

 

Nunca li essa primeira versão do Regulamento mas lembrei-me dele quando soube que o barbeiro que hoje me afeitava a guedelha tinha sido corneteiro durante o serviço militar. À cautela, não lhe medi o temperamento para não ter que experimentar algum mau porte de tesoura em riste não longe da minha jugular. Pelo contrário, deixei-me ficar em silêncio escutando a conversa que ele manteve com um visitante trôpego que por ali passou.

 

Tinham feito a tropa juntos. O trôpego era o faxina do refeitório dos praças, o barbeiro cortava cabelos, fazia barbas e tocava corneta. E eu pergunto-me: o que ganhou Portugal em ter tido estes dois abencerragens ao serviço? Talvez tanto ou mais do que ganhou comigo uma quinzena de anos mais tarde. Mas do que não tenho dúvidas é de que nós, os milicianos que de lá saímos ilesos, ganhámos muito, no mínimo em experiência de vida e histórias para contar aos netos.

 

Quando o faxina chegou já eu estava em plena sessão de tosquia. Os cumprimentos foram efusivos e temi que o barbeiro vazasse um olho ao trôpego pois abraçou-o sem largar a tesoura e o outro agarrou-se com as muletas a roçar as costas do Fígaro. Foram mais cautelosos no desenlaçar de abraço tão complicado e o barbeiro teve o cuidado de poisar o trôpego numa cadeira ali bem perto enquanto as muletas eram agarradas por outro fulano ali presente que não chegou a fazer parte da minha história.

 

E a partir dali fiquei a saber que o trôpego tem mulher entrevada, que faz a lida da casa, que toma uma pílula verde por dia para a ‘prósta’, um pó branco para não sei quê e que da cintura para baixo está morto desde os 65, já lá vão quase dez. Ao que o barbeiro lhe disse que se deixasse de pós brancos e pílulas verdes e que tomasse a outra de cor azul para «aconchego da alma» … mas que tomasse só uma por semana pois um vizinho ali da barbearia, rapaz novo dos seus 40, tomou demais e caiu para o lado com um ‘enfarto’ fulminante que nem lhe deu tempo de gozar o ânimo da pílula azul.

- Mas oh homem – ripostava o trôpego – eu tenho mulher entrevada. Para que é que eu quero isso?

- Então vai ter com uma morena que as há por aí a vadiar – respondia o barbeiro.

E assim seguia a conversa nestes termos edificantes ante alguém que ambos nunca tinham visto na vida nem sabendo se porventura eu era de reverência especial.

 

E daqui passaram ao relato dos males de próstata de grande parte da população residente em Campo de Ourique, dos «rapazes» da idade deles que «já lá estão», uns por isto e outros por aquilo, dos filhos criados, dos netos esperados, do abandono a que os entrevados se vêem votados, dos bons tempos que já lá vão, do mal que fizeram por não terem descontado mais para a ‘providência’ … do único prazer de que hoje desfrutam e que é a TV Cabo.

- Mas aqueles gajos dos telejornais fazem a nossa vida num inferno. Só falam de desgraças, de misérias, de mortes, roubos e assaltos. Mas será que só há disso? Oh filhos da p… que nos atazanam a toda a hora. Só me apetece cortar-lhes o pio – dizia o trôpego – mas a mulher, coitada, se não vê isso que faz ela?

- Põe-na a ver os ‘Morangos com açúcar’ – dizia o barbeiro

- Ah! Ela vê isso tudo mais os programas da manhã para os reformados que faz aquele p… (maricas) que fala de cozinhados e outras coisas de que as mulheres gostam. Mas eu já falei muito. Agora diz-me tu alguma coisa. Tens um filho, não tens? Pois eu tenho quatro e não posso contar com eles porque cada um tem a sua vida e o que mora em Moscavide teve uma tromboflebite (fantástico, a palavra saiu correcta, pensei eu, o cliente calado do corte de cabelo) que não o deixa trabalhar no negócio que ele tem com um sócio na montagem de cozinhas e uma filha que tenho em Loures e é diabética tem que ser operada a um pé que vamos a ver se não lho tiram. Os outros dois estão na terra, lá em Viseu e não podem cá vir tomar conta de nós.

- Então não queres saber do meu filho? Só falas, falas e falas …

- Quero, quero. O teu filho que faz?

- O meu filho está no penúltimo ano da Universidade.

- E está a fazer o quê?

- Um curso universitário.

- Ah … pois, um curso universitário. E isso que é?

- É lá das filosofias. Ele já era filósofo… ahahah … mas agora vai ficar encartado nisso.

- E esse curso serve para o quê?

- Diz ele que é para pensar…

- Então para pensar ele precisa dum curso? Não o ensinaste a pensar sem curso?

- Ele diz que se pensar com filosofia que não tem que andar à espera do que os outros pensam para poder pensar por si mesmo.

- E quando acabar o curso, o que vai ele fazer?

- Olha, perguntas bem. Vem pensar aqui para a barbearia que eu já estou cheio disto e quero ir lá para baixo, para o Tejo, pescar.

 

Eis como Portugal vai ter um barbeiro encartado em filosofia.

 

- E tu lembras-te daquele a quem chamavam o Timóteo – dizia novamente o trôpego a quem a filosofia pouco dizia.

- Não, não me recordo.

- Era aquele que engraxava as botas do Capitão. Já lá está, coitado. E aquele a quem chamavam Jeremias, lembras-te?

- Não, também não estou a ver quem é.

- Era o cozinheiro …

 

Assim foram nomeados muitos a quem se chamava isto e aquilo. Pelos vistos, nenhum deles tinha nome; apenas eram chamados de qualquer coisa.

 

Até que o meu cabelo foi chamado de cortado e o serviço de acabado. Assim, paguei com notas a que chamam Euros e saí de um mundo tão irreal para mim como outras galáxias a que nunca fui.

