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A bem da Nação

A AGRICULTURA FAMILIAR

 

 

A agricultura familiar foi, durante muitos anos, uma das formas de agricultura predominantes em certas zonas do país. Em tempos mais recentes, é mais reduzido o seu número e há quem declare que só tem razão de existir como actividade de complemento para quem tem outro emprego.

 

Nos textos duma organização chamada “”Think Tank”, recebidos regularmente por correio electrónico, vejo um interessante artigo sobre “Agricultura familiar”.

 

Aprendi que este ano é o Ano Internacional da Agricultura Familiar e que, segundo um relatório da FAO, 98% das explorações agrícolas do mundo são familiares e que são responsáveis por 56% (mais de metade) da produção total.

 

A exploração familiar não tem necessariamente de ter muito pequenas dimensões. Em locais apropriados, com parcelas de dimensões razoáveis e o uso da mecanização, é possível a uma família cultivar um bom número de hectares. Recordo-me de, há muitos anos, visitar uma exploração familiar de 200 ha. Pai, mãe, filha e genro criavam vacas e cultivavam milho.

 

No mesmo “Think Tank”, um outro artigo estuda a enorme importância, como fertilizante a aplicar em solo agrícola, dos excrementos humanos, fezes e urina. São muito ricos em azoto e fósforo, dois dos principais elementos necessários à vida das plantas. Em vez de esses esgotos serem lançados em rios e mares, com graves consequências de poluição, devem ser tratados com tecnologia adequada.

 

Um grupo de cientistas de vários sectores reuniram-se no Verão passado na Universidade Tecnológica de Hamburgo, precisamente para tratar do aproveitamento dos excrementos humanos para produção de energia – essencialmente biogás, que tem sido quase totalmente ignorado em Portugal – e de fertilizantes para a agricultura.

 

Com o contínuo crescimento da população, pode chegar-se a um ponto em que haja dificuldade em ter alimentos para todos. Mas estamos ainda bastante longe desse momento, pois a ciência agronómica tem sabido fazer crescer a produtividade da terra e dos homens de forma espectacular. Só há fome ou carências alimentares onde há maus políticos, que só produzem más políticas.

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 13 de Março de 2014

 

Miguel Mota

KALIMERA – 1

 

 

Petróleo, não obrigado! Quero água! E se alguém disser que o petróleo não faz falta, é claro que mente. Mas a água, essa, sim, é importante. Chipre tem sede.

 

QUERO ÁGUA!!!

 

É, pois, com este brado cipriota que começo as minhas crónicas sobre esta viagem que me levou ao Mediterrâneo oriental.

 

E aquela expressão tão corriqueira de que «não se pode ter tudo» vem muito a propósito da retenção (por mini barragens) que em Chipre foi feita das poucas águas que a Mãe Natureza faria seguir para o mar e que obstaram à continuação da erosão que os séculos anteriores se encarregaram de fazer. Resultado: não há mais erosão mas também não há aluvião e as águas do mar, sendo tendencialmente estéreis por via da salinidade, viram o peixe zarpar para outras paragens. Os peixes querem o plâncton que o aluvião ia promovendo mas que ali, por enquanto, não há.

 

Eis como Chipre evita viver sobre um rochedo nu e cru. E mesmo que no quintaleco lá de casa um antepassado do Senhor Costas (nome vulgar por aquelas paragens) tenha plantado uma árvore que durante gerações mais pareceu um arbusto raquítico e hoje poderia ser substituída por outra espécie mais adaptada às actuais condições (passou a haver água doméstica proveniente das centrais de dessalinização), é proibido cortar qualquer árvore e só com uma autorização muito especial da Administração Pública isso se poderá fazer.

 

O cipriota comum queixa-se de ainda não ter sido inventado o método de rega de cereais gota-a-gota. Portanto, a agricultura faz-se de sequeiro ou por rega gota-a-gota e o único pivot que vi mais parecia um brinquedo de crianças.

 

Sim, Chipre tem uma grande dependência alimentar e bem tenta superar essa pecha chamando propriedade agrícola a qualquer parcela menos pedregosa. Qual o custo de produção duma batata ou de um litro de leite? Não mo disseram mas na verdade lá seguem... E eu vi.

 

Mas recordemos o que Nuno André Coelho, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, nos dizia em 27/03/13 no Diário Económico:

 

O Chipre aderiu à União Europeia em 2004 e tornou-se num membro da União Económica e Monetária em 2008. Quatro anos depois da adesão ao euro, o país mergulhou numa profunda recessão e viu-se forçado a pedir intervenção externa para evitar o colapso da sua economia. CE/BCE/FMI chegaram a acordo sobre a ajuda financeira ao Chipre no valor de 10 mil milhões de euros (cerca de 56% do Produto Interno Bruto do país), assegurando que os depósitos até 100,000 euros permanecerão intactos. O novo acordo envolve o fecho de actividade do segundo maior banco nacional, o Banco Laiki (será separado num bad bank e num good bank, este último será incorporado no Banco do Chipre), e a reestruturação do Banco do Chipre, o maior banco nacional. Accionistas, obrigacionistas e depositantes não segurados (ou seja, com depósitos superiores a 100,000 euros) serão chamados a contribuir para estes planos de reestruturação, uma vez que o empréstimo de 10 mil milhões de euros não será utilizado para estes fins.

