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A bem da Nação

BONS PROPÓSITOS PARA O NOVO ANO

 

 

Os Efeitos colaterais do Beijo e do Abraço

 

Beije e abrace intensivamente. Este é um método simples e eficaz para cuidar da sua higiene mental e espiritual. Predispõe para a confiança e para a generosidade.

 

Beije e abrace pelo menos durante 30 segundos. Assim produz oxitocina que fomenta a saúde, o prazer e a fidelidade! O beijo e o abraço continuados estimulam a secreção de oxitocina e, deste modo, a ligação duradoura com a parceira.

 

A oxitocina cria gratidão, activando o “sistema de recompensa do cérebro ao ver o parceiro” , como concluíram investigadores alemães do Centro Médico da Universidade de Bonn (http://www3.uni-bonn.de/Press-releases/oxytocin-leads-to-monogamy).

 

Ao lado da “hormona do amor” há também o amor espiritual (caritas e ágape) que leva ainda mais longe e alcança maravilhas.

 

A vida pode ser a melhor escola! E a Universidade da vida também conclui que depois do chorar da noite as estrelas sorriem com mais brilho. A experiência confirma-o: depois de um beijo até a vida é mais doce! Este será também um bom preparativo para a passagem do ano/ano novo!

 

 António da Cunha Duarte Justo

UMA ESCOLA VERDADEIRAMENTE CULTURAL PRECISA-SE

 

A mísera ambição do “eduquês” eis o artigo com que no último dia de 2013 Guilherme Valente, editor da Gradiva, vem terçar armas por Nuno Crato nas suas pretensões de dinamizar uma política educativa que contribua para melhorar o nível da docência, na exigência de competências que paulatinamente irão desaparecendo, a continuar-se numa trajectória de empobrecimento relativamente às competências requeridas dos estudantes, que serão futuros professores (ou outros quaisquer profissionais da cultura).

 

O longo artigo de Guilherme Valente começa por contrariar os entusiasmos com que Maria Emília Brederone (MED) elogia, em artigo do Público de 24/12, o sucesso da nossa educação nos últimos 35 anos, atida aos resultados de estudantes portugueses nos testes PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study) e TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study), de 2011, comprovativos da qualidade dos seus professores. Guilherme Valente minimiza esses resultados, com os considerandos de que os testes foram aplicados a alunos de 10 anos, a terminar o primeiro ciclo, além de que muito inferiores aos resultados de alunos dos países claramente desenvolvidos. Para além disso refere que os testes PISA, aplicados a jovens com quinze anos, quando é mais relevante a influência da escola nos alunos, os resultados foram sempre muito fracos até 2009, só então se verificando o primeiro progresso visível, depois de o modelo há tantos anos imposto começar a ser contrariado, ainda que timidamente.

 

Segue-se a informação sobre as medidas que visaram destronar o “eduquês” exigido pelos “ultras” das “ciências” de educação:

 

Medidas do tempo de David Justino”, nomeadamente reintrodução de exames e preocupação com o ensino profissional.

Orientação reforçada por Sócrates / Maria de Lurdes Rodrigues: afirmação veemente do valor dos exames; mudança no modelo de direcção das escolas; assumida reabilitação da ideia do ensino profissional, permissão para as escolas criarem cursos profissionaisferindo, assim, um dos dogmas mais estúpidos e cruéis do “eduquês” (de que logo resultou uma localizada descida no abandono escolar); reciclagem, embora mal realizada, de professores de Matemática – “anunciando” o que Crato, seguramente, quer fazer

 

Registe-se, ainda, a determinação de MLR em enfrentar politicamente os que nunca deixaram governar qualquer ministro. Que hoje usam como “carne para canhão” muitos professores, presas fáceis depois de “qualificados” pelas ESE (também pedagogicamente, como se vê).

 

ESE e mesmo formação de docentes nas Universidades de que Crato deveria ter já promovido a reformulação. Tal como a selecção dos candidatos a esses cursos (na Finlândia é muito rigorosa, com resultados à vista), e a inadiável reciclagem de docentes no activo.

