A estabilidade política em Moçambique pode estar em perigo com o assalto que o Exército da FRELIMO fez em 21 de Outubro de 2013 à base do líder da RENAMO e do respectivo Exército.
Sim, em Moçambique não há um Exército a que se possa genuinamente chamar Nacional pois que os militares estão muito politizados e claramente ao serviço de cada uma das forças políticas. E quando o diálogo político não existe, os confrontos militares são um cenário a não ignorar.
O esmagamento político de uns por outros e as eternas dúvidas sobre a linearidade da prática política, não me permitem afirmar com plena confiança que a democracia de jure tenha jáalcançado em Moçambique o de facto.
E a questão também está em saber se o modelo político ocidental é genuinamente aplicável às Nações africanas e respectivos acervos culturais. Terão já os Chefes de Estado conseguido ultrapassar o tão enraizado conceito de Soba? Terão as Assembleias Nacionais conseguido granjear prestígio suficiente para suplantarem os Conselhos de Anciãos?
A fragilidade cultural da democracia africana deveria induzir os actores a levarem a «peça» mais a sério em vez de construírem figurinos ao estilo do «faz de conta» sob pena de deitarem tudo a perder, nomeadamente a credibilidade internacional que esse figurino – pelos vistos fictício – lhes tenha proporcionado.
Aquelas minhas perguntas são claramente capciosas pelas maiores dúvidas que nelas encerro mas não posso também deixar de lembrar que faltam apenas 30 anos para que Portugal perfaça 900 anos de idade e apenas soma 155 de democracia. E mesmo assim, com uma guerra civil pelo meio (as lutas liberais) e uma mudança revolucionária de Regime (5 de Outubro de 1910).
Vai a RENAMO conseguir reunir hoje os apoios que em tempos lhe permitiram fazer a guerra à FRELIMO?
Está a FRELIMO disponível para se sanear dos gravíssimos males que lhe são lautamente apontados?
São negativas as minhas respostas a ambas as perguntas anteriores porque a África do Sul não é hoje o que já foi, a Rodésia já nem sequer existe e o «estilo» do exercício do Poder está agarrado a interesses muito enraizados na «Corte».
É claro que os actores em cena têm espelhos que lhes respondem o que eles próprios querem ouvir. É claro que estamos perante um grande problema.
E eu tenho muita pena de ver Moçambique assim tratado como se fosse qualquer outro país africano.
Estado social. Inventada pela direita no século XIX (Bismarck), esta ideia generosa vive dias de farsa no início do século XXI. Na sua concepção original, o estado social servia apenas os mais pobres, era uma forma de manter a sociedade unida, sem que ninguém ficasse de fora, sem que ninguém caísse na indignidade. Era uma rede, não um modo de vida. Era uma ajuda, não um BPN de privilégios inflacionados. Ora, após século e meio de praxis, podemos dizer que a ideia está muito longe da concepção original. É preciso regressar à base, tal como referiu o Rei da Holanda. Por toda a Europa, o estado social é usado por grupos privilegiados da classe média. Basta olhar para Portugal.
Quem é que faz manifs e greves? São os "pobres" e os desempregados? Não. As greves são usados pelos sindicatos do sector ultra-protegido dos transportes públicos e pelos diferentes sectores da função pública, a parte da sociedade que está constitucionalmente protegida contra o desemprego. Portanto, os indignados são aqueles que estão no topo, não na base, dos privilégios concedidos pelo estado social. Repare-se, por exemplo, na greve do Metro de hoje. Os trabalhadores do Metropolitano recebem salários muito acima da média nacional, têm regalias impensáveis em qualquer outro sector, mas fazem greve quase todos os meses. Não estão a defender direitos inerentes ao estado social, estão a defender privilégios que conseguiram impor a este estado social farsante.
A história das pensões de viuvez é outro exemplo. Viúva não é escalão do IRS.
