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A bem da Nação

ENCONTRO (Em Vigo)

File:Panorámica de Las Médulas.jpg

Vieste até mim
brisa
no cantar dos rouxinóis
e os campos do Bierzo
enfeitaram a paisagem
da minha aldeia
ao pé do mar…
vieste um dia
guitarra às costas
no descanso que o Trovador
merece
depois de findas as lutas
da palavra
quando a palavra já pode
ser pão e pousio e canto…
vieste, flor na boca
boina Basca ao lado
e cantavas cantigas de
amar…
ah meu Amigo-Trovador
vieste
e em ti pousaram as musas

da tua terra, campo e monte
e da minha aldeia
a poente
onde a casa é o colo
onde sossegam marinheiros…
vieste
e a tua guitarra foi lança
que D. Quixote levantou
em meu peito
e Camões transformou
em epopeia…
e dedilhando cantigas
deixaste em mim
as mãos de Rosalia  
e os poemas de Federico…
os rouxinóis te trouxeram
e levaram
e as rolas da minha aldeia
me oferecem hoje
a beleza do encontro!

 Maria Mamede

ESTÁ TUDO LIGADO


A democracia é uma ideia que nasceu na Grécia há milhares de anos. Ao longo dos séculos e milénios, a ideia original perdeu-se, como provam as manifestações contemporâneas do processo democrático. Na Grécia antiga,  só os Sábios da sociedade podiam votar e determinar o curso da acção do governo em prol do bem público. Hoje em dia temos o direito de voto universal, e muito bem, mas negamos aos votantes a oportunidade de uma educação completa. O mundo político dos nossos dias só é moderno nas suas manifestações exteriores; a tecnologia veio tornar a comunicação muito mais eficiente, o que, infelizmente, resultou numa exploração e manipulação da população que não teve educação.

 

Na nossa sociedade, o eleitor médio não é versado em nenhuma das artes ou ciências – que eram, no pensamento grego, absolutamente essenciais para qualquer compreensão do que é governar – e não é capaz de pensar para além do presente e do futuro imediato para compreender cabalmente as consequências da acção política. O resultado é uma sociedade duplamente pobre, em que os políticos são obrigados a agir tacticamente em vez de estrategicamente para continuar no Poder o tempo suficiente para fazer algumas mudanças e a opinião pública é ignorante no que toca às questões mais essenciais.

Um dos aspectos mais importantes do pensamento político é a faculdade de usar a estratégia para alterar o estado de coisas, um pouco à semelhança de um compositor que estrategicamente constrói a sua composição, começando por apresentar o material e só depois o transformando. Também um executante tem de ser capaz de ouvir a última nota de uma peça no seu ouvido interno antes tocar a primeira; para isso tem de criar a sua própria realização física da partitura – termo que prefiro a interpretação, palavra de que se usa e abusa – em moldes estratégicos e não tácitos, agindo em vez de reagir. A abordagem táctica está sempre sujeita à reacção do executante aos elementos harmónicos, rítmicos e melódicos à medida que eles vão surgindo, e não pode resultar na construção de um todo orgânico feito de todos estes elementos. Só um executante que pensa estrategicamente é capaz de comunicar a estrutura de uma peça musical a quem o escuta, e não apenas os diferentes humores que ela contém.

Atingir a verdadeira liberdade e espontaneidade como executante é como alcançar o domínio dos nossos pensamentos, segundo os princípios de Espinosa. Tal como é fácil confundir o direito a pensar livremente com liberdade de pensamento, também é possível um executante sentir espontaneidade na sua execução quando a verdade é que está limitado pela tendência para reagir às incidências musicais à medida que elas ocorrem.

 

  Daniel Barenboim
 
in Daniel Barenboim, “Está tudo ligado: o poder da música” (2009), pág. 61 e seg. Ed. Bizâncio.

NÃO HÁ PAI

 Ficheiro:Government-Vedder-Highsmith-detail-1.jpeg

 (*)

 

Sempre me pareceu verdade de tipo axiomático – incontornável, adjectivo mais ao jeito de agora – a ideia de que era ao Estado, entidade abstracta, por intermédio dos seus governantes concretos, que competia zelar pela educação dos cidadãos do país a que esse Estado pertencia. Havia colégios, nos meus tempos, mas os alunos desses colégios tinham que se submeter às mesmas provas “nacionais”, para terem direito a singrar pelas mesmas vias de ascensão por etapas, segundo a vida evolutiva de cada um, embora sem descurar as excepções dos que em todos os tempos singram mais pela competência alheia.