 

E tenho eu a veleidade de julgar que conheço o povo a que pertenço …

 

 Henrique Salles da Fonseca

"ALGO HICIMOS MAL"

 

 

 

Palavras do Presidente da Costa Rica, Óscar Árias, na Cimeira das Américas em Trinidad e Tobago, 18 de Abril de 2009:

 

Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latino-americanos se reúnem com o Presidente dos Estados Unidos da América, é para lhe pedir coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos dos nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo.

 

Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes de que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país.

 

Não podemos esquecer que neste continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres.

Ao aparecer a Revolução Industrial em Inglaterra, outros países subiram nesse vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia. E a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa e não nos demos conta disso. Certamente perdemos a oportunidade.

 

Há também uma diferença muito grande.

 

Lendo a história da América Latina, comparada com a história dos Estados Unidos, compreende-se que a América Latina não teve um John Winthrop espanhol, nem português, que viesse com a Bíblia na mão disposto a construir uma Cidade sobre uma Colina, uma cidade que brilhasse, como foi a pretensão dos peregrinos que chegaram aos Estados Unidos.

 

Há 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o Brasil tinha um rendimento per capita mais elevado que o da Coreia do Sul.  Há 60 anos, as Honduras tinham mais riqueza per capita que Singapura e hoje Singapura, no espaço de 35 a 40 anos, tem $40.000 de rendimento anual por habitante.

 

Bem, alguma coisa nós, os latino-americanos, fizemos mal,.

 

Que fizemos, então, de errado?

 

Não consigo enumerar todas as coisas que fizemos mal mas, para começar, temos uma escolaridade de 7 anos. Essa é a escolaridade média da América Latina e já não é o caso da maioria dos países asiáticos.
 
Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar à dos europeus. De cada 10 estudantes que chegam no nível secundário na América Latina, há países em que só um termina esse nível.

 

Há países que têm uma mortalidade infantil de 50 crianças por cada mil, quando a média nos países asiáticos mais avançados é de 8, 9 ou 10.

 

Nós temos países onde a carga tributária é de 12% do produto interno bruto e não é responsabilidade de ninguém, excepto nossa, por não cobrarmos dinheiro às pessoas mais ricas dos nossos países. Ninguém tem a culpa disso, a não ser nós mesmos.

 

Em 1950, cada cidadão norte-americano era quatro vezes mais rico que um cidadão latino-americano. Hoje em dia, um cidadão norte-americano é 10, 15 ou 20 vezes mais rico que um latino-americano. Isso não é culpa dos Estados Unidos, é culpa nossa.

 

Para mim é grotesco: o sistema de valores do século XX, que parece ser o que pomos em prática no século XXI, é um sistema de valores equivocado.

 

Porque não pode ser que o mundo rico dedique 100.000 milhões de dólares para aliviar a pobreza dos 80% da população do mundo num planeta que tem 2,5 bilhões de seres humanos com uma renda de $2 por dia e que gaste 13 vezes mais ($1.300.000.000.000) em armas e soldados.

 

A América Latina não pode gastar $50 bilhões em armas e soldados. E eu me pergunto: quem é o nosso inimigo?

 

O nosso inimigo é a falta de educação; é o analfabetismo; é o que não gastamos na saúde de nosso povo e gastamos em funcionários públicos. É não criamos a infra-estrutura necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; é não dedicarmos os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a desigualdade de que temos que nos envergonhar realmente; é o produto, entre muitas outras coisas, certamente, de que não estamos a educar os nossos filhos e filhas. Vá alguém a uma universidade latino-americana e parece que estamos nos anos sessenta, setenta ou oitenta do século passado.

 

Parece que nos esquecemos de que em 9 de Novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim e que o mundo mudou.
 

Temos que aceitar que este é um mundo diferente e nisso francamente penso que os académicos e toda a gente pensante, que todos os economistas, todos os historiadores concordam que o século XXI é o século dos asiáticos e não dos latino-americanos.
 

E eu, lamentavelmente, concordo com eles. Porque enquanto nós continuamos a discutir ideologias, continuamos a discutir sobre todos os "ismos" (qual é o melhor? capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, social cristianismo...), os asiáticos encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e final do século XX, que é o *pragmatismo*.
 

Para só citar um exemplo, recordemos que quando Deng Xiaoping visitou Singapura e a Coreia do Sul, depois de se ter dado conta de que os seus próprios vizinhos estavam a enriquecer de um ritmo muito acelerado, regressou a Pequim e disse aos velhos camaradas maoístas que o haviam acompanhado na Grande Marcha: “Bem, a verdade, queridos camaradas, é que a mim não importa se o gato é branco ou negro, só me interessa é que cace ratos”.E se Mao estivesse vivo, teria morrido de novo quando Deng disse que "a verdade é que enriquecer é glorioso".

 

E enquanto os chineses fazem isso, e desde 1979 até hoje crescem a 11, 12 ou mesmo 13% tirarando 300 milhões de habitantes da pobreza, nós continuamos a discutir sobre ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo.

 

A boa notícia é que Deng Xiaoping o conseguiu isto quando tinha 74 anos. Olhando em volta, queridos Presidentes, não vejo ninguém que esteja perto dos 74 anos.

Por isso só lhes peço que não esperemos completá-los para fazer as mudanças que temos que fazer.

 

Muchas gracias.

RAPAZIADAS

 

Parece que é um filme português, este título que engloba os três artigos de “Fórum” de Alberto Gonçalves, publicados no DN de 20 de Julho - «António, um rapaz de Lisboa». Um título abrangente, que, se se aplica ao primeiro visado numa acepção denotativa – António Costa – não deixa de, figurativamente, se estender, na especificidade caracterológica que nos define - talvez não mais de Zé Povinho sofrido e repontão – aos Antónios, Américos, Sérgios e muitos outros, seres vagos, arrastando-se numa vida anódina de repente, porque criados em horizontes de valores limitados, em que as ambições se satisfazem muitas vezes no velho esquema do encosto, nas “amizades” ou no colaboracionismo partidário, retirado o tapete da justiça ou dos critérios de evolução na cidadania segundo os parâmetros competitivos do valor próprio.

