Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

 

SOL DE INVERNO

 

 

Ele – O Senhor dá-me licença que passe por aqui para ir para a mesa do canto?

Eu – Com certeza, deixe-me só afastar um pouco a minha mesa para que passe à sua vontade.

Ele – Muito obrigado, Cavalheiro. É tão bom estar aqui a tomar um café... Pronto, já cá estou no meu canto do costume. Obrigado pelo “direito de passagem” que me concedeu.

Eu – Por quem é... Sim, é exactamente para isso que também aqui estou: tomar um café e apanhar este Sol de Inverno...

Ele – Isso do «Sol de Inverno» era uma música dos tempos da outra Senhora...

Eu –... cantada pela Simone de Beauvoir.

Ele – De Oliveira, quer o Cavalheiro dizer.

Eu – Mas olhe que era de muito beau voir.

Ele – Sim, tem toda a razão! De muito beau voir.

Eu – Mas também lhe digo que preferia vê-la a ouvi-la. Tinha assim como que uns «arranques sonoros» que me apanhavam desprevenido e me feriam as orelhas.

Ele – As orelhas? Muito bem, sejam as orelhas. Eu seria capaz de referir o interior das ditas.

Eu – Ressoavam-me por todo o pavilhão acústico até aos recônditos dos tímpanos e dos martelos. E para marteladas, prefiro os tímbalos da orquestra do S. Carlos.

Ele – Assentemos, pois, na Simone de beau voir, mieux que d’écouter.

Eu – Sim, fica melhor assim com todos os apelidos. É mais heráldico, como o porte dela, soberbo.

Ele – E que me diz do rio?

Eu – Hoje está que parece uma aguarela do Tomás de Mello.

Ele – Lindíssimo! «Nem uma agulha bulia...».

Eu – Pela citação de Augusto Gil a propósito das aguarelas do Tomás de Mello vejo que não perde tempo com jornais de escândalos nem de facas e alguidares.

Ele – Nem por osmose sei o que esses dizem... Entretenho-me aqui a apanhar este Sol morno a ler um ou outro livro.

Eu – Também trago sempre um livro.

Ele – E que está a ler?

Eu – Olhe! Um livro do Professor Fernando Olavo publicado em 1941 sobre o João das Regras. Escrito para leigos, de leitura fácil, do mais interessante que tenho lido sobre a História de Portugal. Explica muito bem como se fez a transição da Justiça medieval para a da Renascença e, sobretudo, as Cortes de 1385 em Coimbra onde D. João I foi eleito rei.

Ele – A crise de 1383-85 foi um período muito complicado. É por causa dessas e doutras que sou levado a crer que desta de agora nos havemos de safar mais facilmente do que dessas vezes.

Eu – Ah! Sim, de certeza!

Ele – E tem aí alguma matéria que o Cavalheiro não conhecesse?

Eu – Ui! Tantas...

Ele – Posso saber uma?

Eu – Sim! Eu nunca tinha ouvido falar de Diogo Afonso Mangaancha e muito menos da lição que ele deu ao célebre Nicolau de Cusa em Bolonha perante o Papa Eugénio IV em que a assembleia ali reunida no rescaldo do encerramento abrupto do Concílio de Basileia aprovou a tese do nosso compatriota segundo a qual o poder pontifical se sobrepõe às decisões conciliares.

Ele – E o Professor Olavo explica as teses?

Eu – Pois não. É uma pena. Mas o livro ficaria por certo muito pesado se ele transcrevesse a acta dessa sessão que deve estar algures nos Arquivos do Vaticano.

Ele – Também eu nunca tinha ouvido falar desse Manga Larga. Parece a raça brasileira de cavalos.

Eu – Se for à Internet vai encontrar Mangancha em vez do original com dois «aa».

Ele – E mais quê de novidades?

Eu – Toda a argumentação de João das Regras nas Cortes de Coimbra. Sublime. E a actuação do Governo saído da revolução de 1383 com D. Lourenço Vicente da Lourinhã, Arcebispo de Braga, a coordenar a defesa de Lisboa aquando do cerco castelhano e as medidas tomadas para a reposição de níveis de conforto no Erário Público.

Ele – Caramba! Isso deve ser importantíssimo para os dias que correm hoje.

Eu – Importantíssimo não será porque os tempos são mesmo outros mas muito interessante, sim.

Ele – Está-se mesmo a ver que já então foram os ricos a pagar a crise.

Eu – Os nobres tinham fugido para Alenquer com a rainha deposta, Leonor Teles, levando mesmo o pouco que restava do tesouro régio. Os nobres que ficaram pouco ou nada tinham mas a política seguida foi de cunhagem de moeda por fundição do ouro e da prata que o clero foi buscar às igrejas, irmandades e confrarias. Há particularidades interessantíssimas. Quer que lhe leia um pouco?

Ele – Sim, sim, por favor!

Eu – Começa aqui a meio da página 93: «O primeiro foi o problema do dinheiro. Importava descobrir novas fontes de receita. (...) a leal colaboração do Município de Lisboa facilitou a acção do Governo. O Município cedeu-lhe logo as cem mil libras que pagavam de moradia os judeus e os mouros, que lhe emprestaram, além disso, setenta marcos de prata. Em nome do Mestre de Aviz foi dirigido um apelo a todas as pessoas da cidade para contribuírem, por empréstimo, para a defesa nacional, ao mesmo tempo que se dava ordem para ser apreendido todo o dinheiro que procurasse sair clandestinamente de Lisboa, atribuindo-se ao apreensor um quinto da soma tomada. (...) cunhagem de moeda nova de reais de prata de nove dinheiros (segundo a lei) e outra de cinco dinheiros (abaixo da lei) tirando o Governo desta diferença um lucro que cobria as despesas de cunhagem.»

Ele – Portanto, sempre foram os ricos que pagaram a crise.

Eu – Os verdadeiramente ricos tinham fugido não para a Suiça mas para Alenquer, antes de saltarem para Castela. Os que ficaram em Lisboa com os revolucionários ou eram remediados ou pobres. Mas é claro que a emissão monetária foi globalmente séria apesar daquela diferença entre os nove e os cinco dinheiros. E o mais interessante é que o povo atribuiu um sentido místico à nova unidade monetária a ponto de muitos a trazerem pendurada ao pescoço como talismã contra doenças e maus-olhados. E se as pessoas acreditam na moeda, tudo funciona.