 

Era, pois, ao Ministério da Educação, organismo do Estado, que competia a organização da rede escolar, dos quadros de professores, dos exames nacionais e tudo o mais que assentava nos tais postulados de responsabilidade e gestão escolar. Tal tessitura organizativa não obstava a que outros organismos particulares fossem contribuindo para o desenvolvimento social, pelo desporto, pelo concurso, pelos jogos didácticos estimulantes, como vemos em todos os países.

 

O 25 de Abril liberalizou um pouco o esquema de rigidez donde provínhamos. Lembro-me de que, em 74/75, chegada de África, na avalanche, tive a sorte de trabalhar como professora de Português e de Francês, em curso particular na escola onde posteriormente leccionei. Era um curso organizado à pressa, à noite e nos sábados à tarde, para os alunos que quisessem fazer, em um ano, os três anos do curso geral ou os dois do complementar para efeito de progressão nas suas carreiras. Lembro, entre outros alunos, os professores primários que desejavam obter, pela licenciatura, o mesmo estatuto dos professores secundários, terminologia já obsoleta.

 

Foi um êxito aquele ano de 75, para os meus alunos, pois não houve uma única reprovação, tanto em português como em francês. Era trabalho sério, os objectivos definidos por gente responsável, eu ganhava 5 contos mensais, precioso auxílio do vencimento de África.

 

Nunca percebi como pôde ser emprestado provisoriamente – só durou esse ano – o edifício escolar a pessoas que sempre admirei como beneméritas, pois possibilitaram que muita gente, anquilosada nos seus trabalhos, singrasse a partir daí para novos horizontes.

 

Entretanto, com o 25 de Abril houve um renovar de entusiasmo para a formação pedagógica e muitas foram as transformações sofridas pelo ensino que os manuais escolares traduziram esplendidamente, de forma a melhor orientar alunos e professores, com as propostas de trabalho e preparação neles contidas, estudos condicionados, é certo, pela indisciplina, que a abertura democrática dos sucessivos governos elegeu como bandeira da sua liberdade.

 

A par desses factos, houve a fundação de mais colégios e universidades particulares, no entusiasmo tão positivo de abertura para a formação superior. Em muitos casos, é certo, com histórias de escândalos em espaços desses, cujos donos aproveitaram os dinheiros de empréstimo para fins menos esclarecidos, segundo o costume. Lembro uma pessoa de família a quem uma dessas universidades falidas ficou a dever milhares de contos – euros – de uma docência vilipendiada, como coisa dos nossos hábitos progressivamente inflacionada.

 

Mas o Estado responsável, o Estado pai, segundo axioma das mentes atávicas, resolve, ao que parece, alijar mais esta sua tarefa de responsabilidade, “vendendo” o Ensino a particulares, indiferente ao que pode suceder, com tais medidas, a uma pátria que já nem isso parece, onde patrões exploram como nunca se viu, onde as dívidas ficam por saldar, onde se usam truques diversos para enganar, onde os desempregados se aglomeram para o subsídio de desemprego, onde cada um se desenrasca como pode e chora a bom chorar, onde a Justiça parece não existir…

 

O Ensino… E que vai suceder aos professores e aos seus direitos, se os novos estabelecimentos de ensino particular procurarem os professores segundo as suas conveniências ou amizades, sem o controlo superior de um Estado de Justiça? Que vai suceder aos alunos recém-formados, se deixarem de entrar para as listas controladoras dos seus direitos de formação e tempo de serviço?

 

Tanto que se pode dizer! Mas outros o dirão melhor.

