Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

CURAÇAO – 3

Dando muito trabalho duvidar do que nos dizem os guias turísticos, façamos de conta que aceitamos a ideia de que Curaçao vive exclusivamente do turismo e importa tudo o que consome. O nosso «faz de conta» é tão maior quanto o país nem sequer é paraíso fiscal para ninguém.

 

Mas é claro que tem uma comunidade emigrante relativamente grande cujas poupanças ajudam a equilibrar a balança de pagamentos e a economia paralela também lá deve ir fazer turismo gozando as delícias tropicais. Disso desconfiei quando certa vez estávamos a jantar por cima da praia do hotel e começámos a ver um avião com um enorme holofote a percorrer a zona costeira desde a capital até ao extremo oeste da ilha, ponto em que nos encontrávamos. Passou por nós umas 3 ou 4 vezes e... não li as notícias no dia seguinte e o pessoal do hotel não me soube esclarecer do que se tinha ou não passado. Continuo a acreditar que também ali não se pesque ao candeio usando aviões.

 

A pesca é artesanal e não vi nenhum barco com mais de 4 metros de comprimento. Mas vi atuns à caça de peixes voadores. Para quem nunca tinha visto um atum fora da lata, achei muito interessante. E vi outra coisa que nunca pensei que existisse. Um barquito com 3 homens andou a pôr uma rede de emalhar mesmo por baixo da arriba em que o meu apartamento estava alcandorado. Um dos tripulantes estava equipado com óculos e respirador para snorkling (nadar à superfície com a cara dentro de água para ver os peixes, os corais ou o mais que lá estiver), outro era o remador e o terceiro devia ser o patrão pois vi-o dar ordens. O nadador desceu calmamente do barco e pôs-se a snorklar junto da rede e a certa altura começou a bater fortemente com os braços na água. E eis que o patrão se chega junto da rede, a começa a puxar à mão para fora de água e a apanhar os peixes que acabavam de ficar presos. Foi num instante que o fundo do barquito ficou cheio de peixes aos saltos. Entretanto caiu a noite e creio que a pescaria se ficou por ali. Mais artesanal do que isto nem talvez os indígenas da Papua Nova Guiné...

 

À boa maneira lusa, os nossos compatriotas estão sobretudo estabelecidos com supermercados pelo que ficamos muitas vezes sem saber se os escritos estão em papiamento ou em português. «Entrada», «Fruta barata», etc. dão para que fiquemos sem saber em que língua escrevia o autor. Na certeza, porém, de que todos esses comerciantes têm hortas onde produzem uma parte dos frescos que vendem nas suas lojas. Mas devem ser mesmo hortas de pequena dimensão pois não vi nada que se pudesse assemelhar a empresas agrícolas de dimensão sequer mediana. Parece que essas hortas são a única agricultura que actualmente existe em Curaçao. O que os portugueses não produzem e querem vender, importam. Sim, parece que o comércio de víveres é quase todo nosso. Quase todo mas não todo pois há o mercado flutuante em Wllemstad, a capital, constituído por venezuelanos que produzem (ou compram) no continente os frescos que a ilha não produz. E é curioso saber que esses comerciantes-mareantes fazem a viagem pelo menos uma vez por semana num percurso que pode demorar entre 6 a 12 horas conforme o ponto da costa venezuelana a que aportam. Fiquei com motivos suficientes para desconfiar que o avião do holofote andaria à coca dum ou de vários destes venezuelanos. À conversa em surdina que um desses mareantes me fez respondi apenas «no entiendo» e pisguei-me antes que ele me quisesse explicar aquilo que eu não queria entender.

 

 

Do outro lado do estreito que acede à baía, estava impante o paquete “Europa” que despejara um milhar de turistas na cidade cujo comércio abriu apesar de nesse dia, 25 de Abril, ser feriado.

 

Angola, país rico, transfere o Domingo de Páscoa para a 2ª feira imediata pois é um sacrilégio fazer feriado em fim-de-semana; Curaçao, a ilha inútil que os espanhóis desprezaram, faz feriado na 2ª feira imediata à Páscoa para celebrar em estilo carnavalesco o que no Domingo celebrou canonicamente.

 

João Calvino ficaria muito triste e o Padre António Vieira muito contente se soubessem que 85% da população de Curaçao é católica.