Ele – Giro! Dá para tirar alguma conclusão relativamente ao que se passa hoje?

Eu – Como disse, os tempos são muito diferentes mas sempre se pode concluir que se não se obtém a colaboração voluntariosa de quem dispõe dos cabedais, tudo se complica e corre o risco de ruir. Não será por certo contra os mercados que havemos de nos safar e a austeridade tem uma alternativa: chama-se racionamento.

Ele – Convém também reformarmos o Estado deplorável a que chegámos, não?

Eu – Nesse aspecto, posso ler-lhe o que diz aqui na página 256 e seguinte sobre a reforma do Estado que foi feita no reinado de D. João I, sempre com João das Regas na função de Chanceler Mor, ou seja, Primeiro Ministro: «impedia-se a exigência, que vinha da tradição, feita às terras por onde passavam de dar pousada aos fidalgos nas suas digressões e caçadas; punha-se um travão à violência sistemática exercida pelos Senhores sobre o povo rural [a quem impunemente faziam toda a espécie de exigências]; instituía-se o Exército permanente assoldadado pelo Rei e separava-se o poder militar da jurisdição civil que ficava pertencendo exclusivamente à Coroa; criava-se o imposto da sisa para ocorrer às despesas públicas; aumentava-se o imposto predial; estabelecia-se o imposto de transmissão sobre as heranças dos mouros; restringia-se e condicionava-se o sistema das doações dos bens da Coroa; aboliam-se as servidões pessoais para os filhos dos lavradores; reformava-se a “Lei das Sesmarias” de forma a atingir o domínio sem afectar a liberdade pessoal; acabava-se de vez com a parcelação da soberania dos senhorios e honras com inerência de poderes arbitrários e de contingentes de vassalos. O Rei era o único poder soberano e a vassalagem um apanágio exclusivo da realeza.» É claro que tudo era muito mais autocrático do que hoje em que os temas devem ser democraticamente debatidos mas se as Oposições não querem sequer ouvir falar no assunto...

Ele – Nem nesse nem na revisão da Constituição.

Eu – Pois foi isso tudo que fez João das Regras. Mas a “Lei Mental” acabou por só ser publicada no reinado de D. Duarte já com estes actores todos fora de cena, mortos de velhice. Mas agora, se não se importa, tenho que ir andando pois já tenho a família à espera. Vem cá amanhã?

Ele – Se for para continuarmos esta conversa, venho de certeza. E se não chover, claro!

Eu – Muito bem! Então, até amanhã se não chover.

Ele – Até amanhã e muito obrigado por este bocadinho.

 

Nota final: no dia seguinte choveu.

 

Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

MÁRIO SOARES E A DEMAGOGIA

 Mário Soares em conferência sobre 2 anos da Troika (Reuters)

 

Para mim tenho (sempre tive, aliás) um saudável desrespeito por Sua Alteza Real, D. Mário Soares. Depois de ver o que vi dia 21 à noite, na Aula Magna, digo apenas isto: Se a demagogia pagasse imposto a nossa dívida já estaria saldada.

 

Com a devida vénia acrescento 4 comentários complementares:

 

a) Em democracia podemos, de facto, dizer o que nos vai na alma, devendo, porém, ponderar o que dizemos e assumir o que propomos, respondendo plenamente pelas nossas palavras e actos perante todas as instâncias;

 

b) o Presidente da República foi eleito democraticamente e só pode ser demitido por renúncia do próprio, morte ou impedimento permanente. Nenhum outro órgão de soberania pode demitir o Chefe de Estado. Este, em quem não votei, portanto sou insuspeito para falar, poderá ser criticado por alguma passividade ou imobilismo na situação actual, mas jamais, em tempo algum, desrespeitou a constituição. Se o fez que o provem preto no branco, o que até agora não foi feito por quem quer que seja. É, pois, totalmente falsa uma afirmação deste teor.

 

c) Por muito que a situação em que vivemos nos seja penosa (e é), não podemos ameaçar veladamente as instituições da República com a violência ou preconizá-la abertamente, como alguns o fizeram (e fazem).

 

d) É lamentável que o dito Encontro Patriótico/Congresso das Esquerdas não tenha proposto uma única alternativa viável, consistente e construtiva à situação vigente.

 

Criticar é fácil, fazer é difícil. Em minha opinião, perante a situação insustentável em que nos encontramos, o verdadeiro objectivo do Encontro foi o de criar, ou, se se quiser, alimentar uma situação de caos, porque ela já existe, tornando o país já de si dificilmente gerível, num vulcão incontrolável, imprevisível e perigosíssimo. A Esquerda festiva dos arraiais e das arruadas está a abrir a porta a uma ditadura feroz que poderá pender para qualquer dos lados do espectro político e prosseguir o seu rumo em direcções insuspeitadas, mas, hélàs, suicidárias.

 

 

Francisco Henriques da Silva

              Embaixador

SOBRE ESQUERDA E DIREITA

 

 

 

Nenhum partido ou nenhuma pessoa “é” de esquerda ou de direita simplesmente porque se declara como tal, assim como ninguém é pintor ou escultor porque se arroga esse título. São as ideias que defende, se não está no poder, ou as acções que pratica, se está no poder, que definem a sua posição no espectro que vai da extrema esquerda à extrema direita. Todos os sistemas políticos actuais têm alguns componentes de direita e alguns componentes de esquerda. Um qualquer sistema político situar-se-á, nessa linha, para a direita do centro se predominarem as acções ou situações de direita e para a esquerda desse centro se predominarem as acções ou situações de esquerda. O centro, como um ponto imaterial nessa linha, não tem espaço físico.

