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A bem da Nação

“CADA UM É SEUS CAMINHOS”

 

Já tinha dado pelo excesso de emoção à volta da questão da Irlanda e da sua libertação dos dinheiros da Troika, até mesmo na questão do programa cautelar, de que ela prescinde, coisa que o nosso Governo também promete para 2014, mas sempre na dúvida, no que recebe o apoio da nossa Oposição nas suas acções de extremo impacto, como greves, invasão de escadas, gritaria e estardalhaço, embora sem pedras de estilhaço ainda. Porque a verdade é que a Oposição não entra em crenças dessas, convicta dos seus intuitos de destruição do Governo e do País por via vária de contestação em que a acusação impera.

 

Mas gabam muito a Irlanda e o seu Governo, excluindo, todavia, a colaboração do povo e outros elementos partidários irlandeses para ajudar o seu Governo a resolver os problemas de endividamento, sacrificando-se, com os mesmos cortes nas despesas, e até superiores aos de cá, mas com rendimento superior, proveniente do seu trabalho.

 

O texto de João Miguel Tavares, “Por um Portugal à Irlandesa é eloquente nos dados que aponta, sobre o lá e o cá. Mas não resolve o problema cá, que a gritaria e as greves continuam em grande afinco, e ninguém recua nisso nem faz exame de consciência porque somos refractários a leituras e o texto de João M. Tavares não é sequer lido, ou é ostensivamente ignorado. Felizmente, ontem verifiquei – há anos que não ia ao Continente de Cascais – verifiquei que as mesas de almoço estavam preenchidas por grupos abrangendo famílias – felizmente, pois, continuamos a bem comer e beber. Eu própria lá comi e não deixei de procurar a sobremesa nas gostosuras do “Amor aos pedaços”, das minhas lembranças de anos precedentes. Nem a questão dos afogamentos e fomes nas Filipinas e zonas afins me fez solidarizar-me com esses sofrimentos do mundo, o estômago reclamando alto os seus direitos de amor, aos pedaços que fosse. O bem-estar geral tudo mergulhou sobre os apelos do meu egoísmo. Quero confiar no Governo, que aliás, vai mexendo no meu bolso para se livrar da Troika.

 

 

Quanto à questão que João Miguel Tavares põe sobre diferenças estruturais entre portugueses e irlandeses, direi com António Gedeão

 

Inútil seguir vizinhos.

Querer ser depois ou ser antes

Cada um é seus caminhos

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.

 

Deixemos os caminhos dos gigantes aos gigantes, a nossa medida é outra. Pelo menos agora.

 

 Berta Brás

O POVO PEDE DESCULPA POR AINDA NÃO TER ESCOLHIDO A VIOLÊNCIA

 


Apesar de tanta gente antecipar a violência popular, o país parece ter descoberto uma sabedoria dos tempos difíceis

Se os tempos fossem outros, o "encontro das esquerdas" promovido ontem por Mário Soares na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa teria sido convocado para um espaço bem mais amplo.

 

Se os tempos fossem outros, a criação de um novo partido que afirma a ambição de federar as esquerdas não teria decorrido numa sala meio vazia de um cinema de Lisboa. Se os tempos fossem outros, os quase 500 dias de protestos e greves no sector público de transportes já teriam desembocado em múltiplas greves gerais capazes de paralisarem o país e não de ficarem quase só pelas empresas e pelos funcionários do Estado.

 

Mas então por que é que os tempos não são outros? A acreditar nas previsões dos mais avisados políticos e dos mais ponderados senadores, o país devia estar a ferro e fogo. Pessoas aparentemente tão diferentes como Mário Soares – que há mais de um ano escreve sobre "a violência que aí vem" e esta quarta-feira anunciou que "os portugueses não iam ficar parados" – ou Januário Torgal Ferreira – que entendeu que a melhor forma de criticar o Governo era chamar-lhe "profundamente corrupto" – convergem numa mesma inquietação: o povo está muito parado, muito apático. Talvez por isso, como se cantava noutros tempos, o que seja preciso "é agitar a malta".

 

Por outro lado, se olharmos para uma banca de jornais ou nos sentarmos para ouvir um telejornal, o rol de desgraças e malfeitorias é tão interminável que se entende a incompreensão de tantos dos nossos opinadores por os tempos não serem outros. Num país onde tudo é sempre apresentado como mais um cataclismo social, custa a entender por que não surgiu ainda uma moderna Carbonária.

Não sei, ninguém sabe, se o nosso país vai conseguir atravessar estes dias difíceis sem episódios com a gravidade de alguns que já ocorreram noutros países. Nunca se está livre de um episódio, que até pode ser isolado – como foram, esta semana, os tiroteios em Paris –, atear tempestades maiores. Mas julgo sinceramente que não é o cenário mais provável. Mais: isso não decorrerá dos nossos míticos "bons costumes", antes de existir a percepção, mesmo que difusa e poucas vezes assumida, de que houve um tempo de fartura (relativa) que passou e que agora há um tempo de contenção que durará vários anos e vários governos.

Recentemente, a propósito da fraca afluência à que deveria ter sido a terceira grande manifestação do movimento Que Se Lixe a Troika, não faltou quem culpasse o medo pela ausência das esperadas multidões. Mas medo de quê? Medo do Governo? Não faz sentido. Medo de perder o emprego? Mas quem o perderia por desfilar a um sábado, dia de descanso? Medo do futuro? Sem dúvida. Mas não deveria esse medo do futuro convocar ainda mais manifestantes?

