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A bem da Nação

MENTINDO COM TODOS OS DENTES

 

 

Em entrevista ao jornal El Pais, Mário Soares volta "à carga" com o assunto da renúncia à dívida externa. Mais uma vez, o antigo Presidente apresenta o exemplo da Argentina, notando que esse país se recusou a pagar a dívida em plena crise financeira.

 

Diz Soares que "A única maneira de falar com os mercados é dizer-lhes: 'Não, não pagamos'. Foi o que disse a Argentina e não aconteceu nada".

 

"Nada" deve ser uma palavra de código usada por Mário Soares. De facto, logo em 2001 a Argentina sofreu uma corrida aos bancos. Para travar esta avalanche, o governo decretou o congelamento dos depósitos, o que criou uma nova crise. Foi também necessário introduzir controles de divisas para evitar a saída de capitais.

 

No período de um ano, a percentagem de argentinos abaixo da linha da pobreza subiu de 38 para 58%.

 

Desde 2001, a Argentina tem tido enormes dificuldades para pedir emprestado nos mercados internacionais. Os activos argentinos (aviões, barcos, etc) podem vir a ser apreendidos por credores que já ganharam múltiplos casos de tribunal contra o país.

 

Em resumo, a teoria do "não aconteceu nada" é a nova versão do clássico "tout va très bien, madame la marquise".

 

5 de Março de 2014

 

COMO PILATOS

 

 

E Seguro lava as suas mãos, demarcando-se. As políticas de Passos Coelho não são, evidentemente, as suas, agora que ainda não é Governo, como não o eram as de Passos Coelho antes de ser Governo. Sê-lo-ão quando o for, as mesmas, se não piores, indiferente aos problemas dos que verdadeiramente sofrem e sempre sofreram, porque são os que contribuem sempre para safar o país, ora com o seu trabalho mal pago, ora com os seus impostos de recurso permanente aumentados.

 

Porque o discurso balofo da caça ao voto ainda há quem nele creia, para continuarmos a fingir que avançamos, da forma que sabemos, forma gingada de varina de outrora, apregoando o seu peixe em slogan repetitivo e saracoteando-se com donaire e bom timbre.

 

Os do próprio partido de Seguro o não aceitam bem, é alvo de chufas internas e externas, mas ninguém faria melhor do que ele, e por isso o aceitam, os ilustres do seu partido, como bouc émissaire, ou cabeça de turco, pobre Seguro, disco rachado na insistência do seu pregão monolítico. Mas os bem falantes do seu partido sabem bem que não há nada a dizer, nem vale a pena, neste pobre país onde muitos já se favoreceram e sabem que a única coisa a fazer é esperar para ser Governo quando se está na oposição, esperar para ser oposição quando a actual for governo. Os do actual Governo nem os governos seguintes já não podendo favorecer-se tão bem, ressequido o país, tudo se processa em tristeza, como afirma epicamente Vasco Pulido Valente:

 

Vasco Pulido Valente faz dele e do seu partido um excelente retrato, não vale a pena o alongamento dos considerandos. Por tal motivo, “Na triste mediocridade do Portugal de hoje, Seguro serve” como conclui:

 

«Seguro serve»

Por Vasco Pulido Valente

01/03/2014

 

Na triste mediocridade do Portugal de hoje, Seguro serve.

 

O PS julga e proclama que a direita está isolada. Mas não compreende que ele também está. Isolado da esquerda radical – o PC, o BE e miudezas várias – que o descredita e o impede de crescer. Isolado na maioria das questões que importam aos portugueses. Pior ainda: isolado na “Europa”, que se move noutro sentido.

 

A política de Seguro é, no fundo, a de evitar qualquer contaminação. A contaminação da franja lunática doméstica, que o empurraria para fora do “arco de governação”; a contaminação da “austeridade” que lhe faria perder votos; a contaminação da Sra. Merkel, que arrasaria os ridículos sonhos de uma “Europa” que nos viesse gratuitamente tirar de sarilhos. Ora a melhor maneira de continuar “puro” é, na prática, continuar sozinho.