 

Como é sabido, esses termos “esquerda” e “direita” nasceram na Assembleia Nacional, em Paris, em 1789, no tempo da Revolução Francesa. Em termos modernos, podemos dizer que são acções de esquerda as nacionalizações, a redução do leque salarial (na extrema esquerda os salários seriam todos iguais), saúde, educação e protecção na velhice como encargos do estado, predomínio do trabalho sobre o capital (na extrema esquerda não pode haver capital privado), impostos altamente progressivos, em que quem tem mais paga proporcionalmente mais e quem tem muito mais paga proporcionalmente muito mais, etc. etc. etc. Por oposição, são de direita as privatizações, um grande leque salarial (desde salários de miséria a salários muito altos), saúde, educação e protecção na velhice como negócios privados, predomínio do capital sobre o trabalho, impostos pouco progressivos ou, até, todos a pagarem a mesma percentagem, etc. etc. etc.

 

Como alternativa aos sistemas dos extremos, com o capitalismo puro na direita e o socialismo na esquerda, ambos a provarem serem socialmente muito maus, nasceu a “social democracia” que, sem destruir a empresa privada, introduziu medidas sociais anteriormente pouco utilizadas. O país que com mais êxito aplicou esse sistema foi a Suécia, principalmente no tempo do Primeiro Ministro Tage Erlander. Mantendo a propriedade privada (isto é, negando o socialismo) adoptou um sistema fiscal progressivo   e aplicou muitas das acções de natureza social. Atingiu o PIB per capita mais alto do mundo e manteve a sua população com um invejável nível de vida.

 

Quando Otelo disse ao Primeiro Ministro Olof Palme que em Portugal tinham acabado com os ricos ele respondeu-lhe que, na Suécia, tinham acabado com os pobres.

 

*

 

O Partido Socialista “era” um partido de esquerda após o 25 de Abril, quando andava de braço dado com o Partido Comunista a fazer nacionalizações e actos do género e Mário Soares, na rua, de punho erguido, berrava “Partido Socialista, um partido marxista!”

 

Mas algum tempo depois o discurso já não era o mesmo e não tardou a abandonar o socialismo, antes mesmo de Mário Soares declarar expressamente que tinha “metido o socialismo na gaveta”. (Para ser coerente, a partir dessa data o partido deveria ter mudado de nome. Mas todos sabemos que os nomes dos partidos pouco ou nada significam).

 

Durante os seis anos do governo PS de Guterres, quase todas as acções se situavam para a direita do centro. Fizeram-se privatizações, alargou-se em vários casos o leque salarial, etc. O único resquício de esquerda foi o Rendimento Mínimo Garantido (mínimo era; garantido não...) que deixou muitas dúvidas se essa era a melhor forma de atingir os objectivos desejados, em vista dos seus elevadíssimos custos, particularmente em burocracia.

 

Assim, é fácil concluir que o espaço politico do PS é o mesmo que o do PSD, ou seja, no centro direita. É essa a razão das alternâncias que temos visto em sucessivas eleições. Sem poderem escolher livremente os seus legisladores e governantes, como seria se o sistema fosse democracia, sujeitos como estão à ditadura partidocrática em que meia dúzia de senhores têm o “direito” de dizer aos cidadãos em quem é que eles têm licença de votar, nada mais resta aos portugueses senão “castigar”, mandando-o embora, o partido que estiver no governo e não for capaz de desenvolver satisfatoriamente o País. Se Cavaco Silva tivesse no seu segundo mandato continuado a boa marcha do primeiro e não tivesse consentido os monstruosos erros de destruição da agricultura, o PS não teria ganho as eleições de 1995. Se Guterres, que beneficiou do que restava do governo PSD e que lhe deu um segundo mandato (embora este ficasse a meio...), tivesse sido capaz de desenvolver a nossa economia (incluindo a agricultura, que ele mostrou não saber que é parte da economia), não teria necessidade de fugir e o PS continuaria a governar. Se o PSD tivesse sido capaz de fazer esse desenvolvimento a partir de 2002, não teria dado ao Presidente da República o pretexto para dissolver a Assembleia da República e ainda estaria a governar.

 

Temos agora um novo governo e tudo vai depender do que for capaz de fazer. Oxalá consiga levar a cabo aquilo que é necessário e o País dê o tão necessário salto em frente. Pelo menos para muitos casos, temos diagnósticos feitos e indicada a terapêutica, que não se tem querido aplicar. Se o não fizer, o mais certo é que não chegue ao fim da legislatura. E os portugueses continuarão a sofrer.

 

 

Miguel Mota *

 

 

Publicado no Linhas de Elvas de 31-3-2005

e no “Jornal de Oeiras” de 30 de Agosto de 2005

_________________________________

* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.

 

(Parte do que aqui se diz foi também dito por Vicente Jorge Silva, no “Diário de Notícias”, alguns dias depois da publicação no “Linhas de Elvas”)

 

 

O PRÍNCIPE DE GALES E OUTRAS EXCENTRICIDADES BRITÂNICAS

El Príncipe Carlos y la Duquesa de Cornualles a su llegada a la cena de gala celebrada en su viaje oficial a Sri Lanka
 

Por este andar, ainda vamos descobrir que a democracia parlamentar é tão excêntrica como o príncipe de Gales

O príncipe Carlos fez 65 anos na quinta-feira passada. Desde que a posição foi criada, em 1301, Carlos é até hoje o príncipe de Gales que mais tempo ocupou o cargo. Não se sabe ainda, no entanto, se e quando herdará o trono britânico.

 

Apesar disso, o aniversário foi condignamente assinalado no Reino Unido. O Telegraph de Londres escreveu um editorial e destacou na primeira página uma entrevista com a mulher de Carlos, Camilla, duquesa da Cornualha. O título foi um pouco bombástico: "Hopeless, annoying, exhausting: Camilla's verdict on Charles". Mas afinal a entrevista era bastante simpática para o aniversariante, destacando a sua dedicação ao trabalho e a inúmeras causas cívicas e sociais.

 

Entre essas causas, destaca-se a defesa do mundo rural. A Country Life, uma das mais pitorescas revistas rurais inglesas, convidou o Príncipe de Gales a dirigir a edição da semana passada. Num longo editorial de três páginas, Carlos classifica o mundo rural britânico como "a não reconhecida coluna vertebral da nossa identidade nacional – tão preciosa como qualquer uma das nossas grandes catedrais". Seguem-se inúmeras reportagens sobre as mais diversas explorações agrícolas que têm recebido prémios do "Countryside Fund" – um Fundo não estatal promovido por Carlos para apoiar o mundo rural.

