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A bem da Nação

Uma candeia às avessas

 

Custa aceitar opiniões sobre pessoas ou acontecimentos que vão contra as “nossas próprias” opiniões (devia ter mais cuidado com a “pleonasmação” depois da leitura de um artigo muito bem feito por um “Anónimo” sobre o fenómeno, tão vulgar entre nós, que o Dr. Salles colocou no seu “A Bem da Nação”, mas o “próprias” da expressão acima reforça o possessivo, em projecção que nos eleva aos próprios olhos (evitei, neste caso o possessivo “nossos” para escusar reincidências por “mim” também condenáveis, mesmo sem o “própria” do reforço, embora os franceses reforcem igualmente o seu pronome pessoal (moi-même, toi-même, nous-mêmes…) ou até o possessivo, sem que lhes caia o Carmo e a Trindade da iracúndia linguística superior, que não admite sequer a “licença poética” da retórica discursiva.

Mas Vasco Pulido Valente é de tal forma arguto e certeiro nas suas explanações argumentativas, que me leva muitas vezes a aderir aos seus pensamentos, apesar do sofrimento próprio que isso implica neste mar de sofrimento que ultimamente nos harmoniza – único padrão de harmonia, de resto - questão de fado - sob este sol ou sob esta chuva do único céu a que temos direito, perdidos “os outros céus diferentes” da nossa glória passada, que Sá de Miranda refere em carta ao “rei de muitos reis”, D. João III, o Pio.

 Gosto de Nuno Crato e de Pires de Lima, que me parecem sérios, inteligentes e corajosos. Acredito que eles estão metidos nas talas de uma governação complicada, o que torna as suas manifestações públicas contraditórias e motivo de chufas de todos os que seríamos incapazes de assim proceder, honestos e talentosos que somos cá fora, incapazes de proceder como eles lá dentro, porque faríamos necessariamente melhor.

Mas o artigo de Vasco Pulido Valente, do “Público” de 17/1, “Como os ministros pensam” assenta que nem luva sobre o nosso pensamento assustado - que se me perdoe o concretismo prosaico da personificação literária - daí que o fixe no blog do meu refúgio, embora discorde da afirmação do articulista contida no início do segundo parágrafo de que “o dr. Nuno Crato apareceu numa conferência de imprensa conjunta com o dr. Pires de Lima”, como se o seu “aparecimento” fosse acto voluntário e não imposto pelos actuais juízes das acções governativas - sindicatos, partidos da oposição, no ilimitado verboso das suas reivindicações de uma altissonância impune:

«A Fundação para a Ciência e a Tecnologia atribuiu 298 bolsas de doutoramento, ou seja, a quase 40%, dos candidatos que se apresentaram. Para estudos pós-doutorais, a que concorreram 2035 pessoas, a dita Fundação deu generosamente 233 bolsas, ou seja, 11, 45% do total. Muitas coisas se poderiam dizer sobre isto. Mas como se escreveu neste jornal, os cortes foram um “massacre” que afectará muito tempo a Universidade portuguesa e que mata de repente uma tendência que já começava a ganhar uma certa força. O responsável pela coisa é o Dr. Nuno Crato, ainda ministro de um Governo que por aí vai sobrevivendo, sem direcção, sem programa e sem coerência. Não acreditam? Esperem pelo próximo episódio desta telenovela.

No dia seguinte, ou pouco mais tarde, o dr. Nuno Crato apareceu numa conferência de imprensa conjunta com o dr. Pires de Lima. Nessa conferência os dois resolveram falar sobre “empreendorismo e inovação”. Tanto um como outro falaram com entusiasmo da colaboração entre a ciência e a economia: prometeram 50 milhões de euros, uma série de programas de utilidade duvidosa e um esforço para mandar infinitos doutorados para empresas de grande futuro. Mas como bons burocratas que são, e nunca deixarão de ser, anunciaram também a sua coroa de glória: a criação de uma “agência interministerial” para se ocupar do assunto; o que significa evidentemente mais funcionários, mais conselheiros, mais secretárias, mais despesa e por aí fora.

Claro que, se o “presidente” ou o “director” desta original loucura tiver um resto de juízo, manda ao sr. Pires de Lima e ao sr. Nuno Crato uma cartinha, aconselhando este excelentíssimo par a devolver as bolsas a quem as tirou e pedindo respeitosamente a sua demissão. Mas, como uma criatura destas não é fácil de encontrar em Portugal, só nos resta, para nos divertir, fazer listas comentadas das contradições destes cavalheiros e de Passos Coelho e Portas, que os deveriam vigiar. Verdade que o tempo não está para risotas sobretudo num caso destes. De qualquer maneira talvez não deixasse de confortar os portugueses compreender a inteligência e a subtileza de quem os pastoreia. Quando o disparate ferve, convém estar preparado para qualquer emergência. Nada impede que amanhã eles nos declarem uma colónia de Andorra em nome da independência nacional.»