 

Na sua miraculosa inconsciência, Seguro julga ainda que, passado o pequeno episódio do “ajustamento”, se voltará à velha “rotação” entre o PS e o PSD e que chegou agora a hora do PS, se ninguém se agitar dentro do partido. Infelizmente para ele, tem à perna Soares, Sócrates, Costa e uma matilha enraivecida de personagens menores, que não o deixam sossegar, nem agir. O hábito em que se instalou de dizer “não” a tudo e de carpir lacrimejante a malvadez da direita é muito claramente uma táctica de defesa. Assim não se compromete e, supõe ele, não compromete o futuro: cá fora e no momento próprio o povo se encarregará do resto. Talvez não seja isto que se espera de um chefe da oposição e daí a complacência com que o tratam nos dois lados desta adormecida guerra em que vivemos.

 

Mas não acredito que alguém pudesse substituir Seguro com uma decisiva vantagem para o PS. A social-democracia acabou, apesar dos berros de meia dúzia de alucinados do PSD. Não existe social-democracia que resista à situação actual da Europa, para já não falar em Portugal. O PS acabará por se transformar, à falta de melhor, num partido de resistência à mudança e, como desde 1975 o PC, vai nos quinze anos mais próximos defender o “Estado Social” e outros privilégios de uma classe média empobrecida e de trabalhadores sem força. Embora condenado e curto, este papel é um papel nobre. A ideia de que uma figura “carismática” (e não consigo descobrir nenhuma) seria capaz de reconstituir o mundo como ele era no fim do século XX, é tão absurda como a de reconstituir o mundo como ele era antes de 1914, como muito boa gente sonhou entre 1918 e o triunfo de Hitler. Na triste mediocridade do Portugal de hoje, Seguro serve.

 

 Berta Brás

AURORA

 

 

Radiosa a manhã chegou mais cedo
como noite divina posta a nu
ligeira brisa dum qualquer segredo
como se quem nasce, fosses tu…

e o Sol raiou nos gorjeios de ave
nos olhares do passado e do nascente
fez-se estrela de ouro, cor suave
nas sombras inquietas do poente…

nem toque de dor, nem cheiro de medo
nem cadeias de prisão nem o degredo
duma manhã fugaz, descolorida

somente manhã; cálida, alada
leve, tão leve, um quase nada
um nada tudo, que preenche a vida!...

 Maria Mamede



A NOVA PENA DE MORTE

 

 

A Pena de Morte foi abolida há muitos anos e em muitos países. Portugal foi um dos primeiros. Não se sabe, ninguém sabe, se foi na maioria deles ou numa simples e rara minoria. Mas terá sido abolida?

 

Há onze anos – 15/03/2003 – escrevi para um ou dois jornais uma crónica de que repito uma parte que vem agora a propósito, o seguinte:

 

PENA DE MORTE, PENA DA VIDA

 

O que é mais estarrecedor? O jornal ou rádio que difunde notícias para além de surrealistas, ou as notícias em si mesmas, ou ainda a situação do país que permite assistir-se a tudo isso. O quê?

 

O famoso e famigerado bandido Fernandinho Beira Mar, depois de criar o caos e o terror no Rio de Janeiro, foi transferido para uma outra prisão, de “segurança máxima”, no interior de São Paulo.

 

O juiz responsável pela prisão, proibiu dom Fernandinho de receber visitas da mulher e amigos, de receber refeições especiais encomendadas a restaurantes da cidade, obrigou-o a cortar o cabelo como os outros presos, enfim cortou as mordomias que sexa tinha no Rio de Janeiro, e tratou-o como um prisioneiro, perigoso, condenado pela justiça.

 

Parabéns doutor juiz e os meus mais sentidos pêsames a sua família porque logo a seguir foi executado com quatro tiros à saída do fórum.

 

A minha indignação não tem tamanho e não será menor do que a dos restantes 170 ou 180 milhões de brasileiros que assistem a tamanho descalabro.

 

O juiz é condenado à morte e executado num piscar de olhos. Não é o primeiro, nem o vigésimo, nem certamente o último que o bandido condena e executa.

 

E ele? O bandido? Vão lhe servir refeições de luxo, deixar a mulher visitá-lo quantas vezes queira, entregar-lhe telefones celulares e deixar-lhe crescer o cabelo?

 

O próximo juiz tem duas opções, só: ou o deixa fazer tudo e talvez sobreviva, ou procede com justiça e não tarda que tenhamos de enviar nossos pêsames a outra família. E a todos nós.

 

...

 

A pena de morte? Existe sim. Sem burocracias, nem intervenções judiciárias. Simples e eficiente. No sentido inverso.

 

- Liquida F... , manda o bandido.

- Pum! Já está.

 

É uma pena.