 

Não sei se a revista vendeu muito em Londres, mas, no aeroporto de Heathrow, literalmente voava dos escaparates a ritmo alucinante.

 

Talvez fossem sobretudo estrangeiros, como eu, intrigados com as excentricidades britânicas. Foram aliás estrangeiros quem mais celebrou o aniversário de Carlos, que foi passado ao serviço da rainha, entre a Índia e o Sri Lanka.

 

Pela primeira vez, a rainha Isabel fez-se representar pelo filho na cimeira dos países da Commonwealth, que teve lugar na sexta-feira, no Sri Lanka. No jantar de gala, o Príncipe de Gales recordou que visitara 151 vezes 41 dos 53 países da Commonwealth, sentindo-se já parte da família. Na sua mesa sentavam-se o Presidente do Sri Lanka, o primeiro-ministro de St. Kitts and Nevis, e os representantes da Tanzânia, Chipre e Samoa.

 

Tudo isto soa bastante peculiar aos ouvidos europeus. No entanto, na mesma semana, passaram quase despercebidas entre nós notícias de Bruxelas que seriam muito peculiares se se aplicassem a Londres. Refiro-me à recusa pela Comissão Europeia dos orçamentos nacionais de Espanha e Itália, por estes ultrapassarem os défices previstos pelas regras do euro. A Comissão também emitiu críticas às políticas orçamentais da Finlândia, Malta, Luxemburgo e França, bem como da Alemanha, desenhando orientações sobre o que devem fazer no próximo ano.

 

Se bem me lembro, a última vez que um orçamento foi decidido à margem do Parlamento de Londres terá sido em 1640. O rei Carlos I enfrentou então uma tempestade que conduziu a uma guerra civil, à sua própria decapitação, e ao estabelecimento de uma República puritana de muito má memória. Depois dessas e muitas outras peripécias, os ingleses decidiram em 1688 promover um "Bloco Central" entre partidários do rei e partidários do Parlamento. Com esse acordo entre moderados, afastaram os extremistas de sinal contrário – que defendiam ou o absolutismo real ou o republicanismo radical – e refundaram um regime monárquico, constitucional e parlamentar, que subsiste até hoje.

 

É graças a este regime que Carlos ocupa agora o cargo de príncipe de Gales e pode representar o seu país, à frente do seu primeiro-ministro, nas cimeiras dos 53 países da Commonwealth. Pode criar fundações e promover prémios para o mundo rural ou para a arquitectura tradicional, embora nunca com fundos públicos que não sejam aprovados pelo Parlamento. Também pode emitir opiniões públicas, embora não seja suposto emitir críticas a decisões parlamentares. E ninguém esperaria que emitisse juízos sobre o orçamento parlamentar britânico, muito menos desenhasse directivas sobre o orçamento de algum dos 53 países da Commonwealth.

 

Muitos observadores pensam que o príncipe de Gales e a monarquia constitucional britânica são excentricidades do passado. Pode ser que sejam. Raramente lhes terá ocorrido, todavia, que essas excentricidades possam estar associadas à persistente permanência de um Parlamento soberano em Londres e à inexistência de revoluções em Inglaterra desde 1688.

 

Talvez fosse altura de ponderarmos esta hipótese de correlação, no continente europeu e, sobretudo, na zona euro. Se continuarmos a caminhar alegremente para a erosão dos poderes soberanos dos parlamentos nacionais na zona euro, poderemos vir a ser surpreendidos pela descoberta de que as excentricidades inglesas não residem apenas no Príncipe de Gales. Elas estão indissoluvelmente ligadas à soberania do Parlamento nacional e a outra excentricidade britânica: a democracia.

 

18/11/2013

   João Carlos Espada

Pai com força só na fábula

 

 

Os fabulistas foram jovens também.

Foi-o Florian, que bem sabia

Quanto a juventude

Precisa de um pai e de uma mãe

Para ganhar mais virtude

Em cada dia.

Os bons princípios provêm, naturalmente,

Do seio da família,

Mas diz-se que hoje em dia

Tal asserção é menos real

Pois muitas coisas se modificaram

Tantas aberturas se fizeram

Para se fruir em liberdade

De maior capacidade

Individual.

É claro que tanta desenvoltura

Que tantas vezes redunda em amargura

A sociedade contribui para ela

Não só pela sua falta de compostura,

Como pelos efeitos perversos

Que o progresso exerce sobre ela.

Mas no tempo de Florian

Ele não era tão evidente,

Por isso Florian acreditava na moral

Da fábula tradicional,

Como mostra na fábula seguinte

Bem do seu gosto

De homem educado,

Segundo os valores dos seus maiores:

 

 

 

«O Cavalo e o Potro»

 

Um bom pai Cavalo, viúvo, e com apenas uma cria,

Criava-a num prado de pastagem,

Onde águas, flores e sombras da folhagem,

Todos esses bens em simultâneo reunia.

Abusando no seu divertimento

Como é costume da tenra idade,

O potro todos os dias comia

O feno em demasia,

Espojava-se na erva florida

Galopando ao Deus dará,

Banhando-se sem vontade,

Ou descansando sem necessidade.

Ocioso e gordo até mais não,

O jovem solitário aborreceu-se;

De tudo ter em excesso se cansou,

O desgosto dele se apoderou,

Foi procurar seu pai, em acusação:

“Há muito, disse ele, que de bem não sinto nada;

Esta erva é malsã e dá cabo de mim,

Este trevo insípido, a água inquinada

O ar que se respira ataca-me os pulmões,

Em suma, com todas estas razões

Ficarei em perigo

Se daqui não partirmos logo.”

“Meu filho, responde-lhe o pai,

Trata-se da tua vida,

Partamos imediatamente”.

Meu dito, meu feito,

Deixam o lar de seguida,

O jovem viajante a pular de prazer.

O velho, menos contente,

Ia a passo, moderadamente,

Mas guiava a criança e deixava-a trepar

Sobre montes escarpados, áridos, sem erva,

Onde nada o podia sustentar.

