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A bem da Nação

NO PÓ DO TEMPO

 

Dois artigos de Vasco Pulido Valente que me fizeram recuar, como já tenho feito, a 40 anos antes, em que a minha não direi “pluma”, mas sim “cana”, mais inclinada para o sopro - também não lhe chamarei vergastante mas ligeiro, “dessa cana”, apesar de uma ou outra farpa poder aflorar em ligeiros vergões, causados por rupturas nos canaviais dos tempos. Tempos de “Pedras de Sal” (1974), mas também de “Cravos Roxos” (1981), que incluíram aquele, tempos de “Anuário” (1999), tempos de antanho e de ogano, em que, se não fui repelida também nunca fui bem aceite, no desprezo moderno por quem seguiu sempre uma linha refractária àquilo que Vasco Pulido Valente tão sabiamente define: “Sob a tutela, e com a colaboração, do PC e da extrema-esquerda, o MFA descolonizou, nacionalizou, ajudou a ocupar a terra no Alentejo e no Ribatejo, “saneou”, onde o deixaram, personagens que não lhe pareciam, e às vezes não eram, de confiança, censurou a imprensa e a televisão, prendeu a torto e a direito, sem processo ou mandato, e acabou com uma campanha que se destinava a desprestigiar e a suprimir a Assembleia Constituinte. Em quase tudo, seguiu, letra a letra, o manual de Lenine.”

Eis o artigo onde colhi a referência, do Público de 18/4/2014:

«Legitimidades»

Uma “revolução” (ou um pronunciamento militar) contra um regime político ilegítimo é, por definição, legítima. Mas dela não deriva uma legitimidade revolucionária. A legitimidade revolucionária não existe. Não passa de um poder de facto.

 

Desde o primeiro momento que os “capitães de Abril” não perceberam (ou mesmo rejeitaram) esta realidade. Quando saíram à rua, já traziam um “programa” para Portugal, feito não se sabe por quem e largamente copiado do programa do PCP. Não viram, ou viram bem de mais, que estavam assim a substituir a sua vontade à vontade do país. Por outras palavras, que estavam a criar uma nova ilegitimidade. Isto não os comoveu. Os putativos “valores” da “revolução” serviram para justificar qualquer espécie de arbítrio ou de violência.

 

Sob a tutela, e com a colaboração, do PC e da extrema-esquerda, o MFA descolonizou, nacionalizou, ajudou a ocupar a terra no Alentejo e no Ribatejo, “saneou”, onde o deixaram, personagens que não lhe pareciam, e às vezes não eram, de confiança, censurou a imprensa e a televisão, prendeu a torto e a direito, sem processo ou mandato, e acabou com uma campanha que se destinava a desprestigiar e a suprimir a Assembleia Constituinte. Em quase tudo, seguiu, letra a letra, o manual de Lenine. Quando, em 2014, as “luminárias” da política, do jornalismo e da cultura e até a dra. Assunção Esteves, a segunda figura do Estado, se esforçam por manifestar aos “capitães de Abril” o seu “carinho”, o seu “afecto” e a sua “gratidão”, esquecem que, entre os primeiros dias do Verão de 1974 e o “25 de Novembro” de 1975, não existiu em Portugal verdadeira liberdade; e que só oito anos mais tarde os portugueses conseguiram abolir a tutela militar do Conselho da Revolução.

 

O coronel Vasco Lourenço e os seus consócios querem agora falar na Assembleia da República, presumivelmente para defender aquilo a que chamam “ideais” de Abril, que, na sua douta opinião, o Governo anda por aí a trair. Sucede que o Governo foi eleito e que nenhum título assiste aos militares, que se consideram depositários de uma herança hoje desacreditada e morta, para expender no Parlamento as suas frustrações. Verdade que a fúria contra a “austeridade” vai tomando formas cada vez mais dúbias. Mas seria intolerável que a República se comprometesse com um gesto que afectaria gravemente a sua própria legitimidade.

 

Também o artigo “A poeira”, de 20/04/2014, repõe, com amplo saber, verdades que nos distinguem como um povo que, endeusando figuras gratas aos paladares dos ambiciosos de mudança, lhes mantém as prerrogativas de mentores trapalhões e mal intencionados, que nunca amaram o seu país e continuam a destrui-lo, chamando à liça esses tais dos capitães, que em tempos desprezaram e agora acarinham num propósito vilmente pueril, que rasteiramente fingimos ignorar. Eis o texto de Vasco Pulido Valente

 

A poeira”

 

Nunca em Portugal concorreram tantos partidos a uma eleição. Alguns, como o PPM e a Nova Democracia, são restos de uma direita morta. Outros vêm de uma extrema-esquerda que se divide e subdivide, por razões que escapam ao comum dos mortais. Os partidos da direita não incomodam ninguém. Os partidos da extrema-esquerda, com o seu atávico fanatismo, vivem num mundo que não existe. Não que deliberadamente escondam a verdade ao país, mas falam de um futuro impossível contra a evidência mais clara e comprovada, anunciam políticas que levariam Portugal a uma inconcebível miséria e alimentam esperanças que levarão inevitavelmente ao desespero. Contra isto não há nada a opor, excepto a paciência e a consoladora previsão que o eleitorado os varrerá de cena.

 

O pior é que, com meia dúzia de excepções, a extrema-esquerda espalha a intolerância e o ódio em nome da liberdade. Por enquanto, só verbalmente. Mas nada nos garante que o verbo não se torne em acção à medida que a crise for durando e que os fracassos se acumularem. Quando se vê o dr. Mário Soares, com a sua energia do costume, oferecer o seu apoio aos “capitães de Abril” e à gente inominável que os segue, negando um a um os princípios que defendeu no PREC e recolhendo à sua volta os pequenos ditadores que ele nessa altura detestava, o mundo parece virado do avesso. O dr. Soares não percebe talvez que este tributo que ele presta à irracionalidade e à raiva oferecem um exemplo e uma justificação a uma extrema-esquerda que provavelmente não saberá parar a tempo.