 

Esta forma genérica se aplicará ao caso do BE e das suas pretensões, ou à questão dos apoios governativos irrisórios à natalidade dos artigos seguintes. Quanto ao último – “Um mundo de fantasia” – consiste numa crítica à mistificação “politizada” da Banda Desenhada dos pretensiosos tempos actuais, adulterando os heróis, mesmo os míticos, segundo as farsas espampanantes das politiquices ou das ideologias que acompanham a evolução dos tempos, em abismos de despudor e ignorância atrevida, destruindo os mitos clássicos, que poderiam ser meios de informação cultural, em personagens burlescas, próprias das mentes alucinadas dos respectivos autores.

 

São, uma vez mais, textos desinibidos, estes de Alberto Gonçalves, de uma crítica de humor sardónico que, não poupando ninguém, mostra a necessária ponderação e conhecimento do panorama nacional, nos arranjismos de uns, nas contradições de outros, nos remendos apressados de propostas sem critério para fomento da natalidade.

 

Textos de uma leitura fácil e rica, que encantam e ensinam. Sem ilusões:

 

 

António, um rapaz de Lisboa

 

Resultado de imagem para alberto gonçalves ALBERTO GONÇALVES

 

A cada semana, António Costa revoluciona a ciência económica. Primeiro foi a tese de que a riqueza é preferível à austeridade, inovadora aplicação na macroeconomia do princípio de Maria Antonieta. Depois, descobriu que o problema não é o excesso de licenciados, mas a falta de empregos para licenciados (criam-se os empregos e a chatice fica resolvida). Agora, explicou a uma embevecida plateia de sindicalistas que "não há crescimento sustentável com endividamento, mas também não há crescimento sustentável com empobrecimento", sentença que se comenta sozinha.

 

Se não se aproximassem as férias, o Dr. Costa ainda estaria a tempo de dizer que: 1) o investimento público é melhor do que o privado excepto nos casos em que o investimento privado é melhor do que o público; 2) o Estado social é sustentável desde que saia baratinho aos cidadãos; 3) Portugal não deve sair do euro enquanto os euros entrarem em Portugal; 4) pelo menos na perspectiva dos destinatários, os salários altos são preferíveis aos salários baixos; 5) o Pato Donald é um boneco.

 

Brincadeiras à parte, o que é isto? Não é de agora que Portugal não se pode queixar em matéria de produção de políticos absurdos. Mas entre as nulidades sem uma ideia na cabeça e o Dr. Costa, em cuja cabeça fervilham centenas de ideias desconchavadas, vai uma diferença considerável. Já nem falo da tentativa de vender o homem a título de salvador da pátria: falo do homem propriamente dito e da deprimente comparação com aqueles a quem sonha suceder. Ao pé do Dr. Costa, Passos Coelho passa por um modelo de estadista, Sócrates por um sujeito quase ponderado, Santana por um governante responsável, Barroso por um gigante do pensamento, Guterres por um paradigma da racionalidade financeira e Cavaco, ele sim, pelo salvador da pátria que nunca foi. Perante o Dr. Costa, até o jovem António José Seguro parece habitar o mesmo planeta que os restantes mortais.

 

Em suma, o Dr. Costa é um embaraço ambulante. Logo, provavelmente será depois do Verão o líder do PS e, se os amigos o mantiverem calado entretanto, hipotético primeiro-ministro no ano que vem. Um pessimista vê à distância e, na lógica do "depois de mim virá", tende a imaginar que espécie de calamidade pode aparecer ao País após o Dr. Costa. Um optimista desconfia que, após o Dr. Costa, é improvável haver País.

 

Quarta-feira, 16 de Julho

 

O BE que fica e o BE que parte

 

Em geral, tendemos a pensar no Bloco de Esquerda enquanto uma agremiação divertida. Dispõe bem contemplar à distância os movimentos de grupos, subgrupos e facções de um único indivíduo que diariamente abandonam esse partido moribundo a caminho do PS e das carreiras com que o PS, sobretudo o PS do Dr. Costa, lhes acena. O facto de todos os fugitivos se desculparem com a necessidade de "contribuir para convergências à esquerda" torna a brincadeira hilariante. O pormenor de todos se esconderem atrás de siglas, organizações, princípios e estatutos solenes eleva a brincadeira ao nível da grande comédia.

 

Ocasionalmente, porém, um pedacinho da realidade irrompe para nos lembrar da natureza do BE, e de que esta não é só galhofa. O Médio Oriente, por exemplo. Bastou Israel reagir aos constantes ataques sofridos a partir de Gaza para o BE vir falar em "banho de sangue" e propor as sanções económicas do costume. E o costume inclui o desprezo do BE face a um Estado civilizado e a simpatia pela barbárie mais à mão. O costume é o BE negar as "causas" que lhe valeram 15 minutos de fama em favor do seu exacto reverso.

 

O ódio aos ricos? Os líderes de Gaza passeiam-se em aviões de luxo e apascentam fortunas em contas offshore. Os direitos LGBT? Em Gaza a homossexualidade é punida por lei e os seus praticantes fogem da tortura rumo a uma certa nação vizinha. A igualdade de género? A islamização do território reduz as mulheres a um pechisbeque silencioso e reprodutivo. A violência doméstica? Calcula-se que mais de metade das mulheres locais sejam espancadas pelos maridos pelo menos uma vez por ano - tradicional e recatadamente. E há as restrições às artes e à internet. O racismo oficial. A imposição violenta da "virtude". As conversões forçadas de cristãos. E, numa prática que o BE lamentará não se usar por cá, o fuzilamento de dissidentes.

 

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público.