 

Os 4, 5, 6 itens finais do artigo de Guilherme Valente merecem todo o destaque, ao pôr o dedo na ferida da nossa insuficiência educativa, que mereceriam o respeito e a atenção dos que têm a seu cargo a tarefa de ensinar, em vez de se deixarem ultrajar, em cedências coniventes e interesseiras, pelas vozes ásperas de inanidade mental dos potentados sindicais que só um país votado ao desleixo permitiu que tomasse tanta relevância destruidora de quaisquer tentativas de melhoria no panorama da nossa incultura:

 

4 - O progresso dos testes em causa não traduz, pois, infelizmente, a realidade da grande maioria das escolas. O indicador expressivo, fiável, da qualidade da educação, é afinal, o estado em que Portugal se encontra, em todos os registos da realidade – participação cívica, política, economia, cultura, desenvolvimento, independência nacional em suma. Atraso agravado dramaticamente pelos anos devastadores do “eduquês”.

 

5 - Dou apenas o exemplo determinante da leitura. Transcrevo de Valter Hugo Mãe o testemunho insuspeito que cita: «Chocou-me ouvir Alice Vieira dizer que os best-sellers dos anos 80 que a levavam às escolas para falar com miúdos do 6º, agora são os mesmos que a levam para falar com miúdos do 12º ano. Diz ela que hoje, os livros que concebeu para miúdos de 13 anos, estão a ser lidos e trabalhados por miúdos de 17 no âmbito das escolas. “O que vou fazer? Pelo menos que os apanhemos aos 17, senão estes livros para 13 anos vão ser mais tarde ou mais cedo trabalhados na universidade ou em doutoramentos e eu vou ser chamada para falar com adultos marmanjões que deviam ter entendido isto aos 13 anos.» A observação de Alice Vieira demonstra que temos estado, desde há muito, a recuar, que os nossos jovens aprendem cada vez mais tarde o que deviam aprender muito mais cedo.

 

6 - Do artigo de MEB fica-me uma perplexidade: pensará MEB, realmente, ser possível ensinar-se o valor da leitura, suscitar o seu hábito, a sua paixão, ou mesmo, tão somente, ensinar com eficácia e alegria uma criança a ler, sem se ter consciência desse valor, sem a experiência apaixonante e transformadora do convívio com os grandes textos, Eça, Camilo e Saramago, como ironizando, refere? Poderá alguém ser professor sem uma cultura geral básica? O mesmo se verifica com a Química ou a Matemática – com a referência à trigonometria MEB tenta caricaturar a exigência que o actual ministro quer promover. Mas há mesmo muitos professores de Matemática incapazes de chegar ao resultado 8X7, para não falar nos mestres e doutores que não sabem alinhavar duas ideias, nem sabem o mais elementar da história de Portugal…

 

Mas essa ideia errada, geradora de ignorância e desumanização, está, afinal, no âmago da genética do “eduquês”: desvalorização do conhecimento, horror ao mérito, ideia social e humanamente aviltante, de que a ignorância, mesmo do mais básico, ou a idiotice, podem ensinar, valorizar, criar, realizar seja o que for. Não sou capaz de atribuir tal ideia a MEB.

 

Quanto ao que Nuno Crato, cercado, tem sido capaz de fazer, ver-se-á, se houver tempo, o efeito e haverei de me pronunciar. Devo isso aos muitos Professores com quem partilhei angústia, indignação e esperança.

 

Quando La Fontaine na sua fábula “La Mort et le Bûcheron” aponta as desgraças do Lenhador – excesso de trabalho, velhice, impostos, doença, desencanto – que o levam a chamar a Morte, verifica-se que, tal como cá, também o povo era explorado, ficando-nos o retrato dessa exploração, na pena dos escritores e dos filósofos que pretenderam mudar a situação segundo a trilogia da liberdade, igualdade e fraternidade. Já Gil Vicente se indignara, um século antes, com as mazelas do “Lavrador”, em formidável libelo acusatório, no seu “Auto da Barca do Purgatório”: “Nós somos vida das gentes / e morte das nossas vidas; / a tiranos – pacientes, / que a unhas e a dentes / nos têm as almas roídas. / Para que é parouvelar? / que queira ser pecador / o lavrador; / não tem tempo nem lugar / nem somente d’alimpar / as gotas do seu suor.”

 

Mas enquanto em França e nos demais países europeus o povo se instruiu e libertou das amarras da escravidão, que levam ao trabalho, à alegria de viver, à realização pelo progresso, em Portugal tal nunca aconteceu, acusado o estudo do seu carácter elitista, mantendo o povo a sua condição de inferioridade intelectual, a própria nobreza muitas vezes ignara e calaceira, como, curiosamente, aponta Júlio Dinis – excluída a galeria caricatural queirosiana das figuras com responsabilidades culturais e reduzidas a atitudes de empáfia retórica e oca.