 

Estas desordens passaram também para o PS, onde Seguro mistura alhos com bugalhos. O “maior partido da oposição”, como ele se descreve e gosta que lhe chamem, não deu ainda por que em França Hollande, através de Manuel Valls, é obrigado a engolir, como nos sucedeu aqui, uma versão local do programa da troika, que durante anos jurou rejeitar. Do PC ao PS e à poeira de oportunismo e pura estupidez que os rodeia, a esquerda já não é racional. Ganhe ou não ganhe em 25 de Maio, a sua essencial mendacidade, consciente ou não, ficará à mostra. Os portugueses compreendem que o dinheiro que hoje nos chega da Europa e, em pequena parte, dos “mercados”, não chegaria, e não chegará, se o furor da esquerda e da extrema-esquerda se puder expandir à sua vontade. E, se por acaso não compreenderem, a realidade não desaparece por isso.

 

Para acabar “em beleza”, transcrevo um breve texto de “Pedras de Sal”, que na altura foi escrito com o humor de quem se sentia mergulhar num atoleiro – aquele que fomos atravessando nos quarenta anos que nos separam dessa altura, com homens e mulheres em debandada do antigamente, oportunisticamente adaptados à mudança, que muitos – os mesmos que a perpetraram - antevêem agora sem futuro – para melhor apearem o único governo que mantém firmeza de rectidão e seriedade nas soluções escolhidas:

 

As Democratas

 

As democratas chiques vão às sedes dos democratas, tal como dantes era chique ir-se aos chás do Governo Geral. A diferença reside apenas nas luvas e no chá, de qualidade actual inferior, mas transmissores de um nobre sentido de orgulho e realização plena.

 

Com efeito, sentem-se amplamente realizadas ao apelidarem-se de “democratas” coim os seus maridos ou os seus amigos, desprezam o conceito “démodé” de pátria, e acham generoso, também como eles, cederem a África aos africanos.

 

Para procederem de acordo com esse nobre ideal, fazem as bagagens para levantar nobremente ferro, mas outras democratas mais destemidas não levantam nada, ansiosas por virem a usufruir, com os seus maridos ou os seus amigos, as regalias a que têm jus da parte dos futuros governantes africanos, agradecidos pelo auxílio inestimável dos democratas generosos.

 

As democratas chiques fazem grupinhos com outras também chiques e também democratas, escutam com reverência insuspeita as africanas e os africanos que se fartam de dizer coisas sorridentes, desprezam as reacionárias, ou seja, as não chiques e apenas patriotas ou sensatas . Também adoptam ares intelectuais, pois tão nobres doutrinas surgiram, sem dúvida alguma, não na camada dos que lutaram alguma vez (1) mas na camada dos que leram dez ou vinte livros na sua vida de profundo êxito intelectual, sobretudo manifestado nestes tempos de liberdade de manifestações.

 

Eu fico extasiada a olhá-las, gosto muito das suas aparências, que se vê logo serem do mais puro democrata, ou seja, do mais puro chiquismo.

 

(1) Perdoe-se-me a ingenuidade da crença, anterior ao 27/7/74*

 

*Em 27 de Julho de 1974, num discurso justificadamente classificado de histórico, o general António de Spínola, presidente da República Portuguesa, reconheceu às populações da Guiné, Angola e Moçambique o direito à autodeterminação e à independência, declarando-se pronto a iniciar imediatamente o processo de transferência de poderes. (Internet)

 

No mesmo livro “Pedras de Sal” me referi a essa data da seguinte forma:

 

A Data Histórica

27 DE JULHO DE 1974

FIM DO IMPÉRIO UILTRAMARINO PORTUGUÊS

«DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS TEM!»

 Berta Brás

A APLICAÇÃO DA PRÁTICA ALEMÃ...

 

... seria oportuna para os Países carentes do Sul

 

Transferência de 2 triliões de Euros como Contributo de Solidariedade para a antiga Alemanha de Leste

 

Para se ter a ideia do atraso da DDR (antiga Alemanha oriental) em relação à Alemanha ocidental (BRD), basta ter presente que, depois da união das duas alemanhas, a Alemanha oriental recebeu, segundo o investigador Klaus Schröder, nos últimos 25 anos, dois trilhões (triliões) de euros. Apesar disso ainda não atingiu o nível de vida da antiga Alemanha ocidental (BRD).

 

Todo o cidadão da antiga Alemanha ocidental é obrigado a pagar um suplemento de imposto que é transferido para a parte oriental; apesar da contínua transferência de milhares de milhões de euros por ano, a parte oriental da Alemanha ainda se encontra atrasada a nível de ordenados e reformas, em relação à Alemanha ocidental.

 

A solução para o equilíbrio das economias dos países do norte e do sul da União Europeia teria de passar por um imposto de solidariedade dos países ricos para os países pobres, tal como acontece dentro da Alemanha. Assim se construiria uma UE com base na solidariedade e numa união responsável. A UE, para chegar a uma união de facto terá de superar os muros internos nacionalistas e económicos. Uma análise da sociedade alemã e da maneira como soluciona os seus problemas nacionais poderia servir para um discurso mais realista em sociedades com problemas económicos e sociais.

