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A bem da Nação

O QUE PRETENDEMOS NÓS?



Ao analisar-se um acontecimento histórico temos de ter em conta as causas remotas e as causas próximas para podermos compreender as consequências, nomeadamente aquelas a que assistimos hoje e ligadas à nossa situação económico-financeira.

Desde a direita à esquerda passando pelo centro, toda a gente se colocou na praça pública a desancar o actual governo pelo empobrecimento a que se vê obrigado.

A comunicação social, em nome da liberdade de expressão, também veio engrossar na ágora esse fenómeno, fazendo coro com o descontentamento porque os seus jornalistas também fazem parte dos contestatários pois sofrem as consequências de tal desiderato.

Os povos apenas querem ser figurantes do tempo presente e pouco querem saber do passado, embora perspectivem o futuro apenas em função do seu presente.

O 25 de Abril, movimento aplaudido por grande parte da população de Portugal, gerou uma desmedida esperança no futuro uma vez que o presente foi de riqueza virtual que esteve ao alcance duma grande parte da sua população.

Os portugueses não quiseram saber se o país em 24 de Abril crescia ao ritmo de 7% ao ano, se possuía mais de 700 toneladas de ouro no Banco de Portugal como reserva de suporte do Escudo, se havia quase o pleno emprego e se tinha um império que ia do Minho a Timor, etc. etc.

O que esteve defronte dos seus olhos?

Que não tinha liberdade, que era vigiado por uma policia politica, que ganhava pouco e que os jovens morriam numa guerra que consideravam inútil.

O 25 de Abril forneceu-lhe a liberdade, deixou de ser vigiado, passou a ganhar mais e que a guerra acabara.

Veio depois a felicidade da facilidade de acesso ao crédito.

Gastar, gastar, consumir, consumir.

A produtividade não acompanhou esta febre despesista e os espertos enriqueceram no âmbito da corrupção quase generalizada, sobretudo em obras de derrapagens orçamentais ou em engenharias financeiras pouco ou nada transparentes.

Os partidos do regime para ganhar eleições prometiam ainda mais riqueza e os portugueses habituaram-se ao bem-estar com pouco esforço para a manutenção desse bem-estar.

O ambiente virtual acabou e o dinheiro desapareceu como havia aparecido. O abismo da irresponsabilidade politica surgiu e os portugueses não queriam crer.

O presente é de pobreza acelerada e o futuro surge sombrio.

A irresponsabilidade do passado deixou de existir e quem governa no presente é o culpado de todas as agruras vividas e sentidas.

Alguém está preocupado com as causas remotas? Ninguém!

Alguém está preocupado com as causas próximas? Ninguém!

A preocupação reside nas consequências que estão no tempo presente.

A direita que hoje governa é apontada como o conjunto dos criminosos que fazem sofrer o bom Povo Português.

A sinistra, padecendo de amnésia, aponta o dedo acusatório aos últimos responsáveis, porque, tendo ingerido as águas do Letes, apresenta-se como inocente e pura, sem quaisquer máculas, prometendo o conforto do passado para o futuro.

A sinistra mais sinistra (esta deliciosa palavra muito usada pelos italianos) faz crescer o punho erguido e fechado, como se tal símbolo fosse o da salvação dos indigentes, canção que difundia aos ignorantes, antes de 9 de Novembro de 1989.

O gato escondido com rabo de fora ainda acena com as "grandoladas", quais sereias que tentaram o conhecido Ulisses mas o qual não se deixou seduzir porque a sua Penélope e o seu Telémaco eram verdadeiramente o seu futuro.

Quem não aceita os sacrifícios que se pedem no presente?

Ninguém quer aceitar e o desânimo invade as consciências.

Quereremos nós olhar para as causas remotas e para as causas próximas dos acontecimentos para compreendermos as consequências do presente e projectarmos um novo futuro ou pretendemos apenas a guerra civil e o terrorismo para nos vingarmos uns dos outros?

EIS O DILEMA DA NOSSA ACTUALIDADE

 

 Isaías Afonso

D. SEBASTIÃO – O REI E O HOMEM

 

 

Poucas épocas têm merecido tanto interesse histórico e, apesar da vasta documentação, continua o debate em torno da figura régia que ficou a simbolizar a perda da independência. O exame tem forçosamente de centrar-se no monarca que foi o motor dos acontecimentos, embora para esse estudo não se disponha ainda da indispensável ferramenta mental, que deve incidir na captação dos impulsos e motivações da personagem. Donde resulta a natural tendência para explicar D. Sebastião à luz do seu governo, por ser tarefa difícil ajuizar do homem que ele foi como produto de uma educação e como espelho de um ambiente político e religioso. Cremos que a história sebástica, a erguer um dia, terá de ser mais psicológica que documental.