 

Talvez seja esta última interrogação a mais pertinente. Se há medo do futuro, há talvez ainda mais medo das alternativas aos dias que correm. Até pelo que elas omitem. Tomemos um caso desta semana. Mário Soares entendeu que era chegado o momento não apenas de pedir a demissão do Governo, como a saída do Presidente da República. Não faço ideia, e julgo que ninguém fará, como quereria que se gerisse depois o longo interregno, que duraria muitos meses, de incerteza política e caos institucional. Com um primeiro-ministro tecnocrata? Com um Presidente designado pelas Forças Armadas? E quem negociaria com a troika? Os partidos, cada um por si? E seria que o PS devia ficar de fora, para não legitimar nada? E como iria Portugal conseguir os mais de 20 mil milhões de euros de que necessita para financiar o défice de 2014 e pagar os empréstimos que vencem ao longo do próximo ano? Incumpria, declarando bancarrota?

 

Ao mesmo tempo, o PS, apesar de alguns esforços para formular uma política mais coerente e de algumas tiradas sobre "responsabilidade orçamental", praticamente só apresentou na Assembleia propostas de alteração ao Orçamento que fariam aumentar o défice de 2014. É simpático, mas não é suficientemente sólido para que António José Seguro seja levado a sério.

 

Faço parte dos que sentem – dos que sabem – que "não há dinheiro", mas já não sou dos que defendem que não há alternativa.

 

Alternativas há sempre, é preciso é saber se são melhores. O que me custa ver em Portugal é pouca gente assumir que todas as alternativas têm também os seus custos. Podemos, por exemplo, defender que há cortes nas despesas do Estado que são intoleráveis – mas então devemos também dizer como fazemos crescer as suas receitas, e não vale falar das quimeras do crescimento económico, pois esse quase desapareceu desde a viragem do milénio e não regressará apenas pondo o Estado a gastar mais dinheiro. Depois de ter comprado tantas ilusões durante tantos anos e tantos ciclos eleitorais, o povo quer mais, não se satisfaz apenas com propostas de acabar com a austeridade – porque não acredita nelas.

Mais do que o medo ou a desconfiança face às alternativas, julgo que a razão principal para a "apatia" que tanto inquieta uma parte dos nossos intelectuais está na consciência de que alguma forma de austeridade – ou de contenção e poupança, se preferirmos as palavras que os alemães usam quando se referem a austeridade – fará parte do nosso destino nos próximos anos.

 

A forma como os portugueses têm vindo a alterar os seus padrões de consumo ajuda-nos a perceber este novo estado de espírito. Um estudo de mercado muito alargado elaborado no final do ano passado indicava, por exemplo, que havia entre os consumidores aquilo a que os especialistas chamaram um novo "frugalismo". Não se adica apenas do que não se tem dinheiro para comprar, abdica-se do que se pensa que é supérfluo. Isso acontece tanto nas escolhas feitas nas prateleiras de um hipermercado como no recurso a mercados de bens em segunda mão (como nos sites de leilões). E não corresponde apenas a uma alteração de comportamento, corresponde também a uma nova atitude anticonsumista que é verbalizada nas entrevistas. Isto significa que tais alterações de comportamento não são tão sofridas como se deduziria apenas da leitura muitas vezes alarmista da imprensa e dos fazedores de opinião.

 

Outro aspecto importante é a forma como os sacrifícios são percepcionados. Por exemplo: fala-se sempre de "cortes nas pensões", nunca se refere que a maioria esmagadora das pensões não sofreu até hoje nenhum corte pela razão simples de que são demasiado baixas. Outro exemplo: apresenta-se como uma catástrofe social os cortes a partir de 700 euros na administração pública (cortes que também eu lamento profundamente começarem nesse nível salarial), mas esquece-se que metade dos salários no sector privado é inferior a 650 euros, o que significa que esses trabalhadores não se chocam tanto como as elites com os cortes acima dessa fasquia. Mais: até são capazes de achar que assim se repõe alguma equidade.

 

Como dizia o Herman José, "a vida dos pobrezinhos é um mistério", e neste país há muito mais rendimentos realmente baixos do que aquilo que a alta classe média imagina. Essa distância ajuda a perceber por que tantos não entendem por que é que o povo ainda não encontrou uma nova Maria da Fonte. Essa distância e a percepção da maioria que, mesmo sendo estes dias difíceis, há alguma coisa que pode perder (o apartamento nos subúrbios, o carro em terceira mão). Ao contrário dos mitológicos proletários de Marx, que só tinham a perder as suas cadeias…

 

22/11/2013

 

 José Manuel Fernandes

 

SAUDAÇÃO



Ave
Gloriosa manhã que dissipas a treva
Ave
força indomável da natura
que chegas, cada dia
na prematura
hora a saudar o sol...
eu te saúdo e te amo
rainha da abundância
e te oferto
das flores a fragrância
no teu romper
a noite inaugurada!
Ave
ó tu, senhora bem amada
por quem te oferece a cruz
nos perfeitos
dias do sofrer;
ave, ave
ungida do saber
na intemporal neblina da prece...
eu te saúdo manhã
feita de vida
e te peço a luz
em meu viver!...

 Maria Mamede


(in Dez Sete- antologia/2007)

CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

 

DE FÉRIAS...

 

Eu Bom dia, como está?

ElaOlá, bom dia! Tudo bem. E consigo?

EuTudo bem, felizmente. Então hoje que traz para ler?

ElaNada de especial, um livro cor-de-rosa para fazer de conta...

EuRomance?

ElaSim, de cordel.

EuPortuguês?

ElaEm português mas por tradução do espanhol.

EuCorin Tellado?

ElaO quê, lembra-se dessa?

EuNunca li mas em casa dos meus pais era o que se dava às criadas para lerem.

ElaNão, não é essa Autora mas deve ter-lhe copiado o estilo. Mas em casa dos seus pais punham as criadas a ler?

Eu Sim, claro! As que lá chegavam analfabetas eram convencidas a irem à Junta de Freguesia, a seguir ao jantar, às aulas de alfabetização de adultos. Foram todas!

