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A bem da Nação

FÉNIX

 

 

A Fénix, vinda da Arábia, por magia,

Nos nossos bosques apareceu um dia:

Grande clamor entre a passarada.

Reunido o bando, com muito ardor,

Este resolve ir de abalada

Fazer-lhe a corte.

Cada qual a observa, a examina;

A sua plumagem, a sua voz,

O seu canto melodioso,

Tudo é beleza e graça divina,

Tudo é encantamento para o ouvido e o olhar.

Pela primeira vez, viu-se a inveja ceder

Ao desejo de louvar e amar

Tal formosura,

Tão espantoso vencedor.

O rouxinol dizia: «Jamais tanta doçura

Encantou a minha alma extasiada.”

“Nunca, dizia o pavão, tão belas cores

Tiveram este brilho que tanto causa admiração.

Ele deslumbra e atrai o meu olhar.”

Os outros, mesureiros,

Repetiam os louvores

Lisonjeiros.

Gabavam o privilégio único

Desta rainha das aves, filha do Céu,

Sem igual,

Que mesmo velha, numa pira

De cedro aromático

Se consome a si própria, e renasce imortal.

Durante todos estes discursos

Do trinado geral,

Só a rolinha, calada e triste,

Deu um suspiro profundo.

Com as asas empurrando-a, o seu esposo

Amistoso,

Pergunta-lhe a origem

Da sua meditação e tristeza:

“Desta feliz ave celestial

Desejarás tu a sorte?”

“Eu, meu amigo, ao contrário,

Lamento a valer,

O seu fadário

De única ser

Da sua espécie terreal.

 

Teria razão a rolinha

Em condenar a solidão

Da rainha,

Única da sua espécie,

Por infeliz dever ser?

Há sempre quem diga

Que mais vale viver sozinha

Do que mal acompanhada viver.

Mas é clara a fantasia

Nesta criação

Da humana geração

Que, inteligente e psicóloga,

De tudo cria um mito,

De tudo faz uma rábula

Na fábula que é a vida.

Mas este mito espantoso

Que Florian descreveu

Com sensibilidade,

Quando aplicado à Humanidade,

Deu-nos um Cancioneiro

Dos tempos do Barroco

 

- A “Fénix Renascida”

 

Que contém belezas maravilhosas

No retorcido formal e de conceito

Em que, se tudo é jogo e beleza e lucidez,

Tal criação resultou do muito desconcerto

Que sente o homem de pensamento

Perante o sentido da vida,

Sempre às avessas

De tudo o que se sonhou

Ou desejou.

Mas a beleza ficou eternizada,

Bem rebuscada

Em ondas contínuas de imagens primárias

Que se desfazem em imagens contrárias

Nos dois sonetos do mesmo poeta,

- Entre outros do nosso Cancioneiro :

 

“Fénix Renascida”.

Não teve razão, pois, a rolinha terna

Da fábula de Florian,

Quando a solidão é aplicada

À arte eterna:

Dois sonetos

De Francisco de Vasconcelos (1665-1723),

FÉNIX RENASCIDA III:

 

«À morte de F»:

Esse jasmim que arminhos desacata,
Essa aurora que nácares aviva,
Essa fonte que aljôfares deriva,
Essa rosa que púrpuras desata;

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heróica deidade que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, aurora, fonte, rosa.

 

«À fragilidade da vida»

 

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em Vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

 

Quanta beleza, pois,

E maturidade

Nestes exemplares únicos sobre a Verdade

Da condição humana de Beleza e Dor!

E quantos mais há

Únicos e imortais

Quedando firmes no seu pedestal

De fulgor,

Fénix renascendo em alta voz

No prazer e admiração de cada um de nós!

 

 Berta Brás

UM RAPAZ DE 17 JÁ PODE TRABALHAR...

 

 

...um homem de 50 ainda pode recomeçar

 

 

Por vezes, fica a impressão de que as sociedades escolhem o suicídio de forma livre e consciente.

 

Portugal tem sido particularmente assíduo neste guichet.

