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A bem da Nação

ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue! 

 

CARTA ABERTA AOS DEPUTADOS

 

Senhores Deputados

 

Arregimentados que estão contra o Acordo Ortográfico de 1990 os argumentos relacionados com as técnicas linguísticas, atenho-me eu a outro tipo de questões bem mais próximas daquelas que por certo interessam a um Deputado, as económicas, que fundamentam parte substancial da Soberania Nacional.

 

É do domínio público que, após 1974, o sector editorial brasileiro cedo decidiu substituir o seu homólogo português nos mercados angolano e moçambicano disso se encarregando, aliás com subtileza, o seu aparelho diplomático.

 

Desse modo se deliberou em 1989 a constituição do Instituto Internacional da Língua Portuguesa e se aceleraram os trabalhos que haveriam de culminar no Acordo Ortográfico assinado em 1990.

 

Tendo Angola e Moçambique declarado oficialmente que não aderiam ao dito Acordo, ficou o sector editorial brasileiro com acesso privilegiado aos minúsculos mercados de S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Finalmente, com a entrada em vigor do dito Acordo em Portugal, pode agora a industria editorial brasileira invadir o nosso mercado sem qualquer respeito pelo leitor português. Mas o mesmo se não diga de Angola e de Moçambique onde se continua a escrever com a erudição que nós próprios, portugueses, somos por espúria decisão administrativa obrigados a rejeitar.

 

Não será certamente pela via do desleixo que a língua portuguesa se imporá nem será seguramente pela via do rebaixamento do nível intelectual que os lusófonos se darão a respeitar pelas demais fonias. Urge, assim, revogar parlamentarmente o Acordo Ortográfico de 1990.

 

São estes argumentos talvez menores e despiciendos mas são os meus e ofereço-os a V. Ex.ªs com todo o empenho.

 

Atenciosamente,

 

 Henrique Salles da Fonseca

A INSTRUÇÃO PÚBLICA REPUBLICANA

 

  «Escola do Grandella»

 

Os ideólogos da República acreditavam que a aposta na educação reabilitaria o povo para poder ombrear com os países mais prósperos.

 

Ao chegar ao poder, em 1910, os republicanos encontraram uma realidade educativa que afastava Portugal da maioria dos países europeus. As taxas de analfabetismo rondavam os 75,1% na totalidade, sendo de 81,2% para as mulheres. Perante tal situação, o combate ao analfabetismo impunha-se como objectivo prioritário.

 

A I República em Portugal distingue-se pelas suas amplas e frequentes discussões sobre as reformas da escolarização, com uma preocupação vigorosa em pensar e modificar os padrões do ensino e cultura das instituições escolares. Note-se que a República procura combater a situação deficitária, no campo educacional, do tempo da Monarquia, que não era brilhante, dado que a taxa de analfabetismo era elevada.

 

O governo republicano fez novas tentativas no desenvolvimento educacional, de tal modo que foi criada a primeira escola de enfermagem em 1911, enquanto a educação oficial e livre foi instituída, para todas as crianças, através de um decreto. Foi introduzido um novo método de ensino pelo qual o aluno aprendia não através do esforço de memória mas através da vontade própria em aprender. Foram também criadas as escolas superiores primárias que aumentariam o nível educacional.

 

Uma quantidade enorme de reformas pedagógicas foi introduzida no ensino secundário. Todavia, fora do sistema de educação oficial é que surgiram os mais importantes progressos. As actividades culturais em geral intensificaram-se através de discussões e outras manifestações populares baseadas em associações livres. Em 1912 foram fundadas as chamadas Universidades Livres e em 1913 as Universidades Populares abertas ao público e onde os trabalhadores participaram activamente.

 

Outra inovação educativa republicana foi a atenção prestada ao ensino científico e experimental. Nesse aspecto são de realçar os esforços para dotar liceus e universidades de laboratórios, teatros anatómicos, jardins botânicos, etc. O ensino universitário foi completamente modificado na sua estrutura, desde logo com a criação de novas universidades em Lisboa e no Porto. (...) A crítica ao ensino universitário até então ministrado em Coimbra foi demolidora. Pretendia-se um novo ensino em que o aluno não se limitasse a decorar e debitar as teses dos seus mestres presentes nas «sebentas». O ensino deveria ser experimental e seguir o método científico.

 

(...) a formação de um cidadão consciente, verdadeiramente livre e autónomo, é um ideal que só se efectiva em democracia.

 

 

In A SACRALIDADE LAICA REPUBLICANA, Fernanda Santos e José Eduardo Franco, Brotéria, Janeiro de 2013, pág. 61 e seg.

RECONHECIMENTO

 

 

Carl Gustav Jung (1875 - 1961), psiquiatra suiço, escreveu em 1957 ("Gegenwart und Zukunft" = Presente e Futuro); da versão francesa "Présent et Futur"):

 

A questão das relações humanas e dos contactos entre as pessoas no quadro da nossa sociedade tornou-se uma preocupação urgente perante a atomização dos homens "massificados", simplesmente empilhados uns sobre os outros e cujas relações pessoais estão minadas por uma desconfiança generalizada.

 

Desde que as flutuações do direito, a espionagem policial e o terror existem, os homens ficam acuados no isolamento e não são mais que partículas ameaçadas, o que se quadra com o fim e a intenção do Estado ditatorial que se apoia sobre o amontoado tão maciço quanto possível de unidades sociais impotentes.

 

Perante este perigo, a sociedade livre tem necessidade dum «ligante» de natureza afectiva, como por exemplo a caridade ou o amor cristão do próximo. Mas precisamente é o amor do próximo que sofre a maior parte dos danos devidos às projecções e à falta de compreensão que elas causam. Por isso é do maior interesse da sociedade livre que se preocupe, graças a uma compreensão profunda da situação psicológica, com a questão das relações humanas.

 

É da relação de homem a homem que depende a sua coesão e por conseguinte também a sua força. Onde termina o amor, começam a prepotência, a empresa violenta e o terror.