ElaE aprendiam alguma coisa?

EuSim, sim! Por pouco que aprendessem, pelo menos passavam a distinguir um «A» de um «B». Mas todas aprenderam a ler e a escrever. E ainda foram umas 3 ou 4. Houve uma que até arranjou por lá um namorico e saiu lá de casa para casar.

Outras também acabaram por singrar na vida, umas assim e outras assado, já não me lembro.

Ela E estavam em casa dos seus pais muito tempo?

Eu Normalmente, o suficiente para rumarem por aí fora... casavam, emigravam, eu sei lá! Houve uma época em que o Luxemburgo atraía muita gente. Mas lembro-me duma Maria da Luz que casou com um maquinista da CP de apelido Machado e que, já casados, foram para Moçambique. Curiosamente, foram viver para Vila Machado, ali a meio caminho entre a Beira e Vila Pery, às portas do Parque da Gorongosa. Numa grande viagem através de Moçambique, fiz questão de ir ver Vila Machado só para ter uma ideia do sítio em que eles tinham vivido anos e anos.

ElaE que tal era essa Vila Machado?

EuRazoável. Bastante melhor do que as Minas de São Domingos de que ela era natural. Ele, Machado, não sei de todo donde era. Mas Vila Machado era aprazível e com bastante actividade. E localizada a meio caminho da Beira para a Rodésia, com tantos passantes e com tanta actividade ferroviária, dava para não morrer de tédio. Hoje chama-se Nhamatanda e, pelo que pude ver no YouTube, já viu melhores dias como esse de 1972 em que por lá passei.

Ela E essa sua antiga criada também era analfabeta quando foi para casa dos seus país?

Eu Não, não. Essa sabia escrever muito bem e correspondeu-se sempre com a minha mãe. Quando regressou a Portugal porque o marido se aposentara, foi visitar-nos e depois regressou ao seu Alentejo. Citei-a a propósito das que saíam para casar ou para emigrar. A casa dos meus pais (e já a dos meus avós assim era) servia de trampolim para elas subirem na vida porque as analfabetas aprendiam a ler e as que vinham «da Província» aprendiam a viver numa cidade.

ElaQuer dizer que a casa dos seus pais era uma escola para essa gente.

Eu Se quiser chamar-lhe assim, é simpático da sua parte e não anda muito longe da verdade.

Ela E elas liam Corin Tellado?

Eu Acha que lhes íamos dar os Lusíadas ou Immanuel Kant? As leituras têm que ser apropriadas aos leitores para que a evolução se faça sem quebras de interesse. Se lhes déssemos coisas maçudas, elas deixavam de ler e isso seria o contrário do que nós queríamos. Estou a referir uma época em que nem sequer havia televisão em Portugal e em que à hora do almoço uma parte do país parava para ouvir o teatro radiofónico patrocinado pelo TIDE, que tinha uma cochinha que era a boazinha e punha as criadas todas de lágrima ao canto do olho. Os livros da Corin Tellado eram o prolongamento desse estilo. E elas gostavam, liam, comentavam e lá iam despertando uns neurónios que antes estavam adormecidos...

ElaAcha que os meus neurónios estavam adormecidos por estar a ler este género?

Eu Que ideia! Desculpe a gaffe mas até já me tinha esquecido do seu livro. Mas aproveito para lhe contar uma história: o meu avô, que era um erudito, preferia que as pessoas lessem e vissem os bonecos dos livros do Tio Patinhas do que não lessem nada. Ele dizia – e eu dou-lhe toda a razão – que mais vale ler uma lista telefónica do que adormecer sem passar os olhos por alguma coisa que mexa com as ideias. Adormecer em imobilismo mental degrada o cérebro.

ElaAcha?

EuEstou a ler um livro do Professor António Damásio, «O livro da consciência» e espero aprender alguma coisa que me permita confirmar ou infirmar essa ideia do meu avô. Depois lhe conto... Entretanto, levo sempre comigo um livro para a cama e invariavelmente dou por mim com ele na cara. Só depois dessa cena de verdadeiro «Facebook» é que apago a luz e me viro para dormir. Mas entretanto, o cérebro mexeu, acomodou-se e dormiu.

ElaGostei dessa, a do «Facebook»...

EuE porquê uma leitura dessas?

ElaPara esvaziar a cabeça. Exactamente o contrário das criadas dos seus pais. É que acabei ontem a tradução de um catálogo técnico alemão e estou precisada de leituras opostas àquilo.

EuSim, sim! Um catálogo técnico alemão deve assemelhar-se a um conto ao estilo do Edgar Allan Poe, catacúmbico. E o seu marido também é engenheiro?

ElaSim, mas ele já está reformado. Olhe! Ali vai ele a fazer o seu jogging. Daqui a bocado vem aqui tomar uma água e depois vamos almoçar a casa. À tarde vamos dar um giro com os netos e assim se passa mais um dia de férias de Inverno.

Eu Estamos quase todos de férias...

Ela Eu não estou! Trabalho em casa, aqui na esplanada, onde me apetece, mas trabalho. O meu marido é que já está de férias. Olhe, cá vem ele.

Ele Olá, bom dia! Então a minha mulher já lhe explicou o catálogo todo que esteve a traduzir?

EuBom dia! Não, pelo contrário, temos estado a falar sobre criadas e Corin Tellado.

EleSobre quê?

Ela Não é quê, é quem. Corin Tellado. Era uma escritora espanhola de romances de cordel, parecidos com este que comecei a ler e que os pais deste nosso amigo davam às criadas para se habituarem a ler.

EuSim, para desenferrujarem alguns neurónios. Aprendiam a ler nas aulas nocturnas da Junta de Freguesia e em casa dávamos-lhes coisas por que se interessassem para ganharem hábitos de leitura.

EleE «fizeram» alguma Doutora?