 

 Berta Brás

 

(*) Visão de Governo através da obra Government de Elihu Vedder. Na placa do chefe (centro) pode-se ler "Um governo das pessoas, pelas pessoas, para as pessoas", in Wikipédia

ODE



Manhã
tão bela manhã, cálida, serena
em tudo igual
à que viu nascer o mundo
meu olhar relembra o mar
profundo
e a terra que o Sol coroa
em diadema… tão bela manhã, mansa, delicada
como corola de flor
que extasia
manhã beleza, mal nasce
inebria
com perfumes que a brisa traz…
manhã calmaria
Senhora dum tempo
a estrear
dum tempo que pousa
devagar
seus passos firmes no caminho
e que me faz pensar
noutras manhãs, antes de mim
noutras
assim serenidade, assim calma
como as que sinto dentro
de minh’ alma;
ante ti, meu ser se prostra
contemplativo, extasiado e mudo
ó manhã promessa
princípio e fim de tudo!...

 Maria Mamede

A CLONAGEM

Discurso proferido pelo Professor Doutor Engenheiro Miguel Mota aquando da atribuição do grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora

 

 

 

Como sabemos, durante muitos milhões de anos a vida na terra apenas conheceu a reprodução assexuada. Os organismos, todos constituídos por uma única célula, replicavam o seu código genético - uma molécula de DNA - para poder fornecer à célula filha uma cópia exacta, as duas moléculas, a antiga e a nova, separavam-se, e a célula dividia-se em duas, passando a existir dois organismos, com códigos genéticos absolutamente idênticos.

 

Este processo era excelente para a perpetuação da espécie e a manutenção das suas características principais. A variação dentro da espécie era limitada às mutações ocorridas no código genético do organismo ou a eventuais erros na replicação desse código. Esses

acontecimentos eram raros, mesmo se nessa altura fossem mais abundantes os agentes mutagénicos, tais como radiações ionizantes ou alguns compostos químicos.

 

Se isso era uma vantagem para assegurar a manutenção das espécies com as suas características principais, tinha o inconveniente de tornar muito difícil a evolução, dada a muito baixa variabilidade genética dos organismos, para que sobrevivessem os mais aptos. E por imposição das alterações nas condições naturais, como as climáticas, que estavam em constante mutação, muitas espécies desapareceram por não haver indivíduos com capacidade de adaptação.

 

Deve ter sido para conseguir maior variabilidade genética que a natureza decidiu proceder a recombinação genética entre organismos e inventou o sexo.

 

O processo começou de forma tímida. Duas bactérias encostavam-se uma à outra e uma delas passava para a outra pelo menos uma parte do seu DNA.

 

Esse passo foi ampliado por três outras alterações cujo modo como se processaram também é muito mal conhecido:

 

- o aparecimento dos organismos eucarióticos;

- a passagem de organismos haplóides a diplóides, possivelmente pela fusão de duas células haplóides;

- e a associação de organismos unicelulares para virem a formar organismos pluricelulares.

 

Também apareceram novas funções, entre as quais avultam a fotossíntese (que permitiu que a atmosfera passasse a ter oxigénio, que anteriormente não possuía), a fixação do azoto e outras.

 

A evolução do processo reprodutivo sexuado (ou seja, da reprodução sexuada) prosseguiu até se chegar, em formas avançadas, ao dimorfismo sexual, em que, na mesma espécie, alguns organismos só produzem gâmetas masculinos e outros apenas gâmetas femininos, tanto em espécies vegetais como animais.

 

Mas a natureza não abandonou a reprodução assexuada. Ela continua a existir, muitas vezes na mesma espécie em que também há reprodução sexuada, pois tem a enorme vantagem de ser a única forma de perpetuar, na descendência, um genótipo heterozigótico. E quando o homem deseja, para sua conveniência, reproduzir uma planta heterozigótica, é à reprodução assexuada que recorre. Se ela não existisse era praticamente impossível à agricultura reproduzir integralmente uma pereira ou uma videira que dão frutos de alta qualidade, pois os seus descendentes por via sexuada, a partir das sementes, mostrariam a enorme variabilidade que é consequência da sua heterozigocidade, num xadrez mendeliano de enormes proporções.

 

A reprodução assexuada é, pois, muito velha. Mas o conceito de CLONE só recebeu esse nome em 1903 - fez recentemente cem anos (um século) - quando o agrónomo americano Herbert J. Webber, num artigo na "Science", propôs esse nome para "um conjunto de organismos derivados dum único por reprodução assexuada". Qualquer engenheiro agrónomo ou qualquer agricultor medianamente informado sabe que quando se fala do "clone X" da oliveira 'Galega' ou do "clone Y" da videira 'D. Maria' se está a falar dum grupo restrito de organismos dessas variedades que foram obtidos a partir dum único de qualquer delas, por reprodução assexuada.