 

É num jantar oferecido pelos “Fidalgos da Casa Mourisca” em honra da sua prima, a baronesa Gabriela, que se faz o retrato dessa sociedade da aristocracia provinciana do século XIX:

 

Os chefes de família, passeando na sala, ou formando grupos nos vãos das janelas, lidavam na sua tarefa de vinte anos: a de demonstrar que o que perdera a causa realista fora a traição e o suborno; e arvorados em profetas, entoavam trenos sob a iminente dissolução social, parafraseando os artigos de fundo da “Nação” e do “Direito”.

 

A abolição dos morgados e vínculos, definitivamente decretada poucos anos antes, fornecia forte alimento para aquelas jeremiadas; os dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos filhos, desbaratando-lhes a legítima com a sua imprevidência e prodigalidade, lançavam, agora à conta da lei o que era a consequência lógica da sua má administração.

 

As raparigas falavam umas com as outras de vestidos e de enfeites e dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer dos primos presentes em cujo número se continham os namorados de cada uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poéticas e vaporosas castelãs, que na meia-idade premiavam os campeadores da liça, os guerreiros na volta dos combates, e os menestréis e pajens que lhes endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham perdido muito das poesia do tipo primitivo. Vivendo numa época em que não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar, limitavam-se as meninas a aceitar a corte dos primos, também muito pouco parecidos com os seus cavaleirosos avós, e com a maior candura, que pode medrar na província, roubavam umas às outras os noivos e os namorados.

 

Algumas havia ali mais revolucionárias, que tinham conseguido introduzir o piano em casa e com ele as músicas da moda, obtendo uma ou outra vez dos pais a concessão de dar uma partida, onde a nata da nobreza provinciana dançava os “Lanceiros” como qualquer sociedade de artistas.

 

Os rapazes, reunidos no terraço, fumavam e atiravam a revólver aos troncos das árvores ou às avezitas que poisavam nos ramos. A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios; se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazer à ciência a honra de a estudar, poucos desses mostravam as habilitações adquiridas, exercendo qualquer mister social. Seria dobrar o desdouro. Cometida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos filhos dos comerciantes e lavradores, devia-se ao menos seguir o exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitara a circunstância agravante de servir depois para algumas coisa.

 

As sociedades mudam, mas os genes de cada povo manifestam iguais tendências ao longo dos tempos. Entre nós, adeptos da mândria, nunca seria possível um programa de “Questions pour un champion”, estimulador de curiosidades e competências culturais e ajudando à formação escolar e social, um programa diário, com questões de abertura progressiva para a descodificação, que tanto convergem no mundo adulto, nacional e estrangeiro, como se dirigem às camadas escolares, de ensino médio e superior, concorrendo e fazendo-se acompanhar por colegas, familiares e professores, favorecidos por excelentes prémios culturais ou de diversão.

 

Não. Primamos por medíocres dogmas facilitadores e destruidores de uma condição humana de racionalidade, substituindo-os por sentimentos de grande mesquinhez moral. Releiamos Guilherme Valente, e indignemo-nos, mesmo que pensemos que muitos escapam ao duro retrato:

 

Mas essa ideia errada, geradora de ignorância e desumanização, está, afinal, no âmago da genética do “eduquês”: desvalorização do conhecimento, horror ao mérito, ideia social e humanamente aviltante, de que a ignorância, mesmo do mais básico, ou a idiotice, podem ensinar, valorizar, criar, realizar seja o que for.

 

 Berta Brás

DANÚBIO AZUL – 1

 

 

Johann Strauss (filho) celebrizou o azul do Danúbio mas a minha tia Maria Adelaide tinha-me dito que ele mais se parecia com o Caneiro de Alcântara no pino do Verão. E lá fui eu a acreditar mais na minha tia do que no romantismo dos três tempos da valsa.

 

Estava verde! Fazia jus à primeira imagem que tive da Áustria: uma estação de tratamento de águas residuais bem próxima da rota de aproximação dos aviões à pista principal do aeroporto de Viena. Poderá uma ETAR ser pouco romântica mas convenhamos que a limpeza é «coisa» muito bonita. Tanto o Strauss como a minha tia estariam, portanto, hoje fora da razão mas como nenhum dos dois anda por aí para os informarmos da verdade, deixemos a coisa assim: «se lá no assento etéreo a que subiram memória desta vida se consente», fiquem sabendo que o Danúbio é verde, da cor do Tejo aqui junto da foz. Mas o Tejo é lavado duas vezes por dia pelas higiénicas Tágides que vão ali ao Bugio buscar água limpa e a levam até acima de Alcochete enquanto as Dúbias (serão essas as Ninfas lá do sítio?) não devem sequer conseguir encontrar água limpa lá pelas margens do Mar Negro. Nem que se adentrem pelo Bósforo onde só poderão encontrar «coisas» turcas. Ou seja, um grande cumprimento aos higienistas da bacia hidrográfica do Danúbio pelo notável esforço de limpeza desenvolvido e um puxãozito de orelhas aos que de Toledo a Carcavelos em ambas as margens do Tejo se entretêm com outros temas.

