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A bem da Nação

ESTOU SOSSEGADO

 

 

Assim descrevem os goeses a forma tradicional por que levam a vida: sossegada. Fazem-me lembrar as três velocidades por que em África se resolvem os problemas: de vagar, de vagarinho e parada.

 

Mas agora foi a Maria Eduarda Fagundes, médica brasileira nascida nos Açores, que há dias me enviou uma mensagem sobre o Shabat e o inerente descanso semanal. Mensagem interessante, como todas as que a Maria Eduarda me envia.

 

Só que esta deixou-me a pensar…

 

Para além da fundamentação teológica que a fé judaica tem para o seu descanso semanal, refere a dita mensagem algo muito mais profano e que consiste num facto que muitos de nós esquecemos ou ignoramos: muita actividade pode ser sintoma de depressão. Sim, isso é óbvio para quem já passou por uma situação dessas. E se a uma fase de euforia super activa se segue uma de prostração e assim sucessivamente, não faltará muito para que o cenário clínico se complique e a ajuda médica se torne imprescindível.

 

Felizmente, não foi este o meu caso: em automedicação, consegui safar-me e ao fim de 2 ou 3 anos, com o testemunho familiar e de amigos, dei-me por curado. Quem me provocou a depressão bem pode tratar-se mas duvido que haja na farmacopeia algo contra a amoralidade, a falta de caracter e de ética.

 

Num aparte, recordo que os problemas que me assoberbavam antes do tratamento continuaram a existir; a diferença foi que, com a medicação, deixei de me preocupar com eles. E como o tempo se encarrega de resolver muita coisa, ao fim de alguns frascos de Prosac, comecei a fazer o desmame e no final já os problemas eram nacionais em vez de pessoais. É que o «maligno» tinha sido alcandorado a posição de chefia global atirando-nos colectivamente para a depressão de que agora tentamos safar-nos. O medicamento global que agora tomamos é muito mais amargo do que aquele de que individualmente beneficiei.

 

Mas regressando à mensagem da Maria Eduarda, então qual é o nível de actividade que indicia depressão?

 

Creio que será difícil ou mesmo impossível estabelecer um padrão aplicável a todos os casos pois a actividade desenvolvida por um rural não é comparável à de um urbano submetido às horas de ponta no tráfico diário para se dirigir ao seu posto de trabalho atendendo os Contribuintes numa repartição pública, ir buscar os filhos ao infantário antes de regressar a casa depois de novo stress nos transportes. O rural pode frustrar-se e deprimir-se com a pasmaceira a que se vê votado e o urbano pode ser workcoholic, não saber viver de outro modo e ser feliz em toda a sua própria dimensão.

 

Na falta de um padrão, como saber se se trabalha de forma depressiva?

 

Que dizer daquele que durante uma longa vida activa se entregou a uma função e de repente se vê aposentado? Eis uma situação perigosíssima. Fui ao enterro de um ex-funcionário que se sentou num sofá no dia em que a família lhe exigiu que se aposentasse. Sobreviveu poucos meses à inacção.

 

Tenho visto a desorientação de muita gente nos primeiros tempos de aposentação. Passam horrores até que encontrem um novo modo de vida.

 

Fui mais feliz. Fiz o “A bem da Nação” no mês anterior ao da aposentação efectiva e passei a montar diariamente a cavalo (o que antes só fazia aos fins de semana), passei a estudar as matérias que sempre senti faltarem-me e parti para o pensamento independente; mais que isto, giro o que é meu.

 

Será isto depressivo? Sinto-me activo e perfeitamente sossegado; não cumpro o homólogo cristão do Shabat; tenho o dia totalmente ocupado; não me acho deprimido mas aceito diagnósticos mais avisados.

 

Atenção: não pago a consulta!

 

Para complicar o cenário, deixo uma pergunta: pode a actividade cerebral ser viciante?

 

Julho de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

POSTAIS ILUSTRADOS LXX

 

SOB O SIGNO DA IRREVOGABILIDADE

 

Carta Aberta ao SR. VICE-PRIMEIRO MINISTRO

 

 MIGUEL A. LOPES/LUSA

 

Excelência,

 

Há muitas coisas que não compreendo por ultrapassarem a minha parca inteligência. E custa-me a aceitar.

 

Não compreendo a subserviência… a vários níveis.

 

Começo pela subserviência da Comunicação Social e dos Órgãos do Estado (com excepção de um Tribunal onde um Juiz ordenou que o português continuasse a ser o português e não brasilês), como dizia, a subserviência ao cumprimento do antipatriótico acordo ortográfico (lesa-pátria da Língua Portuguesa) quando ainda nem entrou em vigor e com a recusa de países do eixo da lusitanidade que ainda nem sequer o subscreveram!

 

Eu nisso sou irrevogável. Escrevo como a Professora Vitorina, minha professora da escola primária me ensinou e a quem deixo a minha homenagem, apesar de já não estar entre nós.

 

Não compreendo a subserviência aos protectores que nos vêm dar ordens, já que na gíria política estamos sob protectorado.