A nossa triste verdade é que o disparate ferve por toda a parte, em toda a nossa tessitura social. Sempre ferveu, é de longa data, que o digam Gil Vicente, Camões, Eça… E os historiadores das governações…. E as salas de psiquiatria, onde muitos professores repousam das violências de uma sociedade de adolescentes que lhes passa pelas mãos e culminará nos crimes de uma praxe imbecil e torpe, que já Verney criticava, há mais de dois séculos, e que não é democrático eliminar…

Não, não é fácil de encontrar, o tal que Diógenes procurava, de candeia acesa em pleno dia…

 Berta Brás

OS IMPÉRIOS E A REPÚBLICA NO BRASIL

 

 

Há, caminhando e destruindo-se por todo este planeta, um animal estranho, bizarro, mau, incurável, ganancioso e... estúpido! A esse conjunto de seres heteróclitos, convencionou-se chamar humanos!

 

E quando, hoje, somando cerca de sete biliões sobre a Terra, sabendo-se que somente oitenta e cinco deles acumulam uma fortuna igual a metade da população mundial, não há necessidade de dizer ao mais ignorante que está tudo errado.

 

Mas não é de agora. É de sempre, só que piora com o tempo e em progressão quase logarítmica.

 

E sempre a ganância e o ego a dominar.

 

Portugal, pequenino, deu novos mundos ao mundo e, de repente chegou a ser o centro de distribuição das riquezas que vinham da Índia, do Oriente. Os navios, as naus, carregavam pouco, porque eram só de 400 toneladas. A ganância cresceu e, contra a opinião dos grandes mestres construtores começaram a construir-se naus de 800 e 900 toneladas, que embarcavam, para a Índia, entre 700 a 800 soldados. Tanta gente, tanto tempo de mar e climas “doentios” o desastre era evidente: morriam quase metade, e os que chegavam acabavam muitos também por agonizar em terra. Mas o regresso era pior. Além da carga comercial, carregavam essas naus com tudo que se possa imaginar: caixas e mais caixas com roupas, louças e inúmeras outras coisas e tantas eram que por vezes, amontoadas nos convéses chegavam a ficar com mais altura do que o Castelo de Popa. As embarcações levavam muita pancada pelo mar, abriam água, jogava-se tudo borda fora, e assim mesmo, em 1591 e 92, das vinte e duas que saíram da Índia só duas chegaram a Lisboa!

 

Gente idiota.

 

Surge a Monarquia no Brasil e, quando em Portugal, segundo Pedro Calmon, para fazer um Conde demorava quinhentos anos, no Brasil eram só quinhentos contos!

 

De 1815 a 1899 foram distribuídos, aliás vendidos, 1400 títulos de nobreza a fazendeiros, militares, comerciantes, traficantes de escravos, etc. Só entre 1888 e o fim na Monarquia, em 1889, foram 155!

 

E veio a República; mas continuavam a existir idiotas que queriam títulos de nobreza. A República não os dava já, mas Portugal continuou a “exportá-los”, e a seguir um novo filão foi descoberto e os títulos fluíam com mais facilidade: compravam-se ao Vaticano mediante pagamento a uma obra da Igreja. E apareceram mais condes e viscondes...

 

Gente idiota.

 

A República andou aos tombos muitos anos, o país cheio de guerras civis, até que Getúlio Vargas veio dar um pouco de paz com a sua mão de ferro, a sua ditadura. E o país começou a crescer com mais segurança.

 

Acaba Getúlio e volta a democracia. Constrói-se Brasília a um custo exorbitante e endividamento paralelo, entra Jânio Quadros que se julga capaz de blefar com o povo que o ignora, deixando o país na mão de pseudo esquerdistas, gananciosos pelo poder.

E é Jango que, incapaz de governar, liderar, se deixa arrastar para o desastre dos extremistas que orientados pelos sovietes, começam a desestabilizar todos os sectores da vida nacional: indústria e sobretudo as Forças Armadas, permitindo-se que cabos e sargentos dessem ordens a generais e almirantes.

 

Gente mal intencionada.

 

Não durou muito. Os generais deram-lhes o fora e instalou-se um governo duro, duro demais, porque a sovietização caminhava com força e poder. Os generais não são para governar, mais ainda os desse tempo que só aprendiam como lutar, guerrear e foi assim que conduziram o país durante vinte anos. Não havia necessidade de terem feito tanta repressão. Dizem que nesses vinte anos morreram, alguns torturados, 400 indivíduos (incluindo os mortos pelos “terroristas?”).

 

Gente dura!

 

Daqui a pouco o actual des-governo vai celebrar os cinquenta anos do “fim da democracia” e a entrada da ditadura e os trinta do fim desta, enchendo o país de elogios a terroristas, distorcendo a história, sonegando os crimes que os revoltosos cometeram, entre os quais assassinatos de colegas que se queriam retirar da luta!

 

Um dos que deve ser quase santificado e elevado a herói nacional será Carlos Marighella que escreveu o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano, ainda hoje usado em todo o mundo e que foi traduzido em inúmeras línguas e continua em inúmeros mortos. Estranho que Marighella, comunista de carteirinha desde os dezoito anos, morre aos cinquenta, segundo se diz emboscado pelas forças do governo, mas só depois de se ter desligado do Partido Comunista.

