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A bem da Nação

E A REFORMA DO ESTADO? - 2

 

Certamente não foi por acaso que os nossos credores incluíram desde o início das negociações a necessidade de haver uma reforma do Estado, mas por razões já afloradas em outro artigo e portanto agora sem comentário, tanto o Governo como as oposições não têm apresentado propostas concretas para esta reforma sem a qual a nossa recuperação vai ser atrasada e prejudicada.

 

Aliás todas as dificuldades que surgem com excessiva frequência quanto à possível inconstitucionalidade de algumas medidas preconizadas pelo Governo, levantam a dúvida se isso acontece por erro dos Governantes ou porque a Constituição tem erros que já deviam ter sido corrigidos, mas que a Assembleia da República não cumpriu a sua obrigação de a ter melhorado, uma vez que nela podem existir normas que não são compatíveis com a actual realidade.

 

Como vamos agora mostrar:

 

1º - No art.º 2º, a Constituição claramente indica a importância da soberania popular e da democracia participativa bem como a garantia da independência nacional.

 

E no art.º 9º d) transformação e modernização das estruturas económico-sociais e g) desenvolvimento harmonioso do País.

 

Verifica-se que nestas últimas décadas tivemos de facto algumas melhorias nas nossas condições de vida mas destruímos parte essencial do nosso tecido produtivo e muitos dos melhoramentos realizados acabaram por não ter sustentação e portanto aumentaram a dívida nacional.

 

Aliás, a análise dos orçamentos anuais desde a nossa entrada na CEE devia ter sido aproveitada para evitar e/ou corrigir o rumo que se estava seguir, que era, como atrás dissemos, nitidamente inconstitucional, mas que nenhum dos detentores da responsabilidade de zelar pelo cumprimento da Constituição alguma vez pediu o respetivo controlo ao Tribunal Constitucional.

 

Por isto tudo, além da crise socio-económica, perdemos a independência que dependia de termos Marinha de Comércio, indústrias metalomecânicas, pescas, produção de energia, etc., que não só eram factores de segurança mas também proporcionavam numerosos postos de trabalho.

 

A destruição da Marinha e das empresas industriais de grande porte em particular e a incapacidade de as recuperar revelada pelos responsáveis, que julgávamos existirem, que foi e devia ser um dos pilares da nossa recuperação, tem mais ainda a consequência desastrosa a médio prazo de nos impedir de sermos os principais beneficiários das potencialidades dos novos territórios atlânticos, confirmando lamentavelmente uma previsão que fiz quando apresentei a minha primeira comunicação na Academia de Marinha em 1984 sobre o tema do Mar no futuro de Portugal.

 

2º - Em artigos diversos, a Constituição garante: o serviço público de rádio e TV, o direito ao trabalho, o direito à habitação, o direito ao ambiente protegido, o direito à Família, o direito à educação, mas durante estas décadas em que se realizaram grandes gastos, a Constituição não foi respeitada nem houve protestos sobre estas inconstitucionalidades.

 

3º - Ainda quanto à implantação de uma democracia participativa, a forma de eleição dos Deputados não favorece nem a participação dos eleitores nem a responsabilidade dos Deputados e a abstenção é clara a confirmá-lo. Por outro lado, afecta a eficiência democrática dentro dos próprios Partidos, transformando o nosso sistema num caso singular de bi-presidencialismo e, mais grave que isso, em menor eficiência governativa como as últimas décadas mostraram claramente. Aqui trata-se de facto de haver uma alteração da Constituição.

 

4º - Nos artigos consagrados à estrutura económica verifica-se haver referências a latifúndios e a sectores vedados à iniciativa privada como é usual em países com estrutura estatizante e continua a existir o sistema de planos económicos e decisões discricionárias, tal como havia no Estado Novo, com todos os atrasos nas decisões e o convite à proliferação de pressões de lóbis e potenciais corrupções e em que o interesse nacional tantas vezes se tem verificado ser esquecido.

 

E a reforma do Estado afinal como será?