 

As cartas do monarca fornecem bons elementos para o traçado da sua caracterologia, revelando um texto confuso, com repetição da matéria narrativa e quase nunca respondendo às questões postas. Dir-se-ia que essas cartas buscam encobrir o pensamento velado que as ditou. Veja-se, por exemplo, o epistolário dirigido a Filipe II pelos anos de 1573 a 1575 e que permite desfibrar o carácter régio: um pensamento nebuloso, um sentido de cautela para não desvendar as suas intenções e uma tendência para protelar a resolução dos assuntos. No campo das relações pessoais revelou D. Sebastião uma frieza afectiva que explica a relutância pelo casamento, se para tal não contribuíram a sua estranha doença e a actuação do rei espanhol que procurou impedir a união do sobrinho fora do quadro ibérico.

 

Não surtiu o projecto com Margarida de Valois, pela condição que impôs a Carlos IX, rei de França, de entrar na liga contra o Turco; mas quando as circunstâncias evoluíram em sentido favorável, a diplomacia filipina incumbiu-se de anular o enlace. Não resultou, por desinteresse do noivo, em 1563 [D. Sebastião, rei, tinha então 9 anos, JR] o plano do consórcio com a arquiduquesa Isabel de Áustria, o mesmo sucedendo, dez anos mais tarde, com Maximiliana, filha do duque da Baviera, que o monarca não aceitou com o pretexto de escolher D. Isabel Clara Eugénia, filha de Filipe II. Nos fins de 1576, quando do encontro de Guadalupe, voltou a sugerir o consórcio com a prima, mas o rei de Espanha pôs a condição de o projecto apenas ter andamento depois da expedição a Marrocos. Atendendo a que carecia de auxílio militar para a jornada, aceita-se quem o pensamento de D. Sebastião visava mais o êxito da sua política do que a escolha da noiva.

 

Não é preciso justificar a sua repulsa pelo casamento no ideal da Pátria ou na educação religiosa, como a historiografia por vezes defende. Quando muito, as razões seriam válidas a partir de 1573, desde que o, plano da "jornada de África" começou a fervilhar no seu espírito. Mas para os projectos anteriores, como manter que foi o sonho da cruzada que o impediu de aceitar um consórcio? Os motivos determinantes, como bem viu Queirós Veloso, foram a saúde precária, perturbações de ordem fisiológica e a falta de vocação para o matrimónio. Pelo ano de 1569 era voz corrente que "elRey de nenhuma pode ver molher"; e alguns anos depois, um testemunho insuspeito confirmava: "elrey muestra tanto odio a las mujeres, que aparta ojos dellas, y se una dama le sierve la copa, busca como tomarla sin tocarle la mano; e jugando un dia intero en las cañas no levanta la cabeza a las ventanas".

 

Embora tivesse um porte escorreito, D. Sebastião caía muitas vezes enfermo. Dizia-se na corte, segundo a mesma fonte, "que tenia en las piernas una frialdad muy grande, y assi las abrigaba mucho" Em Maio de 1576, o embaixador de Espanha insistia que o rei sofria de uma antiga enfermidade e que os médicos o tratavam de noite, porque sangrava constantemente:"no hace exercicios a caballo, que es indicio manifiesto de la calidad e gravedad del mal". O gosto dos exercícios físicos fora agravando o mal, ao ponto de em 1576 lhe ser penoso andar a cavalo. Nestas condições, como poderia um jovem, constantemente achacado, desempenhar o papel guerreiro de arauto de uma nova cruzada? Onde residia a sua preparação física para comandar exércitos e dirigir um reino?

 

A doença deve ter contribuído para uma personalidade não equilibrada - falta de bom senso, tendência impulsiva, fraco poder de reflexão, capricho em se ver obedecido -, marcas próprias da educação que recebeu e do ambiente em que centrou a vida. Houve nele um conceito de auto-suficiência que acabou em o conduzir ao desastre. Elevado à realeza desde os verdes anos, cresceu D. Sebastião num meio adulatório, convencido talvez de que o seu nascimento, tão desejado, recebera a graça divina para garantir a independência ao Reino. Amado e obedecido como derradeira vergôntea da realeza, com as ilusões próprias da idade juvenil, identificando a sua pessoa com o próprio trono, deve ter julgado que a sua missão terrena podia contar com a aliança da Providência e que esta somente lhe reservaria triunfos como "bem nascida segurança" da coroa nacional. O embaixador castelhano D. Juan da Silva definiu-o de "mancebo y orgulloso en la propria fama", atribuindo à sua "educação barbara" o desastre de que o monarca foi vítima. Pergunta-se: como se insere neste quadro histórico a batalha de Alcácer Quibir?