 

Reparem numa coisa: num passado ainda recente, um português podia começar a trabalhar aos 12 ou 13 anos. Excessivo? Sim. Mas, de repente, passámos do 8 ao 80 e diabolizámos o ensino profissional que dava a chave do mercado de trabalho a jovens de 17 anos que queriam começar cedo a vida adulta. O meu irmão, por exemplo, começou a bulir aos 17 anos e ainda me lembro dos olhares de reprovação. Parecia que só se podia começar a trabalhar aos 25 ou ainda mais tarde. Ora, a sociedade que recusava o início da vida adulta aos 17 era a mesmíssima sociedade que achava bem que as pessoas se reformassem aos 55 ou 60. Em 2012, cerca de 55% dos reformados da função pública tinha menos de 60 anos.

 

Repare-se na concepção de sociedade que estava aqui em cima da mesa: apenas 30 anos de trabalho entre os 25 e os 55 e a ideia de que a reforma tinha de chegar cedo. Pior: partia-se do pressuposto de que uma pessoa de 50 anos já estava no final da vida activa.

 

Isto talvez fosse verdade na geração dos meus avós, mas hoje em dia é um absurdo. Com os avanços médicos e a evolução social das últimas décadas, a velhice não chega aos 50 anos. Aos 50, o trabalhador pode estar entediado, mas tédio não é doença incapacitante. Como seria de esperar, esta esquizofrenia que adiava a chegada do jovem e que antecipava a saída do entradote teve consequências desastrosas.

 

Em primeiro lugar – sem acesso a um ensino especializado, centenas de milhares de jovens limitaram-se a "andar por aí" sem qualquer interesse pela escola e, em consequência, acabaram por cair no mercado de trabalho não-especializado.

 

Em segundo lugar – a segurança social e a CGA estão cheias de reformados que ainda estão na casa dos 50 ou 60 anos.

 

Em terceiro lugar – a sociedade passou a considerar que alguém de 40 ou 50 "já é velho" para recomeçar num segundo emprego.

 

E este é talvez o drama maior, um drama que é o acto final do teatro do absurdo: somos uma sociedade envelhecida, não temos crianças, os jovens são e serão cada vez menos mas exigimos que adiem a entrada na vida adulta até aos 25 ou mais, temos centenas de milhares de desempregados entre os 40 e 60 mas ninguém contrata estas pessoas porque são consideradas velhas.

 

Sim, isto é um suicídio em câmara lenta devidamente sublinhado pela banda sonora melada da modernidade.

 

Estamos a morrer, mas somos moderníssimos.

 

 

 Henrique Raposo

A BABILÓNIA

 

 

Apesar das controvérsias sobre o significado da palavra Babilónia, a verdade é que hoje quando alguém diz isto é uma babilónia¸ está a dizer que isto é uma confusão, uma bagunça, onde ninguém se entende.

 

Há quem atribua a origem da palavra a Bab-ilu, que seria a Porta de Deus. Seja como for também o Génesis diz que foi por causa da Torre de Babel que Deus acabou pondo cada homem a falar a sua língua, para que não se entendendo se dispersassem, e não insistissem na teimosia de querer chegar ao céu através da tal torre.

 

Mais tarde apareceram os línguas, os poliglotas, os tradutores, os dicionários, tudo para ver se homens, que teimam em não se entenderem, pelo menos imaginam o que os seus semelhantes querem dizer, ou mais profundamente, o que estão a pensar!

 

Consta agora que pela União Europeia vai uma baita babilónia com o gravíssimo problema da venda do passe dos jogadores de futebol, quando terminado um contrato!

 

Os governos todos empenhados nisso, ministros, embaixadores, juristas, enfim um enxame de gananciosos à procura de uma lei que lhes permita mamarem mais alguma grana com os pés dos virtuosos da bola! Não dá para acreditar que se mobilize tanta gente importante por causa do futebol.

 

O mais babilónico de tudo isto é que ninguém está preocupado com o jogador, não. É na entrada de divisas no seu país, quando não tarda nada acabam as tais divisas, na Europa.

 

Mais babilónico ainda é o assistirmos, há milhares de anos, a congressos, senados e diversos outros conjuntos de gente que se reúnem para fazerem leis, sabendo de antemão que essas leis têm como finalidade primária o interesse dos poderosos.

 

Tempos houve, e ainda há num ou outro canto deste planeta global, em que o pobre nem sequer podia levantar a cara e olhar nos olhos do chefe! Era lei.

 

Tempos há em que as leis são iguais para todos, mas todo o mundo sabe que há uns todos que são mais do que os outros todos!