Num país onde a média das pensões ronda os 400 euros, viúvas com reformas abonadas não podem receber um suplemento. É injusto. A senhora x deve receber a "pensão de sobrevivência" se a sua dignidade ficar em risco após a morte do marido. Mas, se recebe uma reforma de 1000, 1500 ou 2000 euros, a dignidade da senhora x não fica afectada num país onde o salário mínimo não chega aos 500 e onde o salário médio está entre os 800 e os 900 euros. Na verdade, esta ideia justa (apoiar a viuvez) está a ser deturpada por milhares de abusos. Já conheci "pensões de sobrevivência" superiores à reforma combinada dos meus padrinhos. Ou seja, além de reformas abonadas bem acima dos 2000 euros, as senhoras y e w tinham um bónus de viuvez superior a 600 euros. Que justiça social é esta? E quantas viúvas continuam a ser viúvas mesmo depois de viverem décadas com um segundo marido?
Para se proteger quem realmente precisa, é necessário impor um tecto máximo a partir do qual a senhora x não tem direito a pensão de viuvez. Não é uma questão financeira, é uma questão de moral pública. O único debate aceitável está na definição do valor do tecto. Sempre considerei que o valor oscilante do salário médio (não o mínimo) é um bom início de conversa.
É comum confundir-se um liberal com um defensor dos grandes interesses económicos. Um erro que resulta da ignorância, mas também da má-fé e da incapacidade argumentativa para rebater os pontos de vista do liberalismo.
Na verdade, defendendo um liberal a separação entre os negócios e o Estado, preconiza que o Estado não intervenha na economia. Não favoreça quem quer que seja em detrimento de outros. Não privilegie ninguém; que deixe essa função para os consumidores que escolhem o produto que mais lhes convém.
A percepção desta realidade tem implicações interessantes. Leva a que compreendamos que é o socialismo (e a social-democracia) que se associa aos mais fortes para fazer mexer a economia. Na medida em que o estado socialista (ou social-democrata) vai além das suas meras funções sociais, intervindo na economia e dando incentivos e subsídios a certas empresas para que invistam e se desenvolvam, somos levados a concluir ser o socialismo que se associa aos mais fortes para o cumprimento de metas económicas politicamente estabelecidas.
É assim que um liberal acaba por defender um Estado verdadeiramente independente e livre, apesar de limitado. Que seja um justo mediador de conflitos e um ponto de equilíbrio entre os cidadãos, precisamente porque sujeito ao controlo efectivo dos indivíduos. Para que tal seja conseguido precisamos apenas de políticos que representem o povo, limitando o Estado, ao invés dos que em seu nome restringem as liberdades
Um pragmatismo sem horizonte ensombra uma vida cultural, sem espaço para a dimensão intelectual/espiritual. Um activismo político irreflectido leva a nossa elite política a tornar-se nos filisteus da nossa cultura ao orientarem-se apenas pelo pragmatismo e utilitarismo. Uma tal forma de fundamentar o saber cria uma realidade sem horizonte. Para a wikipédia “O filisteu não é adepto de ideais, mas apenas de propostas práticas passíveis de serem contabilizadas em melhorias para sua vida privada imediata”. Assim se dá substância ao individualismo hedonista que reduz a aspiração humana às suas necessidades básicas (alimentação, segurança pessoal e sexo) acompanhadas por uma “espiritualidade” secular reduzida ao desejo de fama, poder político e prestígio. Esta filosofia do prazer esteve na base da queda, primeiro dos gregos e depois dos romanos. Independentemente duma filosofia baseada na teoria e na empiria tudo se orienta apenas pelo saber empírico. Hoje tudo orienta por estudos “Sinus-Milieus”; o que importa não é a procura da verdade mas o interessa é conhecer a maneira de vender o seu peixe a determinado meio, diria, o que importa é a definição de estratégias no sentido do compromisso da manjedoura.
A nossa classe política, duma maneira geral, deprecia o pensamento e a arte porque se tornou escrava da agenda do quotidiano sem espaço para o bem nem para o belo. Perdida em accionismos e compromissos podres, serve-se de uma arte escura e negativa para não ter de questionar a sua acção destrutiva da cultura ocidental.