 

Estas reflexões não se fazem para apelar ao idealismo. Tento somente levar a uma consciência clara da situação psicológica. Porque eu não sei qual é mais fraco: o idealismo ou a perspicácia do público. Tudo o que sei é que é preciso tempo para conseguir modificações psíquicas das quais se possa esperar uma certa estabilidade.

 

Um conhecimento e uma compreensão, que apontem, se esquematizem e sigam lentamente o seu caminho, parecem-me prometer uma eficácia mais duradoura que um idealismo que só lança a sua chama para se apagar.

 

* * *

 

Nestas simples palavras há uma sugestão de programa de melhoramento civilizacional e cívico da sociedade dos homens, que as chamadas grandes potências poderiam implementar para maior bem-estar da Humanidade, em vez de desperdiçarem a sua humanidade e as suas riquezas materiais – puro lixo, tais como as usam.

 

Seria uma educação geral, não de tolas teorias, nem de realizações fúteis, mas sim de conhecimento psicológico, tão falho como sempre tem sido.

 

Não matar, nem roubar, nem mentir, acções tão indignas dos verdadeiros homens, mas sim amar cristãmente, que é e sempre foi e sempre será, a melhor solução para os nossos problemas. Haja Deus!


Joaquim Reis

O FUTURO DO ULTRAMAR

 

Foram os portugueses habituados a ouvir, sem possibilidade de discussão, o dogma do Portugal indivisível em que – dizia-se mas nem sequer se fazia – as províncias estavam todas em igualdade de condições e os seus cidadãos, qualquer que fosse a sua cor da pele, ou credo, ou local de nascimento, orgulhosos de serem portugueses. É legítimo pôr em causa essa afirmação, como qualquer afirmação em que a prova e contraprova sejam proibidas e impedidas à força.

 

Mas, pelas, mesmas razões, não é legítimo afirmar que o Ultramar português não quer ser parte de Portugal, especialmente quando, embora desde o 25 de Abril, não haja a força a impedi-las, não houve ainda tempo para fazer a prova e a contraprova.

 

Se não é legítimo decidir, «a priori», em favor de uma ou outra destas posições, muito menos legítimo é decidir, não só que o Ultramar não quer ser parte Portugal, mas que «deve» ser imediatamente entregue aos outros grupos armados – indiscutivelmente armados por países estrangeiros – que de uma forma ou de outra e com escasso apoio das populações de que se dizem campeões, têm lutado contra Portugal.

 

Que razões se podem invocar para entregar a esses grupos o domínio de vastos territórios e alguns milhões de cidadãos? Que democratas são esses que, tendo passado anos a clamar por eleições livres, como a única forma de decidir o destino dos povos, berram agora que alguns povos devem ser entregues a uns grupos que não são o resultado de eleições, de um plebiscito, de um referendo? Se pensarmos que esses povos são grupos heterogéneos, que foram aglutinados por uma presença portuguesa de alguns séculos; se pensarmos que neles se incluem alguns centos de milhares de brancos, nascidos na metrópole ou em África – alguns com várias gerações de África – e muitas centenas de milhares de mestiços em vários graus, resultado de uma miscegenação intensa; se pensarmos que muitos desses homens, pelo menos, e de todos os grupos, se consideram portugueses, há que concluir que a entrega do conjunto a qualquer grupo que não seja resultante de um plebiscito livre e consciente é uma traição que a Metrópole não tem o direito de cometer. Que a Metrópole não tem o direito de cometer, sejam quais forem as pressões internacionais.Bem sabemos nós as razões das pressões internacionais, particularmente americanas, russas, chinesas ou de quaisquer satélites daqueles três países. Nenhum deles vem pugnando pelos interesses e liberdades dos povos do Portugal ultramarino, mas antes são movidos por outras razões.

 

Ainda há bem poucos anos a descriminação racial era nos Estados Unidos algo fantasticamente diferente do que havia em Angola, por exemplo. Amando os Estados Unidos, um país onde vivi e trabalhei um total de perto de cinco anos e onde tenho numerosíssimos amigos, não posso deixar de mencionar que no ano de 1957-58, que vivi no estrado de Tennessee, tive ocasião de ver o que era, nessa altura, a superioridade portuguesa em matéria de preconceitos raciais.

 

Quanto aos países do Leste, mormente a Rússia e a China, porque será que não aplicam em casa aquilo que apregoam para fora? Lembram-se da Hungria em 1956? Lembram-se da Checoslováquia em 1968? Porque existirá em Berlim o muro da vergonha?

 

Claro que as imensas potencialidades económicas e estratégicas do Ultramar português não podem deixar de tentar qualquer grande potência …

 

Noutros casos a fúria anti-Portugal é apenas o resultado de uma dor que o povo costuma chamar «de cotovelo». Países que foram grandes colonialistas e que, por motivo do seu tipo de actuação, foram corridos logo que o após-guerra a isso deu azo, sentem uma certa inveja de Portugal continuar a existir quase intacto em 1974. E o «quase» aparece aqui porque uma das parcelas – o Estado da Índia – foi conquistado pelo enorme vizinho do lado que, não tendo, ao longo dos vários anos, conseguido convencer os goeses a deixarem Portugal, e atropelando todas as suas hipócritas afirmações de paz resolveu invadi-la e conquistá-la militarmente. Como a França conquistaria o Luxemburgo ou o Mónaco se a isso resolvesse meter ombros.

 

Verifica-se ainda o estúpido facto de ser espantoso o desconhecimento do mundo em relação ao Ultramar português. Uma fantástica propaganda, facciosa e mentirosa vem, desde o fim da guerra, inundando o Mundo inteiro. Sou testemunha do que é essa ignorância e do espanto que muitos estrangeiros mostram quando são postos perante muitos factos que ignoravam ou quando visitam o Ultramar português. E a culpa desse facto, se é em parte, de quem faz a propaganda mentirosa, também o é – e muito – dos governos de Salazar e Marcelo Caetano, que nem souberam, para defesa da política que apregoaram, usar os elementos válidos de que dispunham. Permitam-me que transcreva, de um artigo quer publiquei, há cinco anos, no «Jornal do Comércio» de 4/5 de Janeiro de 1969, os seguintes parágrafos:

 

É também claro que a essa propaganda poderia – e deveria – opor-se outra propaganda, melhor dizendo, Informação bem elaborada e fornecida em doses maciças por Portugal. O que fazemos nesses ponto é muitíssimo pouco e manifestamente insuficiente. Dessa nossa deficiência advém muito do êxito da propaganda contrária.