 

Mas convenhamos que mais vale algum excesso de matéria orgânica em suspensão no nosso rio do que sermos metidos em duas guerras (ainda por cima perdidas) e vivermos sob a pata dos comunistas durante um ror de anos.

 

Nós, porquinhos mas felizes; eles, limpinhos mas quase sempre na mó de baixo até há bem pouco tempo. Há quanto? Em Bratislava assistimos às comemorações dos 21 anos da independência.

 

 

Ao visitar a catedral de Bratislava, deparei-me com a celebração da Missa de Ano Novo (coincidente com a Festa Nacional), concelebrada pelo Arcebispo, por mais três ou quatro Bispos e por um número de Padres a que perdi a conta. Órgão, conjunto instrumental com algum volume, coro também volumoso e solistas – recordo um baixo, um tenor e um soprano – que deram à celebração uma solenidade formidável. Só não consegui identificar a peça musical interpretada pelo que presumi tratar-se da obra de algum compositor eslovaco incluído na minha vasta ignorância. Quem identifiquei claramente foi o operador de câmara de TV que, em transmissão directa, me pisou duas vezes. E em transmissão directa me calei pois, para além do mais, estávamos na Casa do Senhor. Na primeira fila, junto à coxia central, estava um Fulano com uma vestimenta preta e um grande colar doirado com o que me pareceu uma chave pendurada. Tomei-o pelo Burgomestre mas logo depois dele estavam mais dois importantões que só poderiam ser o Presidente da República e o Primeiro Ministro. Digo eu! Seriam? Não faço ideia mais concreta do que a dúvida que aqui deixo mas a solenidade não me deixou grande margem para encontrar alternativas. Sei que, anónimo turista acabado de desembarcar dum cruzeiro fluvial, me acerquei deles todos sem que ninguém verificasse o que eu levava debaixo do meu blusão escarlate. Depois admirem-se que nem todos os escarlates sejam portugueses pacíficos...

 

Finalmente, por agora, em tentativa de síntese, deixo uma palavra para cada capital, das que visitei: Viena, levitação; Budapeste, coragem; Bratislava, Tavira.

 

Até logo!

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

Um livro saudando um Novo Ano

 

Um dia o Luís, meu filho mais novo, veio oferecer-me umas fotocópias com a tradução do livro que estudara na disciplina de Inglês. Pelos vistos gostara da obra, e achou que eu devia reformular os meus conceitos de visão do mundo, que provavelmente achava estreitos, mais despegada dos valores que para ele significavam o non plus ultra da realização de quem quer que se preze, esses, os tais do “Sonho Americano” criador do self-made man, proporcionando - ao menos na aparência – um bem-estar de abundância e igualdade de oportunidades a quem se esforçasse por os ter. A fotocópia não foi tentadora para uma leitura de cabeceira, mas prometi a mim mesma fazê-la em tempos de melhor disponibilidade física. “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, publicado em tempos pela revista Visão tornou-se veículo mais arrumado para leitura de café aprazível de fim de ano, respondendo assim ao apelo do Luís.

Comecei por me admirar de uma escrita tão profusa em dados e circunstâncias e filosofias de vida, para alunos do secundário de inglês, mas já nos meus tempos do liceu eu achava que o inglês dos cursos de Germânicas era uma disciplina mais arejada e moderna do que o Francês dos de Românicas, mergulhados no encanto passadista dos escritores franceses clássicos.

É um livro que se impõe pela actualidade do mundo recriado, um mundo de festas e prazeres, de dinheiro misteriosamente ganho por um ricaço Jay Gatsby, que proporciona festas no seu palácio de sonho a parasitas que mal o conheciam e dele murmuravam sobre os seus estudos e o seu passado e sobre a proveniência do seu dinheiro.

