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A bem da Nação

UM POUCO DA ÍNDIA – 1

 

 

Há pouco tempo propuseram-me colaborar com um blog de Goa, ao que respondi que a minha ignorância sobre a Índia era quase total, ou ainda maior se possível, mas que teria todo o prazer em “falar” sobre África, por exemplo.

 

Por enquanto o único assunto que andou foi o meu imenso interesse pela história da Índia que é de uma riqueza excepcional.

 

Comprei uma porção de livros, um dos quais, de Londres, dada a eficiência dos correios brasiliensis, demorou 80 dias – oitenta – para chegar... mas chegou.

 

Interessou-me sobretudo a Índia primitiva, a começar pela primeira pergunta que há muito me fazia: “- porque na Índia tem gente de pele tão escura?”

 

Vamos à história da jornada humana, desde o aparecimento do Homo Sapiens, que segundo a ciência, terá surgido há uns 200.000 anos na Etiópia. A seguir, ninguém sabe porque, demoraram 130.000 para começarem a se expandir na sua jornada pelo mundo, sendo uma das primeiras levas a dos africanos a atravessarem o estreito de Bab-El Mandeb, cruzarem o sul da Península Arábica, actual Yemen, entrarem directamente no sudoeste da Índia, e sempre se multiplicando, seguido pelas ilhas da Indonésia até à Nova Guiné e Austrália, onde terão chegado há uns 40 ou 50.000 anos.

 

Há registos de ossadas humanas na Índia que datam de 34.000 anos.

 

 

Mas da Índia se fala sobretudo da pós-invasão dos arianos, ou indo-arianos ou indo-europeus, que levaram consigo uma civilização mais adiantada, do sânscrito, do Mahabarata, etc.

 

Índia, é o nome que deram àquela zona, ocupada pelo Paquistão e Índia, que deriva do famoso rio Hindus, hoje inteiramente dentro do Paquistão.

 

Como se sabe que a invasão dos tais arianos se deu uns 1.500 a.C., temos que procurar bem mais para trás o porquê de, por exemplo, cerca de 1.600 dialectos no continente indiano.

 

Uns 10 ou 20.000 anos depois, as migrações a partir de África, sempre continuaram, pelo Médio Oriente até à parte Central da Ásia, e daí em todas as direcções, e muitos deles com o passar dos séculos, ou milénios, deram a volta pelo norte dos Himalaias e foram estabelecer-se na Birmânia – Myanmar – Tailândia e sudeste da Índia.

 

Portanto hoje encontram-se na Índia os tipos humanos de características mais dispares, desde o mais escuro, que mantém quase intocáveis as feições africanas, até outros que poderiam ser finlandeses.

 

Fala-se muito na maravilha do budismo, do hinduísmo e do jainismo, mas todas estas filosofias ou religiões começaram há bem “bem pouco tempo”, coisa de, no máximo, uns 500 a 600 anos a.C. Para trás perde-se no tempo o que veio a ser o hinduísmo, já que sempre existiram crenças e filosofias naquela região, que se foram aperfeiçoando e fixando ao longo dos tempos.

 

Os traços de civilizações mais antigas encontram-se no vale do Hindus, e podem chamar-se de civilizações porque, por exemplo em Mohenjo Daro, encontrou-se um dos centros urbanos mais antigos do mundo, construído por volta do XXVI século a.C.

 

Uma perfeita planificação da cidade, ruas alinhadas com cruzamentos em ângulo recto e, o mais extraordinário, todas as casas com água corrente, pequena piscina, tipo banheira e até sanitários, por baixo dos quais corria água que era levada para depuração em poços.

 

Um selo encontrado em Mohenjo-Daro sugere para esse local um possível antigo nome dravidiano, Kukkutarma ("a cidade [-rma] do galo [kukkuta]"). Talvez lá fizessem lutas de galos.

 

As línguas dravídicas, usadas nalguns “enclaves” do Paquistão e em todo o cone sul do sub-continente indiano, parece terem sido introduzidas na Índia em tempos pré históricos. Outra língua, Munda, pertencente ao ramo Austric – de austral – apesar de ter relativamente pouco falantes na Índia é talvez a língua mais espalhada no mundo porque se encontra desde a Ilha de Páscoa, junto ao Chile, atravessa toda a Indonésia e vai até Madagáscar, por onde se podem “acompanhar” os traços da jornada dos africanos desde as suas primeiras migrações.

 

O planalto central da Índia, Decan, segundo geólogos, é constituído sobretudo de basalto, resultante do magma expelido por um imenso vulcão, perto da Ilha da Reunião, no periodo pré-Cambriano, no continente que hoje é chamado como Gondwana *.

 

Curioso os cientistas afirmarem que o mais antigo povo da Índia seriam os Gonds (daí Gondwana, a Terra dos Gonds), que ainda hoje constituem a maior tribo do mundo. E Gonds significa os “homens das encostas”, porque saíram da zona costeira e se foram fixar no planalto.

 

E, ainda de acordo com descrições antropomórficas, o tipo dravidiano seria: “de estatura baixa ou abaixo da média, tez muito escura, aproximando-se do negro, muito cabelo com tendência a encrespar, olhos escuros, cabeça longa, nariz largo, por vezes achatado até à raiz, mas não o suficiente para parecer que a cara é recta.”

 

 

Tudo isto responde também à primeira pergunta que sempre me fazia sobre a cor da pele, escura, de grande parte da população indiana.

 

Nem todo o dravidiano é assim, porque a mistura de populações idas de todos os cantos do mundo, em milénios, é imensa.

