Segundo o soldado de cavalos Mateus Rodrigues, a incursão a Villanueva del Fresno em Setembro de 1642 foi o único sucesso digno de menção comandado pelo general da cavalaria do Alentejo, o Monteiro-Mor D. Francisco de Melo. Esta é a opinião não filtrada pela narrativa propagandística desses primeiros tempos da Guerra da Restauração, emitida por um soldado que participou em muitas acções.
Percorrendo outras fontes, encontramos versões mais simpáticas para o general, não só em relações avulsas, como nas mais extensas narrativas de Aires Varela ou Luís Marinho de Azevedo.
Em todo o caso, a incursão às terras de Villanueva del Fresno foi apenas uma das muitas pequenas operações da guerra de fronteira. No caso, destinava~se a castigar a cavalaria daquela localidade, cujo poder atemorizava os moradores do termo de Mourão, pois era ali tão forte que pilhava e se passeava à vontade pelos campos. Os efectivos eram conhecidos dos portugueses: um soldado de cavalos castelhano tinha desertado na sequência de uma briga que tivera com o seu tenente, a quem ferira gravemente, e temendo ser enforcado, fugira para Mourão; interrogado, informara D. Francisco de Melo que a força de cavalaria que havia em Villanueva del Fresno era composta por três companhias pagas e duas milicianas, estas com cerca de 80 cavalos.
Saiu o general de Olivença no dia 16 com 300 ou 400 cavalos (os números apresentados por Aires Varela e Luís Marinho de Azevedo são diferentes), fazendo as vezes de comissário geral o coronel francês François de Huybert de Chantereine (o comissário geral Gaspar Pinto Pestana ficara em Olivença, bastante doente). Conforme refere Mateus Rodrigues, a cavalaria portuguesa tomou um caminho mais longo para não ser detectada, cerca de nove léguas entre Olivença e Mourão, e mais duas dali a Villanueva del Fresno. Na vanguarda ia a companhia do comissário Pinto Pestana, comandada pelo seu tenente Manuel da Costa Monteiro, e a retaguarda cabia à companhia do tenente-general D. Rodrigo de Castro (também ausente da operação), comandada pelo tenente António Machado da França. Pelo caminho, por alturas de Monsaraz, juntou-se o coronel francês Montjouant com o seu regimento (provavelmente, apenas duas companhias). A cavalaria chegou de noite a Mourão e aí descansou.
No dia seguinte, pelas dez horas da manhã, estavam nas proximidades de Villanueva del Fresno. A partir daqui, os pormenores das narrativas de Aires Varela, Marinho de Azevedo e Mateus Rodrigues diferem um pouco, mas não a substância do sucedido, que é no geral coincidente. Segundo Mateus Rodrigues, na madrugada desse dia D. Francisco de Melo escolhera 40 cavaleiros experientes de todas as companhias e entregara o comando desta força ao seu tenente, Francisco Leote (um oficial de grande bravura que iria ascender na carreira militar ao longo da guerra; morreu em Maio de 1655, sendo então tenente de mestre de campo general). O objectivo era emboscar-se num cabeço redondo, de onde se avistava Villanueva del Fresno, de modo a vigiar os movimentos da cavalaria inimiga. De manhã, quando o grosso da força portuguesa tivesse chegado ao cabeço, Francisco Leote e os seus homens deviam ir provocar o inimigo até junto das trincheiras, de modo que a sua cavalaria saísse da localidade e fosse atacada pela restante força portuguesa emboscada.
Já Aires Varela refere que o general lançou quinze cavaleiros dos naturais de Mourão, para que a mudança do traje não fizesse reparar o inimigo, e lhes ordenou juntassem o gado, que sem receio pastava por aqueles vales, o que eles fizeram com diligência. Por seu lado, Marinho de Azevedo refere que foram enviados apenas oito cavaleiros tocar arma (ou seja, dar o alarme com disparos para o ar), de forma a espicaçar o inimigo, conforme tinha sido sugerido pelo desertor e informador.
Qualquer que tivesse sido o processo (ainda que Mateus Rodrigues mereça mais crédito, pelo pormenor descrito e pelo facto de ter participado na operação), uma força de cavalaria de Villanueva, comandada por D. Garcia Navarrete, saiu ao encontro dos portugueses por uma das portas da vila, precisamente chamada “porta de Mourão”. Eram somente 40 cavalos, mas um soldado natural de Mourão, que se encontrava de vigia num outeiro, precipitadamente tocou arma e soltou o alarme de que a cavalaria portuguesa enviada para junto da trincheira estava em risco de ser cortada do resto da força. D. Francisco de Melo revelou então a emboscada e saiu ao encontro do inimigo. Dos 40 cavaleiros, sete fugiram e os restantes foram mortos (segundo Varela), ou dezassete foram mortos e os restantes fugiram (conforme a narrativa mais plausível de Azevedo). Em todo o caso, oito foram capturados, incluindo D. Garcia. A este número acrescenta Mateus Rodrigues mais de 60 paisanos que acorreram a ajudar a sua cavalaria, mas que acabaram cercados “como atuns” e foram trazidos para Mourão. As restantes forças refugiaram-se atrás das muralhas de Villanueva del Fresno e limitaram-se a usar a artilharia com grande prontidão, mas pouca pontaria.