Chegada a noite, pasto nem vê-lo;

Passaram sem ele; no dia seguinte,

Como a fome começava a apertar,

Com a ponta dos dentes roeram

Uma silva selvagem;

Não se galopou mais no resto da viagem;

Dois dias depois mal podiam ir a passo.

Julgando então a lição dada,

O pai toma uma via secreta

Que o filho desconhecia,

E, a meio da noite,

Leva-o para a pradaria.

Mal o nosso potro

Encontra uma erva florida,

Lança-se sobre ela: “Ah! Que festim excelente!

Que boa erva! disse ele! Como é suave e tenra!

Meu pai! Não precisamos de esperar

Para encontrar melhor lugar;

Fixemo-nos para sempre

Sobre estes amáveis sítios: Que terra pode ser melhor

Do que este asilo campestre

Da esfera terrestre?

Enquanto assim falava

Eis que o dia surgiu:

O potro, o prado que deixara

Reconheceu.

Ficou confundido. O pai, com calma bondade,

Diz-lhe: “Meu filho, aprende esta máxima comigo,

Do conhecimento antigo: “Quem goza demais na vida

Depressa se aborrece de tanta facilidade.

É preciso pensar em regime

Como fonte de felicidade.

 

Também nós aqui

Tivemos o nosso prado

Onde nos repoltreámos livremente.

Mas ao contrário do potro da fábula,

Que se cansou dos excessos de que gozou,

E aprendeu com a lição do pai

A moderação,

Fomos insaciáveis e queremos

Continuar imoderadamente,

No direito como obrigação,

No dever como exclusão.

 

Não há pai,

Cavalo ou não,

Que assim consiga

Salvar tal nação

Que assim se vai...

 

 

 Berta Brás

 

 

CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

AÍ VÊM ELES!!!

 

- Quem é que vem aí?

- Os imigrantes.

- Então agora que os nossos estão a sair é que hão-de chegar outros?

- Sim, não tardará muito para que comecem a chegar.

- Para quê? Vêm cá passar o Natal?

- Esses vêm como turistas e voltam para as terras deles pouco depois. Eu refiro-me aos que vêm para ficar a trabalhar.

- Deve estar a brincar. Então com a falta de empregos...

- Exacto! Há falta de empregos mas há muitos postos de trabalho a preencher. Eles vêm para trabalhar, não para terem um emprego à moda dos de cá.

- E esses vêm então trabalhar em quê?

- Em tudo aquilo que os de cá não querem.

- Não estou a perceber.

- Na agricultura, nas fábricas que exportam, nos trabalhos mais pesados.

- E nós?

- Vocês continuam no Fundo de Desemprego à espera que vos chamem para Presidentes de Conselhos de Administração.

- Está a gozar!

- Não, estou a falar muito a sério. O País real passa cada vez mais ao largo das vossas reivindicações. Os empreendedores não ficaram à espera que o Governo lhes dissesse o que deveriam fazer: fizeram.

- Fizeram o quê?

- Transformaram a nossa Balança Comercial de negativa crónica em positiva. Só! Acha pouco?

- Mas isso foi algum milagre da Senhora de Fátima?

- Não foi milagre nenhum. O decréscimo enorme que houve no consumo quebrou radicalmente as importações e bastou algum crescimento das exportações para que o saldo passasse a ser positivo.

- Então o milagre foi nas importações.

- Isso também não foi milagre nenhum: foi a falência do falso «modelo de desenvolvimento» que tínhamos com o nosso sistema bancário a perder o crédito no estrangeiro e a não poder mais financiar importações. E foi também a quebra dos meios de pagamento em poder dos consumidores portugueses. Não esquecer as negaças que houve com os subsídios de férias e de Natal...

- E por que é que as exportações cresceram assim de repente?

- Porque os empresários não perderam tempo e quando viram que o mercado interno tinha dado o berro, voltaram-se para os mercados externos e salvaram a pele deles e a do país.

- E isso vai continuar assim?

- Espero bem que sim e que o novo modelo económico seja mesmo de desenvolvimento e não mais como o anterior que foi de afundamento.

- Mas qual é a diferença entre esses dois modelos?

- O anterior estava a fazer de Portugal um país de serviços e o novo tem que se basear na produção de bens e serviços transaccionáveis.

- Que bens são esses?

- São todos os que possam ser objecto de comércio internacional. Quer exemplos? Um carro é um bem transaccionável porque pode ser importado ou exportado; o Turismo é o serviço transaccionável mais comum mas os Seguros também o são; um navio, um saco de batatas ou de cebolas, um cabaz de peixe, um computador ou o respectivo software, tudo são bens transaccionáveis...

- E o que é que não é isso?

- Bens e serviços não transaccionáveis são os que não podem ser exportados ou importados. Por exemplo, uma estrada, uma ponte, um prédio, são bens não transaccionáveis; uma corrida de táxi daqui até à estação do Rossio é um serviço não transaccionável.

- E como era antes?

- Vinha praticamente tudo do estrangeiro e nós quase só vendíamos Turismo. Andávamos a fazer obras públicas importantes sobretudo para quem as construía, o Governo anterior preparava-nos para mais uns quantos elefantes brancos, já estávamos internacionalmente com um dos índices mais elevados de habitação própria ao mesmo tempo que o parque habitacional edificado se encontrava em ruínas, o consumo era a menina dos olhos do comércio importador. E todos viviam muito felizes num mundo irreal comprando tudo sem dinheiro... O pior foi quando os credores disseram que chegara a hora de fazer contas.

- Quais credores?

- Os primeiros a apertar os gasganetes aos devedores foram os bancos estrangeiros que disseram aos bancos portugueses que não havia mais nada para ninguém enquanto não começassem a pagar o que já lhes deviam. E, aí, houve grandes bancos portugueses que estiveram parados durante uns tempos à espera que alguns dos seus clientes exportassem alguma coisa para poderem ser creditados lá fora desses montantes e pagarem cá dentro em Euros internos.

- Euros internos? Então os Euros não são todos iguais?