O saber hedonista e o relativismo, defendidos nos períodos decadentes da Grécia e de Roma e praticados agora pela geração pós-guerra, procuram estabelecer o divertimento como o princípio motivador do comportamento humano e social, reduzindo assim o velho objectivo da felicidade, ao prazer. Um a sociedade do mercado desregulado deixa o controle da economia e da moral à lei da oferta e da procura. A felicidade e o bem-comum, a que aspirava a velha sociedade, passam a ser reduzidos ao deleite a nível de sentidos e ao prazer individual. Por outro lado a felicidade também não pode ser limitada à auto-reflexão como quer a filosofia oriental; ela atinge-se na prática do bem, como advoga Aristóteles e no exercício do amor como ensinava o Mestre da Galileia.
Na minha vida experimento o prazer não como fim mas como fenómeno acompanhante dum agir na tenção entre um tu e um eu, a satisfazer-se no nós.
Encontramo-nos na transição, de um direito teórico orientado para o ser, para um direito pragmático, orientado pela experiência do estar, um direito proveniente da prática para a prática. Este saber experiencial é diametralmente oposto ao saber de experiência feito dos portugueses do séc. XV que era orientado por uma missão civilizadora global. O saber pragmático hodierno abdica da verdade e da objectividade para dar espaço a um subjectivismo que melhor medra na anarquia e no compromisso irresponsável do laisser-faire laisser-passer, como substrato dum liberalismo economicista que tudo submete à banalidade dum quotidiano sem horizonte e à alienação duma tradição reflectida apenas à luz do utilitarismo. O espírito proletário (de um socialismo e de um capitalismo primário) estende os seus braços a todos os ramos da cultura, como um polvo implacável que tudo suga e igualiza. Em vez de procurarmos um caminho entre os métodos dedutivo e indutivo, falhamos por optarmos por contemplar um só polo da realidade.
Renuncia-se a um direito de princípios teóricos, fruto da convergência de várias civilizações, que tinha como objectivo uma sociedade justa e feliz, para se optar por um direito formado a partir da experiência adquirida na convivência do dia-a-dia e que tem como objectivo apenas uma sociedade possível. É abandonada a retorta cultural dum diálogo recíproco de aculturação e inculturação que contribuiu imenso para o desenvolvimento dos povos. No pragmatismo duma europa globalista sem missão, assiste-se a um processo de inculturação sem aculturação em que os imigrantes não são estimulados à enculturação, aquela regra bem portuguesa do “à terra onde fores ter faz como vires fazer”).
A doutrina utilitarista/pragmatista em voga renuncia ao melhor para possibilitar o agradável. Enquanto vai vivendo dos rendimentos económicos e culturais armazenados pelos nossos antepassados não é questionada; o problema surgirá quando não houver créditos a fundos perdidos!
Ao transitarmos duma civilização de cultura integrada para uma sociedade de cultura mista (entre multicultura e intercultura) abdica-se paulatinamente do melhor. Em vez de se evoluir regride-se. Estabelecem-se compromissos a nível de direito de caracter habitudinal que dão corpo a hábitos desumanos numa sociedade que já os tinha superado no tempo (eutanásia, aborto arbitrário, manipulação incontrolada do gene, concessão de direitos culturais ultrapassados a sociedades de cultura árabe, etc.).
O Ocidente depois da experiência das grandes guerras continua a viver do equívoco de afirmar a guerra justa em vez da paz justa. A experiência tem mostrado que o empirismo serve os grupos mais fanáticos que se aproveitarão das fraquezas da democracia, para com base em estatísticas imporem reivindicações independentemente da sua verdade objectiva e da sua finalidade numa ética que parta do bem-comum. Precisa-se duma teoria social, também capitalista e socialista, que tenha como ponto de partida, a nível especulativo e prático, o bem-comum. Uma norma legislativa elaborada só a partir do empirismo serviria apenas a miopia dum presente sem futuro. Continuar a seguir uma ideologia subjectivista e relativista só serve a indústria financeira capitalista e o marxismo quando se necessita uma filosofia ética integral consciente da complementaridade das partes no todo.