 

Quando uma variedade duma espécie vegetal foi cultivada durante anos e em condições de meio diferentes, foi sendo submetida a uma pressão de selecção suficiente para que lhes passemos a encontrar diferenças genéticas. Por isso a selecção clonal, uma das mais simples formas do Melhoramento de Plantas, é a primeira ferramenta a usar no melhoramento de variedades com boas características e que foram cultivadas em diferentes condições de meio ambiente durante bastante tempo. A pequena mas significativa variabilidade (agora gostam de lhe chamar biodiversidade) que encontramos, dentro da mesma variedade, permite rapidamente a eleição de clones mais valiosos.

 

Para as pessoas mais ligadas à medicina eu costumo lembrar que a variedade está para o clone como os anticorpos policlonais estão para os anticorpos monoclonais. O nome de anticorpos monoclonais, aliás, foi-lhes dado por analogia com o correcto conceito de clone, pois são derivados duma única célula.

 

Como vemos, "clone" é um substantivo colectivo. Assim como nenhuma pessoa é "família", nenhum organismo isolado é "clone". Mas esse disparate, filho da ignorância, mesmo de quem tinha obrigação de não o cometer, é um dos erros que vemos pelo mundo e, naturalmente, também em Portugal. É bom que seja corrigido.

 

A propósito, um outro erro generalizado é a ideia de que todos os membros dum clone (os ignorantes dizem "todos os clones") são exactamente iguais. Não é exacto e um simples exemplo chega para o demonstrar. Se eu chegar a uma oliveira 'Galega' que escolhi por dar excelentes e muitas azeitonas, e cortar dez estacas e as plantar, obtenho um clone. À planta donde obtive essas estacas chamamos "cabeça de clone".

 

Mas se cinco dessas estacas forem plantadas num terreno muito fértil e bem regadas sempre que necessário, e as outras cinco num terreno muito pobre e sofrendo períodos de seca, esses dois grupos de árvores, embora possam manter umas características semelhantes, pois têm o mesmo código genético, serão bem diferentes em arborescência e até na sua produção. É que nas cinco árvores em condições de meio adversas, o seu código genético não pôde exprimir-se plenamente por o meio ambiente não lhe ter fornecido os materiais e as condições necessárias a que ele se pudesse exprimir na sua plenitude. Por vezes as pessoas esquecem-se que o código genético é apenas um "código", como o projecto duma casa. É o meio ambiente que deverá fornecer as condições e os materiais necessários à formação do organismo. Se faltar algum deles não será o código capaz de os fornecer.

 

Esta reprodução assexuada, que é fácil em muitas espécies vegetais, ainda não foi possível conseguir em mamíferos. Duma cultura de células vegetais é possível obter uma planta completa. Mas ainda ninguém foi capaz de obter um ratinho, uma cobaia ou um ser humano duma cultura de fibroblastos.

 

É um facto que também existe nos mamíferos, incluindo o homem, reprodução assexuada. É o que sucede na formação dos gémeos uniovulares ou gémeos idênticos. Um dos casos mais famosos ocorreu em 1934, no Canadá, quando a senhora Dionne deu à luz cinco gémeas uniovulares. Essas cinco meninas, Cécile, Annette, Emilie, Marie e Yvonne, constituíam um clone. Mas não com a mãe Dionne, pois a reprodução assexuada - divisões sucessivas do embrião - só aconteceu depois da reprodução sexuada que levou à fecundação do óvulo. A senhora Dionne não é a "cabeça de clone" das cinco gémeas.

 

A impossibilidade, até ao presente, de conseguir reproduzir um adulto a partir de algumas das suas células somáticas levou alguns cientistas a tentarem uma aproximação. A investigação realizada ao longo de algumas dezenas de anos tinha já fornecido ferramentas necessárias ao trabalho que pretendiam. A cultura de células e tecidos, após uma fugaz tentativa por Haberlandt, desenvolvera-se em grande escala a partir dos trabalhos de Alexis Carrell em 1910, durante alguns anos quase só com células animais. As culturas de células vegetais, que tiveram em Roger Gauteret, Philip White e outros os seus pioneiros, embora começando mais tarde, em breve as ultrapassavam e conseguiam o que as células animais não conseguiram ainda hoje: duma célula somática em cultura obter um organismo completo.

