Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

TUDO AO MOLHO E FÉ EM DEUS

Chega-me por email o texto de Paulo Guinote, um texto de opinião que encontro no seu blog A educação do meu umbigo.

           Um texto bem documentado, citando o exemplo americano como ponto de partida para a extraordinária redução actual do ensino, concentrado em agrupamentos escolares que misturam todas as classes de ensino, desde as da iniciação às do 12º, num objectivo de encurtar despesas, reduzindo e discriminando o número de professores e de mandantes, diferenciando vencimentos, e de esclerosar o ensino, num aumento descomunal, nas condições de violência educativa actual, de alunos por turma e de horas docentes a aplicar, com deslocações destes, por vezes, a diferentes espaços escolares.

           Um texto que deixa estarrecidos de angústia aqueles que respeitam a ordem, que respeitam os jovens em formação, que respeitam a nobreza do ensino, que receiam pelo caos trazido por um completo absurdo e iniquidade sem paralelo, num mundo que se pretende evoluído e cada vez mais condicionado por reformas de inversão e de catástrofe.

 

 «O Grande Negócio da Educação»

«Cruzam-se no momento actual diversas matérias muito sensíveis para a definição do rumo da Educação em Portugal, em particular no que se refere aos contornos da situação da rede pública de escolas. Temos negociações em torno do concurso interno e externo de professores – que são públicas. E temos negociações sobre uma eventual reconfiguração das fronteiras entre o sector público e privado na gestão da rede escolar paga (ou subsidiada) pelo Estado – que são privadas.

Gostaria de afirmar que não tenho especial preconceito contra a iniciativa privada e que acolho, sem grande sobressalto, o princípio da liberdade de escolha em Educação como algo positivo, desde que a liberdade esteja associada a informação transparente e não se limite a ser a liberdade dos mais fortes imporem as suas leis.

Significa isto que não anatemizo uma qualquer solução por meras questões ideológicas e que faço o possível por basear as minhas posições em factos não truncados e de fontes de diversas origens credíveis. Algo que, infelizmente, nem sempre é habitual, em especial num momento em que a luta pelo acesso a maiores fatias do orçamento do Ministério da Educação e da Ciência (MEC) por parte de alguns interesses está ao rubro. E em que há distorções grosseiras da realidade por parte dos que nada querem mudar, mas em especial daqueles que querem “vender” soluções que apresentam como de sucesso milagroso garantido. Vou deter-me um pouco nessa agenda conjunta, nem sempre assumida enquanto tal, de alguns decisores políticos e de certos empreendedores privados que garantem ter a solução para tornar a Educação mais barata em Portugal.

O embaratecimento da Educação na forma de pensar dos “liberais” que formam a corte deste Governo passa por reduzir o número de professores dos quadros e replicar o modelo de gestão de certos grupos privados: uma maioria de docentes contratados, com horário completo e baixo pagamento, uma minoria nos quadros com uma carreira pouco elástica e uma elite de mandantes com o grosso dos privilégios na coordenação e supervisão pedagógica e administrativa das escolas.

Nada disto é desconhecido e já foi testado algures. Num conjunto de relatórios produzidos em 2011 e 2012 com o apoio da insuspeita Walton Family Foundation é possível encontrar conclusões claras sobre o desempenho dos alunos, que é consistentemente pior (com naturais excepções) nas charter schools americanas do que nas escolas públicas tradicionais, assim como sobre a precarização dos vínculos e condições laborais dos docentes como forma de reduzir os custos globais. Num relatório sobre o Green Dot, único grupo privado que aceita professores sindicalizados em Los Angeles as constatações são consistentes com as de outro estudo da Universidade de Michigan (Equal or Fair? A Study of Revenues and Expenditures in American Charter Schools de Gary Miron e Jessica L. Urschel) sobre as finanças das charter schools que apontam a diminuição dos encargos com o pessoal docente e a redução dos serviços prestados aos alunos como os meios escolhidos para baixar as despesas, ao mesmo tempo que se aumentam as remunerações com a estrutura administrativa e dirigente dessas escolas.

É este o modelo que o MEC gostaria de aplicar em Portugal e só ainda não o fez por questões de ordem jurídica. E é um modelo aplaudido com ambas as mãos pelos grupos que anseiam aceder à gestão das escolas públicas, acabando de vez com uma gestão feita a partir de dentro dessas escolas.

O que interessa é ter a maioria dos docentes em exercício estacionados fora dos quadros ou nos primeiros escalões, com carga lectiva no máximo e um número muito reduzido a partir de meio da actual carreira. Uma estrutura piramidal e hierárquica em que uma estreita minoria recebe compensações extraordinárias pelos cargos de topo. Tudo com um modelo de gestão unipessoal, baseado na obediência, em que os orçamentos passam a ser por “unidade de gestão” e em que os administradores (esqueçam os directores) terão crescente autonomia sobre a contratação ou despedimento do pessoal.

Atendendo a isto, os concursos – em especial o nacional – são chatices que urge acabar a breve prazo. O deste ano vai servir essencialmente para consolidar o emagrecimento dos quadros com milhares de vagas negativas e a contabilização, como se ficassem no activo, de centenas ou milhares de docentes a quem se vai atrasando a atribuição da aposentação. O objectivo não é suprir as necessidades das escolas mas consolidar a precarização docente e a redução dos quadros.

Acessoriamente, haverá cálculos e estudos feitos à medida para demonstrar que há escolas privadas que conseguem fazer o mesmo com menos dinheiro, exactamente porque este é o seu modelo de negócio, digo, de gestão. Sendo que os interesses privados estão impacientes, pois acham que já se passaram dois anos e ainda não tiveram a compensação esperada.

O resto… enfim… o resto é nevoeiro, ao serviço da domesticação e empobrecimento do grupo profissional qualificado mais numeroso do país e no âmbito dos funcionários do Estado.

O autor é professor do ensino básico e autor do blogue A educação do meu umbigo.»

