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A bem da Nação

A esquizofrenia da megalomania

 

 

Da fábula 217 de Esopo, cujo título resume

O assunto da sua história

-“Os dois cães que rebentam, à força de beber” -

Fez Fedro a fábula XX

Do seu “Fabulário”

- “Os Cães esfomeados” -

Que ao contrário daquela,

Contém a moralidade

Que lhe dá universalidade

Pela sua aplicação à Humanidade:

“Um projecto insensato

Não só não obtém êxito

Como leva os mortais

A perdas infernais”.

Daqui parte La Fontaine,

Para mais uma

Elegante e sentida

História da vida:

 

«Os dois Cães e o Burro Morto»

 DOIS CAES E O BURRO MORTO

´

As virtudes deveriam ser irmãs

Tal como são irmãos os vícios:

Mal um destes últimos

Nos nossos corações se instala,

Vêm todos em fila,

Sem faltar nenhum.

Ouço até falar

Daqueles opostos

Que num mesmo tecto

Se vão albergar.

Quanto às virtudes de cada um

Raramente se vêem

Colocadas no ponto mais alto

De cada sujeito,

Pelas mãos agarradas, sem estarem dispersas:

Um é valente, mas exaltado

Outro é prudente mas mal-humorado.

Entre os animais, gaba-se o Cão

De ser competente

E fiel ao seu dono.

Mas é parvo e guloso.

Testemunham-no os dois Mastins

Que viram um Burro

A flutuar sobre as ondas,

Morto,

E com o vento a afastá-lo mais e mais

Dos nossos Cães.

“Amigo, diz um, os teus olhos

São mais eficazes que os meus

Lança um pouco os teus olhares

Sobre a planura das águas.

Julgo ali ver qualquer coisa.

É um Boi, é um Cavalo?

E que importa o animal?

É sempre um naco de carne

O ponto está em obtê-lo.

Porque o trajecto é enorme

Para alcançá-lo,

Além de que, contra o vento

Será preciso nadar

Bebamos antes a água

Que satisfará a mágoa

Da nossa garganta seca.

O corpo em breve ficará

A descoberto e será

Provisão para a semana.

Eis os nossos Cães a beber

E o fôlego a perder,

E a vida seguidamente;

Tanto fizeram que rebentaram

Num instante.

 

O Homem é feito assim:

Quando um assunto o inflama

A impossibilidade desaparece

Da sua alma.

Os votos que faz, os passos que perde

Na ânsia em que arde,

A esfalfar-se, a correr,

Para os bens ou a glória poder obter!

“Se eu amanhã aumentasse os meus Estados!”

“Se eu pudesse encher os meus cofres de ducados!”

“Se eu aprendesse o Hebreu, as Ciências, a História!?”

Tudo isso é o mar que se bebe, tudo é desmesurado.

Mas nada ao Homem é suficiente:

Para favorecer os projectos, que formou um único espírito,

Quatro corpos seriam precisos;

Mas longe de a isso bastar

A meio caminho iriam ficar:

Enfim,

Para que bem se veja:

Aquilo que um só deseja

Nem quatro Matusaléns

Poderiam levar ao fim. 

 

Cá por mim,

Eu nem sei bem se concordo

Com tal teoria.

Se é verdade que há projectos

Que metem água e de que se pode dizer

Que foram pela água abaixo,

Secos,

Outros projectos há

Que resultam eficazes

Sobretudo para os valentes

Que lutam com muito jeito

Pelo próprio proveito.

Independentes!

Mas até com precedentes.

 

E afinal,

Que seria do progresso,

Já o disse Gedeão

Na “Pedra Filosofal”,

Não fosse ele resultante

Do sonho que é constante

Na vida de toda a gente

- Excepto, naturalmente,

Os “Eles” que o desconhecem

Segundo as mentes

Dos mais inteligentes:

 

“Que sempre que um homem sonha

O mundo pula e avança,

Como bola colorida

Entre as mãos duma criança”.

 

Mas de facto…

Só é preciso cautela,

Não vá ele estilhaçar

Num desacato.

 

 Berta Brás

De D. António a D. Januário

 

 

Uma das bandeiras da “oposição” (uma mistura heterogénea, que ia de monárquicos a comunistas) tinha sido o então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Espírito superior, mentalidade aberta e pessoa consciente dos males da governação, falara e escrevera o que sentia, criticando o que estava mal.

 

Achavam os governantes de então que a igreja não tinha que se meter onde não era chamada e D. António foi exilado para fora do país.

 

Clamavam os da oposição que a Igreja tinha todo o direito de denunciar o que estava mal e que a liberdade era para todos e um bem universal.

