Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

A FÉ E A RAZÃO

 

 

 

Refiro-me a uma sequência de textos de que este é o terceiro. O primeiro, da minha lavra, intitula-se «Parametrização social» e o segundo, da Professora Berta Brás, recebeu o título «Lasciate ogni speranza...».

 

É deste que transcrevo: “Enquanto, para D. Manuel [Clemente] o espiritualismo, apoiado nos valores transcendentais, parece dever impor-se sobre os valores do materialismo, Salles da Fonseca põe a tónica na formação racionalista, como fundamental para a tomada de consciência e o reconhecimento dos limites da liberdade, ou da autenticidade do sentido de democracia”.

 

E cito de seguida Karl Popper a págs. 32 da sua autobiografia intelectual, «BUSCA INACABADA» (edição ESFERA DO CAOS, 1ª edição, Fevereiro de 2008) em que ele afirma que “a teologia (...) é devida à falta de fé”, conceito com que concordo plenamente pois quem tem fé não precisa de explicações e a quem a não tem, pode não haver explicações que bastem. Foi para estes últimos que a Teologia foi edificada.  

 

Compreende-se assim que o Bispo do Porto faça prevalecer o “espiritualismo apoiado nos valores transcendentais” precisamente por ser homem de fé; eu não sou Bispo e ponho “a tónica na formação racionalista”.

 

Mas a Igreja há muito que se fez evoluir por caminhos complementares ao da fé com vista à ultrapassagem de erros históricos (os episódios de Galileu e de Darwin) e de resposta a movimentos políticos e sociais tão significativos como a Revolução Francesa e a revolução industrial. Não era mais possível manter a nostalgia duma cristandade assente apenas no poder da fé; havia que atrair os adeptos da razão.

 

Foi também nesta senda complementar à da fé que se reuniu em Roma nos anos de 1869-70 o Concílio Vaticano I que foi abruptamente interrompido com a invasão do que restava dos Estados Papais pelas forças de Garibaldi. Contudo, tiveram ainda os Padres conciliares tempo para aprovarem um documento de tal modo importante que obteve a classificação mais elevada dos produzidos pela Igreja, uma Constituição. Mais: obteve a classificação de Constituição Dogmática. Recebeu o título Dei Filius a partir das primeiras palavras do seu texto “O Filho de Deus e redentor...”       

 

A ideia central e fundamental do documento diz que há duas possibilidades de conhecimento: a razão natural e a fé divina. Mais diz que estas duas ordens do conhecimento são distintas não só no seu princípio como também no seu objecto, onde fica claro que sem fé a razão não consegue alcançar os mistérios escondidos de Deus e “jamais poderá haver verdadeira desarmonia entre a fé e a razão porque o mesmo Deus que revela os mistérios e comunica a fé, também colocou no espírito humano a luz da razão”.

 

E foi por caminhos assim que a Igreja evoluiu... e o Papa João Paulo II pediu desculpas pelo erro cometido contra Galileu referindo em 1998 na sua encíclica Fides et Ratio que “O homem encontra-se num caminho de busca humanamente infindável”.    

 

Concluindo, regresso a Karl Popper quando ele afirma que na sucessão contínua de tentativa-erro-tentativa-erro-tentativa... do método científico, a verdade é um ponto no infinito.

 

Como afirma a Professora Berta Brás, “Lasciate ogni speranza...”

 

Como muito possivelmente terá dito Santo Anselmo, “Haja Deus!”

 

Lisboa, Abril de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca      

 

BIBLIOGRAFIA

Nuno Santos – Fé e Razão, um mútuo reconhecimento desde o Concílio Vaticano I – Dei Filius, BROTÉRIA, Fevereiro de 2013, pág. 125 e seg.     

CATURRICES XXXV

 

Mais baldrocas do que trocas

 

v      No escrito anterior tentei demonstrar que uma swap de taxa de juro nunca pode resultar em mais desembolso para a parte que deve pagar o cupão de taxa fixa: quando muito, ela pagaria menos se tivesse escolhido o cupão de taxa indexada (mas também poderia pagar mais se o indexante, entretanto, disparasse por aí acima).

 

v      A parte que escolhe o cupão de taxa fixa sabe, à partida, quanto irá desembolsar pelo serviço da sua dívida. Não quer viver “com o credo na boca” - e é essa a razão de ser da sua decisão. Mas nada impede que, a posteriori, dedique uns minutos para calcular se teria pago menos, ou mais, caso tivesse escolhido o cupão de taxa indexada. Um exercício sem reflexo na Conta de Resultados.

 

v      Como os indexantes mais usados vieram por aí abaixo nestes últimos 5 anos, forçoso é concluir que as empresas públicas, para terem registado as perdas que têm sido anunciadas (melhor diria: atiradas para o ar, sem qualquer suporte factual), é porque não escolheram o cupão de taxa indexada. Então qual terá sido a causa de tão grandes perdas?

 

v      Muito provavelmente, as swaps de taxa de juro têm embutidas opções financeiras, com as empresas públicas sistematicamente num dos lados dessas opções financeiras. Ou seja, não foram swaps, mas swaptions – contratos financeiros bastante mais complexos, posto que combinam swaps com opções.

 

v      Um novo ente misterioso: opções. Para explicar o que sejam opções, o melhor é começar por descrever o que sejam contratos contingentes (figura completamente ignorada pelas escolas de pensamento jurídico cá do sítio, mas que povoam os mercados financeiros de há uns 350 anos a esta parte). E para se compreender a lógica dos contratos contingentes, o melhor é contrapô-los aos contratos firmes (ou sinalagmáticos) que conhecemos de todos os dias.