A operação terminou da melhor maneira para a cavalaria comandada pelo Monteiro-Mor, que pôde pilhar à vontade o gado dos campos em redor da vila, não obstante o fogo vivo que cinco peças de artilharia fizeram sobre os portugueses. Uma bala de 9 libras caiu bem perto de D. Francisco de Melo e foi levada, como recordação, para Olivença. Mateus Rodrigues, a quem o general não inspirava muita confiança como comandante, refere – com a irreverência frequentemente encontrada nas suas memórias – que este sucesso foi alcançado porque o general da cavalaria não encontrou grande oposição.
Jorge Penim de Freitas
Bibliografia:
AZEVEDO, Luís Marinho de - Commentarios dos valerosos feitos, que os portuguezes obraram em defensa de seu Rey, & patria na guerra de Alentejo que continuava o Capitaõ Luis Marinho d’Azevedo, Lisboa, na officina de Lourenço de Anveres, 1644, pgs. 256-258.
VARELA, Aires – Sucessos que ouve [sic] nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906, pgs. 95-97.
Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (pgs. 39-42).
Imagem:
A entrada nos campos de Villanueva del Fresno. Gravura inclusa na obra de Aires Varela acima referida. De notar os pormenores assinalados na própria gravura e identificados com letras: A, o cabeço redondo onde se emboscou a cavalaria de D. Francisco de Melo; B, o espia João Gonçalves; C, o general da cavalaria; D, a igreja maior; E, a cadeia da vila; F, a casa de D. Garcia Navarrete; G, os corredores portugueses (os cavaleiros que foram destacados para incitarem a saída da cavalaria de Villanueva; alguns são representados com varas, destinadas a conduzir o gado); H, as tropas do inimigo saindo da vila; I, o grosso da cavalaria emboscada; L, a vila de Mourão, ao longe.
Ontem, a referência ao “mito do trabalho”, sem nenhuma pintura a explicitar. Hoje, a referência ao “drama do trabalho”, através de um quadro exemplificativo de Portinari.
Ontem, a designação “matar o tempo” aplicada ao trabalho, de Helena Roseta. Hoje, nenhuma designação, que Álvaro Cunhal não faz confidências.
Tratou-se de duas entrevistas – ambas na SIC, ambas tarde, na noite.
Helena Roseta exprime-se bem, revela bons sentimentos, parece leal e empenhada, refere leituras profusas, nacionais e estrangeiras, e também as suas diligências para favorecer os desfavorecidos. Apenas se escusou na questão do trabalho, reafirmando modestamente a expressão “matar o tempo”, que é o que faz.
Álvaro Cunhal joga à defesa, e muitas vezes também ao ataque, debita ideologias definitivamente arrumadas, reconta episódios, defende a arte empenhada.
No fundo, duas almas que se completam: Uma leu muito e agarra-se caprichosamente às ideias em moda, obtidas nas suas leituras – o trabalho como “mito”, quando o que o homem precisa é de tempo para cultivar o seu espírito. A outra não se sabe se leu muito, dá a entender que sim, mas não cita os autores lidos, muito caprichosa também.
Duas almas gémeas – pela defesa do Homem a primeira, dos Trabalhadores a segunda.
Helena Roseta veste bem, Álvaro Cunhal também se veste. Quanto ao calçado, não reparei, mas não vinham, certamente, descalços à entrevista. Alguém lhes fez as roupas e o calçado. Também se alimentam. Alguém lhes vendeu o alimento que outro alguém produziu.
Mas são almas sofredoras que discordam do trabalho - um “mito” para uma, um “drama” para outra.
Para que haja pessoas capazes de sofrer com o trabalho dos outros, é necessário que haja trabalhadores que provoquem o sofrimento - mas também o bem-estar - dos que pensam neles com lágrimas.
E assim nos vamos completando: Se todos só sofressem com o trabalho alheio – imaginário - a Terra não seria mais que um vale de lágrimas sem préstimo nem progresso. Se todos só trabalhassem, lá se iam o mito e o drama a defini-los – e a Terra não seria mais que uma montanha de esforço e danação sem lirismo.
Um dia, disse a um amigo meu a quem perguntei se queria que lhe servisse café numa linda chávena com fundo de prata ou numa mais vulgar, e que escolheu o fundo de prata:
-Afinal, vocês, os que pretendem a democracia, não desdenham o requinte aristocrático.
-Não, respondeu o meu amigo, só que é necessário que todos sintam desejos desse requinte.
Tanta magnanimidade ofuscou-me. E foi a partir desse momento que compreendi a formosura da ideia de igualdade e fraternidade das democracias: Todos desejarem o café em chávenas com fundo de prata.
Porém agora complementei-a com outro item igualmente generoso: todos matarmos o tempo em vez de trabalharmos, porque o trabalho é drama e é mito.
Mas parece que as duas noções se opõem entre si. Quando me dizem que nos países industrializados se trabalha a sério com pequenas pausas para o café, mas que não lhes falta calor nas casas nem nos corpos, nem requintes de bom viver, acho muito injusto que a Helena Roseta e o Álvaro Cunhal não se disponham a ir expor os seus pensamentos éticos a esses países, donde lhes vêm os artigos com que se vestem e calçam e provavelmente os com que se alimentam, para podermos viver todos, democraticamente, no mesmo pé de igualdade, sem comiserações de um lado, nem tristes invejas do outro.»