 

Diga-se de passagem que, quando D. António Ferreira Gomes regressou a Portugal, depois do 25 de Abril, não ficou nada satisfeito com o que viu e assim o declarou. Estavase naquele período em que a ditadura relativamente moderada do antigamente tinha sido substituída por outra pior, mais dura e intransigente, do Partido Comunista, com o seu testa de ferro Vasco Gonçalves. Polícia política, prisões arbitrárias, rigorosa censura a dominar a comunicação social, completo domínio da máquina do estado e, o que mais interessava ao “sol da terra”, a que obedeciam os (es)cravos vermelhos, a entrega do Ultramar Português aos grupos (alguns minúsculos) manipulados por Moscovo, com atropelo de todas as promessas e de todas as regras democráticas.

 

Mesmo depois desse período negro, sem atingir a democracia, o país ficou-se por uma partidocracia fanática, com um sistema - que designo por “partidismo” – em que um número reduzido de senhores decide, ditatorialmente, quem é que os cidadãos podem “escolher” para os representar. E podem fazê-lo sob a forma de “listas”, por distritos, listas cuja ordem não pode ser alterada, o que dá, especialmente aos candidatos das listas dos distritos grandes e com muitos mandatos, a confortável certeza de que não podem deixar de ser eleitos! Depois de todas essas limitações, já não há problemas em dar “liberdade” para os cidadãos votarem, ou seja, meterem na urna o papelinho com a lista que – do mal o menos – consideraram “menos pior”.

 

Para muitos sujeitos, enquanto estão na oposição, democracia e liberdade são bens universais que não podem sofrer restrições. E por isso tanto apoiaram D. António.

 

Mas quando esses sujeitos chegam ao poder, tudo muda de figura. Democracia e liberdade passam a ser algo incómodo.

 

Um outro bispo, D. Januário Torgal Ferreira, neste ano de 2001, levantou a voz para fazer críticas e denunciar a incompetência do Governo. E logo se ouviram vozes dos tais pseudo-democratas a protestarem e a declararem que a igreja não tinha nada que se meter nesses assuntos. O que era óptimo em D. António passou a ser péssimo em D. Januário!

 

Para os que têm espírito de ditadores e que só clamam contra as ditaduras porque querem é a deles, a democracia passa a ser uma maçada logo que atingem o poder. Os portugueses deviam meditar sobre estes factos e tirar as devidas conclusões.

 

Miguel Mota

Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

 

Publicado no “Correio da Manhã” de 1 de Julho de 2001

ETIMOLOGIAS

 

 

O vocábulo "maestro" vem do latim "magister" e este, por sua vez, do advérbio "magis" que significa "mais" ou "mais que". Na antiga Roma o "magister" era o que estava acima dos restantes, pelos seus conhecimentos e habilitações! Por exemplo um "Magister equitum" era um Chefe de cavalaria, e um "Magister Militum" era um Chefe Militar.

 

 

 Já o vocábulo "ministro" vem do latim "minister" e este, por sua vez, do advérbio "minus" que significa "menos" ou "menos que". Na antiga Roma o "minister" era o servente ou o subordinado que apenas tinha habilidades ou era jeitoso.

 

 

Joaquim Reis

A I Travessia Aérea do Atlântico Sul

 Ficheiro:Gago Coutinho e Sacadura Cabral.jpg

 

Em 1922, quando a aviação estava ainda na sua infância, dois oficiais da Marinha Portuguesa, o Capitão Tenente Artur de Sacadura Cabral (piloto aviador) e o Capitão de Mar e Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho (navegador) levaram a cabo a I Travessia Aérea do Atlântico Sul. Considero essa Travessia o feito maior dos portugueses no século XX. Mas, por uma incrível incapacidade dos governantes - e um tanto. também, da quase totalidade dos portugueses - o mundo desconhece esse feito enorme, ao mesmo tempo heróico e científico.

 

O caso é tanto mais chocante porque todo o mundo conhece o feito de Lindberg, importante, sem dúvida, mas cem vezes inferior ao de Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

 

 

 

O voo dos nossos aviadores foi cinco anos antes do de Lindberg e costumo comparar a evolução dos aviões, nesse tempo, com a que se verifica actualmente com os computadores. Lindberg não fez propriamente navegação. Utilizou apenas uma bússola e, saindo da América, nesta direcção, se o motor não parar, chega-se, certamente, ao "lado de cá".