 

Mas um país onde os governantes autorizaram e subscreveram um Apoio Ortográfico movidos por iguais pressões de servilismo mendicante e ultrajante nem merece senão essas monstruosidades de agrupamentos escolares apoiando o desrespeito humano e o empobrecimento e domesticação dos seus cidadãos, cada vez mais anquilosados num viver de custo e sem horizontes culturais ou vivenciais que os dignifiquem, no estapafúrdio da sobrecarga de horários e de justificações, para os professores mais criteriosos, das suas notas dadas com critério, no meio de um funcionamento no caos e no desinteresse generalizado, e apesar das exigências de resultados nobilitantes, como vestimenta sumptuosa do rei a quem uma qualquer criancinha apontará a nudez.

 Berta Brás

PELA ÁSIA HÁ BONS PORTUGUESES

BONS PORTUGUESES ESQUECIDOS EM BANGUECOQUE

 

 

Conheci António Cambeta há uns anos largos. Já não nos encontramos há sete anos e, de quando em quando, almoçamos, acompanhado de sua esposa tailandesa, num restaurante simpático, junto aos estúdios do Príncipe Chatri Chalerm, realizador do filme épico Suriyothai.

 

António Cambeta, contou-me a sua história maravilhosa de vida e encontro nele um humanista que desde logo escrevi uma peça que inseri no “AQUI MARIA” em www.aquimaria.com/html/forum.html

 

Mas aqui há dias ao "calha" vou encontrar o seu blog “O MAR DO POETA” em http://cambetabangkokmacau.blogspot.pt e desde logo me veio à lembrança o nosso encontro em 2002 quando me levou a sua casa, na área da Lardprao Road.

 

Vamos certamente encontrar-nos novamente para almoçarmos e trocarmos impressões porque dá gosto conversar como um homem como António Cambeta.

DIÁSPORA
ENTRE DOIS AMORES

 

Entre dois amores viveram os portugueses desde que começaram a emigrar para as terras desconhecidas do mundo no século XV e dá-se no princípio da era do relacionamento de Portugal com as terras do Oriente, então ignoradas do Ocidente.

 

Por norma, os homens viajavam sós, ao serviço de El-Rei de Portugal como feitores, marinheiros e soldados. Na esperança de encontrar o “Eldorado”, juntava-se-lhe o homem do povo - na época considerado “ralé” -  que raramente o achava e terminava por servir reis do Oriente como soldado mercenário.

 

Vasco da Gama, com a descoberta do caminho marítimo pela rota do Cabo Bojador e, de volta a Lisboa com os porões das caravelas cheios até ao convés de pimenta, canela, sedas, gengibre, pedras preciosas e ainda muitos outros produtos provenientes da China, Índia, Ceilão, Ilhas Moluco e Sudeste Ásiático que, antes da conquista de Goa, eram comprados ou trocados em Cochim.

 

Era natural que o homem português voltasse eufórico e desejasse atingir o Oriente ao Deus dará, com o pensamento afastado dos naufrágios, da pirataria do alto mar, das doenças que poderia contrair ou sequer receoso do monstro mitológico Adamastor a soprar os ventos da sua ira nas águas tormentosas da Boa Esperança.

 

O emigrante português principiava uma vida entre dois amores: um, Portugal, onde pensava regressar um dia rico e famoso; outro era a mulher, oriental, que tinha esposado, constituindo família e daí o nascimento de vários filhos dessa união matrimonial.

 

A Portugal nunca mais voltaria se a sorte o não tivesse bafejado. Chegar a Portugal com “cotão” nos bolsos era coisa que não desejaria; a rico, decerto, jamais chegaria.

Começa, pois, a ser formada a diáspora portuguesa no Oriente, perfeita e homogénea, onde não existem preconceitos de racismo. Raro foi o português solteiro, emigrado para o Oriente, que não tivesse constituído família e esta tivesse sido a razão da sua permanência na Índia, Sri Lanka, Reinos do Sião (Tailândia) ou Pegú (Birmânia), Malaca, Macau, China ou Japão.

 

Nomes da nossa literatura tiveram os seus amores orientais onde aqui, entre tantos, se designam dois: Venceslau de Morais, no Japão e Camilo Pessanha, em Macau.

 

Milhares de outros, homens portugueses igualmente, foram amados por mulheres tolerantes, amorosas de olhos amendoados.

 

Gente desaparecida e esquecida no tempo e, até sem se saber ao certo onde foram sepultados, mas ciente se está que tiveram um enterro acompanhado por um missionário do Padroado Português do Oriente e uma cruz, mesmo que tenha sido de pau tosco, espetada na última morada.

Entre dois amores (considero três), vive o jovem na proximidade da casa dos 60, António Cambeta; Homem já da Ásia e onde vive há perto dos 40 anos.

 

Os três amores de António Cambeta são: o Alentejo, Évora onde nasceu; a esposa chinesa em Macau que lhe deu dois filhos e funcionários do Governo; uma Senhora tailandesa que conheceu e por quem se perdeu de amores há 23 anos e de cuja sincera ligação amorosa nasceram 3 formosas raparigas onde a fisionomia das três beldades luso-tailandesas tem bem vincados os sinais da latinidade de António Cambeta.

Que não se acendam as iras da gente pudica, dos castos, dos pregadores dos bons costumes pelo facto de António Cambeta ter vivido ao longo da sua permanência na Ásia entre dois amores.


Os seus dois filhos nascidos de uma Senhora chinesa, em Macau, o Luis Manuel de 33 anos e o Vicente de 32, contribuem, para a continuação da lusitanidade naquele território servindo a Administração; e quanto às suas três “princesas” tailandesas, está a prepará-las com uma educação primorosa para enfrentarem o futuro.

 

Rosa Cambeta, de 19 anos, é estudante, forma-se na mais moderna universidade no centro norte da Tailândia, Susaranee (nome de um Rei herói do antigo Sião); a Sunsanee Cambeta, de 9 anos e Catalya Cambeta de 8 anos, aprendem em excelentes escolas para depois seguirem o caminho da Rosa e com isto contribuir para o desenvolvimento da Tailândia moderna e preparada para um futuro promissor económico dentro do contexto dos países do Sudeste Asiático.