 

Em 2012, a economia real contraiu 2.4%, depois de em 2011 registar uma taxa de crescimento de 0.5%. A recessão foi particularmente acentuada no último trimestre do ano, com a produção de bens e serviços a diminuir 3.3% face ao período homólogo (dados ajustados pela sazonalidade e pelo número de dias trabalhados). Por sua vez, o desemprego atingiu 12.1% da população activa no terceiro trimestre desse ano (últimos dados divulgados), 15.5% para os que procuram o primeiro emprego. Representando apenas 0.2% do PIB da zona euro, o Chipre é detentor de um sistema financeiro equivalente a 7.2 vezes a produção interna (medido pelo total de activos das instituições financeiras monetárias em relação ao PIB) com uma elevada exposição internacional. Por exemplo, os depósitos de não-residentes correspondem a cerca de 40% dos depósitos totais nas instituições cipriotas e o investimento de carteira da posição de investimento internacional (devedor) corresponde a 120% do PIB nacional.

 

Nos anos que se seguiram à adesão à União Europeia e até 2008, ano em que a crise do subprime originada nos EUA atingiu o sistema financeiro numa escala global, a economia do Chipre registou um forte período de expansão, com elevadas taxas de crescimento, reduzido desemprego e contas públicas sólidas. Durante estes cinco anos, a taxa média de crescimento anual foi de 4.2%, baseada sobretudo na expansão dos serviços, do sector da construção e do mercado imobiliário, e a taxa de desemprego só em 2005 subiu acima dos 5%. Como consequência do período expansionista que a economia atravessava, as receitas com impostos eram elevadas e das despesas sociais reduzidas, pelo que o saldo orçamental atingiu um excedente de 3.5% do PIB em 2007. Adicionalmente, a dívida pública desceu de 70% do PIB em 2004 para apenas 49% em 2008.

 

Como passou o Chipre de uma situação económica tão favorável para o cenário actual, em que se viu forçado a pedir a intervenção da troika? Em primeiro lugar, o aumento dos fluxos de capital para o país e a diminuição dos prémios de risco associados ao facto de pertencer a uma união monetária estiveram por detrás de uma redução acentuada das taxas de juro, o que por sua vez facilitou o endividamento - tanto dos particulares e empresas, como do governo. De facto, a dívida privada, em percentagem do PIB, aumentou de 160% em 2004 para 235% no final de 2008. Em segundo lugar, a crise financeira mundial provocou uma contracção da economia em 2009 (em termos reais, o PIB contraiu 1.9%) e o governo respondeu com a introdução de estímulos para relançar a actividade no valor de 4% do PIB, o que evitou uma contracção mais acentuada, mas transformou o excedente orçamental de 3.5% em 2007 em défices de 6.1%, 5.3% e 6.3% nos três anos seguintes. Adicionalmente, a exposição internacional do sistema financeiro estava muito assente em dívida da Grécia, pelo que os bancos sofreram perdas avultadas com o perdão de dívida concedido aos títulos gregos. De facto, no final de 2011, o valor de mercado dos títulos de dívida gregos na posição de investimento internacional do Chipre era de 4.8 mil milhões de euros (27% do PIB do Chipre), enquanto que no final do segundo trimestre de 2012 (últimos dados conhecidos) esse valor era de 3.4 mil milhões. Por último, a destruição da maior central eléctrica do país em Julho de 2011, provocada pela explosão de um depósito de armas, causou um apagão em metade da ilha cipriota e contribuiu para um grande aumento não esperado da despesa pública, com os custos de reparação a atingirem os 3% do PIB.

 

Fiquemos então hoje por aqui.

 

24 de Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

COM A VERDADE ME ENGANAS

 

 

“Colocar o engano no centro da política” é um artigo de José Pacheco Pereira, saído no Público de 8/3, de que transcrevo a parte introdutória, que subscrevo, não podendo afirmar o mesmo relativamente à crítica à política do actual Governo, particularmente a sobre Passos Coelho. Quando Pacheco Pereira apregoa o despudor do Primeiro Ministro relativamente à verdade nula das suas frases sucessivamente desmentidas, ou à sua indiferença egoísta pelo depauperamento económico gradual da população, julgo que o próprio Pacheco Pereira usa de dolo na sua crítica aparentemente expressiva de grande sensibilidade pelo sofrimento geral, mas realmente de uma argumentação especiosa, pecando por unilateralidade, ao esconder factores justificativos da tal actuação política governativa. Armado do seu vasto saber, fascina um público leigo, mas a sua violência unilateral e despeitada não escapa às exigências de honestidade de um pensamento sem parti pris. É lamentável uma tal sanha superior, que repete afirmações sobre o oportunismo de uma juventude criada à sombra dos grupos estudantis universitários, protegidos pelos partidos políticos, que os lançam na vida política por compadrio, que merece a devoção partidária, mais do que por reais qualidades de cultura e saber.

 

É possível que assim seja, em muitos casos, o interesse prevalecendo à partida sobre a dedicação pelo saber, com que o ser humano se vai preparando para a vida, através dos seus estudos. O interesse virá depois. Mas ao rever tantas figuras que passaram no tablado da nossa política, mesmo as inegavelmente de superior consistência cultural, ou outras para quem o curso serviu apenas de protagonismo vaidoso e oco e nulo na governação, ou ainda outras que abusaram de truques de corrupção que reduziram o país a um pântano escorregadio, e ao ver a forma relativamente serena mas obstinada com que o Governo pretende fazer o país sair desse pântano, eu discordo das afirmações de Pacheco Pereira e acredito em Passos Coelho e no grupo que ele chefia, com a coragem de uma imprescindível hombridade. E amor pátrio também.