 

… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

 

Pois só a conquista de Goa, a nossa Emissora Nacional iniciou um modesto programa para o estrangeiro! Há muito não compreendo como Portugal se pode dar ao luxo de não lançar para o ar, diariamente, 50 ou 60 horas de emissão radiofónica em 20 ou 30 línguas diferentes. Tem-nos custado bem cara essa «economia.

 

Para termo de comparação, basta dizer que a Suécia, por exemplo, tem uma emissão diária em Português, e já há mais de 12 anos fui entrevistado pela secção portuguesa da rádio japonesa.

 

Das afirmações da Junta de Salvação Nacional podemos concluir que ela não consentirá qualquer tentativa de entrega do Ultramar aos grupos de guerrilheiros e que, pelo contrário, promoverá uma consulta democrática para que a população de cada uma das actuais províncias decida o seu futuro.

 

Poderá dizer-se que essas províncias têm vindo a ansiar pela liberdade. Evidentemente! Muitas vezes – antes do 25 de Abril – eu referi que achava perfeitamente natural que um português – de qualquer cor – em Luanda ou em Bissau, desejasse uma liberdade que não tinha! A liberdade por que todos os portugueses, afinal, ansiavam!

 

Mas isso não quer, necessariamente, dizer que qualquer desses territórios, liberto de uma e dominação económica e política, pretenda isolar-se do conjunto. Pode ser que, pesadas as vantagens – reais – de Portugal ser este conjunto que ainda é, mas numa comunidade REALMENTE igual, com ênfase na promoção das populações mais atrasadas – tanto no Ultramar como na Metrópole – com activa participação nos governos locais e no governo do País, alguns – ou todos – desses territórios QUEIRAM ser parte de Portugal, segundo estatuto a definir. Com que direito, então, alguns da Metrópole os expulsariam da sua Pátria?

 

De um extremismo de proibição, aos jornais, de falar na hipótese de separação do Ultramar, estou a ver, nos mesmos jornais – mas agora livres da censura do Governo -, uma enorme predominância da ideia da entrega do Ultramar aos movimentos dos guerrilheiros. Não creio que isso seja o reflexo da opinião da grande maioria dos metropolitanos e essa irresponsabilidade da Grande Imprensa pode dar ao Ultramar uma falsa ideia do que aqui se passa e fazer nascer graves e injustos ressentimentos.

 

Até ao dia 25 de Abril os movimentos dos guerrilheiros tinham a sua justificação no facto de ser essa a única maneira de fazerem ouvir a sua voz. Mas, agora, podem bater-se democraticamente pelas suas ideias, em confronto com quaisquer outras que porventura existam na Guiné, em Angola, em Moçambique. Por isso o ataque pelas armas não tem razão, a não ser que esses movimentos não estejam interessados em autodeterminação, nem em democracia, mas apenas em impor a sua vontade, mesmo que ela vá contra a opinião da maioria. Nesse caso, têm que ser drasticamente repudiados por Portugal, pela comunidade internacional e pelas Nações Unidas, em obediência aos princípios que se apregoam.

 

É óbvio que a guerra, com uma política aberta como a da Junta de Salvação Nacional, há muito já deveria ter acabado. Mas se acredito que alguns dos desertores abandonaram o País por não concordarem com essa mesma guerra, afigura-se-me provável que a grande maioria deles fugiu, pura e simplesmente, com medo e fá-lo-ia em qualquer caso e com qualquer tipo de guerra. Esses, podem ficar pelo estrangeiro; não merecem o nome de portugueses e certamente não são dignos de enfileirar ao lado das fardas que fizeram o 25 de Abril. A quase glorificação dos desertores parece-me igualmente algo que soa a falso na Imprensa diária.

 

Todos estes pontos que levantei me parecem ser – além do programa da Junta de Salvação Nacional – a opinião da maioria dos portugueses. Mas é preciso que essa maioria não seja silenciosa e grite bem alto a sua opinião. É preciso que essa voz seja ouvida no Ultramar e que a Junta de Salvação nacional sinta o seu apoio. E – talvez acima de tudo – é preciso que ela indique, insofismavelmente, ao Governo Provisório –que não foi eleito, mas apenas escolhido segundo as tendências que à Junta se revelaram – qual a linha de rumo que o País deseja que ele siga.

 

25 de Maio de 1974

 

Pelo Eng.º Agr.mo Miguel Eugénio Galvão de Melo e Mota

 

in SEPARATA DO «JORNAL DE SINTRA» N.º 2085

 

ESTÁ-NOS NA MASSA DO SANGUE

 

E foi por isso que de longa data nos habituámos a zarpar, arrostando contra ventos e marés. Mas alguns, longe da pátria, gemeram de saudade, como fez António Nobre, na autopiedade mórbida do seu destino de enfermo:

 

Ai do Lusíada, coitado,

Que vem de tão longe, coberto de pó.

Que não ama, nem é amado,

Lúgubre Outono, no mês de Abril!

Que triste foi o seu fado!

Antes fosse pra soldado,

Antes fosse próprio Brasil...

 

Manuel Alegre, não em Paris como Nobre, mas na África nortenha do seu terreno de luta pela tal liberdade que acabou por obter, também chora pela sua pátria acorrentada na escuridão de um destino de fome e medo, reivindicando poeticamente a glória da sua resistência de traição à pátria, em que consistiu essencialmente a resistência ao “fascismo” salazarista:

 

Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. o vento nada me diz. ….

Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão. ….

Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. ….

Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada à beira de um rio triste. ….

E a noite cresce por dentro dos homens do meu país. Peço notícias ao vento e o vento nada me diz. …

Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.