 

v      Num contrato firme, seja qual for o seu objecto, chegado o momento de lhe dar cumprimento, quem tem de prestar, entrega, e quem tem de contraprestar, paga. A parte que não satisfizer as obrigações que o contrato lhe impõe, incumpre – e a parte cumpridora terá direito a ser indemnizada.

 

v      Não acontece assim nos contratos contingentes. Nestes, uma das partes, no acto de contratar, renuncia expressamente:

(i) quer ao direito de exigir que a contraparte cumpra pontualmente;

(ii) quer ao direito de ser indemnizada, se a contraparte incumprir.

Ou seja, a tal contraparte só dá execução ao contrato, se nisso tiver interesse: é ela a detententora do direito de opção (ou só opção).

 

v      As fianças e os contratos de seguro são também tipos especiais de contrato contingente. Na realidade, tanto na fiança, como nos seguros, o direito de opção só existe verificados que sejam determinados factos ou circunstâncias explicitamente previstos:

(i) no caso da fiança, o incumprimento definitivo do devedor principal;

(ii) no caso do seguro, o sinistro.

Em geral, num contrato contingente, o que vai determinar o exercício da opção é o interesse do seu titular .

 

v       Uma opção é, assim, um direito originado num contrato contingente - direito que pode ser exercido, ou não, segundo o único e exclusivo arbítrio da parte que dele seja legítimo titular. Numa opção financeira, o objecto do contrato contingente (diz-se na gíria o activo subjacente) é um instrumento financeiro, uma carteira de instrumentos financeiros ou um fluxo de rendimentos futuros.

 

v      Há dois tipos de opções:

(i) o direito de comprar o objecto contratual (na gíria, uma Call) que a contraparte deve, então, entregar;

(ii) o direito de vender o objecto contratual (na gíria, uma Put), sem que a contraparte possa recusar-se adquiri-lo e pagá-lo.

 

v      Quem seja o titular de uma opção diz-se o Tomador (ou Comprador) dessa opção. Contra quem essa opção pode ser exercida diz-se o Subscritor (ou Vendedor ou Garante) dessa opção. E como nas fianças (subscrita pelo fiador) e nos seguros (subscritos pela Seguradora), também no acto de assinatura de um contrato contingente o Tomador paga um prémio ao Subscritor: uma opção é uma posição vantajosa que vale dinheiro.

 

v      É claro que o Tomador de uma opção perde, no máximo, o prémio que tiver pago se a não exercer (porque não ganharia nada com isso). O Subscritor, pelo contrário, recebe à cabeça o prémio, mas será ele sózinho a pagar o ganho do Tomador, se este decidir exercê-la.

 

v      Numa opção, só a posição de Subscritor (diz-se, também, a parte passiva) poderá registar perdas significativas – perdas que atingem facilmente 50x (e não raro chegam a 100x) o prémio cobrado. Como acontece às Seguradoras, aliás.

 

v      Curiosamente, a perda máxima (e o simétrico ganho máximo) numa Put tem limite: o Subscritor ter de pagar o preço convencionado por um activo subjacente que passou a valer 0. Numa Call, porém, a perda máxima pode ser, em tese, ilimitada: o Subscritor tem de vender por um preço comparativamente baixo um activo subjacente que, entretanto, se valorizou desmedidamente.

 

v      Moral da história: quem subscreve uma opção (e não seja tolinho) deve ter ideias muito claras sobre o que está a fazer, os cenários possíveis – e não falhar nas probabilidades que atribui a cada um desses cenários. Só assim poderá calcular um prémio que compense razoavelmente o risco a que se expõe. Mas, que não se iluda: as perdas estarão sempre ali, à espreita.

 

v      De volta ao “caso das swaps” – que, se calhar, é mas é o “caso das swaptions”.

 

v      Para haver perdas significativas (leia-se, desembolsos substanciais e não antecipados) é porque as swaps de taxa de juro têm embutidas opções financeiras. Mas não basta, é preciso também que as empresas públicas em causa tenham assumido a posição de Subscritor nessas opções financeiras. Razões para tal não são difíceis de encontrar: cobrar os correspondentes prémios para tornar menos sombrios os Resultados Financeiros (foi isso que tramou Nick Leeson e tantos outros depois dele).

 

v       Agora, saber que opções financeiras são essas (se são Puts, se são Calls) só depois de ler os contratos (peço encarecidamente a quem tenha acesso a eles que mos faculte, por uns momentos que seja, para eu os analisar e tirar-me de dúvidas; que diabo, não são segredos de Estado!).

 

v      “Não há nada a fazer! É aguentar e cara alegre!” Parece ser a mensagem subliminar justamente daqueles que mais críticos se mostram. Como assim? Isto não é uma fatalidade. É, antes do mais, um caso jurídico. Vejamos:

 

v      As empresas públicas, ao assinarem os controversos contratos, subscreveram (o que é dizer, garantiram) opções financeiras cujos activos subjacentes são, quase de certeza, variáveis financeiras.

 

v      Ou seja, prestaram garantias e assumiram responsabilidades que, nem estão previstas nos respectivos estatutos (os juristas preferem “contratos de sociedade”), nem estão alinhados com os respectivos objectos socias (fossem elas Bancos ou Instituições Financeiras e estes argumentos não colariam).

 

v      Assim sendo, os contratos são nulos à luz do Direito Português.

 

v      Ah! E a responsabilidade civil do comitente?  – oiço já contestar. Essa não é para aqui chamada porque quem os assinou como Tomador não podia desconhecer, já as leis portuguesas, já os estatutos das empresas públicas que tinham pela frente (aliás, é usual nestas operações as partes averiguarem cuidadosamente se a contraparte tem poderes e competências para o acto; se o fizeram, foram mal aconselhadas – azar delas).