 

 

Eu não faço qualquer comentário a este trecho de Veríssimo Serrão, por desnecessário e portanto inútil. Que cada leitor interessado tire as suas ilações.

 

E não se esqueça: D. Sebastião nasceu em 1554, com o pai já morto. A mãe deixou-o de muito tenra idade aos cuidados da avó; em 1557, com 3 anos de idade, foi rei; em1568, com 14 anos de idade, sendo muito relutante em ouvir conselhos, tomou nas suas mãos as rédeas do governo; teve um aio, antigo Português das Índias, que lhe insuflou os antigos ideais de guerreiro vencedor de mouros; teve um preceptor, padre jesuíta que fez dele um místico (mas não um cristão); em 1576 vai pela primeira vez a Marrocos para combater os mouros, mas a campanha foi fruste; em 1578, com 24 anos organiza de qualquer maneira um exército, impondo a sua autoridade arbitrária sobre súbditos servilmente obedientes, e passa de novo a Marrocos, onde é derrotado em Alcácer Quibir e perde a vida. A nação portuguesa, encontrando-se numa profundo decadência material, caiu numa profunda prostração moral. E perdemos a Independência em 1580.

 

 

Joaquim Reis

TROVAS PARA O POVO

 

 

e... não  só!

 

 

De um pequeno livreto, que deve ter uns cem anos, e na contra capa anuncia montes de livros a preços populares, como Orações a $30, Trovas para o Povo a $50 (de onde saíu este “fado”!), História de D. Inês de Castro a 1$00, Romeu e Julieta a 2$00, Texas Jack, 100 números a $60, bem como Capitão Morgan, e O que é o Casamento de Honoré de Balzac a 2$00, e até um Arte de Lavar Roupa por $50! (Tudo nos bons velhos Escudos portugueses, que valiam ouro!)

Uma maravilha!

 

 

 

De todos estes fados elegi um que vem preencher a dificuldade de muito pretensos nobres completarem a sua árvore genealógica!

 

Minha Família

(Para ser cantado com música do Fado Alexandrino)

 

 

MOTE

Minha família é distinta

E de nobre posição,

Eu pertenço a boa gente

Creiam, não lhes minto não...

 

GLOSAS

 

 

Minha mãe é vendedeira

De tremoço e burrié,

Tenho uma tia que é

Creada d'uma parteira.

Minha avó é lavadeira

Lava roupa branca e tinta,

Meu avô todo se pinta

A vender fava torrada,

Descendo de gente grada

Minha família é distinta...

 

Tenho um primo cauteleiro

Um tio que vende sorvetes,

Outro que é moço de fretes,

Um cunhado que é padeiro,

Tenho um sobrinho aguadeiro,

Varredor tenho um irmão,

Meu padrinho é sacristão

Meu pae é moço de cego

Sou tipo nobre, não nego,

E de nobre posição !...

 

Minha sogra vende sinas,

Minha sobrinha anda ao trapo,

O meu sogro, homem pacato,

É guarda d’umas sentinas.

Leva cartas ás meninas

Um coxo que é meu parente,

Também tenho um descendente

Que na praça vende flores,

Como vêem meus senhores

Eu pertenço a boa gente! ..

 

As minhas primas Linhares

São amas, criam gaiatos,

Eu deito gatos em pratos

Bacias e alguidares...

Donairosos titulares

Eu tenho com profusão,

Vivo n'um louco estadão

E livre de más penhoras

Mas... co'a barriga a dar horas

Creiam não lhes minto não!...

 

***

Para “completar”, uma trova do século XV.

O primeiro Conde Vimioso, D. Francisco de Portugal, filho (ilegítimo) do bispo de Évora, D. Afonso de Portugal, tinha, pela sua posição e seu talento para a poesia, um papel muito importante nos Serões do Paço. Em 1515 El-Rei Dom Manuel deu-lhe o título de Conde.

Sua mulher, D. Joana de Vilhena, entretinha as damas que a visitavam, com a leitura de algumas obras de seu marido.