Berta Brás
Texto de 1996 incluido no livro "Anuário – Memórias Soltas" (1999)
É sempre cómica a forma como o jornalismo português transforma um fascista vermelho num grande democrata. Ontem, uma jornalista até disse que "Cunhal sempre lutou por um partido livre e transparente". Um sujeito ouve isto e fica a pensar "mas ainda há células do PCP nas redacções?". Meus amigos, Cunhal lutou toda a sua vida contra a democracia. Cunhal tinha uma concepção totalitária da política: só compreendia a linguagem da força, só aceitava um regime de partido único (o dele) e toda a sociedade, dos romances aos tampos das sanitas, tinha de obedecer a um plano central (o de Moscovo). Por outras palavras, Cunhal era fascista.
Antes de 1974, Cunhal fez a vida negra às oposições democráticas, porque o PCP não queria uma transição para a democracia. É ler Norton de Matos, Eduardo Lourenço, Sophia, Sousa Tavares, Alçada Baptista, Bénard, Cunha Leal. Todas estas figuras contestaram, ao mesmo tempo, Salazar e Cunhal. Nos anos 50, Cunha Leal e Norton de Matos afirmaram que Cunhal era pior do que Salazar. No final dos anos 60, Eduardo Lourenço declarou que a oposição democrática não podia dançar o tango com a oposição autoritária (o PCP), porque Cunhal era uma fotocópia de Salazar. Moral da história? Durante o Estado Novo, o grande alvo do PCP não foi Salazar, mas a restante oposição. Daí nasceu esta guerra civil entre as esquerdas (tornada explícita em 1975) e a ditadura intelectual do PCP junto dos meios jornalísticos e intelectuais. Algo que ainda perdura em reportagens que cantam loas a Cunhal em 2012.
Depois do 25 de Abril, Cunhal continuou a lutar contra a democracia. Em actos e palavras, Cunhal foi claro: Portugal não podia caminhar no sentido democrático. É por isso que o líder do PCP sempre desprezou os actos eleitorais. Cunhal passava a vida a dizer que a sua "maioria política" era mais importante do que as "maiorias aritméticas" das urnas. Ou seja, a violência da rua e dos militares do PCP eram mais importantes do que o respeito pelos processos democráticos. Em 2012, os jornais e TV estão cheias de pessoas a dizer que "ora, ora, com tanta manif na rua, o governo perdeu a legitimidade e deve cair". O fascismo de Cunhal continua vivinho da silva.
No Sábado 1 de Outubro de 2011 a Dinamarca foi o primeiro país do mundo a combater a obesidade e doenças cardiovasculares com um imposto sobre a gordura. A taxa de 16 coroas por quilo de gordura saturada em produtos com mais de 2.3% dela, tornava proibitivas manteiga, queijo, carne, nata, batata frita, além de banha e afins. A contribuição recolheu 216 milhões de dólares no primeiro ano, mas terá gerado gastos de 1800 milhões em viagens de gulosos à Alemanha e Suécia para compras.
O orçamento para 2013, aprovado a 10 de Novembro, também Sábado, eliminou o controverso imposto pouco após o seu aniversário.
O Estado nos países desenvolvidos tem vindo a meter-se nos assuntos mais variados. Sempre cheio de boas intenções, são poucos os campos da nossa vida em que não existe regulamentação, inspecções, políticas. Além disso, é bom lembrar que as autoridades não conhecem cortesia, persuasão, subtileza. Os meios que usam implicam sempre taxas, multas, inspecções, prisões. A consequência é que vivemos cada vez mais numa sociedade regulada, vigiada, limitada.
Na Europa andar de carro ou avião, construir casa, frequentar escola, até comprar um brinquedo tornaram-se actividades complexas, difíceis, exigentes. Fumar, beber álcool ou comer enchidos são quase actos subversivos.
Era evidente que a gordura seria o próximo alvo do Big Brother sanitário. O caso dinamarquês é um surpreendente e louvável recuo desta obsessão regulatória, há muito excessiva.
É bom celebrar esta vitória da liberdade que, não só é rara, mas será certamente curta.
A "Carta de Pero Vaz de Caminha" foi publicada, é mais difundida. Não conhecia o "Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama", por Álvaro Velho. E gostei de ler o que Camões também leu e tão bem adaptou. Por isso agradeço o texto e concordo com a referência à facilidade de adaptação dos portugueses aos costumes dos outros povos, e ao seu espírito de cortesia.
Camões, pintura de José Malhôa
Canto V d'Os Lusíadas:
27
"Achamos ter de todo já passado
Do Semicapro peixe a grande meta,
Estando entre ele e o círculo gelado
Austral, parte do mundo mais secreta.
Eis, de meus companheiros rodeado,
Vejo um estranho vir de pele preta,
Que tomaram por força, enquanto apanha
De mel os doces favos na montanha.
28
"Torvado vem na vista, como aquele
Que não se vira nunca em tal extremo;
Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Começo-lhe a mostrar da rica pelo
De Colcos o gentil metal supremo,
A prata fina, a quente especiaria:
A nada disto o bruto se movia.