 

Na década de 1950, com os trabalhos de Briggs e King, desenvolveram-se as técnicas de transplantar núcleos dumas células para outras. Seguidamente, vêm as técnicas que permitiram fundir duas células somáticas até de organismos de espécies diferentes.

 

Diga-se de passagem, estas técnicas fizeram nascer esperanças, que até ao presente, ainda se não concretizaram, de conseguir por hibridação somática, alguns cruzamentos, impossíveis por via sexuada, que permitissem obter organismos combinando as boas características de duas ou mais espécies diferentes. É claro que o resultado também poderia ser um organismo com as más qualidades de cada uma delas.

 

A propósito desta possibilidade, costumo lembrar uma história, que não sei se é verdadeira, que se conta de Bernard Shaw, quando uma famosa e formosa artista de então lhe propôs terem um filho. Dizia ela como seria excelente dar origem a um ser com a beleza dela e a inteligência dele. Diz-se que Bernard Shaw recusou, dizendo que não queria correr o risco do filho ter a beleza dele e a inteligência dela.

 

A impossibilidade de obter um novo indivíduo a partir duma ou algumas células somáticas dum mamífero adulto, levou alguns cientistas, como disse, a tentarem uma aproximação.

 

Como do óvulo fecundado dum mamífero se obtém diferenciação num organismo adulto, resolveram substituir o seu núcleo pelo núcleo duma célula somática dum outro animal da mesma espécie. O caso é bem conhecido, pois foi muito divulgado por jornais e revistas.

 

Com células da glândula mamária duma ovelha fizeram uma cultura em meio artificial.

 

Duma outra ovelha obtiveram um óvulo e extraíram-lhe o núcleo, onde reside a grande maioria dos genes dum organismo. Com esse óvulo sem núcleo fundiram uma célula somática da cultura proveniente da glândula mamária da primeira ovelha. Depois, mantiveram esse óvulo a que tinha sido adicionada a célula somática em cultura e conseguiram que ele vivesse e sofresse algumas divisões, como qualquer embrião normal.

 

Esse embrião foi depois introduzido no útero duma terceira ovelha, onde se desenvolveu normalmente e assim nasceu a Dolly.

 

As dificuldades da técnica são grandes, ao contrario do que se podia imaginar a partir da minha simples descrição. Os autores deste brilhante e muito meritório trabalho científico fizeram um elevado número de experiências semelhantes que não tiveram êxito. Mas isso  é o normal em muitos trabalhos de investigação científica e abriu as portas às muitas experiências semelhantes, com espécies diferentes. Sem tirar mérito ao trabalho científico não posso deixar de assinalar o erro de chamar "clonagem" a este processo, para já não falar no erro de chamar "clone" à Dolly. No óvulo sem núcleo a que foi adicionada a célula somática, continuaram a existir mitocôndria, que também contêm DNA e, portanto, genes. E sabemos como alguns desses poucos genes mitocondriais podem ser importantes. Algumas deficiências genéticas em seres humanos são da responsabilidade de mutações nos genes mitocondriais.

 

A investigação que levou à obtenção da Dolly fez disparar pelo mundo trabalhos semelhantes e já foi aplicada a mesma técnica em muitas espécies de mamíferos. Estes estudos também têm contribuído para aperfeiçoar as técnicas de reprodução medicamente assistida na espécie humana. Alguns levantam problemas e consideram que não se devia continuar nestas linhas de trabalho.

 

Os enormes avanços das técnicas de reprodução medicamente assistida, que mesmo na espécie humana já entrou na rotina, com a fecundação in vitro e as outras modalidades a serem largamente utilizadas, dizem-nos que aplicar a esta espécie o que começou com a Dolly e já foi realizado em muitos outros mamíferos, não oferece dificuldades de concretização, salvo as que resultem de considerações de ordem ética ou moral.

 

A ciência foi durante muitos séculos a actividade dum reduzido número de pessoas.

 

Nela se destacavam ocasionalmente nomes excepcionais, como Euclides e Pitágoras ou Leonardo Da Vinci. Começou a desenvolver-se mais no Século XIX mas foi no Século XX que se deu uma verdadeira explosão dessa actividade. Podemos, por isso, considerar o Século XX como o século da ciência, em todos os seus campos.