 

Além do mais, a comunidade lusa/portuguesa vai continuar presente na Tailândia e, com isto manter as raízes da sua identidade na velha capital Aiútaia (Ayutthaya), na proximidade de atingir os 500 anos de relacionamento amistoso entre Portugal e a Tailândia.

António Cambeta deixou o seu Alentejo em 1964 e partiu para Macau, como oficial miliciano, inserido na Companhia de Caçadores 690. Passou à disponibilidade em 1967 e ficou por Macau como funcionário de uma companhia de navegação. Mais tarde ingressou nos quadros dos Serviços da Marinha do território. Foi patrão de várias lanchas de fiscalização no Rio das Pérolas, frequentou cursos avançados de processos alfandegários em Hong Kong e teve a seu cargo a chefia de todos os sectores do Departamento Aduaneiro de Macau. Socorreu humanitariamente e resgatou em situações aflitivas centenas de refugiados vietnamitas (boat people).

Foi condecorado com as medalhas de Dedicação e Mérito Profissional, pelos Governadores Carlos Melancia e Rocha Vieira. Durante a longa carreira teve vários louvores e menções honrosas pelos bons serviços prestados em Macau sob Administração Portuguesa.

 

António Cambeta, reformado, vive desafogadamente entre os vários amores: as duas companheiras asiáticas, os filhos e as filhas que estas lhe ofereceram.

 

Évora, no imenso Alentejo, é o outro seu amor.

Mas pelo que ouvi de António Cambeta pareceu-me que de quem mais gosta é de Macau e da Tailândia.

 

Évora, de tempos a tempos, para matar saudades.

 

 José Gomes Martins

 

A EXCEPÇÃO QUE CONFIRMA A REGRA

 

 

Refiro-me ao texto do Francisco Gomes de Amorim sobre o hamburger e a lasagna.

 

Saindo o título das normas não escritas mas a que todos nos habituámos, também eu me autorizo a quebrar uma regra que desde sempre me impus e que é a de não comentar os textos alheios que publico no “A bem da Nação”.

 

E começo por considerar que para comer o que refere o título, não seria necessário chegar ao extremo de matar cavalos.

 

E se a carne de equídeo é perfeitamente comestível pelo homem, já a dos que o título do texto do Francisco Amorim refere pode ser indigesta por implicar antropofagia e, logo, cadeia.

 

Convenhamos que comer carne de cavalo não é minimamente aberrante e se eu o não faço isso se deve apenas ao facto de ter desenvolvido desde criança uma relação de afectividade com eles que me leva alimentarmente a optar por outras espécies tais como a vaca, o borrego e o porco. Mas se eu tivesse uma manada de vacas, seriam certamente leiteiras; as ovelhas seriam apenas para a produção de lã e os porcos morreriam velhos já que ainda não há próteses para lhes substituirmos os presuntos.

 

Tudo visto, o problema que levantou os ânimos dos europeus foi sobretudo uma questão de rotulagem não se informando convenientemente o consumidor mais sensível do que lhe iria correr pela goela. Qualquer questão que se levante relativamente à saúde pública, é puro sofisma. E como jornalista tende a ser sofista, embandeirou em arco com mais uma escandaleira que... não é! Eis como a montanha pariu apenas um conjunto de jornalistas mafiosos. Perdão, sofistas.

 

Encerrado o escândalo que não foi, venho aqui só para contar a versão que corre no meio equestre português sobre o célebre cavalo que deu título ao texto do Francisco.

 

Como todos sabemos e historicamente denunciamos, os ingleses sempre nos tiveram na conta de um povo menor e assim foi que se aproveitaram de a Corte ter saído para o Brasil evitando ficar refém das tropas napoleónicas para nos fazerem o que o corso tencionava fazer-nos: a colonização.

 

Foi com base nos trabalhos desenvolvidos pelo Exército Luso-Britânico comandado por oficiais ingleses (em que a «carne para canhão» era constituída pelos portugueses) que nos conseguimos finalmente livrar dos franceses. Isso, à custa da tirania de Arthur Wellesley, que veio a ser o 1.º Duque de Wellington.

 

Com a desmobilização dos ingleses, um dos oficiais (da nossa história não consta o nome do cavalheiro mas pelo nome do cavalo não deve ser difícil apurar de quem se tratava) que regressava a casa decidiu convidar o seu «impedido» português a acompanhá-lo pois demonstrara grande afeição ao cavalo que o oficial montava em Portugal assim revelando um carácter considerado apropriado à lide com os cavalos que o inglês possuía em Inglaterra.

 

E estamos todos a ver o boçal «impedido» português a limpar um “puro sangue inglês” com o ferro e a escova com que lidava com o dócil “lusitano”. De certo que fervia coice e dentada a cada escovadela. E vai daí o nosso homem a berrar com o super-fino cavalo do género «Ah ganda filho da ....», «Tá quieto filho da ....». E o Lorde gostou tanto da musicalidade que confirmou o nome que o português chamava ao seu cavalo.

 

Deu-se a feliz circunstância de esse cavalo ser um ganhador de primeiríssima qualidade e de ter sido disputado como padreador da raça cada vez mais apurada de corredores, a do «puro sangue inglês».

 

E a fama foi tal que actualmente não há inglês que não se orgulhe de ser descendente do «Filho da Puta». Perdão, cavalo inglês de pura raça.

 

Abril de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

ESTÃO A COMER OS “FILHOS DA PUTA”

 

 

Gerou-se agora, por todo o lado a psicose de que o povo andava a comer “gato por lebre”! Surgiu em França essa bronca, quando descobriram que a maioria das lasagnas e outros produtos prontos, congelados, embalados, que indicavam levar como ingrediente carne bovina, afinal essa carne era uma mistureba de animais, sobretudo de cavalo, mas que levaria também cabra e ovelha. Enfim uma vigarice.

 

Não que as carnes desses outros animais não seja comestível, e até saborosa, mas informar uma coisa e vender outra é coisa de fi... da... coisa.

 

Na África do Sul, onde quase não existe controle nos matadouros, desvendou-se agora (?!) que a carne enlatada, especificada como bovina, tinha uma mistura muito maior, de acordo com o que o dono do abatedouro ia comprando: elefante, búfalo, gazela, zebra, burro, porco, cavalo, e, pasmem, carne bovina também.