29
"Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
Contas de cristalino transparente,
Alguns soantes cascavéis pequenos,
Um barrete vermelho, cor contente.
Vi logo, por sinais e por acenos,
Que com isto se alegra grandemente.
Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
Para a povoação que perto tinha.
30
"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
Todos nus, e da cor da escura treva,
Descendo pelos ásperos outeiros,
As peças vêm buscar que estoutro leva:
Domésticos já tanto e companheiros
Se nos mostram, que fazem que se atreva
Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
E partir-se com eles pelo mato.
31
"É Veloso no braço confiado,
E de arrogante crê que vai seguro;
Mas, sendo um grande espaço já passado,
Em que algum bom sinal saber procuro,
Estando, a vista alçada, co'o cuidado
No aventureiro, eis pelo monto duro
Aparece, e, segundo ao mar caminha,
Mais apressado do que fora, vinha.
32
"O batel de Coelho foi depressa
Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
Um Etíope ousado se arremessa
A ele, por que não se lhe escapasse;
Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa
Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;
Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
Se mostra um bando negro descoberto.
33
"Da espessa nuvem setas e pedradas
Chovem sobre nós outros sem medida;
E não foram ao vento em vão deitadas,
Que esta perna trouxe eu dali ferida;
Mas nós, como pessoas magoadas,
A resposta lhe demos tão tecida,
Que, em mais que nos barretes, se suspeita
Que a cor vermelha levam desta feita.
34
"E sendo já, Veloso em salvamento,
Logo nos recolhemos para a armada,
Vendo a malícia feia e rudo intento
Da gente bestial, bruta e malvada,
De quem nenhum melhor conhecimento
Pudemos ter da índia desejada
Que estarmos ainda muito longe dela;
E assim tornei a dar ao vento a vela.
35
"Disse então a Veloso um companheiro
(Começando-se todos a sorrir)
-"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir."
- "Sim, é, (responde o ousado aventureiro)
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.
36
"Contou então que, tanto que passaram
Aquele monte, os negros de quem falo,
Avante mais passar o não deixaram,
Querendo, se não torna, ali matá-lo;
E tornando-se, logo se emboscaram,
Por que, saindo nós para tomá-lo,
Nos pudessem mandar ao reino escuro,
Por nos roubarem mais a seu seguro.
37
"Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados,
Prósperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite estando descuidados,
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece
Sobre nossas cabeças aparece......................
Que povo pode escrever na sua História, com letras de ouro, alguns dos primeiros, alegres e carinhosos encontros com novas gentes, como aconteceu com os portugueses?
Convidar um “selvagem” para ir comer a bordo, na mesa com o Capitão, deixá-los passar a noite a dormir a bordo, e no dia seguinte mandá-los de volta a terra, todos elegantemente vestidos e com presentes; quem mais fez isso?
E logo nos primeiros contactos saírem a terra e aos som de músicas nativas e portuguesas dançarem juntos?
Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral
As primeiras danças com nova gente
Vasco da Gama *
À terça feira, (7 de Novembro, 1497) houvemos vista duma terra baixa e que tinha grande baía... à qual puseram o nome de Baía de Santa Helena. (Ainda hoje assim se chama e aí foi morto em 1510 D. Francisco de Almeida).
À quarta-feira lançámos âncora e estivémos oito dias limpando os navios, corrigindo velas e colhendo lenha.
Nesta terra há homens baços, que não comem senão lobos marinhos e baleias, e carne de gazelas e ervas, e andam cobertos com peles e trazem umas bainhas em suas naturas, e têm muitos cães como os de Portugal e assim ladram.
Ao outro dia que foi à quinta-feira saímos em terra com o capitão-mor e tomámos um homem daqueles, o qual era pequeno de corpo e se parecia com Sancho Mexia; e andava apanhando mel na charneca, porque as abelhas naquela terra o fazem ao pé das moitas, e levámo-lo à nau do capitão-mor, o qual o pôs consigo à mesa, e de tudo o que nós comíamos comia ele.
E ao outro dia (Novembro 10) o capitão-mor o vestiu muito bem e o mandou pôr em terra.
E ao outro dia seguinte vieram 14 ou 15 deles aqui onde tínhamos os navios. E o capitão-mor foi em terra, e mostrou-lhes muitas mercadorias para saber se havia naquela terra alguma daquelas coisas. E as mercadorias eram canela, e cravo, e aljôfar, e ouro e assim outras coisas, e eles não entenderam em aquelas mercadorias nada, como homens que nunca as viram; pelo qual o capitão-mor lhes deu cascavéis (guizos) e anéis de estanho. E isto foi à sexta-feira [Novembro 10] e isso mesmo ao sábado seguinte.
E ao domingo [Novembro 12) vieram obra de 40 ou 50 deles, e nós, depois que jantámos, saímos em terra e, com ceitis que levávamos, resgatámos conchas que eles traziam nas orelhas, que pareciam prateadas, e rabos de raposa, que traziam metidos em uns paus, com que abanavam o rosto. Onde eu resgatei uma bainha, que um deles trazia em sua natura, por um ceitil; pelo qual nos parecia que eles prezavam o cobre, porque eles mesmos traziam umas continhas dele nas orelhas.