 

Apesar de os protectores se portarem de uma forma arrogantemente técnica e insensível, ultrapassando os cânones exigidos à nossa sobrevivência nacional.

 

A má gestão dos Governos que até agora conduziram Portugal foi a causa de perdermos a independência nacional.

Sinto uma revolta e uma mágoa profunda por ver estrangeiros a dar ordens no meu país para protegerem (afinal fazem parte de um protectorado), exclusivamente, os interesses deles, legítimos, mas, de consequências trágicas. Em Portugal aumentou a fome.

 

Eu nisso sou irrevogável. Espero que se vão embora o mais depressa possível, mas, que não fiquemos catalogados como caloteiros.

 

A negociação é uma questão de inteligência e firmeza!

 

Espero que o Senhor Vice-Primeiro Ministro consiga sentar-se à mesa das negociações e tenha força e coragem para fazer frente às exigências. Nisso espero que seja irrevogável!

Não condeno Vossa Excelência por ter deixado cair a sua irrevogabilidade porque compreendi e aceitei a sua irrevogável decisão, por estarem em jogo interesses mais altos do que as birras de gabinete. Já escrevi e repito que, quanto a mim, o Senhor teve razão, até já afirmei que, além de o compreender, eu não teria aceitado a situação por que passou, durante tanto tempo.

 

Quando lhe peço firmeza e coragem frente aos interesses da Tróica, não lhe estou a dizer que seja defensor de facilidades para continuarmos na senda da irresponsabilidade e irmos para aquela situação da mentalidade bem portuguesa de isto é para ir pagando, não é para pagar.

 

Não! Eu, como português, exijo disciplina. E a disciplina está na reforma da Administração Pública. É nas gorduras do Estado-Monstro que o Senhor tem de operar, usando um bisturi eficiente e eficaz.

 

Mas, não vá à procura de grandes técnicos e grandes inteligências nas empresas de consultadoria a quem terá de pagar principescamente, internamente, tem desse material nos servidores do Estado e só terá de lhes pagar o vencimento ao fim do mês.

Afinal, agora até já têm 40 horas de trabalho semanal!

 

Andam por aí montes de sugestões na internet que se mandar estudar, terá ideias sérias e exequíveis, algumas até fazem muito sentido. Outras há que são radicalidades impossíveis de consumar.

 

O Senhor Vice-Primeiro Ministro está sujeito a uma grande responsabilidade. Até algumas vozes andam a dizer que o novo governo, pelas responsabilidades que lhe foram atribuídas a si, já não representa o voto expresso nas urnas há dois anos, ou seja, que foi o CDS que ganhou na secretaria e o PSD, nas urnas.

 

Sou um defensor do liberalismo económico, mas, de um liberalismo económico com qualidades humanas e não a esta selvajaria a que assistimos.

 

Estas minhas palavras pretendem ser os mais simples possíveis para que possam ser entendidas por todos aqueles que as lêem.

 

Na reforma da futura Administração Pública, o Senhor terá que assumir e consciencializar os seus pares para que estas sejam compreendidas e aceites, se os exemplos vierem de cima e haja uma clara visão do que fazer com as mordomias, algumas delas, escandalosas e aviltantes.

 

Por exemplo, foi promessa eleitoral de que os governos passariam a ser mais pequenos. Não é o que se vê. Cada gabinete de ministro representa uma série de carros, de motoristas, de secretárias, de adjuntas e adjuntos, de assessores e assessoras, etc…

 

Onde é que está o exemplo de austeridade na formação dos governos? Faz-me lembrar as teorias das leis das bases e da superestrutura que, certamente, o Doutor leu.

 

Dinheiro gera dinheiro, é verdade. Mas, ganhar dinheiro com a desculpa do funcionamento das Leis de Mercado é pura demagogia. As Leis são feitas por seres humanos, por isso falíveis e alteráveis, adaptáveis à realidade dos tempos.

 

O dinheiro tem de ser um ganho com honra e moderação. Aproveitar uma espórtula que se olha com desdém e se usa para tirar o maior partido da miséria é uma iniquidade social.

 

Portugal não merece esta indignidade.

 

Sou um sonhador? Pois sou. Mas, é o sonho que comanda a vida.

 

Cumpre a Vossa Excelência demonstrar que a revogabilidade da sua irrevogabilidade vai colocar o País na senda dos países mais cumpridores e que se tivemos cá estrangeiros a ditar a nossa política, isso terá um fim; até porque se tivéssemos tido políticos mais competentes, em todos os quadrantes, Portugal não teria sido sujeito a esta humilhação.

 

E a humilhação a que temos estado sujeitos pode sair muito cara à Democracia.

 

Na passagem do Rubicão o poderoso Júlio César exclamou:

 

Alia jacta est! A sorte está lançada!

 

Boa sorte para si e seus colaboradores.

 

Voltarei mais vezes à sua presença, de acordo com a evolução das políticas que desenvolver, ora para criticar, ora para aprovar. Fá-lo-ei na minha qualidade de cidadão português e usando o meu direito de cidadania…

Os meus cumprimentos,

 

 Luís Santiago

 

O DESNORTE DO REINO – 4

 

GUINÉ, GUILEJE

 

   

As forças do PAIGC reagruparam-se então em torno de Gadamael e atacaram-na fortemente, tendo a situação sido resolvida rapidamente por tropas paraquedistas, enviadas de reforço.