--- * ---

 

Desta vez porém não é esta pena de morte que vou referir se bem que ela exista em todo o mundo, desde a Noruega, onde vimos o massacre perpetrado pelo louco (?) Andres Breivik, aos paranóicos americanos obcecados por armamento e sangue, às carnificinas contra cristãos no Mali, na Nigéria, Camarões, República Centro-Africana, Sudão, Somália, Iraque, Irão, Indonésia, Argélia, Egipto, Marrocos e Líbia, na Síria, e etc., etc., e até na França, à paranóia da família do gorila King Kong na Coreia do Norte, aos assassinatos permanentes no Brasil, Colômbia, Equador, sem esquecer as frias execuções na China e na Rússia, às repressões na Venezuela e Equador, enfim um nunca mais acabar de licenciosos executores de penas de morte, todas gratuitas. Além das guerras!

 

Mas há outra, talvez ainda mais covarde, e que tem sido oficialmente proclamada e autorizada em muitos países, também eufemisticamente chamados de civilizados: o aborto.

 

Nada mais fácil do que matar um ser que nem sequer viu ainda a luz do dia, na maioria das vezes porque a mãe – será mesmo Mãe? – quis ou somente quer “usar o seu corpo como muito bem lhe apetecer”, e andar em orgias sexuais, tanto faz que só como acompanhada de um ou mais parceiros homo ou hétero. Vale tudo, em nome da liberdade individual. Sexo, sexo, sexo, e depois mata-se o inocente.

Aqui no Brasil, um extorsionário, espécie de arqui-milionário internacionalmente conhecido como bispo Macedo (outro eufemismo), proprietário da igreja IURD, tem um pronunciamento no Facebook, digno de Hitler ou Stalin, quando diz apoiar o aborto porque assim se evitará que venha ao mundo um monte de gente que vai sofrer, ser infeliz, ter doenças, etc. Depuração pré nazi!

 

Há alguns anos indignei-me quando um tribunal daqui, do Brasil, não permitiu que uma mãe abortasse. Ela sofria com o ser que se desenvolvia no seu seio: anencéfalo. Sabia que era um sacrifício vão e que jamais iria poder ter aquele filho. A mãe teve que carregar o fardo para ver o pequenino ser nascer e logo morrer. E guardar pelo resto da vida a visão dum filho que saiu de dentro dela sem que ninguém lhe pudesse valer.

 

Só em 2009 é que o I Congresso de Direito de Família, realizado entre 28 e 30 de Setembro, concluiu que o Supremo Tribunal Federal deve reconhecer o direito das mulheres a interromperem a gestação de feto anencéfalo.

 

Há outras situações em que a mãe corre risco de vida, e nesse caso o aborto parece ser, infelizmente, a única solução que a medicina encontra.

 

Vale a pena ler, na íntegra o documento deste Congresso:

 

http://oab-rj.jusbrasil.com.br/noticias/1971512/interrupcao-da-gestacao-de-feto-anecefalo-e-defendida-por-especialistas

 

Mas o aborto descriminado, para se andar na pouca-vergonha – se é que ainda há alguma – e depois, em nome duma suposta liberdade, de nome libertinagem, matar um ser inocente e indefeso, é muito mais covardia do que a de um bandido assassinar um qualquer indivíduo.

 

Este ano o des-governo do Brasil, para que o pessoal chamado “carnavalesco” se esbanjasse na pouca-vergonha, na promiscuidade, distribuiu, oferecidas, 600 mil camisinhas. Isto pressupõe três camisinhas por cada brasileiro, incluindo idosos, jovens e criancinhas, para usarem no Carnaval! Não necessitou do acompanhamento e recomendações óbvias: “esbaldem-se na sacanagem!”

 

Há casais (casais?) que se despedem no início do Carnaval, para que cada um se vá “esbaldar” com quem quiser, e só voltam a encontrar-se depois das Cinzas! E é um salve-se quem puder, que as fotografias das siliconadas bem mostram! Aliás, bem exibem, e o mais estranho, são elas que pagam, e pagam caro, para se exibirem, praticamente nuas, pelas ruas das cidades, além do que já pagaram para “turbinarem” seios, coxas, bundas e até pantorrilhas! O que elas procuram? Espectáculo? Não. Procuram, com certeza, dar consumo à oferta do governo: aqueles milhares de camisinhas.

 

Se alguma se romper... o aborto resolve!