 

Em resumo deverá ser realizada em três linhas de actuação:

 

1ª - Redução imediata dos gastos do Estado eliminando todos os encargos resultantes de excessos de mordomias e de pessoal improdutivo em todos os Órgão de Soberania, sem excepções e nas Autarquias, cuja reorganização já foi apresentada num artigo publicado no DN (pode lê-lo em http://nossomar.blogs.sapo.pt como poupar milhões com as Autarquias);

 

2ª - De acordo com o art.º 9º d) da Constituição que diz “….mediante a transformação e a modernização das estruturas económicas e sociais” deverá efectivar-se a reforma do Estado para que ele possa de facto realizar todas as tarefas que a Constituição lhe atribui, desde a sua eficiência na dinamização da economia aumentando as receitas e diminuindo as despesas, sem esquecer o controle dos desvios tanto dos seus serviços como das actividades privadas que possam contribuir para as inconstitucionalidades atrás indicadas.

 

3ª – Portanto, a reforma do Estado, obviamente extensiva a toda a Nação, deverá assentar na transferência do pessoal em funções improdutivas para outras produtivas, só utilizando o recurso a cortes em casos excepcionais e temporários.

 

Lisboa, 29 de Agosto de 2013

 

 José Carlos Gonçalves Viana

E A REFORMA DO ESTADO? - 1

 

Para iniciar este tema convém recordar o que é o Estado a que nos vamos referir pois esta palavra tem vários significados e para complicações chegam as que já temos.

 

O Estado que vamos analisar é o conjunto de estruturas constituídas pelos Órgãos de Soberania e Autarquias que permitem o funcionamento da Nação.

 

Donde ser evidente que esta, a Nação, é basicamente constituída pelo Estado e pela Sociedade Civil.

 

Como também é evidente, tem que haver um regulamento, isto é, um conjunto de regras que orientem esse funcionamento e sirvam de guia para os vários componentes da Nação viverem e poderem atingir os objectivos que forem determinados em particular os que se referem à competitividade, de que depende a sobrevivência imediata e à sustentabilidade que a defenda a prazo, sem esquecer o nível de qualidade de vida que todos desejam.

 

Ou por outras palavras, garantir a soberania, a independência e o bem estar de toda a  população.

 

Este regulamento é a Constituição.

 

Antes de entrar no tema do título deste artigo convém recordar como se deve processar o desenvolvimento sócio-económico de um país de forma a que a sua população tenha a melhor qualidade de vida possível e garantia suficiente de sustentabilidade:

 

1º - Tem que produzir e vender mais do que gasta, pois doutra forma criará dívidas cujos resultados estão à vista;

 

2º - Para isto ser possível terá que ser competitivo, ou seja, reduzir ao mínimo os custos improdutivos e incentivar as empresas a quem compete produzir e vender, qualquer que seja a sua dimensão, pois uma estrutura produtiva implica a existência obrigatória de empresas que cubram o máximo possível do mercado que nos interessa penetrar;

 

3º - Com efeito, há várias actividades em que o nosso País já foi excelente praticante e que, como consequência de erros na condução da nossa política económica após 74 e particularmente após a nossa entrada na CEE, foram destruídas e que só podem ser praticadas por empresas de grande dimensão;

 

4º- Para ser efectivo o papel destas empresas no desenvolvimento do País, é forçoso haver condições precisas que incentivem a formação de capital, em particular para os seus detentores que sejam residentes em Portugal, mas acompanhadas de procedimentos rigorosos de controlo que evitem a especulação e os abusos verificados no passado, porque o capital não é sempre mau, o que é péssimo é a ausência de responsabilidade e de regulação;

 

5º - O papel do Estado deverá ser o de regular todas as actividades, de motivar toda a população e de garantir a disciplina em geral e os serviços essenciais ao bem-estar e à segurança, com a máxima eficiência, de forma a minimizar o esforço dos contribuintes e não prejudicar a competitividade do País.

 

O Estado tem que fazer parte da solução e não do problema como, por exemplo, acontece agora com as indecisões do Secretário de Estado do Mar e as decisões do Secretário de Estado dos Transportes e aconteceu antes com os desvios dos gastos estatais.

 

Ora, a situação que atingimos em 2011 e que era previsível, pelo menos há mais de uma década, aconteceu essencialmente porque estes cinco pontos atrás indicados não se verificaram, embora tenha sido fortemente ajudada pela crise internacional cujos contornos também não andam muito longe dos nossos.

 

Com efeito a Constituição é clara em defender a soberania popular mas esta só pode existir se o País tiver independência, que aliás perdeu devido principalmente aos actos de gestão praticados pelos seus Órgãos de Soberania desde a entrada na CEE, portanto obviamente inconstitucionais, embora isto nunca tivesse sido apontado e corrigido durante todo este período de mais de duas décadas.