 

Eis a primeira parte do texto de José Pacheco Pereira, que, essa sim, subscrevo:

 

 

 

“Colocar o engano no centro da política”

 

Sempre escrevi contra o moralismo em política.

 

Não quero saber se o político A ou B engana a mulher, ou tem uma filha que esconde do público, se fez ou não um aborto, se é homossexual e está dentro do “armário”, ou se fuma qualquer droga leve, e, consequentemente minta e oculte qualquer destes comportamentos privados em público. Detesto a exposição que a comunicação social anglo-saxónica faz da vida privada dos políticos e acho inaceitáveis as teses que para aí circulam de que existe um direito natural de violar a vida íntima de um político porque ele é político, e que se confunda deliberadamente o maior escrutínio sobre aspectos da sua vida pessoal quando esta toca o espaço público, o que é aceitável, com a devassa generalizada da sua vida privada e íntima. A esfera da intimidade é para mim inviolável por regra, mesmo que possa haver limitações em certos aspectos muito restritos da privacidade. Não aceito a tese, que também circula na esquerda, de que se um político andar a fazer campanha eleitoral com a mulher isso dá direito aos jornalistas de revelar que ele tem uma amante, ou se for mulher e falar contra o aborto, não pode ter feito um aborto, ou a tese muito comum na imprensa cor-de-rosa de que, ao usar para sua publicidade a exposição do jetset, isso obriga alguém a “assumir” (como eles dizem) “namoradas” umas a seguir às outras e a não ter vida privada.

 

A privacidade foi uma tão difícil conquista do modo “burguês” de viver, ou seja do progresso material de muitas pessoas nos últimos duzentos anos, da sua saída do mundo asfixiante das aldeias, onde todos sabem tudo de todos, que a última coisa que quereria repor esta era em nome de uma outra aldeia ainda mais pastosa, a “aldeia global”. Privacidade é liberdade, é uma forma peculiar de liberdade que permite a cada um ter uma identidade e uma efectiva capacidade de decisão “moral”. Exige, é certo, alguma cultura e alguma riqueza material, não está ao alcance dos mais pobres, mas a defesa da privacidade é um upgrade civilizacional, como a anestesia.

 

Isto serve de intróito para dizer que não considero que haja necessariamente uma impregnação dos “maus” comportamentos privados na vida pública, e detesto a máquina de tornar flat os políticos matando qualquer espessura psicológica que não suporte a pressão para a exposição total. Churchill não aguentaria um mês com os critérios de exposição moralista actuais, mas Hitler tinha uma vida privada sóbria e frugal. Já é outra coisa falsificar um currículo para anunciar títulos académicos que não se tem, usar de bens e recursos públicos para se “pagar” a vida que se tem, quando ela é mais complicada, assumir comportamentos pré-criminosos ou socialmente inaceitáveis como seja a violência doméstica. E, claro e como é óbvio, aceitar a corrupção.

 

Feita esta fronteira, há uma discussão sobre a moralidade em política de outra natureza e penso que ela é crucial nos dias de hoje. É quando a imoralidade, a mentira, o engano, o desprezo pelas pessoas comuns, o fácil pisar dos mais frágeis, torna a decência mínima que a política deve ter em democracia, um bem precioso e a indecência um veneno quotidiano.   …………….»

 

 

 Berta Brás

MARGINAIS E MADRAÇOS

 

 

Foi David Ricardo (1772 – 1823) que imaginou a teoria do marginalismo cujo exemplo clássico consistia em saber até que ponto interessava utilizar terras agrícolas marginais, ou seja, menos produtivas do que as mais ricas. A conclusão apontava no sentido de que a exploração de campos marginais (mais custosos por unidade produzida) teria o preço unitário de venda do produto que se estudasse como limite do nível do custo médio unitário das produções totais. Esse ponto quantitativo definiria o maior lucro global.

 

Outra figura do marginalismo que ficou célebre consiste na propensão marginal à poupança, ou seja, quanto se poupa (e, complementarmente, quanto se investe) por cada unidade monetária a mais disponível no rendimento.

 

E de conceito em conceito, colhe meditarmos sobre a propensão marginal à importação: por cada unidade monetária a mais disponível no rendimento, quanto dela se destina a comprar produtos importados (e, complementarmente, quanto dela se destina a comprar produtos nacionais)?

 

É claro que logo assalta a pergunta sobre o que terão estas questões a ver com a actual realidade portuguesa quando o que está em causa não é uma unidade monetária a mais disponível no rendimento mas sim várias unidades a menos. A resposta é simples: nada obriga a que a conjuntura se tenha de equiparar à teoria na certeza, porém, de que a interpretação das realidades estruturais ou conjunturais se torna mais fácil quando teoricamente enquadrada.

 

E qual é a realidade? Pois bem, ao contrário do que por aí propalam 70 destacados maus pagadores, a dívida externa bruta está em vias de redução e em especial a da banca (“Outras Instituições Financeiras Monetárias, em «economês») está mesmo em clara redução.

 

 

 

Daqui resulta que os bancos estrangeiros já reduziram o cepticismo com que até há relativamente pouco tempo olhavam para os seus homólogos portugueses e já lhes voltaram a dar crédito. Sim, porque uma grande parte da quebra nas importações se deveu ao facto de os bancos nacionais terem perdido o crédito externo de que usaram e abusaram para financiarem as importações de tudo e mais alguma coisa, o perverso crédito ao consumo desenfreado.