A trova que se segue foi por ele composta quando em 1498, em Belém, aborrecido, enquanto aguardava embarcar para África, onde foi comandar a praça de Arzila.

 

Trova do Conde de Vimioso estando em Belém

enfadado do tempo e dos couzas dele”.

 

Isto acho de Belem:

Vejo d’além uns oiteiros,

Que não dizem mal nem bem

A quem conte meus marteiros.

 

Falo-lhes sem esperar

Resposta do que lhes digo;

Outro tanto vi achar

No amigo e no inimigo.

 

D’isto vivo em Belem,

Descanço de ver oiteiros,

Que respondem c’o que tem

E são muito verdadeiros.

 

20/05/2013

 

 Francisco Gomes de Amorim

MAS ATÉ NEM PARVO SOU!

 

 

Eis uma análise que me parece excelente, a do texto publicado no blog “A bem da Nação”SER DE ESQUERDA EM PAISES DE REGIME CAPITALISTA - de Isaías Afonso, sobre a tendência portuguesa para a emigração, por na pátria se não encontrarem condições propícias a um desenvolvimento apanágio de outros países mais expeditos, culturalmente falando, e por esse motivo criando as condições para uma sobrevivência feita de inteligência na organização das estruturações necessárias para esse efeito. Como escrevi num artigo “Ten years after” (Anuário, 1999), “Lá, na delicada Europa, só é preciso trabalhar bem nas tarefas duras que sempre foram imputadas aos escravos e que sempre os senhores desprezaram. Já, de resto, aí, tudo está organizado, os serviços dos senhores, os serviços dos escravos, tudo pago em condições, no respeito pelos direitos de cada um – dentro das naturais discrepâncias sócio-culturais, é bem de ver – os emigrantes escravos desempenhando as tarefas duras não remuneradas condignamente no país natal e que, no estrangeiro, mau grado os ritmos poéticos atrabiliários dos escritores sensíveis à saudade na servidão, lhes fornecem os cabedais suficientes dignificadores da condição humana.”

Outros passos no mesmo artigo vêm no apoio da tese de Isaías Afonso justificativos do surto de emigração no tempo da guerra colonial, como fuga à guerra colonial – embora o receio da guerra, em outras guerras posteriores, mais bem remuneradas, em território estrangeiro, não tenha impedido a deslocação das nossas corajosas forças bélicas, com direito a ternas cenas de despedida televisiva no aeroporto, entre as mesmas e os seus familiares destroçados.

Assim, “No Ultramar, apesar das restrições à emigração no tempo do velho Salazar, fez-se obra vasta, igualmente com escravos e senhores, tal como no estrangeiro, como técnica segregativa em toda a parte imperante, excluídas as camuflagens do “savoir faire” oportunista.

“Todavia, poucos portugueses conheciam tal obra. Ergueram-se cidades, descobriram-se minérios, rasgaram-se caminhos, fomentaram-se indústrias e riquezas para ajudar a nação-mãe. Mas assim que surgiu a guerra, a aversão anterior dos portugueses pelas distantes “terras dos pretos” aumentou, já fruto de indiferença destruidora do mito respeitador da História e dos heróis nacionais que as descobriram e defenderam, já fruto da ignorância real ou fingida do valor económico dessas terras como principal agente da economia metropolitana, realidade que, por ignominiosa, se escamoteava, de um pequeno país amamentado pelos filhos dispersos, por incapacidade de se alimentar por si.”

A guerra do Ultramar, posta em causa pelos países da generosidade doutrinária, esquecidos alguns deles de que também ocupavam territórios de usurpação, foi ponto de partida para o desenvolvimento doutrinário, entre nós, dos doutrinários de esquerda, já bastamente sensíveis – com muita razão, de resto – às condições definhantes em que vivia o povo português – embora certamente que superiores às do tempo em que Cesário Verde lhes descrevia as mazelas, um século antes, mau grado o cinzentismo com que os actuais historiadores da época de Salazar lhe traçam o perfil nos seus descritivos tendenciosos.

Mas a ligação da nossa esquerda aos partidos socialista e comunista, se nos tempos actuais serve sobretudo para destruir o governo com tendências de direita irmanada com o capitalismo segundo a sua visão facciosa, e no tempo da guerra colonial serviu para justificar a emigração, a coberto dos bons sentimentos por parte das classes intelectualmente mais favorecidas, na realidade tal emigração era escoada para os países do ocidente europeu que o capitalismo favorecia, e não para os países de Leste, como explica o texto de Isaías Afonso.