 

Desde há muitos anos o Brasil é exportador de carne de cavalo (só em 2012 de carne de equídeos que inclui cavalo, jumento e mula foram 2.375,9 toneladas), e nunca ninguém se queixou.

 

Não há dúvida que se o cão é o melhor amigo do homem, o cavalo não lhe fica muito atrás, e o jumento, o mais humilde, o mais trabalhador, e o que menos recebe de benefícios, são animais que, para a grande maioria das pessoas repugna saber que aquele que tanto nos ajudou, termina em hamburguers, lasagnas ou almôndegas!

 

Na China vão mais longe: comem cães e gatos, além daquela imensidão de insectos que nos parecem repugnáveis, mas que acabam por ser o melhor e mais barato alimento, riquíssimo em proteínas.

 

Já lá dizia Lavoisier que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”! E assim há animais carnívoros, herbívoros, insectívoros, frugívoros, detritívoros (aqueles que se nutrem ingerindo partes mortas de outros seres, como urubus, hienas e determinados moluscos) e ainda há os antropófagos, e os omnívoros. Tudo é uma questão de fome e oportunidade, senão vejamos:

O porco é um omnívoro, o que lhe derem ele traça, como os cães, gatos e ratos. Algumas espécies de macacos, basicamente herbívoros ou frugívoros, quando se aproxima a época do acasalamento, traçam os animais que puderem!

 

E o homem? Ah! Esse então nem se fala: come caranguejos que se alimentam de mééé..., come gato por lebre (quantas vezes?), cães, holotúrias, porcos, galinhas (que adoram comer baratas quando lhes passam ao alcance), jacaré (que tem consistência e sabe a frango sem tempero!), elefante, capim transformado em salada, e como se tem visto, cavalo, mula, jumentinho, etc. Até ninhos de andorinhas!

 

E se estiver mesmo a morrer de fome, ao lado de um companheiro que se tenha finado... também serve.

 

Mas o que haveria o homem de fazer quando um cavalo está velho e não pode mais trabalhar? Abrir uma cova imensa, chamar o bispo para benzer, e chorar de saudade? Aproveitar a carne possível e alimentar a família ou vender para o negociante mais próximo?

 

O que faria você que está a ler isto? Comia o cavalo ou enterrava, para o que seria necessária uma grande cova?

 

Parece que a carne de cavalo é mais clara que a bovina, mas esta também depende do que se alimenta, e há raças que dão carne mais escura do que outras. E os cavalos de corrida, que durante a sua vida foram submetidos a grandes esforços, o seu corpo obrigado a melhor irrigar toda a musculação, têm uma carne bem rosada.

 

E eu fico pensando no grande “Filho da Puta”, aquele cavalo inglês que ficou célebre por ter ganho nove grande prémios, imortalizado em tela pelo pintor John Frederick Herring (1795-1865) por volta de 1820. A bem da verdade o que imortalizou o cavalo foi o seu nome, hoje famoso, e tão famoso que o quadro valerá hoje à roda de £ 1.000.000! Só pelo nome!

 

 

Há pelo menos três versões sobre a origem desse nome. A que parece mais plausível dá conta que o embaixador português na Inglaterra*, à época, era apaixonado por turfe e também por uma viúva que ele comia nas horas extras. E era somente embaixador, porque se fosse como o rei de Espanha, Juan Carlos, que parece ter tido no seu cardápio mais de 1.500 mulheres que ele comeu. Esfomeado o tal castelhano! Pois bem, algum tempo antes da pintura do quadro, o embaixador arrematou num leilão de potros uma potranca a qual batizou de “Mrs. Barnett”, o nome da sua viúva. Mrs. Barnett (a égua), cumpriu campanha discreta nas pistas inglesas, sofreu uma lesão e não pôde mais correr. O intrépido português, então, deu-a de presente a um seu amigo da corte, que era também criador de cavalos. Passaram-se mais de 12 meses e neste período a viúva aplicou uma chifrada no pobre embaixador, mandando-se com um oficial da Armada, bem mais jovem. O embaixador, claro, não gostou da traição, mas recolheu sua dor.

 

Num fim-de-semana, ele foi convidado pela amigo criador para uma visita ao haras, visto que "Mrs. Barnett" estava para parir. Efectivamente, “Mrs. Barnett”, a égua, pariu um lindo potro e o embaixador foi levado a examiná-lo. Era de facto um belo espécime equino. Como homenagem ao amigo, o Lorde inglês pediu que ele baptizasse o potro com um nome típico de Portugal. O Embaixador, ainda engasgado com a perda de sua ex-amada, lascou-lhe o primeiro nome que lhe veio à mente ao ver o potrinho de pé: filho de Mrs. Barnett, só podia chama-ser Filho da Puta. E foi assim que o ganhador do St. Leger de 1815 passou para a posteridade. Não por ter sido um grande cavalo. Até que foi muito bom, mas sua pintura ganhou centenas de milhares de reproduções e hoje enfeita paredes em todos os países de língua latina. A gravura de Filho da Puta, em função de seu nome bizarro, transformou-se no maior best seller do turfe mundial.

 

Como é evidente um bom cavalo deixa sempre descendentes. Por isso os franceses e, quem sabe os ingleses, estão a comer os “Filhos da Puta”.

 

* (O embaixador era Dom Domingos de Sousa Coutinho, o 1º Conde de Funchal, solteiro, que morreu em Londres em 1833).

 

Rio de Janeiro, 1/04/2013

 

  Francisco Gomes de Amorim

A ESTRATÉGIA NACIONAL PARA O MAR E O FUTURO PRÓXIMO

FC Porto,o desespero do FC Porto,Corrupção no Futebol,Corrupção Desportiva,corrupção do fc porto

 

O País precisa de criar postos de trabalho em enorme quantidade e a curto prazo, isto é em termos práticos, já!

 

Continua-se a falar e a escrever muito sobre o Mar mas também se continua a esquecer a Marinha, parecendo não se ter reparado que sem Marinha e apenas a nadar ou a passear na praia, não se consegue criar qualquer riqueza razoável a partir do Mar.