Nesse mesmo dia um Fernão Veloso, que ia com o capitão-mor, desejava muito ir com eles a suas casas, para saber de que maneira viviam e que comiam ou que vida era a sua. E pediu por mercê ao capitão-mor lhe desse licença para ir com eles a suas casas. E o capitão, vendo-se importunado dele, que o não deixava senão que lhe desse licença, o deixou ir com eles; e nós tornámos ao navio do capitão-mor a cear, e ele se foi com os ditos negros. E, tanto que eles de nós foram apartados, tomaram um lobo marinho e foram-se ao pé duma serra, em uma charneca, e assaram o lobo marinho; e deram dele ao Fernão Veloso, que ia com eles, e das raízes de ervas que eles comiam. E, acabado de comer, disseram-lhe que se viesse para os navios; e não quiseram que fosse com eles.
E o dito Femão Veloso, como veio em direito dos navios, começou logo de chamar e eles ficaram metidos pelo mato. E nós estávamos ainda ceando e, quando o ouvimos, deixaram logo os capitães de comer e nós outros com eles, e metemo-nos na barca à vela; e os negros começaram de correr ao longo da praia e foram tão prestes, com o dito Femão Veloso, como nós. Em nós o querendo recolher eles nos começaram a atirar com umas zagaias, que traziam, onde foi ferido o capitão-mor e 3 ou 4 homens.
E isto porque nós fiávamos deles, parecendo-nos que eram homens de pequeno coração e que não se atreveriam a cometer o que depois fizeram, pelo qual íamos desapercebidos de armas. Então nos recolhemos aos navios.
E, tanto que tivemos os nossos navios aparelhados e limpos e lenha tomada, nós partimos desta terra...
Em 25 dias do mês de Dezembro, um sábado à tarde, dia de Santa Catarina. Entrámos na angra de São Brás (hoje Mossel Bay) onde estivemos treze dias, porque nesta angra desfizémos a nau que levava os mantimentos e os recolhemos aos navios.
À sexta-feira seguinte [Dezembro 1], estando nós ainda na dita angra de São Braz, vieram obra de 90 homens baços, da arte daqueles da angra de Santa Helena; e andava (parte) deles ao longo da praia e [parte) deles ficava pelos outeiros. E nós estávamos todos, ou a maior parte de nós, a este tempo na nau do capitão-mor. E, como os vimos, fomos em terra em os batéis, os quais levávamos muito bem armados. E, como fomos junto com a terra, o capitão-mor lhes lançava cascavéis pela praia fora e eles os tomavam. E não somente tomavam os que lhe lançavam, mas vinham por eles a tomá-los da mão do capitão-mor. Do que nós ficámos muito maravilhados porque, quando Bartolomeu Dias aqui esteve, eles fugiam dele e não tomavam nenhuma coisa daquelas que lhes ele dava. Mas antes, um dia, em (que) ele tomava água em uma aguada, que aqui está muito boa à beira do mar, eles lha defenderam às pedradas de cima de um outeiro que está sobre esta aguada, e Bartolomeu Dias lhes atirou com uma besta e matou um deles. E, ao que supusemos, não fugirem de nós foi que nos pareceu que houveram novas dos da angra de Santa Helena, onde nós primeiro estivemos, que são duma terra à outra 60 léguas por mar, como nós éramos homens que não fazíamos mal mas antes dávamos do nosso.
E o capitão-mor não quis sair em terra, porque esta, onde os negros estavam, (era) um mato grande, e mudou-lhe o posto. E fomos pousar a outro lugar descoberto e ali saiu; e acenámos aos negros que fossem para onde nós íamos, e eles foram. E o capitão-mor com os outros capitães saíram em terra, com gente armada onde iam alguns com bestas. E o capitão-mor lhes mandou então que se apartassem e que viessem, um oudois deles, e isto por acenos, E, àqueles que vieram, o capitão lhes deu cascavéis e barretes vermelhos, e eles nos davam manilhas de marfim, que traziam nos braços, porque nesta terra, segundo nos parece, há muitos elefantes; e nós achávamos o estrabo (estábulo) deles bem a carão da aguada, onde eles vinham beber.
Ao sábado (Dezembro 2) vieram obra de 200 negros, entre grandes e pequenos, e traziam obra de doze reses, entre bois e vacas, e quatro ou cinco carneiros; e nós como os vimos, fomos logo em terra, E eles começaram logo de tanger quatro ou cinco flautas, e uns tangiam alto e outros baixo, em maneira que concertavam muito bem para negros de que se não espera música; e bailavam como negros. E o capitão-mor mandou tanger as trombetas e nós, em os batéis, bailávamos e o capitão-mor de volta connosco. E, depois de acabada a festa, nós fomos em terra onde (tínhamos ido) da outra vez, e ali resgatámos um boi negro por três manilhas, o qual jantámos ao domingo; e era muito gordo, e a carne dele era saborosa como a de Portugal.
Ao domingo (Dezembro 3) vieram outros tantos, e traziam as mulheres consigo e moços pequenos; e as mulheres estavam em cima de um alto, perto do mar, e traziam muitos bois e vacas. E puseram-se em dois lugares, ao longo do mar, e tangiam e bailavam como ao sábado. E o costume destes homens é os moços ficarem no mato com as armas. E os homens vieram a falar connosco, e traziam uns paus curtos nas mãos e uns rabos de raposa, com os quais abanavam o rosto. E nós, estando assim à fala por acenos, vimos andar por entre o mato os moços, agachados e traziam armas nas mãos.