EuCreio que não mas de certeza que os filhos delas não ficaram analfabetos. Sempre pensámos que é muito mais útil combater o analfabetismo adulto feminino do que o masculino. Convencendo a mulher a aprender a ler e escrever, não tarda muito para que o homem a siga para não se sentir ferido no seu orgulho; a mulher instruída educa os filhos de um modo diferente da mulher não instruída. Em «economês», o investimento na educação feminina tem um efeito multiplicador muito maior do que o investimento homólogo no masculino.

Ela É capaz de ter razão.

Ele Sim, acho que sim. E agora a que se dedica? Está ao activo ou reformado?

Eu Estou reformado há quase 10 anos e dedico-me a estudar e a escrever umas linhas... Mas sinto necessidade de mais alguma coisa.

Ela O quê, por exemplo?

Eu Não sei. Apenas me acho um inútil.

EleMas se estuda e escreve, não é inútil de certeza.

EuE se o que escrevo não presta?

EleBem, esse é um risco que todos os escritores correm.

Eu O que sinto que está mal é haver tanto reformado que nada faz. É vê-los nos jardins públicos a jogar à batota de manhã à noite. E eu não vou jogar à batota mas venho aqui para a esplanada ler um ou outro livro, o que em termos de PIB é zero. E é isto que me dana: não ter utilidade, não ter uma missão. Nós, os que nos consideramos a elite nacional, devíamos outorgar-nos uma missão que ajudasse de modo mais ou menos decisivo a tirar-nos do subdesenvolvimento relativo em que ainda nos encontramos.

Ela Um voluntariado?

Eu Sim, por exemplo. Mas em quê? Sabe, teria que ser uma coisa que eu considerasse mesmo útil. Uma coisa que ajude a resolver problema estrutural da nossa sociedade, do país. Essa da educação de adultos seria muito importante mas não tenho as habilitações necessárias. As Universidades para a Terceira Idade também pouco me dizem... Estou assim como que no vazio.

Ele E continuar a exercer a sua profissão?

Eu Isso faço todos os dias na Internet mas não passa de «béu-béu» e «blá-blá». Aliás, no Facebook todos sabem imenso de economia e toda gente atira sentenças para a praça pública. Às vezes irrito-me e zurzo neles. Zangam-se muito comigo, chamam nomes à minha mãe e sinto-me a remar contra a maré dos malfeitores que por aí pululam nos meios de comunicação.

Ela E aceita sugestões?

Eu Sim, claro! Estou ávido delas.

Ele Então a minha mulher e eu vamos pensar no assunto e um dia destes trazemos-lhe uma lista de coisas que o possam motivar.

EuQue bom! Que seja já amanhã que me trazem essa lista.

ElaBem, dê-nos um tempinho para podermos pensar nalguma coisa.

EuFico ansiosamente à espera das sugestões. E quando mas derem, vou publicá-las para que outros se inspirem. Há que pôr os reformados a fazer alguma coisa útil em vez de ficarem a consumir oxigénio até que a morte os leve.

EleBem, parece que está na hora de irmos... Vou tomar um duche depois da corridinha que dei, vamos almoçar e depois vamos entreter os netos enquanto os pais deles estão a trabalhar.

EuMuito bem! Então até à próxima e, de preferência, com a lista de trabalhos para eu sair do nada. E obrigado pela ajuda!

Eles Até amanhã!

 

 

Foi de propósito que não lhes contei que tenho o dia todo ocupado e que só aqui venho à esplanada escassa hora por dia. Puxei-lhes pouco pela língua mas será que ele percebeu que fazer jogging é o mesmo que ir para o jardim público jogar à batota?

 

Por vezes ponho-me a pensar nestas coisas... Platão dissertou sobre a «ética do prazer»; os filósofos cristãos – desde os Santos Padres, passando pelos Doutores e até hoje – pugnam pela «ética do bem»; terá certamente sido a educação prussiana que imperava na sua envolvência que levou Immanuel Kant à «ética do dever». E o que terá sido que nos levou a nós, portugueses, à «ética da madracice»? Porque será que, logo que podemos, nos encostamos a não fazer nada? Porque nada sabemos fazer ou porque somos mesmo madraços? Eis a questão!

 

Lisboa, Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

CARTA A UM AMIGO QUE PARTIU



É Outono outra vez!
As folhas mortas cobrem o chão
e um vento, agreste
vem falar despedidas.
Hoje, vieram dizer-me
que tinhas partido...
será que voaste?!
É Outono, outra vez!
E ainda há pouco
tu me falavas em Primavera...
sei que o Sol está mais fraco
e as andorinhas
já deixaram os nossos beirais;
talvez nalguma delas
achasses transporte
ou, quem sabe, andes por aí
feito menino
a brincar com a bola de trapos
ou a jogar ao pião
ou ao arco
na margem do rio
este que amamos
e te viu nascer...
é, decerto voaste!...
E eu tinha tanta, tanta coisa
para te dizer!...
Porém, as palavras, agora
deixaram de ser precisas;
o pensamento basta!
E também sei
que mais logo
quando a noite cair

neste nosso ilusório firmamento
há-de brilhar mais uma estrela!


 Maria Mamede

 

Por intenção do meu amigo Luís Vaz a quem acompanhei hoje ao Cemitério do Alto de S. João

Henrique Salles da Fonseca

POR UM PORTUGAL À IRLANDESA

 Vítor Gaspar recebe um cheque de oito mil milhões e elogios ao OE

Sugerir que a Irlanda não se submeteu à troika e à austeridade, e que por isso foi bem sucedida, é coisa que daria para rir, se não fosse mais um triste caso de cegueira ideológica e de manipulação intelectual.