 

Temos esta experiência ao longo da nossa História: só fizemos algo notável e fomos um país central quando tínhamos Marinha e sempre que a não tínhamos não passámos, nem passamos agora de um país periférico e empobrecido.

 

Mas ao falar em Marinha de que Marinha se trata?

 

Se formos à net e procurarmos “marinha” aparece “marinha portuguesa” que só inclui a Armada, a que antigamente se chamava Marinha de Guerra, porque havia a Marinha Mercante ou de Comércio, a Marinha de Pesca e a Marinha de Recreio. Todas elas até Julho de 1974 agrupadas no, que agora se diz “cluster”, do Ministério da Marinha.

 

A partir daí as várias Marinhas civis foram sucessivamente destruídas pelos partidos políticos e por alguns interesses corporativos e agora surge novo plano, e digo novo porque ao longo destas últimas décadas houve várias tentativas de planos que sempre se desvaneceram através da inoperacionalidade dos vários governos, que nunca entenderam, nem o que é de facto a Marinha, nem como ela deve ser incluída na vida da população de forma a proporcionar a criação de alguns largos milhares de postos de trabalho directos e indirectos.

 

Plano este muito bem apresentado com a maior parte do texto a relatar o trabalho altamente meritório que tem sido realizado para se conseguir a expansão da nossa área oceânica e depois com a planificação das acções relativas ao desenvolvimento económico das actividades marítimas, sem as quais os prováveis proventos resultantes das riquezas potenciais destas áreas não ficarão dominadas por interesses portugueses porque a nossa estrutura empresarial não foi preparada atempadamente para este desígnio, como foi previsto em 1984 e anos seguintes, em particular na Academia de Marinha e na Sociedade de Geografia.

 

Convém agora examinar o que se passa com as três Marinhas civis indicadas e depois analisar as restantes actividades como a dos projectos e da construção naval e outras que dificilmente se podem desenvolver se não elas não existirem.

 

1ª Marinha Mercante

 

Portanto se quisermos voltar a ter Marinha Mercante as dificuldades de enquadramento existentes pareciam ser de tal ordem que seriam precisos alguns anos para que tal pudesse acontecer, mas verifica-se no entanto o desenvolvimento dos navios de cruzeiro em particular no rio Douro e um armador português adquiriu o “Funchal” e mais dois navios do falecido armador Potamianos, o que dá bastante esperança de haver progressos interessantes nesta área, ficando ainda sem perspectivas concretas o transporte marítimo de carga, embora do ponto de vista da segurança das necessidades essenciais de abastecimento e de exportação nacionais estejamos a nível mais baixo do que estávamos em 1939, e que originou o célebre despacho 100 em 1945 que nos proporcionou ficarmos com uma frota que chegou a estar entre as primeiras mundiais.

 

2ª Marinha de Recreio

 

Mas em contrapartida se quisermos aproveitar as grandes potencialidades que temos na náutica de recreio, podemos começar já, em pouco tempo serão criados alguns milhares de postos de trabalho e para que isso se torne realidade basta serem tomadas as decisões implícitas nas definições que ficaram claramente expostas nos documentos publicados relativos à estratégia nacional para o mar.

 

Convém recordar que a náutica de recreio tem várias facetas distintas que a maioria da nossa população desconhece e que são:

 

2.1ª Faceta educativa

 

Para podermos usufruir de todas as imensas potencialidades do mar é indispensável que uma parte considerável da população tenha contacto e vivência com actividades náuticas porque só a ida à praia é muito insuficiente. É preciso navegar e para que isto se possa concretizar tem que haver acesso à prática náutica com preços muito baixos que não são compatíveis com as marinas oceânicas naturalmente vocacionadas para as embarcações apropriadas a navegar no oceano e onde também existe a actividade educativa naturalmente mais restrita dado o seu custo mais elevado.

 

Mas que se tornam acessíveis nos estuários e zonas lagunares onde os investimentos em obras marítimas são muito inferiores e onde se pode, e se deve desenvolver grande número de postos náuticos conforme a potencialidade dos locais e apenas com investimentos reduzidos tanto mais que nestes locais não devem ser utilizados nem betão nem pedra mas estacas de madeira ou outros materiais apropriados mas nunca pesados e quaisquer pequenos edifícios e plataformas serem flutuantes.

 

E os planos inclinados indispensáveis para colocar e retirar embarcações da água deverão ser em terra batida e não em betão.

Convém também chamar a atenção para o facto de praticamente só dever ser investimento do Estado o ordenamento dos canais de navegação dos estuários e dos rios ficando a maioria ou até a totalidade do investimento em portos de recreio e de marinas a cargo de entidades locais privadas (empresas ou clubes) de forma a ficar garantida a sustentabilidade das actividades náuticas e a manutenção das áreas molhadas.

 

Só assim, havendo facilidade no acesso à navegação se poderá desenvolver o gosto pelas actividades náuticas que é a base indispensável para se conseguir ter uma população virada para o Mar, e portanto para a Marinha, navegando nele e não apenas contemplando-o ou molhando nele os pés.

 

 

2.2ª Faceta produtiva

 

Durante o Inverno nos países do norte da Europa a prática da náutica de recreio fica dificultada pelas condições naturais pelo que há alguns milhares de candidatos a virem praticar aqui o que lá não podem fazer.

 

Além destes há também a necessidade de haver esta disponibilidade de actividades náuticas quando se pretende motivar turistas ou até residentes a nos visitarem e já tive ocasião de, há alguns anos atrás conhecer um caso de desistência da criação de um empreendimento para algumas centenas de interessados em viver cá porque não havia acesso ao mar em condições minimamente aceitáveis.

 

É claro que não se trata apenas de navegar mas também de pescar, normalmente com devolução do peixe ao mar, e de outros desportos e actividades compatíveis com os enquadramentos locais.

 

Os turistas abrangidos por este mercado tanto podem vir por meios de transportes diversos como por embarcação própria e para eles também é preciso prever a forma de os receber e os motivar a visitar-nos.