 

Heródoto, nas suas viagens que o levaram a escrever e ficar conhecido como o Pai da História, terá chegado, quando muito a Ecbátana, na Pérsia, a mais de dois mil quilómetros do Hindus, de forma que o que escreveu sobre a Índia é tudo de relatos, alguns extremamente fantasiosos. Mas a certa altura diz: “...esses indianos dos quais falei... a tez deles é da mesma cor, análoga à dos etíopes. Esses vivem muito longe dos persas, na direcção sul.”

 

Os ancestrais, idos de África, e segundo parece, os primeiros povoadores daquela região, estão, até hoje, e para sempre, bem presentes em milhões de seus descendentes.

 

* O termo original para designar o super continente que haveria ao sul, Gondwanaland, foi cunhado pelo geólogo inglês Eduard Suessem 1861, em referência à região de Gondwana, na Índia, onde a flora de Glossopteris, plantas fósseis permianas – 250 a 300 milhões de anos –foi encontrada pela primeira vez

 

N.- Continuaremos a “falar” sobre a Índia.

 

11/03/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

DUAS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS

 

Todos nós sabemos que Al Capone somente foi preso por haver omitido rendimentos ao fisco americano. Mas toda história tem detalhes e desdobramentos curiosos que às vezes desconhecemos. As duas relatadas a seguir mostram que o exemplo, é mesmo, um grande legado.

HISTÓRIA NÚMERO UM

 



Há muitos anos, Al Capone controlava inteiramente a cidade de Chicago. Não ficou famoso por nenhum acto heróico.

Era notório, sim, por encher a cidade com tudo relativo a contrabando, bebidas, prostituição e assassinatos.

Capone tinha um advogado apelidado 'Easy Eddie', um excelente profissional!

Sua habilidade, manobrando no cipoal de leis, manteve Al Capone fora da cadeia por muito tempo.

Para mostrar seu apreço, Capone lhe pagava muito bem.

Não só o dinheiro era grande, como Eddie também tinha vantagens especiais. Por exemplo, ele e a família moravam em uma mansão protegida, com todas as conveniências possíveis.

A propriedade era tão grande que ocupava um quarteirão inteiro em Chicago. Eddie vivia a vida da alta-roda da cidade, mostrando pouca preocupação com as atrocidades que ocorriam à sua volta.

No entanto, Easy Eddie tinha um ponto fraco.

Tinha um filho que amava acima de tudo. Eddie cuidava para que seu filho tivesse sempre do melhor: roupas, carros e uma excelente educação. Nada era poupado. Preço não era problema. E, apesar do seu envolvimento com o crime organizado, Eddie tentou lhe mostrar sempre o que era certo e o que era errado. Eddie queria que seu filho se tornasse um homem melhor que ele.

Mesmo assim, com toda a sua riqueza e influência, havia duas coisas que ele não podia dar ao filho: não podia transmitir-lhe um nome bom e um bom exemplo.

Um dia, Easy Eddie tomou uma decisão difícil no sentido de corrigir as injustiças de que havia participado na sua carreira como advogado.

Decidiu que iria às autoridades e contaria a verdade sobre Al 'Scarface' Capone, limpando o seu nome sujo e oferecendo ao filho alguma coisa como integridade moral recuperada.

Para tanto, teria de testemunhar contra a quadrilha de Capone, e sabia que o preço a pagar seria muito alto. Ainda assim, ele testemunhou.

Um ano depois, Easy Eddie foi assassinado a tiros numa rua de Chicago.

Deu ao filho o maior presente que poderia oferecer, ao maior custo que poderia pagar.

A polícia recolheu em seus bolsos um rosário, um crucifixo, uma medalha religiosa e um poema, recortado de uma revista.

O poema: 'O relógio da vida recebe corda apenas uma vez e nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros irão parar, se mais cedo ou mais tarde. Agora é o único tempo que você possui. Viva, ame e trabalhe com vontade. Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar a qualquer momento.

 

HISTÓRIA NÚMERO DOIS

 



A Segunda Guerra Mundial produziu muitos heróis.

Um deles foi o Comandante Butch O'Hare, um piloto de caça, operando no porta-aviões Lexington, no Pacífico Sul.

Um dia, o seu esquadrão foi enviado a uma missão. Quando já estavam voando, ele notou pelo medidor de combustível que haviam esquecido de encher os tanques do seu avião. Ele não teria combustível suficiente para completar a missão e retornar ao navio. O líder do voo o instruiu a voltar ao porta-aviões. Relutantemente, ele saiu da formação e iniciou a volta à frota.

Quando estava voltando ao navio-mãe viu algo que fez seu sangue gelar: um esquadrão de aviões japoneses voava na direcção da frota americana. Com os caças afastados da frota, ela estaria indefesa ao ataque iminente. Ele não podia alcançar seu esquadrão nem avisar à frota da aproximação do perigo.

Havia apenas uma coisa a fazer. Teria que desviá-los da frota de alguma maneira...

Afastando todos os pensamentos sobre a sua segurança pessoal, ele mergulhou sobre a formação de aviões japoneses.

Suas metralhadoras calibre 50, montadas nas asas, disparavam enquanto ele atacava um surpreso avião inimigo e em seguida outro.

 

Butch costurou dentro e fora da formação, agora rompida e incendiou tantos aviões quanto possível, até que sua munição finalmente acabou. Ainda assim, ele continuou a agressão.