 

E de repente, toda a gente descobriu que a Irlanda é que é bestial. Que o Governo o diga, e a queira imitar, até tem uma certa lógica, tendo em conta que a Irlanda sempre foi apresentada publicamente como "o país que Portugal quer copiar", tal como a Grécia foi apresentada como "o país que Portugal quer evitar".

 

No entanto, subitamente, a Irlanda parece o tipo lá da rua que ganhou o Euromilhões: um dia acorda e descobre que está cheio de amigos, incluindo vários que nunca antes tinha visto na vida.

 

Eis o porta-voz do PS para assuntos económicos sobre a Irlanda: "Procurou, sempre que possível, obter um ajustamento que considerasse também o crescimento económico" e "ainda este ano, na preparação do Orçamento para 2014, a Irlanda recusou o nível de austeridade que a troika queria impor". Eis Mário Soares sobre a Irlanda: "Soube ter um Governo competente para sair [da crise].

 

Porquê? Porque não foi subserviente e a política foi sempre – ou quase – dominante sobre os mercados usurários." Eis Carvalho da Silva sobre a Irlanda: "Em Portugal estamos a ser objectivamente conduzidos por políticas de contínuo empobrecimento. A Irlanda tem uma actuação de governação de defesa do interesse nacional e de afirmação dos seus valores. Em Portugal não. Temos governantes a apoiar a troika."

 

Eu não sei que jornais estes senhores andam a ler, mas não devem ser os mesmos que eu leio. Nos meus jornais, li que o Orçamento irlandês para 2014 – o tal pós-troika – impõe cortes de 2,5 mil milhões de euros, e entre as suas propostas está a perda do acesso gratuito à saúde de 10% dos pensionistas com mais de 70 anos. Será que Seguro, Soares e Carvalho da Silva concordam com a medida?

 

A Irlanda reduziu o seu défice de 30,6% em 2010 para 7,3% (estimativa) em 2013 e quer atingir 5,1% em 2014. Estamos a falar de um esforço muitíssimo mais violento do que o português – uma queda de 25,5 pontos percentuais. Segundo o Financial Times, os cortes na despesa irlandesa desde 2008 já ascendem a 28 mil milhões de euros. O défice português em 2010 foi de 10,2%, e aquilo que se pretende é que ele venha a ser de 4% em 2014 – ou seja, uma diminuição de 6,2 pontos percentuais, quatro vezes menos do que a Irlanda. E para cortar os eternos 4,8 mil milhões de euros com a famosa "reforma do Estado" tem sido o cabo dos trabalhos. Comparem estes valores, se faz favor, e digam-me sem se rirem que a Irlanda saiu do programa da troika com a casa arrumada e confiança para dispensar um programa cautelar porque "a política foi sempre dominante sobre os mercados usurários".

 

Defender tal coisa é aplicar o velho ditado "a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha" à macroeconomia. A Irlanda só é espectacular porque fica a espectaculares 2500 quilómetros de distância. Não, a Irlanda não fugiu à austeridade. Pelo contrário, aplicou-a com mais afinco do que Portugal, e com protestos nas ruas. Claro que a sua economia nada tem a ver com a nossa. Claro que o seu sector exportador é duas vezes e meia o tamanho do português em percentagem do PIB. Claro que não foi tão penalizada pelo desemprego. Claro que é preciso analisar cada país, perceber as suas especificidades, em vez de andarmos a patrocinar as habituais queixas por atacado. Mas sugerir que a Irlanda não se submeteu à troika e à austeridade, e que por isso foi bem sucedida, é coisa que daria para rir, se não fosse mais um triste caso de cegueira ideológica e de manipulação intelectual.

 

21/11/2013

 

 João Miguel Tavares 

IRÃO, HOLLANDE E KHAMENEI

 

 

Parecia milagre o diálogo aberto, até amigável, entre o ministro das Relações Exteriores do Irão, Mohamed Javad Zarif, e a comissão internacional sobre o problema atómico.

 

Milagre também a conversa telefónica entre este e Obama.

 

O mundo sorria, tinha esperança.

 

E tudo parecia correr para bom termo, para entendimento entre povos há tanto separados, quando a cizânia (do grego zizanion, joio) se instala, mais uma vez, e como sempre, pela intervenção daquela parcela de humanos que jamais deveriam ter saído das grades de um zoológico: os estúpidos.

 

Começou já há alguns dias quando o entendimento e a educação entre os negociadores pareciam estar a correr muito bem, mas... sem a intervenção da França.

 

Foi a entrada da tal cizânia! Um dos ministros deste miserável e desprestigiado governo lembrou-se de levantar a voz, vociferar contra o Irão dizendo que a França, note-se bem a França “daqueles valores” que eles estão sempre a alardear – la Republique, l’Igalité, etc. – “não iria permitir, de forma alguma, que o Irão tivesse a bomba atómica”.

 

Berrou isto diversas vezes até que o senhor Hollande, o hollandinho, que está com o mais baixo índice de aprovação desde... décadas, e com o país a afundar-se, greves e revoltas por todo o lado, se lembrou também de ir “dar uma de gostoso” desembarcando em Israel para dizer aos judeus que a França, que não está a meter o bedelho nas negociações com o Irão, não ia permitir a tal bomba.

 

Esta, sim, uma bomba. Os israelitas ficaram muito contentes com aquela insensata visita, não entenderam o porquê da mesma, o hollandinho sentiu-se herói, e no dia seguinte entrou a “besta fera” no caminho.

 

O “adorável” Khamenei, o manda-chuva, e manda tudo no Irão, num pronunciamento igualmente besta ao do francês, ameaçou os judeus de destruição, disse que o problema atómico era dele, dele, Khamenei, e que quem se metesse com ele, ele Khamenei, se daria mal.

 

Um balde de água fria nas negociações que agora vão demorar mais tempo.