   

Sem embargo de se gostar mais ou menos da atitude do Comandante – Chefe, ele era o responsável por toda a Guiné e era ele que tinha a visão global de todo o teatro de operações. E tinha a autoridade para tomar as decisões que tomou, sendo-lhe ainda lícito,sacrificar a guarnição de Guilege caso isso fosse importante para a salvaguarda do todo.[1]

   

Como a consciência é o nosso último juiz, cabe sempre a cada comandante – e cada caso é um caso – face às circunstâncias, decidir o que, em última instância, a sua consciência lhe diz mas tem que, a seguir, se sujeitar às consequências dessa decisão.

  

E não tem que levar a mal que, no caso vertente, se lhe tenha dado ordem de prisão e levantado um processo.

   

O Dever e a Disciplina Militar assim o exigiam e só se deve lamentar que o julgamento não tenha ocorrido. E, nesse âmbito, só existe uma razão de queixa: contra quem o amnistiou.

   

Ora, este caso que devia ser, sem sombra de dúvidas, tratado em termos académicos em fóruns próprios a fim de reverter em ensinamentos para o futuro, tem sido transformado pelo seu protagonista – que ninguém tem maltratado nem acusado de nada - numa tentativa contumaz, não só de branqueamento da sua acção como a de que seja aceite o seu bom propósito e valor.

   

Será que um dia destes vai requerer louvor e condecoração?

   

As coisas estão, até, a entrar no campo do delírio, como se pôde constatar numa “mesa redonda”, que decorreu em Coimbra, no passado dia 23 de Maio, e para a qual se convidaram quatro coronéis do Exército, um ex-membro das “Brigadas Revolucionárias” e dois ex- guerrilheiros do PAIGC.[2]

   

Um dos oradores foi, justamente, o antigo Comandante do COP5, que antes de falar se vestiu com um traje típico de indígena da Guiné – provavelmente o mesmo com que o agraciaram há uns anos atrás, quando foi a Guilege fazer “um frete” ao PAIGC - e não foi o único - que para ali “convocara” um “Simpósio Internacional”![3]

   

O “nosso” coronel apenas seguiu, todavia, o exemplo da organização daquela “mesa sem bicos”, a qual no folheto de propaganda do evento, não encontrou nada melhor para pôr em fundo, do que a bandeira do PAIGC (quero recordar que o evento se passa em Coimbra – terra onde está sepultado o D. Afonso Henriques…) e uma foto de Amílcar Cabral que, em termos simples, não passa de um traidor português.[4]

   

No dia anterior a esta redonda mesa, tinha estado previsto um colóquio promovido pela quase extinta Polícia Judiciária Militar, onde o caso de Guileje era tema, com direito a debate, e lá estava o nosso ex- comandante inscrito para o mesmo.

  

Tem ainda participado em várias conferências, apresentações de livros, discussões, etc., onde raramente é contestado e escreveu um livro com a sua versão dos eventos, que teve o prefácio de um general de quatro estrelas e conseguiu o significativo feito, de o mesmo ser apresentado por um outro general de igual posto, num local que tem o nome de Academia Militar.

  

Escola que, lembro, tem a peculiar missão de formar os futuros oficiais do Exército e da GNR.

  

Parece que ninguém se deu conta do que se estava a passar…

   

Há precisamente 39 anos que se passou a fazer o elogio da cobardia, em detrimento da coragem; promoveram-se desertores e traidores e depreciou-se (quando não se ridicularizou), heróis e patriotas.

    

A corrupção passou a ser tolerada e a achar-se que era coisa de espertos; incentivou-se o vício e casquinhou-se a virtude; tem-se sido de uma compreensão dadivosa para com os “desvios”, ao mesmo tempo que se desdenha a “normalidade”; encolhe-se os ombros aos trapaceiros e fustiga-se o mérito, enfim, os exemplos são extensos e são todos maus.

   

Chegou-se ao ponto de incentivar a morte e depreciar a vida, em troca do egoísmo, hedonismo e outros “ismos”, todos muito “progressistas” e modernaços…

   

Não admira, pois, que estejamos mergulhados numa crise moral, política e social medonha, e á beira do desaparecimento genético (!), e que quase toda a gente confunde com uma crise económica e financeira, e apenas porque lhes estão a ir ao bolso!

   

Fica-nos, contudo, e no meio disto tudo, uma dúvida existencial, que é a seguinte: Face ao descrito, o que se andará a ensinar aos cadetes e aos comandantes das actuais Forças Nacionais Destacadas?

 

20/6/13

                                                                           

 

João J. Brandão Ferreira

Oficial Piloto Aviador

 

 FIM



[1] No fim da ofensiva, nós ganhámos e o PAIGC perdeu, é bom que se diga. Mas o que se passou em Guileje causou um abalo muito grande no moral do conjunto das tropas e comandos. E pode ter contribuído fortemente para o início do MFA, na Guiné. Se assim foi, a vitória táctica portuguesa, resultou numa derrota estratégica, a prazo.