 

E agora sentem-se, porque esta notícia faz qualquer um cair de costas, o cúmulo do inimaginável, aqui, neste país do faz de conta, acontece: a prefeitura do Rio colocou nalguns pontos do Centro, por onde andam os carnavalescos, umas cabines para quem lá quisesse ir experimentar as camisinhas! Podem não acreditar. E eu só acreditei quando o jornal noticiou e mostrou a fotografia duma máquina a retirar uma dessas cabines depois da festa!

 

É sabido que a idade ideal para a procriação, para as mulheres, para que os filhos venham mais saudáveis, é entre os vinte e vinte e cinco anos. Hoje, com esta libertinagem, além da dificuldade de um casal se estabelecer, algumas só querem engravidar, as que querem, muito mais tarde. E quanto mais tarde, maiores as probabilidades dos filhos virem mais fracos.

 

Entretanto com o casa-descasa, ou casa-divorcia que é bem mais complicado e caro, acabam ficando só no dorme junto e sai de fininho.

 

Como o mundo está a entrar numa paranóia total, com a avacalhação dos costumes, o politicamente correcto, os distorcidos direitos humanos, a emancipação da liberdade dos corpos, não há lei que consiga acabar com esta nova Pena de Morte.

 

Rio de Janeiro, 05/03/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

NA CABEÇA DOS COMUNISTAS

Decidido a procurar o apoio entusiástico dos nossos partidos comunistas, por regra ávidos de baderna, aos levantamentos populares na Ucrânia e na Venezuela, fui espreitar os respectivos sites oficiais. Não encontrei apoio nenhum, antes pelo contrário. Curiosamente, as insurgências e as revoluções que tanto excitam PCP e Bloco de Esquerda noutros lugares são alvo de firme condenação nesses lugares em particular. Ao que parece, o povo unido jamais será vencido – excepto se o povo em questão não compreender as virtudes do socialismo ou merecer a simpatia da América, afinal os critérios decisivos para exaltar a fúria das massas ou calá-la a tiro.

 

O Bloco, através do esquerda.net, ainda finge a equidistância no caso ucraniano. Mas finge muito mal. Por um lado, explica que nem todos os revoltosos são de extrema-direita ou devotos do Ocidente, crimes sem dúvida hediondos; por outro lado, não se esquece de lembrar que a questão é "complexa" e que em ambos os lados há "bárbaros", maçada que nunca acontece nos protestos realizados por exemplo em Wall Street ou na escadaria de São Bento, invariavelmente lineares e perpetrados por activistas generosos.

 

Já o PCP, evidentemente no Avante!, não perde tempo com meias-medidas e começa logo a tecer comparações entre os acontecimentos de Kiev e os Acordos de Munique (mas não, imaginem, com o Pacto Molotov-Ribbentrop) e a lamentar "o brutal envolvimento e a ingerência do imperialismo na vida da antiga República soviética (sic)". Também não faltam as "forças pró-fascistas e ultranacionalistas", o "terrorismo" e as pérfidas "assembleias populares", em que não há lugar para os comunistas e todas as vozes dissonantes" (fosse o PCP a promovê-las e seria só ecumenismo).

 

Sobre a Venezuela, o Bloco insiste na equidistância postiça. A 12 de Fevereiro brinda-nos com um artigo alusivo ao papel dos estudantes na contestação local, a 23 de Fevereiro um segundo artigo nega qualquer insatisfação dos estudantes, aliás deliciados com o bolivarismo: nas ruas de Caracas, apenas berram "as classes médias e altas, além da casta empresarial". Para cúmulo, avisa-se que o líder da oposição venezuelana, Leopoldo López, estudou em Harvard e que a agitação que encabeça é financiada pela Administração Obama.

 

De novo, o PCP não hesita: as manifestações na Venezuela são obra da "burguesia" e consistem em "manobras desenfreadas de sabotagem económica e desgaste social". É escusado acrescentar que por detrás disto andam os americanos, irritados com a resistência venezuelana ao "imperialismo", proeza que partilha com, cito, "China, Cuba, Vietname, Laos e Coreia do Norte".

 

A moral da história? Está num parágrafo publicado no esquerda.net: "Neste momento "pós-occupy" [meninos mimados a berrar insultos ao capitalismo], cada vez que vemos protestos nas ruas, começamos a retuitá-los [alusão ao Twitter, uma coisa com que os meninos brincam] e a sentir uma simpatia pela causa, mesmo sem saber qual é o contexto dela [um erro crasso]. Uma vez que analisamos o contexto venezuelano [i.e., ao constatar que aquilo é a enésima tentativa de aniquilar um país pela via socialista], o que vemos é mais uma tentativa, dentro de uma longa história de tentativas, de depor um governo democraticamente eleito."