 

v      Tudo o que nós, contribuintes, temos a dizer sobre o “caso das swaptions” resume-se a bem pouco:

-          Vamos lá separar o trigo (as swaps de taxa de juro) do joio (as opções financeiras nele embutidas);

-          As opções financeiras, por contrariarem a lei aplicável, obrigam exclusivamente as individualidade que as subscreveram, não as empresas públicas que diziam representar.

 

v      Esta, assim, pro bono, que seja em desconto dos meus muitos pecadilhos como contribuinte.

 

ABRIL de 2013

 A. Palhinha Machado

 

O DEVER DE SER FELIZ

 

 

Uma mentira, por mais que se proclame e repita, não passa a ser verdade. Uma das mais frequentes e destruidoras é esta: Tenho direito a ser feliz! E esta mentira instala-se na cabeça de imensa gente a ponto de justificar tanto abandono e sofrimento, tanto acto egoísta. Tudo por um prazer, quase sempre efémero, tornado direito. Com isto avança um mundo doente e em ruptura. Ser feliz não é direito, mas dever! Tenho o dever de procurar a felicidade e só me aproximarei dela fazendo felizes os outros! Mas atenção, felicidade não é ausência de sofrimento.

 Vasco P. Magalhães, SJ
in ONDE HÁ CRISE, HÁ ESPERANÇA

LASCIATE OGNI SPERANZA…

 

 

Publicou o Dr. Salles um texto intitulado “A Parametrização social” apoiado na seguinte observação colhida num livro de D. Manuel Clemente:

 

A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado.

 

A síntese do Dr. Salles, que com tanto gosto guardo no meu blog (http://poramaisb.blogspot.pt/), afigura-se bastante pertinente, apontando dados precisos que, pondo a tónica na incurável iliteracia de que enfermou o povo português ao longo dos séculos, a sua formação para a cidadania dependendo não de valores éticos ou humanistas mas de ameaças punitivas do pecado, numa cultura por longos anos acanhadamente hierática e maniqueísta, o projectou numa incapacidade de evoluirmos num sentido de dignificação e ajustamento a outras formas de pensamento mais equiparáveis à de outros povos que estudam e trabalham e planeiam o futuro das gerações que se lhes seguirão.

 

A ele apus o comentário:

 

A cultura em Portugal fez-se sempre por processos elitistas, em fracturas estrondosas – entre a cidade e o campo, entre os ricos e os pobres, entre os nobres e a plebe. Nunca houve uma generalização cultural que impusesse o respeito humano sem ser sob o efeito da subserviência ou do favorecimento. Mesmo os méritos são avaliados segundo parâmetros de participação política. A democracia trouxe uma reviravolta que é só aparente, vazia e oca, o povo chamado a manifestar-se, a maioria das vezes não como seres conscientes, mas como rebanho indisciplinado, manipulado pelos condutores instigadores. A nobreza dos valores abstractos, como o sentido de pátria, foi riscada do mapa das consciências, cada um pugnando pelos seus direitos próprios, não pelo estudo e a reflexão, mas pela sensibilidade folclórica que o fado nos inspira.

 

Enquanto, para D. Manuel o espiritualismo, apoiado nos valores transcendentais, parece dever impor-se sobre os valores do materialismo, Salles da Fonseca põe a tónica na formação racionalista, como fundamental para a tomada de consciência e o reconhecimento dos limites da liberdade, ou da autenticidade do sentido de democracia.

 

O dia de hoje, 25 de Abril, mostrou em pleno Parlamento que tal sentido é inexistente para a maioria – nos discursos denegridores dos parlamentares da esquerda, na deselegante falta de aplauso e de respeito pelos discursos da maioria, e do Presidente da República visivelmente preocupados com o estado da Nação, nos comentários posteriores daqueles sobre o discurso do PR – que achei excelente – decididos a apear o Governo, “custe o que custar”, indiferentes ao custo e às consequências gravosas dessa acção. E logo a Opinião Pública no Canal 5 da SIC pôde dar largas a igual ódio “democrático”, que é feita de ódio a sua democracia, ódio orquestrado por toda essa “plebe” dos seus condutores de opinião. Ódio real pelos que defendem a honestidade, falsa solidariedade para com os espoliados dos seus direitos.

 

Pergunta Salles da Fonseca:

«Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.»

 

É óbvio que não. Os componentes espirituais e racionais das elites vociferantes estão submersos sob a camada do sentimentalismo adiposo e chiante.

 

 Berta Brás

A DRENAGEM

 

 

Este ano de 2013 tem sido um ano chuvoso o que tem algumas vantagens mas também alguns problemas. O enriquecimento dos aquíferos e uma razoável distribuição das chuvas foram, duma maneira geral, benéficos para a agricultura. O enchimento das barragens – que estiveram algo desfalcadas nos últimos anos – é importante para o abastecimento de água às populações, para os regadios e para a produção de electricidade barata.

 

As cheias que ocorreram nalgumas zonas causaram prejuízos embora, nalgumas áreas de várzea também tenham tido a vantagem de depositar uma camada de bons elementos de solo, trazidos das zonas mais altas. Nas terras mal drenadas causaram encharcamento dos solos, geralmente prejudicial.

 

Ao longo de muitos anos e baseado nos estudos do saudoso Eng.º Agrónomo Sardinha de Oliveira, tenho chamado a atenção para a necessidade de drenar o solo, importante em toda a parte mas particularmente importante no Alentejo.