 

E quem ensina português aos filhos dos donos dos supermercados?

 

Lisboa, Maio de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca em Curaçao Henrique Salles da Fonseca

O INOCENTE

 

Portugal passa por um momento terrível, mas isso não o deve impedir de admirar esteticamente uma obra de arte excepcional. Ora o regresso de José Sócrates é um espantoso feito de técnica política, do mais alto nível mundial.

 

A personagem é notável. Verve, atitude, táctica são excelentes. Para lá das qualidades como tribuno e estratega, aquilo que o distingue dos demais e o coloca acima da sua geração é a total ausência de escrúpulos. Não existe a menor contemplação pela realidade dos factos, interesse nacional, simples decoro pessoal.

 

Existe apenas um projecto de poder, e tudo lhe é sacrificado. Há muitas décadas que não tínhamos um político assim, e já nos esquecemos do estilo. Por isso tanto nos admira a quase inacreditável capacidade de imaginação e manipulação com que consegue sair de uma posição que seria desesperada para qualquer outro. Além disso é terrivelmente eficaz e convence mesmo. Digno de antologia!

Apresenta-se como totalmente inocente dos males que afligem o País. Foi primeiro-ministro durante mais de seis anos mas é inimputável pelo desastre que deflagrou nos últimos meses do seu mandato. A culpa vem de uma "crise das dívidas soberanas", que lhe é naturalmente alheia. E claro também de um terrível bando de malfeitores, onde se inclui o actual Governo, bancos, União Europeia e FMI, que pretendem, por razões não esclarecidas, destruir Portugal. Ele, pelo contrário, sempre esteve do lado do progresso e alegria, que infelizmente não se concretizaram.

 

Não é claro se mente descaradamente ou acredita mesmo na fábula, sofrendo de delírio. Em qualquer caso, todos os dados apontam para o facto de José Sócrates ser, não imoral, mas completamente amoral. Não se lhe parecem colocar quaisquer remorsos de consciência. Por isso é tão convincente. A nossa actual democracia nunca teve, em posições cimeiras, pessoas deste calibre. Assim, Sócrates destaca-se flagrantemente.

 

É preciso dizer que ele ainda não atingiu os níveis do contemporâneo mestre absoluto da técnica, Silvio Berlusconi. Nem sequer é evidente que o português alguma vez consiga os feitos do italiano. No entanto, cabe-lhe um honroso segundo lugar. Esta atribuição não é forçada porque a relação entre ambos é evidente.

 

Tirando eles, todos os líderes que estavam no poder quando bateu a crise, alguns deles de reconhecidas qualidades, caíram fragorosamente: Geir Haarde na Islândia, Kostas Karamanlis e George Papandreou na Grécia, José Luis Zapatero em Espanha, Brian Cowen na Irlanda, Yves Leterme na Bélgica, Nicolas Sarkozy em França, Gordon Brown no Reino Unido, George Bush nos EUA, etc.

Todos forçados a sair de cena sem remissão. Deles, apenas Berlusconi e Sócrates mantêm esperanças de regresso, estando bastante avançados no processo. O estilo de ambos, apesar das diferenças, tem paralelos evidentes. Mas temos de admitir que o magnata transalpino, que saiu depois e regressou mais cedo do que o nosso «engenheiro», tem evidente primazia.

 

Admirando o engenho e a arte, não podemos esquecer o muito que eles devem aos tempos que vivemos. É preciso recuar às primeiras décadas do século passado para encontrar casos semelhantes, porque nessa altura o mundo enfrentava dilemas e conflitos próximos dos actuais. O rancor das acusações, o ressurgimento da retórica antidemocrática, os contínuos apelos à Grande Depressão aproximam as duas épocas. Talvez tenhamos aprendido a evitar o pior dessa evolução, mas não admira o ressurgimento do mesmo tipo de animais políticos.

 

A única coisa que pode fazer a diferença é a capacidade dos eleitorados em resistir ao engano. O caso italiano assusta muito, porque repete traços da antiga trajectória, embora com diferenças significativas e ainda sem Mussolinis no horizonte. Portugal começou agora o seu processo. Veremos até que ponto a raiva pelos sacrifícios, junto com o ilusionismo, conseguirão fazer que o grande beneficiário da crise venha a ser aquele que indiscutivelmente foi o seu principal responsável. Isso seria uma obra de arte incomparável.

