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A bem da Nação

VIAGEM



Quando regressei
invadiu-me o cheiro da casa vazia
numa mistura de aromas:

- sândalo, do leque na parede do quarto
âmbar e incenso, dos pauzinhos de queimar
e cânfora, do cofre chinês, prenda da minha Mãe

onde sempre guardei as minhas Histórias de Amor.
Meus passos ecoaram na casa vazia
como na minha alma as coisas da infância.

- o riso e as cantigas de roda das crianças
o barulho das loiças na mesa e à roda dela
as conversas dos jornaleiros em tempo de ceifa
a broa acabada de cozer
o caldo de feijões e couves, com chouriço
a ferver no pote de três pernas
sempre ao canto da lareira...

Ó casa onde nasceram meus dentes e meus sonhos
que saudades de mim!...

 Maria Mamede

(BANALIDADES - 2003)

A CULPA NÃO É DE ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

 


O PS sofre do mesmo mal dos seus parceiros europeus: não tem programa alternativo para estes tempos complexos e de escassez relativa.


Será que Portugal pode sair da crise? Em teoria, pode. Se as regras do euro forem outras, nomeadamente se a zona euro ficar com parte da nossa dívida e se o Banco Central Europeu começar a imprimir euros sem limites. Se, ao mesmo tempo, a Europa nos oferecer um Plano Marshall. Se nos deixarem flexibilizar as metas do défice. E, claro, se os alemães desatarem a consumir mais.

 

Esta listagem não foi imaginada por mim. Resulta da conclusão do longuíssimo artigo que, ao longo de uma semana, dois economistas muito influentes na área socialista – o antigo ministro Manuel Pinho e o possível futuro ministro Manuel Caldeira Cabral – publicaram no Diário de Notícias. Como eles dizem, "se tudo isto acontecer, então, em teoria, é possível".

 

Tenho dificuldade em imaginar uma tão clara declaração de impotência. Quase todas as condições que colocam para a salvação de Portugal estão fora do nosso alcance. São apenas desejos, porventura desejos piedosos, mas seguramente irrealistas – sobretudo agora, que conhecemos o acordo de coligação CDU/SPD.

 

Mais ao menos como eu dizer que também sou capaz, "em teoria", de saltar por cima do Pulo do Lobo, mas desde que a gravidade na zona do Guadiana fosse a mesma da Lua. E o problema não é dizer que se vai lutar por aquele conjunto de objectivos na União Europeia – o problema é fazer depender a solução dos nossos problemas de perdões, subsídios e inflação. É uma posição que sintetiza bem a dificuldade da esquerda em apresentar alternativas viáveis, e mobilizadoras, para os tempos que correm. Não é apenas um problema português.

Com a sinceridade própria de um jornalista, Vicente Jorge Silva ia directo ao problema na entrevista que deu ao jornal i: "a situação é terrível a nível da esquerda", a tradição onde ele se inscreve, a da social-democracia "acabou por ser asfixiada pelo neoliberalismo". Ilustrava com exemplos de França, do Reino Unido, de Espanha, de Itália, também da Alemanha. Francisco Assis, com sinceridade, mas com o pudor próprio de quem é também um dirigente político, descreveu essa situação neste jornal como sendo "a tentativa de resistência de um voluntarismo social-democrata escassamente afirmativo".

O que estas posições permitem perceber é que os problemas do nosso PS não são muito distintos dos problemas dos outros partidos socialistas e sociais-democratas e que António José Seguro é muito menos culpado de cinzentismo do que é costume acusá-lo. Também Hollande é, de certa forma, menos culpado do que se imagina pela desilusão que gerou – boa parte da culpa está nas ilusões que se alimentaram acerca do que poderia representar uma maioria socialista em França.

 

A principal dessas ilusões é a de que a austeridade corresponde apenas a uma escolha política, que deriva de uma valorização moral e que apenas existe para ser "punitiva". Essa ilusão permite encher todas as "aulas magnas" que se quiser, mas será fatal para as expectativas do país no momento em que houver uma mudança de ciclo político, algo que ocorrerá mais cedo ou mais tarde. Mais: como escrevia Francisco Assis, de nada serve à esquerda "uma esquerda puramente proclamatória, dada a uma certa altivez e escassamente preocupada com o esforço de compreensão da realidade".