[2] Foi organizada pelo “Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra”, criado em 1998. O moderador foi o Prof. Dr. Luís R. Torgal, que tinha a missão impossível de dar a palavra, numa tarde, a sete oradores e promover o debate…

[3] O tema era a ofensiva sobre Guileje de que trata este escrito e decorreu de 1 a 7 de Março de 2008, promovido pela “Universidade Colinas do Boé” e pelo INED, uma das ONGs que por lá pululam.

[4] Amílcar Cabral tinha a nacionalidade portuguesa. Veja-se artigos do Código Penal de então e de agora…

O DESNORTE DO REINO – 3

 

GUINÉ, GUILEJE

 

 

   

Do que se sabe, o General Spínola tratou mal o Major e não lhe explicou nada. Podia ter-lhe dito qualquer coisa do género “a preservação da sua posição é fundamental para a defesa da fronteira sul, eu agora não lhe posso valer pois tenho todas as minhas reservas empenhadas (o que era verdade), volte para lá, aguente-se, que logo que possa envio-lhe auxílio”.

  

Em vez disto tratou-o nos moldes em que os que o conhecem sabem, quando não gostava de alguém. A agravar as coisas, o oficial em causa, não era oriundo de Cavalaria nem frequentara o Colégio Militar…

   

E quando se despediu dele humilhou-o dizendo-lhe “regressa a Guileje e daqui a um ou dois dias irá lá ter o Coronel Durão e você passa a adjunto dele”. Ou seja passou-lhe um atestado de incompetência.

   

O Comandante do COP 5 voltou ao quartel apenas para saber pelos seus subordinados – em quem segundo o “jornal da caserna” não tinha grande comandamento – que o último ataque sofrido tinha destruído o posto de rádio e parte da artilharia.

   

A retirada fez-se nessa noite, sendo feita em boa ordem de marcha e com todos os cerca de 500 elementos da população, o que prova três coisas:

    - Que o quartel não estava cercado (se estivesse a saída das tropas e população poderia ter sido um desastre!);

    - Que a população estava toda do nosso lado;

    - Que o PAIGC estava ainda longe de querer assaltar a povoação, já que só deu pela evacuação três dias depois (entrando quase todos em coma alcoólico depois de terem esgotado o stock de bebidas existente…).

   

Mas prova ainda outra coisa: que a retirada já teria sido preparada do anterior, pois era praticamente impossível organizar tal operação na hora. Será que estariam à espera que Spínola autorizasse a saída? Até que ponto haveria acção subversiva feita por eventuais infiltrados simpatizantes, idos da Metrópole? Eis duas questões que seria interessante dilucidar.

   

Resta ainda acrescentar que o quartel tinha uma pista; a FA garantia apoio pelo fogo de dia, com os “Fiat” e de noite com um “C-47” modificado, em bombardeamento de área; Guileje era o único quartel em toda a Guiné, que tinha abrigos em betão.

   

Sofreu bombardeamentos com precisão (cerca de 36), porque o tiro era regulado por guerrilheiros infiltrados até perto do quartel, pois estes tinham liberdade de movimentos, por as forças lá aquarteladas não fazerem batidas fora do arame farpado (como, aliás, estava determinado e era do mais elementar senso táctico).

   

Guileje tinha, porém, um ponto fraco: não tinha um poço artesiano, que lhe fornecesse água potável, a qual tinha que ser obtida a cerca de 2Km, o que permitia emboscadas às colunas encarregues dessa missão. As evacuações de helicóptero tinham, ainda, que ser feitas a partir de Cacine, pois a ida dos Al III a Guileje e Gadamael estava, temporariamente, suspensa por razões operacionais.

   

Considera-se que as forças que defendiam Guileje não estiveram sequer perto, de não se poderem defender e nada justificava o seu abandono tão prematuro, que veio a causar algum pânico em Gadamael – Porto e poderia ter feito colapsar – por efeito de dominó – todo o dispositivo junto à fronteira - sul.[1]

 

20/6/13

 

(continua)

João J. Brandão Ferreira

Oficial Piloto Aviador



[1] Além disso a saída de Guileje não foi coordenada com Gadamael e esta povoação e respectivo quartel não tinham condições mínimas para albergar tão elevado número de “fugitivos”. E não se sabe, exactamente, porque é que Guileje não foi reocupado, o que não favoreceu as nossas cores.

O DESNORTE DO REINO – 2

 

GUINÉ, GUILEJE

 

   

No dia 20 de Janeiro de 1973, o líder do PAIGC, Amílcar Cabral, um mestiço politicamente moderado (vagamente marxista), de cultura lusíada, foi assassinado em Conackri, por três elementos do mesmo partido.[1]

   

Na sequência foram eliminados numerosos guerrilheiros e, até hoje, nunca se soube oficialmente os verdadeiros contornos da trama, tendo-se atirado para cima da PIDE/DGS a hipótese inverosímil, de estar por detrás desta morte.[2]

   

A seguir foi congeminado um plano – seguramente com a ajuda de conselheiros cubanos e soviéticos – para se conseguir uma decisão militar, que viria a ser explorada politicamente (como acabou por ser, em diferido), com a declaração unilateral de independência, no Boé, a 24/9/73.