Esses nos ditaram o sestro de coitadinhos desterrados, num estrangeiro inicialmente de exclusão social, na época de Salazar, mas de progressivo enriquecimento cultural e económico, nos países da sua fixação, ao que se tem visto e se vira já nos tempos do “brasileiro de torna-viagem”, ou do “africano” do sul que os extensos territórios e a força económica e cultural tornaram menos mesquinhos.

É o que afirma Isaías Afonso, na sua prosa cordata, do texto «HÁ EMIGRANTES E EMIGRANTES» defendendo o conselho objectivo de Passos Coelho de busca de novos horizontes no estrangeiro, na actual crise, como solução talvez provisória para as suas vidas.

Os actuais patriotas, defendendo os coitadinhos da nossa baixa auto-estima, seguem as dolentes visões de poetas como os citados, excepto para o caso da emigração futebolística da nossa alta auto estima.

O que Isaías Afonso condena nos jornalistas arteiros, useiros e vezeiros na arte da insinuação ou mesmo de difamação para destruição do governo, videirinhos difamadores, poder-se-á atribuir a muitas outras figuras do vário tecido social.

Não resisto à tentação de transcrever, como sintomático da nossa idiossincrasia de povo trapaceiro, burlão, mexeriqueiro, mandrião e interesseiro, o retrato que Fialho de Almeida faz do povo alentejano em “O País das Uvas”, e que é extensível a tantos de nós, como povo de rancores e inércia invejosa:

 A vila conta naqueles clubes o seu número de comensais invariáveis, que desde rapazes vão lá, e por fim envelheceram aferrados ao travo especial da má-língua que se permuta na locanda preferida. Estes conclaves são magníficos de carácter e cor local. Salários, negócios, estatística de colheitas e poucas-vergonhas, bofetadas, roubos de palha, cancãs de rua, tudo ali vai cancelar a sua bagagem, pagar imposto aduaneiro aos farricocos da moralidade montesa e tirar folha corrida para poder seguir roteiro através do mau hálito das bocas maldizentes. Todas as classes têm na vila o seu predilecto lugar de assembleia. Ao começar da manhã, a classe serva anda nos campos lidando. Os ricos dormem ainda nas suas casas. E o “propriatairo” que então reina, como déspota do burgo, gozando o ripanço dum mariola pela rua central da povoação. Lentamente, depois de “morto o bicho”, cada madraço vem-se arrastando de casa como pode, com os seus chatos fundilhos avergastados de nódoas, o colarinho sujo e sem gravata, as mãos vazias, a face oleosa, e o todo profundamente enfastiado. Nas caras trigueiras, mal barbeadas, balofas, uma expressão vegetal mascara a vida. Aos trinta anos a ociosidade tornou esses homens obesos, moles de músculos, apáticos e profundamente sonegados à função do trabalho activo. (…)

E o retrato do «propriatairo» alentejano prossegue, na pujança linguística atrabiliária de Fialho:

Seu nódio contra os ricos é talvez mais torvo ainda do que a surda má vontade que já tinham mostrado aos inferiores. Desta maneira, colocado entre as duas classes que o detestam (a dos “nababos que vivem nos grandes centros, indiferentes ao cultivo e empenhados somente em perceber num prazo fixo o dinheiro das rendas , para sustentação das suas prodigalidades e magnificências”, e a dos “pobres diabos a trabalhar quarenta e cinquenta anos, vestindo saragoça, comendo chicharros, privando-se enfim, por amor do lucro, do estritamente necessário à existência, e que ao fim de velhos e cansados mal puderam juntar em vinhas podres e casebres de telha vã o capital de meia dúzia de contos”) o “propriatairo” vinga-se calcando nos que lhe ficam por baixo e pondo ratoeiras debaixo dos pés dos que lhe ficam por cima. É ele que nos anos de vinho barato vai pelas vindimas lançar à uva um preço caro, por que usufrua o encanto de assistir às percas dos grandes compradores. Ele quem no tempo das cavas incita o jornaleiro às jornas excessivas, tendo primeiro cavado as suas vinhas; e ainda ele que nas tabernas, chupando o cigarro, com um cinismo vesgo, se compraz em destruir a reputação dos ricos-homens da terra, incitando a canalha a arrancar-lhe de noite as plantações, a entrar-lhe com o rebanho nas searas e a deitar fogo ao trigo arroleirado por essas courelas afora. Este miserável ignorante, que ninguém consulta e toda a gente receia, é o invisível gnomo das patifarias aldeãs, o homenzinho das birras, das invejas, das perversidades, das calúnias, o terrível pulha gelatinoso que mesmo fugindo morde e que sob uma hipocrisia de Basílio, vive no ódio, como uma atmosfera propícia, com a cegueira despótica do mando, que ele exerce, em podendo, no sentido pior que lhe é possível!

Eis um retrato do alentejano que podemos generalizar a todo um povo e uma época de ódios e sujeições, como são os de hoje. Mais engravatados, todavia. Se bem que os “fundilhos avergastados de nódoas” do “propriatairo” alentejano bem os podemos encontrar, de certo modo, nos fundilhos descidos de alguma da nossa rapaziada moderna de um desleixo propositadamente fabricado, não para inglês ver, mas para atrair olhares de doce concupiscência, mantenedora, essa, da nossa auto-estima, como Vénus defende, na interpretação de Camões:

Luís de Camões

Sustentava contra ele Vénus bela,

Afeiçoada à gente Lusitana

Por quantas qualidades via nela

Da antiga, tão amada, sua Romana;

Nos fortes corações, na grande estrela

Que mostraram na terra Tingitana,

E na língua, na qual quando imagina,

Com pouca corrupção crê que é a Latina.

Lus. I, 33

 

 Berta Brás

IMPRESSÕES LISBOETAS

 

 

Pensava escrever um pouco sobre turismo, clima, gastronomia e amigos que ainda encontro em Portugal, deixando de lado o ambiente económico que a todos aflige, mas que, mesmo demorando muito mais do que se poderia esperar e desejar, acabará tendo solução positiva.

 

Portugal já esteve, na sua longa história, pior do que está hoje e vai sobreviver. A alma lusitana, cantada desde Bandarra e Camões não morre por dever algumas toneladas de ouro aos usurários que criaram a UE.