Vale a pena recordar Álvaro de Campos, como justificação dessas anomalias dos lúcidos generosos que dão ao pedinte tudo quanto têm na algibeira onde trazem menos dinheiro. São lúcidos – embora de uma lucidez diferente da de Campos. Defendem as doutrinas dos doutrinários mas não lhes querem saborear os efeitos nas terras da sua difusão:

«Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Aquele homem, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,

Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;

E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha

(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro :

Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,

E romantismo, sim, mas devagar...)

Sinto uma simpatia por essa gente toda,

Sobretudo quando não merece simpatia.

……………………………………

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona na sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco,

Àquele pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.
………..
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma; sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.»

 

 Berta Brás

SER DE ESQUERDA EM PAISES DE REGIME CAPITALISTA



 

 

Fala-se hoje de novo em "rush migratório"como se, no passado, tal movimentação populacional não fizesse parte da estrutura económico-social portuguesa.

Lendo a tese de AS DUAS POLITICAS NACIONAIS, de António Sérgio, logo nos apercebemos desse fenómeno, pois o autor cita Duarte Ribeiro de Macedo, na sua obra Da Introdução das Artes Neste Reino, de 1647, em que sobre a Politica de Fixação afirma que "Nemo nos Conducit", isto é, ninguém nos conduz, ninguém emprega os nossos braços e daí a mórbida Emigração.

Compreende-se perfeitamente a razão pela qual prevaleceu a Politica de Circulação ou Transporte que nos levou à Epopeia dos Descobrimentos, que veio a constituir o nosso espaço económico-geográfico durante cerca de 500 anos.

O sacrifício para o manter foi obra dos portugueses do passado, mas o presente não sentiu essa vontade indómita e levado pelos apelidados "Ventos da História" cedeu essa nossa força no mundo, que metia inveja.

Quando o presente foi chamado a defender o sacrifício do passado, respondeu quase um milhão de jovens, enquanto outros preferiram a fuga ao compromisso e outros ainda quiseram engrossar o fenómeno do "rush" saindo do país para encontrar melhores meios de sobrevivência.

A década de sessenta do século passado marca mais uma vez que não era possível uma Politica de Fixação da nossa população e os dólares americanos para a ajuda à Europa aceleraram a partida para outras paragens.

A luta contra o regime de Salazar é assumido por aquilo a que se pode chamar a esquerda ideológica com ligações aos partidos socialista e comunista. Conquistadas melhores condições de vida, tal facto não invalida a preferência da simpatia pela esquerda.

Depois da Revolução Russa de 1917 poder-se-ia pensar que as diversas movimentações populacionais se dirigissem para o denominado "paraíso das amplas liberdades".

Mesmo no inicio do século e depois do primeiro conflito mundial, a nossa emigração nunca se fez em direcção aos países ditos socialistas, os quais apregoavam o pleno emprego e um nível de vida compatível com a dignidade humana.

O "rush migratório" mais curioso é o das décadas de sessenta e setenta e o actual, desde há uns dez anos a esta parte.

A propaganda em voga era a do comunismo e em menor escala a do socialismo democrático contra o regime autoritário e contra a Guerra dita Colonial, segundo a sua denominação, para impressionar os incautos e como forma de pressão que levaria a denegrir o conflito, mesmo se ele se apresentasse como defesa do património histórico.

Poderia então supor-se que os países sob regime comunista fossem o destino de preferência para o exercício do "métier" pois, assumindo-se os emigrantes como maioritariamente de esquerda, todos eles recusaram estabelecer-se nos países da sua ideologia preferencial.

A preferência foi, é e será os países de regime capitalista, como hoje se comprova.

Por isso, fazem-me rir aquelas e aqueles emigrantes que, nos países capitalistas, apelam a favor dum PCP estalinista ou do BE trotsquista, para que eles atinjam o poder em Portugal quando, em tempos, mau grado as dificuldades, quiseram permanecer nos países cujo regime combatiam.

Também é bem verdade que as cenas vistas durante a queda da ex-URSS e seus satélites, com as populações em manifestações de alegria saltando arames farpados e derrubando muros vergonhosos, serviu de vacina e de exemplo para evitar loucuras ou entusiasmos pela propaganda.

Mas é bom, é saudável, é moderno, é de bom-tom, ser de esquerda em países de regime capitalista.

 

20 de Maio de 2013

 

 Isaías Afonso

«Há ou não há déficit de atenção?»