 

A Genética, embora tenha sido concebida ainda no Século XIX, teve uma longa "gestação" e só apareceu à luz no começo do Século XX e desenvolveu-se fulgurantemente durante esses cem anos, a um ritmo que não abranda neste início do Século XXI.

 

A ciência agronómica e a ciência médica, ao mesmo tempo que davam uma enorme contribuição para o desenvolvimento da Genética, aproveitavam-na de forma intensa, uma para alimentar a humanidade e a outra para dar ao Homo sapiens uma vida média mais longa e com melhor qualidade.

 

Não é visível, no horizonte humano, um abrandamento da investigação científica, que vai continuar a dar ao homem benefícios imensos, aumentando os nossos conhecimentos em todos os seus campos. É que tudo indica que, apesar desses conhecimentos serem já vastos, o universo do que não sabemos é, certamente, muito maior.


 Miguel Mota

 

 

VÁRIOS

DESCANSANDO AS MENINGES

 

Vamos “brincar” mais um pouco com a origem das palavras. Mesmo que se perca um pouco de tempo, parece que vale a pena.

 

GRAVATA – A origem da palavra é francesa: cravate, uma corruptela do nome croate. Os Luises XIII e XIV tinham uma guarda pessoal dos Royale Croate, um regimento de cavalaria composto por mercenários croatas. Seu uniforme era composto por uma cinta de pano vermelho enrolada no pescoço, que passou a ser chamada de croate pelos franceses. Origem eslava Hravt.

 

TRABALHAR – Do latim tripaliare, “torturar com tripaliu”, sendo tripaliu um instrumento de tortura formado por três pés, usado para os cavalos que não se deixavam ferrar. (Uma tortura... trabalhar, ainda hoje).

 

POLICIA – De politia, administração pública. Do grego politeia, arte de governar a cidade. De polis.

(Exemplo máximo disto é a polícia no Brasil!)

 

EL –Do latim ille, que deu, por exemplo El-Rei

 

ELE – Idem.

 

ELITE – Do francês élite, do latim eligere, escolher, seleccionar, apartar.

 

ETIQUETA – Do francês étiquette, antigo estiquier recebido do holandês e alemão stiken. Ligar, prender, mais tarde, por exemplo “memória com a lista das testemunhas” ou “pequena indicação escrita colocada nos objectos para os reconhecer” e ainda “cerimonial da corte” onde as etiquetas tinham que estar em determinada ordem.

 

SUCATA – Do árabe sucaTâ, o que cai ou sai de qualquer coisa; objecto sem valor.

 

E UM POUCO DE HISTÓRIA DA MÚSICA.

 

Em 1741 houve uma fome terrível na Irlanda, enchendo as ruas de Dublin com doentes. As enfermarias do Charitable Infirmary no Inns Quay and Mercer’s Hospital não podiam receber mais pacientes. Dinheiro era necessário, com urgência.

Um magnífico Music Hall acabara de ser aberto pela Charity Musical Society, e esta sociedade lembrou-se de convidar o grande músico Georges Frederich Händel (1685-1759) para dar uns concertos com fins caritativos.

 

 

Apesar das grandes obras já conhecidas, os seus últimos Oratórios, Saul, Israel in Egypt e L'Allegro, Il Penseroso e Il Moderato, tocados em Londres, tinham feito pouco sucesso e ele atravessava graves dificuldades financeiras. Além disso estava a trabalhar num outro Oratório, o Messias, composto com passagens seleccionadas das Escrituras pelo seu amigo Charles Jennens. Händel preferiu apresentar este novo trabalho a outra audiência que não fosse à dos críticos de Londres, e aceitou o convite para ir a Dublin.

Inaugurou com a nova obra, Messias, que foi um estrondoso sucesso, e tocou ainda outras, como L’allegro, que foi igualmente muito bem recebida.

 

http://www.youtube.com/watch?v=AZTZRtRFkvk

Escreveu dali a seu amigo Jennens:

“A música soa deliciosamente nesta encantadora sala... Eu executei no meu órgão com sucesso mais do que o habitual. Não consigo expressar suficientemente o tratamento gentil que recebo aqui; mas a delicadeza desta generosa nação não pode ser desconhecido por você.”