 

Quinta-feira, 17 de Julho:

 

Feliz natalidade

 

Reduções no IRS em função do número de filhos. "Baixas" prolongadas e subsidiadas. Emprego em part-time subsidiado. Licenças parentais simultâneas. Redução do horário laboral. Oferta de "vales sociais". Incentivos à contratação de mulheres grávidas. Etc.

Ao todo, são 27 as medidas propostas no relatório da comissão para a política de natalidade a fim de aumentar a mesma. Podiam ser 72, já que a ideia é só uma: as pessoas não procriam porque, coitadinhas, precisam de trabalhar. Se não fizerem nenhum, farão filhos em abundância e Portugal apresentará "lá fora" taxas dignas do Mali e do Uganda. Cá dentro, porém, a coisa tenderá a complicar-se: não é preciso um doutoramento em economia para perceber que a relação directa entre a natalidade e o ócio é pouco amiga da produtividade. E a menos que os "fundos" europeus nos patrocinem mais esta habilidade, não se vislumbra quem, dentre um povo entretido a mudar fraldas no lar, a financiará. Claro que se o objectivo for atingir uma economia comparável à do Mali e do Uganda, um dos problemas - o do rejuvenescimento populacional - está resolvido.

 

Outro problema é a discriminação implícita nas medidas, que presumo não ocorra aos senhores doutores juízes do Tribunal Constitucional. É que, por incrível que pareça aos membros da comissão da natalidade, há portugueses que já não podem ter filhos, há portugueses que nunca puderam ter filhos e, segurem-se bem, há portugueses que rejeitam a possibilidade de ter filhos mesmo que lhes ofereçam dois anos de férias pagas na Riviera italiana por cada rebento. Aqui em casa habitam dois exemplos do último caso, e a ambos não apetece o tratamento de cidadãos de segunda, na perspectiva moral e, para o que realmente importa, na fiscal. Esta amostra que admito pequenina preferia que o Estado não se intrometesse na vida alheia, não estabelecesse padrões familiares e sobretudo não ignorasse os meios para atingir duvidosos fins. De resto, o fim desta história não promete.

 

Um mundo de fantasia

 

Desde os 10 ou 11 anos que não leio banda desenhada, incluindo aquelas de super-heróis. Se lesse, não as reconheceria. Ao que consta, Thor (o semideus escandinavo com martelo de São João) é agora uma mulher. E o Capitão América vai ser preto, perdão, afro-americano. Mas, informam os autores da mudança, não será um afro-americano qualquer, e sim "um homem moderno em contacto com os problemas do século XXI". Isto é, o novo Capitão América "terá uma maior empatia com os mais desprivilegiados" já que, cito, "foi assistente social". Apetecia-me deixar um comentário sobre a terminal idiotia do nosso tempo. Porém, enquanto o Homem-Aranha não for "transgénero" e Hulk não acumular as aventuras com a presidência de um observatório, julgo ainda haver esperança.

 

 Berta Brás

NO REINO DO CONGO – SÉC. XVII

 

Reino do Congo

 

Reinava (também) em Portugal Filipe II (barra III) quando D. Manuel Batista Soares, que fora bispo do Congo até 1619, lhe passou a seguinte informação sobre o estado do “cristianismo naquele Reino”.

 

Snor.

 

Continuando na informação q. V.M.de me manda dar por escrito acerca dos costumes dos moxicongos e naturaes do Reino de Angola, digo que segundo o que alcancey em perto de dez annos q tratei có elles, não tem vertude, vergonha, verdade, nem constancia, senão, em o mal, por q. são de ordinario çençuaes, sem perdoar a parentesco muy chegado, assy de consanguinidade, como de affinidade e per tradição antiga e rito gentilico tomão por mancebas todas as q. os paes e pessoas a que suçedem tinhão por suas, e as netas e tendo trato iliçito com a Irmaã mais velha, o tem com todas as mais, e os Reys se não tirão destes abusos e pecados, antes com mor liberdade, e descompocissão caem nelles; e o que agora Reyna chamado dom Alvaro terceiro, tem por mancebas muitas que o forão de seu pae dom Alvaro segundo, e hua Cunhada Irmã de sua molher, ambas filhas de manibanda que se chama grão duque, e nem amoestado, nem reprehendido a dexa, nem se envergonha de lho dizerem. Esta foi casada; e tem filhos do Duque de Sundy dom Alvaro seu tio, e q. elle matou em guerra por levantado. E quando vay fora a Igreja, ou a escaramussar vão muitas dellas có elle, e chamãolhe damas o quanto mores senhores são, mor numero dellas tem, como fazem os q. são gentios, q. por terem muitas, se dão por poderosos, riquos, honrados, e aparentados, e assy he, porque tem por essas as filhas dos senhores, e fidalgos principais, para cujo effeito lhas dão seus pais, e o duque de Batta que por titolo se chama Aio del Rey de Congo, e he muito seu parente, sendo casado có hua tia Dell Rey Irmã de seu par, ella se foi amançebar cõ hum sova gentio das partes de dande, Vassallo do mesmo Rey, ficando elle, e o Duque cõ isso muy quietos, e porque o duque tomou por manceba principal hua filha de hum fidalgo seu vassallo, e a tratava em publico e na Igreja como duquesa, e como a essa a fazia venerar, indolhe eu a mão e pedindo a El Rey que ho prohibisse, El Rey e o duque me pedirão por vezes que deixasse estar a molher do duque tia delRey cõ o gentio co que estava por manceba principal, e desse liçença ao duque para se casar em vida da molher co a mançeba qo tinha, cuidando que podia ser, e não crendo dizer lhe Eu o contrario, antes escandalisandosse de lhe Eu não dar a liçença que pedião de que se deixa ver o como estão na fé, e como a entendem, e guardão, pois destas cousas ha muitas no Rey, e nos mores senhores que delle tem mais noticia que a outra gente, e neste viçio vevem todos de ordinario, não o tendo por afronta, nem pecado. São tão dados ao vinho que de nenhua manhã custumão falar despois de jantar, nem El-Rey, nem os grandes senhores, por que não ficão para isso nem se correm de assy ser, antes o tem por grandesa, mas sendo elle as vezes de ma calidade lhes fas cometer pecados e alguas vezes, chegou ElRey a escaramussar de guerra contra my, Clerigos e vassallos de V. M.de, dizendo em publico, e em vozes cõ os seus que nos avião de matar a todos, e que já não querião bautismo, Igreja, nem Clerigos, senão viver em sua liberdade e assy se está lá arisquo de o Vinho hua ves acabar cõ tudo, fazem cõ elle, arremedando as escomunhões da Igreja, prohibições de fogo, agoa, lenha, feira, e mais mercados a que chamão escomunhões da terra, e perseverão nellas algús dias com gritos, alaridos, e pregões, de dia e de noite, q atemorisão, e representão acabarsse tudo, padeçendo nisso os vassallos de V. M.de estas vilissimas necessidades, e vexações, e quando lhos passa como se não ouvera nada, se dão per amigos, pedindo vinho e outras cousas, e q lhes perdoem, e tambem elles alguas vezes, perdoão co facilidade os agravos q recebem, e mostrão temer as escomunhões da Igreja, e em quaisquer trabalhos pedem absolvições geraes, não dando numqua satisfação das culpas.