 

Queda do Muro de Berlim e do Comunismo soviético há 25 Anos

 

Para o sindicalista e Nobel da Paz, Lech Walesa, as primeiras fendas nos muros do comunismo soviético “deram-se nos estaleiros de Gdansk” e “sem o movimento de liberdade da Polónia não teria havido a queda do muro de Berlim, há 25 anos.

 

O sindicato Solidarnosc (Solidariedade), em mesa redonda com o governo (apoiado pela Igreja), conseguiu em 1980 um pacto de “renúncia à violência” (HNA 5.05.2014).

 

No início de Abril de 1989 foram acordadas, entre o governo da Polónia e o movimento Solidarnosc, eleições, meio livres, que reservavam 35% dos lugres no parlamento resultantes de eleições livres (oposição) e 65% para os partidos do governo. As eleições (4.06.1989) provocaram um colapso imprevisto pelo sistema na sociedade polaca: 160 dos 161 mandatos no parlamento foram ganhos pela oposição em torno da Solidarnosc, bem como 92 das 100 possíveis lugares no Senado.

 

A 27 de Junho de 1989, a Hungria começou a desmontar o arame farpado da fronteira, declarando o fim da ditadura comunista. A 19 de Agosto de 1989 a Hungria deixa cidadãos da DDR (Alemanha socialista) passar a fronteira para a Austria.

 

Michael Gorbatchev (1985, Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética) queria evitar o colapso económico do comunismo da União Soviética e impedir o seu contínuo atraso em relação ao Ocidente, e, nesse sentido, permitiu uma certa flexibilidade na liberdade de opinião (Glasnost) e democratização dos Estados (Perestroika), o que autorizava reformas dentro do Estados da União Soviética. Gorbatschow declara o fim de alerta para os Estados e assegura em Berlim (40º aniversário da DDR a 7.10.1989) aos jornalistas: ” Perigos só vêm para aqueles que não reagem à vida... Quem chega atrasado será punido pela vida“ (HNA).

 

O Muro de Berlim caiu a 9 de Novembro de 1989. A partir daí os cidadãos têm liberdade de passar a fronteira. A reunificação da Alemanha deu-se a 3 de outubro de 1990.

 

Em 25 de Dezembro de 1991, com a renúncia de Gorbatchev, dissolve-se a União Soviética surgindo dela doze repúblicas restantes como países pós-soviéticos independentes. A Federação Russa é agora a continuadora da antiga União Soviética.

 

 António da Cunha Duarte Justo

AS MENTIRAS "VERDADEIRAS"

 

 

“Comparado ao carniceiro profissional do Caribe, os militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio”

in “O homem mais lúcido do Brasil – as melhores frases de Roberto Campos”, p. 53, organização Aristóteles Drummond, Ed. Resistência Cultural, 2014.

 

Na memória dos 50 anos do Movimento de 1964, que derrubou o governo Jango, tem sido ele criticado pelos que fizeram guerrilha, muitos deles treinados na sangrenta ditadura de Cuba e que objectivavam implantar um regime semelhante no Brasil, ao mesmo tempo que se vangloriam como sendo os únicos e verdadeiros democratas nacionais. Assim é que a própria Comissão da Verdade se negou a examinar os crimes dos que pegaram em armas – muitos deles terroristas, autores de atentados a shoppings e de homicídio de inocentes cidadãos –, procurando centrar-se exclusivamente nos praticados pelo governo militar, principalmente nas prisões onde houve tortura.

 

Com a autoridade de quem teve um pedido de confisco de seus bens e abertura de um inquérito policial militar (IPM), nos termos do Ato Institucional n.º 5, em 13/2/1969, pertenceu à época à Amnistia Internacional, combatendo a tortura perpetrada pelo governo, foi conselheiro da OAB-SP, opondo-se ao regime, e presidiu o Instituto dos Advogados de São Paulo na redemocratização, quero enumerar algumas "mentiras verdadeiras" dos adeptos de Fidel Castro recém-convertidos à democracia.

 

A primeira é a de que foram os militares que quiseram a derrubada do governo. Na verdade, foi o povo que saiu às ruas, com o apoio da esmagadora maioria dos jornais, como se pode ver pelas fotografias do dia 19 de Março de 1964 na Praça da Sé, diante das sinalizações do governo de que pretendia instalar o comunismo no Brasil. Depois do fatídico 13 de Março, em que Jango incitou os sargentos a se rebelarem contra a hierarquia militar, até mesmo nomeando um oficial-general de três estrelas para comandar uma das Armas, os militares apenas atenderam ao clamor popular para derrubá-lo.

 

A segunda mentira é a de que a repressão militar levou à morte de milhares de opositores. Entre combatentes da guerrilha, mortes nas prisões ou desaparecimentos, foram 429 os opositores que perderam a vida, conforme Fernão Lara Mesquita mostrou em recente artigo publicado no Estado. Por sua vez, os guerrilheiros, entre inocentes mortos em atentados terroristas e soldados em combate, mataram 119 pessoas.

 

Comparados com os paredóns de Fidel Castro, que sem julgamento fuzilou milhares de cubanos, os militares foram, no máximo, aprendizes desajeitados.

 

A terceira mentira é a de que o movimento militar prejudicou idealistas, que só queriam o bem do Brasil. Em comissão pelos próprios opositores do governo de então organizada, foram indemnizadas 40.300 pessoas com a fantástica importância de R$ 3,4 biliões.

 

Eu poderia ter requerido indemnização, pois o pedido do confisco de meus bens e a abertura de um IPM contra mim prejudicaram, por anos, minha carreira profissional. Mas não o fiz, pois minha oposição, à época, ao regime não era para fazer, mais tarde, um bom negócio, com ressarcimentos milionários.