 

Portanto, se quisermos sair desta crise e não voltarmos a repeti-la, teremos de corrigir o que não está correcto e a originou.

 

E assim nos deparamos com a necessidade imperiosa de reformar o Estado.

 

(continua)

 

Lisboa, 29 de Agosto de 2013

 

 José Carlos Gonçalves Viana

“DEUS GUARDE O HOMEM DE MULA QUE FAZ «HIM» E DE MULHER QUE SABE LATIM” - 4

              

Luís António Verney, o “frade Barbadinho” do mesmo século XVIII iluminista, tem, no entanto, opinião diversa a respeito das capacidades da Mulher, distanciando-se, até, de Rousseau que, progressista no campo da educação masculina, no seu “Émile”, para a companheira deste, Sophie, não emite mais do que opiniões convencionais sobre a educação de uma jovem cuja função na vida será a de servir bem o seu companheiro Emílio, com todas as artes e graças propícias a um casamento feliz. No seu “O Verdadeiro Método de Estudar”, Carta XVI, Verney defende a capacidade intelectual da Mulher e a necessidade da sua Educação:

 

Parecerá paradoxo a estes Catões Portugueses ouvir dizer que as Mulheres devem estudar; contudo, se examinarem o caso, conhecerão que não é nenhuma parvoíce ou coisa nova, mas bem usual e racionável. Pelo que toca à capacidade, é loucura persuadir-se que as Mulheres tenham menos que os Homens. Elas não são de outra espécie no que toca a alma; e a diferença do sexo não tem parentesco com a diferença do entendimento. A experiência podia e devia desenganar estes homens. Nós ouvimos todos os dias mulheres que discorrem tão bem como os homens; e achamos nas histórias mulheres que souberam as ciências muito melhor que alguns grandes Leitores que nós ambos (um reverendo P., Dr. Da Universidade de Coimbra, a quem finge dirigir-se) conhecemos. Se o acharem-se muitos que discorrem mal fosse argumento bastante para dizer que não são capazes, com mais razão o podíamos dizer de muitos homens… Se das mulheres se aplicassem aos estudos tantas quantas entre os homens, então veríamos quem reinava…

 

Prossegue Verney a sua tese sobre a necessidade da Mulher estudar, em função, é certo, não do seu próprio interesse espiritual de ser humano com personalidade própria, mas das vantagens familiares e sociais que daí adviriam, conceito que, embora unilateral, não deixa de ser correcto. Ainda hoje, apesar das pressões económicas que exigem o trabalho exterior da Mulher, muitas mães de família, sobretudo nas sociedades culturais mais desenvolvidas e também , é certo, economicamente mais estáveis, trocam inicialmente a carreira profissional pelo acompanhamento escolar dos filhos, o que, a generalizar-se, só traria vantagens para a formação moral e cívica dos cidadãos de qualquer país.

 

Os anos passaram, o século XIX surge com os expoentes tão significativos da cultura literária portuguesa, mas nem, Garrett, nem Camilo, nem Eça de Queirós se eximem a ironizar sobre a “doutorice” pedante da Mulher, Garrett com o seu comentário sobre as “boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite às suas criaturas fêmeas”. (“Viagens na minha Terra”, cap. XII), Eça reforçando em diminutivos irónicos o retrato de uma personagem feminina no episódio das corridas (“Os Maias”, cap. X), ou no conceito alegremente demolidor da personagem Ega da mesma obra, “A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem” (Cap. XII). Mas é Camilo que, em longa diatribe verrinosa, encarna o perfeito espécime da tacanhez de princípios de uma sociedade burguesa e machista, que transforma a Mulher em puro objecto do conforto masculino. Nem sabemos se a exaltação discursiva do escritor subentende um retrato da em tempos muito amada Ana Plácido, pessoa de leitura e talentos de escrita que a levariam mais vezes ao sofá do que às peúgas rotas do marido:

 

 

«As Literatas»

 

Pais de família, híbridos, caturras,

Escrevo para vós! Se tendes filhas

Com sestro maçador de fazer versos,

Dai-lhes p’ra baixo, como eu dou nas minhas!

Eu vejo serigaitas, mal lavadas

Do almíscar infantil de seus cueiros,

Fazerem relações “co’s raios pálidos,

Da estrela matinal, do lago límpido,

Das auras ciciantes, e da aragem”

E doutras semelhantes trampolinas,

Que vós não entendeis, nem eu, nem elas.