Não basta a experiência para a formulação da verdade e da lei moral social; ela precisa também do horizonte da teoria abstrata que lhe dá o caracter universal; não lhe chega a feminilidade necessita também a masculinidade; doutro modo passaríamos dum extremo em que dominou a “masculinidade” da inteligência para o outro extremo em que dominaria a “feminilidade”. A verdade, como a sociedade, quer-se simultaneamente masculina e feminina, o que constitui certamente um desafio. O pensamento europeu tem sido sistematicamente distorcido por fábricas de pensamento ao serviço dum cosmopolitismo de economia globalista e marxista, servindo-se para isso de um relativismo absoluto em que o que vale já não é o bem e o belo ideal que conduziu o Ocidente ao apogeu material civilizacional, mas sim a situação prática (reduzida ao enfrentamento do dia a dia) em que a sua metafísica se reduz ao dinheiro, único astro rei, na abóboda celeste económica e materialista. A ideologia e as teorias científicas têm sido confeccionadas no sentido de propagarem e justificarem um globalismo unilateral precoce. Quer-se fazer da economia o esqueleto do corpo social sem que este seja provido de inteligência. Toda a realidade precisa de um tecto metafísico e uma plataforma de equilíbrio compensatório das forças contraditórias.
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status, como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o Campo se tornou num imenso ressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins-de-semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pechisbeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos-ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundiário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao «descoberto autorizado».
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermo-nos ao dinheiro, enforcarmo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbecilidades e tele-fofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental, a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos.
Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
Tenho um caderno de papel vegetal, cuja capa diz: "Caderno de Papel Esquiço". Ora papel "esquisso" sei eu o que é: papel para esboço, pois "esquisso" quer dizer precisamente "esboço".
Mas a palavra "esquiço" também existe, conforme consta no Dicionário da Língua Portuguesada Porto Editora: "esquiço" ou "esquiça" é o pau com que se tapa o buraco que se faz na vasilhas de vinho; o mesmo que "batoque".
E já que estamos com as mãos na massa, não confundamos "batoque" com "bitoque". Este, como se sabe, é um prato culinário e a palavra, segundo o referido dicionário, é uma corruptela de "bisteque", que, por sua vez, é uma corruptela da palavra inglesa "beefsteak".
Não digo que não, mas parece-me que "bitoque" é a palavra russa "bitok" [биток], que, segundo o dicionário da língua russa de S. I. Ojogov [С. И. Ожегов] de 1975, significa: "Costeleta (kotleta, sic) redonda de carne picada, previamente preparada", ou seja, o que vulgarmente chamamos "hamburguer", à americana. {O "hamburger" é moda levada para a terra do tio Sam por alguns alemães de Hamburgo, como os "jeans" é moda levada para lá também por gente de Génova - Gênes}
E a propósito, contarei que fui a um sítio comer uma bifana onde o dono se esmerara em fazer o cardápio das comidas rápidas e tivera o cuidado de explicar em inglês a diferença entre "bifana" e "prego". "Bifana", dizia ele, é com "pig" e o "prego" é com "cow". Devo dizer, porque é verdade, que o local não era nenhuma vacaria, nem nenhuma porcaria.
Achei graça e fiquei contente, porque concordo com Eça de Queiroz, que dizia que uma língua estrangeira se deve falar mal. O homem era um verdadeiro português.
O português é o teu valor cultural mais precioso.Respeita e aperfeiçoa a tua língua!
(Os estrangeiros que façam o mesmo com as suas...)
Dizem por aí que não há alternativa à austeridade. Isto é uma das poucas coisas que irritam quase tanto quanto a austeridade. Para tanta gente que está certa de que o problema nacional é a política do Governo, afirmar-se que ela não tem alternativa parece uma tolice. Então e os múltiplos opositores, não seriam eles capazes de encontrar opções?
Na economia, como na vida, existem sempre alternativas. Dizer que algo não tem saída é apenas mostrar a própria ignorância. A dificuldade não está em achar outros caminhos; o que é raro é que sejam melhores do que os que temos. Aí, dizem os críticos, a resposta é óbvia: dado este ser tão mau, qualquer outro é preferível. Mas afirmar isto é mostrar a própria ignorância. Porque, se não há situações sem alternativa, em muitas circunstâncias más é habitual todas as variantes serem piores.
Para avançar no raciocínio é importante começar por limpar o terreno, precisamente o oposto do que fazem os que dizem ter alternativas. Nos debates sobre a situação nacional abundam os enganos e contradições, dramatizações e zangas, golpes de teatro e interesses escondidos, que ocultam, distorcem, tapam e obscurecem as argumentações. Antes de identificar as hipóteses é importante estabelecer limites óbvios.