 

8 de Abril de 2013

 

 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

PORTUGAL ESTÁ A SOFRER

 

 

Portugal está actualmente a sofrer uma situação de excepção e de muito perigo.

 

É indiscutível que o actual Governo recebeu do anterior uma situação de pré-bancarrota; sobre isso já escrevi e não há comentários de televisão que possam disfarçar a realidade.

 

Porém, o actual Governo entrou de peito feito, convencido que tinha modelos e soluções indiscutíveis, o que fez com grande arrogância.

 

Não conhecia bem o país e a sua economia, não conhecia a máquina do Estado, não quis um Governo de coligação e as soluções aplicadas, de grande sacrifício, saíram sempre falhadas a nível interno. Não soube defender os interesses de Portugal na frente externa na questão dos prazos do acerto financeiro e orçamental (dentro do quadro macro, há sempre questões específicas nacionais que devem ser defendidas com muita garra; as negociações internacionais não são jogos florais e por vezes não podemos ser apenas silenciosos alunos) e o quadro legislativo tem estado sempre a sofrer alterações, o que não dá estabilidade aos investidores e aos cidadãos. Acresce que não há regras iguais para todos, pois, para alguns, há sempre excepções (e não são poucas), o que cria naturais sentimentos de injustiça e de revolta.

 

Privilegiou as Finanças em detrimento da Economia, quando as duas deviam ter andado par a par; acções nas Finanças não deviam ter impedido um grande esforço na Economia.

 

Acresce que quis fazer rapidamente reformas em todas as áreas sociais e do Estado, o que não é um método de sucesso; sem querer falar em erros de casting, aprende-se na História, na estratégia e nos manuais de administração que não se pode actuar simultaneamente em muitas frentes, pois o risco de descoordenação, desarticulação e de falta de meios é muito grande.

 

Basta lembrar que o nosso primeiro Rei, Afonso Henriques, quis conquistar a Galiza (foi lá quatro vezes) e o Sul, então mouro. Mas nunca combateu nas duas frentes simultaneamente; se atacava ao Norte, não o fazia no Sul e vice-versa. Falhou na Galiza, mas iniciou a reconquista do sul que terminou com Afonso III.

 

Há a adicionar que o PM, que tem grandes qualidades como cidadão, não consegue dirigir em condições o Governo perante tantas dificuldades, teimosia e erros.

 

Em consequência, existe instabilidade em todo o País, em todas as actividades, em todas as classes e tipos de trabalho, já que ninguém sabe quais são as regras do jogo, sendo que rapidamente o que é hoje verdade, poucos dias depois é alterado.

 

Nestes moldes, o Estado de Direito está em risco por via de uma actuação sempre agravada (e sem resultados) das Finanças. O momento seguinte é o do medo que já está no terreno e completamente generalizado, o que leva todos os cidadãos normais (os que não são quadros superiores da EDP e similares) a reduzirem, cada vez mais, os seus consumos e compras, ajudando a agravar a situação económica. Quando era necessário consumir para ajudar a actividade económica, ocorre o contrário.

 

Seguidamente vem (já cá está) a desorientação a que o Governo não foge; está mesmo à cabeça dessa tendência.

 

Mas com um Governo desorientado, o País não consegue ir a nenhum lado.

 

E no quadro polítco-partidário não temos alternativas credíveis; resta-nos o Presidente da República que, independentemente do trabalho de bastidores que deve fazer, parece uma esfinge não se conhecendo os resultados de tal actividade.

 

Só há uma alternativa, a entrada em força da Sociedade Civil, devidamente organizada.

 

O sistema político-partidário da III República falhou rotundamente e tem de ser substituído; não é um desejo, é uma inevitabilidade; de outro modo iremos desaparecer.

 

Terminou o período em que a Sociedade Civil deu o benefício da dúvida a estes  Partidos Políticos que vivem em conjunto numa cápsula blindada algures na estratosfera, completamente divorciados do País real.

 

É a altura de a Sociedade Civil se assumir de modo integrado. Será capaz?

 

19 Maio 2013


  Garcia Leandro, General

Pág. 10/10

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D