 

Espevitam-se todas estas gaitas

“Da música melancólica das noutes”

Mal sabem onde têm a mão direita,

Não viram, do nariz, um palmo adiante,

E falam de “paixões íntimas d ‘alma,

De crenças desbotadas, e de flores

Fanadas ao soprar da leda infância.”

 

Acaso compreendeis, pais de família,

Da nova geração destas piegas

A triste chiadeira que nos fazem?

Dai-lhes p’ra baixo, como eu dou nas minhas!

 

Não tendes uns fundilhos nas ceroulas?

Não tendes roto o calcanhar da peúga?

Não tendes uma estriga e fuso e roca?

Mandai-as trabalhar; dai-lhes a ciência

Precisa para o rol da roupa suja.

Se lhes virdes romance, ou essas cousas

Chamadas folhetins, sobre a toilette

(A toilette, meu Deus, por causa delas

Perverteu-se a dicção do nosso Barros)

Dai-lhes p’ra baixo como eu dou nas minhas!

 

Quem é o parvo que esposar-se queira

Com literata alambicada e chocha?

Sentada num sofá, Safo saloia,

Em lânguida postura requebrada,

Se eu visse a minha Antónia! Ai que panázio

Que revés de catreca eu lhe pregava!

 

Pais de família! Não achais bem triste

Entrar um cidadão em sua casa,

Cansado de lavrar o pão da vida,

E ver sua mulher repoltreada

Na otomana gentil lendo romances?

Pobre marido! Quer falar duns frangos

Que baratos comprou e a literata

Pergunta-lhe se leu “Kossuth e os húngaros”.

O parvo franze a testa aborrecido,

Procura entre os lençóis um refrigério:

Mas no excesso da dor rasga as ceroulas,

E no mundo não tem mulher ou anjo

Que lhas saiba coser! Ai do mesquinho!

 

Onze  horas já são! O bom do homem

Três vezes já pediu café com leite.

Apertam-no negócios; mas embalde

Pediu com desespero o tardo almoço.

 

A tarda esposa inda ressona

Pois vira despontar a estrela d’alva

Nos rubros arrebóis dos horizontes,

E inspirada fizera quatro quadras,

Ardentes de ideal romantecismo.

 

“Café com leite!” brada em vão três vezes,

O bode expiatório dos romances…

“Café com leite!” os ecos lhe respondem,

Que a Stael d’água doce inda ressona!

 

Maridos imbecis! Eu vos lamento!

A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo,

Madame Podestá dizem que ensina

Gramática, retórica, hidráulica,

Mecânica ginástica estética,

E química e botânica e plástica,

O árabe, o sânscrito, a geografia,

A prosódia, a sintaxe, indústria e cânones,

E muitas cousas mais, como t’rapêutica.

 

Será tudo muito bom: mas eu aposto

Que o remate de tantas luzes juntas

É capaz de fazer perfeitas tolas

As muitas que lá vão com seu juízo!

 

Pais de família, tendes filhas destas?

Dai-lhes p’ra baixo como eu dou nas minhas!

……………………………………

 

Acabava aqui o texto, omisso nas referências ao século XX, reivindicativo e crítico, que outros rumos tomou, vários, relativamente à personagem Mulher. Esta conquistaria a sua emancipação sob muitas facetas, ajudada pelo pronto-a-vestir, que fez suprimir a agulha e o dedal para as peúgas dos maridos. Mas os conflitos familiares actuais, com bastos uxoricídios no nosso país, provam a natureza de fundo do nosso machismo - a mesma do das origens - prepotência, discriminação na cultura, atraso, convenção.

 

FIM

 Berta Brás

“DEUS GUARDE O HOMEM DE MULA QUE FAZ «HIM» E DE MULHER QUE SABE LATIM” - 3

 

 

Também Camões, em várias redondilhas apresenta conceitos negativos sobre a psicologia da Mulher, com uma graça e leveza primorosas, que logo identificam a genialidade do seu canto, qualquer que seja a forma em que o exprime. Um exemplo dessa graciosidade e malícia, concluindo na afirmação altiva da inteligência masculina que desmascara as mentiras de amor femininas:

 

MOTE:

Não sei se me engana Helena,
se Maria, se Joana;
não sei qual delas me engana

VOLTAS

Uma diz que me quer bem,
outra jura que mo quer;
mas em jura de mulher
quem crerá, se elas não crêem?
Não posso não crer a Helena,
a Maria, nem Joana;
mas não sei qual mais me engana.