 

No entanto, no curto espaço de um mês vermos desaparecer vários amigos “de sempre”, irmãos dos tempos da juventude, descontracção e alegria, deixa-nos uma tremenda sensação de vazio e uma tristeza profunda.

 

Não tenho pretensões a esquecer que, com a minha idade, estou também na “linha de frente” para, em breve, os ir encontrar lá, onde quer que estejam. Quando eu partir vou também descansar, mas enquanto permanecer neste mundo, hoje, mais que nunca um mundo cão, o sentimento que me envolve é de tristeza.

 

Como por diversas vezes já afirmou o Papa Francisco, Cristo só sabe perdoar. Nunca condenou ninguém, o que nos leva a ter a certeza que todos estes amigos que agora estão na Sua companhia gozam da verdadeira Paz.

 

Não que algum deles fosse um mau amigo. Muito pelo contrário. Mas todos somos pecadores.

 

E nós, que devíamos imitar alguns povos a que eufemisticamente se insiste em chamar primitivos, nestes momentos cantando e dançando, alegrando-nos por todos os que estão já a ver a face de Deus, na Suprema Felicidade, lamentamos e choramos.

 

Parece vaidade nossa querer atrair sobre nós a piedade e compaixão dos outros, em situações que deviam merecer uma atitude de alegria; em vez disso devíamos nos rejubilar por saber que os amigos que partem vão finalmente ao encontro do seu maior e Verdadeiro Amigo que os recebe com a serenidade que jamais algum vivente encontra neste mundo.

 

O Universo é infinito. Não teve princípio nem tem fim. Assim o Espírito de Deus, onde se vão fundir as almas dos que partem. E lá ficam em gozo também eterno.

 

Hoje não me é possível falar sobre coisas terrenas. O meu ego está magoado. Não devia estar, mas está.

 

Temos que pedir a Cristo que perdoe as nossas atitudes, sem necessidade de Lhe pedir por aqueles que já estão a Seu lado.

Porque não podem estar melhor.

 

Mas sim pedir-Lhe que tenha piedade das nossas fraquezas.

 

24/06/2013

 

 Francisco Gomes de Amorim

O Futuro de Portugal

abril 02 - 01abr13 

 

           

A hora é certamente de regozijo para todos aqueles que amam a liberdade e sempre pensaram que Portugal devia contar-se entre os países civilizados do Mundo. Não podem regatear-se elogios e agradecimentos aqueles que, tudo arriscando, particularmente a vida e a liberdade, levaram a cabo, duma forma tão bela, aquilo que para muitos parecia impossível ou longínquo.

           

É altura, agora, de meditar nalguns aspectos muito graves, para evitar, pelo menos, cair em erros idênticos a outros cometidos no passado ou em erros novos que, por estarem à vista, se tornam inevitáveis.

           

A população, em massa, demonstrou um equilíbrio e uma grande moderação, que muitos não julgariam possíveis. Mas na euforia dos primeiros momentos e numa reacção compreensível, cometeram-se alguns desmandos, certamente reprováveis. Se muitos deles foram espontâneos e «inocentes», não seriam outros friamente preparados por quem tem interesse em que Portugal não seja um país calmo e civilizado?

           

A Junta de Salvação Nacional e as Forças Armadas tiveram um comportamento inexcedível. E nesse magnífico exemplo devemos encontrar a causa do bom comportamento da população. Mas a tarefa não está terminada e é dever de todos nós dar a ajuda necessária para a construção do futuro.

           

A massa do povo reagiu muito bem – porque, certamente, não estava satisfeita com o que tinha. Mas ela não é capaz de executar. Ela só se manifesta (quando pode) contra ou a favor do que está e (nos regimes democráticos) entregando um mandato a quem melhor a convenceu de que vai executar bem. Nos países com longa tradição democrática e na ausência de golpes de Estado de qualquer proveniência há sempre a possibilidade de, passado um determinado período de tempo, emendar a mão se acaso a massa se enganou. Mas se, entretanto, se criou um sistema que tal lho impede, isso pode representar muitas dezenas de anos de mais ou menos drástica falta de liberdade. A História mostra-nos que tais sistemas tanto podem vir duma extrema direita como duma extrema esquerda.

 

*

Não creio que seja desejável termos um Nurenberg português, ou seja, uma feroz «caça» aos homens do antigo regime. Mas também não creio que seja de aceitar que qualquer dos que, pelos seus actos, até 25 de Abril, nos mostraram bem o que são, venha a infiltrar-se nos novos quadros. É preciso que o País, muito firmemente faça terminar a carreira daqueles que já mostraram que o seu objectivo não é servir, mas sim, servir-se, a si e aos amigos.

           

Não tenhamos quaisquer dúvidas: muitos deles hão-de vir agora, hipocritamente, se necessário chorando lágrimas de crocodilo, dizer como sempre estiveram em desacordo com o anterior regime – para colherem os benefícios que puderem e que a liberdade actual facilitará. Se não convém que haja rancores, se é mesmo conveniente esquecer muitos agravos, não deverão ser olvidados os actos cometidos ao longo destas décadas, para que os seus responsáveis não tenham oportunidade para os repetir. Há que julgar os homens pelos seus actos passados e não pelo que prometem para o futuro. É tão fácil prometer …

             

Por outro lado, vão também aparecer alguns políticos a apresentar os seus programas – aliciantes, sem dúvida – mais ou menos abertamente apoiados em Moscovo ou Pequim … É preciso que os futuros eleitores meditem neste facto muito simples: aquelas liberdades e aquilo que esses políticos prometem não existem – nem na Rússia, nem na China, os países em que eles se inspiram, em que se apoiam e de que por vezes recebem ordens.

           

Assistimos com júbilo à libertação dos presos políticos das prisões portuguesas. Os nossos camaradas russos ainda não tiveram essa alegria – e oxalá a tenham em breve.

           

À senha que encarniçou alguns portugueses contra os ex-agentes da polícia política será a mesma que mostrarão muitos honestos cidadãos russos quando lhes for dada idêntica oportunidade – e oxalá também a tenham em breve.