- As notas e as moedas são todas praticamente iguais mas não é de notas nem de moedas que falo. Falo da moeda escritural, a dos movimentos contabilísticos a débito e a crédito nos mercados inter bancários.

- Vai ter que me explicar isso mais de vagar...

- O meu amigo vai ali ao seu banco com um saco de notas e moedas que deposita na sua conta e diz ao banco para mandar vir da Finlândia uma manada de renas. O seu banco não vai com o saco de notas e moedas à Finlândia pagar a manada das ditas renas. Guarda o dinheiro que Você lhe entregou e pede ao banco finlandês que, por sua conta, banco português, pague ao exportador da manada. Só que o banco finlandês diz ao banco português que já pagou manadas a mais por conta dele, banco português, pelo que está na hora de ele, banco português, amortizar a dívida que tem para com ele, banco finlandês. Então, o banco português tem que esperar que o importador finlandês de rolhas portuguesas de cortiça deposite no banco finlandês esse dinheiro que será então creditado ao banco português para que este possa então merecer novamente alguma confiança do seu correspondente finlandês. Portanto, como os bens e serviços, há uns Euros que passam a fronteira (os externos) e os que não passam fronteiras (os internos). O que aconteceu ao sistema bancário português foi a perda de crédito junto dos correspondentes estrangeiros por razões deste género. O falso modelo de desenvolvimento em que estávamos, mandando vir tudo lá de fora, deu o berro.

- E como foi que o assunto se resolveu?

- O problema não se resolveu; apenas se começou a atenuar.

- Como?

- Cortando no poder de compra dos consumidores, os importadores reduziram drasticamente as suas encomendas ao estrangeiro e os que sobreviveram passaram a contratar cá dentro uma parte do que dantes mandavam vir de fora. Houve uma substituição (parcial) de importações por produções nacionais mas o mais importante foi que os empresários que viram o mercado interno em ruína, se atiraram para os mercados externos e deram ao sistema bancário a oportunidade de retomar alguma da confiança que tinham perdido lá fora.

- E o que é que isso tem a ver com os imigrantes que Você diz que vêm aí?

- Tem tudo. Os portugueses continuam a reivindicar os direitos adquiridos, a fazer greves, a protestar contra tudo. Só que o empresariado não tem tempo a perder e vai certamente começar a preencher os novos postos de trabalho por quem esteja disposto a arregaçar as mangas em vez de erguer os punhos.

- Mas os Sindicatos não vão permitir que esses estrangeiros para cá venham roubar empregos aos portugueses.

- Mas Você é da extrema-direita?

- Eu, fascista? Nem pensar nisso! Eu sou democrata de esquerda.

- Mas está a pugnar pelo mesmo que o Le Pen em França...

- Porquê?

- O Le Pen também quer correr com os estrangeiros para os empregos ficarem para os franceses.

- Mas os nossos Sindicatos não têm nada a ver com o Le Pen!

- Pelos vistos têm tudo a ver com posições de direita extrema. Vocês, sindicalizados, é que andam muito enganados.

- Não me diga mais nada!!!

- Posso dar uma última sugestão?

- Pode.

- Pensem pelas vossas cabeças e deixem de seguir bandeiras que só vos enganam.

- Vou pensar nisso...

- Continuação duma boa tarde!

 

Novembro de 2013

 

 

Henrique Salles da Fonseca

Canciuneiro pró dia dus namurados


meu amor chamo-te dia
que pla noute num t’ inxergo
num fijestes o qu’eu qu’ria
pró que pedes eu num bergo!

tem chubido munto, a eito
c’o febreiro bai zangado
tamém chobe no meu peito
cando mi olhas de lado!

ai quem dera qu’ eu pudesse
andar culadinha a ti
meu coração istremece
ó pensar que te perdi!

Já bi no ar às bortinhas
as andorinhas prumeiras
cum suas penas pretinhas
são abes madrugadeiras…

'nhora Mãe num sei quem disse
c’o amor é cousa doce
mas sei qu’é grande tolice;
quem ma dera a mim qua fosse!

Há munta ‘strela no céu
e munta auga no mar
mas há poucas cumo eu
cum tant' amor pra te dar!

sinhora santa Joana
bestidinha de brucado
tenho mesa e tenho cama
e inté tenho cunbersado…

por isso posso casar
bá lá, num sejas mazinha
sinhora santa Joana
minha santa Joaninha…

pus o pé in ramo berde
cubrou-se todo pro meio
meu cunbersado cum sede
foi buber e ‘inda num beio!...

Cando pedes cum carinho
só um beijinho e mai’ nada
fala o curação, baixinho
e a boca fica calada…

 Maria Mamede

O SER E O PARECER

 

 

No Público de 10/11 lemos, na página 20, que “Soares repete congresso anti-austeridade”.

O final da notícia diz-nos que O primeiro congresso das esquerdas juntou várias personalidades, como Mário Soares, Manuel Alegre, Sampaio da Nóvoa e até José Pacheco Pereira.

Este segundo congresso das esquerdas surge numa altura em que o Tribunal Constitucional está sob pressão, incluindo de vários dirigentes internacionais, por causa do Orçamento de Estado para 2014 e em que o desejo de mudança da Constituição tem sido assumido por várias personalidades de direita e até algumas do centro-esquerda, como o sociólogo António Barreto, o ministro da Defesa José Pedro Aguiar Branco, ou o ex-ministro das Finanças Fernando Teixeira dos Santos.

Tudo gente grada, alguns com responsabilidades na crise, com ressalva natural da deles.

A objectiva da nova reunião volta a ter o executivo de Passos Coelho na mira. Segundo o ex-Presidente da República, o objectivo é juntar “todos quantos estejam contra o Governo, numa ampla frente de rejeição. Além dos nomes que participaram na primeira iniciativa, são apontadas como prováveis a presença de duas figuras históricas da direita: Adriano Moreira e Freitas do Amaral.”

Mas o actual Presidente da República não é esquecido. Cavaco Silva “não pode continuar a ser um agente de um partido político” critica Mário Soares, apelando à convocação de eleições para pôr fim “à violência social ou ao desespero das pessoas”.