 

O Eng.º Sardinha de Oliveira mostrou que a produção cerealífera no Alentejo sofria mais nos anos muito chuvosos do que nos anos de média ou até baixa pluviosidade. O problema é grave nesta província porque aqui a Primavera é geralmente muito curta e passa-se rapidamente da estação fria e chuvosa para a estação quente e seca. Num solo mal drenado os cereais sofrem uma asfixia nas raízes, que as impede de crescer em profundidade e, quando vem o calor e a seca, não conseguem defender-se e a produção é escassa. Se o Inverno for pouco chuvoso ou se o solo estiver bem drenado, de forma a fazer sair a água em excesso, as raízes desenvolvem-se em profundidade, o que lhes permite aproveitar a água que existe nessa parte do solo e defender-se muito melhor quando chega o tempo quente e seco. Os estudos do Eng.º Sardinha de Oliveira foram amplamente confirmados, ao logo de vários anos depois do seu falecimento, como relatei em diferentes escritos.

 

Por estas razões, é importante aplicar o sistema de drenagem mais apropriado para cada caso. Acredito que quando o Alentejo drenar convenientemente as terras para não haver os casos – que ainda são relativamente frequentes - de searas em solos alagados, a média de produção de trigo subirá significativamente. Quando se puder resolver um outro problema em que tenho insistido, de encontrar melhores rotações de culturas – os meritórios estudos que existem são insuficientes – talvez o Alentejo volte a ser o celeiro de Portugal.

 

  Miguel Mota

 

Publicado no Linhas de Elvas de 24 de Abril de 2013

25 DE ABRIL – O DESPERTAR DUMA ILUSÃO – 3

 oportunismo

Os oportunistas da Revolução

 

Veio depois a enxurrada da “revolução” do 25 de Abril e nela entra a arraia-miúda e a arraia graúda, numa viagem paradisíaca, não atenta ao destino nem aos motivos da viagem. Era querida uma orientação monocolor e pretendia-se meter a liberdade em uniformes ideológicos.

 

O autocarro de Abril partiu e o povo continuou na esperança de chegar a melhor. Sentíamo-nos todos passageiros da liberdade, provindos dos mais diferentes meios, mas querendo construir uma sociedade com lugar ao Sol para todos. Portugal estava todo inteiro, a caminho da liberdade, a caminho dum viver por viver. Então, na rua, nas estações, olhos confidentes se trocavam numa atmosfera que se abria para um futuro risonho de espaços abertos e na sequela dum chamamento de libertação.

 

Por alguns momentos fomos um povo unido e especial que atraía grupos das esquerdas dos mais diversos países; Portugal era a Roma do turismo político de esquerda tal como era e continuou Cuba depois.

 

No horizonte, aqui e acolá, nuvens de estragos se vão acumulando. O espírito que motivava os actores da revolução era apenas político sem contemplar o Homem todo nem Portugal no seu todo. Por isso o que a princípio parecia uma revolução, revelou-se, com o tempo, ter sido apenas um golpe de Estado com os benefícios das mudanças que na altura, noutros Estados europeus, acontecia na normalidade. O egoísmo de grupos e “personalidades” da nossa praça, sem escrúpulos, vai-se servindo da Nação, deixando para o povo o sacrifício da abnegação; mandam os Santos para o deserto para se porem a si no nicho da reputação. Os abrilistas ocuparam o céu português e hoje ainda têm o descaramento de desculparem a crise da Nação na culpa dos outros. E o mesmo povo continua a ir na fita pensando que a culpa está neste ou naquele quando ela é bem nossa que continuamos a dar paleio aos que encurralaram a esperanças para si. Aquela alegria, aquela esperança e liberdade da rua que se julgava pública, passaram a ser reservadas para os cínicos do poder que ocuparam o lugar que pertencia ao povo no dia-a-dia, na TV e noutros meios de comunicação social. Foi um sonho de pouca dura mas que levou o povo inocente e bom a interiorizar uma superficialidade libertina e a abdicar da dignidade, da honra e do respeito que provinham duma ética de cunho responsável.

 

O povo confiante acorda agora molhado. Também deixou de ser família universal com o coração no mundo e nos povos ultramarinos para se tornar num canto europeu, num povo de dançarinos de alma na rua saltando ao som de interesses anónimos e ao ritmo da mesma cor. Construiu-se uma liberdade que guarda a oportunidade para o mais forte, uma liberdade amarrada a ideologias e a interesses alheios e não uma liberdade de visão integral e responsável do não só mas também!

 

Organizaram-se então campanhas revolucionárias de libertação e de reeducação do povo. Tudo bem-intencionado e preparado para atrair a inocência de crenças nobres. Para se responder ao desejo de inocência procura destruir-se a vergonha. Organizam-se, até em recônditas aldeias, sessões de desflorações virginais em grupo; quer-se o comunismo, tudo maninho, querem-se as meninas, menos as que têm o dono presente; procede-se à queimada de livros de “fachos”, etc. O que não serve a ideologia de alguns deve queimar-se ou arrumar-se. À hora da direita segue-se a da esquerda e vice-versa. Esta é a liberdade confinada aos que agora querem ter razão, como se também esta não fosse processo e só pertencesse a alguns. Agora assistimos ao instinto da inocência a vingar-se na resignação. (A geração de agora tem de reparar os estragos, tem de granjear-se a honra e o respeito que lhe foi roubado).

 

A liberdade desencadeada deixa no ar o som de cadeados caídos numa revolução descontrolada de libertinagem bárbara que se satisfaz no andar na vida por ver andar os outros. Não há respeito por si mesmo nem pelos outros. Tudo à própria disposição. Uma liberdade adolescente, irresponsável, que não conhece nada nem ninguém; toda ela em nome duma culpa passada. Egoísmo puro que faz do outro cliente do próprio sentimento. A droga é propagada, desinibe e o sexo ajuda a ideologia. Quem trabalhava e fazia pela vida era designado de “facho”. Professores exigentes eram saneados e organizam-se os exames colectivos. Uma das causas da crise portuguesa de hoje está nesse espírito leviano de então que levou os estudantes formados, com as notas do grupo, a ocupar os lugares de responsabilidade das nossas administrações.