Pedro Álvares Cabral **
E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.
Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direcção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde.
E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.
Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.
Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, seus cascavéis e suas campainhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.
Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e eles os pousaram, mas não se afastaram muito. E mal pousaram os arcos, logo saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles.
Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-
se para cima.
* Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama, por Álvaro Velho
Os nossos políticos do topo são excelentes oradores (o Prof. Vítor Gaspar é, obviamente, uma excepção) e fazem magníficos discursos. Boa voz, muito convencidos daquilo que dizem (o que é bom para convencer os que já estão convencidos) e entusiasmam os correligionários presentes, que os aplaudem freneticamente. É claro que os ouvintes presentes são todos do seu partido e acham que o que ele diz é, realmente lapidar. Isso chega para ficarem contentes e não passa pela cabeça desses ouvintes raciocinar sobre o que ouviram, relacionar com os factos presentes e passados e muito menos tirar conclusões.
Uma outra boa qualidade que têm é um inexcedível descaramento. Vi e ouvi, na televisão, Seguro, em Coimbra, num desses magníficos discursos. Começou com uma longa lista de coisas boas que quer para Portugal. Foram muitas e, certamente porque todos as queremos, foi muito aplaudido. Simplesmente, nada disse de como as obter, as acções necessárias para as alcançar. Nada. Nadinha. Mas isso que importa, se falou tão bem!
Depois, atacou violentamente o governo que temos por estar a destruir o estado social, algo completamente inadmissível. Aplausos frenéticos de todos aqueles que já se esqueceram de que foi o seu partido, o PS, que iniciou em grande esse ataque, começando por extinguir o abono de família – criado pelo Salazar – e um bom número de centros de saúde, além de outros serviços públicos. E os pobres cidadãos, além da perda monetária do abono de família, passaram a ter de contar com bem maiores deslocações ou, em alternativa, pagar a privados que, em muitos casos, logo abriram a sua loja, aproveitando essa brecha.
Isto por um partido que se diz socialista e muita gente julga que “é de esquerda”, algo que só foi no seu início, quando andava de braço dado com o PC, em ocupações, e Mário Soares, na rua, de punho erguido, berrava “Partido Socialista, um partido marxista”. Mas esse esquerdismo acabou cedo, mesmo antes do seu chefe declarar que tinha metido o socialismo na gaveta, donde nunca mais o tiraram. Nesse dia o partido devia ter mudado de nome.
Voltando ao discurso, ouvi um enorme ataque aos políticos que prometem uma coisa em campanha e depois fazem precisamente o contrário. Até estamos de acordo.
Mas já não deve estar lembrado das magníficas propostas e promessas do seu partido em 2005 e de como fez tudo descaradamente ao contrário durante os seis anos em que foi governo, de como afundou a economia e as finanças de Portugal e de como colocou o país nesta vergonhosa situação.
Note-se que o que descrevo neste exemplo se aplica a todos os partidos. Convém também lembrar que os cidadãos portugueses, além de não se poderem candidatar a deputados, não podem votar em pessoas e só podem votar em partidos. Porque – muito se apregoou – as pessoas não interessam, o que interessa são as ideias. O Salazar “tinha” de manipular os resultados das votações porque, estupidamente, deixava que as pessoas se candidatassem. Agora, não há “perigo” de ser eleito alguém que não convenha porque só é candidato quem a meia dúzia de ditadores decide. Os eleitores dum círculo têm toda a liberdade... de escolher, presumivelmente para, em seu nome, irem legislar e governar, um desses pacotes de candidatos, já escolhidos pelos chefes dos partidos. E isto, para a quase totalidade dos portugueses, incluindo ilustres politólogos, é “democracia”!
Para termos eleições livres é necessário alterar os Artigos 149º e 151º da Constituição*, da forma que já propus:
Artigo 149º
Alterar para:
Os Deputados são eleitos por círculos eleitorais uninominais, constituídos por um conjunto de freguesias adjacentes, somando um total de (40.000 a 50.000 ?) eleitores ou, no caso de haver freguesias com mais do que esse número de eleitores, por bairros adjacentes, de forma a situarem-se dentro daqueles limites.
Artigo 151º
1 - Alterar para:
As candidaturas serão apresentadas, nos termos da lei, por um grupo de não menos de X nem mais de Y eleitores do respectivo círculo eleitoral.
Definir os números X e Y. Pode considerar-se como referência a eleição para o cargo de Presidente da República, em que a proporção é de, aproximadamente, um a dois por cada mil eleitores. Para um círculo de 40.000 eleitores teríamos 40 a 80 proponentes, que parece ser número aceitável.
2 – Suprimir
Termino com o final do artigo “Partidofobia e partidocratite”, que publiquei no “Expresso” em 1979:
“Partidos políticos como congregações de homens com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!"
Miguel Mota
Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado
A coerência não é a maior virtude dos ideólogos. O respeito à lei é algo descartável, quando a ideologia a ser preservada está em jogo.