Mergulhava na direcção dos aviões, tentando destruir e danificar tantos aviões inimigos quanto possível. Finalmente, o exasperado esquadrão japonês partiu em outra direcção.

Profundamente aliviado, Butch O'Hare e o seu avião danificado se dirigiram ao porta-aviões. Logo à sua chegada informou a seus superiores sobre o acontecido. O filme da máquina fotográfica montada no avião contou a história com detalhes. Mostrou a extensão da ousadia de Butch em atacar o esquadrão japonês para proteger a frota. Na realidade, ele tinha destruído cinco aeronaves inimigas.

Isto ocorreu no dia 20 de Fevereiro de 1942, e por aquela acção Butch se tornou o primeiro Ás da Marinha na 2ªGuerra Mundial, e o primeiro Aviador Naval a receber a Medalha Congressional de Honra.

No ano seguinte Butch morreu em combate aéreo com 29 anos de idade. Sua cidade natal não permitiria que a memória deste herói da 2ª Guerra desaparecesse, e hoje, o Aeroporto O'Hare, o principal de Chicago, tem esse nome em tributo à coragem deste grande homem.

Assim, se algum dia você passar no O'Hare International, lembre-se dele e vá ao Museu comemorativo sobre Butch, visitando sua estátua e conhecendo suas condecorações. Fica situado entre os Terminais 1 e 2.

O que têm estas duas histórias de comum entre elas? Porque ambos eram de Chicago? Não! Butch O'Hare era o filho de Easy Eddie.

 

 Francisco Gomes de Amorim

FASCÍNIO TECNOLÓGICO

 

A nossa era tem um amor apaixonado pela tecnologia. Andamos mesmo cativados com aquilo que as nossas máquinas conseguem fazer. A cada passo vemos alguém embevecido mostrando feitos do seu telefone ou computador, como se tivesse mérito nisso. São indiscutíveis os avanços e benefícios da informática e comunicação nos últimos tempos, mas a atitude de benevolência babada que daí resulta pode ter efeitos negativos, colocando os instrumentos acima das finalidades.

 

Dada a alucinante evolução, aquilo que hoje nos maravilha será muito em breve irremediavelmente obsoleto e ridículo. É muito difícil compreender a admiração dos nossos pais pelas calculadoras a cartões ou cassetes ronceiras. Por isso deveríamos relativizar a última moda tecnológica, que para mais só vigorará meses até à próxima. Afinal os nossos aparelhos, tão novos, são ainda realmente primitivos.

 

O facto é tão evidente que as próprias empresas manifestam despudoradamente a sua má qualidade. Agora, ao ligar um computador, é habitual ser importunado com a solicitação de actualizações de programas. Em qualquer outro electrodoméstico um incómodo destes seria intolerável, praguejando-se contra o fabricante defeituoso. Mas na informática esta evidente admissão de falha é considerada sinal de progresso e suportada com bonomia. Como diz o povo, "mais vale cair em graça que ser engraçado".

 

Pior, isso em geral implica a espera de longos minutos até descarregar o programa (download no jargão), seguido de instalação e encerramento da máquina para "reinicializar". Em certos casos, numa arrogância inacreditável, o próprio computador parece tomar a decisão de se autodesligar e religar, como se ele, e não o utilizador, fosse a finalidade última. A operação do dono que espere, enquanto o mestre mecânico faz a toilette.

 

A coisa é ainda mais insólita porquanto, em geral, acaba por não se conseguir detectar quais foram, afinal, os benefícios das recorrentes e impostas actualizações. Para a esmagadora maioria dos utilizadores, que apenas pretende escrever, calcular ou comunicar, esses caprichos técnicos só complicam e atrasam. Assim, o computador hoje é mais avançado e poderoso que nunca, mas realmente mais lento.

 

O fascínio pela tecnologia manifesta-se em múltiplas outras áreas. Recentemente os transportes públicos lisboetas acrescentaram um dispositivo às suas estações, indicando o tempo até ao próximo veículo. Nos autocarros da Carris, se a informação for correta, é relevante pois, existindo várias carreiras em cada paragem, permite decisões fundamentadas.

 

Nos comboios do Metropolitano, porém, como não há escolha, saber o tempo de espera é mero conforto ocioso. A não ser que a informação fosse apresentada nas portas de superfície da estação, o que permitiria acelerar ou acalmar o passo. É espantoso como o deslumbramento tecnológico traz a empresa orgulhosa da proeza, sem notar que colocou o visor no único local onde é irrelevante, o cais.

 

Um dos sinais mais divertidos deste enlevo pela tecnologia é ver os velhos meios de comunicação social -jornais, rádio e televisão - falar das redes sociais. Hoje essas entidades virtuais ganharam estatuto de oráculo infalível. A ideia é ridícula porque, se esses instrumentos fossem aquilo que se alega, não seria possível nem necessário informar do que pensam. Não seria possível porque, reflectindo realmente as ideias de milhões, ninguém resumiria tal complexidade em poucas linhas. Não seria necessário pois, alegadamente universais, tornariam a imprensa redundante.

 

Esta invocação das redes sociais é apenas a renovação do velho mito da "opinião pública", que há séculos jornalistas e comentadores usam para mascarar os seus próprios palpites. Só que hoje a mística tecnológica acrescenta-lhe uma certeza infalível. O que as redes sociais dizem (depreendido pelo repórter de um punhado de consultas) é indiscutível e soberano.

 

A paixão é sempre ridícula. Por isso o futuro rirá com surpresa do nosso encantamento ingénuo pela nossa tecnologia ainda tão rudimentar.