 

Tudo por culpa do senhor Hollande, chefe de um des-governo francês, que sentindo-se a afogar em casa, onde não sabe o que fazer – e parece que tudo quanto faz é errado – e desprestigiado por não ser o principal interlocutor nas negociações, nem o “porta-voz” do super Obama, abriu a boca para dizer um monte de besteira, indo até Israel, convencido que de lá sairia com coroa de louros como os generais romanos ao regressarem vitoriosos a Roma para serem aplaudidos pelo povo.

 

França, o país que divulgou o conhecimento na Europa, de Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Descartes, de Racine e Victor Hugo e tantos outros que brilharam e deram à França um sentido de respeito, devem dar voltas no túmulo ao verem tão pobre a cabeça dos, hoje, seus des-governantes.

 

E assim vai o mundo. Entregue a ineptos, corruptos, gananciosos, malandros e, pior do que tudo, estúpidos.

 

Rio de Janeiro, 21/11/2013

 

 Francisco Gomes de Amorim

DO SONHO


Do sonho
apenas o momento
basta...
do resto faremos
mais além
o sonho
outra vez
que nos arrasta
a fazer
o que nunca
ninguém fez...
do sonho
apenas suavidade
e beleza
cambraias, musselinas
leveza
igualdade
sem deslizes
no ser e no sentir
e nada mais...
tudo é permitido
se sonhamos
e é no sonho
em que nos damos
que somos felizes
e iguais!...


 Maria Mamede


(in Dez Sete- antologia/2007)

O “CARUNGO” EM “CARTA DA ZAMBÉZIA” DO BISAVÔ GAVICHO

 

 

 

Da velha mala do meu pai, onde os livros que não cabiam na sua estante tinham sido arrumados pela minha irmã, retirei um de que há muito ouvira falar, sem saber que existia tal preciosidade no espólio da minha família. Tratava-se de “Cartas da Zambézia” de Francisco Gavicho de Lacerda, avô do Rui e do Otto, bisavô de meus filhos Ricardo, Paula e João, filhos do Rui, de minhas sobrinhas Mirene e Madalena, filhas do Otto, Rui e Otto filhos de Luís, além de outros primos, filhos de um meio irmão do Rui e do Otto, Luís, de um primeiro casamento do pai, amigos dos meus filhos, mas com raras aproximações, que os vendavais do tempo foram disseminando pelo mundo. Mas outros filhos “Lacerda” teve o “avô Gavicho”, segundo designação dos manos Rui e Otto, e outras famílias se dispersaram no mundo, alguns bem simpáticos, no dizer da minha filha Paula, que conheceu uma tia, irmã de seu pai, no dia do funeral deste.

E deste jeito bíblico, embora com mais modéstia na indicação das idades – largamente centenárias as dos patriarcas do Génesis – se aponta a via paterna da família Lacerda, com assento no “patriarca” ilustre e de brasão que, nas suas “Cartas da Zambézia” forneceu tantos dados sobre a terra de que a minha amiga, nove décadas depois - o livro foi publicado em 1923, em 2ª edição - fala sempre com emoção e entusiasmo – os mesmos que impeliram o “avô Gavicho” da designação do seu neto Rui, a defender essa terra, para onde foi “trocando a luzente fardeta de cavalaria pela indumentária simples de colono”, “a moirejar sem descanso até que, porfiando e lutando, conseguiu tornar-se arrendatário de um “prazo” que, ao presente, lhe assegura um rendimento algumas vezes multiplicado pelo soldo que, decerto, lhe caberia no posto de comandante de um batalhão, se tivesse seguido a carreira militar.”

São estes dados colhidos do Prefáciodo livro, pelo seu amigo e ex-colega jornalista, escritor Affonso Gayo, que, no penúltimo parágrafo, resume assim o conteúdo do livro de Gavicho de Lacerda: “Da sua leitura conclui-se qual é o valor daquela rica possessão, fica-se sabendo o que se tem feito e o que é necessário fazer para a tornar mais valorizada. Estimulam, criam iniciativas e dão fé aos que pretendam emigrar por aquelas paragens. Explicam-nos o modo como o emigrante aprende, ali, a ter iniciativas, se habitua a proceder e a deliberar, a fim de vencer as agruras do clima, a suportar com coragem as dificuldades da adaptação e a reunir, pelo trabalho e estímulo individual, um somatório de energias com que pode combater com a saudade dos entes caros e com a nostalgia do rincão onde nasceu.”

Foi com curiosidade que o li, desde a dedicatória à mocidade actual “por intermédio do “Ill.mo e Ex.mo Sr. Ministro da Instrução Pública”: «Desde criança que ouvimos dizer – “O futuro de Portugal está nos mares”. – Quando do “Ultimatum” de 1891, em que a nação despertou pela vibrante e terrível chicotada de Jonh Bull, e que fez que trocássemos a modesta farda de estudante militar pelo fato de caqui, foi lá, no ultramar, que fomos ver e aprender o quanto havia de verdadeiro, naquelas palavras…» dedicatória que conclui: « Na Zambézia trabalhámos, lutámos; à Zambézia dedicamos o amor de segunda pátria. Se a mocidade tirar algum proveito da leitura deste livro, consideraremos isso como justo galardão e daremos por bem empregados perigos, trabalhos e desgostos que por lá passámos.»

Vária é a gama de assuntos e fotos – entre as quais a do autor, garbosa figura, na foto inicial, mais jovem e descontraída a de interior, rodeado de africanos e arvoredo, perto da residência do Carungo – “O Autor, um ano depois de ter partido para a Zambézia”.