Todos acompanharam o burlesco episódio de Honduras. Determina o artigo 239 da Constituição daquele país, que o dirigente que pretenda alterar o regime eleitoral, para admitir um segundo mandato, seja afastado do poder e inabilitado para exercê-lo por 10 anos.
Ora, o presidente Zelaya, contrariando determinação do Parlamento e da Justiça, convocou plebiscito para obter a reeleição e foi, por esta razão, destituído da presidência. O eminente constitucionalista Dalmo Dallari, em brilhante artigo para a Folha de São Paulo, demonstrou o rigoroso cumprimento da lei suprema, na deposição daquele mandatário.
E tanto foi perfeito o “impeachment”, que, no prazo constitucional, houve novas eleições e foi, democraticamente, eleito um presidente.
Assim não entenderam, entretanto, o presidente Lula e seus parceiros bolivarianos.
O mesmo ocorreu com o Paraguai. O artigo 225 da Constituição paraguaia permite o afastamento do presidente por crimes políticos, crimes comuns e má administração. O Presidente Lugo, sem qualquer apoio popular, no Senado e na Câmara dos Deputados, foi deposto por incompetência. Afastado por má administração pelo Parlamento e com confirmação pela Suprema Corte, continuou morando livremente em Assunção, sem que houvesse manifestações populares de expressão a seu favor e sem necessidade de tropas nas ruas para garantir a decisão do Parlamento e da Justiça.
Novamente, os ideólogos do poder, afinados com os governos de Chavez, Cristina, Morales e Corrêa, além de Mujica, declararam que houvera rompimento da democracia, suspenderam o Paraguai do MERCOSUL - em decisão muito mais rápida que a do afastamento do Presidente Lugo - e aceitaram, de imediato, a Venezuela como participante do bloco, nada obstante não ter aquele país aprovado o acervo normativo comunitário.
Em meu depoimento no Senado Federal sobre o tema, cheguei a ironizar o pedido de ingresso, por falta de aceitação da totalidade do acervo normativo, sugerindo aos senadores: “Não digam sim, nem não; digam talvez”, pois só após sua aceitação poderia a Venezuela ser admitida.
Sem ter esta garantia e sem o apoio do Paraguai - afastado, por ter cumprido rigorosamente sua Constituição -a Venezuela foi admitida, sendo sua admissão resumida em gráfica frase do presidente do Uruguai: “A nossa decisão não foi jurídica, foi política”.
Agora, em relação ao novo parceiro, em que, nitidamente, sua Constituição foi dilacerada, pois a governa desde 11/01/2013, um ditador que NÃO FOI ELEITO PELO POVO - visto que lá o vice presidente é de livre nomeação do presidente e seu mandato encerrou-se em 10 de Janeiro -, o Brasil, contra a clareza do artigo 231 da lei imposta pelo próprio Chavez, dá pleno apoio ao golpe, sob a alegação de que o enfermo presidente, cujo mandato iniciar-se-ia em 10/01/2013, foi eleito pelo povo, ignorando que o vice presidente, que é quem está governando a Venezuela, não o foi!!!
É de se lembrar que a incapacidade física ou mental permanente do presidente (art. 233) deveria ser atestada por uma junta médica designada pelo Tribunal Superior de Justiça, que, após o expurgo realizado por Chavez na Justiça, não só pisoteou o artigo 231, como não cumpriu o 233. Até hoje, ninguém sabe, na Venezuela e no mundo, qual seu real estado de saúde.
Ora, o Itamaraty, sob o comando dos presidentes Lula e Dilma – que, pessoalmente, admiro, mas de quem, neste ponto, divirjo diametralmente – utilizam-se de dois pesos e duas medidas, esfrangalhando o direito internacional e desfigurando por inteiro a respeitadíssima Casa de Rio Branco.
Estou convencido que parte dos problemas brasileiros de alta inflação, baixo PIB, último lugar de desenvolvimento entre os países latino-americanos, sem grande perspectiva de crescimento - pois amarrado a uma esclerosada máquina administrativa e deliberadamente complexo, confuso e arcaico sistema tributário -, são decorrentes desta postura ideológica, que leva o Brasil a submeter-se às políticas de nossos vizinhos, esquecendo-se de que, como nação soberana, deveríamos nos comportar como os grandes emergentes, livre de posições ideológicas arraigadas, tratando de igual para igual os países desenvolvidos e superando antigos complexos de inferioridade.
Sem isso, não passaremos ao mundo a mensagem de um país em que existe segurança jurídica e robustez das instituições democráticas.
Como presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio, tenho sido, algumas vezes, consultado por investidores estrangeiros e, quando exponho a complexidade do sistema tributário brasileiro, sinto um desinteresse crescente em terem o Brasil como opção de investimentos - o que me faz lamentar profundamente.
Creio que a Presidente Dilma, que é economista, poderia reflectir sobre as verdadeiras razões que estão levando o Brasil a esta situação de desfiguração institucional. Certa vez, em palestra proferida na Universidade de Coimbra com o ex-presidente Mário Soares, fez-me ele, durante o almoço que se seguiu às conferências, a observação pitoresca de que administrara Portugal sem ser influenciado por ideologias. Disse-me ele: “o povo não come ideologia, come pão”. E para que coma pão, não é necessário apenas uma política de incentivo ao consumo, mas principalmente – o que inexiste – uma filosofia de gerar produção, competitividade, tecnologia para podermos, no futuro, manter o consumo, e não vê-lo reduzido, por falta de crescimento.