 

10 de Março de 2014

 

 João César das Neves

OS 70 NOTÁVEIS

 

 

Reestruturação da divida pedem 70 «Notáveis». Invocam o exemplo do tratamento dado à Alemanha em 1953.

 

Mais uma vez se confirma: a quantidade é inimiga da qualidade. Os Notáveis no caso não primam pelo bom senso.

 

Nós não somos a Alemanha de 1953 que apenas precisava de um empurrãosito para pôr a sua fabulosa economia a trabalhar. Eles tinham tudo o mais: tecnologia, gestores, trabalhadores qualificados, organização sindical apropriada, leis inteligentes, recursos abundantes (para economia do tempo). Além disso, por força da Guerra Fria então instalada, a Alemanha transformara-se num activo precioso que de modo algum poderia ser deixado ao abandono.

 

Tudo o que lá sobrava então, aqui e hoje, escasseia ou não existe. Pior, temos uma burocracia estupidificada, corrupção instalada, sindicatos com paralisia mental, não somos activo estratégico e já nem sequer há Guerra Fria (por enquanto, pelo menos).

 

O que nós precisamos e muito é de um bom plano Marshall e de uma invasão de huguenotes.

 

Nas presentes condições, se nos perdoarem ou reestruturarem a divida, vai tudo para a praia e cuidar do almoço. Importante e bom cá nesta santa terrinha é o almoço. Já era assim quando cá cheguei há 86 anos.

 

 Luís Soares de Oliveira

PARA UM ROTATIVISMO DECENTE

 

 

Uma breve história de “Consensos” nos é magistralmente descrita por Vasco Pulido Valente, no seu artigo do Público de 7 de Março – da Carta Constitucional a Fontes Pereira de Melo, nas muitas andanças dos conceitos de poder e de dinheiros emprestados e mal parados, para fundamento das ilações sobre o consenso que o Governo actualmente exige ao PS, co-responsável nas políticas de esbanjamento ao longo dos últimos 40 anos de governações catastróficas e actualmente posicionada num Governo que, encetando uma política de resgate financeiro, ajudou à destruição económica pelo empobrecimento geral, ressalvados os casos de conservação plutocrática, sempre meritórios.

 

A conclusão do texto de que os “consensos” requerem dinheiro, que não existe, - «Hoje, o Governo que fala em “consenso” e o PS que o recusa por razões triviais não percebem que o “consenso” implica um Estado com dinheiro, e muito dinheiro, e crescimento económico. Não sabem história.» – não sei se corresponde, todavia, a uma asserção de credibilidade, já que nas referidas tentativas anteriores de consenso também faltou o dinheiro, pelo menos para o povo do pé rapado, que de vez em quando reagia nas suas patuleias da indignação desestabilizadora.

 

O que julgo é que o PS deveria, por interesse próprio, participar no consenso pedido, e que o nosso PR tão ansiosamente propõe também, pela comparação com outros países de uma Europa de princípios e de amor pátrio menos floreado e mais sentido.

 

É que o PS não tarda que será Governo e necessitará do consenso dos partidos que agora compõem o actual, para ficar tudo em família, nesta coisa do rotativismo que nos persegue, como já João de Deus nos pintava com bonomia e argúcia no seu epigrama “Eleições”:

 

Há entre el-rei e o povo

Por certo um acordo eterno:

Forma el-rei governo novo

Logo o povo é do governo

Por aquele acordo eterno

Que há entre el-rei e o povo.

Graças a esta harmonia,

Que é realmente um mistério,

Havendo tantas facções,

O governo, o ministério,

Ganha sempre as eleições

Por enorme maioria,

Havendo tantas facções

É realmente um mistério!

 

Como o poeta João de Deus olhava satiricamente o rotativismo monárquico.

 

É bem verdade que o povo, ao contrário do de outrora, do tempo de João de Deus, civilizou-se mais, talvez por ter bebido na Cartilha Maternal do mesmo João de Deus as letras primeiras da sua formação, e agora prima pela sua rebeldia inquisidora, escolhendo de preferência a Oposição para denegrir o Governo. Caberá ao PS chamar a si as parcelas dos outros partidos ansiosas de mudança, e procurar o tal consenso com a maioria prudente. Por isso, e dada a sua responsabilidade no naufrágio da nação, que o piloto actual tenta erguer dos fundos marítimos, de Atlântida submersa, não deve escusar-se a anuir ao consenso. No mesmo intuito de levar a bom porto a barca perdida.

 

A lição de Vasco Pulido Valente:

 

Uma pequena história do "consenso"

 

Para explicar o que foi o “consenso” em Portugal, talvez seja melhor começar pela Carta Constitucional de 1826, “outorgada” por D. Pedro IV. A Carta pretendia reconciliar o radicalismo “vintista” com o antigo regime, e a alta nobreza tradicional com a classe média e a plebe das cidades. Não se dizia “consenso” nessa altura, mas mais gramaticalmente “compromisso” e, em certos casos, “fusão”.

O compromisso de 1826 provocou uma guerra civil que durou com intermitências para lá de 1834 e definiu uma regra básica: não podia haver entendimento de espécie alguma entre a esquerda e a direita, com o Estado em bancarrota e fome no país. Por isso, mesmo depois da vitória e a perseguição aos miguelistas, não houve paz que durasse entre campeões da liberdade. Com outros protagonistas, o ódio fervia como na véspera.