 

E quando o perverso «modelo de desenvolvimento» que nos atirou para a desgraça começa a ser substituído por um modelo virtuoso que nos poderá tirar da falência, logo começam as importações a ganhar terreno e a Balança Corrente a aproximar-se dos saldos nulos.

 

BALANÇAS CORRENTE E DE CAPITAL

 

 

 

Parece que, para além desses 70, anda muito mais gente por aí que não aprendeu nada com a crise por que passámos e que se mantém apostada na nossa desgraça colectiva.

 

Perante gente desta, para quê análises rebuscadas de teoria económica se o que se mostra necessário é um cabaz de medidas administrativas que impeça o dislate?

 

David Ricardo teve muitos méritos, nomeadamente este de inspirar os marginais portugueses que, de madraços, só pensam nas férias consumistas e desprezam a vida efectivamente produtiva. Dá vontade de dar um murro na mesa e bradar em uníssono com Camilo Lourenço: -SAIAM DA FRENTE!

 

Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

À LAIA DE “ULTIMATUM”

 

O Manifesto dos 70 Notáveis mereceu a “Carta de um Notável” não incluído entre os do Manifesto, Carta que logo me lembrou o ULTIMATUM de Álvaro de Campos publicado no único número do Portugal Futurista (de 1917) - e essa evocação não resultante do estilo torrencial, maiusculado, gritante, metafórico, hiperbólico, sádico, vaidoso, narcisista, à maneira futurista do Primeiro Modernismo expresso nesse formidável “Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora. / Fora tu, Anatole France, Epicuro de farmacopeia homeopática, ténia-Jaurès do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em loiça do século dezassete, falsificada!....», de tão esbanjadora expressão.

 

Trata-se de um Ultimatum mais modesto, embora igualmente patriótico, ditado por um espírito menos brilhante nas imagens mas mais racional nos argumentos. e honesto nas referências. Contrariamente, pois, ao grito de escândalo e provocação daquele, que, se afirma com poder para “indicar o caminho! –

 

…-.Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada !

O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!

O que aí está não pode durar, porque não é nada!

Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar!

Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!

Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir?

Quem sabe estar em um Sagres qualquer?

Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho exacto do Possível!

Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos!

Ergo-me ante o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós!

Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!

Vou indicar o caminho!…..,

 

José Gomes Ferreira indica igualmente o caminho – aos notáveis - num patriotismo de equilíbrio, sem fanfarronadas ou achincalhamentos de génio, mas com simplicidade honesta, de justeza e de rigor, lembrando factos, não ocultando as intenções nem as culpas desses que exigem reestruturação de uma dívida de que eles próprios são responsáveis, na sua maioria.

 

Gostei do seu texto, como gosto dos seus programas na SIC Notícias. Assim houvesse mais jovens sérios como ele, preocupados com um futuro que outro/outros jovens, actuais governantes, procuram levar a bom termo, apesar dos sacrifícios e entraves e contra a oposição tenebrosa das notabilidades fautoras de tantos dos desaires deste nosso tempo de sombra, mas que a disciplina da honestidade parece ajudar a erguer do chão.

 

 Berta Brás

NEM CARICATURA SÃO

 

Não são caricatura. São retratos de corpo inteiro, de políticos nossos de varapau e apito – que é como quem diz garganta – que só na facúndia altissonante e mutuamente acusadora conseguem fazer passar as suas mensagens, para gáudio dos ouvintes das respectivas facções partidárias. Mas Vasco Pulido Valente, que ultimamente explora com grande virtude a metáfora beatificante , renega-os no seu artigo do Público de 8/12, quase os esconjurando num «Deus nos proteja» de apelo beatífico a uma Providência cautelar e de desafio e incompreensão, embora já há muito devesse estar adaptado ao jeito da nossa eloquência tribunícia – de tribunos da plebe, está visto, que os mais raffinés, do tipo de Vítor Gaspar, os esconjuramos também, esses sim pela caricatura da estranheza e da pelintra inveja.

Saborosa crítica a de Vasco Pulido Valente, de uma expressão simultaneamente subjectiva e rigorosa de lucidez caracterológica:

 

«Deus nos proteja»

Não gosto nem do sr. Rangel, nem do sr. Assis. Bem sei que há eleições para o Parlamento Europeu e que tanto um como o outro não conseguem pensar em mais nada. Mas são os dois símbolos perfeitos de tudo o que a política portuguesa tem de mais triste e desprezível: o fanatismo de partido, ou, se preferem, para usar a nojenta linguagem do meio, o “amor à camisola”.

Ora o “amor à camisola” não me parece qualificação bastante ou recomendável para representar Portugal na União numa altura de crise para a própria União e para o país. Quinta-feira, na televisão, o sr. Rangel e o sr. Assis desceram à mais baixa zaragata a propósito das duas seitas que representam e que, para eles, parecem resumir o mundo. Sem vestígio de inteligência ou dignidade gritaram durante quase uma hora com o único propósito de mostrar que eram “combativos”, como as “bases” querem, muitíssimo capazes de arranjar votos.