 

Filmes, livros, programas de tv, vão inundar o mercado enaltecendo esses comunistas que tentaram destruir o país e a corja que hoje se apoderou dele e o tem saqueado. Estes conhecem o Manual de cor, mas transformaram a Guerrilha Urbana em algo muito mais proveitoso: o saque generalizado, a impunidade, as prisões de mentirinha para os condenados e a perpetuação no poder e no acesso irrestrito aos bens públicos.

 

É com estas “festividades” que vai fazer a cabeça dos “ocos votantes”.

 

Gente maldosa e gananciosa.

 

Também vão esquecer-se de dizer que o maior crescimento do Brasil se deu durante a gestão militar e que tanto com o “louvado” João Goulart, o Jango, quanto com o des-governo do PT foram os piores da história. Pelo quadro abaixo vê-se bem o desastre da gestão pré ditadura de 1961 a 1964, em 1990 a estupidez do playboy chamado Collor e desde 2002 o actual.

 

Gente mentirosa.

PIB – BRASIL

 

Compreende-se melhor o clima de 1964 com a leitura deste documento:

 

Ministério da Guerra

Estado-Maior do Exército

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Rio, 20 de Março de 1964

 

Do Gen. Exército Humberto de Alencar Castello Branco, Chefe do Estado-Maior do Exército

 

Aos Exmos Generais e demais militares do Estado-Maior do Exército e das organizações subordinadas

 

Compreendendo a intranquilidade e as indagações de meus subordinados nos dias subseqüentes ao comício de 13 do corrente mês. Sei que não se expressam somente no Estado-Maior do Exército e nos sectores que lhe são dependentes, mas também na tropa, nas demais organizações e nas duas outras corporações militares. Delas participo e elas já foram motivo de uma conferência minha com o Excelentíssimo Senhor Ministro da Guerra.

 

São evidentes duas ameaças: o advento de uma constituinte como caminho para a consecução das reformas de base e o desencadeamento em maior escala de agitações generalizadas do ilegal poder do CGT. As Forças Armadas são invocadas em apoio a tais propósitos.

 

Para o entendimento do assunto, há necessidade de algumas considerações preliminares.

 

Os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de Governo, muito menos a sua propaganda, mas para garantir os poderes constitucionais, o seu funcionamento e a aplicação da lei.

 

Não estão instituídos para declararem solidariedade a este ou àquele poder. Se lhes fosse permitida a faculdade de solidarizarem-se com programas, movimentos políticos ou detentores de altos cargos, haveria, necessariamente, o direito de também se oporem a uns e a outros.

 

Relativamente à doutrina que admite o seu emprego como força de pressão contra um dos poderes, é lógico que também seria admissível voltá-la contra qualquer um deles.

 

Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos anti-democráticos. Destinam-se a garantir os poderes constitucionais e a sua coexistência.

 

A ambicionada constituinte é um objectivo revolucionário pela violência com o fechamento do actual Congresso e a instituição de uma ditadura.

 

A insurreição é um recurso legítimo de um povo. Pode-se perguntar: o povo brasileiro está pedindo ditadura militar ou civil e constituinte? Parece que ainda não.

 

Entrarem as Forças Armadas numa revolução para entregar o Brasil a um grupo que quer dominá-lo para mandar e desmandar e mesmo para gozar o poder? Para garantir a plenitude do agrupamento pseudo-sindical, cuja cúpula vive na agitação subversiva cada vez mais onerosa aos cofres públicos? Para talvez submeter à Nação ao comunismo de Moscou? Isto, sim, é que seria anti-pátria, anti-nação e anti-povo.

 

Não. As Forças Armadas não podem atraiçoar o Brasil. Defender privilégios de classes ricas está na mesma linha anti-democrática de servir a ditaduras fascistas ou síndico-comunistas.

 

O CGT anuncia que vai promover a paralisação do País no quadro do esquema revolucionário. Estará configurada provavelmente uma calamidade pública. E há quem deseje que as Forças Armadas fiquem omissas ou caudatárias do comando da subversão.

 

Parece que nem uma coisa nem outra. E, sim, garantir a aplicação da lei, que não permite, por ilegal, movimento de tamanha gravidade para a vida da nação.

 

Tratei da situação política somente para caracterizar a nossa conduta militar. Os quadros das Forças Armadas têm tido um comportamento, além de legal, de elevada compreensão em face das dificuldades e desvios próprios do estágio actual da evolução do Brasil. E mantidos, como é de seu dever, fiéis à vida profissional, à sua destinação e com continuado respeito a seus chefes e à autoridade do Presidente da República.

 

É preciso aí perseverar, sempre "dentro dos limites da lei". Estar prontos para a defesa da legalidade, a saber, pelo funcionamento integral dos três Poderes constitucionais e pela aplicação das leis, inclusive as que asseguram o processo eleitoral, e contra a revolução para a ditadura e a Constituinte, contra a calamidade pública, a ser promovida pelo CGT, e contra o desvirtuamento do papel histórico das Forças Armadas. O Excelentíssimo Senhor Ministro da Guerra tem declarado que assegurará o respeito ao Congresso, às eleições e à posse do candidato eleito.

 

E já declarou também que não haverá documentos dos ministros militares de pressão sobre o Congresso Nacional.

 

É o que eu tenho a dizer em consideração à intranquilidade e indagações oriundas da actual situação política e a respeito da decorrente conduta militar.