 

Uma revolução que prometia tanto, com tão boa música e fanfarra que abria as portas ao progresso desembocou no beco sem saída duma gula de marcha limitada a ritmos de esquerda-direita; meteu assim a terceira República nos caminhos da bancarrota, tal como aconteceu na primeira. Heróis da revolução, que o povo ainda canta, vivem com ordenados mastodônticos e injuriosos, como nunca na História houve, enquanto muito do povo vegeta com ordenados de miséria que não dão para viver nem para morrer. Tudo acontece e se legitima à sombra duma democracia que querem prostituta.

 

Partidos, sindicatos, grupos organizados, etc. instalam-se no aparelho do Estado. Numa guerrilha ímpar de aumentar o próprio lucro e “honra” agregam-se à volta do Estado como chulos à volta do bordel. Por todo o lado se encontram guardiães da revolução, cães de guarda duma liberdade oferecida não conquistada mas em benefício de adeptos e adversários. Privilegiados da revolução agarram-se todos ao vermelho da ideologia ou da parceria perdendo o sentido pela riqueza das cores.

 

A consciência da liberdade partidária negligencia a liberdade pessoal e a descoberta da força das próprias possibilidades. Um na ilusão à espera de Godot, outros na letargia, virados para D. Sebastião; tudo se alinha nas ordens de marcha de grupos e de organizações secretas enlaçadas em coutadas de compadrio e na burocracia. Compra-se o indivíduo para se afirmar a hierarquia.

 

A caminhada para o futuro viu reduzido o seu horizonte ao 10 de Dezembro de 1910 e aos resquícios liberais napoleónicos. Um tradicionalismo obediente e a fé nas razões do poder não conseguiram quebrar o bolor dum liberalismo mafioso e dum republicanismo ultrapassado, guardado na Nação a sete chaves em gavetas intelectuais seguidoras dos excessos do Marquês de Pombal. A visão ideológica impede o olhar pessoal e regional. Nas pistas dum futuro em liberdade esbarramos connosco, repetindo os erros da primeira República.

 

No comboio da história, numa alternância de cor, continuam os mesmos lugares reservados para os da nova oportunidade; o povo continua em bicha e sempre à chuva, sempre à espera nas estações, sempre na ânsia dum comboio com carruagens para ele. Esperar na desesperança é a sua condição independentemente da cor da governação. Para se entrar no comboio dos donos da razão e do arrazoar, é preciso um compartimento, um vagão do partido, do sindicato, do compadre, do mação. A História, sem heróis, deixa-se conduzir pela banalidade do quotidiano e afasta-se cada vez mais da arraia-miúda. Esta, por sua vez, revela-se massa, sem consciência, sempre à espera dum revisor que lhe cobre o bilhete. Uma elite à trela dum Estado dominado pela insuficiência partidária e grupal não gera civis livres nem sequer heróis. Produz acomodados e mercenários, gera políticos da capitulação a ideologias e à subserviência boçal, não tolera heróis nem homens bons. Um povo unido tornou-se num povo humilde sempre vencido. Povo, sempre ao toque de caixa dos oportunos e que então aplaudia e agora lamenta.

 

 António da Cunha Duarte Justo

25 DE ABRIL – O DESPERTAR DUMA ILUSÃO – 2

 

Ventos frescos nos Corações e nas Instituições

(Um testemunho pessoal)

 

Na altura (66-71) encontrava-me no Seminário de Manique do Estoril onde, Hippies, Beatles, Concílio Vaticano II e personalidades pacíficas faziam florir, também nos seus pátios, as melhores rosas e os melhores cravos de esperanças virgens de liberdade e irmandade com todo o mundo. Era o tempo da teologia da libertação, das comunidades de vida, de novas ideias e iniciativas, a era duma nova educação, a germinar por todo o lado. Era um tempo jovem!

 

Lembro-me de, então, organizar no seminário de Manique do Estoril cursos de alfabetização para pessoas adultas da região e, nesses cursos, seguir devotamente o método de Paulo Freire. No ar havia uma simpatia pela revolução cultural de Mao Tsé-Tung e por tudo que cheirasse a inovação (Não se imaginava que ele seria um dos maiores ditadores e aniquiladores de povo). Fiquei com a ideia de que Portugal não era tão hermético como se cria, quando em 1969 mandei vir da China “O Livro Vermelho” de Mao, tendo tido a precaução de, ao encomendá-lo, escrever apenas como remetente: Justo, Instituto, Manique do Estoril. Cerca de um ano depois recebi da China vários exemplares com o meu nome e o endereço completos. Então, fiquei estupefacto com o caso.

 

O processo revolucionário da geração 68 pensava-o então, numa perspectiva conciliar de religioso, como a continuação genuína da grande revolução iniciada por Cristo (JC) com a diferença que o JC não pretendia como o nazismo, o socialismo, o turbo-capitalismo e o maometanismo impor uma forma de vida à humanidade. O que observava lá fora via-o como consequência do espírito revolucionário pelo bem e pelo bem-comum que se encontrava dentro dos muros do seminário. Este espírito, aliado a um espírito de amor e justiça, impregnava a nossa contestação interna que se expressava em iniciativas teatrais como o “Bom Humor”, o “Festival da Canção” e os “Telejornais”. Na altura rebelavamo-nos contra hábitos e autoridades eclesiásticas legalistas e contra hábitos como a vestidura da batina em iniciativas e teatros engendrados pelo nosso “Grupo do Bom Humor”. O grupo actuava em festas da comunidade e noutras ocasiões com teatros, festivais da canção, telejornais em que a vida do seminário, acontecimentos, atitudes, superiores e personalidades eram passados a pente fino pela crítica humoral.