 

Em 1836, o radicalismo do Exército e da plebe de Lisboa resolveram abolir a Carta e combinaram com a rainha (que resistiu) pôr simultaneamente em vigor a Carta e a Constituição de 1822. Portugal, num exemplo de “fusão” a que toda a gente chamava o “pastel”, ficou com duas Constituições, enquanto se preparava a terceira para as substituir. Essa terceira devia ser “o mais parecida possível” com a Carta, para contentar os “revolucionários” de Setembro e o partido com quem eles tinham alacremente corrido. Em 1838, estava pronta e tomou o nome solene de “Ordem”. Não existiria desordem porque, em princípio, o acordo era universal. Só que não era e a “Ordem” deslizou suavemente para a direita e acabou a restaurar a velha Carta (de 1826 e 1834) em 1842.

 

Costa Cabral, o dono da nova situação, imaginou então fabricar um compromisso pela força, o juste milieu. Aguentou com dificuldade quatro anos e caiu com uma guerra civil, a da “Patuleia”. O Estado devia ao mundo inteiro e a fome continuava. Em 1851, Saldanha, apoiado por uma intervenção prévia da Espanha e da Inglaterra, estabeleceu a concórdia universal e Fontes Pereira de Melo sustentou essa concórdia com dinheiro da Inglaterra e da França. Veio logo a época dourada da “Regeneração”, com um pequeno intervalo (cinco anos) em que a diminuição em quantidade e valor das remessas do Brasil levou os partidos que andavam em litígio fingido a uma verdadeira “fusão”, em que partilharam irmãmente Portugal. A fome não apertava tanto e o Estado parecia solvente. Em 1890-1893, a ilusão morreu. Dali em diante, como entre 1817 e 1851, uma guerra civil larvar ou activa não deixou os portugueses. Salazar, com a censura, o Exército e a polícia política, abafou essas longas festividades. Hoje, o Governo que fala em “consenso” e o PS que o recusa por razões triviais não percebem que o “consenso” implica um Estado com dinheiro, e muito dinheiro, e crescimento económico. Não sabem história.

 

 Berta Brás

UM PAÍS DE POLÍTICOS

 

 

Portugal é um país de políticos. Dois desconhecidos encontram-se e logo depois diz-se mal do Governo. Não interessa a realidade mas os dirigentes, culpados de todo o bem e mal que existe. Em dez milhões de cidadãos só contam quinze, os ministros. Pior, Portugal é um país de rivalidades. Todos temos clube e o do vizinho joga mal.

 

Juntando os dois elementos, sai o ridículo de 80% dos eleitores votarem em dois partidos iguais que se combatem sem cessar. Agora, na crise, parecem muito diferentes, com o PSD acusando o PS de criar a catástrofe e o PS considerando o PSD neoliberal. Mas há trinta anos a crise nasceu com o PDS/CDS e foi o PS a aplicar a austeridade do FMI.

 

O pior é que toda esta superestrutura mediática oculta aquilo que realmente interessa. Só se fala de política, leis, medidas, eleições, omitindo a vida, sociedade, trabalho e mercados, que de facto orientam a nossa existência. Depois surgem surpresas, como a economia recuperar no meio da confusão institucional.

 

Imensa gente anda angustiadíssima com o futuro do País devido à má qualidade dos nossos dirigentes e jornalistas, sem pensar na excelente qualidade do povo. Muitos estão furiosos com os políticos, de um ou outro lado, por terem dado cabo de Portugal, sem notarem que Portugal está vivo e recupera dos disparates que todos cometemos.

 

É claro que a política tem influência, muita influência. Mas está longe da omnipotência que a nossa ilusão criou. Mais ainda, temos políticos maus há oito séculos e ainda por cá andamos. Aliás, tudo somado, os actuais até são muito melhores do que os antigos e o nosso nível de vida, mesmo com crise, está bastante acima das gerações anteriores. Para o ver basta afastar os mitos elegantes da nossa retórica e olhar para o mundo e para a história. Coisa que temos muita dificuldade em fazer, por sermos um país de políticos.

 

Gostamos do fanatismo cómodo, raivoso ou laudatório que criámos para nós mesmos. É tão mais simples acusar um poder remoto pelos nossos sofrimentos do que assumir culpas e enfrentar dificuldades!

 

Se isto é sempre verdade, em tempos de crise sente-se mais. Nos últimos anos a obsessão pela política e a fúria partidária explodiram. Com isso aumentou em muito a cegueira face à realidade. Um buraco deste tamanho não pode ter sido culpa de um punhado de governos. Ele nasceu de vinte anos de ilusões de dez milhões de cidadãos. Se o País fosse povoado por alemães, as políticas de Sócrates não teriam tido os efeitos que tiveram. Nem sequer ele seria eleito e reeleito.

 

Agora, o essencial da solução não está em estratégias ministeriais ou na célebre reforma do Estado, mas no ajustamento que os dez milhões estão a dar às suas vidas, para resolverem a sua situação. Isso começou muito antes da troika e pouco depende do Orçamento. Assim se explica o mistério. A recessão, que se situa mais na sociedade do que nas políticas, foi fazendo o seu caminho, debaixo do alarido mediático e combates partidários. As famílias mudaram de vida, as empresas corrigiram estratégias e cortaram custos, muitas desapareceram. Os capitais e trabalhadores aumentaram a eficácia, inventaram novos caminhos, procuraram alternativas. A economia ajustou.