 

 

 Humberto de Alencar Castelo Branco

General-de-Exército

Chefe do Estado-Maior do Exército”.

 

25/02/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Ficheiro:Palacio Belem Lisboa.JPG 

 

Marcelo fora da corrida após críticas de Passos” (DN, 20/01/2014). Lembro que as eleições presidenciais são as únicas democráticas em Portugal. Candidata-se quem o deseja (com um certo número de apoiantes) e os partidos limitam-se a apoiar o candidato que entenderem.

 

Por esse facto, com excepção dos fanáticos dos partidos (uma minoria) que votam consoante quem o partido manda, os eleitores têm toda a liberdade de escolha. As eleições são secretas e o chefe dum partido não pode saber em quem votam os seus militantes. Como as autárquicas (para as quais se abriu uma pequena janela democrática) já demonstraram, os eleitores estão muito mais interessados em votar em pessoas do que em partidos.

 

 Miguel Mota

 

Publicado no Diário de Notícias de 25 de Janeiro de 2014

QUERERES



Quero por mar
além da onda brava
do Atlântico colosso
que me banha
esta verde campina
a perder de vista
e quero por arado
que me lavra
a quilha do navio
do teu corpo
o algodão das velas
dos teus dedos
e os búzios
riscados de segredos
que o mar esqueceu
pelos pinhais…
se quero
eu quero muito mais
das estrelas
quero a chama
que cintila
de toda a brisa
a suavidade
da Lua cheia
eu quero a claridade
e da voz do grilo
quando trila
a antecâmara
da minha eternidade!

26/Janeiro/2014

 

 Maria Mamede

CONSTANTINOPLA E O AQUECIMENTO GLOBAL

 


A física da atmosfera é uma coisa muito complicada. Não admira que a incerteza científica associada à matéria seja elevada e que a discussão do assunto por não especialistas seja um campo de minas permanente.

 

Com as notícias sobre o frio e este tempo invernoso, começaram a ouvir-se outra vez uma série de comentários, alguns até com bastante graça, dizendo que mais uma vez se percebia que isso do aquecimento global estava muito mal explicado.

 

É verdade que hoje se fala mais de alterações climáticas do que de aquecimento global. Na opinião dos negacionistas climáticos isso não passa de alterações semânticas cujo objectivo é disfarçar a farsa do aquecimento global, e de caminho aproveitam para falar do frio em Nova Iorque.

 

Na opinião dos outros, essa alteração de terminologia reflecte o facto de as alterações na atmosfera induzidas pelo aumento de carbono, e outros elementos, embora conduzindo a um aquecimento global, na verdade implicarem uma alterações dos padrões climáticos, dando origem a mais calor e mais seca nuns lados, mas também a mais frio e mais chuva noutros.

 

Discutir isto com base no frio de um determinado momento, ou o calor noutro, usar

permanentemente as alterações climáticas para falar de fogos, secas, inundações, avanço do mar, etc., é uma tolice.

 

Há anos tentava tornar esta tolice o mais evidente possível:

 

“O frio de hoje, do mês passado ou mesmo do ano passado, em si, não diz rigorosamente nada sobre o clima.

 

Meteorologia é a ciência que estuda os meteoros, isto é, os fenómenos da atmosfera. A sua mais conhecida aplicação prática é a previsão do tempo, em diferentes escalas, mas sobretudo em pequenos períodos de tempos. Na realidade as previsões a mais de três dias, embora tenham sofrido progressos notáveis, são ainda relativamente pouco fiáveis.

 

O clima estuda o padrão das variações meteorológicas, ou seja, avalia estatisticamente os elementos meteorológicos num período suficientemente grande para permitir avaliar padrões para lá da elevada variação meteorológica de curto prazo. O período considerado mínimo para a análise climática são 30 anos, sendo a média das observações ao longo de 30 anos que define a norma climatológica.

 

De um lado e do outro da discussão sobre alterações climáticas tende a esquecer-se esta diferença essencial entre meteorologia e clima.”

 

O frio de hoje, do mês passado ou mesmo do ano passado, em si, não diz rigorosamente nada sobre o clima. Da mesma forma, a existência de fenómenos fortemente relacionados com a meteorologia, como fogos, avanço do mar, cheias, etc., por mais extremos e raros que sejam, não dizem absolutamente nada sobre alterações climáticas.

 

A física da atmosfera é uma coisa muito complicada (basta ver que previsões meteorológicas com antecedência maior do que três dias são altamente falíveis, apesar de todos os progressos nesse campo da ciência), o estabelecimento de padrões estatísticos nessa variação é também muito complexo e interpretar as variações desse padrão ao longo de períodos longos de tempo, em que se cruzam muitos factores, muitos deles mal conhecidos, é ainda mais complexo.

 

Não admira por isso que a incerteza científica associada a esta matéria seja muito elevada, e que a discussão do assunto por não especialistas seja um campo de minas permanente, onde se encontram as mais desvairadas opiniões e teorias de conspiração.

 

E, somando a tudo, o tempo que faz hoje é bem concreto, o clima de uma região é uma abstracção estatística, nem sempre evidente.