 

Foi com este título que me chegou por email o artigo seguinte, sobre diferentes conceitos de educação – na França e nos Estados Unidos - que originam diferentes procedimentos - pedagógicos ou medicinais - nos dois países, relativamente ao comportamento das respectivas crianças em idade escolar.

Já aqui tinha utilizado dois outros artigos alarmantes sobre os efeitos perversos da ritalina e outros fármacos que os pais portugueses com problemas educacionais dão aos filhos com déficit de atenção. Este artigo vem confirmar o que pensei sempre, seguindo, apenas, a norma do bom senso cobrindo um superávit de terror pessoal em face da manipulação da nossa educação, em muitos casos, por efeito de drogas, por incapacidade nossa de orientação dentro de parâmetros de responsabilização e seriedade requeridos.

«Porque é que as crianças francesas não têm Déficit de Atenção?»

Marilyn Wedge, Ph.D

Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e estão sendo tratadas com medicamentos. Em França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que se tornou firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças em França?

TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do facto de você morar em França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.

Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada com a tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.

Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.

Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.

A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o facto de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos factores dietéticos sobre o comportamento das crianças.

E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas ideias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada se parece com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.

          A partir do momento em que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre – que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebés franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam os seus bebés chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.

Os pais franceses, destaca Druckerman, amam os seus filhos tanto quanto os pais americanos. Levam-nos às aulas de piano, à prática desportiva, e incentivam-nos a tirar o máximo dos seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças sentirem-se seguras e protegidas. Limites claros, acreditam eles, fazem a criança sentir-se mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso em França.

Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início das suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

«Texto original em Psychology Today»

           Naturalmente, defendo o ponto de vista da pedagogia francesa, certamente que não destituída dos afectos comuns às demais, mas centrada numa orientação com objectivos formativos que passam pela responsabilização e autonomia sem o excesso de pieguice deles desviante.

Não resisto a transcrever alguns passos de textos já antigos, como este, escrito em 1988, do livro “Anuário – Memórias Soltas”, publicado em 1999, pela Editora Minerva:

“Reflexão sobre Sistema de Ensino”: …. Que o aluno hoje em dia dialoga mais facilmente com o professor, não ponho em dúvida, como também que o diálogo ultrapassa o mero circunstancialismo da matéria disciplinar para se circunscrever tantas vezes a um protesto oco perante a deficiência das notas ou a um falazar banal ou provocatório, originando a frequente intervenção do professor cônscio dos seus objectivos e das deficientes condições em que actua, perante uma indisciplina generalizada e insana.

Ideal seria, com efeito, que o ensino, centrado no aluno, funcionasse com a activa e real participação deste, mas ao pretender-se abolir a técnica expositiva das metodologias centradas no professor ou na disciplina, está a falsear-se toda uma missão pedagógica de transmissão de conhecimento que não invalidaria a participação inteligente do aluno e que, pelo contrário, resultaria muito mais consistente e positiva.

Mas as novas metodologias, os novos conceitos de educação, como meio, esta, de descoberta do homem, acima de tudo valorizam, na esteira do disposto na Carta das Nações Unidas, a condição da criança como ser dotado de sensibilidade e de direitos humanos, parecendo-me, todavia, muito pouco defendê-la como homem futuro – o tal “homem de amanhã” - que se deveria pretender igualmente equipado de uma estrutura mental mais rica, aconselhável para a formação de uma sociedade racionalmente estruturada e racionalmente disciplinada, e não gradualmente mais indisciplinada e acéfala, como é aquela que preparamos, com o nosso pseudo-amor e a nossa pseudo-fraternidade, que tiram mais do que fornecem aos alunos que educamos.

E a imagem do adolescente tímido ante o autoritarismo do professor omnisciente, ou indefeso perante a desmotivação do saber, é substituída nos nossos tempos pela imagem do adolescente rebelde e auto-suficiente, ídolo de si próprio, incapaz de reconhecer outros valores que o de um egocentrismo ruidoso e estéril, porque falaciosamente se pretendeu chamá-lo à responsabilidade do seu estar no mundo, sem que o orientássemos por meio de um equipamento mental que o tornasse mais equilibradamente e mais racionalmente observador e crítico…

Mas nesse tempo – há já 25 anos – a ritalina, se já era usada em casos pontuais, não tinha ainda provocado tal efeito devastador sobre uma juventude condenada, à la longue, a uma personalidade domada por efeito de ingestão de químicos, não tornada consciente, por educação e opção, sobre as suas responsabilidades graduais no mundo.