 

Dão por vaidade, porque tem muita, e por ella não ha cousa que diga grandes a magestade, Estado, que não procurem remedar, tendosse por valentes, não o sendo, por muy nobres e antigos (como são) por gentis homes e avisados, por mais poderosos q todos os monarcas do mundo, motejando de seus poderes, acompanhansse cõ muita gente sem ordem, tem muitos estromentos de musica, e de guerra ao seu modo, e cõ todos juntos saem fora, ainda q seja na Igreja, representando cõ isso e cõ as muitas çerimonias q se lhe fazem húa confusão grandiosa, trasem panos, custosos, e riquos, da sinta ate os pés, em lugar de sintos huás ataduras muy grossas a q chamão empondas, cabayas sobre a carne nua, e os braços de fora, chapeos de Clerigo bem guarnecidos, sapatõens, e as vezes botas, muitos abanos de rabos de cavalos, muitas insignias de suas dignidades, e os seus ministros mais graves e vallidos lhes vão mostrando o caminho, e alimpando e tirando delles qualquer tropeço, e cousa sem limpesa.

 

Muita da gente milhor criada, sabe ler, quando ElRey vay a Igreja vay muy acompanhado, e quando falta não vay lá gente; os domingos guardão mal, e os santos peor, se não São Sãotiago e são João Bautista, ElRey e os titulos trasem huás carapusinhas a que chamão empua que não tirão, nem ao santissimo sacramento, (posto q eu melhorey este abuso) mas não cõ EIRey, na proçissão das endoenças Vay ElRey descalço, e descoberto, e todos os seus, e assy andão a sesta feira, dá EIRey alguás esmolas e faz merces a muitos e aos Bispos mais q a todos por que tambem lhos pede a meudo o que ha mister.

 

As suas armas são, arcos, e frechas, espadas largas, e adargas, e adagas, podões, machadinhas, azagaias, e hús ferros ao modo das nossas lanças, ElRey e todos andão apee, e assy vão a guerra, e de hum dia para o outro se junta grande cantidade de gente, sem ordem e sem mantimentos, e se não levão consigo algus portuguezes, fazem pouco mais de nada, temem os jagas de manrª, que de ouvir fallar nelles se desordenão, e fogem.

 

São folgasões, e preguiçoosos, e por isso tendo terras larguissimas, e excellentes, por não samearem, senão muy poucos mantimentos peressem a fome, os mantimento os de que uzão são groçeiros, comvem saber: maça meuda, maça grossa, luco q he como painsso, felgões, ortalissa, ervas, aboboras, canas de açucar, miçefos e bananas, e alguas frutas do mato, tem alguas parreiras, romeiras, figueiras, çidreiras, larangeiras, limoeiros, e limeiras, e dando isto tudo ao menos duas novidades no anno, todavia he pouco, porque não cultivão. E o mesmo he em galinhas, porcos, ovelhas, cabras, e vaquas em todo o Reino de Congo, e no de Angola, e nos Ambundas tudo sobeja porque são mais trabalhadores e criadores, ha poucas fontes, e muitos Rios de que algus são caudalosos, muita caça, da de qua e outra diferente, e muitos generos de animais em que entrão, empacaças, e em palancas, q são como vacas, porcos monteses, e engallas q são ao seu modo; Zevras, Elefantes, tigres, onças, leões, gatos de Algalea, cobras grandissimas, e lagartos q fazem muito dano, cavallos marinhos, Ageas reaés, e bastardas, e da mesma manra Pilicanos, e muitos outros generos de Aves q esperão muito porque não andão acoçados.

 

ElRey he hum despençeiro ordinario de todos os seus, e se assy não for dandolhes de jantar lodos os dias, levantarssehão contra elle, e andando sempre em festas, o dia q lhe falta que dar aos fidalgos, escondesse e tudo he malencoria.