 

Nos processos jurídicos é tal a babel, que se faltar uma vírgula no texto, o outro, se for pobre, pode até nem ser condenado, mesmo que tenha sido flagrado a roubar, matar, estuprar. Rico então... para quê o texto?

 

No Brasil Deus juntou emigrantes de quase todos os cantos do mundo. Os primeiros a emigrarem lá donde tenha sido, foram os que se convencionou chamar-se de índios, depois vieram os portugueses, e meia dúzia de franceses, a seguir levas infindas de africanos, holandeses, e por fim italianos, alemães, espanhóis, japoneses, coreanos, chineses, hindus, palestinos, libaneses, turcos, árabes, e os outros etc. todos.

Esse povo, trabalhador, desbabelizou-se num instante e contribuiu para o progresso do país. Os outros, os que vão para a administração pública, salvo honradas e ignotas excepções, babelizam-se e não entendem mais a vox popula.

 

Neste país, como em toda a parte do mundo, há que pagar impostos. Muitos impostos. Imensos impostos. Injustos impostos. Quem paga a maioria deles somos nós. Os outros fazem ouvidos de... babel.

 

Um deles é o Imposto de Renda, que se vai depositando ao longo do ano. Quando por fim o cidadão, o comum, apresenta a sua declaração anual, pode ter direito a restituição.

 

O japonês, um dos povos com mais dificuldade a aprender português, em terra estranha muitas vezes permanece fechado no círculo da família onde a sua língua original é falada quase em exclusivo. Só os filhos, nascidos ou criados no Brasil, vão para casa a falar a língua dos coleguinhas de escola e assim o português, lentamente, vai repondo as línguas dos emigrantes.

 

Vovô Takashiro fez a sua declaração anual do imposto de renda. E aguardou. Tempo passado, falando pouco mais que japonês, sem receber resposta da receita federal, foi a uma das suas repartições saber se tinha direito a receber de volta algum trocadinho que lhe fazia falta.

 

 

Dirigiu-se a uma funcionária e:

- Eu Takashiro Kakombi.

- O que o senhor deseja?

- Fukhyu? Fukhyu?

 

A funcionária, dona Viollante (com dois “l”), que não sabia muito de inglês mas estava cansada de ver estas educadas palavras nos filmes americanos que passam na tv, ficou... p. da vida! Foi chamar o chefe.

 

O chefe olhou para ele, ar grave, e Takashiro, calmo, sorriso amarelo e enrugado, voltou a repetir:

- Fukhyu? Fukhyu?

 

Escândalo! Polícia. Delegacia. Takashiro, sem entender nada do que se passava. O delegado mandou chamar alguém da família dele, que chegou horrorizada por ver seu honrado chefe de família quase trancafiado no meio dos bandidos.

 

- Seu delegado, o que fazer meu honrado pai?

 

Delegado, constrangido (delegado constrangido?) lá explicou o que se passara na repartição da receita federal, quando seu Takashiro insultara a dona Violante.

 

- Oh! Seu delegado! Meu honrado pai não falar bem poruguês. Esse palavra feio a inglês, no Japão querer dizer restituição! Ele só querer saber se tinha restituição do IR.

Nessa altura dona Violante foi consultar a ficha dele e aproveitou para se vingar:

- Fukhyu.

- Como?

- Em inglês. Não tem!

 

Rio de Janeiro, 11 Set. 2000

 

 Francisco Gomes de Amorim

COMO UM VÉU DE CINZA

 

 

Um artigo de Paulo Baldaia, director da TSF – “Os dias em que tudo era possível” – publicado no domingo de Páscoa, 20 de Abril, texto optimista, aberto e dinâmico, de quem não chora o leite derramado e aceita com filosofia os males do passado, da responsabilidade do PREC – Processo revolucionário em curso – em reveses que uma instabilidade revanchista inicialmente perpetrou, a coberto do seu poder armado, já não de pacíficos cravos vermelhos mas de real ambição dominadora, possibilitada pela cópia de armas alojadas nos seus quartéis, com que semearam o terror no seu agora reduzido país, as mesmas armas com que dantes combatiam o terrorismo, num país naturalmente mais amplo, o que Baldaia ignorou.