Portugal pretende continuar a ser um país respeitável, cumpridor dos tratados e responsabilidades internacionais. Mesmo que, como dizem tantos, a Europa esteja mal concebida ou os nossos parceiros sejam perversos e oportunistas, romper com eles traria custos enormes. Qualquer solução que implicasse a perda do nosso estatuto externo destruiria os canais económicos, agravando muito a conjuntura nacional, pelo menos no curto prazo, certamente por muito tempo. Casos do Irão, Argentina, Grécia, vêm à mente.
Esta simples consideração, óbvia e linear, chega para invalidar grande parte das supostas alternativas. Repudiar a dívida, sair do euro ou da Europa, por muitos benefícios imediatos que trouxessem (e os que se enunciam são bastante ilusórios) teriam consequências históricas que poucos, para lá dos seus autores, quereriam suportar.
Se este grupo de propostas arrisca a identidade nacional, boa parte das restantes faz batota, modificando subtilmente a questão.
Reestruturar ou mutualizar a dívida, rever prazos ou condições, implicaria sempre a boa vontade dos credores. Ora isso é algo que um endividado, sobretudo com facturas tão antigas e pesadas, nunca pode garantir. Os que elaboram essas alternativas podem ter muita razão nas suas opiniões, sugerindo que dando tempo para a economia recuperar todos ganhariam ou que a Europa funcionaria melhor com mecanismos de solidariedade financeira. Mas não é esse o nosso problema. Nem estamos propriamente em condições de dar conselhos. Só ganharíamos credibilidade se nos mostrássemos empenhados em cumprir pontualmente as obrigações, que é precisamente aquilo que se quer evitar com tais conselhos.
São bem evidentes os enormes custos do caminho que percorremos. Esse terrível sofrimento foi previsto pelos muitos estudos e opiniões que nos últimos vinte anos avisaram que a trajectória portuguesa acabaria mal. Os erros foram vastos e pesados, e as consequências inevitáveis. Opções fáceis há muito que não existem. Acima de tudo porque o nosso verdadeiro problema é continuarmos ainda hoje, e depois de tantos esforços, a gastar mais do que produzimos. Isso chama-se "défice" e, mesmo que a dívida fosse perdoada, exigiria sempre fortes apertos, aliás bastante parecidos com o que Governo e troika impõem. Quem fala em soluções milagrosas, e alguns desses detinham o poder nos anos de delírio, só o faz porque oculta cuidadosamente os contornos da situação, acenando com hipóteses fabulosas.
Aliás, em geral nem as soluções míticas se dignam apresentar. A verdade é que a esmagadora maioria dos que repudiam a via que trilhamos acha que a sua justa fúria os dispensa de apresentar alternativas. Domina a ideia de "a troika que se lixe e depois logo se vê". Atitude bem portuguesa, que nos trouxe à crise.
Não há, pelo menos entres ibéricos e ingleses, quem não saiba alguma coisa sobre a famosa e desastrosa “Invencível Armada”, que o rei Filipe II de Espanha e I de Portugal, montou em 1588, para ir derrotar os heréticos ingleses.
O desastre não podia ter sido maior. Completamente destroçada, milhares de mortos, um comportamento militar vergonhoso, e a perda, para Portugal, de 12 belos navios, entre eles o que foi como a capitânea, sob o comando geral do Duque de Medina-Sidonia. Dos 130 navios envolvidos, mais da metade se perderam, poucos em combate, a maioria aprisionada em terra, na Holanda e Inglaterra, ou desfeitos em temporais contra a costa no norte da Escócia e sobretudo na Irlanda.
Um sobrevivente espanhol, Capitan Francisco de Cuellar, que andou em três navios que se foram perdendo nas costas da Irlanda, deixou um curiosíssimo relato da sua aventura.
Começa quando a bordo da Santa Maria de Vision se abrigou na Baía de Sligo, com mais dois outros navios, onde em poucos dias se levantou um forte temporal; as amarras cederam, e arrastados para terra se desfizeram. Mais de um milhar aí morreram, salvando-se uns trezentos, dos quais a maioria foi passada à espada pelos selvage natives!