 

Todos sabemos que Londres é muito mais chuvosa do que Lisboa, mas nem todos sabemos que a quantidade de chuva anual em Londres e Lisboa é muito semelhante.

 

E aqui voltamos ao avanço do mar, especialmente visível em algumas circunstâncias meteorológicas, como foi o caso do início da segunda semana de Janeiro.

 

Pode haver alguma relação das alterações climáticas com este fenómeno meteorológico. Mas também pode não haver. Esta incerteza deve conduzir à inacção, ou deve apoiar uma gestão inteligente da ocupação do território?

 

A questão parece-me relativamente simples.

 

Se não existir qualquer relação entre o avanço do mar e as alterações climáticas (e eu tenderei a dizer que a diminuição da quantidade de sedimentos transportados pelos rios para a costa é um factor muito mais importante no recuo da costa do que as alterações climáticas), o facto de se contar com as alterações climáticas para adoptar políticas mais prudentes pode ter um sobrecusto que é relativamente baixo.

 

Mas se existir essa relação, e não tivermos feito nada entretanto, os custos associados à perda de vidas e à destruição de riqueza serão brutais.

 

Acresce que o simples bom senso e o respeito pelo dinheiro dos contribuintes aconselhariam a adopção de medidas de recuo da ocupação da costa em muitas zonas.

 

A discussão é muito menos científica do que parece: a incerteza existirá sempre e a questão de fundo é política – consiste em saber como queremos gerir essa incerteza, incorporando-a nas nossas decisões colectivas, da forma socialmente mais útil.

 

E para essa discussão vir falar dos barcos presos no gelo da Antárctida ou no frio polar do Canadá durante meia dúzia de dias é verdadeiramente discutir o sexo dos anjos com os turcos a assediar as muralhas de Constantinopla.

 

20/01/2014

 

 Henrique Pereira dos Santos

A VALENTIA DO AMOR

 

 

Um artigo forte, o de Jaime Nogueira Pinto esse “Os cães da utopia” publicado em http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/os-caes-da-utopia-1116352. Um artigo de saber e desassombro – como revelara no livro em dois volumes, que dele possuo (outros mais escreveu) – “Portugal Os anos do fim” (1976, E&F).

 

É sobre as utopias igualitárias e libertárias apoiadas em falsos pretextos de expurgação do vício, segundo interpretação fundamentalista de antiga doutrina ou segundo ideologias de aperfeiçoamento social, que em nome da fraternidade e da igualdade esquece a fraternidade e a igualdade para descambar em perversão do mais absoluto rigor implacável.

 

No caso citado de Kim Jong-un, o requinte de crueldade e de insanidade, por questões económicas de alianças dos seus familiares com a China, selvajaria que o mundo olha impotente, enquanto a fera aguarda, na sombra do seu armazenamento nuclear, o júbilo da destruição do mundo.

 

São também de Jaime Nogueira Pinto, do seu Prefácio a “Portugal – Os anos do fim”, livro dedicado aos “Mortos que não soubemos merecer” as arrogantes palavras da sua definição, naquele Portugal de 1976, em que as liberdades democráticas se mostravam ainda mal definidas:

 

Este livro não é um livro “político”, no sentido que não vai agradar à classe política portuguesa, no poder ou na desgraça. Dos saudosistas dos “good old days” do antigamente, aos fanáticos do “povo unido”, da massa falida de jovens progressistas e tecnocratas que transitaram dos grandes marcellistas para os quadros da partidocracia actual, ou seguiram, habilidosamente, na burocracia oficial, dos bons conservadores que sempre se acolhem ao poder, seja ele qual for, aos pequenos energúmenos que de há dois anos para cá gritam e riscam paredes, dos escribas oficiosos do melhor dos mundos reaccionário aos plumitivos do concentracionarismo colectivista, dalguns generais de cabide que pela sua incompetência e comodismo tudo deixaram preparar, aos jovens capitães que se ilustraram no RALIS, na P.M., no COPCOM, nas alegrias do PREC, não creio que entre relíquias de ontem e vedetas de hoje, haja qualquer receptividade ou interesse pelo que aqui fica escrito.

 

Mas como não tenho por verdadeira a observação dum velho barão do liberalismo constitucional que ensinava que o país são os políticos, e julgo que Portugal ainda vale a pena, tão-pouco me molesta, antes me anima, tal reacção.

 

Portugal ainda vale a pena. O mundo também. Os fundamentalismos são traição. E os jogos económicos espectacularmente absurdos.

 

 Berta Brás

PADRÕES PORTUGUESES DA EMIGRAÇÃO

 

ANIVERSÁRIOS DAS COMUNIDADES MOTIVO PARA MONUMENTOS DA MEMÓRIA

Cinquentenário dos Portugueses na Alemanha

 

 

Emigrar é passar a um outro estado, transpor limites, tornar-se acrobata anónimo, a dançar a vida, na linha das fronteiras.