 

Já passaram 40 anos, quase tantos como os infindáveis – segundo a maioria - com que Salazar se ocupara dos destinos da sua nação, fortalecendo-a e pagando a dívida anterior, muito à custa do regime de mediania não dourada que se lhe aponta sempre, com repressão e atraso, mas acumulando riqueza, ao que parece. E o resultado destes quarenta anos, apesar da grande satisfação de Baldaia, é, acima de tudo, o buraco negro de uma dívida – mais outra – intransponível esta, segundo os seus próprios artesãos, num pessimismo intencionalmente destruidor do Governo que procura cumprir, ressarcindo-a.

 

Mas Baldaia tenta ser justo, retirando desse período de grandes males – (descolonização precipitada, reforma agrária usurpadora e destruidora de riqueza, destruição de grupos económicos necessários à riqueza do país, ocupações, expulsões, injustiças ) – a sua súmula positiva: libertação do jugo ditatorial, liberdade, justiça social… - que o deixam eufórico na sensação de viver num país “mais rico, mais culto, mais alegre, mais solidário, mais aberto ao mundo do que há 40 anos”.

 

Terá razão, Baldaia. A liberdade é, efectivamente, um bem - desde que seja, contudo, integrada num pensamento justo, e não vivida de forma pueril, na reivindicação apenas de direitos, sem consciência dos deveres – e, acima de tudo, o dever de pagar uma dívida que compromete indefectivelmente essa liberdade. Com efeito, como podemos considerar-nos livres, se vivemos num país mutilado, aparentemente sem presente para muitos, sem amanhã para os nossos vindouros, joguetes que somos de outras ditaduras – a empresarial sendo uma delas, no miserabilismo de vencimentos e exigências ameaçadoras de despedimento…

 

Como um véu de cinza que nos cobre o dia-a-dia…

 

O texto de Paulo Baldaia:

 

«Os dias em que tudo era possível»

 

Entre o dia 25 de Abril de 1974, que trouxe a liberdade mas não de imediato a democracia, e o 25 de Novembro de 1975, viveu-se um tempo único em Portugal. Um tempo que atrasou Portugal na chegada à democracia e ao desenvolvimento económico. Um tempo que abriu feridas que não estão totalmente saradas. Talvez por isso, existe muita gente que gosta do 25 de Abril mas não o celebra.

 

Mas esse período não foi apenas o que dele dizem os vencedores. Pedi emprestado, a um trabalho da TSF, o título para esta crónica e foi ouvindo "histórias do PREC português na primeira pessoa, memórias dos dias da mudança", anotadas por Fernando Alves e João Félix Pereira, que recordei como há na história sobre o PREC um certo revisionismo. Não porque se conte uma mentira mas porque se valoriza o que de mau se passou, ignorando a paixão pela liberdade que se viveu nesse tempo e que espalhou a cultura, a ideia de justiça social, a utopia de que é possível comandar o nosso destino.

 

Esta crónica não é um elogio ao Processo Revolucionário em Curso (PREC), mas é um desagravo.

 

Sim, o PREC trouxe uma descolonização desordenada; a apropriação indevida de terras e fábricas; a destruição dos grupos económicos essenciais para desenvolver a economia; retirou liberdade a pessoas julgadas sumariamente... foi um tempo de muitas injustiças.

 

Mas o PREC também trouxe a ideia de que cooperando se podia fazer mais; de que um povo alfabetizado e com mais cultura defendia melhor os seus interesses; de que as mulheres valiam tanto como os homens... e, acima de tudo, foi uma rolha a saltar que nos livrou da pressão que nos impedia de pensar e agir. Para sermos livres tivemos de quebrar as grilhetas e fizemo-lo provocando muitos estragos.

 

Eu sei que prefiro ter tido o 25 de Abril e o PREC que se seguiu a não ter tido nada. Passados 40 anos, o País está muito melhor.

 

Continua a existir muita injustiça mas esse é um mal do mundo. É evidente que Portugal é mais rico, mais culto, mais alegre, mais solidário, mais aberto ao mundo do que há 40 anos.

 

Vivemos hoje um novo PREC (Processo de Reestruturação Económica Contínua), deixando outra vez muitas vítimas pelo caminho. O que é preciso evitar é que o PREC seja novamente a favor de uns contra os outros. A nobreza da política é a defesa do bem comum.