O que Assis não consegue esclarecer é como é que o seu PS passa, e cito-o, da "evanescência de um discurso frágil" para "a consistência de uma alternativa sólida". É que esse é que é o verdadeiro problema de Seguro, sendo que não é muito diferente dos dilemas dos seus parceiros além-fronteiras: a esquerda social-democrata e socialista vive um problema de programa (como governar em tempos de escassez relativa?) e com um problema de base eleitoral (como voltar a ser um partido de base popular?).

Uma parte deste duplo problema foi muito bem descrita por Jorge Almeida Fernandes no PÚBLICO do passado domingo, quando lembrou que "a social-democracia entrou em declínio no fim dos anos 1970, quando se começou a romper a aliança entre as novas classes médias urbanas e a classe operária". Essas novas classes médias tomaram conta dos velhos partidos de inspiração trabalhista, e estes foram gradualmente mudando a sua própria natureza, passando a preocupar-se mais com os problemas das minorias e com os direitos de "nova geração" do que com os dramas das suas antigas bases operárias. Já essas classes populares foram resvalando progressivamente para os braços de populistas de direita e de esquerda.

A razão por que isso aconteceu é fácil de entender: a promoção de vigorosas políticas redistributivas era a marca de água da social-democracia, mas essas políticas necessitavam de um forte crescimento económico e de uma demografia favorável; quando o crescimento económico do pós-guerra se começou a esgotar na década de 1970, esse modelo entrou em crise por todo o lado, da rica Escandinávia à aspirante Grécia. Thatcher e Reagan não nasceram do nada e não são apenas frutos de leituras apressadas de Hayek ou Friedman, antes vieram responder a problemas existentes, protagonizando uma mudança de rota tão inevitável como fora, quatro décadas antes, a mudança de rota em direcção ao keynesianismo.

De resto, e ao contrário do que reza a propaganda, Thatcher não desmantelou o Estado social inglês, antes o reformou, para impedir que continuasse a crescer de forma insustentável. Como se mostra num livro recente – O Futuro do Estado Social, de Filipe Carreira da Silva, da colecção de ensaios da FFMS –, o peso do Estado social no PIB do Reino Unido era, no final do mandato da "Dama de Ferro", idêntico ao que se registava no início do seu consulado. Mesmo no Portugal em crise e com a austeridade que conhecemos, o peso das prestações sociais no PIB não está a diminuir: era de 22% em 2009, deverá ficar nos 23,2% em 2013.

Em países como o nosso, onde a riqueza nunca foi muita, onde o Estado social chegou tarde e o crescimento acabou cedo, a manutenção do modelo redistributivo coloca problemas ainda mais complexos à esquerda socialista (o resto da esquerda verdadeiramente só protesta, não corre o risco de governar). Por um lado, identifica-se com a política redistributiva e tem como base eleitoral uma classe média que passou a depender dessa mesma política; por outro lado, deixou de conseguir aumentar as receitas dos impostos e, assim, deixou de conseguir pagar essas políticas. Basta pensar que em Portugal as prestações sociais representavam apenas 13% do PIB em 2000, o que significa que o seu peso na riqueza nacional quase duplicou em pouco mais de uma década. Foi neste quadro que as políticas redistributivas deixaram de se basear no aumento da carga fiscal (a economia estava exaurida), para passarem a depender de uma dívida crescente (tornada mais acessível com a adesão ao euro).

O sonho de todos os socialistas é que o crescimento regresse e se libertem deste pesadelo. O seu dilema é que não conseguem imaginar uma forma diferente de crescer senão pela via de estímulos públicos, sendo que, enquanto houve dinheiro para esses estímulos – e houve em abundância até 2008/2009 –, isso não se traduziu em mais crescimento, apenas em mais dívida. É por isso que suspiram por um Plano Marshall sem entenderem que ficaríamos para sempre dependentes de subsídios externos. É também por isso que têm dificuldade em entender os sinais que começam a aparecer de alguma reversão do ciclo económico, pois este acontece sem reversão da austeridade, o que não encaixa na sua forma de pensar estadocêntrica.