Uma faz-me juramentos
que só meu amor estima;
a outra diz que se fina;
Joana que bebe os ventos.
Se cuido que mente Helena,
também mentirá Joana;
mas quem mente não engana.»

              

Já no século XVII, D. Francisco Manuel de Melo, em “As Segundas Três Musas de Melodino” glosa o seguinte mote, expressivo de um conceito sardónico sobre a Mulher e os seus recursos milenares de defesa própria:

 

«Menina de lindo rosto

Sabeis o que se diz agora

Entre a gente de bom gosto?

Que sendo vós um sol fora

Tendes manhas de um sol posto.»

 

Mas é na “Carta de Guia de Casados” que, através de um discurso sentencioso e claro, melhor se identifica com um conceito machista sobre a posição social e cultural da mulher, que ainda hoje conserva adeptos fervorosos - apesar dos movimentos feministas de emancipação iniciados no século XIX - conceito que o século XX tão expressivamente parece frustrar com os vários campos de actuação feminina, estes na sequência das muitas vozes erguidas na Europa e América na reivindicação do direito feminino ao consenso da paridade intelectual e social com o homem:

 

O marido tenha as vezes de sol em casa, a mulher as de lua; alumie com a luz que ele lhe der, e tenha também alguma claridade.

 

Não venho em que com a mulher se litigue, que é conceder-lhe uma igualdade no juízo e império, cousa de que devemos fugir. Faça-se-lhe certo que à sua conta não está o entender, senão o obedecer e fazer executar, mas que não entenda. Mostre-se-lhe às vezes, que havendo quando se casou entregado sua vontade ao marido, comete agora delito em querer usar daquilo que já não é seu. Disse que seria bom ocupar a mulher no governo doméstico; e é bom e é necessário, não só para que ela viva ocupada, senão para que o marido tenha menos esse trabalho.

 

Seja a mulher como a mão do relógio e o marido seja o relógio. Aponte ela e soe ele. Um mostre, outro resolva.

 

Pois comecei com meus adágios, hei-de acabar com eles. Ouvi um dia, caminhando, e não era ele menos que a um chapado recoveiro (veja V. M. – um amigo que ia casar-se – que enjeitei os filósofos, para citar estes autores), enfim ouvi-lhe, que Deus o guardasse de mula que faz him e de mulher que sabe latim.

 

Tomara que as mulheres não soubessem de guerras, nem estados, nem procurassem por isso. Enfadam-me umas que se metem em eleições de governos, julgar de brigas, praticar desafios, mover demandas; outras que se prezam de entender versos, abocanham em linguagens alheias, tratam questões de amor e de fineza, decoram perguntas para gentes discretas, trazem memorial de motes dificultosos… Fora, fora tudo isto, que parece ficção e nem verdadeiro nem fingido é bem que seja.

 

Relativamente a este último conceito sobre a não participação da Mulher na vida pública, não esqueçamos que, pela mesma época, o próprio Molière, embora integrado no mundo esclarecido da sociedade francesa, em pleno “Século das Luzes” satiriza nas suas comédias a afectação dos costumes e linguagem das mulheres pedantes, burguesas provincianas – “Les Précieuses Ridicules” – ou citadinas – “Les Femmes Savantes”, “Le Misanthrope” – e as suas reivindicações ao mundo da cultura, embora conceda à Mulher o conhecimento necessário a uma condição feminina virtuosa e inteligente.

 

No nosso século XVIII, contudo, ainda o poeta satírico Nicolau Tolentino exprime, em discurso aparentemente brando, de um paternalismo eloquente e mordaz, idêntica opinião preconceituosa contra a mulher letrada, que tem forçosamente que ser fisicamente pouco atraente. Não esqueçamos que ainda não há muitos anos, nestes finais do século XX condescendente com a beleza física das mulheres em concursos mundiais de beleza feminina, esta aparecia, pelo contrário, retratada como personagem desprovida de dotes intelectuais, apenas favorecida nos seus dons de natureza física. Todavia, actualmente, nos mesmos concursos de manipulação masculina, a Mulher tem que seduzir com atributos diversos, expressando opiniões e aptidões de comunicação que lhe valorizarão a prestação, embora soem tantas vezes a falso e a pré-fabricado os altos desígnios da novel proselitista da paz e do amor - de extinção da fome e demais misérias sociais, a que se destina, no caso de ser eleita a mais bela miss do Mundo de cada ano. Vejamos os versos de Nicolau Tolentino:

 

Foi por meu braço levada

Uma das ditas donzelas,

Feia, mas a estudos dada;

E sobre doutas novelas

De tenros anos criada.

os versos de Nicolau

Levantou sábias questões,

que ela mesma resolveu

fez profundas reflexões

e por fim me prometeu

ler-me as suas traduções.