 

No espírito de Abril é preciso utopia. Quem se livrou de uma ditadura política, não pode aceitar uma ditadura financeira. O PREC pode ser necessário, mas não vai durar para sempre. Portugal somos nós.

 

 Berta Brás

CAMINHOS

 

 

Hoje eu vou cantar os caminhos velhos
De passos antigos
Doutros tempos
Caminhos
Entre muros pardacentos
Com passos perdidos na memória
Caminhos
Com e sem história

Nos vales, nas montanhas, nas ravinas
Caminhos
Feitos caminhando
Por gente
Que partindo ou chegando
Os forma, os transforma
Os ostraciza
Caminhos
De que a gente precisa
Ou esquece
Na maior simplicidade;
Caminhos
Vielas na cidade
De medo, de fado, de ganância
Esconsos caminhos
De abundância
Nas avenidas da iniquidade...
Vielas
Ruas paralelas
Às praças do poder e do dinheiro;
Caminhos
Do ócio sorrateiro
Tortuosos, deprimentes
Das palavras ditas por entre dentes
De navalhas sibilinas
Do pó da perdição
Adulto calvário de meninos e meninas
Caminhos
Da destruição...
Hoje canto ainda
Os caminhos
Dum novo Apocalipse
De tempestades de trovões
Espadas de fogo
De mágoa
Do início e fim de gerações;
Águas invadindo o caminho estreito
Mares de água
No Rio que transborda do seu leito...
Caminhos de purga
O Calvário
Com quedas, Cireneu, Cruz e Sudário
Lanças, torturas e esponjas de fel;
Hoje
Só caminhos vou cantar
Peregrinos caminhos
Na procura da Paz
O Graal dos Sábios
Caminhos
De nome derradeiro
Nos meus lábios
No tempo de partir
Para chegar!...

 Maria Mamede

DANDO VIVAS À PRISCILLA!!!

 

 

Sim, é disto que mais gostamos: das festas e das épocas festivas. Mas esta de termos de passar pela morte de Cristo para só depois celebrarmos a sua ressurreição é que não vem muito a propósito daquilo de que mais gostamos – das festas e das épocas festivas.

 

Mas hoje é Domingo de Páscoa e aí está a festa da celebração maior do cristianismo, o cerne da sua fé, a ressurreição de Cristo. E como disse São Paulo na sua primeira carta aos coríntios, «se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa fé».

 

E o leitor mais esquecido perguntará se o Natal não é, esse sim, a maior celebração. Ao que lhe respondo que essa é certamente uma celebração importante, a do nascimento do Filho de Deus, mas que entretanto foi profanada e transformada na festa maior da Confederação do Comércio. Sim, já antes desta profanação o Natal era muito importante mas a festa maior sempre foi a que celebra a essência da fé cristã, a ressurreição de Cristo e a eternidade da alma.

 

Acontece que a distribuição de presentes no ambiente natalício, à imagem do que fizeram os Reis Magos ao Menino Jesus, atrai muito mais gente, sobretudo a não ligada a temas teológicos, enquanto a ressurreição, essa, já implica uma formação religiosa que nem todos hoje possuem (nem querem possuir).

 

Hoje é, pois, dia de festa e da maior!

 

E dentro de dias vem aí o Carnaval.

 

O quê? Como assim? É que dentro de dias comemora-se o 25 de Abril de 1974 e logo de seguida o 1º de Maio. Carnaval pela ordem inversa à do verdadeiro a que se segue a Quaresma, desta vez é a Quaresma que antecede o Carnaval.

 

Vem aí a comemoração da entrega do Império Português ao Império Soviético, a da liberdade que os comunistas passaram a ter de prender os não comunistas. Curiosamente, os comunistas passam por cima das comemorações que nós, os não comunistas, festejamos tais como a queda do comunismo em Portugal no 25 de Novembro de 1975 e a queda do Império Soviético em 9 de Novembro de 1989. Decididamente, Novembro não é vermelho e Abril é de cravos já bem murchos.

 

Segue-se a comemoração do 1º de Maio, dia em que no ano 305 Diocleciano e Maximiano, imperadores de Roma, deixaram de governar, em que no ano de 1328 a Guerra da Independência Escocesa terminou e se assinou o Tratado de Edinburgo-Northampton pelo qual o Reino da Inglaterra reconheceu o Reino da Escócia como um estado independente, em que a armada luso-espanhola da Jornada dos Vassalos em 1625 reconquistou Salvador na Bahía aos holandeses, em que no ano de 1834 a escravatura foi abolida nas colónias inglesas, se realizou o casamento de Elvis Presley com Priscilla Beaulieu em 1967...