 

A quarta mentira é a de que os democratas recém-convertidos queriam uma plena democracia para o Brasil. A atitude de "admiração cívica" da presidente Dilma Rousseff ao visitar o mais sangrento ditador das Américas, Fidel Castro, em fotografia estampada em todos os jornais, assim como o inequívoco apoio ao aprendiz de ditador que é Nicolás Maduro, além de aceitar o neo esclavagismo cubano, recebendo médicos da ilha - tratados, no Brasil, como prisioneiros do regime, sobre ganharem muito menos do que seus colegas que integram o programa Mais Médicos -, parecem sinalizar exactamente o contrário. Apesar de viverem sob as regras da democracia brasileira, há algo de um saudosismo guerrilheiro e uma nostalgia que revela a atracção inequívoca por regimes que ferem os ideais democráticos.

 

E para não me alongar mais neste artigo, a quinta mentira é a de que o Brasil regrediu naquele período. Nada é menos verdadeiro. Durante o regime militar os ministros da área económica eram muito mais competentes que os actuais, tendo inserido o Brasil no caminho das grandes potências. Tanto que, ao final, o Brasil estava entre as dez maiores economias do mundo. Hoje, com o crescimento da inflação, a redução do PIB, o estouro das contas públicas, o desaparecimento do superávite primário do início do século, os défices do balanço de pagamentos e a destruição dos superávites da balança comercial, além do aparelhamento da máquina pública por não concursados – amigos do rei -, o País vai perdendo o que conquistara com o brilhante Plano Real, do presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

O ministro Torquato Jardim, em palestra em seminário na OAB-SP, que coordenei, sobre Reforma Política (2/4), ofereceu dados alarmantes. O presidente Barack Obama, numa economia quase oito vezes maior que a do Brasil, tem apenas 200 cargos comissionados. A presidente Dilma tem 22 mil!

 

Tais breves anotações - mas já longas para um artigo - objectivar mostrar que, em matéria de propaganda, Goebbels, titular de comunicação de Hitler, tinha razão. Uma mentira dita com o tom de verdade, pela força da propaganda que o poder oferece, passa a ser uma "verdade incontestável".

 

Espero que os historiadores futuros contem a realidade do período, a qual não pode ser contada fielmente por "não historiadores" que se intitulam mentores da "verdade", ou por comissões com esse estranho nome criadas.

 

 Ives Gandra da Silva Martins

TAL O“ROCKET”

 

Um texto de Vasco Pulido Valente, do “Público” de 27/4 - «A lógica das coisas» - que mostra, com efeito, alguém com uma lógica superior, fundamentada no saber dos livros que, extrapolando para a experiência própria, e fortificada por viva inteligência, apela a imediata percepção, pela simplicidade e clareza daquilo que argumenta, espécie de O’ Sullivan nos malabarismos do seu Snooker, que faz que pareça fácil o que não é senão fruto de espantosa perícia resultante de inteligência e trabalho. Pena é que as suas palavras sejam lançadas ao vento vão da indiferença acintosa no nosso deserto ressequido, onde à meditação se sobrepôs a indolência crónica e o ignaro alarido.

 

Com efeito, o seu artigo «A lógica das coisas» centra-se na incompatibilidade entre os direitos políticos e os sociais, tendo como pano de fundo uma base de igualdade e liberdade criada pela generosidade doutrinária dos filósofos da Revolução Francesa, que conduziu a épocas sanguinárias, nada nem ninguém respeitando, a coberto, sobretudo, de uma mistificatória noção de um vale tudo anárquico, pelo menos entre os povos que não primam por uma racionalidade de cariz cultural.

 

 

 

Já o nosso Sá de Miranda, em tempos em que tais doutrinas ainda não floriam, apontava, na “Carta a D. João III”, a necessidade da chefia entre os próprios irracionais, à imitação da ordem por que se rege a natureza, para concluir que, à semelhança disso, também uma regência superior é indispensável entre os homens, acentuando, contudo, a obrigatoriedade dos reis de governarem com humanidade:

 

… Um rei ao reino convém.
Vemos que alumia o mundo
Um sol, um deus o sustem.
Certa a queda e o fim tem

O reino onde há rei segundo.

Não ao sabor das ovelhas
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas.

A cabeça os membros manda,
Seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa,
A tempo o ferro é mezinha.
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa

Da sua grei montesinha.

Às aves, tamanho bando:

D'outra liga e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei;

Que o sol claro atura, olhando,


Tudo seu remédio tem

E que assim bem o sabeis,

E ao remédio também;

Querei-los conhecer bem,

No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:

Porém, senhor, somos muitos,

E entre tanta multidão

Tresmalham-se-vos os frutos,

Que não sabeis cujos são.

(...)

Sempre foi, sempre há de ser,

Que onde uma só parte fala,

Que a outra haja de gemer:

Se um jogo a todos iguala,

As leis que devem fazer?

(...)

Do vosso nome um grão rei

Neste reino lusitano,

Se pôs esta mesma lei,

Que diz o seu pelicano

Pola lei, e pola grei.

 

Mas, como afirma Vasco Pulido Valente, «no Portugal de 2014, a retórica da liberdade e a retórica da igualdade estão pouco a pouco a confluir.» E as consequências desse facto convergem na destruição, alimentada pela voz dos bardos. E também pela dos ex-chefes que, tendo introduzido e dissertado monocordicamente sobre esses slogans ao longo das suas carreiras vitoriosas, sabendo embora quanto são falsos e passíveis de egoísmos e corrupção, continuam a esbanjar esses saberes da sua e nossa irracionalidade. Talvez porque lhes andam mexendo nos bolsos, e nos dos seus amigalhaços de condição. Que tal facto é incontroverso:

 

«A lógica das coisas»

 

Desde o princípio da revolução francesa que se aprendeu uma verdade elementar: a identificação dos direitos políticos com os direitos “sociais” leva sempre à perda dos direitos políticos, sem promover os direitos “sociais”. Foi este o peso que tarde ou cedo acabou por derrotar e quebrar a esperança de centenas ou milhares de movimentos que aspiravam a mudar radicalmente o mundo.