Não surpreende, pois, que olhemos para o PS e, independentemente do que disser Seguro, ou outro no lugar dele, saibamos por intuição segura que as suas promessas mais simpáticas teriam o mesmo destino das de Hollande, ou das do SPD alemão, ou das do PSOE espanhol: o choque com a realidade torná-las-ia obsoletas no dia da tomada de posse de um novo Governo. O que surpreende é que ainda exista quem pense que, "se o PS fosse um bocadinho mais activo", mais à moda da Aula Magna, "tinha 90% com certeza". Não tinha, de certeza.

29/11/2013

 

 José Manuel Fernandes

SE QUERES CONHECER O VILÃO...

 

 

“Segundo fordes poderoso ou mísero…”

Eis uma máxima que La Fontaine

Coloca em subtítulo adaptável

À sua fábula “O Poderoso e o Miserável

Com que termina outra fábula -

Os animais doentes da peste” -

Na qual, por causa da peste que grassara

Na sua Corte, o Rei Leão reunira

Os vários animais para que se acusassem

Dos seus pecados,

A fim de que o mais pecador

Servisse, como danado,

Para ser sacrificado

A Júpiter, e este assim amansasse

E da peste os libertasse.

Todos foram declarando, com mais ou menos razão,

Os seus pecados, a começar pelo Rei Leão

Que a Raposa logo defendeu

Com a astúcia habitual

Que os mais animais imediatamente,

- O Tigre, o Urso, o Chacal -

Apoiaram com subserviência animal

Que é, afinal,

A de toda a gente.

Surgiu o Burro que, inocentemente,

Referiu a erva que roera,

Por estar muito esfomeado

Num prado que pertencia

A uma Confraria

De frades. Grande pecado!

E foi este o sacrificado,

O pobre do Burro enfezado.

E termina deste modo

A tal fábula do burro paspalhão:

“Segundo fordes poderoso ou mísero,

Os julgamentos da corte de vós farão

Ou branco ou preto”.

 

Muito certo.

É claro que não se trata

De nenhuma afirmação racista

Esta do branco e do preto,

Mas pura metáfora simplista

Do tratamento diverso

Social

Entre a gente animal.

Mas vejamos então

A fábula “O Poderoso e o Miserável

Que tem como introdução

A frase com reticências

Que serve de conclusão

À fábula citada antes,

Mas concluída,

E de diferente moral:

 

«O Poderoso e o Miserável”

“Segundo fordes poderoso ou mísero…

 

… Deste famoso adágio de fábula

Não rebatamos a razão,

Ela será sempre uma boa razão!

Quanto a esta outra fábula,

Foi todavia ao mais forte

Que um fraco venceu desta sorte:

 

Assim, de maneira fortuita

Quando o Senhor vinha de visita

Ao seu povo, um indigente

Diante do seu Senhor se encontrou,

E o olhou ocasionalmente,

Para o qual era proibido olhar.

Ao baixá-lo, e cedo demais erguê-lo

Sobre sua Senhoria,

Logo este afirmaria

Dum modo muito irado:

«Eis que é inesperado!

Diz-me se a loucura teus olhos guia

Para improváveis Deuses?”

Não julgando tão bem falar,

O Vilão responde ao seu Senhor:

“- Santidade, eu sei-me, relativamente a vós,

De bem pequeno poder;

Todavia,

Contemplando dos Céus a extensão,

Receio que vós não igualeis

Nenhuma das suas parcelas, nem sequer

O seu Rei Sol de cuja maravilha                  

Vos enfeitais!»

 

Crime de lesa-majestade?

Sem dúvida… segundo a máxima cimeira;

Mas aqui, para muitas altas cabeças

É verdade bem certeira.»