Curioso volume de memórias sobre um território, pois, que desbravou e amou, não poupando críticas a certas formas de extorsão ou de desleixo das políticas portuguesas, que dificultavam e atrasaram sempre o desenvolvimento da colónia, pelo atraso das concessões de terrenos, da construção de vias e portos «Lá fora somos conhecidos pelo vergonhoso epíteto de “empecilhos da civilização”»… «Devemos considerar que, se continuamos a ser uma nação livre e independente, unicamente o devemos ao nosso grande domínio colonial, por conseguinte têm as colónias todo o direito a ser dotadas com os melhoramentos que a civilização e o progresso indicam e as suas urgentes necessidades reclamam.»

Era um homem de fibra, o avô Gavicho, mas inúteis são os seus conceitos hoje a que - embora insistindo-se no “tal futuro marítimo português centrado no mar ”, não o além-mar colonial, há muito morto em colapso, mas num mar de turismo ou carga que exige dinheiro, também em colapso - se ficará indiferente perante dizeres para sempre inúteis de valorização de propriedades, como no passo seguinte: “O Chuabo Dembe é uma das primeiras propriedades agrícolas da Zambézia, causando inveja a alguns arrendatários. É banhada pelo Rio dos Bons Sinais ou de Quelimane, e separada da vila pela Avenida da Circunvalação. Cortam-na os canais Namarra e Nhama e há meia dúzia de anos era mato espesso e impenetrável, sendo por isso ainda mais admirável a sua transformação». E segue-se a eloquente descrição.

O horror das secas, a praga dos gafanhotos que tudo devastam, a indolência manhosa da raça indígena, as operações de infiltração pelo interior em colunas de que fez parte e que descreve com dados de rigor, as missões católicas, o absurdo envio pela Metrópole de degredados como colonos, os palmares de coqueiros que ele próprio mandou plantar e o valor comercial da copra, assim como outras riquezas e anomalias várias, tudo isso é descrito com vigor e desassombro, em páginas apaixonantes de história pessoal e colonial, que bem poderiam inspirar os empresários cinematográficos para um filme de tão diversa cenografia.

Deste livro que meu filho mais velho encontrou um dia na Real Biblioteca Portuguesa do Rio de Janeiro, transcrevo excertos da primeira carta, sobre o “Carungo”, onde os meus filhos também brincaram na adolescência, na casa do avô Luís e da avó Irene, jogadora impenitente da canasta com as suas amigas de Quelimane, carta que contém, entre outras, a foto da casa, que reconheço por ter fotos idênticas.

Entretanto, a curiosidade levou-me a procurar o livro na Internet, que encontrei bastamente exposto. Creio que a 1ª edição foi de 1920, a 3ª de 1939, e, naturalmente, existe na Biblioteca Nacional. Penso que merece o destaque e maior ainda poderia ter tido durante os tempos colonialistas, em que poderia ter contribuído para sanar erros da administração de lá como de cá. Passou. Mas o retrato do povo português lá está, com os defeitos e virtudes de sempre. E entre esses, o retrato de Francisco Gavicho de Lacerda, homem de coragem e de princípios, “da velha linha dos Cabrais”, diria o seu neto Rui por brincadeira. Fico feliz por meu pai o ter lido, provavelmente comprou-o quando foi transferido para Quelimane, por um daqueles motivos da governação colonialista, de ostracismo tanta vez, e injustiça.

«Os Prazos da Zambézia»

Nota em rodapé: No prazo Carungo existem hoje 300 000 palmeiras sendo cerca de 100000, pertencentes ao arrendatário e o resto a vários proprietários, filhos do país, e a colonos que ali encontraram campo propício para a sua actividade, assegurando, também de alguma forma, o seu futuro. Devido à sua pequena área, é dos poucos prazos que têm mais da terça parte agricultada e plantada. As plantações estão divididas pelos três distritos de Carungo, Nametange e S. Domingos, em que está dividido o prazo, o que proporciona aos indígenas o trabalharem próximo das suas povoações, não havendo necessidade de os deslocar para longe delas. Este prazo, como acontece com os outros da Zambézia, está cortado por uma bela rede de estradas carreteiras, tendo-se construído pontes sobre os cursos de água e aterros sobre os terrenos pantanosos. Constroem-se nele embarcações de vária tonelagem; fabrica-se tijolo, cria-se toda a espécie de gado e não há género no país que ali se não cultive, quer para alimentação dos trabalhadores, quer dos animais. (…)»

««Perde-se na noite escura dos tempos a origem da antiga e histórica instituição dos prazos da Zambézia, cujas raízes fecundas, alastradas por esta tão vasta como rica região, têm resistido a todos os golpes , como os de 6 de Novembro de 1838, 22 de dezembro de 1854, e 27 de Outubro de 1880, lhes vibraram, a fim de extinguir tão benéfica como única e profícua instituição.

Por mais esforços que tenhamos feito e por mais trabalho que tenhamos empregado, ainda não conseguimos, até hoje, descobrir a origem do sistema dos prazos, a que a Zambézia deve o estado de riqueza e florescência a que chegou.

Mas parece que a divisão do território em prazos é quase tão antiga como o nosso domínio, assim como também datam dessa época as obrigações que regulavam o estabelecimento de portugueses naquelas magníficas paragens. Mais tarde, António Enes quando Comissário Régio, que a Moçambique dedicou excepcionais cuidados, viu, com olhos de ver, que o verdadeiro caminho para a prosperidade e engrandecimento da Zambézia, era o sistema dos prazos que ali estava enraizado há séculos, na índole dos seus povos, educados por gerações sucessivas de portugueses que para a Zambézia iam trabalhar, viver e morrer, e que da Zambézia faziam uma segunda pátria.

Aquelas vastíssimas extensões de terreno, cobertas de florestas virgens, de pântanos mortíferos, estão hoje transformadas em viçosos palmares de milhões de coqueiros, de plantações com léguas de extensão, de cana sacarina, de algodão, de sisal, de tabaco, milho, etc. (…………….)