Nenhum percebeu o sofisma em que assenta este comportamento aberrante. Só 14% do eleitorado acredita nos partidos. Pior ainda: mesmo esses 14% não serão com certeza determinados pelo espectáculo de injúria e de cólera encenada e falsa que lhes oferecem os candidatos, venham eles de onde vierem. De resto, o sr. Rangel e o sr. Assis não trouxeram à conversa o mais vago argumento compreensível, convincente e novo. Com uma persistência que demonstra a vacuidade das suas tribunícias cabeças, repetiram a ladainha da praxe. O sr. Rangel acusou o PS da bancarrota nacional e de trazer a troika para Portugal; e o sr. Assis passou a culpa da presente miséria para o deliberado “neo-liberalismo” do Governo. Não falharam um lugar-comum e, depois, discutiram o “consenso”.

Durante todo o espectáculo não se viu uma sombra de educação genuína, de pensamento original, ou, pelo menos, de responsabilidade política. Qualquer assunto servia (por exemplo: a manifestação da polícia), para voltar à sopa requentada da querela entre o PS e o PSD. É mais do que evidente que o sr. Rangel e o sr. Assis não percebem que o português comum verdadeiramente não se interessa por essa repugnante guerra e que, não parando de falar dela, os facciosos de serviço lhe estão na prática a mentir. Não apareceu até agora uma exposição séria sobre o estado de Portugal, sobre os quatro anos de troika ou sobre o futuro da Europa. E pretendem eles que o país lhes dê uma sinecura em Bruxelas, bem protegidos do desespero e da miséria indígena, em nome dos méritos do PS e do PSD… Deus nos proteja.

 

 Berta Brás

JUDEUS DIVIDIDOS – SECULARES E ULTRARRELIGIOSOS

 

Nova Lei obriga também os Judeus ultra ortodoxos a prestar Serviço Militar

 

Segundo a nova lei, votada hoje (12MAR14) no Parlamento de Israel, também os judeus ultra ortodoxos são obrigados a prestar serviço militar ou civil. A proposta de lei foi aprovada com 67 votos dos 120 deputados do Parlamento. Votaram contra: os liberais, as forças de esquerda e os ultra-ortodoxos. No dia 2 de Março passado tinha já havido uma manifestação de 300.000 ultra ortodoxos contra a então proposta de lei de introduzir a lei do serviço militar obrigatório também para os ultra-ortodoxos.

 

A nova lei pretende ajudar a integrar os ultra ortodoxos no mercado de trabalho. 50% destes vivem abaixo do limite da pobreza e recebe auxílios do Estado. A lei prevê o recrutamento de 13.700 mancebos ultra-religiosos até 2016; a partir de 2017 o serviço militar passa a ser obrigatório para todos os homens na idade de recrutamento. A lei permite uma excepção para 1.800 estudantes das escolas judaicas Yeshivas.

 

Dos 8 milhões de judeus em Israel, 800.000 são ultra ortodoxos. Estes “Judeus estritamente religiosos recusam geralmente o serviço militar com o argumento que este lhes dificulta o exercício da fé… porque no Exército não há separação entre homens e mulheres e muitas vezes há intervenções militares ao Sábado” (HNA,12.3.14).

 

O judaísmo secular aceita a divisão entre Estado e religião enquanto os ultrarreligiosos não. Neste grupo, os homens geralmente não trabalham, nem pagam impostos, apenas estudam as escrituras, vivendo do Estado e de donativos. O que recebem do Estado não dá para viver, quem trabalha são geralmente as mulheres. Querem a separação de género no espaço público também com passeios separados para peões. Por isso vivem como que em guetos sem telemóveis nem Internet. Os ultra ortodoxos têm muita influência na política do país como Partido de coligação para formar maiorias.

 

 António da Cunha Duarte Justo

EM MEMÓRIA DE D. JOSÉ POLICARPO (1936-2014)

 

Povo de missionários em contexto de secularização

 

D. José Policarpo morreu esta quarta-feira, 12 de Março de 2014, em Lisboa, vítima de um aneurisma na aorta, revela a Renascença.

Nascido a 26 de Fevereiro de 1936 - tinha completado 78 anos há poucos dias - na aldeia do Pego, freguesia de Alvorninha, concelho das Caldas da Rainha, D. José Policarpo foi ordenado padre a 15 de Agosto de 1961.

 

A 26 de Maio de 1978 o papa Paulo VI nomeou-o bispo auxiliar de Lisboa, e a 5 de Março de 1997 o papa João Paulo II confiou-lhe o cargo de coadjutor do patriarca.

 

No dia 24 de Março de 1998 sucede a D. António Ribeiro e a 21 de Fevereiro de 2001 é criado cardeal.

 

A 18 de Maio de 2013 o papa Francisco aceita o seu pedido de resignação e nomeia D. Manuel Clemente como sucessor.

 

A 30 de Novembro de 2013 o papa Francisco confirmou-o como membro da Congregação para a Educação Católica, um dos dicastérios (principais "ministérios") da Santa Sé.

 

Integrou também a estrutura dos Pontifícios Conselhos da Cultura e Leigos.

 

Autor de vasta obra no domínio da teologia e da pastoral, que realçou a importância a dar aos «sinais dos tempos», D. José Policarpo foi presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e magno chanceler da Universidade Católica, depois de ter dirigido a Faculdade de Teologia.

 

O patriarca emérito, que participava no retiro do episcopado que decorre em Fátima, continuava a proferir palestras: Para 2 de Abril tinha agendada a conferência "Pode Deus permitir o inferno", em Aveiro.

 

D. José Policarpo acreditava que «evangelizar é intervir na cultura», pelo que «não haverá civilização cristã sem evangelização da cultura».