           

O direito à greve é reconhecido em todos os países democráticos: Mas não o era em Portugal, como não o é na Rússia ou na China …

           

O cidadão português tinha sérias limitações na sua liberdade e via ser-lhe coarctado pela censura o acesso a parte da informação. Mas na Rússia e na China essas liberdades nem existem…

           

Depois da experiência que tivemos, como é que o produto exportado por esses países nos pode servir?

           

Estou, com estas palavras, a agitar o papão comunista, como os do antigo regime faziam? Claro que não! Estou apenas a chamar a atenção para aqueles factos irrefutáveis.

           

Estou a defender o regime de Salazar e Marcelo Caetano? Certamente que não! Ao longo de mais de 25 anos, bastante critiquei e alguma coisa ficou em escritos que falam por si.

           

Mas, por isso, não estou interessado em voltar a ter o mesmo – ou pior – seja com que rótulo for.

           

Receios infundados? É impossível tal coisa acontecer? Além dos variados exemplos que há pelo mundo, eu já vi a actuação de alguns «democratas» portugueses, sempre que a oportunidade se lhes ofereceu … Portugal vai ter que saber distinguir entre os verdadeiros democratas e aqueles para quem a democracia é «para uso externo».

           

É maravilhoso derrubar uma ditadura dum dos extremos. Seria trágico se lhe seguisse outra, de qualquer dos extremos.

           

A massa dos eleitores portugueses vai ter que participar – e participar com muita ponderação. Estou habituado a ver, em muitos campos, a actividade concentrar-se apenas nos extremistas – dos dois lados – não sendo raro que a grande maioria, do centro, equilibrada e honesta, fique apática e calada, o que já fez nascer o nome de «maioria silenciosa». Pois é essa maioria, habitualmente silenciosa, na realidade um grande conjunto de portugueses de boa vontade, que precisa de dinamizar-se – e não estar à espera de «ser dinamizada» - para não sofrer depois as consequências más que lhe serão impostas por uma minoria extremista. E convém não esquecer que qualquer dessas minorias extremistas não precisa de muito para se firmar no Poder. Logo que consegue ocupar algumas posições-chave, muda as regras de jogo e acaba com a democracia. Os exemplos  –  dos dois lados, repito  –  são já bem numerosos pelo Mundo …

 

4 de Maio de 1974

 

Eng.º Agr.mo Miguel Eugénio Galvão de Melo e Mota

 

 

O TIRO

 

Tinha visto na Internet a entrada sorridente de Passos Coelho e comitiva na escadaria do Mosteiro de Alcobaça e pensei logo que era um bom prenúncio para resoluções positivas do governo para o nosso país, e assim o disse à minha amiga, confiante na Janela Manuelina do dito Mosteiro, lembrando o nosso passado de glórias embarcadiças, tal como Camões também lembrou, pondo até o Vasco da Gama a arrostar com um Adamastor tenebroso augurando maus ventos e desastres aterradores, como fazem os adamastores de hoje, (embora no fim se tenha desfeito em lágrimas, por males de amor, que é a nossa pecha. Exemplifico os augúrios:

 

Lus., Canto V, ests. 43 e 44

 

Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem,
Com ventos e tormentas desmedidas;
E da primeira armada que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei de improviso tal castigo
Que seja mor o dano que o perigo!

 

Aqui espero tomar, se não me engano,
De quem me descobriu suma vingança;
E não se acabará só nisto o dano
De vossa pertinace confiança:
Antes, em vossas naus vereis, cada ano,
Se é verdade o que meu juízo alcança,
Naufrágios, perdições de toda sorte,
Que o menor mal de todos seja a morte!

 

Mas a minha amiga não foi em poesias, nem sequer as de “tuba canora e belicosa”, lembrando os argumentos incisivos do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa que ela supôs que eu não tinha ouvido, só porque às vezes lhe digo que adormeço a ouvir ou a ver os programas, sobretudo se “de agreste avena ou frauta ruda” em que somos peritos de longa data. Mas eu tinha ouvido muito bem ontem a entrevista do Dr. Marcelo, com este a falar belicosamente no “tiro no pé” do governo que constituiu mais aquela farsa de uma sessão vazia e inútil, pois nada adiantara ao que já se sabia, além do aparato governativo em se deslocar inexplicavelmente, a Alcobaça e o seu Mosteiro, com a frota automóvel - e policial, ao que parece - quando poderia tê-la realizado mais economicamente embora com os mesmos apupos e impropérios em S. Bento, “que o peito acendem e a cor ao gesto mudam”, nos costumes de hoje.

 

Isto frisou a minha amiga indignada, na esteira do que afirmou o Dr. Marcelo, com a sua fluência habitual, que o vazio da farsa – mas há quem lhe chame comédia, os mais roncadores preferindo a designação tragicomédia e os adamastores chorões e ramelosos assentando as suas injúrias numa definitiva designação de tragédia – de qualquer forma, o vazio definitivo –quanto a mim, inexplicável – constituía um tiro no pé de Passos Coelho e da comitiva que parece que não se rala, pois até o Dr. Portas, diz-se, comprou lá rebuçados, não sei se para a tosse, que não conheço as especialidades doces de Alcobaça.

 

O que eu respondi à minha amiga foi aquilo de que me lembrei, assim que ouvi a referência desgostosa do Dr. Marcelo ao autotiro, como ele classificou a ida do governo a Alcobaça para nada. Lembrei-me de que a culpada disso fora a Maria de Lurdes Resende que se fartou de explicar em tempos que quem passasse por Alcobaça havia de lá voltar, e isso fizeram os do governo que lá voltaram, embora eu julgue que alguns o fizeram pela primeira vez.

Que a isto de viajar para longe inutilmente, a maior parte das vezes pela primeira vez, por conta dos impostos plebeus, estão todos os governos habituados e este não ia ficar atrás deles, e até com mais economia. Até, se tivessem ido de autocarro de carreira, não deixariam de fazer a viagem a cantar a “Alcobaça” da Maria de Lurdes Resende, do Maestro Bello Marques e do Poeta Silva Tavares

 

http://www.youtube.com/watch?v=x2xnc3UmRXM

 

Quem passa por Alcobaça

Não passa sem lá voltar.