 

Ou, se quiserem, para resumir o problema por outras palavras, a liberdade não é na prática compatível com a igualdade. A igualdade tem de ser imposta e essa imposição degenera rapidamente em ditadura e, a seguir, a ditadura em terror. Como sucedeu aos jacobinos de Robespierre, aos socialistas de 1848, aos bolcheviques de Lenine, aos cubanos de Castro e a um número infindável de aprendizes de feiticeiro.

 

Luís XVI, conduzido como sempre pelo espírito do tempo, fez juntar ao voto os “cadernos de lamentos" (cahiers de doléances) das populações. O que levou, evidentemente, as populações a presumir que os Estados Gerais se reuniam não só para fazer uma constituição para a França mas também para pôr fim de uma vez à miséria e à injustiça de séculos. Esta ideia, como se compreenderá, tornou impossível a existência de qualquer governo, porque as dificuldades materiais (a falta de géneros básicos, o preço do pão, a inflação geral) começaram a ser compreendidas como traições à pátria e à liberdade; e os “traidores” que viviam melhor a ser guilhotinados (aristocratas, ricos, comerciantes, merceeiros e por aí fora). Em última análise, tudo isto trouxe o despotismo militar de Napoleão.

 

Sem querer dar um grande salto do trágico para o trivial, no Portugal de 2014, a retórica da liberdade e a retórica da igualdade estão pouco a pouco a confluir. Na esquerda, claro, e até numa certa direita populista e cristã. Quando, por exemplo, se diz que não há um Estado democrático, se não houver um Estado social, este postulado implica que o poder político não é legítimo se diminuir os salários do funcionalismo, ou as pensões dos reformados, ou se o Serviço de Saúde e a escola pública não forem suficientemente financiados. Pior ainda: uma nova espécie de “revolucionários” põe como seu objectivo estratégico, numa perfeita fusão da liberdade e da igualdade, a luta contra “a ditadura da fome”, “a ditadura da austeridade” e a “ditadura do desemprego”. Manuel Alegre, que proclamou este novo programa da República, não sabe com certeza onde deve e pretende parar. Mas se a sua luminosa lógica se expandir e prevalecer, a força passará a dominar a política: a força da esquerda ou a da direita. É a lógica das coisas.

 

 Berta Brás

DIA DA MÃE

MÃE

(No seu aniversário-76º)

Quem me acendeu estrelas pelo caminho?
Quem pendurou balões prá minha festa
E se escondeu, tão suave, tão modesta
Pra que só eu brilhasse, com carinho?!

Quem passou noites à minha cabeceira?
Quem se fez presente sempre que sofri?
Quem rejubilou toda a vez que sorri?

Quem me tem dado amor, a vida inteira?!

Quem foi a Amiga, a Irmã, a Conselheira
Quem sempre me apoiou de tal maneira

E ‘inda hoje me diz se faço mal ou bem?!

Quem, como fossem seus, ama meus filhos
E acalma suas dores e meus cadilhos?
Quem é Anjo se não tu, oh minha Mãe?!…

 Maria Mamede
Silva Escura, 8/7/02

CARTA A CAMILO CASTELO BRANCO...

...sobre “Amor de Perdição

 

Goa, 14 de Maio de 1863

Illmo. e Exmo. Senhor

Camilo Castelo Branco

Porto – Portugal

 

Ex.mo Senhor

 

Desde que aqui em Goa apareceram as suas primeiras obras, como o “Mistério de Lisboa” e “A Filha do Arcediago”, tenho lido, com muito prazer e admiração, todos os romances que a sua tão inspirada pena nos tem oferecido.

 

Chegou há pouco “O Amor de Perdição” que li quase de um só fôlego, não só por ser um romance admirável mas por uma circunstância que deverá deixar Vossa Ex.cia admirado e talvez até chocado.

 

Custa-me a dar a notícia mas julgo ser meu dever.

 

Simão António Botelho não faleceu a bordo do navio que o transportou para o degredo. Nem ele nem a sua admirável companheira Mariana.

 

Tudo quanto vou contar nesta carta é a absoluta verdade, e foi-me contado pelo próprio Simão Botelho, porque, como verá adiante, assim que ele chegou a Goa ficou hospedado na casa de meus pais, e por coincidência éramos os dois da mesma idade, o que nos proporcionou desenvolver uma profunda e muito íntima amizade.

 

Como Vossa Ex.cia sabe, o seu tio Simão embarcou na nau “São Francisco Xavier” cujo capitão era o senhor Caetano de Sousa Pereira, pessoa desta terra e muito amiga que foi de meu pae, ambos já falecidos.

 

O capitão Sousa Pereira, assim que o jovem Simão embarcou, e como Vossa Ex.cia muito bem escreve, rodeou o desgraçado rapaz de todo o conforto que podia dispensar.

 

Simão Botelho estava a entregar-se à morte, bem como a doce Mariana, mas o capitão não o largou um só instante, levando-o para acompanhar o comando do navio, convidando-o para fazer as refeições na sua mesa e passeando juntos no convés, fazendo com que aos poucos Simão recomeçasse a viver, se bem que sempre muito abatido.