 

As exéquias serão na próxima sexta-feira, 16h00, na sé de Lisboa, seguindo depois para o mosteiro de S. Vicente de Fora, o panteão dos Patriarcas.

 

1. É manifesto que o fenómeno da secularização, como está descrito no «Instrumentum Laboris», e a deriva do secularismo se fazem sentir igualmente no nosso país e na nossa cultura, apesar da sua história fortemente marcada pelo catolicismo, pela fidelidade ao Papa, pelo ardor missionário e pelo amor a Nossa Senhora, coroada Rainha de Portugal.

 

Todos estes valores sofrem a erosão da mudança cultural: correrão eles o risco de desaparecer?

 

O secularismo marca o ambiente cultural e influencia a vida daqueles que não têm convicções profundas nem estão habituados a exercitar a liberdade, apesar das condicionantes culturais. Este secularismo, sendo a água onde todos os peixes devem navegar, não impede que alguns sigam o seu caminho.

 

Enfrentar uma cultura hostil à sua missão e à sua perspectiva de vida não é uma novidade para a Igreja. Foi assim no Império Romano e em todos os continentes onde a Igreja levou a mensagem de Jesus. No Ocidente habituámo-nos a um enquadramento cultural profundamente marcado pelo cristianismo, por que, apesar de todos os erros, a fé cristã transformou a cultura, tornou-se cultura. Esta mudança é muito brusca para que a ela nos habituemos com facilidade; é semelhante à agitação sentida pela Igreja aquando da queda do Império Romano e ao enfraquecimento do quadro cultural que o sustentava. Apenas a ousadia do Espírito nos permitirá recomeçar.

 

Um novo tempo, que não é o retorno ao tempo da Idade Média, mas a um tempo novo. É a audácia da esperança. Na primeira parte do «Instrumentum Laboris» senti a falta de sinais de esperança. Em todas estas circunstâncias da história, a Igreja deve poder discernir "sinais", "sinais dos tempos", e novas oportunidades do Reino.

 

Para enfrentar os novos caminhos da missão, a Igreja confronta-se com dificuldades no seu interior: a sua linguagem, a sua forma de se relacionar com a sociedade – as suas estruturas e as suas leis –, sobretudo uma religiosidade sem a força transformadora da fé. Uma Igreja que defende o «status quo» adquirido ao longo dos séculos, mas que está enfraquecida no ardor da fé e na fidelidade a Jesus Cristo, é vulnerável a estas mudanças culturais.

 

2. Como em todos os enquadramentos culturais onde a Igreja faz o anúncio de Jesus Cristo, diante de uma cultura secularizada ela é confrontada com duas atitudes aparentemente irreconciliáveis: a ruptura ou a identificação com muitos valores que na sua inspiração profunda são comuns ao que ela propõe. Este dilema já se tinha colocado a Jesus, frente aos fariseus e aos doutores da lei: nada do que pertence à Lei é para ser abolido, mas o Reino dos Céus exige uma ruptura, onde se poderá semear o futuro.

 

3. Mas falemos do espírito de missão, uma das linhas de força da identidade cultural dos católicos portugueses. Como é que ele resiste numa cultura secularista? Estou convencido que um verdadeiro espírito de missão, enraizado na experiência da fé, é o dinamismo que melhor pode penetrar nesta cultura secularizada.

 

3.1. Em primeiro lugar, é preciso reconhecê-lo, assiste-se a uma secularização do espírito de missão, que se exprime na solidariedade de pessoas e de instituições. Ao nível do Estado laico há um esforço para demonstrar que ele pode resolver os problemas sociais e favorecer a entreajuda entre pessoas, sem apelar à Igreja. Esta não detém a exclusividade do serviço social. Os profetas da laicização da sociedade falam de uma "ética republicana", que anuncia a capacidade da república construir uma sociedade solidária. Por outro lado, poderosas organizações não governamentais (ONG) mobilizam a sociedade civil, neste espírito de missão de alcance internacional.

Muitos cristãos estão empenhados nessas missões.

 

3.2. No interior da Igreja surgem novas expressões da missão «ad gentes».

 

O número de missionários, padres, religiosos e leigos que partem para missões de longa duração ainda é impressionante. Sobretudo entre os jovens universitários está em marcha a experiência de partir em missão, por uma curta duração, durante um ano ou alguns meses, em colaboração com as Igrejas locais, sobretudo da África de língua portuguesa. Só em Lisboa há centenas de jovens que a cada ano se inscrevem. Nasceram estruturas permanentes, do tipo ONG, como os "Leigos para o Desenvolvimento". Estas experiências missionárias de curta duração são, por vezes, o terreno onde amadurecem vocações missionárias, sacerdotais, religiosas e laicais.

 

3.3. Mas o grande desafio pastoral para a Igreja é suscitar um sentido de missão, a alegria e a urgência de testemunhar a fé na sociedade que os crentes partilham com todos os outros. Trata-se de descobrir a simplicidade da missão. Foi esse o desafio do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. A população de Lisboa mostrou que estava pronta a aceitar expressões da missão em espaços profanos. Na grande manifestação de encerramento, em torno da imagem de Nossa Senhora de Fátima, cerca de um milhão de pessoas caminharam numa procissão de luz.