 

Uma data, um acontecimento pode ser uma ocasião para repensar e unir povos ligados pela emigração. A comemoração dos 50 anos dos Portugueses na Alemanha poderia tornar-se num ensejo para reforçar laços e fomentar padrões da memória migrante por toda a parte: França, Suíça, Canadá, USA, Alemanha, etc.. Os emigrantes estão de parabéns pelo que fizeram e fazem por Portugal e pelos países de acolhimento! Porque não deixar maior testemunho desta grande força e obra aos nossos vindouros? Emigrantes são obreiros de futuro, pessoas de vida na mala (http://antonio-justo.eu/?p=2570). Emigrantes não têm lugar no panteão nacional mas deviam tê-lo no santuário da memória colectiva de um povo. Se o povo migrante não toma iniciativa e o não faz, menos poderá esperar que o façam os que beneficiam do nosso trabalho.

 

A celebração do cinquentenário dos portugueses na Alemanha, ou noutro país, poderia dar oportunidade de se criar uma iniciativa que, com o apoio de patrocinadores, construísse, em Portugal e ou na Alemanha, um monumento dedicado aos emigrantes portugueses. Não seria difícil encontrar alguma terra em Portugal e ou na Alemanha onde as autoridades locais não se mostrassem dispostas a apoiar tal iniciativa. Uma tal iniciativa poderia partir da Comissão organizadora do cinquentenário, das associações, de uma força política, de um Banco, das missões católicas ou de qualquer outra organização e certamente tornar-se-ia um exemplo para as comunidades portuguesas da diáspora em todo o mundo.

 

Novos Padrões da Portugalidade

 

Imaginem os portugueses que todas as comunidades espalhadas pelo mundo concretizavam tal iniciativa! Portugal e o mundo encher-se-iam de Padrões da mais genuína portugalidade. Sim porque aos padrões dos descobrimentos seguir-se-iam os “padrões” da emigração. Estes ficariam por todo o mundo a erguer a voz daquela parte do povo que fica, sem se ver, debaixo da terra, a fazer de alicerce a grandes construções.

 

Trata-se-ia de criar áreas da sensibilidade e de sensibilização de um espaço migrante onde se materializam sensações, aspirações e questionações, de trajectos e projectos de vida, de sentido e não sentido, do Portugal migrante. Nos monumentos aparecemos, recordamos, representamos e comunicamos algo para aqueles que os rodeiam hoje e amanhã.

 

É hora de se criar monumentos quentes fora das estatísticas frias e das conversas burocráticas, monumentos que mostrem vidas, vividas e não vividas, na procura do caminho.

 

Precisamos de monumentos que testemunhem a ausência e a saudade de vida e humanidade. Aquela ausência muitas vezes recolhida no canto da saudade, que se refugia na mala da recordação onde há cartas embrulhadas por lágrimas que as abrem de novo. Nelas o mundo passa ao longe e acena; depois a saudade vai à igreja onde muitas vezes ajoelha para ganhar força e se juntar numa alegria que paira no ar das festas da associação e onde se associa e junta uma voz longínqua de timbre a gaivota que voa no mar de saudade.

 

Celebração da Aventura do Trabalho e da Honradez

 

Mais que casas da memória dos emigrantes portugueses querem-se “padrões” da recordação, sinais, vestígios, monumentos da aventura, do trabalho e honradez, espalhados entre as cidades e as nações; querem-se bastiões anti-preconceito e manifestações de vida compartilhada, de solidão e ilusão, gerados na vontade de testemunhar reconciliação. Aquela presença, por onde passamos, quer monumentos pequenos à laia de marcas que sem cair resistam ao tempo, e fiquem como destaques do povo baixo que mantem a lusitanidade e a humanidade universal num contexto popular, já não agressivo de poder. Portugal humilde emigrante, fragmentado nos monumentos quer ver testemunhada a viagem de um povo na procura de si e de alguém que o complete.

 

De nós não fica nada se não deixarmos a dor na pedra gravada como marcos de referência contra o esquecimento de um testemunho diferente em que a arte mantenha a tenção entre o real e a representação. Precisamos de criar corredores de monumentos que se tornem em veículos da lembrança e da humanidade. Não se trata de perpetuar a nostalgia do glorioso passado mas a história de heroísmos vencidos, de pessoas heróicas, sem presente nem passado, num futuro presente. Queremos as ruinas do presente a testemunhar o futuro do passado presente. São monumentos também da dor num vazio presente a lembrar a nossa ausência, a voz do perto, gravada na pedra da distância: o longe da presença ausente na sociedade de origem e de acolhimento. Muitos dos monumentos poderiam ser padrões expressão de gente sem rosto, de gente a passar como a brisa, a lutar contra a entropia e a testemunhar a entropia vigente.

 

O monumento é, como a palavra o diz: um desejo legítimo de querer manter na mente colectiva um fenómeno humano que os vindouros interpretarão. Estes seriam sinais de uma nova mentalidade, monumentos sem segundas intenções a perpetuar a lembrança do destino de povo em benefício de povo e não de ideologia ou de desvarios de poder. Seriam sinais do não poder, sinais da esperança que vive nas sombras do poder. O seu valor legítimo histórico radica não só num período mas também num fenómeno sociológico verídico que se mantem a querer expressar uma história a lembrar valores de povo.

 

Evoco aqui a ideia de padrões porque lembram o granito daquele norte e de vontades fortes e não de poderes estatais ou de pretensões; seriam padrões sem armas nem bandeiras, sem símbolos de poder mas simples recordação de presença na voz da impotência a construir honradez e humanidade.