 

Também Victor Hugo lembraria

A singularidade de tratamento

Com que a Justiça pune os homens

Conforme matam a fome

Da sua miséria ou da sua ambição.

E não há meio de alterar

Tal condição.

 

Mas se queres conhecer o vilão

Põe-lhe a vara na mão,

É o que se diz

Neste nosso país.

E a vara do dinheiro

É poderoso instrumento

Que torna vilão

O homem mais bento.

Vemo-lo a cada passo

Neste nosso mundo crasso.

 

 Berta Brás

COMEMORAÇÕES DO 1º DE DEZEMBRO DE 1640

 

 

Na noite de Domingo, 26 de Novembro de 1640, os fidalgos conjurados, reunindo-se na casa de D. Antão Vaz de Almada, assentaram em que a acção, já anteriormente debatida e combinada, devia lançar-se no Sábado, primeiro de Dezembro.

 

Tinha-se procurado a colaboração e o apoio das classes populares, por intermédio do juiz do povo, do escrivão e alguns elementos da Casa dos Vinte e Quatro.

 

Nesta revolução, como na do Mestre de Aviz, o povo iria desempenhar um papel de relevo. É curioso que os nobres, nesses tempos, a despeito da distância que os separava da gente dos ofícios, tinham com eles um trato mais familiar e um respeito mais sincero pelos direitos dos humildes do que a burguesia endinheirada do século XX.

 

E o povo, falando com a dignidade e o desassombro que então lhe apreciavam e que hoje só merece censuras, recordou, por intermédio dos seus representantes, o abandono em que ficaram os populares que se revoltaram no Alentejo e no Algarve. Ainda desta vez não negariam o seu esforço e sacrifício para conquistar a liberdade da Nação, mas exigiam um compromisso formal de toda a nobreza. E esta deu-lho.

 

Seguros deste apoio, sem o qual a revolução cairia no vácuo, procuraram os conjurados a colaboração de algumas individualidades de destaque, a primeira das quais foi o Arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, que lhes aprovou os intuitos, assegurando-lhes que não constituía pecado, como alguns receavam, lutar pela desopressão da sua pátria.

 

Um dos elementos aliciados, apenas três dias antes da revolução, o fidalgo D. João da Costa, já com fama de muito culto e eloquente, manifestou alvoroçadamente o seu apoio à causa, não deixando, porém, de pôr em relevo, talvez num tom excessivamente sombrio, os obstáculos quase insuperáveis que seria preciso vencer. Duvidou de que D. João, Duque de Bragança, tivesse os talentos que a situação requeria. Fácil se lhe afigurava colocar-lhe a coroa na cabeça, mas poderia ele depois sustentá-la? Lembrou as forças de que os castelhanos dispunham. Só no castelo, aquartelava-se uma guarnição de quinhentos homens bem armados e equipados. E quantos eram os revolucionários? Uns quarenta fidalgos, que, juntando todos os seus criados, mal somavam duzentas pessoas. Era muito pouco, se os castelhanos descessem do seu reduto para vir impor a ordem na cidade. Não negava o seu esforço (e mais tarde mostrar-se-ia dos mais decididos), Mas parecia-lhe que só por milagre se triunfaria.

 

- E milagres, Senhores, – acrescentou, empolgado pela sua própria eloquência – é justo que se creiam, é bom que se mereçam, mas não é razão que se esperem!

 

Contudo, entendia que se não se devia adiar a acção, porque a demora, traindo o segredo, ainda seria o maior inimigo.

 

Os raciocínios de D. João da Costa arrefeceram o entusiasmo de alguns conjurados. Chegou-se a mandar recado ao Duque de Bragança, pedindo-lhe que ordenasse a suspensão das suas ordens. Mas, reconhecendo-se que já não era tempo de retroceder pois, detendo-se, acabariam por perder-se todos logo que seus intuitos fossem conhecidos dos castelhanos, reanimaram-se e expediram contra-aviso ao Duque, repondo as coisas no primitivo andamento.