 

Morrendo ElRey dom Alvaro segundo, o duque de Bamba q he muy poderoso, governou tres dias, pondo e dispondo quanto quis, ao cabo delles levantou por Rey dom Bernardo Irmão do Rey morto, e por este despois de jurado o querer ser, se levantou contra elle mesmo manibamba que o tinha feito, e lhe deu guerra, e o constrangeo a que ferido se saísse do seu aposento, e se fosse a hum em que vivia antes de ser Rey, dando lhe palavra que o não matarião, e elle para se sigurar mais, se recolheo na Igreja de santo Antonio co seis ou sete dos mais seus va1idos, levantou então manibamba por Rey dom Alvaro terceiro, que agora reina, filho de dom Alvaro segundo. Este despois de jurado por não ter companheiro no setro, e Croa, entrou de noite na Igreja cõ mão armada, e matou ao tio que estava deposto de Rey, e aos q achou cõ elle, e os descabeçou, e descabeçados os fes levar arastar ate o lugar publico do pelourinho, a onde estiverão quasy tres dias, despois dos quaes por obra de piedade os enterarão algús clerigos as escondidas, e ElRey Emanibamba tomarão tão mal este acto de misericordia, que declarão aos Clerigos por imigos seus, e nesta alteração tão violenta, matarão muitos senhores, e outra gente, em diversas partes a que tinhão oferecido, seguro e perdão.

 

Avera como anno e meo que por presunções mal fundadas, EIRey dom Alvaro terceiro, tem publicado guerra contra manibamba seu sogro e reconciliandosse alguas vezes por terçeiras pessoas, e por my, e por meu Vigairo geral, todavia, se não virão numqua, e agora tem apregoado guerra de parte a parte, a fogo e sangue, de q se entende q Manibamba levara o milhor, porque he velho, sagas e poderoso, e por todas as vias ajunta assy os portuguezes que pode, queixandosse que ElRey o quer matar sem causa, e porque lhe pede que não esteja amançebado co sua filha, pois he casado cõ outra, e he artificio muy ordinario nelles, quando querem derrubar alguem, publicar que he mao christão ainda que assy não seja, e para este effeito, tem manibamba cosiguo todos os que por qualquer via tem pretenção ao Reino.

EIRey dom Alvaro segundo, foi bem quisto, e muy melhor obedecido que os que lhe suçederão, ainda que da mesma vida, chamousse magestade por assy lho meterem em cabeça algús Religiosos, e outras pessoas, tomando para isso motivo de entenderem mal hua carta q o sumo pontifiçe lhe escreveo, e por Eu lhe estranhar a magestade, e lha impedir por vertude de huá carta de V. M.de que para isso tive, e por prender e embarcar o padre deão diogo Roiz pestana, que era muy seu valido por V. M.de assy mo ordenar por outra, recebeo contra my grande odeo, e impedio o effeito desta prizão muitas vezes, de maneira que para a poder fazer, uzei de escomunhões, e interdictos, como V. M.de me mandou que o fizesse, e estas çenssuras, se levantavão huás vezes, e se tornavão a por outras, porque por muitas, mostrou elRey que obedeçia a ellas, tornando logo a desobedesser, e cõ esta sua preçeguissão, e odeo que durou em quanto elle viveo, receby Eu notavel perda, na quietação, Jurisdição, e fazenda, sem me apartar hum ponto do q V. M.de me mandou, como constara de muitos papeis q tenho em meu poder.

 

EIRey dom Bernardo que lhe sucedeo, e que durou pouco por ser morto por EIRey dom Alvaro terceiro seu sobrinho como he dito, e que Eu não vy por no seu tempo estar em loanda, no principio, correo bem comigo em cartas, e eu cõ eIle, quis tambem chamarsse magestade, e pediome que fosse a Congo para lhe lançar o habito de Christo, ou lhe mandasse licença para lá o receber, respondendo lhe Eu, segundo o q V. M.de me tinha mandado, que nenhua daquelas cousas, podia, nem devia fazer, representandoselhe, que Eu lhas negava plo molestar,e não por não poder, tambem se indinou muito contra my, e durou nisso em quanto viveo, que foi pouco, e numqua tomou o abito de Christo, nem tambem apertou muito sobre o titulo de magestade.

 

Tem a gente do Congo, e de Angola muitos ritos gentilicos de que assy uzão, os que o são, como os bautisados, e a Christandade pla maior parte he só de nome, porque quando os curas vão correr os districtos de suas capellas, he mais para receber as colheitas, que para ensinar, e assy bautisão a todos os q se lhe offerecem, sem diferença de pessoa, e sem os catequisar, e posto que por este modo ficão bautisados, he o bautismo informe, e tantos sacrilegios cometem, quantos bautismos fazem, e dando Eu distintamente a ordem que isto se devia ter, nem isso foi bastante para tirar este abuso (posto que em parte se melhorou) e para sever qual he a christandade daquellas partes, e como ellas se administra bautismo, digo o q me aconteçeo, indo visitar os presidios, a onde numqua foi outro prelado; e he que achando entre os sovas da obediencia de V.M.de no presidio de Cambambe, sete bautisados, e perguntandolhes publicamente pla doutrina, nem essa, nem o sinal da Cruz sabião, nem se tinhão confessado numqua, nem entrado em Igreja, afirmando que nenhua destas cousas se lhe diçera, quando forão bautisados, e perguntandolhes, se deixarão as mancebas, ou quantas tinhão, o principal respondeo que çento e vinte, outro que çento, outro q sessenta, outro que çincoenta, outro q trinta, outro que vinte, e outro que quinze, e sendo esta a christandade assy querem os governadores que os padres bautisem; entendendo que nisso acertão e poderão alegar que converterão muitas almas, e tambem se não fas este officio cõ a perfeição devida, quando em 1oanda se bautisão os escravos q se embarcão para fora, porque ha aly, só hum Vigario a que pertence, e que alem de não saber a lingua, trata mais de receber o premio, que de acertar em seu officio.