 

Para o Bloco e, claro, para o PCP, os governos contestados pelo occupy ou lá o que é não foram democraticamente eleitos. Na cabeça dos comunistas, onde não entra nada, nem sequer uma dúvida sincera, a democracia é sempre uma noção peculiar.

 

2 de Março de 2014

 

 ALBERTO GONÇALVES

FRASES IMPAGÁVEIS DO BARÃO DE ITARARÉ

 

 

Diz-me com quem andas e eu te direi se vou contigo

 

 

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Apporelly e pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé (Rio Grande, 29 de Janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de Novembro de 1971), foi um jornalista, escritor e pioneiro no humorismo político brasileiro.

 

O nascimento de Apporelly é marcado por mistérios e disputas. Conta-se que teria nascido a bordo de uma diligência, no Uruguai, enquanto seus pais rumavam para uma fazenda da família materna. Admiradores de Rio Grande (RS), onde seus pais moravam, contestam esta versão. Entretanto, na matrícula de ensino escolar, Apporelly foi registrado como nascido no Uruguai, enquanto seu título de eleitor sustentava uma naturalidade gaúcha, mas sem discriminação de cidade.

 

Sua mãe, Amélia, teve morte trágica, suicidou-se quando tinha 18 anos e ele 18 meses; seu pai enviou-o a um internato jesuíta em São Leopoldo (RS). Apparício Torelly iniciou-se no humorismo em 1908 no jornalzinho "Capim Seco", do colégio onde estudava, satirizando a disciplina dos padres jesuítas de São Leopoldo.

 

Em 1918, durante suas férias, sofre um AVC quando andava na fazenda de um tio. Abandona o curso de Medicina no quarto ano e começa a escrever. Publica sonetos e artigos em jornais e revistas, como a Revista Kodak, "A Máscara" e "Maneca".

 

Em 1925 entra para O Globo de Irineu Marinho. Com a morte de Irineu, Apporelly foi convidado por Mário Rodrigues (pai de Nelson Rodrigues) a ser colaborador do jornal "A Manhã". Ainda em 1925, no mês de Dezembro, Apparício Torelly estreava na primeira página com seus sonetos de humor que, geralmente, tinham como tema um político da época. Sua coluna humorística fez sucesso e também na primeira página, em 1926, começou a escrever a coluna "A Manhã tem mais…". Neste mesmo ano criou o semanário que viria a se tornar o maior e mais popular jornal de humor da história do Brasil. Bem ao seu estilo de paródias, o novo jornal da capital federal tinha o nome de "A Manha", e usava a mesma tipologia do jornal em que Apparício trabalhava, sem o til, fazendo toda diferença que era reforçada com a frase ladeando o título: "Quem não chora, não mama". Para estreia tão libertadora, Apporelly não perdeu a data de 13 de Maio de 1926. "A Manha" logo virou independente.

 

Durante a Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas partiu de trem rumo à capital federal, então o Rio de Janeiro, propagou-se pela imprensa que haveria uma batalha sangrenta em Itararé. Isto foi vastamente divulgado na imprensa. Apporelly não ficou de fora desta tendência. Esta batalha ocorreria entre as tropas fiéis a Washington Luís e as da Aliança Liberal que, sob o comando de Getúlio Vargas, vinham do Rio Grande do Sul em direcção ao Rio de Janeiro para tomar o poder. A cidade de Itararé fica na divisa de São Paulo com o Paraná, mas antes que houvesse a batalha "mais sangrenta da América do Sul", fizeram acordos. Uma junta governativa assumia o poder no Rio de Janeiro e não aconteceu nenhum conflito. Apparício auto declarara-se então Duque nas páginas d"A Manha". Mas como ele próprio anunciara semanas depois, "como prova de modéstia, passei a Barão."

 

In Wikipédia

“JÁ ESTÁ!”

 

 

Tem La Fontaine uma fábula

Sobre um carreteiro caído num fosso

Que ele retirou de Esopo,

- “O Boieiro e Héracles”

 

O Carreteiro atolado

 

Do fabulista francês,

A quem, solenemente,

Aquele chamou de faetonte

Apesar de se tratar

Não de um coche solar escaldante

Mas de um carro de palha trazido do monte.