Dois anos depois regressa a Londres, onde o êxito dos seus concertos o haviam precedido, e a partir daí a crítica foi-lhe sempre favorável. Compôs ainda uma grande quantidade de obras que hoje são consideradas sublimes, entre elas a Fireworks Music, uma suíte orquestral. Finalmente suas finanças se estabilizaram.

 

 

05/11/2013

 

 Francisco Gomes de Amorim

MAQUIAVELISMO

 

 

É de Ricardo Araújo Pereira o texto que segue, que me chegou por email. Um texto sob forma epistolar, falsamente bonacheirão, como é seu hábito de escrita, de afirmações drásticas de aparente apoio ao “Príncipe” PM, segundo os preceitos defendidos por Maquiavel, de que os fins justificam os meios, como orgânica de apoio ao poder absoluto dos reis.

 

E assim, a política governativa contra os velhotes, que são um peso social, sobretudo a partir da reforma e da doença, é aparentemente elogiada, acrescentando-se-lhe ainda provocadoramente, outras normas de exagero absurdo, como o prolongamento da idade de reforma para os oitenta e cinco anos, ou a sua exportação ou exposição fora da pátria, como produtos típicos do nosso fabrico interno.

 

Um artigo tendente a atrair a simpatia dos “velhotes”, que se sentirão acarinhados por um menino inteligente e bom, pois logo percebem quanto as verdades de Araújo Pereira - sobre o “estorvo” que eles representam, com os vencimentos do prolongar de vidas inactivas e com a comparticipação estatal nas “drogas” do seu “estatuto” vivencial - são verdades de mentira, beijos de carinho para eles, mártires escorraçados, pedradas para a arrogância do “Príncipe” que os despreza e arruma na gaveta dos trapos imprestáveis.

 

Não me parece honesto o ataque a um Governo, que as forças “maquiavélicas” dos bondosos da demagogia se esforçam por todos os meios de demolir, só porque aquele se esforça por pôr a casa em ordem, repondo dinheiros que nos não pertencem. Governo de dureza, que não tem outro remédio senão atacar o bolso dos “comilões” que outros governantes, movidos pela agressividade e exigência contínua das forças do protesto - segundo os parâmetros de uma democracia não de princípios de respeito e ordem, mas apenas de arruaça e reivindicação - permitiram que fôssemos todos, como se viu e se vê ainda, nas estradas percorridas a passo, por filas de automóveis do nosso bem-estar, nos supermercados razoavelmente percorridos de compradores, e em outras manifestações dos nossos gozos materiais.

 

Diz-se que a balança comercial está a erguer-se, que as exportações aumentam, que o desemprego começa a diminuir, mas são dados que se ignoram, pois na verdade o Governo continua a cortar nos vencimentos como forma de sair da crise e duma Troika penalizadora.

 

O Governo mente, é o estribilho, faça-se a greve para pressionar e dificultar mais a vida do Governo, e de toda a gente, afinal. O Governo não merece apoio, merece a troça dos maquiavéis inteligentes, vejamos o “Um Parecer” de Ricardo Araújo Pereira, que nos permite continuar na vitimização e no choradinho com que nos distinguimos, no mare magnum da nossa idiossincrasia tradicional:

 

 

Caro Sr. primeiro-ministro,

 

O conjunto de medidas que me enviou para apreciação parece-me extraordinário. Confiscar as pensões dos idosos é muito inteligente.

 

Em 2015, ano das próximas eleições legislativas, muitos velhotes já não estarão cá para votar. Tem-se observado que uma coisa que os idosos fazem muito é falecer. É uma espécie de passatempo, competindo em popularidade com o dominó. E, se lhes cortarmos na pensão, essa tendência agrava-se bastante. Ora, gente defunta não penaliza o governo nas urnas. Essa tem sido uma vantagem da democracia bastante descurada por vários governos, mas não pelo seu. Por outro lado, mesmo que cheguem vivos às eleições, há uma probabilidade forte de os velhotes não se lembrarem de quem lhes cortou o dinheiro da reforma. O grande problema das sociedades modernas são os velhos. Trabalham pouco e gastam demais.