Não sei se Mário Soares se inclui no desespero das pessoas que cita. Provavelmente sim, por via da sua Fundação em risco. Mas “não havia necessidade” como diria o diácono Remédios com muita unção, pois que o Governo que ele quer abater continua a financiá-la com reverência e a fazer-nos participar benemeritamente nisso, mesmo os “desperados” que ele defende tão paternalmente.

Gente grada, repito, segura de si, os convocados para o bota-abaixo. Gente de peso – na idade e na finança – que os anos pós-revolucionários não deixaram de distinguir, no seu “struggle for life” do muito amor patriota. A hora é de apear - a de ir aos ombros a ele pertenceu, mais o seu V digital - o polegar descaindo agora, em jeito saddamnesco.

Não julgo que Adriano Moreira nem Freitas do Amaral, que foram pessoas em quem confiámos, na sua ponderação e saber, cedam ao convite de um ex-opositor – de partido e de lábia oratória. Também não penso que Cavaco Silva, ex-opositor na concorrência, e hoje incriminado pelas acusações de Soares, ceda às chantagens de um actual “salvador” da pátria que outrora ajudou a derribar.

E tenho, para confirmar as minhas crenças nesta “matéria de vil canto” (com mil desculpas ao glorioso épico), do sociólogo Alberto Gonçalves, “Sonhos Revolucionários” do D.N. de três domingos antes do artigo do Público – 20 de Outubro – o artigo com data de 17, “Um modelo”, que melhor do que ninguém retrata Mário Soares, em corpo inteiro, como, em corpo inteiro embora dobrado, o país que o acata:

«Um, modelo»

Mário Soares, que diligentemente tenta bater o recorde de afirmações esdrúxulas na mesma semana, estranhou que Cavaco Silva não fosse julgado pelo caso “BPN”. Com a paciência que não dedica aos jornalistas e populares que o insultam, o Prof. Cavaco remeteu o Dr. Soares para os esclarecimentos que já prestara sobre a matéria e que, sendo verdadeiros, o colocam na posição de simples depositante da banca em questão. Segundo o Expresso, o Dr. Soares terá enviado um discreto pedido de desculpas ao chefe da Casa Civil, confessando que não dera pelos ditos esclarecimentos. Mas essa não é a questão.

A questão é a radiante facilidade com que o Presidente da República está sujeito ao tipo de ataques que ninguém ousa lançar aos ex-presidentes. Veja-se o mero exemplo da Fundação Mário Soares, que em 2014 receberá 210 mil euros do erário público, a juntar aos cerca de milhão e meio que lá recebeu entre 2008 e 2013. Não espantaria que, em tempos de crise extremada, um populista pedisse o julgamento do Dr. Soares e dos benfeitores do Dr. Soares por aquilo que qualquer cidadão menos cauteloso no verbo poderia classificar de roubo, embora um roubo legalíssimo. O espantoso é que esse populista não surgiu. O respeitinho que o Dr. Soares suscita é directamente proporcional ao desrespeito que o próprio dedica ao mundo em seu redor, desde o Chefe de Estado ao simples contribuinte. Em países normais, semelhante fenómeno deveria servir de alerta. Aqui, serve de modelo.

É que nós por cá, embora de alma cândida como a do rapazinho que descobriu a nudez do rei, somos sempre deslumbrados com o ouropel da sua arrogância de libertador. Não há volta a dar-lhe.

 

 Berta Brás

PEN INTERNACIONAL

 

 

Assembleia de Delegados do PEN Internacional, reunida no seu 79º Congresso Mundial em Reiquejavique, Islândia, entre 9 e 12 de Setembro de 2013

 

 Na sequência da Declaração aprovada no Congresso da Coreia em Setembro de 2012, o PEN Internacional e o seu Comité de Tradução e Direitos Linguísticos aprovaram a seguinte

 

Resolução sobre a Língua Portuguesa

(apresentada pelo Centro Português do PEN, com o apoio do Centro do PEN Catalão, do Centro do PEN Francês, do Centro do PEN Occitano, do Centro do PEN Esloveno e do Centro do PEN de Trieste)

 

 

No 78º Congresso Mundial em Gyeongju, a Assembleia de Delegados do PEN Internacional tomou conhecimento das consequências negativas da proposta estandardização internacional da Língua Portuguesa. Foi assim aprovada por unanimidade uma Resolução sobre esta matéria, expressando a preocupação do PEN Internacional no que diz respeito a essa situação. A Resolução sublinhava o perigo inerente a regras artificiais concebidas para minar a força de todas as línguas. A estandardização é uma violação, não apenas dos princípios do Manifesto de Girona, mas também do Artigo 78º.2 c) da Constituição da República Portuguesa, segundo a qual o Estado é responsável por “promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum”. A Constituição da República Portuguesa afirma igualmente no Artigo 43º.2: “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”.

 

O PEN Clube Português expressa a sua preocupação com a destruição e fragmentação da língua portuguesa, na sua variante europeia, ao longo de todo o ano transacto. Tiveram lugar as seguintes ocorrências:

 

- O texto do “Acordo Ortográfico de 1990” é em si problemático, uma vez que a nova ortografia proposta retira palavras do seu contexto etimológico e cultural, rompendo ligações com as raízes gregas e latinas da língua.

 

- O período de transição de seis anos, que deveria terminar em 2016 e no qual a aplicação da nova reforma ortográfica poderia e deveria ser testada, não foi respeitado, uma vez que as modificações previstas foram implementadas em 2012.

 

- A aproximação por equivalência à ortografia brasileira foi negada com o adiamento do Acordo pelo Brasil até ao início de 2016.

 

- Angola e Moçambique não ratificaram o Acordo.