Por mais que tente e que faça,

É lembrança que não passa

Porque não pode passar.

Não se esquece facilmente,

Dos seus mercados a graça.

E o seu Mosteiro imponente

Recorda constantemente,

É lembrança que não passa.

Por mais que tente e que faça

Ninguém se pode esquecer,

Das margens do Rio Baça,

Nem do Alcoa que passa

Por ser mais lindo de ver.

Sua lembrança não passa,

Porque não pode passar

Por mais que tente e que faça,

Quem passa por Alcobaça

Tem que por força voltar.

 

E foi assim que a minha amiga se reconciliou com a vida, pois com a sua linda voz reavivou recordações de épocas mais brandas, este último adjectivo trazendo-me à ideia saudosista a ”Saudade dada“ de Fernando Pessoa. Que é o que se leva desta vida, “o que se brinca, ai, ai”, mesmo que seja aliterativamente falando, ou antes, poetando, como o fez Pessoa:

 

SAUDADE DADA

 

Em horas inda louras, lindas

Clorindas e Belindas, brandas,

Brincam no tempo das berlindas,

As vindas vendo das varandas.

De onde ouvem vir a rir as vindas

Fitam a fio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna

A atordoar o ar que arde

Que a eterna tarde já não torna!

E em tom de atoarda todo o alarde

Do adornado ardor transtorna

No ar de torpor da tarda tarde.

E há nevoentos desencantos

Dos encantos dos pensamentos

Nos santos lentos dos recantos

Dos bentos cantos dos conventos...

Prantos de intentos, lentos, tantos

Que encantam os atentos ventos.

 

 

 Berta Brás

HÁ EMIGRANTES E EMIGRANTES



Vi na televisão, nos vários noticiários, contra a auto-estima dos portugueses, em que a desgraça continua, com as culpas habituais para o actual governo, como se fosse ele o malvado do endividamento nacional.

Este já vem de longe, mas a face visível da crise são Passos Coelho em larga escala e Paulo Portas um pouco menos.

Parece ser a história daquele amigo que emprestava dinheiro a outro, até que este deixou de lhe pagar os sucessivos empréstimos porque o fruto do seu trabalho já não dava para satisfazer tanto empréstimo.

Acabou também este por se revoltar contra o prestamista, porque fechara a torneira das dádivas e então jurou não querer pagar o que devia.

Veio agora A TV anunciar que mais de uma centena e meia de crianças saíram das escolas do 1°Ciclo, na região de Viana do Castelo, a caminho da emigração, acompanhando os seus pais.

A noticia é apresentada como uma tristeza mórbida, como se a emigração não tivesse sempre feito parte da estrutura económico-social portuguesa.

Tenho sempre encarado este fenómeno como uma partida para a valorização pessoal e, nesse aspecto, eu sei do que falo. Com 12 anos de Angola e três dezenas e meia de França, deu-me a clara noção de que apenas a partida é dramática e depois a emoção vai-se esbatendo e tudo se torna normal no espaço que nos acolheu.

A saída das crianças e dos pais é relatada no âmbito da culpa atribuída à actualidade. Aqueles que saíram antes não fazem parte do nosso fado porque a memória é curta ou ela tem a enorme faculdade dum fenómeno a que se dá o nome de esquecimento.

Curiosamente, há uma emigração que eleva a nossa auto-estima e que a imprensa relata como uma valorização acrescida. Trata-se da "exportação de treinadores de futebol".

Estes não são os emigrantes da crise, do drama ou da tragédia nacional. Não são tão pouco culpa deste Governo. Esses são a nossa auto-estima! Louvados e adorados como resultado da nossa capacidade, do nosso "know how" em matéria futebolística.

Os outros são os nossos "coitadinhos"!

A nossa imprensa é que é formada por uma corja de malfeitores que habitam um espaço que se chama Portugal.

Esses é que poderiam emigrar para os paraísos que andam a tentar vender barato.

 

23 de Junho de 2013

 

 Isaías Afonso

AI, QUE LÁ SE VÃO OS ANÉIS...

 

 

Muito recentemente, foi posta a circular a tese que rima “stock de ouro (confiado ao Banco de Portugal/BdP)” com “excesso de funcionários públicos”. Que ideia brilhante, ouve-se. Será?

 

Desde logo, convém não correr atrás de ilusões: a actual dimensão do aparelho administrativo do Estado é um problema que não tem solução expedita.

 

Pôr no olho da rua 200,000 funcionários públicos (é este o número apontado pela referida tese) não contribuiria para a redução do deficit orçamental: a despesa apenas iria mudar de rubrica (de “gastos com o pessoal” para “subsídios de desemprego”), mas continuaria praticamente intacta, com a consequência perversa de tornar ainda mais difícil o financiamento dos direitos pensionáveis que os recém desempregados entretanto já tivessem adquirido. Antes do excesso (que existe), o problema com o funcionalismo público reside no facto de os benefícios que nós, cidadãos, dele colhemos serem manifestamente insuficientes face ao que nos custa sustentá-lo.

 

O bom senso diria que, primeiro, se equilibrassem benefícios e custos, se eliminassem desperdícios e, só depois, se atacasse o que fosse demonstradamente supérfluo ou inútil. Por onde há que começar, então, é pelas chefias na Administração Pública, de cima a baixo – e se alguns que exercem hoje tais funções tivessem de passar pelo Fundo do Desemprego, estou certo de que a economia suportaria bem tal encargo. Quanto a isto, a referida tese nada diz – e o seu silêncio é revelador de que, ou lhe passa despercebida a génese do problema, ou não quer desagradar às estruturas políticas que nomeiam, mudam, promovem e despromovem essas chefias a seu bel-prazer.