 

 

Vamos, pois, muito em breve dar VIVAS Á PRISCILLA!!!

 

Não? Como assim? Devo ter-me enganado em qualquer coisa...

 

Mas é disto que a gente gosta – das festas e das épocas festivas.

 

Domingo de Páscoa, 20 de Abril de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

AS SENSIBILIDADES LÍRICAS E AS SOLUÇÕES PRÁTICAS

 

Retomo a pluma de Alberto Gonçalves do “Fórum” do DN de 13/4, pluma não caprichosa mas suficientemente espirituosa para merecer sorriso de apreço e adesão de quem se identifica com o mesmo universo crítico. Neste caso sobre os trinados do poeta Manuel Alegre, de cujas mensagens escorre a doçura soturna e acabrunhada da saudade pátria – outrora, em ausência física, questionando ventos mudos, agora, em presença taciturna, erguendo o brado espicaçante dos ânimos grandolares contra um governo inepto, para que elejam um governo apto, coisa de que, aliás, andam à procura desde o “Abril” dos inícios – agora com novo arrimo, sempre estimulados, pelos das prosas também. E o “Abril do trigo” (certamente que ainda tenro, “blé en herbe”, da ternura), teve audiência “séria”, porque nestas coisas do intelecto e do sentimento a oposição mostra-se sempre séria e comovida, para maior efeito esclarecedor das suas delicadezas de alma:

 

9/4 - «Abril sempre»

 

Manuel Alegre acha que o 25 de Abril "não pode ser só mais uma data no calendário". E, no que depender dele, não é. À semelhança dos campeonatos internacionais da bola, em que nunca lhe faltam uns versos dedicados a Figo ou a Cristiano Ronaldo, a cada aniversário do golpe de Estado o poeta ameaça soltar a lira. Desta vez, se calhar porque a lira anda desgastada sob a opressão da troika, fê-lo sob a forma de uma antologia poética (título: "País de Abril") e respectiva sessão de lançamento.

 

Pelas descrições, a cerimónia, realizada no quartel do Carmo, deve ter sido belíssima. Na plateia, Maria de Belém, José Sócrates, António José Seguro, Almeida Santos, Vasco Lourenço e etc. ouviam embevecidos. No palco, os fantasmas de Francisco Fanhais e de Manuel Freire entoaram versões musicadas da obra em causa. O autor da obra recitou umas coisas, do gabarito de "Era um Abril de amigo/ Abril de trigo/ Abril de trevo e trégua e vinho e húmus/ Abril de novos ritmos novos rumos./ Era um Abril comigo/ Abril contigo" (título: "Abril de Abril") e de "Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal" (título provisório: "País de Abril"). Nem a obsessão temática nem o recurso a "húmus" para rimar (?) com "rumos" levou a audiência às gargalhadas. Aquilo é gente séria.

 

E foi a sério que Manuel Alegre acrescentou uns comentários à situação actual. Para ele, as políticas de austeridade "cortam as dimensões da vida e a música das vogais". Também tinha essa impressão. Fica, porém, uma palavra de esperança: "A poesia pode libertar a língua." E, de facto, a língua travada é um aborrecimento, quase tão grande quanto o rancor de uma clique que sonhou fazer do "país de Abril" o seu quintal e, pelo caminho, deparou com uma população discordante. Ainda por cima, a população vota: assim não há democracia possível. Ou, nas palavras do bardo, arriscamo-nos a "perder Portugal como futuro do passado", o que em português de gente é igual a mandar o povo chatear o Camões. Certo é que até dia 25 não faltarão lengalengas do género. E igualmente certo é que os donos do regime nem sempre mandam no regime, o que sem dúvida constitui uma ironia. Poética, se quiserem.