 

Os nossos aviadores, dois excelentes geógrafos, inventaram métodos que permitiram, pela primeira vez, navegar pelo ar com a mesma segurança com que se navegava no mar. Métodos depois utilizados pela aviação de todo o mundo, até que o rádio veio dar melhores possibilidades. O caso mais espantoso foi o da etapa de Cabo Verde aos Penedos de S. Pedro, minúsculas ilhotas, a maior das quais com uns escassos 200 metros de comprimento, atingidos com toda a precisão depois de mais de 11 horas de voo sobre o mar.

 

Na época, a importância do feito foi bem reconhecida, não só em Portugal e no Brasil, mas também nalguns países estrangeiros.

 

Sacadura Cabral e Gago Coutinho foram convidados a fazer uma conferência na Sorbonne, a prestigiada universidade parisiense.

 

Muito justamente, os dois aviadores foram promovidos por distinção ao posto imediato, Sacadura Cabral a Capitão de Fragata e Gago Coutinho a Contra Almirante.

 

Em 1969, por não haver, em Lisboa, qualquer monumento que mostrasse às pessoas esse enorme feito, publiquei um artigo de jornal ("Um monumento necessário", Jornal do Comércio de 8 de Junho de 1969) em que sugeria que se fizesse um monumento, constituído por um plinto sobre o qual repousasse uma réplica, em tamanho natural, do hidroavião Santa Cruz, que terminou a Travessia. Em painel ao lado se mostraria o mapa da viagem, com as respectivas datas. Mais de vinte anos depois, tive o prazer e a honra de fazer parte da comissão que conseguiu erigir, em Belém, a poucos centos de metros do ponto de partida para a Travessia, aquele belo monumento, que mostra, às muitas pessoas que o admiram e fotografam, como dois aviadores portugueses foram, há 85 anos, pelo ar, até ao Brasil.

 

 File:Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho, Belém - Mar 2010.jpg

 

Dois factos recentes são particularmente vergonhosos para os dirigentes deste País:

 

- Quando, em 1997, passavam 75 anos sobre o que, como disse, considero o feito maior dos portugueses no século XX, o governo (apesar de ter recebido uma proposta nesse sentido) ignorou completamente o que deveria ter originado uma enorme celebração nacional;

 

- A Expo 98, até porque tinha como tema os "Oceanos", ignorou totalmente esse acontecimento e desperdiçou uma das melhores oportunidades para ensinar ao mundo que, em 1922, dois portugueses cometeram um dos maiores feitos da aviação mundial.

 

Alem da presença do Santa Cruz, o hidroavião que terminou a Travessia e que se encontra no Museu de Marinha, ou uma réplica, em tamanho natural, como a que se encontra no Museu do Ar, a Expo 98 deveria ter tido uma série de grandes painéis sobre a Travessia, complementados com livros e filmes, muitos deles da época, para mostrar ao mundo esse enorme feito dos portugueses, ligando pelo ar os dois lados dum oceano. Em matéria de publicações, deveriam ser feitas reedições, com traduções, pelo menos, em inglês, francês e espanhol, de vários bons relatos desse feito. Lembro, por exemplo, esse magnífico nº 254, de Dezembro de 1959, da “Revista do Ar” (do Aero Club de Portugal), que muitos desconhecem. Devia haver abundante documentação das provas da repercussão enorme desse feito na altura, como as manifestações populares, em Portugal e no Brasil (de que há filmes de cinema), a conferência que os dois aviadores foram convidados a fazer na Sorbonne, etc. etc. etc.

 

Essa espantosa omissão, fruto da incompetência dos responsáveis, talvez não possa ser corrigida pois não está à vista, para futuro próximo ou longínquo, uma oportunidade tão boa para mostrar ao mundo esse feito enorme dos portugueses. É muito triste!

 

Miguel Mota 

(antigo piloto de aviões e de planadores)

 

Publicado no “Jornal de Sintra” de 4 de Janeiro de 2008 e no "Jornal de Oeiras" de 22 de Janeiro de 2008

EXPRESSÕES POPULARES

 

 

 

  À grande e à francesa  

 

 

Significado: Viver com luxo e ostentação.


Origem:
Relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.