 

Jurou que aprendeu gramática

E que hoje os livros não fecha

Da infalível matemática,

E quer ver se o pai a deixa

Ir na máquina aerostática.

 

 (continua) 

 

 Berta Brás

“DEUS GUARDE O HOMEM DE MULA QUE FAZ «HIM» E DE MULHER QUE SABE LATIM” - 2

 

 

De Pero Garcia Burgalês, a desmistificação da morte por amor, masculina:

 

Roy Queimado morreu com amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por hunha dona que grã bē queria;
e, por se meter por mays trobador,
por que lhe ela non quis ben fazer,
feze-ss' el en seus cantares morrer,
mays resurgiu depoys ao tercer dia!

 

Esto fez el por hunha ssa senhor

que quer gram ben, e mays uos en dirya:
por que cuyda que faz hi maestria,

enos cantares que fez a ssabor

de morrer hy, e des y d 'ar uyuer;

esto faz el que x’o pode fazer,

mays outr ' omen per rē non o faria.

 

E non á ia de ssa morte pauor.
senõ ssa morte mays la temeria,
mays sabe bê, per ssa sabedoria,
que uyuera, des quando morto for,

e faz-(s’) en sseu cantar morte prender,
des y ar uiue: uedes que poder

que Ihi Deus deu, mays que nõ cuydaria.

 

E, sse mi Deus a min desse poder
qual oi ' el á, poys morrer, de uiuer,

ia mays morte nunca temeria.

 

            Mas o pessimismo masculino sobre as virtudes da Mulher, tão repetidamente embelezada no descritivo poético, originou por vezes graciosa sátira, caso do vilancete “Contra as Mulheres” de Jorge de Aguiar, poeta do Cancioneiro Geral, publicado em 1516, e que interpela o seu coração atribulado nos desmandos das paixões:

 

Esforça meu coração,

não te mates, se quiseres

lembra-te que são mulheres.

 

Lembra-te que está por nascer

nenhuma que não errasse,

lembra-te que seu prazer,

por bondade, e merecer.

não vi quem dele gostasse;

pois não te dês à paixão,

toma prazer se puderes,

lembra-te que são mulheres.

 

Descansa, triste, descansa,

que seus males são vinganças,

tuas lágrimas amansa,

leixa suas esperanças.

Ca pois nascem sem razão,

nunca por ela lh’esperes,

lembra-te que são mulheres.

 

Tuas mui grandes firmezas,

tuas grandes perdições,

suas desleais nações

causaram tuas tristezas.

Pois não te mates em vão,

que quanto mais as quiseres,

verás que são as mulheres.

 

Que te presta padecer,

que te aproveita chorar,

pois nunc’ outras hão de ser

nem são nunca de mudar?

Deixas com sua nação,

seu bem nunca lho esperes,

lembra-te que são mulheres.

 

Não te mates cruamente

por quem fez tão grande errada,

que quem de si se não sente,

por ti não lhe dará nada.

Vive lançando pregão

por u fores e vieres,

que são mulheres mulheres.

 

CABO

 

Espanha foi já perdida

por Letabla uma vez,

e a Tróia destruída

por males que Helena fez.

Desabafa, coração,

vive, não te desesperes,

que a que tez pecar Adão

foi a mãe destas mulheres. (Jorge de Aguiar).

           

(continua) 

 

 Berta Brás

“DEUS GUARDE O HOMEM DE MULA QUE FAZ «HIM» E DE MULHER QUE SABE LATIM” - 1

 

 

É de D. Francisco Manuel de Melo a citação do aforismo supra, que encontrei em texto escrito pelos anos oitenta, entre a velha papelada a rasgar para um efeito de alargamento de espaços de arrumação numa nova casa, estreita em dimensões. Ao reler os velhos autores, nele transcritos, senti igual prazer na constatação de uma literatura que, se não tem a dimensão humanística dos Shakespeares ou dos Montaignes de outras literaturas mais providas de criatividade, riqueza verbal e conhecimento profundo da natureza humana, não deixa de demonstrar o seu cunho de humor e graça, até na superficialidade, brejeirice ou radicalismo das posições machistas dos poetas e prosadores de um país educado na prepotência e na servidão pouco esclarecidas.