 

A título de exemplo: numa festa pública de vestidura da batina, em Manique do Estoril, onde estavam presentes, também, os familiares dos seminaristas que iam receber a batina, o “Grupo do Bom Humor” actuou e na peça teatral ridicularizou tal acto, o que provocou o desconsolo e a reacção da ordem estabelecida. Esta tinha confiado no “bom senso” do “Bom Humor” para abrilhantar a festa. Depois do espectáculo, o director do Instituto chamou a contas o Padre Conselheiro, que era o ponto de ligação institucional com o “Grupo do Bom Humor”. O sacerdote lá se desenfiou como pôde perante o Reitor e tomou a iniciativa de chamar o grupo a contas. Interessado em descobrir quem era o responsável do grupo e para poder estatuir um castigo exemplar, chamou a si, um a um, cada membro do grupo.

 

Mas, como no grupo eram todos por um e um por todos, cada qual declarou ser o responsável do grupo. Deste modo foi conseguido, com humor e responsabilidade, estoirar com um princípio de toda a autoridade institucional que é: castigar um por todo o rebanho, para que o medo açaime a manada. Assim, o superior não pôde castigar nem o grupo nem ninguém. A solidariedade dum grupo arrasa montanhas. Uma instituição que conseguira acordar o sentido da rebeldia bem canalizada e mantida dentro duma ordem conformista, sente-se agora impotente perante o espírito da responsabilidade que ela mesma propagava. O espírito de liberdade e de respeito pela pessoa, transmitido à imagem da pessoa do protótipo JC era o mesmo que questionava as incrustações de regras, autoridades e instituições. A liberdade da experiência do JC dava-nos força e legitimidade para toda a contestação. Era uma contestação vinda de dentro, não de fora. Perante o JC encontrávamo-nos, superiores e subordinados, na mesma plataforma do Seu seguimento. Este espírito, ajudado pelos novos ares, dava-nos força para quebrar com as correntes do hábito e de obediências cegas a que grande parte dos superiores se encostava regaladamente.

 

Os mesmos ventos da mudança eram comuns dentro e fora dos muros, embora com diferentes motivos e objectivos. Pessoalmente, mais tarde saltei o muro e na procura de mais liberdade e menos teias de aranha ingressei em partidos diferentes de Portugal e da Alemanha. Uma coisa constatei, o espírito de rebanho e de manada é muitíssimo maior nas instituições seculares do que nas religiosas. Dentro dos muros dos conventos há mais liberdade que fora deles, porque nos conventos, apesar de tudo a pessoa é rei. Quem liberta o espírito e vive dele não conhece o medo da autoridade nem o cálculo da oportunidade!

 

(continua)

 

 António da Cunha Duarte Justo

25 DE ABRIL – O DESPERTAR DUMA ILUSÃO - 1

 

Geração 68 – Revolução Política e Religiosa

 

A revolução começa no espírito para só depois ganhar expressão política. Já antes do 25 de Abril andávamos todos à procura de bilhetes para a liberdade.

 

Em 1959, João XXIII responde à ânsia do mundo por inovação e emancipação convidando todo o mundo ao “aggiornamento”, à mudança (1). Dos USA surgiam rajadas de ventos anunciadores da ânsia de emancipação expressa na música Pop, Rock, Blues, Rolling Stones, Beatles, etc. no movimento hippie e no desejo de emancipação sexual.

 

O mapa do tempo e dos sentimentos públicos era determinado pela baixa pressão soviética e pela alta pressão americana.

 

Na altura o mundo encontrava-se todo em ebulição. Sob o cenário da “guerra-fria”, proliferavam os cenários das fronteiras ideológicas. As palavras de ordem da altura eram: “Proibido proibir”, “abaixo o Estado”, “seja realista, peça o impossível”, “não confie em ninguém com mais de 30 anos”.

 

Este clima, além de fomentar ânsias e aspirações, favorecia a constituição de redes revolucionárias desde Moscovo, Cuba, Ásia, América latina, Argélia até ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e ao Movimento dos Capitães, depois MFA (Movimento da Forças Armadas portuguesas).

 

O movimento revolucionário servia-se também da arte para conseguir atingir a juventude e a burguesia pós-guerra. Fermentavam a massa social de então como os WikiLeaks, os Piratas, o Facebook, mainstream, a Internet e a ofensiva cultural árabe no Ocidente fermentam a de hoje.

 

Manifestava-se a reacção a uma hierarquia repressiva adversa a um novo sentimento de vida. Era o espírito proletário contrariador do estilo burguês a afirmar-se; os filhos da segunda grande guerra formam então uma geração contestatária, a geração 68.

 

Na sua fuga à culpa e aos ressentimentos provocados pela segunda guerra mundial, a nova geração manifesta-se extremamente sensível à paz, à liberdade e a tudo o que lhe é próprio; inicia uma verdadeira revolução de emancipação que envolve todas as camadas sociais e se manifesta no desenvolvimento tecnológico, na revolução sexual, pílula, droga, etc. Arrumam também com Deus pois não querem reconhecer pai nem mãe.

 

Neste ambiente o mundo fervia, subindo ao céu, por todo o lado, um grito fumarento de libertação contra a intolerância dos outros. O Maio quente de 68 em Paris torna-se o símbolo duma autêntica revolução cultural em marcha (apesar disso, nesse ano foi assassinado Martim Luther King e falhou também a revolução checa a favor dum socialismo humano).