 

Agora, segundo as regras económicas que a dirigem, a conjuntura parou a queda. Isto não é mérito do Governo ou influência da Oposição. Foram os trabalhadores e consumidores, investidores e mercados, nacionais e estrangeiros, milhões deles, que determinaram a trajectória. A economia, que começou a reagir à situação, não em Abril de 2011 com a troika mas logo em Setembro de 2008 com o crash financeiro, tem avançado bastante o seu ajustamento. Nesse sentido pode dizer-se que a crise está próxima do fim.

 

Então as dificuldades acabaram? Claro que não. Ainda há muito a fazer. Por exemplo, no ajustamento do Estado em que devido a lutas, insultos e truques se fez muito pouco.

 

 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

PORTUGUESES QUASE ESQUECIDOS – 3

 

 

Filipe de Brito e Nicote nasceu em Lisboa cerca de 1566 e morreu em 1613 na Birmânia onde chegou a ser Rei com o nome de Nga Zingar.

Filho do francês Jules de Nicot (naturalizado português como Júlio de Nicote) e de Marquesa de Brito ("Marquesa" sendo aqui apenas um nome e não um título de nobreza), Filipe era fidalgo da Casa Real de Filipe II de Portugal. Cavaleiro da Ordem de Cristo, serviu na Índia e, na Birmânia, na conquista dos Reinos do Pegu e da Fortaleza de Sirião que reconstruiu, defendeu e sustentou.

Já na Birmânia pelos anos de 1590, dedicou-se ao comércio do sal na ilha de Sundiva mas passou de seguida ao serviço do rei de Arracão nas lutas pela defesa da capital, Pegu, contra as investidas dos siameses (tailandeses, actualmente).

Desejando o Rei, em 1599, mostrar a sua gratidão aos portugueses Salvador Ribeiro de Sousa e Filipe de Brito e Nicote que o tinham assistido, deu-lhes o porto de Sirião para "receber dobaixo da sua protecção os fugitivos que tivessem vontade de voltar."

Filipe de Brito convenceu o Rei a construir uma Casa de Alfândega para aumentar os seus rendimentos no comércio de Pegu. O seu intento era que, levantada a feitoria, se levantassem os portugueses com ela e, «melhorando-se de Fortaleza», a partir dali conquistassem mais terras. Mas estava tal ideia bem longe da astúcia do Rei e acabada a obra entregou-a a um vassalo seu chamado Banhadala.

Banhadala, suspeitando das intenções de Nicote, fortificou o lugar e não permitiu que nenhum português pudesse entrar. Nicote, "vendo que não o segundava a esperança conforme à sua imaginação, quiz executá-la antes que, crescidas as fortificações, lhe impossibilitasse mais a Empresa”. Assim, com os capitães João de Oliva, Paulo do Rego e Salvador Ribeiro de Sousa bem como com mais cinquenta portugueses, fizeram um ataque súbito ao forte. Vitoriosos, “alcançaram o nome de Fundadores do Domínio Português naquele Reino."

Salvador Ribeiro de Sousa também obteve uma vitória sobre o Rei Massinga na província de Camelão, na qual “o Rei foi morto e grande dano feito ao seu país, tanto por terra como por mar”. Devido a essas vitórias, a reputação dos portugueses foi tão grande junto da gente do Pegu que rapidamente quis ser empregada por eles, até que dentro de um tempo curto puderam receber os serviços de 20 mil naturais. Esses, em consideração ao êxito alcançado por Filipe de Brito e Nicote e o seu bom temperamento (por causa do qual eles o chamaram "Changá", ou "Homem Bom "), proclamaram-no Rei. Como ele estava ainda ausente, Salvador Ribeiro de Sousa aceitou a coroa em seu nome. Mas logo que voltou, Nicote recebeu o reino. Corria o ano de 1600.

 Nicote parece que teve muito sucesso com o Vice-rei da Índia que o casou com sua filha, Luísa de Saldanha, que tinha nascido em Goa de uma mulher javanesa. Também lhe concede os títulos de "Comandante de Siriam” e de “General das Conquistas do Pegu". Nicote voltou então a Siriam com reforços e seis navios. Chegado a Siriam, refez o forte, construiu uma igreja e enviou um presente rico ao Rei de Arracão que tinha enviado uma delegação para o cumprimentar. Emitiu então ordens quanto à Casa da Alfândega conforme as instruções que tinha recebido em Goa directamente do Vice-rei: todos os navios que comerciavam na costa de Pegu devendo fazer as suas entradas lá. Como certos navios da costa de Coromandel recusaram obedecer a essas ordens, Nicote enviou seis navios para forçar a obediência, o que foi realizado com eficiência. Além disso, foram capturados dois barcos de Asseh com rica carga a bordo.

Anaukpetlun, filho do Rei d Alta Birmânia, lançou ua invasão da Baixa Birmânia apoderando-se de Prome em 1607. Em 1610 sitiou a cidade de Taungû que estava então nas mãos de Filipe de Brito e Nicote mas de que só se conseguiu apoderar em Setembro de 1613. Consumada a conquista, fez empalar Brito e escravizar os sobreviventes portugueses e euro-asiáticos (chamados bayingyi) que foram transferidos para duas aldeias perto de Shwebo onde ficaram a formar um corpo hereditário de artilheiros ao serviço dos reis da Birmânia. Ainda hoje, os bayingyi continuam a viver à volta do vale do rio Mu.

Eis como um português foi Rei da Birmânia entre c. 1600 e 1613 e ainda hoje por lá existem «portugueses abandonados» que bem poderíamos tentar contactar.