Cuellar salvou-se, espoliado, mais nu do que esfarrapado, como escravo de alguns irlandeses que o pouparam por lhes parecer que os espanhóis eram inimigos dos heréticos protestantes que a Inglaterra tentava impor-lhes. E a pouca roupa com que ficou estava ensopada em sangue.
Para passar a noite cobriu-se com grama!
Caminhando com dificuldade encontrou um mosteiro, com as imagens queimadas, todo em ruínas e 12 espanhóis enforcados pelos luteranos que entretanto tinham saído à procura de mais católicos para acabarem com eles.
Saído dali entrou num bosque. Um velho selvagem saiu detrás das pedras junto com dois jovens com suas armas – um era inglês – e uma garota de cerca de vinte anos, extremamente bonita... O inglês aproximou-se dizendo: Rende-te, espanhol poltrão... e cortou-me o tendão da minha perna esquerda. A garota lamentou o que me fizeram e pediu-lhes que me deixassem a roupa.
Ali abandonado, Cuellar embrenhou-se nas montanhas onde uns irlandeses lhe deram um cavalo e um jovem que lhe servisse de guia. Mas não durou, sem perigo, a sua jornada.
Ouviram grande algazarra e o jovem fez-me sinais “salve-se como puder, espanhol; muitos Sassanas estão a vir e vão cortá-lo em pedaços!” (Sassanas era o que chamavam aos ingleses).
O próximo encontro foi com um padre que o levou ao chefe do clã MacClancys of Leitrim.
A mulher do MacClancy era extremamente bela, e mostrou-se muito amável. Um dia, estávamos sentados ao sol e ela, convencida que eu poderia ler-lhe a sina pediu que examinasse as suas mãos! Comecei por olhar ambas as mãos e disse um monte de absurdos que ela muito apreciou e disse que não havia outro espanhol melhor do que eu!
Entretanto uma tropa inglesa vinha a caminho para atacar o Castelo dos MacClancy, que sabendo não ter forças para lhes resistir, fugiram para as montanhas. Nós, nove espanhóis, dissemos ao selvagem (o MacClancy) que ficaríamos para defender o castelo, o que irritou os ingleses que nos sitiaram durante dezassete dias, sem conseguirem conquistá-lo. Nosso Senhor livrou-nos dos inimigos fazendo cair enormes quantidades de neve que os obrigou a retirar.
O reconhecido MacClancy ofereceu a Cuellar a sua irmã em casamento, mas o capitão espanhol preferiu seguir o seu caminho para o norte de Ulster até encontrar o chefe do clã O’Cahans, em Londonderry, onde algumas mulheres lhe deram abrigo durante mês e meio até se curar. Essa aldeia era composta de cabanas de colmo onde viviam algumas garotas lindas, com quem fez amizade.
Quando os ingleses ali chegaram elas ajudaram-no a fugir e refugiar-se nas bordas do Lago Neagh, onde um bispo católico conseguiu metê-lo num navio que o levou, via Escócia, até Antuérpia.
Francisco de Cuellar viveu no norte da Irlanda cerca de um ano. Apesar de agradecido pela protecção recebida, ele e outros espanhóis, sem hesitação descreveram os irlandeses como selvagens:
O costume destes selvagens é viverem como bestas primitivas nas montanhas que são muito escarpadas nesta parte da Irlanda, onde nós nos perdemos. São grandes andarilhos, e os homens têm corpos largos e bonita configuração. A maioria das mulheres são lindas mas mal se aguentam em pé!
Eles bebem leite azedo porque não têm outra bebida; mas não bebem água apesar de terem a melhor água do mundo. Bebem o leite como um néctar, aquecido com uma pedra que previamente põem no fogo; mas quando vão a algum mercado vender uma vaca ou um cavalo, nunca regressam a casa até terem bebido o seu valor em vinho espanhol (a que eles chamavam a “filha do rei de Espanha!”), ou “uscebaugh” até dormirem fora dois ou três dias com pesadas bebedeiras. E não só os homens simples, mas os lordes e suas mulheres, quanto mais querem beber em casa mais eles bebem quando vão às cidades até ficarem tão bêbados como mendigos.