 

Até há multo pouco tempo atrás a costa portuguesa era tratada pelos guias de navegação como algo a evitar pela falte de apoios de qualidade e agora, embora já tenha melhorado com algumas iniciativas com bom nível de atendimento, ainda há muito para fazer para atrairmos os muitos clientes potenciais que existem.

 

Também quanto à atracção de investidores para projectos de maior porte que a comunicação social estrangeira menciona haver interessados, as informações que temos são em termos pouco abonatórios dada a ideia existente nesses mercados da dificuldade em haver decisões das entidades oficiais, o que os leva a procurar outros locais piores mas onde conseguem trabalhar.

 

É curioso notar que temos investido em cais para navios de cruzeiro mas não em navios nem com a mesma força nos navios de recreio que passam aos milhares pela nossa costa e que só o farão quando Portugal voltar a ser um país marítimo como já foi mas deixou de ser.

 

3ª Marinha de Pesca

 

Esta actividade sempre foi tratada de forma pouco eficiente e m 1982 houve uma tentativa para a reestruturar através de um Plano Nacional de Pesca, muito influenciado por informações fornecidas pelo Prof. Ernâni Lopes, então responsável pelas futuras ligações com a Comunidade Europeia, em que dois dos problemas mais candentes eram a baixa produtividade da pesca da sardinha por razões tecnológicas e o sistema de primeira venda que favorecia os intermediários, com manifesto prejuízo dos pescadores e dos consumidores mas que foi recusado pelo Conselho de Ministros e até hoje parece que tudo isto ainda não foi alterado nem se vê neste plano actual referência a estes problemas.

 

Também o potencial de produção da piscicultura que é enorme continua a ser considerado de forma excessivamente lenta bem como não se desenvolver a relação pesca profissional/ desportiva (turística) que noutros países tem grande actividade e é geradora de importantes proventos. Obviamente enquadrada por rigorosa disciplina e regulação eficaz.

 

Com especial relevo para os rios, estuários, albufeiras e pela costa algarvia.

 

4ª Indústrias e outras actividades correlativas

 

São muitas as actividades que se desenvolvem como consequência da existência destas Marinhas activas sendo algumas essenciais para se atingir o grau máximo de valor acrescentado global mas não se conseguirá qualquer progresso nesta área se não forem criadas as condições atrás indicadas que permitam a existência de inúmeros postos de amarração e condições de acesso à água, seja no mar, nos rios e nas albufeiras, que popularizem as actividades náuticas.

 

A lista destas actividades é conhecida pelo que me abstenho de a apresentar.

 

Conclusões finais:

 

As actividades de Marinha podem, e devem proporcionar a criação de elevado número de postos de trabalho directos e indirectos a prazo muito curto e os desempregados que temos merecem todos os esforços para que possam deixar de o ser.

 

A existência de um Plano de Desenvolvimento excelente não pode significar o adiamento de algumas decisões concretas imediatas que além dos postos de trabalho criados também terão a virtude de convencer os interessados estrangeiros em alguns destes empreendimentos, em que é essencial a componente relativa à captação de clientes de fora do país, de que as proverbiais dificuldades em ter decisões estão finalmente ultrapassadas, e para isto nada melhor que exemplos concretos em vez de discursos.

 

Não devemos esquecer que tendo sido nós os pioneiros da expansão marítima europeia a fizemos sem planos escritos mas com decisões efectivas e oportunas, como aconselhava Peter Drucker séculos depois, e agora, entre todos os países da Europa ocidental que têm bastante mais Marinha que nós, somos o que menos Marinha tem mas o único com plano tão completo como o que temos em discussão.

 

Por último chamar a atenção para o facto de só se conseguir realizar um projecto desta dimensão em tempo útil, cujo prazo começou a contar há perto de dois anos, se forem claramente definidas as acções a realizar indicando para cada uma um responsável e um prazo de execução.

 

Lisboa, 1 de Abril de 2013

 

 José Carlos Gonçalves Viana

CURTINHAS CV

 

OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS

 

 

v      O remédio que a troika quis ministrar a Chipre não era tão insensato quanto por aí corre. Tem até um bom princípio activo, ainda que a receita tenha sido muito mal prescrita. Eu explico.

 

v      E para explicar, tenho de me repetir: as economias desenvolvidas, organizadas segundo o modelo de mercado, são Estados de Direito com sistemas de pagamentos que nem sequer têm de funcionar na perfeição para que o edifício se mantenha sólido e estável.

 

v      Quem diz Estado de Direito, diz regras que confiram segurança (jurídica) ao acto de contratar. E, recordo, o modelo de mercado tem por base trocas monetárias:

(i) contratos que tornam realidade a livre vontade das partes;

(ii) contratos cuja prestação é o que for - e a contraprestação se resolve em dinheiro.

Não surpreende, pois, que encontremos sempre um sistema de pagamentos no âmago de qualquer economia moderna.

 

v      Acontece que, nas economias desenvolvidas, 90% ou mais desse dinheiro é moeda escritural emitida pelos Bancos: os Depósitos à Ordem - a que há que acrescentar os instrumentos financeiros (como os Depósitos a Prazo, mas não só) que podem ser imediatamente convertidos em dinheiro (saldos em Depósitos à Ordem, notas do Banco Central), à razão de 1 para 1, por simples iniciativa do respectivo titular, sem que a parte contrária (Banco, as mais das vezes) possa validamente opor-se.

 

v      Vistas sob este ângulo, as economias modernas giram em torno dos Depósitos Bancários. São eles que possibilitam as trocas monetárias que distribuem o produto social (os bens e serviços que cada economia produz ou presta) e encaminham o excedente (os investimentos que aumentam a capacidade de produzir mais e melhor).

 

v      Facilmente se percebe que a crise (maxime, a insolvência) de um Banco prejudica, em não pequena medida, o funcionamento do sistema de pagamentos de que ele faça parte.

 

v      Mais concretamente, um Banco em crise compromete a emissão, a circulação e a própria extinção do dinheiro (sim, é de fundamental importância para um sistema de pagamentos que o dinheiro se extinga sem sobressaltos, um tema que vai para além deste escrito). E se daí resultar a indisponibilidade de Depósitos Bancários, ocorre uma contracção abrupta do dinheiro em circulação – com os consequentes efeitos negativos na actividade económica, na procura e no emprego.