 

Março de 2014

 

 

Henrique Salles da Fonseca

 

PARA SABER MAIS SOBRE ESTES «PORTUGUESES ABANDONADOS», VER P. EX. EM: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.484300948269156.117333.438099366222648&type=1#!/pages/Thai-Portuguese-Descent-Community/438099366222648

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

  • A Birmânia mudou de nome?”, Luís Filipe F. R. Thomaz, BROTÉRIA, Fevereiro de 2014, pág. 121 e seg.
  •  Wikipédia

AS ESTREBUCHADELAS DO PÂNICO SUPERIOR

 

Gosto, dum modo geral, dos artigos de Vasco Pulido Valente, homem de cultura, de razão, de desafio e humor, cujas lições de história, aliadas aos retratos incisivos – de expressão ultimamente beatificante - de tantas figuras pátrias, constituem leves pinceladas do nosso pitoresco nacional, quer no sombrio das semelhanças factuais entre o passado e o presente, quer no certeiro dos dados caracterológicos, de recorte malignamente histriónico, ao sabor dos seus caprichos linguísticos, ou das suas tristezas reais.

 

 

Leiga na matéria económica, eu quis acreditar nos indicadores positivos já várias vezes referenciados e bastamente assinalados durante o congresso do PSD, que não me pareceu provocador, como toda a esquerda se apressou a concluir, o que atribuí antes a um sentimento de mesquinhez invejosa, de quem não aceita com desportivismo o êxito alheio, tentando denegri-lo com as chufas imediatas do cepticismo ardiloso. Não vi nos discursos de Passos Coelho pesporrência embandeirada em arco, mas a constatação - não isenta de preocupação - de algum êxito obtido, em que os primeiros passos – de abaixamento de salários indevidamente atribuídos antes – além de outros cortes impostos, por idênticos motivos, teriam forçosamente que efectuar-se. O não ver isso é que me parecia absurdo e tenebroso, como certas propostas vindas de outros coveiros da Pátria, de não pagamento da dívida escandalosa.

 

Por isso o artigo de Vasco Pulido Valente, “Uma despedida”, do Público de 28/2, me soa a intencionalmente maligno, pela ocultação de dados justificativos das medidas drásticas forçosas da nossa aventura económica, e pela indiferença achincalhante por alguns resultados positivos, entre os quais alguma recuperação de credibilidade externa. Quanto à informação sobre a futura descoberta pelo país de que a austeridade vai permanecer durante mais duas décadas – o que todos no país sabem já - ela insere-se no mesmo trilho dos que interrogam os ministros sobre o pedido ou o repúdio da providência cautelar posterior à Troika, numa especulação fofoqueira tendenciosa, desestabilizadora e inútil.

 

«Uma despedida»

 

Eduardo Lourenço disse que o congresso do PSD lhe parecia uma espécie de missa cantada. A mim, que sei pouco de missas, o que me pareceu o congresso foi uma festa de despedida.

 

Acredito piamente que Marcelo Rebelo de Sousa resolveu lá ir por razões sentimentais, como o resto das criaturas que dirigiram aquela extraordinária agremiação desde 1985. Tanto os “chefes” como os “militantes” sentiram, e com razão, que não se tornariam a encontrar tão cedo naquele ritual. E talvez nunca mais. Vieram de certa maneira ao enterro de uma história, para eles gloriosa, que não voltará.

 

Depois de Passos Coelho, depois de Cavaco, depois desta maioria (embora com CDS) ninguém no seu juízo pensa que o PSD pode ter genuinamente a esperança de recuperar a confiança do país.

 

Não são só estes quatro anos de “austeridade” e a incompetência política com que o Governo executou o programa da troika. É a singular esterilidade de quase tudo quanto fez. O grande partido “reformista” não reformou coisa nenhuma. Na essência, Portugal está como estava antes, com menos dinheiro. O primeiro-ministro transformou, ou deixou transformar, o debate político numa interminável conversa em calão económico, que ninguém percebe e porque verdadeiramente ninguém se interessa. O mortal comum olha para o “ajustamento” com desespero e com medo. E, por mais que Seguro o desconsole, quer outra coisa, seja ela qual for. Não há truque, não há manha, não há justificação ou argumento que alterem este facto básico. No Coliseu, a gente do PSD encontrou entre si algum conforto. Cá fora, o país assistiu ao espectáculo com desdém.

 

A eleição para o Parlamento Europeu e, a seguir, as legislativas irão mostrar a fraqueza do partido. É um mistério como Passos Coelho e a sua corte conseguem imaginar que “empobrecer” os portugueses, liquidar uma boa parte da classe média e tirar o futuro às gerações que tão iludidamente se “qualificaram” é uma política esquecível e perdoável. Era necessário? Acredito. Mas para cada um de nós a necessidade não aliviou nada. Sócrates não compreendeu ainda que morreu em 2010. O actual primeiro-ministro já suspeita que vai morrer em 2014 ou 2015, principalmente quando o país descobrir, com espanto e com terror, que a “austeridade” irá durar mais quinze ou vinte anos. A despedida do PSD chegou na altura certa.

 

Foi assim igualmente o artigo “O Grande Carnaval”, de 2/3, sobre os prováveis candidatos às eleições presidenciais, do PSD como do PS, os conhecidos e os que, nos seus artigos de opinião ou nos seus discursos se identificam com cargos de relevo, a lembrar hipóteses de candidatura. Um artigo de humor e graça, na sua acutilância retratista.