Naquele tempo o vinho era importado pelos lordes gaélicos (celtas) em troca, por exemplo, de autorização para que pesqueiros espanhóis pescassem nas suas águas.
A cevada e aveia maltadas não serviam só para fazer cerveja, mas eram também destiladas para fazer uisce beathadh, whisky, “a água da vida” (eau de vie dos franceses!), muito recomendado pelos comandantes ingleses e para fins medicinais. Mas Sir Josias Bodley encontrou padres na região oeste de Ulster derramando usquebaugh (whisky) pelas suas goelas, de dia e de noite!
Francisco de Cuellar nas suas memórias sempre refere que as garotas irlandesas eram extremamente belas! E ficavam felizes em exibir os seus seios no meio da sociedade. Nem tinham vergonha de aparecer completamente nuas, como constatou um nobre checo em 1601: ele encontrou dezasseis mulheres da alta sociedade, todas nuas, que perante o seu olhar deslumbrado o levaram para dentro de casa, para educadamente conversarem em latim em frente da lareira. Juntando-se a eles, Lord O’Cahan, despiu-se também inteiramente para surpresa do barão checo que estava demasiado envergonhado para fazer o mesmo.
N.- Mais sobre a Irlanda e a sem-vergonhice dos ingleses... nos próximos textos.
Do livro “A History of IRELAND”, Jonathan Bardon, Gill & Macmillan, Dublin 2008
Foi a respeito do novo pacote orçamental, desfavorecedor do nosso repoltrear nas cadeiras do nosso bem-estar – que ainda as há bastantes, cadeiras ou mesmo poltronas, para as tagarelices sobre o nosso mal-estar social. Vejo-o nas filas intermináveis de carros para Lisboa, mesmo às dez horas da manhã, que logo atrai o nosso comentário sobre o cumprimento da pontualidade e do rigor nos horários e a improvável eficiência no trabalho; vejo-o nas bichas de carrinhos de compras a abarrotar, nos supermercados; vejo-o nos cafés das esplanadas, onde também me sento a ler ou a parolar, com a minha amiga, sobre os desencantos e os encantos da vida.
Foi, pois, a respeito do tal pacote e ainda das altivas explosões de José Eduardo dos Santos sobre as difamações feitas pelas elites corruptas portuguesas ao regime angolano de elites também corruptas, conta-se, (e Henrique Raposo o expõe com os exemplos da sua seriedade), embora o presidente angolano tenha ignorado regiamente a parangona social no respeitante ao seu país, aquando da questão das parcerias anteriormente assinadas, limitado à demonstração cortante do seu majestoso poder sobre a eliminação das mesmas.
Foi a respeito desses eventos da nossa exaltação nacional, que escutei os seguintes dizeres do Dr. Mário Soares, patrioticamente incomodado com os desmandos de agora: “Mas estes tipos acham que se pode fazer tudo e não se demitir?” – esta, a respeito, salvo erro, do pedido de desculpas do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, ao governo de Angola. Custou-me, sobretudo, a inábil expressão gramatical do seu pueril desespero. Outra foi que, “Como não há Justiça em Portugal, todos roubaram mas ninguém os julgou. Porque é que o Presidente da República não é julgado?” Creio que se referia ao Dr. Cavaco Silva, que já foi seu concorrente e continua, por ser mais jovem, o que deve afligir o Dr. Mário Soares, chamado novamente à liça, como forcado protegido, a enfrentar os cornos do touro, pelos que desejam aniquilar depressa Governo e País, e se ficam por trás do touro, à espera de o ver encurralado.
Refiro estes dados da nossa miséria, já depois de ler mais um texto acusatório de Vasco Pulido Valente sobre as inépcias de Passos Coelho e de Paulo Portas, como vendedores de banha de cobra, comparados a um Oliveira de Figueira, português subserviente e prestável nas histórias do Tintim. Trata-se do artigo do Público de 12 de Outubro “Prodigalidade e improvisação”, escrito com bastante acrimónia, provavelmente com bastante razão, como todos os que malham unilateralmente, sem terem em conta não só os palpos de aranha na meada de nós cegos já antigos que ambos vão forcejando por desfazer, paquetes aos tropeções, mas calando igualmente as anomalias dos que, nos bastidores actuais, vão jogando safadezas e mais safadezas de mais nós cegos para a teia.