 

PS. Seria óbvio, e no interesse de uma política da cultura e da memória do Estado português, que órgãos da emigração e repartições da cultura e do MNE considerassem projectos como estes.

 

 António da Cunha Duarte Justo

GERINDO A IRA DIVINA – 4

 

 

 

NO QUE FICÁRAMOS – construído o quadro jurídico internacional a partir do conceito de dignidade humana, por exemplo na Declaração Universal dos Direitos do Homem, no âmbito da macroética, como passar para a ética individual, a microética?

 

* * *

 

Dizemos nós que «em Roma sê romano» querendo com isto afirmar que quem se torna membro duma família, de um povo ou de um Estado, se deve integrar plenamente na sociedade envolvente sob pena de gerar anticorpos e se rodear de incómodos. E nessa integração não adquire apenas direitos mas deveres também, sendo que um dos principais é a manutenção de uma ordem moral como fundamento da ordem social e jurídica. Neste processo, a boa escolha inclui um juízo certo e uma preferência justa equivalendo à máxima «não faças aos outros o que não queres que te façam».

 

Assim chegamos à necessidade de uma ética da ordem justa, ou seja, válida para todos, não apenas para um grupo, classe ou raça e assente no bem.

 

E o que é o bem? O bem está conforme à síntese do ideal social definido pela expressão «o que é que eu quero, posso e devo fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que pode nem sequer ser nosso conhecido?». Uma atitude que parte do voluntarismo traduzido pelo «quero», que reconhece – com mais ou menos humildade – as limitações pessoais através do «posso» e que se auto impõe o «dever»: altruísmo, humildade, sentido do dever. Pelo contrário, o mal representado pelo egoísmo, pela arrogância, pela irresponsabilidade.

 

E assim regressamos aos primórdios da história da humanidade nos constantes esforços de distinção entre o bem e o mal.

 

E foi necessária tanta conversa para, afinal, voltarmos ao início de tudo? E agora?

 

Agora vem lá o futuro, esse que nos cumpre construir.

 

Já lá vamos...

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

 

ÉTICA, Fritz Heinemann, in A FILOSOFIA NO SÉCULO XX, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 7ª edição, 2010, pág. 431 e seg.

“O Macaco Gramático” de Octávio Paz

 Octavio Paz Quotes

 

Se fosse vivo, meu pai faria hoje 113 anos. Recordação que permanece intacta, gostaria de lhe oferecer qualquer coisa de surpreendente, e o surpreendente para mim é este livro que estou a ler, do escritor mexicano Octavio Paz, O Macaco Gramático, prémio Nobel de Literatura de 1990, publicado pelo D.N, numa iniciativa de extremo interesse, que me faz procurar, na fileira arrumadinha da estante, os livros que não conhecia e os poucos que conhecia e me fizeram retornar aos tempos da infância ou da adolescência das leituras do nosso contentamento. O Livro das Lendas de Selma Lagerlof, prémio de 1909, já fora encanto então, juntamente com a sua Maravilhosa Viagem de Nils Holgerson através da Suécia das leituras frequentes, ao longo dessa infância de liberdade e vigor. O Drama de João Barois, prémio Nobel de 1937, lido em francês, juntamente com os sete volumes de Les Thibault, no meu 7º ano, da estante do liceu, livros que assim que pude comprei, companheiros na viagem da vida. E Sartre, e Gide, e Pirandello, Camus ... Histórias Maravilhosas do Oriente, um livro de Pearl Buck, das nossas leituras da adolescência, este prémio de 1938, que não conhecia, e me fez recuar às miríficas histórias de fadas do universo encantado da infância. E Saramago, que admiro – não, contudo, o doentio Ensaio sobre a Cegueira do prémio de 1998. Confesso que vivi, de Neruda, prémio de 1971, seria um livro que meu pai apreciaria, tal como amou o Diário de Torga, e outras obras suas, que tanto mereceriam o prémio, mas não teve o apoio de que Saramago usufruiu para o obter.

Estou prestes a acabar este livro de Octavio Paz - O Macaco Gramático – e confesso que nunca lera uma obra tão orgíaca – orgia de linguagem, de descritivos, de argumentações paradoxais, de erotismos, de mutações, de transformações, de luxúria verbal, de delírio narrativo e filosófico e gramatical e poético, Babel de confusão de línguas e de vozes, de elementos de erudição assombrosos, resultado das suas muitas leituras, das suas muitas viagens, dos seus muitos estudos versando as mais diversas áreas, entre as quais a da linguística com a componente semântica, a filosofia, as religiões, a botânica, os costumes dos povos e sobretudo o da Índia... Um livro torrencial, que lembra o portentoso Fausto de Goethe na busca do saber e de Deus, ou La Légende de Saint Julien l’Hospitalier de Flaubert, ou mesmo Eça, sobretudo na sua Lenda de Santo Onofre, com temáticas parecidas da procura de Deus na variedade das religiões, e o sensacionismo e o panteísmo de Caeiro, e o sensacionismo exacerbado e provocante de Álvaro de Campos, e talvez o seu tédio e cansaço, na ironia analítica que de tudo descrê e põe em causa, que afirma e logo nega, e o surrealismo, e o sensorialismo, o realismo, e a luxúria absoluta de um discurso poderoso e absurdo de racionalismo ou sequer de troça. Talvez pura poesia transfiguradora em prosa, mesmo na sua função metalinguística.