 

   

 

Esta ofensiva teve algumas inovações: procurou-se utilizar o princípio da concentração de forças e atacar simultaneamente, numa espécie de tenaz, dois objectivos; as forças que atacavam seriam protegidas por uma nova arma anti – aérea, o míssil terra-ar “Strella”, o que permitiria anular a supremacia aérea nacional e, desse modo, fazer pender o potencial relativo de combate a favor da guerrilha.

   

O primeiro míssil foi disparado a 20 de Março, sem consequências. Porém, a 25, um outro disparo abateu um Fiat, salvando-se o piloto por ejecção e posterior recolha no chão.

   

Nas duas semanas seguintes foram abatidas mais quatro aeronaves tendo morrido quatro pilotos e cinco outros militares o que, naturalmente, abalou o moral das tripulações e passou a afectar o cumprimento de algumas missões, sobretudo por não se saber qual a arma e suas características, com que se defrontavam.[3]

   

Os objectivos escolhidos para serem atacados, isolados e, eventualmente, tomados, foram as povoações de Guidage, na fronteira norte, e Guileje, na fronteira Sul.

   

Estas povoações estavam defendidas com unidades tipo Companhia, reforçados com outros (escassos) meios.

   

Foram escolhidos pois estavam mesmo junto à fronteira, o que facilitava o ataque e o apoio logístico, além de que as equipas de misseis também não se deviam internar muito em território nacional, por imposição dos soviéticos que temiam que alguma destas armas caísse em mãos portuguesas.

   

Guidaje começou a ser atacada em 8 de Maio e esteve cercada e debaixo de fogo, constante, durante um mês.

   

Foram organizadas várias colunas de reabastecimento que foram duramente atacadas e, finalmente conseguiu-se reforçar a guarnição com uma companhia de paraquedistas. No entretanto montou-se uma grande operação que envolveu a totalidade dos efectivos do Batalhão de Comandos Africanos, sobre a base de Cumbamori, que apoiava as forças do PAIGC.

   

Durante este período as nossas tropas sofreram 47 mortos e mais de uma centena de feridos.

   

No meio desta ofensiva séria foi atacado o aquartelamento de Guilege no dia 18 de Maio, possivelmente como diversão, para obrigar a retirar forças que estavam a auxiliar Guidage.

     

A guarnição do Comando Operacional 5 sofreu um morto e dois feridos.[4] O Comandante, Major Coutinho e Lima, decidiu ir a Bissau expor a situação. Regressou no dia seguinte e tomou a decisão de abandonar o quartel, levando consigo toda a população para Gadamael-Porto, uma povoação a poucos quilómetros.[5]

   

Entretanto a Força Aérea, numa acção notável, conseguiu descobrir as características do míssil e adoptou um conjunto de procedimentos e tácticas que permitiram continuar a cumprir todas as missões, com constrangimentos vários.

   

A Força Aérea perdeu, de facto, a supremacia aérea, mas não perdeu a superioridade aérea. E nunca mais nos abateram qualquer aeronave, à excepção de um Fiat, em 30 de Janeiro de 74, por incumprimento de uma regra de segurança. Estima-se que foram disparados mais de 40 mísseis.

   

Que se terá passado então, para que o Comandante de Guileje tivesse apenas resistido quatro dias – com mais meios do que o seu camarada de Guidage – o TCor Correia de Campos, que se veio a revelar um valoroso Comandante - que chegou a estar no limite das munições e dos víveres?

   

Aqui parecem entrar o que se designa por factores imponderáveis da guerra, tão ou mais importantes que os outros…

 

20/6/13

 

(continua)

João J. Brandão Ferreira

Oficial Piloto Aviador



[1] Amílcar Cabral foi, sem dúvida, o mais capaz líder guerrilheiro de todos os que combateram contra Portugal.

[2] O que, a ser verdade - convenhamos – seria mais do que legítima…

[3] Foram abatidos um Fiat, um T-6 e dois DO-27. Só a 8 de Abril se teve a certeza de que a nova arma era o SAM-7. Outros disparos foram efectuados, mas não se considera relevante a sua discriminação.

[4] O COP 5 dispunha de uma companhia de caçadores; um pelotão de milícias; um pelotão de Artilharia, com peças de 11,4 e algumas autometralhadoras “Fox”.

[5] É importante referir que o Comandante do COP5 foi lá colocado, também, com a missão de disciplinar e levantar o Moral a uma tropa considerada fraca e desmotivada.

O DESNORTE DO REINO – 1

 

GUINÉ, GUILEJE

 

José Ortega y Gasset

 “O homem é o homem e a sua circunstância”

 Ortega y Gasset

   

Desde Afonso Henriques que há assuntos, na História de Portugal, mal arrumados. Alguns, até, de tão mal descritos, resultam em distorções e mentiras grosseiras.