 

Um aspecto muito importante da missão num ambiente cultural secularizado é a acção dos cristãos leigos no coração das realidades terrestres. Com a crise da Acção Católica e o surgimento dos movimentos carismáticos, esta dimensão da missão caiu no esquecimento; nas estruturas pastorais não há quase nada que esteja orientado para uma ajuda específica a estes cristãos e à sua missão. Em Lisboa temo-nos esforçado por valorizar esta missão, propondo aos fiéis que, em grupo, façam uma leitura das realidades da sociedade, à luz da Doutrina Social da Igreja. A Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja são os faróis que iluminam esta leitura crente das realidades actuais.

 

Continuo a crer que, em termos culturais, mesmo em águas agitadas é possível navegar na direcção das escolhas de vida e de verdade.

D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa
Plenário do Conselho Pontifício da Cultura, Roma, 06.03.2008


© SNPC | 12.03.14

 

 

 Pedro Aguiar Pinto

CARTA A UMA GERAÇÃO ERRADA

  (*)

Caros João Cravinho, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Ferro Rodrigues, Sevinate Pinto, Vitor Martins e demais subscritores do manifesto pela reestruturação da divida publica: Que tal deixarem para a geração seguinte a tarefa de resolver os problemas gravíssimos que vocês lhes deixaram? É que as vossas propostas já não resolvem, só agravam os problemas. Que tal darem lugar aos mais novos?

Vi, ouvi, li, e não queria acreditar. 70 das mais importantes personalidades do país, parte substancial da nossa elite, veio propor que se diga aos credores internacionais o seguinte: – Desculpem lá qualquer coisinha mas nós não conseguimos pagar tudo o que vos devemos, não conseguimos sequer cumprir as condições que nós próprios assinámos, tanto em juros como em prazos de amortizações!

 

Permitam-me uma pergunta simples e directa: Vocês pensaram bem no momento e nas consequências da vossa proposta, feita a menos de dois meses do anúncio do modo de saída do programa de assistência internacional?

 

Imaginaram que, se os investidores internacionais levarem mesmo a sério a vossa proposta, poderão começar a duvidar da capacidade e da vontade de Portugal em honrar os seus compromissos e poderão voltar a exigir já nos próximos dias um prémio de risco muito mais elevado pela compra de nova dívida e pela posse das obrigações que já detêm?

 

Conseguem perceber que, na hipótese absurda de o Governo pedir agora uma reestruturação da nossa dívida, os juros no mercado secundário iriam aumentar imediatamente e deitar a perder mais de três anos de austeridade necessária e incontornável para recuperar a confiança dos investidores, obrigando, isso sim, a um novo programa de resgate e ainda a mais austeridade, precisamente aquilo que vocês dizem querer evitar?

 

Conseguem perceber que, mesmo na hipótese absurda de os credores oficiais internacionais FMI, BCE e Comissão Europeia aceitarem a proposta, só o fariam contra a aceitação de uma ainda mais dura condicionalidade, ainda mais austeridade?

 

Conseguem perceber que os credores externos, nomeadamente os alemães, iriam imediatamente responder – Porque é que não começam por vocês próprios?

 

Os vossos bancos não têm mais de 25 por cento da vossa dívida pública nos seus balanços, mais de 40 mil milhões de euros, e o vosso Fundo de Capitalização da Segurança Social não tem mais de 8 mil milhões de euros de obrigações do Tesouro? Peçam-lhes um perdão parcial de capital e de juros.

 

Conseguem perceber que, neste caso, os bancos portugueses ficariam à beira da falência e a Segurança Social ficaria descapitalizada?

 

Nenhum de vós, subscritores do manifesto pela reestruturação da dívida pública, faria tal proposta se fosse Ministro das Finanças. E sobretudo não a faria neste delicadíssimo momento da vida financeira do país. Mesmo sendo uma proposta feita por cidadãos livres e independentes, pela sua projecção social poderá ter impacto externo e levar a uma degradação da percepção dos investidores, pela qual vos devemos responsabilizar desde já. Se isso acontecer, digo-vos que como cidadão contribuinte vou exigir publicamente que reparem o dano causado ao Estado.

 

Conseguem perceber porque é que o partido que pode ser Governo em breve, liderado por António José Seguro, reagiu dizendo apenas que se deve garantir uma gestão responsável da dívida pública e nunca falando de reestruturação?

 

Pergunto-vos também se não sabem que uma reestruturação de dívida pública não se pede, nunca se anuncia publicamente. Se é preciso fazer-se, faz-se. Discretamente, nos sóbrios gabinetes da alta finança internacional.

 

Aliás, vocês não sabem que Portugal já fez e continua a fazer uma reestruturação discreta da nossa dívida pública? Vitor Gaspar como ministro das Finanças e Maria Luis Albuquerque como Secretária de Estado do Tesouro negociaram com o BCE e a Comissão Europeia uma baixa das taxas de juro do dinheiro da assistência, de cerca de 5 por cento para 3,5 por cento. Negociaram a redistribuição das maturidades de 52 mil milhões de euros dos respectivos créditos para o período entre 2022 e 2035, quando os pagamentos estavam previstos para os anos entre 2015 e 2022, esse sim um calendário que era insustentável.

 

Ao mesmo tempo, juntamente com o IGCP dirigido por João Moreira Rato, negociaram com os credores privados Ofertas Públicas de Troca que consistem basicamente em convencê-los a receber o dinheiro mais tarde.

 

A isto chama-se um “light restructuring”, uma reestruturação suave e discreta da nossa dívida, que continua a ser feita mas nunca pode ser anunciada ao mundo como uma declaração de incapacidade de pagarmos as nossas responsabilidades.