De um velho livro arrumado numa velha mala de livros do meu pai – “Monárquicos e Republicanos”, de Francisco Manuel Homem-Cristo, publicado em 1928, extraio os passos seguintes reveladores e exemplificadores da nossa eterna “divagação” pelas estradas da nossa presença como nação ingovernável. São do final do capítulo V, cujos “prolegómenos” são os seguintes: “Oliveira Martins, o da “Vida Nova”, alvitra, como os da “Vida Velha”, que seja expulso do trono o rei D. Luís. Continua-se a demonstrar a falta de sinceridade e de probidade com que o rei era combatido”:
Sem dúvida D. Luís era um homem dissoluto. Mas mais dissoluto era o seu próximo parente, o rei dos belgas. Mas mais dissoluto era um outro seu próximo parente, aquele que veio a ser na história o grande rei Eduardo VII. E nem por isso a Bélgica deixou de progredir, e de progredir imenso, a Inglaterra de continuar a ser uma grande nação, coagindo, pela necessidade e o exemplo, o príncipe dissoluto a ser um grande soberano.
D. Luís tinha defeitos. Graves defeitos tinha seu filho. Mas ambos eles tinham, a par, grandes qualidades. Ambos eles teriam sido, num povo organizado e educado, dois belos reis constitucionais.
O que matava e mata Portugal, monarquia e república, era e é a sua velha desorganização, a sua velha indisciplina, a sua falta de educação, de preparação para entrar, ovante, na vida moralizadora e trabalhadora da democracia e do progresso. E neste sentido é que uma elite dirigente poderia ter prestado relevantíssimos serviços se o país não houvesse tido a dirigi-lo, invariavelmente, com gregos e troianos, uma récua… de cavalos.
Hoje a violência panfletária é mais sofisticada, usam-se metáforas retiradas de uma fauna mais distante do homem, como abutres, tubarões, em tom iroso mas reverente, ou de outra fauna mais caseira, como asnos, pavões, em tom desdenhoso que nos exclui a nós, os criadores dos animais da fábula.
O meu pai vibrava com o discurso verrinoso dos poetas como Junqueiro, ou os jornalistas como Homem Cristo, ou os escritores como Ferreira de Castro, Aquilino, Torga…
Provavelmente já não se adaptaria a esta contínua palração dos novos tempos, com que somos bombardeados hoje, na continuação dos seus, dos de Homem-Cristo, dos de José Agostinho de Macedo … É que amava a Pátria, isso sim.
Hoje, amam-se os homens de que falou Cristo, a solidariedade faz parte do nosso mundo, mas também – e sobretudo - para justificarmos as nossas próprias reivindicações de direitos. Se a palavra “Pátria” contasse, de facto, os políticos trabalhariam mais para a prestigiar, apoiando-se, ao invés de se exibirem por meio de tanta crítica e patranha. Leia-se a alegoria criada pelo defensor de D. Miguel, Padre José Agostinho de Macedo em “A Besta Esfolada”:
Aparecem na grande cena do Mundo certos demagogos, certos revolucionários, que no fundo da sua alma não querem nem Rei, nem Roque, nem Constituição, nem Ordenação, nem forma alguma de Governo que não seja uma tumultuosa e mal entendida Democracia. Como verdadeiros camaleões, tomam sempre diversas cores e diferentes aspectos; dão tombos como as enguias, mas quem olha para elas e para os tombos sempre descobre o rabinho, que se inclina e toma a direcção da água. Inculcam e assoalham planos de reformas, procuram embair os incautos com mudanças e melhoramentos, fazem arear as classes, que a soberba julga ínfimas no Povo, com as nivelações e igualdades diante da lei, detrás da lei, à ilharga da lei… (in “As Grandes Polémicas Portuguesas II”).
Vale a pena ler o resto do excerto para contrariarmos a lei de Lavoisier: Nem tudo se transforma, na Natureza.