O prazo Carungo, de que somos arrendatário, é um dos mais pequenos da Zambézia, situado na margem esquerda do Rio dos Bons Sinais, a umas dez milhas da Vila de Quelimane. Estende-se até à foz do Rio Linde, ficando, por assim dizer, encravado entre os prazos Inhassunje e Pepino..

Tem três estações agrícolas: Carungo, Tumbuíne e S, Domingos, com cerca de 83 000 palmeiras, metade em produção e 20 000 em viveiro, para novas plantações. A natureza do terreno, que é muito baixo, como todo o do grande delta do Zambeze, tem feito que hajam sido infrutíferas todas as outras tentativas de diversas plantações que temos experimentado, como café, borracha, sisal, etc.

Produz arroz em grande quantidade, feijão, mandioca e hortaliças e tem lindos pomares de laranjeiras, tangerineiras, ateiras, goiabeiras, papaieiras, etc

O seu arrendamento foi-nos dado por mais 15 anos, olhando aos serviços que prestámos em diversas campanhas e ao facto de termos agricultado maisde 1200 hectares de terreno a que, pelo primitivo contrato, não éramos obrigados.

É um dos três prazos da Zambézia que ainda não foi absorvido pelas grandes companhias e, apesar de termos pedido autorização ao governo e esta ter sido concedida e há dois anos publicada no Boletim Oficial da Província, para o trespassarmos para a sociedade do Madal, não o fazemos, porém, por nos acharmos ainda com forças para trabalhar, não obstante vinte anos de permanência nesta região, e por desejarmos que os nossos filhos venham, mais tarde, a seguir as nossas pisadas e acabar a nossa obra ideal de plantar todo o terreno susceptível de o ser. (…..)»»

Conclui a carta, após a referência à hospitalidade das suas gentes, com a crítica à indiferença dos governos por melhoramentos tão frequentemente pedidos e que “o seu desenvolvimento e a sua riqueza reclamam”, e pelos quais ele continuará sempre a bater-se.

 

 Berta Brás

 

http://fundacaogavichodelacerda.org/

 

CONCEITO DE ESQUERDA

 

 

Como é sabido, os conceitos de “esquerda” e “direita”, em política, começaram durante a Revolução Francesa, em 1789, na Assembleia Nacional, em que se sentavam à direita do Presidente os defensores dos privilégios dos nobres e do rei e, à esquerda, os defensores do povo, que usavam o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

 

Adaptados aos tempos actuais, esses conceitos podem exprimir-se pelas acções que as pessoas ou os partidos defendem, se não estão no poder, ou que praticam, se estão no poder. Dum escrito antigo transcrevo:

 

(...) podemos dizer que são acções de esquerda as nacionalizações, a redução do leque salarial (na extrema esquerda os salários seriam todos iguais), saúde, educação e protecção na velhice como encargos do estado, predomínio do trabalho sobre o capital (na extrema esquerda não pode haver capital privado), impostos altamente progressivos, em que quem tem mais paga proporcionalmente mais e quem tem muito mais paga proporcionalmente muito mais, etc. Por oposição, são de direita as privatizações, um grande leque salarial (desde salários de miséria a salários muito altos), saúde, educação e protecção na velhice como negócios privados, predomínio do capital sobre o trabalho, impostos pouco progressivos ou, até, todos a pagarem a mesma percentagem, etc.

 

Assim, é na base das acções que praticaram quando exerciam  poder que vamos avaliar os partidos e as pessoas, principalmente os Primeiros Ministros. Nos estados actuais há sempre acções de esquerda e acções de direita, sendo a proporção de cada uma que determina a sua posição, no espectro político. Quem praticou mais acções de direita não pode ser chamado “de esquerda”.

 

Do artigo atrás citado transcrevo:

 

O Partido Socialista “era” um partido de esquerda após o 25 de Abril, quando andava de braço dado com o Partido Comunista a fazer nacionalizações e actos do género e Mário Soares, na rua, de punho erguido, berrava “Partido Socialista, um partido marxista!

Mas algum tempo depois o discurso já não era o mesmo e não tardou a abandonar o socialismo, antes mesmo de Mário Soares declarar expressamente que tinha “metido o socialismo na gaveta”. (Para ser coerente, a partir dessa data o partido deveria ter mudado de nome. Mas todos sabemos que os nomes dos partidos pouco ou nada significam).

 

Essa “ausência de esquerda” (virar à direita) continuou com Guterres, com várias acções de direita e, de esquerda, apenas o Rendimento Mínimo Garantido, de muito duvidosos resultados. Com Sócrates, alegadamente “socialista”, foi um regabofe de extinção de serviços públicos, para obrigar a dar negócio aos privados, reduziu os ordenados de quase toda a classe média e sobrecarregou-a com impostos, alargou o leque salarial, fez dezenas de PP (parcerias público-privadas) para dar bons negócios aos privados (beneficiários e não concessionários, como lhes chamam), com elevados lucros garantidos, à nossa custa. Colocou as finanças públicas em estado tão lastimável que teve de submeter o país â humilhação da troika e duma astronómica dívida, porque, segundo declarou, se o não fizesse não haveria dinheiro para pagar ordenados e pensões. Não disse que não haveria dinheiro para pagar às tais PP, nem para dar aos partidos, nem para dar às fundações ditas “privadas”, nem para pagar “pareceres” caríssimos, nem para as milhentas e absurdas mordomias. Governou, portanto, como extrema direita.

 

O “Expresso” tem, nos seus dois últimos números, apresentado crónicas sobre as próximas eleições presidenciais e uma grande lista de potenciais candidatos. Essa lista está dividida em duas, uma com os candidatos que considera “de esquerda” e a outra dos candidatos “de direita”. Entre os “de esquerda” está Sócrates...

 

É muito bizarro o conceito de ”esquerda” que vigora em Portugal!

 

 Miguel Mota

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 21 de Novembro de 2013

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