 

Tal como nada diz, também, sobre o facto de estarem reunidas num mesmo quadro legal (o Estatuto da Função Pública), de forma a abusiva e disparatada, funções que coabitam bem com interesses concorrentes (médicos, professores, muitos dos organismos públicos) e funções que devem ser absolutamente preservadas de quaisquer conflitos de interesses (defesa e segurança, representação externa, ordem pública, justiça, regulação e supervisão). Acontece que esta é uma das causas estruturais do deficit orçamental.

 

Gente mais optimista virá argumentar que menos uns quantos funcionários públicos sempre resultará em menores gastos correntes e em alguns prédios devolutos, logo alienáveis para alívio do deficit. A estes respondo dizendo-lhes que não brinquem com isqueiros junto a bombas de gasolina. A crise da economia portuguesa (que vai muito para além do desequilíbrio orçamental) reclama ajustamentos “macro”, quer na esfera real, quer na esfera nominal. O ajustamento da “economia real” será feito, quase por inteiro, à custa do desemprego. E, se se eliminarem de golpe 200,000 empregos, a taxa de desemprego estrutural será atirada para níveis bem acima dos 10%, com custos sociais impossíveis de escamotear. A esfera nominal, por seu turno, está “por arames”, com o endividamento monetário externo (isto é, junto de Bancos estrangeiros, mas não do Banco Central Europeu/BCE) dos Bancos portugueses em níveis que levariam Mr. Greenspan à demissão, se não mesmo ao suicídio; com os Bancos portugueses a serem pressionados para demonstrar os riscos a que se encontram expostos – não se vendo como poderão fazê-lo a curto prazo; e com a solidez do nosso sistema bancário assente no mercado imobiliário local. Temo bem que a simples possibilidade de serem lançados no mercado, de um momento para o outro, uns quantos imóveis que se encontram hoje na posse do Estado, desencadeie o esvaziamento da bolha especulativa que o crédito bancário tem vindo a alimentar, lançando os preços das casas numa espiral deflacionista. Acontece que os capitais próprios dos Bancos portugueses, no fecho de 2004, dificilmente aguentariam uma quebra significativa no valor de mercado (isto é, em mark-to-market) das garantias hipotecárias que confortavam, nessa data, os seus Balanços. Dito com maior clareza: o sistema bancário português, por força das estratégias adoptadas com geral aplauso nestes últimos dez anos, está totalmente exposto, tanto ao ciclo económico, como às vicissitudes do desemprego.

 

“Acabe-se com esta tortura; afastem-se de vez as pressões sobre o Fundo do Desemprego; use-se o ouro para indemnizar os funcionários públicos dispensados” parece ser esta, em suma, a tese. Não disponho de números sobre quanto haveria a despender para se conseguirem rescisões pacíficas: suponhamos que, em média, seria da ordem dos € 25,000/funcionário. Se assim for, a medida salvífica que se defende custará € 5 mil milhões (cerca de USD 6 mil milhões). Como a cotação do ouro nestas últimas semanas, tem oscilado nos USD 500/onça troy (1 onça troy corresponde a cerca de 31.10 gr.), estamos a falar de 373 ton. de ouro. Mas, estivesse a cotação como há um ano, e teríamos de dispor de umas 500 ton.

 

Aqui chegados, importa recordar uma pequena história exemplar: Décadas atrás, um Governador do BdP debatia-se com a mais absoluta escassez de divisas para honrar pagamentos ao exterior. Dado a contas, viu quanto lhe faria jeito; viu a cotação do ouro; dividiu uma coisa pela outra; e, hurra!, quaisquer 5,000 kg de ouro (0.8% do stock de então) deixá-lo-iam dormir sossegado por uns tempos. Venda-se o ouro, decidiu. Mal tinha acabado de ditar a decisão, já a cotação do ouro nos mercados internacionais caía, desamparada. No final, acabou por ter de vender quase o dobro do que tinha inicialmente calculado, pois só assim poderia afastar, por uns dias, o espectro da ruptura na tesouraria cambial. Alguém tem dúvidas sobre o que aconteceria no mercado do ouro se transpirasse que o Estado português estava vendedor de 373 ton.? Ou viver-se-á na ilusão de que as organizações financeiras internacionais, e os principais Bancos Centrais, encaixariam o bluff, aceitando uma transacção particular, “política”?

 

Mas, pior que isto: o actual stock de ouro (umas 462 ton. no fecho de 2004) não é estranho à complacência com que os Bancos portugueses têm sido tratados no mercado interbancário europeus. O que aconteceria se esse stock, de um dia para o outro, se visse reduzido a praticamente nada?

 

Aguentariam os Bancos portugueses uma redução drástica das suas linhas externas, sem que se desencadeasse uma crise sistémica, à moda da crise chilena (1980), ou da crise asiática (1997/1998)? E a economia portuguesa – sobreviveria à conjugação viciosa de grande desemprego e crise bancária?

 

Acresce ainda que o exercício orçamental só aproveitaria com a venda de ouro se a operação gerasse mais valias, e se o BdP distribuísse essas mais valias ao accionista Estado sob a forma de dividendos (processo semelhante acontece quando o stock de ouro é objecto de uma revalorização no Balanço do BdP). Outras quaisquer operações seriam consideradas financiamento monetário da dívida pública, que o BCE certamente não deixaria passar. E quem acompanhe, mesmo de longe, o mercado internacional do ouro sabe que, até finais de 2005, as cotações não saíam da cepa torta. Ou seja, para alcançar um lucro que se visse havia que transaccionar, então, enormes quantidades – tanto mais que o BdP contabilizava já o ouro a preços de mercado (a propósito, os lucros extraordinários que resultaram da valorização contabilistica, a preços de mercado, do stock de ouro, episódio velho de anos, souberam muito bem ao Governo da época). Assim, a tese só teria um módico de razoabilidade - se tivesse – se, no aconchego do BdP, o ouro se multiplicasse como coelhos e se, no mercado internacional, a procura de ouro atingisse os níveis de histeria que prenunciam sempre crises de dimensão planetária.

 

Concluo: as afirmações bombásticas, mas insensatas, encantam-nos. Vá-se lá saber porquê.

 

Janeiro de 2006

 A. Palhinha Machado

 

 

 

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