 

Sabem que em consequência destas iniciativas, e sobretudo da correcção dos défices do Estado, dos cortes de despesa pública, da correcção das contas externas do país que já vai em quase 3 por cento do PIB, quase cinco mil milhões de euros de saldo positivo, os credores internacionais voltaram a acreditar em nós. De tal forma que os juros das obrigações do Tesouro a 10 anos no mercado secundário já estão abaixo dos 4,5 por cento.

 

Para os mais distraídos, este é o valor médio dos juros a pagar pela República desde que aderimos ao Euro em 1999. O valor factual já está abaixo. Basta consultar a série longa das Estatísticas do Banco de Portugal.

 

E sim, Eng. João Cravinho, é bom lembrar-lhe que a 1 de Janeiro de 1999, a taxa das obrigações a 10 anos estava nos 3,9 por cento mas quando o seu Governo saiu, em Outubro desse ano, já estava nos 5,5 por cento, bem acima do valor actual.

 

É bom lembra-lhe que fazia parte de um Governo que decidiu a candidatura ao Euro 2004 com 10 estádios novos, quando a UEFA exigia só seis. E que decidiu lançar os ruinosos projectos de SCUT, sem custos para o utilizador, afinal tão caros para os contribuintes. O resultado aí está, a pesar na nossa dívida pública.

 

É bom lembrar aos subscritores do manifesto pela reestruturação da dívida pública que muitos de vós participaram nos Conselhos de Ministros que aumentaram objectivamente a dívida pública directa e indirecta.

 

Foram corresponsáveis pela passagem dos cheques da nossa desgraça actual. Negócios de Estado ruinosos, negócios com privados que afinal eram da responsabilidade do contribuinte. O resultado aí está, a pesar directa e indirectamente nos nossos bolsos.

 

Sim, todos sabemos que quem pôs o acelerador da dívida pública no máximo foi José Sócrates, Teixeira dos Santos, Costa Pina, Mário Lino, Paulo Campos, Maria de Lurdes Rodrigues com as suas escolas de luxo que foram uma festa para a arquitectura e agora queimam as nossas finanças.

 

Mas em geral, todos foram responsáveis pela maneira errada de fazer política, de fazer negócios sem mercado, de misturar política com negócios, de garantir rendas para alguns em prejuízo de todos.

 

Sabem perfeitamente que em todas as crises de finanças públicas a única saída foi o Estado parar de fazer nova dívida e começar a pagar a que tinha sido acumulada. A única saída foi a austeridade.

 

Com o vosso manifesto, o que pretendem? Voltar a fazer negócios de Estado como até aqui? Voltar a um modelo de gastos públicos ruinosos com o dinheiro dos outros?

 

Porque é que em vez de dizerem que a dívida é impagável, agravando ainda mais a vida financeira das gerações seguintes, não ajudam a resolver os gravíssimos problemas que a economia e o Estado enfrentam e que o Governo não tem coragem nem vontade de resolver ao contrário do que diz aos portugueses?

 

Porque é que não contribuem para que se faça uma reforma profunda do Estado, no qual se continuam a gastar recursos que não temos para produzir bens e serviços inúteis, ou para muitos departamentos públicos não produzirem nada e ainda por cima impedirem os empresários de investir com burocracias economicamente criminosas?

 

Porque não canalizam as vossas energias para ajudar a uma mudança profunda de uma economia que protege sectores inteiros da verdadeira concorrência prejudicando as famílias, as PME, as empresas exportadoras e todos os que querem produzir para substituir importações em condições de igualdade com outros empresários europeus?

 

Porque não combatem as práticas de uma banca que cobra os spreads e as comissões mais caros da Europa?

 

Um sector eléctrico que recebe demais para não produzir electricidade na produção clássica e para produzir em regime especial altamente subsidiado à custa de todos nós?

 

Um sector das telecomunicações que, apesar de parcialmente concorrencial, ainda cobra 20, 30 e até 40 por cento acima da média europeia em certos pacotes de serviços?

 

Porque não ajudam a cortar a sério nas rendas das PPP e da Energia? Nos autênticos passadouros de dinheiros públicos que são as listas de subvenções do Estado e de isenções fiscais a tudo o que é Fundações e Associações, algumas bem duvidosas?

 

Acham que tudo está bem nestes sectores? Ou será que alguns de vós beneficiam directa ou indirectamente com a velha maneira de fazer negócios em Portugal e não querem mudar de atitude?

 

Estará a vossa iniciativa relacionada com alguns cortes nas vossas generosas pensões?

 

Pois no meu caso eu já estou a pagar IRS a 45 por cento, mais uma sobretaxa de 3,5 por cento, mais 11 por cento de Segurança Social, o que eleva o meu contributo para 59,5 por cento nominais e não me estou a queixar.

 

Sabem, a minha reforma já foi mais cortada que a vossa. Quando comecei a trabalhar, tinha uma expectativa de receber a primeira pensão no valor de mais de 90 por cento do último salário. Agora tenho uma certeza: a minha primeira pensão vai ser de 55 por cento do último salário.

 

E não me estou a queixar, todos temos de contribuir.

 

Caros subscritores do Manifesto para a reestruturação da dívida pública, desculpem a franqueza: a vossa geração está errada. Não agravem ainda mais os problemas que deixaram para a geração seguinte. Façam um favor ao país – não criem mais problemas. Deixem os mais novos trabalhar.

 

12.03.2014

 

 José Gomes Ferreira

 

(*) algozes da Nação

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