Uma “Jeanne d’Arc” que o mundo protegeu

 

Em Coimbra havia uma República de Estudantes – suponho que permanece – chamada PRA-KYS-TÃO, que não funcionava de modo diferente das outras Repúblicas – uma rapaziada alegre e brincalhona que ia cumprindo os seus programas de vida conforme as pretensões de cada um. Era malta comunitária, entregue a si própria, centrada na vida académica de praxes, deveres de estudo, lutas políticas alguns deles… Mas o nome PRA-KYS-TÃO, que no seu trocadilho inflecte para um posicionamento de ironia resignada muito à portuguesa, não sei se de facto corresponde antes, na sua designação, a uma atitude política de dissimulada malícia dos rapazes dos anos cinquenta e sessenta que conduziu à conquista de ideais libertadores dos anos setenta. Não tem a ver com histórias paquistanesas - nos meus tempos de Coimbra era Hailé Selassié o motivo dos trocadilhos políticos orientais, em carros festivos da Queima das Fitas - mas foi uma história paquistanesa que me trouxe à memória a República coimbrã – a história de Malala Yousafzai

 

 

Vem na Revista Expresso de 26 de Outubro – “Na Casa de MALALA” - contada por Paulo Anunciação, casado com Christina Lamb, a escritora do livro “I Am Malala”, a pedido desta menina célebre, baleada pelos Talibãs, aos quinze anos, por defender princípios inadequados aos ideais fundamentalistas daquela trupe revolucionária que se impõe no seu país.

 

É a voz duma menina corajosa, agora com dezasseis anos, simples, aberta, amante dos seus, saudosa da sua terra e dos amigos que deixou na sua cidade, cuja vida sofreu uma reviravolta, cujo assassínio um destino protector permitiu que não fosse concretizado, a vinda para Birmingham possibilitando a sua “ressurreição”, para uma vida de energia e apelo, defendendo os ideais que desde menina precoce a tornaram suspeita ao ódio talibã.

          

E assim ela vai contando a sua vida familiar anterior, numa casa carenciada de comodidades, mas cheia de gente e de espaços para brincar, no terraço e nas ruas preenchidas, com uma mãe iletrada mas viva e corajosa, amiga de ir às compras para si ou para as vizinhas, uma vida ruidosa de que tem saudades, ao contrário da que vive agora, na casa bem mobilada, na Inglaterra de prédios muito iguais e uma muralha de silêncio e comedimento em seu redor, descontada a movimentação actual em torno de si, alcandorada ao estrelato da fama, o repisar constante nas saudades desse viver pobre mas preenchido e o contraste com o seu viver actual, de pequena heroína que mereceu a atenção universal pela sua assombrosa história, pela vivacidade que imprime às suas exigências de vida.

Transcrevemos ao acaso, da reportagem excelente de Paulo Anunciação:

 

 

OS DIREITOS DA MULHER: Em cidades do Paquistão como Lahore, Karachi ou Islamabad, as mulheres trabalham e assemelham-se às mulheres no Reino Unido ou na América. Mas no resto do Paquistão é muito diferente, com as mulheres a dependerem inteiramente dos homens nas suas famílias. Elas não têm acesso à educação, e mesmo as que conseguem ir à escola têm o futuro traçado. O papel principal da vida delas é casar, ter filhos e tomar conta da casa.. Não há alternativa ou hipótese de escolha. Quando fui a Karachi vi pela primeira vez o mar e fiquei muito feliz. Um mar sem fim, ninguém sabe onde acaba. Uma vez levámos a minha tia - irmã do meu pai – a ver o mar. Ela disse-nos que nunca o tinha visto. Vivia em Karachi há trinta anos, mas o marido nunca a deixara ver o mar. No meu país as mulheres dependem dos maridos, e isso é algo que eu quero mudar. Quero dizer ao mundo que as mulheres também são seres humanos. Não está escrito em lado algum que as mulheres devem depender dos homens. Queremos ser independentes, ter o direito de trabalhar, de tomar decisões, de ser livres.

 

IR À ESCOLA SEM MEDO: As escolas inglesas são muito boas, muito bem equipadas. Os professores usam computadores, enquanto no Paquistão usavam giz e um quadro negro. As ferramentas eram diferentes, mas o ensino no Paquistão era igualmente bom. Nas escolas de rapazes alguns professores usavam varas parta castigar os alunos mais atrevidos. Aqui não há castigos físicos. E as oportunidades para as mulheres são impressionantes. Podemos estudar o que quisermos e podemos ambicionar ser tudo o que quisermos sem medo de nada. Ir à escola sem medo passou a fazer parte da minha rotina diária. O medo, porém, é impossível de esquecer…. Aqui sou olhada como “Malala, a activista dos direitos das crianças, enquanto no Paquistão – apesar do meu envolvimento nessas áreas – era simplesmente Malala. Tenho a impressão de que aqui sou olhada unicamente pelo que represento, a Malala da face pública. Mas acho que isso vai mudar com o tempo.

 

EDUCAÇÃO: O meu pai costuma falar frequentemente sobre o direito à educação e serviu-me de inspiração. Quando os talibãs me proibiram de ir à escola, eu dei conta da importância da educação e comecei a pensar e a falar por mim e por todas as crianças. Ir à escola, ler, estudar, fazer os trabalhos não é um mero passatempo – é algo muito importante, é o nosso futuro. Quando vejo meninas que não podem ir à escola ou não têm comida, tenho vontade de chorar.