Segundo “A Classical Dictionary of Hindu Mythology” por John Downson, M.R.A.S, em texto que precede o I dos 29 capítulos ou poemas de O Macaco Gramático, HANUMAN, é um macaco humanoide, chefe dos macacos, segundo a mitologia hindu exposta no Ramayana, macaco de perfeições e proezas, entre as quais o de gramático: The chief of monkeys is perfect; no one equals him in the sastras, in learning, and in ascertaining the sens of scriptures...

É certamente, o inspirador do narrador ou sujeito poético, nesta portentosa viagem de ida ao encontro de algo que poderá significar o seu reverso, no caótico de um discurso circular, que afirma e se desdiz, discurso intangível, onde tudo é floresta de metáforas, e a figura do macaco surge representada nas estátuas que o povo baniano venera.

Alguns exccertos:

I: O melhor será tomar o caminho de Galta, percorrê-lo novamente (inventá-lo à medida que o percorro) e sem me dar conta, quase insensivelmente, ir até ao fim – sem me preocupar com saber o que quer dizer “ir até ao fim”, nem com o que quis dizer ao escrever esta frase.

VI: Manchas: moitas: borrões. Preso nas linhas, as lianas das letras. Asfixiado pelos traços, os laços das vogais. Mordido, picado pelas pinças, os ganchos das consoantes. Moita de signos: negação de signos. Pletora térmica em extinção: os signos comem os signos. A moita converte-se em deserto, algaraviada em silêncio: areais de letras. .....Moita: pululação homicida: baldio. Repetições, andas perdido por entre repetições, és uma repetição entre as repetições. Artista das repetições, grande maestro das desfigurações, artista das demolições. As árvores repetem as árvores, as areias as areias, a selva de letras é repetição, o areal é repetição, a pletora é vazio, o vazio é pletora, repito as repetições, perdido na moita de signos, errante pelo areal sem signos, manchas na parede sob este sol de Galta, manchas nesta tarde de Cambridge, moita e areal, manchas na minha fronte que congrega e desagrega paisagens incertas. És (sou) é uma repetição entre as repetições. É és sou: sou é és: és é sou. Demolições: estendo-me por sobre as minhas devastações, eu habito as minhas demolições.

XXVIII: A visão da poesia é a da convergência de todos os pontos. Fim do caminho. É a visão de Hanuman ao saltar (gêiser) do vale para o pico do monte ou ao precipitar-se (aerólito) do astro até ao fundo do mar: a visão vertiginosa e transversal que revela o universo não como uma sucessão, um movimento mas como uma assembleia de espaços e tempos, uma quietude. A convergência é quietude porque no seu cume os distintos movimentos, ao fundirem-se, anulam-se; ao mesmo tempo, do alto dessa imobilidade, percebemos o universo como uma assembleia de mundos em rotação. Poemas: cristalizações do jogo universal da analogia, objectos diáfanos que ao reproduzirem o mecanismo e o movimento rotativo da analogia, são fonte de novas analogias. Neles, o mundo brinca ao mundo, que é o jogo das semelhanças geradas pelas diferenças e o das semelhanças contraditórias. Hanuman escreveu nas rochas uma peça de teatro, “Mahanataka”, cujo tema era o mesmo de Ramayana; ao lê-la, Valmiki temeu que esta ofuscasse o seu poema e suplicou-lhe que a ocultasse. O Macaco cedeu ao pedido do poeta, quebrou a montanha e lançou as rochas para o oceano. A tinta e a pena de Valmiki no papel são uma metáfora do raio e da chuva com que Hanuman escreveu o seu drama nos penhascos. A escrita humana espelha a do universo, é a sua tradução, mas igualmente a sua metáfora, diz algo totalmente diferente e diz o mesmo...

Todos os poemas dizem o mesmo e cada poema é único. Cada parte reproduz as outras e cada parte é distinta. Ao começar estas páginas decidi seguir literalmente a metáfora do título da colecção a que estão destinadas, “Los Caminos de La Creación”, e escrever, traçar um texto que fosse efectivamente um caminho e que pudesse ser lido, percorrido como tal. À medida que ia escrevendo, o caminho de Galta apagava-se e eu desviava-me e perdia-me nos seus despenhadeiros. Vezes sem conta tinha de voltar ao ponto de partida. Em vez de avançar, o texto rodava sobre si mesmo. A destruição é criação? Não sei, mas sei que a criação não é destruição. A cada curva o texto desdobrava-se num outro, simultaneamente a sua tradução e a sua transposição: uma espiral de repetições e reiterações que se consolidaram numa negação da escrita enquanto caminho. Agora me apercebo de que o meu texto não ia a lado nenhum, a não ser ao encontro de si mesmo. (...)

Eis um pedacinho de um escritor que eu não conhecia e gostei de conhecer. Presente para um pai que permanece na fixidez da sua eternidade. Inesquecido.

 Berta Brás

 

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