 

Só em véspera da data marcada se advertiram muitos dos fidalgos, que entrariam com o ímpeto da sua mocidade em tão arriscada empresa. Duas mulheres se mostraram nesta emergência de mais corajoso e decidido valor do que muitos homens. Foram D. Filipa de Vilhena, Condessa de Atouguia, que ajudou a armar os seus próprios filhos, D. Jerónimo de Ataíde e D. Francisco Coutinho, exortando-os a que se portassem com brio de autênticos cavaleiros e D.Marianade Lencastre, que procedeu de igual modo com os seus filhos Fernando Teles e António Teles da Silva. O amor à liberdade colectiva superou no coração destas mães o instintivo amor maternal.

 

Todos os nobres conjurados – confederados, como então se lhes chamava – deviam achar-se, em suas carruagens, nas proximidades do Terreiro do Paço no dia primeiro de Dezembro. Ao badalar das nove horas, juntar-se-iam imediatamente e iniciariam a acção já planeada nas vésperas em suas linhas gerais e em seus pormenores. Parece que alguns, não podendo ter mão na sua impaciência, chegaram com antecipação demasiada e, saltando das sua carroças – nome que então davam às carruagens – deram em passear nervosamente pelo vasto terreiro que ainda não tinha a configuração que se lhe daria depois do terramoto.

 

Nesse mesmo momento, encontravam-se junto de Miguel de Vasconcelos, a despacho, o capitão Diogo Garcez Palha e Manuel Manso da Fonseca. E, entrando em alvoroço, Gregório de Seixas advertiu o secretário de Estado:

 

- Senhor, vejo na sala dos tudescos e na varanda muitos fidalgos e, no Terreiro do Paço, coches com as cortinas corridas. Se quiserem falar a Vossa Mercê, conviria dar-lhes logo audiência.

 

Ao que Vasconcelos replicou, por claro, na linguagem desbragada que lhe era peculiar:

 

- Quero que vão todos à m... e que me beijem aqui o c...


Desta atitude insolente e grosseira se depreende que a gente de Castela não sonhava sequer o que se estava a preparar.

 

Entretanto, todos os conjurados foram ocupando pelo Terreiro do Paço os postos anteriormente designados. Mal soou a primeira badalada das nove e mesmo antes que soasse a última, lançaram-se os restantes fidalgos para fora das carruagens. Eram quase todos muito jovens e atrevidos, lembrando os Portugueses assomadiços que desbarataram os Turcos no Oriente. Jorge de Melo, Estêvão da Cunha e António de Melo e Castro, com alguma gente sua que os seguia, prenderam de surpresa os soldados castelhanos da guarda, enquanto D. Miguel de Almeida, subindo à sala dos tudescos, disparava uma das imensas pistolas daquele tempo, dando assim o sinal para que cada um acudisse aos pontos estratégicos do edifício previamente combinados.

 

Luís de Melo, porteiro-mor e João Saldanha de Sousa correram pressurosos para a sala onde se guardavam as alabardas dos soldados. Mas já se lhes tinham antecipado D. Afonso Meneses, Gaspar e Brito Freire e Marco António Azevedo, que lançara todas as alabardas por terra e impediram que os soldados se armassem. Alguns deles ainda tentaram defender a porta de acesso ao corredor que conduzia ao forte onde residia Miguel de Vasconcelos. Dois homens resolutos, Pedro de Mendonça e Tomé de Sousa, frustraram-lhes os intentos, investiram furiosamente contra a porta e forçaram os soldados a desocupá-la. E quando correram para outra que dava acesso aos aposentos da duquesa de Mântua, encontraram-na ocupada por Luís Godinho Benavente, criado do duque de Bragança e outros companheiros que tinham já matado um tudesco, ferido outro e posto em fuga os restantes.

Percebe-se que toda a acção fora meticulosamente estudada e se estava executando com uma regularidade e uma precisão quase mecânicas.