 

E a verdade é que tais posições extremistas ainda hoje vigoram, mais ou menos encobertamente, incomodados os tímpanos das gentes com as vozes esganiçadas das Anas Gomes do nosso e do Parlamento Europeu, dizendo coisas, mostrando afectos de sensibilidades altruísticas e despeitos de menosprezos partidaristas, aliás de parceria com os colegas homens, cuja argumentação uniformemente incisiva transformou a nossa Praça Parlamentar em Praça da Figueira antiga, que àquela deu lugar. Excluo, é certo, deste apanhado, todas aquelas mulheres que se impuseram conscienciosamente, bem rodeadas da consideração geral, numa época em que mal pareceria ao homem que se apresenta modernamente progressista, pelo menos exteriormente, - os machismos reservados mais discretamente ao interior caseiro - ironizar sobre as mulheres mais sabedoras, como o fizeram D. Francisco Manuel de Melo, Garrett, Camilo, a seu tempo, conscientes da falta de concorrência nos seus posicionamentos intelectuais. As mulheres mais afoitas lá se foram amanhando em busca das luzes de que careciam, marquesas de Alornas infelizes e de pouca ocupação doméstica, o que lhes permitiria levantar voos, quais Ícaros em busca do sol. As outras faziam o que já a Bíblia lhes mandava fazer, e se transgrediam, eram punidas, também por preceito bíblico, tratamento que ainda hoje se pratica em várias partes do mundo, apesar das pedradas que Cristo impediu na sua altura, sem efeito, contudo, sobre as pedradas modernas, em que mulheres morrem por lapidação, nestes tempos de infidelidades fáceis e de fundamentalismos defensores da pureza, por meio da barbárie.

 

Transcrevo o texto, dos anos oitenta:

 

«A Mulher Portuguesa em Discurso Directo»

 

A Literatura Portuguesa conserva, desde os tempos da sua formação, autênticos retratos de Mulher, impregnados de subtis facetas da psicologia feminina, que muito nos informam sobre os hábitos, vivências e sentimentos da mulher rural. É nas “Cantigas de Amigo” do nosso lirismo medieval que tais retratos figuram, em poemas monologados ou dialogados, em que, todavia, o sujeito da enunciação jamais se confunde com o do enunciado ou sujeito poético, sendo aquele, o mesmo trovador que nos seus cantares de amor refere em termos pessoais, mau grado o convencionalismo do cliché occitânico, queixumes ou exaltações amorosas originados na indiferença ou na beleza distante da sua “senhor”. Nos “cantares de amigo” é a donzela que se exprime, e o trovador – o sujeito da enunciação – soube vestir a pele da donzela para a projectar em quadros em que o amor se multiplica na expressão de tristezas, alegrias, ciúmes, saudades, despeitos, receios…

 

Visão arguta do Homem sobre a alma feminina, expressão de uma superioridade intelectual masculina, numa sociedade feita em prol do homem, e desde sempre votada à exploração da mulher, puro objecto fisiológico, para efeitos de procriação, prazer masculino ou elemento de trabalho mecânico, sem qualquer concessão aos seus valores espirituais, mau grado os lirismos literários que destacam tal espiritualidade feminina e que o próprio homem põe em causa na poesia satírica da mesma época, ao desmistificar o convencionalismo da temática amorosa invariavelmente centrada na beleza da Mulher ou no sofrimento que os seus desdéns causam no Homem, levando-o a ambicionar a morte. Eis dois exemplos bem conhecidos de críticas que, desmascarando a retórica de encarecimento da beleza feminina ou da coita masculina, as põem em causa através da troça:

 

De João Garcia de Guilhade, a desmistificação do ideal de beleza feminina:

 

«Ai, dona feia! Fostes-vos queixar
que vos nunca louvo em meu trovar;
mas ora quero fazer um cantar
em que vos louvarei por esta via;
e vede como vos quero louvar:
dona feia, velha e sandia!»

«Ai, dona fea! Se Deus me pardon!
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!»

 

(continua) 

 

 Berta Brás

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