 

Movimentos jovens de contestação política vão surgindo por todo o lado, enquanto, paralelamente, os activistas iniciavam uma corrida às instituições instalando-se nelas. A ideologização do movimento levou também à criação de movimentos subversivos que viam em Guevara (assassinado em 1967) o símbolo da resistência.

 

O movimento dos Capitães de Abril catalisa nele as forças revolucionárias de esquerda, então bem organizadas por todo o mundo, e também o desejo emancipatório febril da juventude num tempo de mudança. A nível político, os espertos da ocasião viam no movimento das forças armadas portuguesas o melhor instrumento para transpor para a Europa (Portugal) a realidade cubana. Na altura, a nossa geração queria mudar o mundo, seguindo ingenuamente os “sinais dos tempos „ propagados e apostando no “efeito borboleta” das pequenas iniciativas. Nesta atmosfera é de compreender os erros cometidos pelos homens de Abril na esperança dum lugar ao Sol e o envolvimento do povo desejoso duma sociedade mais livre e justa.

 

(continua)

 

 António da Cunha Duarte Justo

 

(1) O Concílio Vaticano II foi anunciado pelo Papa João XXIII a 25.01.1959, iniciado em 1962 e concluído em 1965. Com este encontro global queria-se renovar as estruturas incrustadas e fazer-se um aggiornamento de ideias e práticas em todo o mundo. Por todo o mundo se organizaram iniciativas de mudança que as igrejas nacionais através dos padres conciliares levariam a Roma. O movimento de 68 foi uma versão de estilo secular a uma revolução que o Concílio iniciara antes no sentido espiritual da renovação do Homem todo, no sentido de metanoia de corações e instituições, no sentido de o “Homem” se tornar Homem.

A PARAMETRIZAÇÃO SOCIAL

 

 

 

«A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs.40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo, de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer as consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres e não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas.

 

Essa parametrização durou 40 anos. Praticamente tantos como agora levamos de militância pós moderna.

 

Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.

 

Ou será que não aprendemos nada? E andará por aí alguém com poder de síntese?

 

Lisboa, 25 de Abril de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

DOIS EM UM

 

De Fernando Pessoa, in “Mensagem”, (III Parte- “O Encoberto”)

 

«NEVOEIRO»

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer.

Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!

 

 

Não, não é a hora de nenhum auspicioso “Quinto Império”, que Vieira definiu, apoiado em profecias ambiciosas, em tempo de miséria e dependência, e em cujo rasto Pessoa seguiu, no mesmo orgulho patriótico que inspirou o primeiro, e no prosseguimento de tempos nublados num país de atraso, mas com algumas mentes de génio, entre as quais a do próprio Pessoa, crente num novo “Sebastião” e num “Quinto Império” espiritual protagonizado pelo seu país, num amanhã começado nessa Hora.

 

Parece absurdo, ontem como hoje, em que os meios mediáticos nos permitem conhecer melhor a matéria de que é feita a natureza lusa que possibilitou o “nevoeiro” cerrado adensando mais as trevas da nossa actual condição de dependência, um tão insensato orgulho de valorização deste país, ainda que sob uma forma poética de extraordinária feitura. Absurdo que pretendêssemos tal projecção, se fôssemos trabalhadores e aptos como outros povos de superior modéstia intelectual, os quais respeitam outros valores menos exibicionistas e mais dignos da condição humana, como o descreverá Vasco Pulido Valente na excelente análise do seu artigo “Um economista com dúvidas” de Domingo, 21/4, sobre um livro de Vítor Bento«Euro Forte, Euro Fraco, Duas Culturas, Uma Moeda: Um Convívio (Im)possível?» :

 

 

… As duas culturas de que fala o título são, como era fatal, a cultura dos países do Norte (a Alemanha, a Áustria, a Holanda, a Bélgica) e a cultura dos países do Sul (a Irlanda, a Itália, a Espanha, Portugal e a Grécia). As duas culturas têm uma “moral social” diferente, e, como é lógico, diferentes “preferências sociais”. A cultura do Norte tende a valorizar a lei, sobretudo a lei fiscal, promove a fiança colectiva e a confiança de cada cidadão no Estado. A cultura do Sul favorece a infracção, sobretudo a infracção fiscal, enfraquece a confiança colectiva e genericamente não permite uma sólida confiança no Estado.

 

Mas as razões invocadas por Pulido Valente são bem diferentes das que enfatiza Vítor Bento, centradas em diferentes valores socioculturais .

 

Esta divisão, à superfície perspicaz, não parece realista e bem fundamentada. O facto principal é que os países do Sul não se industrializaram, não por sua culpa, mas, primeiro, porque lhes faltavam matérias primas fundamentais: o carvão e o ferro. E, segundo, porque estavam longe do centro da Europa e das grandes vias comerciais. Se pensarmos nas regiões que se desenvolveram dentro dos países do Sul: o Norte e o Nordeste de França, o Milanado e a Venécia (como dantes se dizia), a província basca, veremos que o seu “atraso” e sua “cultura” se devem essencialmente à sua pobreza e que essa pobreza deriva da pobreza do solo e de um irremediável isolamento.

 

Segue-se que «A mistura no euro de países que eram historicamente miseráveis com os ricos a quem sempre haviam obedecido e de que sempre haviam dependido é que em pouco tempo provocou a ideia, de resto utópica, da “Europa”.