 

Mas discordei do que afirmou de Cavaco Silva. Ao contrário do que afirma Pulido Valente, Cavaco Silva, na apagada modéstia da sua presença paternalista, consegue impor-se e ser elemento de travão tanto do Governo como da Nação. E no seu incontestável amor pátrio, quando se desloca, por exemplo, a países ricos, estendendo a mão para pedidos de colaboração económica, engolindo os sapos da vergonha própria, em benefício de um país que fala e grita e lança as labaredas dos seus ódios desordeiros e ingratos, em vez de agradecer e de trabalhar num esforço de recuperação.

 

Por isso não concordo com o seguinte postulado: É difícil escolher o pior. Mas como nenhum, por mais que se esforçasse, poderia ser pior do que o Prof. Cavaco, o país, que devia andar aterrado, anda tranquilo.

 

É que o país confia nesse homem, que não tem a elegância dos nascidos nos berços dourados da aristocracia ou do capital, mas que, já velho, leão batido pelo burro da fábula, consegue impor ainda o seu rugido, na selva de que foi rei outrora:

 

«O grande carnaval»

 

Num partido em que os “notáveis” só se preocupam com a sua carreira e com os seus “negócios” não admira que já haja três candidatos à presidência da República e que a questão se discuta ardorosamente por aí. Os três candidatos são Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso e Santana Lopes e todos fazem a sua humilde corte ao PSD, de que precisam para ser candidatos, primeiro, e eleitos, depois.

 

É difícil escolher o pior. Mas como nenhum, por mais que se esforçasse, poderia ser pior do que o Prof. Cavaco, o país, que devia andar aterrado, anda tranquilo. De resto, o estatuto e a influência do Presidente caíram tanto de há vinte anos para cá que ele se tornou num ornamento inócuo do regime, a que ninguém atribui especial importância e que desceu, por sua própria conta, a angariador de investimentos para Portugal.

 

De qualquer maneira, este extraordinário trio talvez nos consiga divertir no meio da desgraça. É pena que Marcelo nos prive da sua missa dominical, em troca da vista de Belém, embora talvez nos compense com a sua inclinação para o inesperado e a sua congénita malícia política: o país precisa que o agitem. Pedro Santana Lopes apareceu agora, desde que lhe deram a Misericórdia, com um arzinho de frade franciscano, que lhe fica bem e o ajuda a competir com o Papa. E Durão Barroso teoricamente traz consigo um cheiro a Europa de que os portugueses sempre gostaram. Claro que nada disto se consegue levar a sério. Mas na tristeza do dia-a-dia o absurdo distrai e até consola. Verdade que os três candidatos (ou “proto-candidatos”), não chegam para uma orquestra. Nem se pede tanto, com as dificuldades da Pátria: hoje basta um trio enquanto o “Titanic” se afunda.

 

À esquerda, esvoaça muito discretamente o inevitável António Costa. Sócrates levaria o PS a um prodigioso desastre. E não se consegue imaginar outra “figura” do partido, que razões de idade ou de currículo não afastem dessa miserável aventura. Em compensação, não nos faltam excêntricos com mais de 35 anos, que se acham perfeitamente capazes de nos pastorear com a gravidade e a elegância com que discursam em reuniões de acaso ou escrevem artigos, assinados “director”, “gestor” ou “professor universitário”. Portugal está cheio de videntes com a cura para a crise no bolso, que sonham com uma oportunidade de passar à prática. E também o Bloco e similares se preparam com certeza para arejar as suas querelas teológicas a benefício das massas que não os compreendem. As presidenciais hão-de espantar o mundo.

 

 Berta Brás

INVESTIMENTOS PRIORITÁRIOS

 

 

Portugal e os Portugueses também, precisam de aumentar o mais rapidamente possível a sua produção e obviamente reduzir as despesas improdutivas, o que implica a verdadeira reforma do Estado e não a tolice dos cortes que nem cegos são, para poderem pagar o que devem e passarem a viver melhor.

 

Entretanto o grupo responsável por este trabalho, que se esperava tivesse esta introdução como base para os seus 30 investimentos prioritários (porquê 30? Qual o critério desta auto limitação?), tratou particularmente dois investimentos de forma a merecer este comentário.

 

 

 

O primeiro por ausência, seja ela causada por preconceito, ignorância ou outra razão qualquer que desconheço, pois o sector da náutica de recreio que de certeza criaria bastante mais postos de trabalho permanentes com menos investimento público que qualquer dos investimentos indicados e em muito menos tempo, nem uma linha de atenção mereceu.

 

E quando afirmo isto, é porque há projectos concretos que criarão alguns milhares de postos de trabalho que aguardam há largo tempo as decisões indispensáveis de Autarcas e Governantes.

 

Mas pelos vistos com este tratamento dado aos investimentos na economia do Mar já se entende por que razão não foi dada ao Secretário de Estado do Mar a necessária autoridade para decidir o que é essencial fazer neste sector.

 

O segundo por excesso porque tendo sido indicado o novo terminal de contentores em Lisboa, há o maior interesse e curiosidade em conhecer a sua estrutura de funcionamento e de sustentabilidade, incluindo a sua contribuição para a criação de postos de trabalho e de riqueza para os portugueses, comparando-o obrigatoriamente com possíveis investimentos alternativos.

 

Ainda por cima sabendo-se que uma das causas para a construção deste novo terminal destinado aos novos navios panamax, relacionada com a estrutura internacional deste tipo de transporte, deixou de ter relevância.

 

Lisboa, 7 de Março de 2014

 

 José Carlos Gonçalves Viana

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