Uma história contada por um jovem narrador participante – Nick Carraway – de uma forma evasiva, um pouco descontraída, criando suspense, com informações atiradas pelos vários participantes, homens e mulheres surgidos ao acaso de recepções ou diversões, e sobretudo, no meio de certa simplicidade de discurso, própria de um jovem escritor de trinta anos bem formado e curioso de viver, de frases de extraordinário conceito, resultantes de um poderoso sentido de reflexão e de humor.

E desta forma ziguezagueante - com analepses (ou retrocessos temporais da acção, ao acaso das recordações), e prolepses ou avanços cronológicos da mesma, em meio da narrativa cuja acção presente (de 1922), localizada em West Egg, na ilha próxima de Nova York, é recheada de diálogos, informações e comentários de grande argúcia crítica - se vai referindo – aos salpicos, inicialmente - a história desse misterioso Gatsby, que aparece associado à vida de Nick, não só por ser vizinho deste, mas por terem amigos comuns.

É uma história de suspense, uma história de amor, de uma grande paixão e das loucuras a ela associadas: Por tanto amar Daisy, Gatsby construíra um palácio próximo da casa do casal Daisy-Tom, com recepções constantes a fim de a reconquistar. Era aquela, prima de Nick, rapariga rica, fútil e mimada, outrora namorada de Gatsby, quando este era pobre e a convencera do contrário, agora casada com um Tom Buchanan nobre, rico, arrogante e infiel, antigo amigo de Nick. Gatsby, enriquecera em negócios ilícitos de contrabando (o que se vai insinuando gradualmente, nas conversas, só se denunciando o facto, com acusações mútuas, na cena crucial da acção – a disputa pela mulher amada, entre os dois rivais Gatsby e o ciumento Tom. A paixão por Daisy levara o primeiro a aproximar-se de NicK, seu vizinho, duma casa pobre, para que este servisse de intermediário nesses amores, ao que Nick cedera, com a relutância própria de um carácter formado na sensatez de princípios, e a simultânea atracção que produz sobre um jovem da classe média, por muito amante de leituras que fosse, o frenesi do mundo endiabrado da riqueza e da liberdade que esta concede.

Gatsby morrerá na sua piscina, com um tiro disparado pelo grotesco marido de uma amante de Tom, que morrera pouco antes atropelada. Tom convencera o pobre diabo de que fora Gatsby que lhe atropelara a mulher e assim aquele se vingara, suicidando-se a seguir, com outro tiro. Ao funeral de Gatsby, apesar das tentativas de Nick para um acompanhamento fúnebre condigno, só compareceram, além dos criados, o sacerdote e Nick, o velho pai de Gatsby, com a sua fé nas capacidades do filho. E uma outra figura caricata de “olhos de coruja”, que chegou atrasada e que o narrador encontrara algum tempo antes admirando os livros da biblioteca de Gatsby. Foi este que estranhou a falta dos parasitas que “iam lá às centenas”, ao palácio de Gatsby. Daisy não mandara “nem uma mensagem nem uma simples flor”.

Uma história de amor de um ser ingénuo, um “self-made man” que chegara a frequentar Oxford para se aproximar de Daisy, que fora condecorado da guerra, e enriquecera ilicitamente para reconquistar a amada, a quem Nick, que o acompanhara no longo pesadelo após a disputa com Tom, com Gatsby acreditando pateticamente que Daisy voltaria para ele, gritara, antes de se retirar, finalmente senhor da verdade: “- São todos uns canalhas! Você sozinho vale mais que todos eles juntos!”

“O Grande Gatsby”, um livro que, ao retratar uma certa sociedade de libertinagem e de luta pelo enriquecimento, parece iniciar uma nova época em que os amores, envoltos em ambição pela realização pessoal, longe estão daqueles outros romances em que imperava o fatalismo das paixões, por vezes contrariadas, e a nobreza de procedimento do herói era motivo dessas. Gatsby não é um exemplo de herói, mas de um frágil anti-herói sem grandes escrúpulos, tal como os vários outros participantes, mais simples e ingénuo, todavia, que todos eles, como o reconhecerá o revoltado Nick.

Mas a sensação do efémero, da irremediável fuga do tempo também perpassam no livro, provocando um vago sentimento de angústia: “Fazia trinta anos. E diante de mim estendia-se a portentosa e ameaçadora estrada de uma nova década. --- Trinta anos – a promessa de uma década de solidão, um rol reduzido de celibatários como eu a conhecer, uma reserva de entusiasmo cada vez mais pequena, o cabelo a rarear. … E assim continuámos a deslizar a caminho da morte, pelo refrescante crepúsculo.”

 

 Berta Brás

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