Parece assustador. Antes a indisciplina natural, proveniente da falta de orientação ou de crises familiares, responsável, é certo, pelas depressões docentes, mas que políticas de educação menos acéfalas ou mais sensatas poderão corrigir.

 Berta Brás

ANEDOTAS JUDIAS

 

 

1

 

Um judeu, chegado recentemente a França decidiu tentar passar despercebido e dirigiu-se à Sinagoga para se aconselhar com o rabi.

 

- Como é que te chamas?, perguntou o rabi

- Katzman.

- Então, como «Katz» quer dizer ‘chat’ em francês e «Man» se diz ‘homme’, podes passar a chamar-te Chat L’homme.

 

Passaria assim despercebido?

 

SHALOM!!!

2

 

Dois judeus entraram em desacordo e foram a casa do rabi para que este os aconselhasse.

Depois do primeiro explicar as suas razões, o rabi disse «Tens razão».

Depois do segundo explicar as suas razões, o rabi disse «Tens razão».

Então, a mulher do rabi perguntou «Mas como é que ambos podem ter razão?»

Então o rabi respondeu-lhe «Tens razão».

 

 

3

 

Um belo dia apareceu num jornal o seguinte anúncio:

«ALUGO CASA, MAS SÓ A CRISTÃOS»

No dia seguinte, apareceu um interessado.

O dono da casa, muito mal educado, atende-o:

- O que é que o Senhor quer?

- Eu quero alugar uma casa!

- Pronto, está bem! E como é que se chama?

- David.

- David quê?

- David Elias!

- Nã, nã, nã! Eu não alugo a minha casa a judeus! Só a cristãos!

- Tudo bem, eu sou judeu, mas também sou cristão...

- Que é isso, homem? Pensa que eu sou parvo? Não há judeus cristãos!

- Mas eu garanto-lhe! Sou judeu e sou cristão!

Perante a insistência, o dono da casa diz:

- Ah, é? Então vou fazer-lhe um teste. Vamos lá a ver se você é mesmo cristão:

O que é que há dentro de uma Igreja Católica?

- A sacristia.

- E que mais?

- Há o crucifixo, o sacrário, o altar, o confessionário...

- Muito bem... então diga lá de quem Jesus é filho?

- De José.

- E de quem mais?

- Da Virgem Maria...

- E onde nasceu Jesus?

- Em Belém!

- Eu sei que foi em Belém! Eu quero saber é o local... a casa.

- Não era uma casa, era uma gruta e ele nasceu numa manjedoura.

- Certo. Até aqui tudo bem. Mas então diga-me lá: e porque é que Jesus nasceu numa gruta e numa manjedoura?

- Porque já naquela época existiam filhos de puta como você que não alugavam casas a judeus!

 

 

 

Enviado por um amigo judeu

ICONOCLASTAS À SOLTA

 

Budas de Bamyian, antes e depois da iconoclasia dos talibans

 

A Reforma protestante do século XVI foi puritana em muitos aspectos. Propunha atitudes fundamentalistas que tinham estado presentes em anteriores movimentos de protesto, como os lolardos, os hussitas e, recuando ainda mais, os cátaros e outros, contra as extravagâncias da Igreja católica, manifestas num estilo de vida faustoso (especialmente entre os «príncipes» da Igreja), em atitudes dissolutas (dos sacerdotes celibatários e dos monges), no vestuário (com trajes eclesiásticos elaborados) e tamabém na arte (como no caso dos Médicis de Florença ou do cardeal Borromeo de Milão).

 

Estes movimentos pretendiam um regresso à «Palavra de Deus», à Bíblia, a que todos deveriam ter acesso (um aspecto importante da história da educação e da edição) e à simplicidade da Igreja primitiva que incluía a rejeição da riqueza (é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico entrar no reino dos céus).

 

Estas práticas da Igreja primitiva incluíam também, para muitos, uma rejeição da representação, principalmente no teatro, cujas formas romana e grega deixaram de existir, se bem que, num certo sentido, fosse substituído por representações rituais; incluíam ainda a rejeição parcial da representação figurativa, designadamente a de três dimensões (a escultura), mas também da pintura, sobretudo nos contextos eclesiásticos, mas também nos seculares. O teatro e a escultura foram duas das grandes realizações artísticas dos gregos, realizações que hoje entendemos como uma parte intrínseca da nossa herança ocidental; contudo, essas formas de arte desapareceram sob o domínio do Cristianismo, sendo por ele deliberadamente destruídas por questões ideológicas, além de terem sido rejeitadas pelo Judaísmo e, posteriormente, pelo Islão.