 

Entretanto, D. Miguel de Azevedo, já idoso, mas ainda cheio de garbo, andava de espada em punho pelos vastos corredores, a bradar, num vozeirão terrível, - Liberdade, portugueses! Viva D. João, o Quarto!

 

E, sempre gritando deste jeito, assomou a uma varanda do Paço. Os seus clamores atraíram rapidamente ao local muitos curiosos do povo, por entre os quais decerto haveria quem estivesse no segredo da conjura, a esperar impacientemente aquele apelo. A maioria, porém, ignorava o verdadeiro significado daqueles sucessos.

 

Enquanto isto, a acção no interior do edifício prosseguia. D. António Telo, D. João de Sá Meneses, camareiro-mor de el-rei, António Teles, já ferido por uma bala disparada na sala dos tudescos, o conde de Atouguia e seu irmão D. Francisco Coutinho, D. António Álvares da Cunha, D. Álvaro de Abranches, Aires da Saldanha, João de Saldanha de Sousa, D. Gastão Coutinho, Sancho Dias de Saldanha, João de Saldanha da Gama e seus irmãos António e Bartolomeu de Saldanha, Tristão da Cunha de Ataíde, seus filhos Luís e Nuno da Cunha e seu genro D. Manuel Childe Rolim, cruzando de roldão os corredores sombrios, buscavam entrar em casa de Miguel de Vasconcelos.

 

Ao fim de um corredor, encontraram Francisco Soares de Albergaria, corregedor do Cível da cidade, que acabava de sair da secretaria do Estado. Num entusiasmo irreprimível, gritaram-lhe:

- Viva el-rei D. João!

O corregedor, colhido de surpresa, recuou um passo, arrancou quixotescamente da espada e replicou num brado:

- Viva el-rei D. Filipe!

 

Quiseram sossegá-lo, pois não era intento dos fogosos moços causar-lhe dano, mas o homem, muito exaltado, não se aquietava. Tiveram que disparar-lhe uma pistola na garganta, ferimento de que veio a morrer algumas horas depois.

 

Toparam na Secretaria a António Correia, oficial maior, a quem D. António Telo vibrou algumas cutiladas, ao que parece por mera questão pessoal e dirigiram-se tumultuosamente para a porta do escritório de Miguel de Vasconcelos. Apesar de fechada e aferrolhada por dentro, derrubaram-na num ápice. O Secretário, que, ainda minutos antes soltara fanfarronadas obscenas contra os fidalgos, não se via no aposento. Pensaram que se teria escapado para a Casa de Índia, com a qual havia comunicação interior. Mas uma escrava que ali se encontrava, talvez em retribuição das ofensas e maus-tratos recebidos daquele homem intolerável, com um sinal discreto, indicou-lhes um armário de papéis. Abrindo-o, acharam lá dentro Miguel de Vasconcelos, todo encolhido. Estava armado de espada e pistola, que de nada lhe serviram. D. António Telo disparou sobre ele a sua arma. Ferido, ainda saltou do armário. Mas logo o derrubaram a cutiladas. Sobre aquele homem, momentos antes ainda tão poderoso que dele dependia a vida de qualquer português, concentrava-se o ódio de toda a Nação, mais do que sobre os castelhanos, considerados inimigos naturais. Este era, porém, um português, traidor ao seu povo, mais feroz na perseguição aos seus patrícios do que o estrangeiro opressor.

 

Arrastaram-no como um fardo, através do aposento e arremessaram-no ainda vivo, como coisa imunda, pela janela. Em baixo, a populaça recebeu-o com apupos e despedaçou-o, numa feroz sanha de vingança.

 

O capitão Diogo Garcez Palha, que estivera com ele a despacho, foi encontrado numa sala, com uma carabina e pistolas, que ainda disparou sobre os conjurados, errando o alvo. Correram sobre ele e, depois de o ferirem à espadeirada, obrigaram-no a saltar pela janela. Mais feliz que do que o Secretário de Estado, ainda pôde salvar-se com uma perna desconjuntada.

 

(Texto de Mário Domingues, em " O Drama e a Glória do P. António Vieira")

 

Entretanto, outro grupo de conspiradores subiu ao quarto da duquesa de Mântua[1].