 

 

 

AS ESTAÇÕES DE MINHA INFÂNCIA

 Ficheiro:Estrada tipica dos Açores, caminhos de hortensias, Interior da ilha Terceira, Açores, Portugal.jpg

 

Mesmo depois de passados tantos anos, ainda guardo na memória imagens de minha infância de uma forma indefinida, mais sentida que visualizada. O mar dos Açores de um azul-cobalto, profundo, nos dias claros de sol; de cor pesada e escura como chumbo, com picos de espuma, nos dias de vento e chuva. O omnipresente Pico, ilha montanha, com seu chapéu de nuvens brancas, em frente ao Faial. O delicioso cheiro de baunilha que vinha da antiga sorveteria do rés-do-chão do Hotel da esquina do Largo do Infante, na cidade da Horta. A bela marina cheia de barcos aventureiros, chegados do mundo inteiro, que ali aportavam e ainda aportam para descansar. O famoso Café do Peter, que guarda nas suas paredes recados e mensagens daqueles que passaram por lá. Os trabalhos de gravação em ossos de baleia (cachalote). O Castelo de Santa Cruz, o Monte da Guia, a praça do Relógio... Mas o que mais me toca e que ainda percebo como se por lá estivesse são os sentidos gravados na minha mente. O barulho "crocante" que ecoava dos meus pés de criança ao pisar as alamedas de macadame da Praça da República. O som da engalanada filarmónica tocando no Coreto da praça nos dias de festa. A doçura dos figos bico-de-mel, das negras uvas, das peras, o perfume das ameixas, das amarelas laranjas expostas no Mercado da Cidade. Nos campos, bardos de exuberantes hortênsias fazendo cercas e arrematando caminhos. Nos pastos, sempre verdes e frescos, vaquinhas de pelagem malhada e úberes cheios pastando dolentes, satisfeitas.

 

As casas branquinhas, caiadas todos os anos, portas pintadas de verde, janelas resguardadas com cortinas de renda. Nos jardins multicoloridos e bem cuidados, uma profusão de ervilhas-de-cheiro, dálias, cravos, gerânios, amores-perfeitos encantavam a vista e davam paz à alma. Nos prédios de maior vulto e importância, pedras negras, basálticas, engenhosamente trabalhadas eram estrategicamente colocadas delimitando pórticos e entradas de Quintas, palacetes e Igrejas. Os Impérios do Espírito Santo, ricamente decorados, espalhados pelas freguesias eram o testemunho da vocação religiosa dos povos da Ilha. No cimo da Caldeira, a boca adormecida do vulcão servia como ponto turístico e lazer para a juventude mais aventureira.

 

Era um tempo de infância, de vida inconsequente e singelas alegrias. Na Quinta de minha avó Alice, canadinhas pedregosas ladeadas por pés de amoras silvestres e floridos morangueiros ofereciam suculentos frutos à sempre faminta criançada. Seguíamos enfileirados, liderados pelo paciente e bem-humorado vovô Camilo. Piqueniques debaixo das árvores, banquetes de melancia, espigas de milho verde assadas, castanhas cozidas. De volta pra casa, banho morno em tinas de tábuas de madeira, para depois jantar um nutritivo prato de papas e deitar cansados, mas felizes.

 

O Verão era tempo de muitas actividades e trabalhos. “Ajudar” meus pais a fazer geleias de maças com tomate, de nêsperas, e de amoras silvestres, para os tempos de carestia frutífera, raspando com os dedos as sobras do tacho. Banhos de mar, brincadeiras na terra enquanto papai, depois que chegava do trabalho, plantava no terreno que ficava atrás da casa. Pescarias, passeios na Ponta da Doca, na Rua Beira-Mar, tomar "gelados" no Largo do Infante. Visitas aos parentes da Praia do Almoxarife, quando as irmãs do tio padre Avelar ofereciam deliciosos biscoitinhos de nata, enquanto os pequenos se entretinham na janela da sala procurando pela luneta os navios e barcos aventureiros que seguiam a rota que ia do Continente Português à América. Assistir o hóquei em patins no Sporting Clube da Horta encarrapitados no muro da casa dos avós da minha amiguinha, Líbia Maria, as festas...

 

Em Setembro, nos dias de mar calmo e ar sereno, atravessávamos o Canal e no Pico íamos com meus tios às vindimas. Chupava-se uvas até arrebentar ou dar dores de barriga... Quando à noite a lua surgia brilhante e clara voltávamos, a pé, para casa aos acordes do bandolim, ou em cantoria.

 

No Faial, após a colheita e a secagem do milho, no final do Outono, havia os tão esperados serões na Casa do Leão, onde morávamos no início da década de 50. À noite, a família se reunia para desfolhar e debulhar o milho. Enquanto minha bisavó, uma picarota baixinha, roliça, de saia e camisola longas, sempre vestida de preto, como rezava o costume da época para as viúvas, lia sucessos literários como

As pupilas do Senhor Reitor, A Toutinegra do Moinho, A Dama das Camélias, Os Três Mosqueteiros,... Facto que me intrigava pois embora ela lesse com fluência não sabia escrever! Talvez porque o papel e lápis fossem materiais raros e difíceis de obter nas ilhas açorianas naqueles finais do século XIX. Enquanto os adultos trabalhavam ouvindo os romances que estimulavam a imaginação e consolavam os corações com palavras de amor, suspense e drama, as desassossegadas crianças subiam e desciam as montanhas de maçarocas de milho num jogo lúdico sem fim. Vez por outra, alguém gritava; achei o milho rei (aquele de grãos vermelhos)! Então recebia um beijinho como prémio. Ao final da lida o milho era ensacado, distribuído, vendido, ou guardado para dar aos animais nos tempos de carestia.

 

Quando o Inverno chegava, os porcos engordados durante o ano eram sacrificados. Naquelas ocasiões, eu me escondia e assustada tampava os ouvidos penalizada com os gritos dos animais que, sangrados até a morte, iriam nos dar a banha, a carne e os enchidos que nos sustentaria durante o frio. Nas vésperas das festas natalinas, pinheiros comprados na estrada da Caldeira eram enfeitados com quinquilharias e nozes ocas, recobertas por papel prateado dos chocolates degustados durante o ano inteiro. Nas salas, presépios ornados com fitas, camélias, laranjas, tapetes verdes de germe de trigo, honravam o Deus Menino, Nossa Senhora e São José.

 

Meu passado açoriano é isso ; um imenso e saudoso canteiro de sabores, odores e cores de tempos felizes que guardei pra sempre na minha memória e que hoje em terra distante relembro e conto para meus netos brasileiros, como uma jóia rara.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 13/11/13

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D