 

O puritanismo sob a forma de iconoclasia tendeu a marcar o início das religiões mundiais que podem, em certos casos, permitir, numa fase posterior, as imagens figurativas. E nas reformas e revoluções verifica-se a mesma tendência para regressar aos aspectos fundamentais, por vezes considerada uma reforma de extremismos. Esta devoção à palavra em detrimento da imagem na história inicial das religiões mundiais reflecte provavelmente o facto de serem baseadas em textos escritos e é a palavra que as distingue de cultos anteriores baseados em imagens, agora vistos como associados à veneração de ídolos.

 

 Jack Goody

Universidade de Cambridge, St. John’s College

 

In “Os Taliban, Bamiyan e Nós: o Outro islâmico”, «ANÁLISE SOCIAL», vol. XXXIX, Inverno de 2005, pág. 769 e seg.

QUANDO AS AMIGAS CONVERSAM...

 

 

PERENIDADE

 

 

Há dias, foi uma nossa amiga, das que falam em voz alta e profusa, com a autoridade de um poder económico lisonjeiro, que, regressada do seu passeio à Madeira, falou no buraco:

- Não sei se há buraco, mas que aquilo está um espanto de beleza e eficiência, não tenho dúvidas!

 

E contou das coisas boas que a Madeira tem, os túneis para as travessias, o bom gosto nos gastos…

 

Ontem de manhã foi a minha amiga que, a propósito do buraco de que se fala, mesmo a imprensa estrangeira, não se sabe se com repercussões sobre as relações do Governo com a troika, lembrou a personagem Jardim, o discurso de Jardim, sempre achincalhante para “os de Lisboa” – “Era melhor ir p’r’ós de Lisboa p’r’a ser gasto à tripa forra! …” afirmara ele. E concluiu:

- Mas isto é uma anedota daquelas que sendo trágica, dá vontade de rir… “Agora venham os de Lisboa dizer que têm gente capaz de governar como aqui se fez, criando condições e escolas…” – disse ele, entre outras coisas.

 

Eu então lembrei que ele não embarcara na reforma educativa como cá, protegendo os professores dos enxovalhos socráticos.

 

Também a Ana Paula, outra nossa amiga matinal, se referiu ao buraco do Jardim, ou ao Jardim no buraco, reconhecendo que o dinheiro fora gasto nas obras sociais:

- Ninguém lhe tira o valor. Mas a forma como se refere aos do Continente é muito acintosa.

 

A minha amiga insistia na questão do buraco:

- Agora pergunta-se: Será que os governantes não deram por nada?

 

Eu achei que sim, que podiam ter dado, mas que lhes convinha fingir que não davam, na safra em que viviam de esconder os seus próprios buracos.

 

Mas a Ana Paula deu precisões:

- Nem sei o que haverá mais. Este dos mil milhões foi ao nível da CGD. Se houver uma auditoria aos outros bancos podem-se descobrir mais buracos. Ainda não apareceu tudo.

- Vamos sabendo aos poucos - concluiu a minha amiga – para a gente ir aguentando.

- Uma espécie de soro na veia – apoiei eu, que tenho muita fé no soro para a recuperação dos organismos.

 

E a Ana Paula, que é filha de médico, falou então nos abusos de cá, ao nível dos hospitais:

- 20% de desperdício. Ele eram Tacs em vez de raios X, ressonâncias magnéticas caríssimas… Agora estamos nos extremos: se não forem os familiares a ajudar, a darem a comida…

 

Falou-se na gordura do Estado que este Governo pretende limpar, com os cortes ao despesismo e referimos Mário Soares, que também os apoia, mas que vai falando em aumento de impostos e redução nos salários como fizeram em Espanha, julgamos que para que se não toque na sua Fundação.

 

A minha amiga há muito que pergunta sobre a utilidade da Fundação Soares e pensa que agora é que ela vai ao ar.

 

Mas está enganada. Pois Soares continua na berra, a dizer dos seus ditames. Vazios. Cairemos todos antes da Fundação. A Fundação não cairá, bom esteio do que somos. Como um estigma. Tal como a Abóboda da Casa do Capítulo do Mosteiro da Batalha que Mestre Afonso Domingos ergueu, sobre a ruína da de Mestre Ouguet.

 

 Berta Brás

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