 

Eram mais de três dezenas de fidalgos que cruzavam apressadamente os corredores e salas, cheios de penumbra e de eco confuso de suas vozes exaltadas, do tinir dos ferros e das esporas que batiam sacudidamente no lajedo, ao passo precipitado das pernas nervosas. Moviam rapidamente aquelas botas altas da época que subiam até à coxa. Nos chapéus de aba muito larga, tremulavam longas plumas, requintada moda masculina de então. As camisas, em bofes brancos, de tule ou de renda, apareciam por alturas do peito ou do pescoço, a sair de dentro dos casacos largos, apenas apertados na cinta por um grosso cinturão de couro, do qual pendiam longas espadas de grandes punhos em forma de taça. Alguns traziam pelos ombros largas capas que caíam em pregas soltas até aos joelhos, outros tinham-nas deixado nos coches, para se moverem com mais desembaraço. O ideal da gente moça de então era lutar, com a mesma galhardia, por uma grande causa ou por um nada, cortejar a mulher com requintes de delicadeza, beber um almude de um trago com brio ou bater-se em duelo por um sorriso de donzela.

 

 

 

As inúmeras detonações já tinham soado dentro do edifício, os brados coléricos dos atacantes, os lamentos dos feridos e, por fim, a confusa vozearia dos conjurados ao aproximarem-se dos seus aposentos, constituíam advertências terríficas e mais do que eloquentes para Margarida, duquesa de Mântua. O estrondo das portas que iam ruindo sucessivamente no caminho da sua alcova, levaram-na, em pânico, para a varanda que deitava para a capela real, a bradar ao povo que lhe acudisse, àquele mesmo povo que ela tanto desdenhara. Acompanhavam-na, cheios de terror, criados castelhanos e portugueses e algumas pessoas gradas da sua corte que, vendo surgir os revolucionários, logo se renderam, humildes e receosos de perderem a vida.

 

Obrigaram-na, com respeitosas palavras, a abandonar a janela e a interromper a gritaria. Ela então declarou querer sair do palácio. Que a deixassem descer ao Terreiro do Paço. Detiveram-na. Entre altiva e amedrontada, ensaiou ludibriar os revolucionários, exclamando:

 

- Basta, senhores! Já o ministro culpado pagou os delitos cometidos. Não passe adiante o furor, que não merece entrar em peitos tão nobres. Eu me obrigo a que el-rei católico não só perdoe, mas agradeça livrar-se este reino dos excessos do Secretário.

 

Ninguém melhor do que ela sabia que el-rei católico, ou antes o seu ministro Conde-Duque de Olivares, longe de perdoar ou agradecer, aproveitaria o magnífico ensejo para finalmente aniquilar o que ainda havia de mais são e robusto na nobreza de Portugal.

 

No momento em que a Duquesa, ansiosa por se salvar do perigo, fazia aquela promessa que seria a primeira a trair, entrou no aposento o Arcebispo de Braga, um partidário de Castela que bastante auxiliara o opressor a manter o seu domínio sobre os portugueses. Acudiu logo o untuoso prelado, em reforço daquelas promessas vãs, com outras da sua lavra, cuja falsidade era mais do que aparente.

 

Mas a Duquesa, por ser mulher, fora escutada com tolerante cortesia por cavalheiros que não a acreditavam; ao Bispo, como homem, entenderam já não dever o mesmo respeito. Apenas o salvava a sua qualidade de sacerdote.

 


Joaquim Reis



 

[1] Fernão Teles de Meneses, D. João da Costa, D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada e seu filho D. Luís, Pedro de Mendonça, Tomé de Sousa, D. António Luís de Meneses e seu irmão D. Rodrigo de Meneses, António de Saldanha, D. Carlos de Noronha, D. António de Alcáçova, D. António da Costa, João Rodrigues de Sá, Martim Afonso de Melo, Francisco de Melo, Luís de Melo, que fora porteiro-mor de el-rei, e seu filho Manuel de Melo, D. Francisco de Sousa, Rodrigo de Figueiredo, D. Fernando Teles de Faro, Luís de Mendonça, Tristão de Mendonça, D. Tomás de Noronha, D. António de Mascarenhas, Luís Gomes, Francisco de Sampaio, Freire de Andrade e Gilvás Lobo.