   

É o caso das últimas e ainda recentes campanhas ultramarinas em que a Nação Portuguesa esteve envolvida entre 1954 e 1975.

   

E assim é, apesar do espaço temporal ser curto; haver muita gente viva que foi protagonista nos eventos; ampla documentação e excesso de meios de comunicação social.

   

Entre os multifacetados aspectos que este longo conflito encerra, ganhou especial preponderância o teatro de operações da Guiné e, dentro deste, as operações que se desenrolaram no 1º semestre de 1973, em que se assistiu à maior operação da guerrilha, em toda a guerra. Esta ofensiva foi desencadeada pelo PAIGC e planeada e coordenada por instrutores soviéticos e cubanos e destinava-se a fazer “ajoelhar” militarmente, as forças portuguesas.

   

Naturalmente o facto de o MFA ter nascido na Guiné; o protagonismo que o General Spínola – que acabou por ser o principal responsável pelo abaixamento do moral das nossas tropas na Província – veio a ter em todos os eventos ligados ao 25/4 e posteriores; e ao mito que se veio a criar que a guerra na Guiné estava perdida são, seguramente, responsáveis por tal facto.

   

No meio da ofensiva referida veio a ter destaque, pelas piores razões, o abandono do quartel e povoação de Guileje, no dia 22 de Maio.

   

Piores razões, porque marca uma página negra da História Militar Portuguesa, dado que uma guarnição que estando longe de estar batida, quebrou o dever militar, ao abandonar a sua área de operações sem ordem para o fazer e sem razão que o justificasse. A única que o fez em 13 anos de combates.[1]

   

O responsável directo por esta retirada foi preso em Bissau, ficando a aguardar julgamento em tribunal militar.[2]

   

Desse julgamento, livrou-o o Golpe de Estado de 25 de Abril e o desnorte que se lhe seguiu, acabando o arguido amnistiado em tal processo. Ou seja, juridicamente a responsabilidade penal deixou de existir.

   

O oficial em causa continuou a sua carreira militar e chegou a coronel.

   

Depois de abandonar o serviço activo, escreveu um livro, profere conferências e entra em debates, no sentido de descrever o que se passou, explicar as razões por que tomou a decisão que tomou e insurgindo-se contra o processo de que foi alvo.

   

Antes de entrar nesta última parte é mister fazer um brevíssimo enquadramento da situação ocorrida em Guileje.

 

20/6/13

 

(continua)

João J. Brandão Ferreira

Oficial Piloto Aviador



[1] O Quartel de Copá, no Nordeste da Guiné, também foi abandonado, em 30/1/73, por metade da guarnição, mas a mesma foi obrigada a regressar, pela notável acção do Comandante do Batalhão, Ten-Cor. Jorge Matias.

[2] O militar ficou preso cerca de um ano, o que se estima ser um exagero - mesmo tendo em conta a situação da altura – para se instruir o processo e levá-lo a julgamento. E, possivelmente, não deveria ter sido o único a quem devia ter sido dado ordem de prisão…

USHUAIA - ARGENTINA

El Fin del Mundo

 

 

Até 1434 o mundo acabava para além do Cabo Bojador! E foi precisa muita coragem e saber para enfrentar esse fim do mundo! Sem pararem, os portugueses passaram “além” de todos os fins do mundo, o Cabo das Agulhas, a Taprobana, Timor, Austrália, Tasmânia, Nova Zelândia, para Leste, Oriente, enquanto para o Ocidente João Fernandes Labrador chegava ao Norte da América, Cabral ao Sul e Fernão de Magalhães abria a rota da circunavegação. Passando lá quase no fim da América.

 

Três séculos mais tarde Fitzroy atravessou duas vezes o canal que hoje leva o nome do barco em que viajou. O “Beagle”, e chamou áquela região Terra Del Fuego.

 

E é no Canal de Beagle que se encontra a cidade mais autral do mundo: Ushuaia! Onde orgulhosamente se informa que ali é el fin del mundo!

 

 

 

Os primeiros europeus que ali se instalaram foram ingleses, cientistas, até que um dia, bem no final do século XIX a Argentina se lembrou de afirmar que a terra era deles, o que, à moda dos gentlemen (esqueçam as Falklands/Malvinas) os ingleses acharam muito bem.

 

Mas era necessário ocupar, colonizar a região, e a idéia foi ali montar uma prisão de segurança máxima, como Alcatraz ou Ilha do Diabo; iniciada em 1898 ficou pronta em 1920, e encerrada em 1947. E assim nasce a cidade, num clima gélido, donde os prisioneiros não tinham como fugir. Consta na história que só um de lá saíu e nunca mais ninguém o viu!

 

(Também lá padeci um quanto tempo, como se pode ver pelos “documentos” abaixo, até obter a sempre almejada liberdade!)

 

 

Na triste e gélida cela

 

 

Tentativa de fuga infrutífera

 

 

Por fim... a liberdade

 

Deixemos a minha “triste” história e voltemos a Ushuaia. Cidade pequena, no Canal de Beagle, na margem norte, em frente território chileno, uns 90.000 habitantes, e rodeada de morros – o final dos Andes – paraíso dos esquiadores... quando a neve cai em abundância, o que não se verificou este ano.