Como ficou prostrado,

E o carreteiro indignado

Se pôs em suplicante oração,

Ele vem a calhar

À nossa situação

De suplicantes crónicos

Em débitos permanentes

De delinquentes.

Vejamos então:

 

 

 

«O Carreteiro atolado»

 

O faetonte dum carro de feno

Viu o seu carro atolado numa ravina.

O pobre do homem estava afastado

De todo o socorro humano.

Era no campo, perto

De um certo cantão na baixa Bretanha

Chamado Quimper Corentino

Buraco perdido onde o Destino

Enfia as gentes quando as quer punir.

Deus nos preserve de tal viagem

Autêntico exílio para quem quer viver

Na capital da erudição e do prazer

Que é o Paris da nossa vivência.

Mas voltemos ao carreteiro atolado

Em tal lugar, sem qualquer personagem

Que o viesse socorrer.

Ei-lo que se enfurece

E solta palavrões a esmo,

Contra os buracos, contra os cavalos

Contra carroça, contra si mesmo.

Por fim invoca o Deus, cujos trabalhos

Tão célebres são no mundo:

“Hércules, suplica, ajuda-me,

Se o teu dorso suportou outrora

A máquina redonda e potente,

(Em substituição momentânea do monte Atlas)

Bem pode o teu braço valente

Tirar-me daqui agora.”

Feita a oração, ele ouve na nuvem

Uma voz que assim lhe fala:

“Hércules impõe primeiro

Que se trabalhe e só depois

Ajuda as gentes. Vê donde provém

O obstáculo que te retém.

Tira em seguida das rodas

Essa infeliz argamassa,

Essa maldita lama

Que até ao eixo se fixou,

E as prendeu.

Pega no sacho e destrói

O calhau que as impede

Enche-me essa cova.

Já está?” “- Sim,” - diz o homem.

“ – Ora bem, vou-te ajudar. – soa a voz.

Pega no chicote.” – “Já peguei.

Que é isto? O meu carro está a andar!

Hércules seja louvado!”

Responde a voz: “Vês

Como os cavalos facilmente

Se desenvencilharam?

E tu igualmente.

Ajuda-te, o Céu te ajudará,

Sempre clemente.

 

Foi com estas histórias esclarecedoras

E muitas outras dos seus estudos progressivos

Próprios dos seres racionais,

Que os povos das zonas promissoras

De uma Europa empenhada

Foi educada.

Por isso são cumpridores,

Normais,

E antes de pedirem ajuda aos deuses

Tentam resolver a sua deficiência

Com eficiência.

Nós, pelo contrário,

Resistentes ao esforço próprio,

Mais adeptos do fadário

Implícito no fado

Segundo a sina rezada

Nas linhas traçadas na nossa mão,

Usamos provérbios

Que nos apoiam na extravagância

Da nossa indolência,

Como o que afirma

Não é por muito madrugar

Que amanhece mais cedo,

Que confirma as injustiças

Das muitas cobiças.

Embora tenhamos também

Provérbios apoiantes

Da tese da fábula antiga,

Incitando-nos a produzir

Antes de pedir:

“ia-te na Virgem e não corras!

Ou esse de antiga homeopatia

Pela alegria:

Deitar cedo e cedo erguer

Dá saúde e faz crescer…

Mas isso era antigamente

Antes da Internet.

Lidamos melhor com a cunha

Não tenho dúvida nenhuma.

 

 Berta Brás

PARA ALÉM DO HOJE

 

Cada vez mais se vive o momento. Fugimos do passado e temos medo do futuro, o que implica que sejamos forçados a viver um presente demasiado pequeno.

 

 

 

Os tempos de descanso devem ser ocasião de trabalho interior. Mas, vai sendo cada vez mais raro encontrar gente com memória, assim como também é raro encontrar pessoas com discernimento suficiente para se comprometer em projectos a longo prazo.

 

Navega-se à vista... sem riscos, sem sucessos nem fracassos... sem sentido. Vamos dando as respostas mínimas ao mundo e aos outros, em vez de sermos protagonistas dos nossos sonhos e heróis apesar das nossas derrotas.

 

O passado e o futuro não são mentira. São partes da verdade. Sou o que fui e o que serei. Uma identidade que vive no tempo, uma coerência que se constrói através diferentes espaços e tempos, amando o que há de eterno em cada momento. Elevando o espírito acima da realidade concreta do mundo.