Morreu um de nós: um daqueles que zelava pela segurança de todos (alunos, funcionários e professores); O nosso elo mais forte, em pleno exercício das suas funções.
Para evitar que um aluno maltratasse um colega fazendo perigar a sua vida, durante a aula, mesmo perante a pronta acção do professor e de um funcionário, foi pedida a intervenção dos vigilantes da escola, para que fosse conduzido à Direcção Executiva para que esta accionasse os técnicos da Escola Segura.
Desde o início do comportamento, de extrema violência, materiais foram destruídos, funcionários e docentes ameaçados de morte verbalmente e agredidos fisicamente.
O esforço dos vigilantes em controlar tais atitudes foi imenso mas não conseguiram evitar a destruição descontrolada de mesas, quadros, armários, cadeiras e os actos de ataque físico.
Já na Direcção Executiva, e perante o continuado comportamento violento, o vigilante Correia manietando o aluno, manteve-se como pilar determinante na segurança física de outros elementos da comunidade educativa, que tentavam também intervir. Mais de dez pessoas tentaram, sem sucesso, conter o aluno!
Assim, perante uma violência física e emocional tão demorada e brutal o vigilante Correia colapsou.
De imediato foi assistido por professores e funcionários que lhe fizeram as manobras de reanimação (respiração boca a boca e massagem cardíaca) até à chegada do INEM, que prestou toda a assistência possível que, no entanto, se mostrou ineficaz para salvar o Sr. Correia.
Estamos profundamente abalados e consternados com o falecimento do colega em pleno exercício das suas funções, num local, por excelência, educativo, onde uma morte nesta situação é inaceitável.
Estamos de luto, estamos perante algo que não conseguimos aceitar e, por isso, não sentimos capacidade de gerir emocionalmente uma situação tão dramática; estamos na escola sem darmos aulas, incapazes de pedagogicamente abordar o assunto junto dos restantes alunos.
Todos os que se encontravam na escola ficaram em choque. Como pode isto ter acontecido numa escola? Que ambiente se vive? Que aprendizagens se fazem quando há quem possa frequentá-la enchendo-a de ameaças e de violência?
O contexto escolar do Agrupamento está pormenorizadamente descrito no Projecto Educativo. Todos os profissionais que nele trabalham estão conscientes do universo em que se movem e procuram por todos os meios ajudar a orientar crianças e jovens de um meio problemático, com fragilidades várias, com comportamentos difíceis de gerir. Temos uma equipa técnica preparada e muito activa, no âmbito dos recursos TEIP. Lidamos com os problemas que vão surgindo e conseguimos muitos resultados positivos.
No entanto, há sempre um pequeno número de alunos, bem identificados na escola, que ultrapassam todos os limites do aceitável numa comunidade escolar, pois põem em risco os seus membros, a nível físico e psicológico, de forma sistemática: não aceitam a autoridade de ninguém, pelo que não cumprem as regras da escola, nem as mais básicas de convivência; ameaçam; aterrorizam; agridem.
Em relação a estes alunos já tudo foi feito, desde as estratégias aplicadas pelos professores e pelos directores de turma para motivar o aluno para a aprendizagem e para a socialização, passando pelas medidas previstas no Estatuto do Aluno, completamente ineficazes para estes casos. Tiveram a intervenção do SPO, GAAF, ADEIMA, CPCJ, Tribunal de Menores. Aos directores de turma são pedidos relatórios, pareceres, esclarecimentos de todos estes organismos. Enquanto isto acontece e durante anos, a situação destes alunos na escola mantém-se inalterada, até os jovens saírem da escolaridade obrigatória ou terminarem o ciclo de estudos. Isto é, embora várias instituições estejam envolvidas, a escola tem de manter os alunos ou transferi-los para outras escolas, deslocando o problema, não resolvido, para os outros. Estes continuam assim a ameaçar e a agredir colegas, funcionários e professores, continuam a impedir os colegas das turmas em que estão inseridos de poder ter um ensino de qualidade, minando as aulas. Têm e criam um sentimento de impunidade e de ausência de limites, que é o oposto do que lhes deveria ser ensinado.
A escola regular não pode dar a estes alunos a resposta de que eles precisam. A tutela não está a cumprir o seu papel, que inclui o de resolver a situação destes alunos e o de proteger o direito à educação e à integridade física e psicológica de todos os outros e de quem trabalha nas escolas.
Por estes motivos, dirigimo-nos à Tutela, exigindo que, com a maior urgência, se debruce sobre este problema e o resolva eficazmente, criando acompanhamento adequado às crianças e jovens com comportamentos disruptivos, que põem em riscos elementos da comunidade escolar em que se inserem. Este acompanhamento terá de implicar o afastamento destes jovens das escolas regulares e a sua integração em ambientes controlados, específicos e preparados para este tipo de perfil psicológico.
Morreu o Sr. Correia, dizemos.
Já tinha problemas de saúde, dirão. Nos olhos uns dos outros lemos «Mataram o Sr. Correia».
Matosinhos e EB 2, 3 Professor Óscar Lopes, 31 de Janeiro de 2013