 

v      “Normal funcionamento do sistema de pagamentos” é disso que se trata, seja em Chipre, seja noutra qualquer economia - e é disso que se trata aqui, também.

 

v      Precisamente porque os Depósitos Bancários são, de longe, a componente principal do dinheiro em circulação é que há que protegê-los com desvelo – e isto significa:

-     Regra 1 - Reconhecer que, em caso crise (maxime, de insovência), mas só então, os Depósitos Bancários serão pagos em primeiro lugar (antes dos trabalhadores, do Fisco ou mesmo dos credores que gozem de garantias patrimoniais, mas sem haver a certeza de que a massa falida dê para reembolsar por inteiro os Depósitos Bancários);

-     Regra 2 - Garantir que os Depósitos Bancários que não ultrapassem determinado montante, por serem considerados a própria essência do sistema de pagamentos, estarão disponíveis em todas as circunstâncias, mesmo se o Banco Depositário cair insolvente (para que a quebra no dinheiro em circulação não seja tão acentuada).

 

v      Só muito recentemente (graças à crise bancária de 2007-2010) é que estas duas regras começaram a ganhar corpo internacionalmente, mas ainda de maneira algo canhestra - como o programa de ajustamento inicialmente desenhado para Chipre veio revelar.

 

v      Não percebeu, então, a troika (ou não quis perceber) que o regular funcionamento do sistema de pagamentos deve prevalecer sempre sobre o interesse de quaisquer credores - ou o Estado de Direito (e, concomitantemente, a segurança jurídica) ficará irremediavelmente subvertido. E vai daí, fez recair sobre os depositantes, de golpe e sem excepção, praticamente todo o esforço para resgatar os Bancos cipriotas.

 

v      A troika poderia:

(i) ter começado por impor perdas na dívida emitida (Obrigações, Promissórias, Papel Comercial) pelos Bancos em colapso;

(ii) e, seguidamente, “forçar” a conversão parcial, em capital desses Bancos, dos Depósitos Bancários que excedessem o montante garantido (o que sempre faria com que os visados viessem a participar na desejada recuperação do sistema bancário cipriota e conferiria alguma liquidez a investimentos feitos contra vontade).

 

v      Mas não. Tributem-se os Depósitos Bancários – pois são os Governos, sob o olhar vigilante da troika, que têm de exconjurar o mal por suas próprias mãos, estatizando.

 

v      É claro que vários factos devem ter ajudado a tomar tão angustiante decisão:

-     Os mercados interbancários da Zona Euro (excepção feita à Grécia) não estarem minimamente expostos ao risco Chipre;

-     Alguns Bancos e algumas Entidades de Investimento Colectivo (Fundos de Pensões, sobretudo) do núcleo duro da Zona Euro serem credores com garantias de dívida a médio/longo prazo que os Bancos a resgatar tinham vindo a emitir;

-     Os Bancos cipriotas praticamente não contarem com depósitantes residentes nos restantes países da Zona Euro (salvo a Grécia, obviamente);

-     E uma boa fatia dos depósitos a tributar ter origem na Rússia e noutros países do Médio Oriente (mas não na Turquia, celà va sans dire).

 

v      Goste-se, ou não, as duas regras que enunciei mais acima vieram para ficar. E vão provocar uma mudança radical no modo como os Bancos têm sido vistos, tanto nos países financeiramente frágeis como nos países financeiramente fortes (além de tornarem anacrónicas e inadequadas largas parcelas do nosso Regime Jurídico das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras):

-     A começar pelos próprios Bancos, que não vão mais poder alimentar no comum mortal a ideia (errada) de que “dinheiro depositado, seja qual for o montante, é dinheiro sempre garantido, haja o que houver“ (mensagem subliminar que contribuiu em muito para o ambiente de moral hazard em que a Banca, por esse mundo fora, tem vivido de há anos a esta parte: lucros, são dos Bancos; perdas, se volumosas, os contribuintes que as suportem);

-     Isto significa também que os Bancos vão ter de gerir com maior prudência os seus Balanços, vão ter de divulgar regularmente informação mais clara e de melhor qualidade - e, a contragosto, vão ver reflectido inteiramente no custo dos fundos que captem o risco que representam;

-     A supervisão bancária terá de perder a complacência que, desde sempre, a tem caracterizado (os Bancos Comerciais cipriotas foram considerados sólidos nos testes de stress que EBA/European Banking Authority efectuou ainda não há dois anos) – e terá de responder muito mais amiude pelo que faz ou deixa fazer;

-     O processo de insolvência tem de se tornar expedito, para não arrastar os Bancos credores;

-     Os Bancos têm de dispor de um processo de liquidação próprio – e, perante um Banco em crise, a norma não será tentar salvá-lo custe o que custar (à la BPN), mas liquidá-lo rapidamente e em boa ordem;

-     O custo dos empréstimos bancários subirá inevitavelmente, porque terá de reflectir com maior rigor, quer o risco envolvido, quer a maior exigência de Capitais Próprios por unidade de capital em risco;

-     Os Mercados de Valores Mobiliários na Europa ganharão novo alento – e o financiamento das economias europeias deixará, por fim, de estar tão dependente da boa vontade (e do nível de capitalização) dos Bancos europeus, aproximando-se mais do padrão norte-americano.

 

v      Não, os deuses (leia-se, a troika) não estão loucos. São, apenas, uns aprendizes de feiticeiro tontos.

 

v        E quanto aos Bancos, dentro e fora da Zona Euro, por mais sólidos que sejam vistos: preparem-se!

ABRIL de 2013

 A. Palhinha Machado

 

DOIS LIVROS IMPORTANTES

 

 

 

 

Em 16 de Novembro de 2011, a Estação Agronómica Nacional, então já oficialmente extinta, completou 75 anos de vida.