 

FUTURO: O meu objectivo é simples: a paz. O meu sonho era ver paz em todo o mundo. E a única forma de haver paz em todo o mundo é através da educação. O meu sonho não era ficar famosa ou receber tantos presentes e galardões. Gosto de Física, uma das minhas disciplinas preferidas, porque tem leis e verdade. Também pensei em ser médica. Mas agora quero ser política. A vida política está cheia de mentiras e mais mentiras. Quero dedicar a minha vida às pessoas e não interessa se alguém quiser matar-me. Os pobres não têm nada nas suas casas, não têm ruas, escolas ou hospitais, e eu vou explicar-lhes os direitos deles.

 

Uma rapariguinha sensível, que parece honesta, que vive o seu momento de celebridade. A juventude é generosa, e esta merece a fama pelo que sofreu, que lhe dá a possibilidade de defender os seus princípios de justiça.

 

Penso nos nossos, por cá, jovens e adultos, também impetuosos, a defender os seus direitos, para quem os do Governo são os talibãs que é preciso escorraçar, e nós as Malalas sofredoras. Os talibãs que querem impor regras, não fundamentalistas, é certo, mas de um certo bom senso para tentar compor o que tantos ajudaram a danificar. E prá-kys-tamos numa inércia de bons sentimentos, caldeados exclusivamente nos nossos direitos, nas nossas revoltas democráticas, num país de onde a indisciplina nas escolas, casada com a demagogia pretensiosa nas ruas ou nos media, não vai, certamente, ajudar na conquista de um melhor horizonte. Porque, como diz Malala, «a única forma de haver paz em todo o mundo é através da educação.»

 Berta Brás

IMPAGÁVEL AMIGO SINTO

 

 

Tinha o Sinto os seus onze anos quando, num dia de Sol, foi passear de mão dada com uma rapariguinha da mesma idade de quem muito gostava, para o porto de Palma de Maiorca. Iam ver o mar e os barcos, paixão que lhe vem de pequeno. Durante o passeio, a sua pequena amiga parou no pontão junto de um bonito veleiro e sugeriu que seria boa ideia meterem-se naquele barco e juntos partirem para dar a volta ao Mundo.

 

Com onze anos já o Sinto era bom velejador, consciente das suas limitações e da dificuldade que uma aventura dessas representava. Disse então à rapariga que ainda era muito novo para isso e que nem teria forças para largar as amarras dum veleiro daqueles. Fez, no entanto, a promessa de que enquanto fossem pequenos, dariam sempre em sonhos a volta ao Mundo um com o outro, mas assim que fossem grandes fariam a viagem de verdade. Estava prometido.

 

Cresceram, a rapariga transformou-se numa mulher formidável em todos os aspectos, com quem casou e de quem teve seis filhos.

 

No entanto, na altura própria, o Jacinto já não podia contar com a rapariga dos seus sonhos de menino. Tinha morrido. Mas como a promessa estava feita, embora noutras circunstâncias, inscreveu-se na regata cumprindo assim parcialmente a sua promessa de criança.

 

O que é de facto espantoso é que o Sinto, completamente cego há vinte e cinco anos, não se deixa de qualquer forma vencer pelas adversidades da vida, continua a ser um bom velejador e a navegar no seu barco com a ajuda de um dos filhos à volta do Mundo.

 

Conversa ao jantar em Puerto Ayora, Arquipélago das Galápagos, durante a regata de circum-navegação da Expo 98.

 

 Luís Vaz de Almada

 

 

In OITO MESES NO MAR, Luís Vaz de Almada – Ed. EXCALIBUR, 1ª edição 1998, pág. 71 e seg.

 

ÁRVORES



Vestem de verde
e sonham a fartura…

da sua pele se fazem
livros
e cadernos de ler
e de contar e navegam e descobrem
e conquistam
e seus troncos aventura
são de mar…
vestem de verde
e sonham a fartura
do abrigo, do pão
do seu abraço da construção dos ninhos
do descanso
dos novos passarinhos
do remanso
sombra e retempero
do cansaço.
Vestem de verde
e sonham a fartura
são acha e lume
quando o inverno dói
podem ser calor
mas são frescura
recebem de alguns
toda a ternura
e há quem as ame
com fervor…
vestem de verde
e sonham a fartura
sua presença
altiva, serena, pura
seu braço forte
são vida
para a humana criatura
desde o nascimento
até à morte!

 Maria Mamede

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