 

 

FERIADO DO 1º DE DEZEMBRO

 

 

Independentemente da forte carga ideológica deste documento, que aqui se reproduz, o certo é que nem os republicanos jacobinos ousaram abolir o feriado do 1º de Dezembro.

 

É isso que é importante.

 

Ora, este bando de mentecaptos a quem, em hora funesta, foi confiado o mando da Nação lusitana, aboliu uma data que, quer monárquicos, quer republicanos, sempre comemoraram, alegando para o efeito pseudo-ganhos de produtividade, aliás absolutamente indemonstráveis e de manifesta falta de senso. É isso que nos revolta.

 

O 1º de Dezembro é uma data emblemática, trata-se do mais antigo dos feriados civis, um momento altamente simbólico para todos nós. Uma efeméride patriótica que tem que ser sempre celebrada com dignidade, pompa e circunstância. O 1º de Dezembro de 1640 é o sinal mais claro da recuperação da soberania, mas como esta a gente a perdeu, como é público e notório. Para eles não deve significar coisa alguma.

 

 

 

 Francisco Henriques da Silva

RESTAURADORES EM 1 DE DEZEMBRO DE 1640

 

 

Afonso de Menezes, D.

Álvaro Coutinho da Câmara, D.
Antão Vaz d’Almada, D.
António de Alcáçova Carneiro, D.Alcaide-mor de Campo Maior
António Álvares da Cunha, D. 17º Senhor de Tábua
António da Costa, D.
António Luís de Menezes, D.1º Marquês de Marialva
António de Mascarenhas, D.

António de Melo e Castro
António de Saldanha – Alcaide-mor de Vila Real
António Teles da Silva – Governador do Brasil
António Telo, D.

Carlos de Noronha, D.
Estêvão da Cunha
Fernando Teles de Faro, D.

Fernão Teles de Menezes – 1º Conde de Vilar Maior
Francisco Coutinho, D.

Francisco de Melo
Francisco de Melo e Torres – 1º Marquês de Sande
Francisco de Noronha, D.

Francisco de São Paio
Francisco de Sousa, D.1º Marquês das Minas
Gaspar de Brito Freire
Gastão Coutinho, D.

Gomes Freire de Andrade
Gonçalo Tavares de Távora
Jerónimo de Ataíde, D.6º Conde de Atouguia
João da Costa, D.1º Conde de Soure
João Pereira, D.

João Pinto Ribeiro, Dr.
João Rodrigues de Sá
João Rodrigues de Sá e Menezes, D.3º Conde de Penaguião

João de Saldanha da Gama
João de Saldanha e Sousa
Jorge de Melo
Luís Álvares da Cunha
Luís da Cunha
Luís da Cunha de Ataíde, D.Senhor de Povolide,
Luís de Melo, Alcaide-mor de Serpa
Manuel Rolim, D. – Senhor de Azambuja

Martim Afonso de Melo – Alcaide-mor de Elvas
Miguel de Almeida, D.4º Conde de Abrantes
Miguel Maldonado
Nuno da Cunha de Ataíde, D.1º Conde de Pontével
Paulo da Gama, D.

Pedro de Mendonça Furtado – Alcaide-mor de Mourão
Rodrigo da Cunha, D.Arcebispo de Lisboa
Rodrigo de Menezes, D.
Rodrigo de Resende Nogueira de Novais
Rui de Figueiredo – Senhor do morgado da Ota
Sancho Dias de Saldanha
Tomás de Noronha, D. - 3º Conde dos Arcos
Tomé de Sousa -  Senhor de Gouveia
Tristão da Cunha e Ataíde - Senhor de Povolide
Tristão de Mendonça

 

TOTAL = 55

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