 

Entregam-se a um consumo desenfreado, sobretudo no que toca a drogas. São compradas na farmácia, mas não deixam de ser drogas.

 

A culpa é da medicina, que lhes prolonga a vida muito para além da data da reforma. Chegam a passar dois ou três anos repimpados a desfrutar das suas pensões. A esperança de vida destrói a nossa esperança numa boa vida, uma vez que o dinheiro gasto em pensões poderia estar a ser aplicado onde realmente interessa, como os swaps, as PPP e o BPN. Se me permite, gostaria de acrescentar algumas ideias para ajudar a minimizar o efeito negativo dos velhos na sociedade portuguesa: 1. Aumento da idade de reforma para os 85 anos. Os contestatários do costume dirão que se trata de uma barbaridade, e que acrescentar 20 anos à idade da reforma é muito.

 

Perguntem aos próprios velhos. Estão sempre a queixar-se de que a vida passa a correr e que 20 anos não são nada. É verdade: 20 anos não são nada. Respeitemos a opinião dos idosos, pois é neles que está a sabedoria. 2. Exportação dos velhos.

 

O velho português é típico e pitoresco. Bem promovido, pode ter aceitação lá fora, quer para fazer pequenos trabalhos, quer apenas para enfeitar um alpendre, um jardim. 3. Convencer a artista Joana Vasconcelos a assassinar 2.500 velhos e pô-los em exposição no MoMa de Nova Iorque. Creio que são propostas valiosas para o melhoramento da sociedade portuguesa, mantendo o espírito humanista que tem norteado as suas políticas.

 

Cordialmente,

 

Nicolau Maquiavel

 

 Berta Brás

O VOO DO ANJO


 

Sobre tema de Astor Piazzola

 

http://www.youtube.com/watch?v=bbdakZjHTys



Se eu fosse capaz de te dizer
como um Anjo voou
pelos céus da Argentina
e bateu asas ao ritmo da Milonga
com o seu nome
que Astor lhe ofereceu
Se eu fosse capaz de te falar
da nostálgica mágoa
que me fez sentir
serias capaz de imaginar
o tamanho
da encantadora ternura
que me ficou na alma!...

 Maria Mamede

 

A EUROPA CONCORDA COM SALAZAR

 

 

Salazar, talvez por ter visto o que foi o parlamentarismo português nos 16 anos após a implantação da República, que levou o país a uma situação quase tão má como a que vivemos em 2013, decidiu que a Assembleia Nacional não deveria ser um poder legislativo independente do executivo, mas apenas um areópago para aprovar o que o Governo decidisse. Cometeu o ''erro'' de deixar qualquer cidadão candidatar-se a deputado e viu-se “obrigado” a pôr variados entraves às  eleições, não fosse o caso de irem para a Assembleia Nacional alguns deputados ''inconvenientes''.

 

Os que fizeram a actual Constituição tiveram o cuidado de evitar esse risco e, pura e simplesmente, proibiram os cidadãos de se candidatarem e só os autorizam a 
votar nas listas (com ordem fixa e imutável!) elaboradas, tão ditatorialmente como as da antiga União Nacional, pelas chefias dos partidos, os actuais ditadores. E, assim, há a certeza de que não estará na Assembleia da República qualquer deputado ''inconveniente''. Com essa garantia, pode deixar-se o povo protestar à vontade. As pessoas vão para casa satisfeitas porque puderam protestar e, por essa razão, pensam que estão em democracia. A outra é que era ditadura, que nem as deixava protestar!

A Europa pretende que o parlamento - o antigamente ''legislativo'' - seja apenas um carimbo para dizer ''Aprovado'' a tudo o que o governo desejar. (Ver “Onde está o Legislativo?”, Público de 20 de Agosto de 2013).

 

Como nos outros países da Europa os cidadãos  ainda têm eleições mais ou menos livres - Portugal está mais “adiantado”... - quando Merkel ganhou as eleições sem o seu partido ter maioria absoluta, vinha nos jornais a pergunta ''com quem ela irá governar?'' Na Europa, se o governo não tem o parlamento ás suas ordens, considera-se que o país é ''ingovernável''. Era essa, precisamente, a opinião de Salazar.

Miguel Mota

 

Publicado no Público de 1 de Novembro de 2013, com o título alterado para “A Europa e Salazar”

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