 

Na semana anterior à nossa chegada a temperatura muito tempo em até em 18° em pleno inverno, quando esta é a temperatura do verão! O aquecimento global não perdoa a ninguém.

 

Naquelas águas gélidas pescam a Merluza Negra (Dissostichus eleginoides) um dos peixes mais saborosos que já comi, incluindo a maravilhosa garoupa das pedras de Angola, e que, infelizmente, como tantas outras espécies, começa a ver a sua extinção a aproximar-se com a pesca ilegal.

 

Outra especialidade é o Cordero Fueguino. Cada dose servida dá para uns quatro, mas como insistem em cobrar por cabeça, o paciente vê-se obrigado a comer alarvemente e depois levar dez horas para digerir. Mas que é uma delícia ninguém o pode negar.

 

Do vinho pouco há a dizer já que por todo o lado, tanto faz que seja Malbec, Carmenere, Cabernet Sauvignon ou brancos como Chardonay ou Torrientes, ninguém pode reclamar. A não ser para pedir mais.

 

Vale a pena uma visita a este Fin del Mundo, apesar de estar ainda sob a égide da cretina (pronuncia fuegina para a madama presidenta daquela gente) que com com seu defunto esposo tanto têm feito para desvalorizar um país que tanto já valeu, e ainda vale.

 

Mais agora com o grande papa argentino que, milagre, conquistou o coração dos brasileiros e de todo o mundo. Até os de lá del Fin!

 

25/07/2013

 

 Francisco Gomes de Amorim 

UMA FÁBULA DE FLORIAN

 

 

Esta fábula de como se pode ser feliz

Vem a propósito

De um livro sobre «Os Portugueses»

De um escritor inglês

Chamado Barry Hatton

Que de um modo geral

Considera os portugueses

Contraditórios -

Na sua simpatia

Na sua imprevidência

Por excelência -

Que o remete para a cauda

Do povo europeu

Seja da União

Ou mesmo não,

Sempre troçado

Sempre ignorado,

Vilipendiado,

Apesar de ser capaz,

Apesar de bom rapaz.

Talvez que o nosso futuro,

Como o do grilo,

Seja o de viver obscuro

Mesmo sendo inconformado,

Como a fábula diz:

 

 

Um grilinho pobrezinho

Escondidinho

Na erva florida

Olhava uma borboletinha

Atrevidinha

No prado a volitar.

Via o insecto alado brilhar

Com as mais vivas cores

Das suas asinhas multicores,

A resplandecer

De azul, púrpura e dourado,

Sobre o prado,

Jovem, belo, senhor de si,

A esvoaçar,

Pegando e largando, a curvetear,

As mais belas flores

Das mais frescas cores

E odores.

« Ah! dizia o grilo, como são diferentes

A sorte da borboleta e a minha !

Dama natura,

Como uma má fada,

Por ela tudo fez e por mim nada.

Não tenho talento, menos ainda figura,

Assim,

Ninguém tem medo de mim,

De todos sou ignorado

Coitado !

Mais me valera não ser,

Ou até morrer! »

Estava ele a carpir-se,

Chega um bando de petizes,

Muito felizes,

Atrás da borboleta a correr.

Chapéus, lenços, e bonés,

Tudo serve para a apanhar

Sem grandes rapapés

Mas também sem pontapés.

Em vão o belo insecto tenta escapar,

Em breve será presa deles.

Um pelas asas, outro pelo corpo,

Um terceiro pela cabeça

Sem pressa

E sem hesitar

A hão-de agarrar.

Nem tanto esforço era preciso

Para despedaçar

O pobre animal, afinal.

« Oh! oh! - disse o grilo espantado

Já não estou nada zangado;

Custa muito caro neste mundo brilhar.

Como o meu viver apagado vou estimar!

Escondidos vivamos

Para felizes vivermos.

 

 

Infelizmente,

Tal não é verdade.

Porque a nossa obscuridade

Não é sinónima

De felicidade

Mas de insipiência,

De ruindade,

De incompetência

De insolvência,

De um desrespeito

Tão sem jeito,

Pelos princípios

Pelos valores

De um real Direito,

De preguiça mental

Por sinal,

E atropelamento feroz

De vós

Porque primeiramente

Estamos nós.

Definitivamente.

 

 Berta Brás

I DON’T NEED YOUR CIVIL WAR

 

 

Deve soltar alguma adrenalina cantar em voz bem alta o I DON’T NEED YOUR CIVIL WAR dos Gun n’ Roses num caraoque qualquer algures na Coreia do Norte. Perdão, deixem-me «dobrar a língua» e referir esse Estado pelo seu nome oficial: República Democrática Popular da Coreia.

 

Quando leio este nome logo me lembro dos tempos em que estava no Ministério do Comércio e Turismo lá pelos idos de quase 80 do século passado quando fui procurado por um Fulano pequenino e magrinho que falava quase aos berros e que queria convencer-me da imprescindibilidade para Portugal da assinatura de um Tratado qualquer com o seu país que ele citava por extenso como se estivesse a declamar algo a que nós, estrangeiros, devíamos prestar a maior reverência.