 

E Pulido Valente continua comentando as teses de Vítor Bento:

 

Mas Vítor Bento, depois de contar com a sua competência de economista e a sua vasta ignorância do passado, a fabricação do euro sob o alto patrocínio da Alemanha e a cumplicidade pateta dos franceses (que não tardarão a pagar por isso), não consegue ainda decidir entre o possível e o impossível. E com uma habilidade que se recomenda, depois de rejeitar o federalismo político e o federalismo fiscal, o que é de uma sensatez mais do que primária, persiste na fantasia da “federalização dos sistemas bancários”, claro, e também das “prestações sociais, como o “subsídio de desemprego”.

 

E conclui:

 

Além de a sugestão ser politicamente absurda, Vítor Bento, para mal dos seus pecados, não percebe que com isso iria aumentar o poder, já excessivo, da Alemanha sobre os países do Sul, cujo único destino seria o das colónias balneares para o Império central. Mas não nasceu por enquanto o economista capaz de se entender com o mundo como ele é.

 

Vasco Pulido Valente é historiador, deve saber bem o que diz a respeito dos países ricos e pobres da Europa, motivo da maior ou menor amplitude económica com reflexos sobre o desenvolvimento cultural.

 

Na parte que nos diz respeito, mesmo sem o poderio mineiro dos povos europeus nortenhos, tivemos colónias que a Metrópole explorou a seu tempo, podendo ter alargado mais visivelmente as estruturas económicas, sociais e culturais do povo português. Paradoxalmente, ao longo dos séculos esse povo foi sendo continuamente marginalizado em termos socioculturais relativamente aos mais povos europeus e não só. E esse facto não se deveu à falta de riqueza, porque a tivemos bastante, mas aproveitada em termos glorificadores dos reis, no passado monárquico, ou de exaltação católica, não em termos de desenvolvimento social, o povo sempre joguete da avidez ou dos egoísmos dos mandantes, como bastamente o denuncia, por exemplo, Saramago em “Memorial do Convento”.

 

Também essa falta de respeito humano ou de pequenez mental o vemos nos programas da nossa estridência verbal televisiva hodierna, e muito especialmente nos do excesso dos nossos debates que todos giram em torno da nossa crise, com muitos sabedores cheios de certezas a respeito da nenhuma expectativa de melhoria económica, os que apoiam o governo traduzindo cada vez mais debilmente a confiança no êxito daquele, mas nenhum se dispondo a assumir responsabilidades ou uma orientação de interapoio que pudesse revelar, não a máxima camoniana “também dos portugueses alguns traidores houve algumas vezes”, mas uma máxima oposta, lembrando os actos de coragem e de dedicação pátria que o mesmo Camões exaltaria entre os “barões assinalados” que tão magistralmente cantou.Mas parece absurdo que tantos sejam os atacantes em torno do osso pátrio em frangalhos, aparentemente para o protegerem, na realidade para mais o abocanharem.

 

E é mais um texto de Vasco Pulido Valente, publicado no “Público” de sábado, 20/4/13, que transcrevo, sobre essa questão da monocórdica temática televisiva que ele intitula “Os dois “debates” de televisão”:

 

As televisões (sete ou oito canais) têm agora dezenas de programas de debate, com centenas de salvadores, incluindo – não se percebe porquê – o Herman José, sob o pseudónimo de Ana Gomes, a mulher que mais grita em Portugal. Isto seria normal, se os debates não fossem sempre só dois da RTP à CMTV, apesar da profusão de sábios que nos tentam ilustrar e esclarecer. Ao fim de algumas semanas já se repetem todos, sem que se perceba esta estranha multiplicação de falatório em pessoas, com livre arbítrio e alguns neurónios no cérebro. Com tantas faculdades de “comunicação social” devia haver um grupo de investigação para descobrir a origem deste fenómeno, manifestamente típico do génio do indígena e – suspeito – com grandes possibilidades de exportação , pelo menos para a Venezuela.

«O primeiro debate versa sobre a “austeridade”. Os mandatários de Pedro Passos Coelho e de Vítor Gaspar insistem que a “austeridade é necessária” e o único caminho para tirar Portugal de sarilhos e a condição básica para começar uma política de crescimento económico e um “combater o desemprego” (um eufemismo incompreensível). A oposição, pelo contrário, acha que a “austeridade” está a criar desemprego e a “desfazer o tecido económico” do país, propondo uma “renegociação” com a troika (sem explicar precisamente sobre o quê e sem a menor ideia se a troika aceitaria esse plano salvífico e perspicaz. Nesta altura o debate costuma degenerar num arraial de feira, em que o moderador se desespera e ninguém ouve o que o próximo está a dizer, de resto com imensa razão, porque o próximo é um agente do mal e do estrangeiro. Para se distrair, o cidadão comum pode passar para o canal ao lado e tornar a ver o espectáculo com outras caras.

 

O segundo debate versa sobre o “consenso”, que ninguém se deu à excessiva franqueza de explicar exactamente em que consiste. A troika quer o consenso, por motivos que não se compreendem e que, de qualquer maneira, não convém que a ralé conheça. Como a troika quer, de quando em quando o governo conversa com o PS ou manda uma cartinha ao dr. Seguro com o propósito de exibir a sua obediência e magnanimidade; e o PS, que se acha “humilhado” e “enxovalhado” responde com duas pedras na mão. Aqui, chega a altura do PSD também se sentir “humilhado” e “enxovalhado” e de se cobrir dignamente com a gravidade do Estado. Sucede, ainda por cima, que o PS nunca aceitará a política do PSD, nem o PSD a do PS (ver primeiro debate). E é assim que, com meia dúzia de horas de “debate” por noite, a nata do nosso querido país pratica a democracia e, com dificuldade, vai educando a ralé.

 

Ecce homo.

 

Ecce homines.

 

 Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D