 

Naquelle Bispado não achey constituições, nem cousa por onde me ouvesse de governar, e por isso as fis com muito trabalho, e he magoa grande que sendo a gente tanta, as terras tão fertis, e tão largas, se perca tudo, por falta de ministros Eclesiasticos, o Porto de Loanda he excelente, mas o territorio cõ seus arredores, sequo, e infrutuoso, e passão dous, tres e mais annos que não chove, sendo muito ao contrario pla terra dentro, os Reys do Congo trasem todos o habito de Christo cá sua seta de são Sebastião, e o mesmo os duques, de batta, e bamba, e os manilouros, tendolhes V.M.de por veses mandado declarar, q não pode ser, por ser cousa Eclesiastica e de grande escrupulo e só concedida a V.M.de, como mestre da ordem, e não há podelos tirar deste abuso, por que crem firmemente que o q hua ves se lhe deu, he para dos os q lhe suçederem, sendo assy, que o que eIles dão, tirão cada ves que querem, e trasem ao pescoso muitas cadeas de ouro, alquime, e aço, cõ muitos habitos, tendo o por grandesa, e loucainha. São os Rey do Congo, univerçaes erdeiros de todos seus vassaIlos, e tomando para ssy, o que querem do q lhes fiqua, o mais dão livremente a quem querem, e os que hoje são duques amanhã os tirão, e ficão servindo a fidalgos ordinarios.

 

Esteve o Reino do Congo despois de sair deste o capitão mor Anto Glz pita, sem capitão, nem ouvidor de V. M.de algus annos, e despois fis Eu cõ muito trabalho reçeber hum que mandou o governador luis mendes de Vasconcelos, a q se tem muy pouco respeito, porque EIRey se mete em tudo, e trata muy mal os vassallos de V.Mde. levando os consigo a força descarapusados, e o mesmo fazia aos saçerdotes, e ainda os obrigua a que o acompanhe as guerras e a outros caminhos que fas, sem lhes dar o neçessario para isso, aos paçageiros desbalijão, e empendenlhe os caminhos, levanlhe extraordinarios tributos, e peitas, q acressentão, cada dia, e postas e outras, extorções, ha grandes desgostos, queixas, e perdas. Pedem Sol, e chuva aos prelados, e aos sacerdotes, como a pedem aos seus feitiçeiros, e queixãosse de lha não darem, como se isso fora em sua mão.

 

V.M. de manda que nenhuas fazendas prohibidas pelos Reys de Congo, levem os portugueses, a seus Reinos e q se lhos tomem por perdidas, todas as que não registarem, e porque isto se não guarda ha cada dia, grandes inquietações, tem EIRey de Congo prohibido cõ grandes penas, que não levem os Vassalos de V.M. de a seus Reinos Zimbo do brazil, e de outras partes, porque como essa he moeda que nelles corre, esta cõ a grande cantidade q vay de fora; tão abatido o seu, que perde nelle as duas partes de suas rendas, e o mesmo aconteçe aos Eclesiasticos porque nelle lhe fazem o pagamento de algús dizimos q lã ha, e por este respeito a petição do mesmo Rey, o prohiby Eu por escomunhão, e nem cõ ella, nem cõ as penas q EIRey tem posto, deixa de entrar, em tanta quantidade, que vay deitando aquele Reino a perder, e se EIRey para o atalhar dá algum castiguo alevantáolhe que presegue os vassalos de V.Mde. E não respeitão que elles são os que o perçeguem a elle, levando lã muitas mercadorias falças, e vendendoas por finas, em muy grande perjuiso de suas consçiençias e desacato de hum Rey christão, que V.M.de ampara, e manda amparar sempre.

 

Todas as materias de Justiça, se julgão por audiencias verbaes, e co muy pouca prova confiscão as fazendas, degredão, matão, empenão, e apedrejão, e se logo se não executão suas resoluções verbaes, por qualquer roguo e peita se perdoão dilictos gravissimos, e pelo liviçemos e mal provados, morrem e padeçem os dos favorecidos, e estão tão entregues a este modo de proceder gentilico que não avera força umana que cõ elles introdusa outro christão, deixãosse entrar de qualquer sospeita, e são façelissimos em levantar testemunhos falços, e em se desdiser delles, e sendo arguidos dos vicios em que caem de maravilha os negão, os principais tenho aprontado, e para os q ficão serião neçeçarios livros inteiros.

 

Ds. guarde a Catholica pessoa de V. Mde.

 

De lisboa a 7 de setembro de 1619.

 

Cota: Copia da relação dos costumes, Ritos e usos do Reino do Congo que o Bpo deu a V Mgde, e peccados que nelle se cometem.

(Biblioteca Nacional de Lisboa. Secção Ultramarina Caixa 145 de Angola).

 

Rio de Janeiro, 20/07/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

GUERRA E MORAL NO MÉDIO ORIENTE

 

 

Quanto tempo pode um Estado democrático de direito, como Israel, sobreviver a uma guerra sem fim? Para já, tem os meios necessários. Mas se um dia lhe faltarem, não teremos muito tempo para o lastimar

 

O chamado "conflito do Médio Oriente" está connosco há décadas. Nem por isso se tornou mais claro. Pelo contrário, tudo parece hoje um pouco mais confuso, como sugere a tendência para reduzir a questão a uma contabilidade macabra: as operações militares israelitas, segundo fontes em Gaza, terão provocado até agora 200 mortos; o Hamas, apesar dos seus esforços (mais de 1200 mísseis disparados), só conseguiu matar um israelita. Logo, tratemos de nos indignar e marchar contra Israel.

 

É absurdo. Imaginemos, por exemplo, o princípio aplicado à II Guerra Mundial. Em meados de 1944, os Aliados ocidentais iniciaram o bombardeamento sistemático das cidades da Alemanha; ao mesmo tempo, a Alemanha flagelava o sul de Inglaterra com mísseis. Os bombardeamentos anglo-americanos terão feito, aceitando os números de Jorg Friedrich, 600 mil vítimas civis, incluindo 76 mil crianças; os mísseis alemães mataram cerca de 9 000 pessoas.

 

Vamos dizer que as democracias ocidentais eram piores do que a ditadura nazi? Não: vamos dizer que, com mais recursos, puderam causar maiores danos. Os nazis conduziam então o extermínio da população judaica da Europa e projectavam instalar uma ordem racial em que a maioria dos europeus seria classificada como seres inferiores. Era isso que os diferenciava dos Aliados, não os resultados das respectivas campanhas aéreas em 1944-1945.