 

Então, Simão, fez um irrecusável pedido ao seu já grande amigo, quase um pai para ele, o capitão Caetano de Sousa Pereira, para que, no regresso a Portugal, contasse a sua morte o que Vossa Ex.cia tão dramaticamente descreve com a sua habitual facilidade e profundidade. Simão queria cortar todos os vínculos com Portugal, esquecer toda a enorme desgraça que sobre ele se tinha abatido, esquecer a família que sempre o desprezara e, incentivado pelo capitão e sobretudo pelo amor daquela extraordinária mulher, Mariana da Cruz, recomeçou a cobrar ânimo.

 

Quando passaram em Cabo Verde, para aguada e reabastecimento, Simão, apresentado pelo capitão, mas com outro nome, foi muito bem recebido pelo Governador António Coutinho de Lencastre que o teve em sua casa três dias cuidando de o ajudar a recuperar a saúde.

 

O mesmo se passou em São Salvador da Bahia, tendo-se hospedado em casa do Juiz do Civel António Jordão, cuja esposa foi também incansável e, quando ouviu parte da história do pobre Simão, sempre apresentado com outro nome, pediu ao Arcebispo D. Frei Silvestre de Maria Santissina que o fosse ver.

 

Simão comoveu-se muito, confessou-se e o senhor Arcebispo, com as prerrogativas que a Igreja lhe dá, absolveu-o do crime cometido por amor, mas percebendo a entrega tão sofrida e a dedicação da jovem Mariana, o convenceu que a devia receber por esposa, o que Simão garantiu que faria assim que chegassem ao destino.

 

Passaram ainda em Moçambique, onde chegaram com a saúde quase refeita apesar das tormentas do Oceano, e muita vontade de viver, foram ainda recebidos pelo Governador Francisco de Paula de Albuquerque do Amaral Cardoso que lhes ofereceu uma bonita prenda de casamento.

 

Assim que o navio chegou a Goa, dia 25 de Agosto de 1807, o capitão apresentou os dois jovens a meu pai Manoel de Noronha Pereira da Costa que ofereceu logo a nossa casa para os receber.

 

Meu pai, um dos grandes comerciantes desta cidade, descendente de famílias nobres de Portugal, Noronhas e Pereira da Costa, no dia seguinte levou os novos hóspedes ao bispo coadjutor D. Frei Manoel de S. Gualdino onde eles confirmaram que queriam casar logo.

 

D. Frei Manoel apresentou-os ao Arcebispo de Goa D. Fr. Manuel de Santa Catarina, um santo homem, Carmelita Descalço, nessa altura com 81 anos de bondade, que disse logo que os casaria naquele mesmo dia.

 

Como tiveram que dar os nomes verdadeiros, Simão optou por ficar somente António Botelho mas pediram aos santos homens que não permitissem, durante o máximo tempo possível, que ninguém viesse a saber da existência deles. Se “tinham morrido” para o mundo e família de Portugal, renasciam agora felizes na terra do destêrro que lhes seria doce e agradável.

 

Não tardou muito que chegasse o primeiro filho que recebeu o nome de João da Cruz Botelho, um lindo rapaz “forte como o avô” como os pais diziam, e veio depois uma menina linda, como a mãe, Mariana da Cruz Botelho, primos irmãos de Vossa Excelência.

 

Em poucos anos meu pai sentiu-se doente e ao transferir a casa comercial para meu nome eu fiz questão de ter como sócio o meu inseparável e correctíssimo amigo Simão, já como António Botelho, que sempre foi muito estimado e admirado por suas qualidades, seu carácter e educação, por todos os que tiveram a sorte de o conhecer. E assim fomos sócios até que a morte o levou em 1856, o que me custou muito a suportar.

 

Dona Mariana, o exemplo de virtudes e humildade que tão bem Vossa Excelência deixa perceber no seu romance, continua viva, se bem que triste por um lado, os filhos e os netos alegram-lhe a velhice.

 

O filho, João da Cruz Botelho casou com a minha filha Madalena, e têm dois lindos filhos, e a filha, Mariana, casou com um capitão do exército, João de Almeida Mesquita que aqui prestou serviço e foi depois mandado para Macau onde ainda devem estar.

Julgo ter prestado uma informação útil .

 

Attº Ven.or e admirador de Vossa Ex.cia

 

João António Pereira da Costa

 

Explicação:

 

Pelo que me foi contado, o autor da carta não a mandou pelo correio por não ter completado o endereço do escritor, e assim permaneceu dentro de um envelope só com

 

“Illmo. e Exmo. Senhor Camilo Castelo Branco”

 

O autor da carta parece ter morrido pouco tempo depois de a ter escrito e a viuva de Simão Botelho decidiu vender a casa comercial, que passados alguns anos tornou a passar de mãos.

 

Só muitos anos mais tarde, quase 100 anos depois, é encontrada, entre muitos papeis velhos, esse envelope dirigido a CCB.

 

Os novos donos acharam a carta interessante e entregaram-na a um médico local, Francisco de Noronha, nascido e criado em Goa, para que ele lhe desse o destino que entendesse. Quando este se aposentou saiu de Goa e foi viver para Portugal

 

Francisco de Noronha, que eu tratava por tio, muito simpático e sempre bem disposto, foi casado com uma amiga de infância da minha mãe e era visita assídua de nossa casa, e por mais de uma vez que ofereceu uma pequena lembrança de Goa.

 

Não tiveram filhos. Em Lisboa um dia perdeu a cabeça por uma garota muito jovem e divorciou-se da mulher, simpática, magrinha e para além de feia!

 

O novo casamento não deu certo. Durou, se tanto um ano, que nem deu tempo ao “tio Chico” de apreciar e relembrar juventudes, porque a menina não encontrou no velho médico a fortuna que procurava e divorciaram-se. Francisco de Noronha voltou a casar com a velha e primeira mulher, mas não durou muito mais.