 

Remando contra a maré, pois se estava no período de destruição da investigação agronómica do Ministério da Agricultura, um pequeno grupo de jovens investigadores, liderados por Pedro Reis e Paula Coelho, decidiu comemorar esse aniversário com dois livros, o primeiro com relato dos trabalhos realizados pelos diferentes departamentos e o segundo com uma breve história da Estação e com as biografias de um certo número do que designaram “Investigadores de Referência da EAN. Biografias”. O primeiro livro, “Agrorrural. Contributos científicos”, foi editado em 2012 e o segundo “História e Memórias da Estação Agronómica Nacional. 75 anos de Actividade”, apresentado em 20 de Março de 2013.

 

São duas obras que considero importantes porque temos ali um relato do que foi feito nessa instituição, que foi o primeiro grande laboratório de investigação científica do Estado Português, tão bem delineado e posto em execução que serviu de modelo a todos os que, noutros sectores, se lhe seguiram. O primeiro dos quais, nascido dez anos mais tarde, foi o prestigiado Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que também tanto deu ao país e que hoje é uma sombra do que foi.

 

Estes dois volumes, editados pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, seguiram-se ao que foi editado no 50º aniversário, modestamente impresso nas velhas máquinas de off set da instituição, já nessa altura a sofrer destruição e em grande penúria financeira. Tem, no entanto, a vantagem de ter a lista completa de todas as publicações científicas do organismo até essa data (1986).

 

Além das acções de destruição dos seus organismos, a investigação agronómica tem sido objecto, aos longo das últimas décadas, de intensas acções a denegri-la e a tentar ignorar o que foi feito e o muito que deu ao país, da parte de entidades e de instituições com grandes responsabilidades. Por isso é importante que estes volumes sejam divulgados, para que os portugueses tenham uma boa ideia do contraste entre o antes e o agora e conheçam melhor as razões e os responsáveis de o país estar como está.

 

Em Elvas existe um outro importante organismo de investigação agronómica, desde que, em 1942, foi criada a Estação de Melhoramento de Plantas, hoje oficialmente extinta e com outro nome. Tive a honra e o prazer de ali trabalhar durante uma meia dúzia de anos, há muito tempo. Bem gostaria que, entre os investigadores que lá estão, houvesse quem quisesse levar a cabo uma tarefa semelhante e editasse um livro comemorativo dos 70 anos que se completaram em 2012. Creio que a Câmara Municipal não deixaria de apoiar essa publicação, pois foi a Estação de Melhoramento de Plantas que pôs Elvas no roteiro da ciência, como se prova com os vários cientistas estrangeiros que a visitaram, um deles laureado com o Prémio Nobel.

 

 Miguel Mota

 

 Publicado no Linhas de Elvas de 28 de Março de 2013

HIPNOS

Hipnos e Tânatos

Fonte Wikipédia livre

 

Na concepção da sociedade actual, com tantas motivações para se ficar alerta, o dormir é para muitos o mesmo que perder tempo, um roubo de horas vividas, um exercício para a morte.

 

Desde a antiguidade, a mitologia dava ao sono, processo bio fisiológico rítmico, cíclico, subordinado a estímulos eléctricos e neuropsíquicos, a importância para manter o homem em estado hígido. Os grandes estudiosos do assunto, psicólogos e pesquisadores da mente, são unânimes: há no domínio de Hipnos, deus do sono, filho da noite (Nyx) e de Érebo (a treva primordial), irmão de Tânatos, deus da morte, outro mundo ainda não totalmente desvendado, que comanda o subconsciente e favorece a criatividade.

 

Quando esse processo neuropsíquico é afectado por doenças (físicas ou psíquicas) ou por comportamentos que prejudiquem a rotina, aparece a insónia que, frequente, mina a qualidade de vida. Dormir o que se precisa ajuda a manter-nos física e psicologicamente saudáveis, mantém-nos vivos.

 

Aqueles que, por necessidade ou tipo de trabalho, são obrigados a trocar o dia pela noite, necessitam de mais tempo para descanso e de algumas compensações financeiras e sociais, como aposentadoria mais precoce. Mas nem sempre o preço pela falta de sono é só esse.

 

Os pesquisadores são enfáticos; a falta de um sono reparador leva a um défice cognitivo e motor, a alterações de humor, a fadiga crónica, a maiores riscos de acidentes e erros que prejudicam os relacionamentos sociais e familiares. A história mostra essa tendência. Relatos de tragédias como a do Titanic (1912), a do petroleiro da EXXON Valdez (1989), a da usina nuclear de Chernobyl (1986), foram acidentes que ocorreram à noite, quando equipes submetidas a longas jornadas de trabalho sem o descanso necessário, com privação de sono, tiveram falhas ou cometeram mais enganos que o normal. Embora não divulgado a priori, soube-se posteriormente que a equipe de manutenção do ónibus espacial Challenger havia trabalhado exaustivamente na noite anterior para reparar o defeito numa peça do tanque de combustível. Problema que ficou aparentemente resolvido... até à explosão do ónibus.

 

Mas como tudo tem excepções, há também aqueles que julgam a noite a parte do dia mais produtiva, pela quietude e sossego de que se dispõe. Poetas, escritores, artistas, cientistas, cérebros diferenciados há que encontrem nessa ocasião o seu melhor tempo. O Nobel de Química de 2003, R. MacKinnon disse: “Meus momentos mais produtivos são aqueles em que não consigo dormir”. Em geral são mentes privilegiadas que conseguem funcionar tanto pela actividade cerebral racional, como pela intuição, quando esta está liberada, sem o controle e censura da racionalidade, como um caleidoscópio que pelo movimento ao acaso mostra novas e inesperadas formas de visão.

 

Para os filósofos, a intuição é uma modalidade rápida, fugaz, privilegiada de conhecimento, que tem papel decisivo na criatividade, seja artística ou científica. Mesmo nestes casos, as pesquisas comprovaram que o repouso nocturno aguça duas vezes mais o sentido intuitivo dos que repousam, do que os que não repousam adequadamente. Logo, Hipnos tinha razão em se deitar numa cama de penas macias, numa caverna escura junto a uma das margens do Lethe, o rio do esquecimento. Dormir não é perda de tempo, dormir faz bem à vida.

 

Uberaba, 30/03/13

 

 Maria Eduarda Fagundes

Pág. 9/9

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D