 

Podemos (e devemos) lamentar o uso de certos meios. Mas a distinção moral entre forças combatentes não se faz na frente de combate. Aí, a regra para bons e para maus é infelizmente a mesma: tentar causar o maior prejuízo possível ao inimigo. Se pretendermos separar moralmente Israel e o Hamas, pensemos antes no rapto e assassinato dos três adolescentes israelitas em Junho. Em represália, um adolescente árabe teve a mesma sorte. Ora, o governo de Israel condenou o homicídio do jovem árabe e identificou e prendeu os seus autores. Do outro lado, o Hamas nem sequer foi capaz de condenar o assassinato dos três jovens israelitas, cujo rapto um seu porta-voz terá mesmo louvado. Eis aqui dois padrões de moral e de direito. E se não vemos tudo aquilo de que o regime intolerante e misógino do Hamas é capaz, é apenas porque não tem os recursos de Israel. Se tivesse, Israel já não existiria.

 

Perante a proposta egípcia de cessar-fogo, o Hamas deixou claro que prefere a guerra. A sua estratégia é óbvia: confrontar o Estado judaico com um dilema: ou Israel continua a controlar territórios e populações fora das suas fronteiras, aviltando-se numa ocupação sem nobreza e sem futuro, como acontece na Cisjordânia, ou retira, como fez no sul do Líbano e em Gaza, apenas para ver movimentos como o Hamas ou o Hizbollah converterem essas áreas em bases de guerra e sujeitarem os habitantes aos "martírios" da sua propaganda.

 

O governo de Israel diz que o objectivo da corrente operação militar em Gaza é estabelecer a paz "de uma vez por todas" (expressão usada pela embaixadora de Israel em Portugal, num artigo publicado ontem). Mas nenhuma operação militar deste tipo, devido aos limites humanitários e aos constrangimentos diplomáticos que Israel aceita, será alguma vez decisiva. A grande questão é saber quanto tempo pode um Estado democrático e de direito, como Israel, sobreviver a uma guerra sem fim. Por enquanto, tem os meios materiais necessários. Mas até quando? É que se um dia lhe faltarem, não teremos muito tempo para lastimar Israel.

 

17/7/2014

 

 Rui Ramos

 

in Observador

O GES e o BES

 

 

 

Henrique Salles da Fonseca pediu:

 

Prezado Dr. Palhinha Machado, pode esclarecer-nos sobre a questão do GES e do BES?

 

António Palhinha Machado respondeu:

 

M/ Caro Dr. Salles da Fonseca,

 

Tudo o que havia para dizer sobre o caso GES/BES já tem aparecido nos media com os mais variados tons, do róseo ao negro carregado.

 

Escrever que os Bancos portugueses estão há muito muito frágeis? Seria repetir-me.

 

Escrever que os Supervisores (BdP e CMVM) não sabem o que andam a fazer? Não tenho feito outra coisa.

 

Escrever que todo o plano da troika foi mal parido e condenado ao insucesso porque não começou por pôr os Bancos portugueses no são? Já ouço os Leitores do blog a dizer entre dentes: "Lá vem este caturra, de novo".

 

Escrever que o modelo de mercado tem um pecado original (tem outros, mas é este que se manifesta agora) que é depender fundamentalmente da liquidez sem ter como fixar-lhe o volume desejável? Já o fiz de várias maneiras.

 

Escrever que no modelo de mercado (tal como hoje existe por esse mundo fora) a liquidez que o faz funcionar é passivo dos Bancos (Bancos Centrais e Bancos Comerciais) e que para emiti-la há que pôr o sistema de pagamentos em contacto directo com os mais diversos riscos financeiros (mais um defeito de origem)? Talvez fosse um pouco assustador.

 

Escrever que o BdP, logo que começou a entrever a verdadeira situação do GES, deveria ter exigido a limpeza do Balanço do BES, e a inevitável capitalização (com o saldo que ainda existe no empréstimo da troika) para cortar o mal pela raiz? Acusar-me-iam de estar a preencher o Totobola à 2ª fª - e com razão.

 

Escrever que o BdP e a CMVM não deveriam ter permitido o último aumento de capital do BES antes da referida limpeza, pelo que também eles estão expostos a responsabilidade extra-contratual (mais uma via para chegar ao bolso dos contribuintes)? E lá estaria eu "a malhar nos pobrezinhos", uma vendetta que ninguém compreenderia.

 

Escrever que o anunciado agravamento da exposição do BES ao GES, nestes últimos meses, só foi possível com a complacência (ou graças à negligência) do BdP? E escreveria o óbvio.

 

Escrever que passaríamos bem sem a tormenta que aí vem? Lá estaria o profeta da desgraça.

 

Escrever que tudo isto que nos caiu em cima nos últimos 5 anos, mais o que está vai-não-vai para cair, é uma bênção se nos levar a arrepiar caminho e a comportarmo-nos como uma sociedade civilizada (o que duvido profundamente)? Olha o moralista que só agoira.

 

É claro que sei mais uns detalhes que ainda não vieram - e, provavelmente, nunca virão - a público. Mas nem seria preciso recordar-me do dever de sigilo profissional para "guardar de Corrado o prudente silêncio".

 

No fim de tudo, só uma coisa me surpreende, por ir muito para lá do que eu alguma vez imaginei: então, após tantos testes de stress, e já com o fumo negro no ar (pelo menos, desde o momento em que a troika passou as contas dos Bancos portugueses a pente fino), o BdP ainda ignora os números exactos da exposição do BES ao GES, quer no Balanço, quer nas fianças informais? E ninguém por lá é responsabilizado? Isto excede a m/ compreensão.

 

Como vê, não tenho nada de interessante para publicar. Até porque estou longe, e longe andarei pelos tempos mais próximos.

 

Abraço

 

 APM

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