 

Um dia a viúva, ao mexer em papeis do marido encontrou a carta para CCB e sabendo que o meu bisavô tinha sido amigo deste entregou-me a carta, que eu guardei como uma preciosidade.

 

Mas o andar com a casa às costas para África, volta, vai, revolução, Brasil, etc., só há dias, para meu imenso espanto a fui descobrir “muito bem guardada” dentro de um dos volumes da História de Portugal de Alexandre Herculano! Razão porque só agora se dá a conhecer. Pena que Camilo nunca a tivesse recebido.

 

Rio de Janeiro, 29/04/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

A ARTE DE SER FELIZ

 

 

BOA E MÁ DISPOSIÇÃO

 

O Vento na Natureza é como as Ideias na Alma e nas Vivências

 

O estado de ânimo e o estado do tempo são duas manifestações de realidades compartilhadas: o sol na natureza e o Espírito na pessoa. Sol e Espírito estão em relação directa: chove em mim, chove na natureza! No bom tempo há sol, alegria e ideias positivas, no mau tempo há chuva, tristeza e ideias negativas. Fazemos parte duma realidade em reciprocidade mais ampla do que a do próprio biótopo de que julgamos ser senhores.

 

Certamente que já lhe aconteceu, depois de ter passado um dia calmo e sereno, com alguém da sua relação, de repente, ao dizer algo, desencadear-se uma tempestade de sentimentos e relâmpagos de ideias cada vez mais incendiárias. A atmosfera chega, por vezes, a carregar-se de tal modo que o fogo do instante faz desaparecer o sol que antes brilhava em nós.

 

Na procura de relações de amizade experimentamos demasiado os extremos da pressão e depressão climática e psicológica. Não fossemos nós também natureza! Na procura de carinho, aceitação, reconhecimento e estabilidade não contamos com as leis da nossa meteorologia interna a que está sujeita também a nossa natureza humana. Em momentos de crise social, grassa mais, o temporal na família e na sociedade política e civil. Nota-se a insegurança individual e social para onde quer que se olhe! Daí, cada qual sentir a necessidade de se refugiar numa trincheira comum com “amigos” que confirmem a própria opinião aplainada num biótopo próprio, contra uma paisagem variada e diversa de altos e baixos, contra o lá fora. Procura-se uma amizade de primavera que não suporta as outras estações, quer em si quer nos outros. Escolhe-se viver numa estufa de ideias e de sentimentos, fora da natureza, fora da realidade completa que somos. Esquece-se que as ideias e em parte os sentimentos são apenas fenómenos externos e, por vezes, se comportam como o tempo. Ignora-se que o biótopo privado dos amigos e companheiros é um biótopo entre muitos outros, numa natureza diversa e diferente que a todos mantém vivos no movimento.

 

As ideias tornam-se como fósforos a raspar na caixa do sentimento. As ideias como o vento arrastam atrás delas a chuva e o sentimento. Quanto mais fúria sopra do vento das ideias mais as ondas das emoções se levantam e encrespam. Lá fora como cá dentro, há tempos de altas e baixas pressões.

 

A paisagem da nossa alma tem muito de comum com a paisagem da natureza lá “fora”. Como nela, no nosso coração há chuva, abertas e sol. Os princípios e as leis que as regulam são semelhantes e há algo de comum também. Quando há sol na natureza, no nosso coração tudo se torna, dentro e fora, mais leve e o horizonte revela-se mais largo. Se chove ou há nevoeiro na nossa alma, nem notamos a beleza da paisagem por onde passamos.

 

Forças, que, por vezes, se revelam más em tempos de tempestade, se bem vistas, podem tornar-se produtivas, como acontece no uso do vento para fins energéticos se forem orientadas. O mesmo se diga em relação às ideias. Em cada pessoa como na natureza há energias ciclónicas e anticiclónicas, marés-altas e baixas, euforias e depressões.

 

No mar da vida, para se levar uma vida equilibrada, há que aproveitar o vento propício para melhor se abordar à costa. Em tempo de nevoeiro torna-se perigoso arribar. É preciso esperar o bom tempo das ideias, das ideias benignas e da calmaria do coração para se abordar o outro e então resolver os problemas com horizontes largos e duradouros. Em mim como no outro, nas ideologias como nas sociedades, se notam os mesmos estados do tempo!

 

As rajadas do vento e das ideias, como a calmaria do estado do tempo lá fora e o estado da atitude de espírito em nós, são situações naturais a compreender para se aceitar a realidade própria e do outro. Depois da tempestade avizinha-se o nevoeiro e normalmente é precisa a predisposição para se olhar em redor na descoberta dum arco-íris anunciador de sol. Esta é uma oportunidade para se descobrir a si no outro. E “depois da tempestade vem sempre a bonança”, não fossemos nós natureza e não nos víssemos nós no espelho dela. Como na natureza também na panorâmica humana há diferentes biótopos de caracteres e mentalidades como se pode verificar da observação de discussões acirradas entre optimistas e pessimistas, entre o comunista e o capitalista, entre a reacção da pessoa em estado eufórico ou depressivo. O pessimista naturalmente que preferirá dizer “depois da bonança vem a tempestade”. É sempre uma questão de perspectiva. Se um olha na direcção do dia o outro olha na direcção da noite! A natureza e nós, somos dia e noite! No fim, a intenção é que vale e já antes os dois tinham razão, situando-se o problema apenas na perspectiva de cada um! O problema não está na natureza mas na rosa-dos-ventos!