 

Uma existência autêntica – uma vida com valor – constrói-se com uma estrutura sólida, equilibrada e aberta a horizontes mais longínquos em termos temporais. Um presente maior, com mais passado e mais futuro. Sermos quem somos, de olhos abertos.

 

Não devemos viver dia a dia, mas sim semana a semana, mês a mês, ano a ano... precisamos de assumir que a nossa vida é tão bela quanto enorme, fugindo à triste lógica de tentar aproveitar cada dia como se fosse o último... não será a nossa vida muito maior e mais profunda que isso?

 

Sem as referências do passado e sem as responsabilidades do futuro, o momento não é presença, é ausência.

 

22FEV14

 

 José Luís Nunes Martins

A CAÇA AO TORDO

 O actual Governo tem culpa de imensa coisa. Mas não da partida de Fernando Tordo para o Brasil.

 

O problema de Fernando Tordo não foi dizer que se ia embora para ganhar a vida no Brasil, tal como o problema de João Tordo não foi ter escrito uma bonita carta de despedida ao seu pai. O problema – e é este problema que está na base de tudo o que desde então tem caído em cima das suas cabeças – é ambos terem feito uma ligação directa entre a actuação do Governo e a necessidade de Fernando Tordo emigrar, como se até os insucessos de um músico, profissional liberal por definição, fossem responsabilidade de Pedro Passos Coelho. Ora, que eu saiba, o Palácio de São Bento ainda não tem qualquer poder sobre o "top 10" da Associação Fonográfica Portuguesa.

 

Quando Rick Rubin foi ter com Johnny Cash nos anos 90, para gravarem juntos os extraordinários discos pela American Recordings que revolucionariam o final da sua carreira, Cash era um sexagenário, tal como Fernando Tordo. E, tal como Fernando Tordo, a indústria tinha-o abandonado e os seus concertos estavam vazios. Quem gosta de música sabe o que aconteceu a Cash a partir de 1994, tal como conhece a amargura que ele sentia antes disso. Mas eu não me recordo de algum dia, em alguma entrevista, ter visto ou ouvido Cash culpar Bill Clinton ou a administração americana pela situação em que se encontrava.

 

Eu simpatizo bastante com Fernando Tordo e com o seu filho João. São pessoas simpáticas, afáveis, abertas, bem-dispostas e que não têm habitualmente o discurso do português desgraçadinho. Mas, neste caso, Fernando perdeu o pé quando, a 14 de Janeiro, no programa da TVI24 onde tudo isto começou, uniu a frase "não aceito esta gente, não aceito o que estão a fazer ao meu país, não votei neles e não estou para ser governado por este bando de incompetentes" à frase "passou a ser insultuoso, ao fim de 50 anos de carreira, ter de procurar trabalho desta maneira, ter de viver quase precariamente".

 

Ambas as frases são inteiramente legítimas, mas ao juntá-las Fernando Tordo sugeriu uma relação de causa-efeito que me parece, no mínimo, abusiva. Relação essa que acabaria por ser sublinhada pela carta de João Tordo, quando a certa altura cai num retrato neo-realista que mete reformas de "duzentos e poucos euros" e pancada aos "nossos governantes" por acabarem com "a cultura", com "a felicidade", com "a esperança" e com o seu "pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país".

 

Quando Fernando Tordo veio dizer, num direito de resposta ao jornal i, que não havia sido "intenção de nenhum dos intervenientes pedir a misericórdia dos Portugueses" e que ele "não passa dificuldades económicas nem nunca tencionou que isso ficasse implícito", já era tarde. A notícia dos ajustes directos no valor de mais de 200 mil euros tinha feito o seu caminho. E se essa notícia ainda pode ser considerada popularucha, a de ontem, sobre a ONG liderada pela sua mulher lhe ter pago 10 mil euros por dois espectáculos, levanta questões éticas sérias, que Fernando Tordo certamente preferiria que não tivessem vindo parar à praça pública.

 

É evidente que a austeridade prejudicou os músicos portugueses, pois o circuito das câmaras municipais sempre foi fundamental para o seu sustento, e a torneira fechou. Só que subsidiar a música popular é um contra-senso: ou bem que é subsidiada, ou bem que é popular. O actual Governo tem culpa de imensa coisa. Mas não da partida de Fernando Tordo para o Brasil.

 

27/02/2014

 

 JOÃO MIGUEL TAVARES

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