 

Também me parece um achado de ironia e humor o artigo «Ainda não chegamos à Noruega» sobre as discussões em torno do salário mínimo. Parecem, de facto, despudoradamente míseros, tais discursos sobre uns trocos a mais ou a menos que os partidos da solidariedade entendem por bem estabelecer para os pobrezinhos. Nenhum partido, de facto, se expõe a discutir os salários máximos e os porquês desses, creio que com receio de represálias, que os poderosos podem sempre exercer, com a sua faca e o seu queijo na mão. Creio que o objectivo maior nessa fixação dos mínimos é o da irmanação gradual com os salários médios, numa tentativa de igualitarismo social massificante e gratificante, ignorando competências, esforços e outros quaisquer atributos que promoveram esses, exceptuando, na contagem, as franjas milionárias discrepantes, que um país matreiramente pouco ilustrado sempre possibilitou impunemente. Contudo, os países trabalhadores lá do norte europeu não têm esses mínimos, atrasados que estão em relação a nós. Em questões de solidariedade social damos cartas ao mundo, traduz Alberto Gonçalves, sociólogo:

 

12 /4- «Ainda não chegamos à Noruega»

 

Começo por um esclarecimento: acho o salário mínimo nacional uma miséria, e felizmente desconheço, ou conheço por mera observação, os esforços daqueles que vivem com 485 euros mensais. Dito isto, também acho estranho que os proponentes do aumento do salário mínimo defendam apenas a subida do dito em uns trocos. O PCP e a filial CGTP querem 515 euros. O Bloco de Esquerda queria 515 euros e agora quer 545. O PS quer qualquer coisinha. A UGT quer 500 euros. O Governo quer estudar números. E sumidades avulsas falam em 510 ou 507,42 euros como se, mesmo para quem conta os cêntimos, 15, 25 ou, vá lá, 50 euros removessem uma pessoa da penúria. Se a ideia é promover uma existência decente para cada cidadão, julgo que dois mil euros cumpririam a função. Se a ideia é promover a prosperidade geral, é esquisito que ninguém apareça a propor um salário mínimo de dez mil euros.

 

Porque é que é assim? Porque, a haver um salário mínimo, convém que o respectivo valor mantenha algum vínculo com a realidade, sob pena de espatifarmos o País ainda mais depressa do que o Eng. Sócrates chegou a sonhar. Ou seja - e reparem que recorro a termos infantis próprios dos leigos e dos sociólogos não marxistas (somos cerca de três) - convém que o salário mínimo dependa da produtividade, caso contrário o efeito do seu aumento desenfreado será, no primeiro dia, foguetório e arraial e, no segundo dia, crescimento do desemprego e desastres em série. Nem o sr. Arménio Carlos, que daria um bracinho para assistir à ruína disto, sugere salários tão absurdos. Mas o debate, ou o sortido de resmungos que aqui passa por debate, é absurdo quanto baste.

 

Com o descaramento que as caracteriza, as sumidades que embelezam a nossa política lançam quantias ao calhas ou, para sermos exactos, de acordo com o que julgam "mobilizar" o seu eleitorado, aliás facilmente "mobilizável". Nenhuma procura sequer discutir o interesse da existência de um salário mínimo, que de repente me parece uma limitação brutal dos direitos dos cidadãos. Só por mencionar o assunto arrisco-me a uma condenação por "fascismo" e falta de "consciência social", calamidades que arrasaram por exemplo a Alemanha, a Noruega, a Suécia e a Finlândia, lugarejos do Terceiro Mundo onde a ausência de salário mínimo afundou os trabalhadores numa inominável pobreza. Não é à toa que emigram para Portugal aos magotes.

 

 Berta Brás

CURIOSIDADE DA HISTÓRIA

D. FREI MANUEL DO CENÁCULO

 

 

Em Beja, onde residiu 25 anos, consagrou-se ao desenvolvimento da instrução e da educação. Fundou bibliotecas e no seu próprio paço (episcopal) criou um curso de Humanidades e Teologia e, por provisão de 6 de Janeiro de 1779, mandou escolher das famílias pobres da serra de Monchique alguns “mocinhos” para serem sustentados e educados em Beja sob a sua superior orientação, para depois irem levar a instrução aos locais do seu nascimento.

 

F. Senra Coelho e Alberto Martins, in «D. Frei Manuel do Cenáculo e o pensamento iluminista na transição entre os Séculos XVIII e XIX», BROTÉRIA, Março de 2014, pág. 241 e seg.

 

Para saber mais sobre D. Frei Manuel do Cenáculo de Vilas Boas e Anes de Carvalho, v. p. ex.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_do_Cen%C3%A1culo

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