 

Criar em nós uma instância do bom humor

 

Há pessoas muito sensíveis que reagem como micro climas. A boa ou má disposição influencia a percepção dos outros e do que dizem. Na verdade, até o tempo se torna cúmplice do nosso humor. Os mesmos temporais, as mesmas bonanças do tempo, lutas e discussões da pessoa e da instituição; o mesmo acontece em casa, na família como na polis e na disputa entre os partidos e na discussão de opiniões; tudo isto se encontra submetido às mesmas forças e leis a descobrir. Os problemas surgem principalmente do facto de cada indivíduo ou grupo ter uma visão perspectiva da realidade quando esta é a-perspectiva. Tudo apenas um problema do tempo lá “fora” e cá “dentro.“ Assim acontecem as ventanias e as tempestades destruidoras na natureza, e as rajadas que devastam a sociedade, a família, as amizades e as pessoas.

 

Como nas pessoas assim nas montanhas. Se na base há nevoeiro certamente que lá em cima brilha o sol. Se nos encontramos na depressão, no vale, na comba da tristeza, certamente que só veremos no outro o escuro do nevoeiro do sopé da montanha e a própria escuridão nos atemoriza porque vemos fora o que está dentro. Como me encontrava no sopé não podia ver a montanha toda no outro e em mim. Hermann Hesse resumia um saber da psicologia nestas palavras: “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba” Transmissão ou transferência é um fenómeno psicológico muito comum e a que se deve prestar atenção, especialmente quando alguém fala mal de outro!

 

Todos fazemos parte da mesma montanha. Se dum lado da encosta há chuva do outro haverá sol. A paisagem que hoje sorri ao sol amanhã chora à chuva. Tudo sofre e se alegra a seu tempo. À depressão (tristeza) do sentimento dum lado corresponde a pressão (alegria) do outro lado.

 

Urge aceitar os sentimentos como se aceita o tempo para se evitar o curto-circuito de ideias e a consequente trovoada dos sentimentos. Se me encontro no fundo do vale, do lado da encosta sombria das ideias é melhor esperar por uma aberta ou tentar subir a encosta até encontrarmos o sol e assim nos podermos orientar melhor numa perspectiva para além do nevoeiro. No nevoeiro e na tristeza certamente que pintaremos a vida e o outro com cores escuras, não podendo deslumbrar nelas a beleza da realidade das cores do arco-íris. Os problemas ocasionais passam com uma simples mudança de perspectiva; os grandes permanecem tanto no sopé como na encosta da montanha. Estes porém só devem ser resolvidos com eficiência na fase soalheira da vida. Doutro modo formam-se opiniões e tomam-se decisões que criam maiores problemas ainda, por falta de horizontes mais largos.

 

A questão será encontrar a balança numa vida consciente da tempestade e da bonança. As diferentes estações manifestam diferentes riquezas em interdependência em nós e nos outros, entre o cá dentro e o lá fora, que são parte da mesma realidade.

 

A disposição, o bom ou o mau humor, determina a nossa vivência. Somos mais que o mimetismo das nossas ideias e sentimentos. Para mudar a vivência não chega mudar as circunstâncias exteriores porque também as nossas ideias e sentimentos provocam, muitas vezes, a cor do ambiente, a cor das circunstâncias exteriores.

 

À distância vê-se mais. A causa da nossa má relação está, muitas vezes, em pensar nela. Não chega esperar pelo tempo que cura todas as feridas. Importante é pôr-se o problema e esperar-se pela solução mais tarde. Para os problemas ocasionais do dia-a-dia, muitas vezes, basta tirar o cobertor escuro das ideias com que envolvemos o parceiro e nos envolvemos a nós. Na cama dos sentimentos é preciso arredar os pijamas das nossas ideias e procurar tocar com a própria mão no corpo nu do outro. Então, na nudez do outro descobrirei a própria nudez, e sentirei nele o calor primaveril que me incendiará também a mim.

 

Se a ocasião não proporcionar tanta proximidade, basta um sorriso, um louvor verdadeiro. O sorriso, o louvor é como o sol que derrete as roupagens das neves mais resistentes.

 

Agradecer e louvar é um acto nobre que reconhece a realidade do dia e da noite, do bom e do mau humor no todo e em cada um.

 

Se queres ser feliz, entra na tua vida, descalça as botas. Então, entrado em ti, sentirás a felicidade, no encontro dos polos, de um estar com todos sem se perder em ninguém. Então sentirás a harmonia do agora a fluir; na felicidade o caminho une-se à meta. Felicidade é sentir a paz do mar profundo nas suas ondas altas!

 

 António da Cunha Duarte Justo

                                                                                  Pedagogo e Teólogo

CITAÇÃO

O Santo é um pecador que sabe que o é e um justo que não sabe que o é; um pecador na realidade e um justo na esperança.

 

 Martinho Lutero

 

In LUTERO – PALAVRA E FÉ, P. Joaquim Carreira das Neves, pág. 99, EDITORIAL PRESENÇA, 1ª edição, Março de 2014

REPAREM BEM!!!

 

 

  • Os goeses da actualidade falam inglês, ou seja, estão colonizados pela anglofonia;
  • Os goeses da actualidade não usam o concanim senão em conversas privadas, ou seja, não acreditam no valor da sua língua materna;
  • Os goeses da actualidade dizem-se vítimas da invasão ganthi mas emigram deixando Goa à mercê dos invasores;
  • Alguns goeses da actualidade apostam na Lusofonia mas não sabem falar português;
  • Alguns goeses da actualidade tudo fazem para obter um passaporte português para poderem emigrar para o Espaço Schengen;
  • Os goeses da actualidade não são capazes de se governar mas blasfemam contra os que em Goa conquistam o Poder.

 

Que conclusão posso tirar?

 

Lisboa, Maio de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

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