 

Já não me recordo do que lhe disse mas na verdade o Fulano (a que me apeteceria chamar «fulaninho») deixou de me incomodar com as mentiras que lhe tinham dito para me impingir. Nem me lembro se ele era o Embaixador se o contínuo da Embaixada. E se algum Tratado acabou por ser assinado, eu não dei por isso. Por minha influência, não foi de certeza!

 

Só voltei a pensar um pouco naquela a que nós, ocidentais, chamamos Coreia do Norte quando o meu Primo Luís Soares de Oliveira, Embaixador, foi inaugurar a Embaixada de Portugal na Coreia do Sul e de então para cá só me lembro dessa miséria nortenha quando se anuncia mais um lançamento de mísseis ou outras malevolências equivalentes.

 

 

 

Mas há dias ofereceram-me o livro de José Luís Peixoto intitulado «Dentro do Segredo - Uma viagem na Coreia do Norte», (Quetzal Editores) que li tão interessadamente como se fosse o relato de alguém que tivesse ido ao «outro mundo» e voltado ao nosso.

 

Fiquei elucidado sobre o que deveríamos apelidar de Reino da Mentira em que tudo é ensaiado, tudo é frase-feita, tudo é artificial, tudo é programado, tudo é imperativo. Fiquei ciente de que o voluntarismo, a espontaneidade, o improviso e até talvez mesmo a exalação da flatulência, tudo isso é proibido.

 

O resultado só poderia ser um: miséria.

 

E quem não se encaixar nas regras vai para um campo de concentração mas com uma atenuante: leva consigo toda a família! Mas também há uma chatice a tomar em consideração: é a pena ser por três gerações.

 

A paz imposta pela força é tudo menos paz: é medo! Outro título para a Coreia do Norte: o Reino do Medo.

 

Não, é claro que não há paz! Um dia que as grilhetas rebentem, como será? Espero poder testemunhar, mesmo que à prudente distância dos dois extremos do Continente Euroasiático.

 

Entretanto, a pasmaceira impera e «o pouco trânsito não assustava os pássaros. Levantavam voo apenas por vontade (…)» (pág. 50).

 

Ver um estrangeiro de nariz comprido é como ver alma do outro mundo: «Meia dúzia de rapazes, dez ou onze anos, aproximou-se de mim. Ficámos a falar por sorrisos e gestos. Sem pressa, chegámos a algumas conclusões abstractas.» (pág. 72).

 

Visitar o Paralelo 38 por aproximação nortenha parece ser experiência (traumática) bem diferente da homóloga sulista (turística). O mesmo que chegar ao berlinense Check Point Charlie a partir do velho bairro comunista de Pankow ou pelo lado ocidental e sua vida esfusiante. Chagas resultantes da mania de uns quererem impor um regime contra-natura. Eis como José Luís Peixoto viu que a «Zona Desmilitarizada estava cheia de militares» (pág. 99).

 

Ruralidade imperiosa com aldeias fortificadas contra invasores imaginários e «uma vaca a avançar sozinha ao longo de um caminho. A melancolia amena de uma mulher a guardar um bando de gansos brancos como se estivesse suspensa. O tempo subitamente parado. O branco incandescente dos gansos. E a mulher, sábia de mistérios» (pág. 112). Pudera, falasse e seria presa!

 

Até que, finalmente, lá vai o José Luís Peixoto parar a um ermo caraoque em que se desforra cantando o I DON’T NEED YOUR CIVIL WAR (pág. 202).

 

Chegado ao fim do livro, dou por mim a pensar um pouco mais…


O enigma de um gorducho imberbe de 30 anos aos comandos de um Estado militarizado faz-me supor que se trata de um fantoche nas mãos da elite que, tudo indica, é militar. Tenho este caso como equiparável ao Zimbabwe em que Robert Mugabe estará «acorrentado» ao Poder.


Terá sido com Kim Il Sung que os militares norte coreanos se revelaram um suporte estrutural da ditadura, com Kim Jong Il que se habituaram ao exercício do Poder e agora com este jovem que pretendem manobrar, querem eternizar-se como verdadeiros «donos» do país.


Um país sem moeda credível, que não produz o suficiente para alimentar a sua própria população, que se baseia numa quase economia de guerra, dá para nos interrogarmos sobre como pode subsistir sem afincados apoios externos. Ou seja, a Coreia do Norte persiste porque tem apoios externos, não por absoluto mérito endógeno.


Daqui concluo que o problema norte coreano não se resolve em Pyongyang mas sim nas «praças» externas que a apoiam. Duvido que ainda seja Moscovo, admito que seja Pequim quase marginalmente e ponho também a hipótese de que - pela semelhança da estrutura do Poder - possa ser Naypyidaw, capital de Myanmar. Mas isto é uma pura especulação minha.

 

Conto com a opinião de quem nos queira beneficiar com afirmações mais certeiras.

 

Julho de 2013,

 

 Henrique Salles da Fonseca

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