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A bem da Nação

A CANALHA

 

 

Estou a ouvi-lo. Distraidamente. A voz ulula, impregnada de ferocidade, para defesa da classe docente. É o dirigente sindical da Fenprof, Mário Nogueira, que já ouvi noutras ocasiões e me pareceu então mais cordato. O discurso do comparsa da CGTP-Intersindical, Arménio Carlos, nem o ouvi, ciente do disco rachado das acusações repetitivas de uma esquerda incapaz de outro. Disco, que, para o efeito, é sinónimo de discurso, que também é rachado.

 

Imagens de docentes vão passando nas avenidas, intercaladas com o discurso, na reivindicação de direitos que lhes vão ser sonegados, segundo as ameaças governativas. Mas Mário Nogueira nada mais faz que utilizar uma linguagem obscena, imprópria de quem frequentou um curso superior e que deveria pensar no efeito antipedagógico do seu espectáculo de desbragamento verbal, mais atribuível a um carroceiro debitando alarvidades dos tempos da revolução em que as classes trabalhadoras tiveram o seu momento de glória e espalhafato vocabular e gestual: “Canalha!”,bandidos”!, “vigaristas!”, “desqualificados!”, captei da voz ululante, referindo-se aos governantes.

 

Concluí que o discurso era idêntico ao do comparsa da CGTP e aos deputados da esquerda afanosa , PS incluído, que se preparam para deitar abaixo o Governo. Com efeito, não houve propostas construtivas, mas puramente acusatórias, não houve reconhecimento de quaisquer melhorias actuais na profissão docente, pelo menos relativamente ao bombardeamento documental megalómano e inútil dos tempos de Sócrates, exigido por uma tal Maria de Lurdes Rodrigues, houve apenas o propósito de linchamento em praça pública, pelos dois dirigentes sindicais, dos que têm actualmente em mãos os destinos da nação.

 

Transcrevo da Internet:

 

De Mário Nogueira: 13 é número de azar, mas os portugueses já têm azar que chegue: governantes que, com propaganda enganosa, chegaram ao poder, aí desenvolvem políticas que estão a destruir o país, arruinando os cidadãos, destruindo os seus serviços públicos e outras construções democráticas e entregando a estrangeiros as jóias da coroa.(...)

 

De Arménio Carlos: “secretário-geral da CGTP-Intersindical, Arménio Carlos, afirmou que está na altura de explorar as “fracturas” que vão surgindo na base de apoio social deste governo.” “Conseguimos destrui-las com outros governos que também tinham maioria absoluta”, indicou.”

 

Dir-se-á que são discursos vazios. Mas não o são os excessos vocabulares, que escutámos. Como se pode exigir que uma nação progrida, na sua juventude, se lhe oferecemos figuras deste calibre grotesco, de carrascão, a comandar uma classe que é chamada de educadora?

 

Como é que essa classe admite tais representantes sem protestar? Será que alguma vez estes ensinaram? Ou limitaram as suas vidas a cargos de ambição e catapulta?

 

Se assim foi, Vae victis! Poveri noi!

 

 Berta Brás

HERESIA - XI

 

O “império” contra-ataca  - I

 

v      Hoje, por uma vez, vou tratar de coisas sérias: o BPN.

 

v      Não das causas que provocaram o inevitável colapso de um Banco que era gerido como, entre nós, se gere habitualmente a “coisa pública”: quer-se, faz-se, que dinheiro não é problema – e, para mais, ninguém terá o topete de vir por aí pedir contas (e se um ou outro amigalhaço sair contente, tanto melhor). Mas do modo como o assunto foi, e está a ser, (mal) resolvido.

 

v      Importa desde já desfazer dois equívocos que foram postos a circular de mansinho: (i) que o BdP foi apanhado completamente desprevenido; (ii) que BPN e BPP são frutos da mesma árvore. Puro engano.

 

v      O BdP mantinha no BPN desde, talvez, 2005 equipas de supervisão que acompanhavam, de perto e em permanência, as operações que o Banco ia levando a efeito. Quais? Não sei. Sei, sim, que da parte do BdP não houve desatenção, mas incompetência, incompetência pura e dura – que ninguém, até hoje, se dignou explicar. E da qual, que se saiba, nenhum consequência foi extraída.

 

v      O BPP, esse, é um simples caso de burla:

-        Burla quando prometia aos clientes aplicações em Fundos de Investimento – e, na realidade, lhes entregava umas loan notes (assim mesmo, em inglês, que a CMVM até achava sofisticado; com muita, mas mesmo muita boa vontade, títulos representativos de empréstimos que não poderiam ser livremente transmidos e que nunca ninguém viu);

-        Burla porque quem emitia esses títulos de dívida eram, dizia, Sociedades Instrumentais (sedeadas nas Ilhas Virgens Britânicas), cuja existência legal nunca foi verificada;

-        Burla porque, mesmo se essas Sociedades Instrumentais alguma vez tivessem tido existência legal, nunca poderiam ter emitido as tais loan notes, por manifestamente não preencherem os apertados requisitos que aquele Centro Financeiro Offshore exige para o efeito;

-        Burla porque o BPP dava o património (carteiras de Obrigações) dessas Sociedades Instrumentais como garantia para os financiamentos que contraia em proveito próprio;

-        Burla porque, no processo de acordo com os clientes, foi reconhecida aos créditos que o BPP reclamava dessas Sociedades Instrumentais uma graduação superior à das loan notes (quer dizer, o BPP será pago antes dos clientes que enganou);

-        Burla porque a Comissão Liquidatária do BPP, com o consentimento do BdP, se pagou dos rendimentos que as Sociedades Instrumentais (ou esses tais patrimónios) iam gerando (e foram rendimentos substanciais) em prejuízo dos titulares das loan notes;

-        Burla que não se circunscreve aos que geriram o BPP durante os “anos dourados”, como se vê;

-        Burla, enfim, porque decorrido todo este tempo, com tanta e tão forte evidência, o caso ainda não foi presente a tribunal (talvez porque o BPP não fosse o único Banco a praticar estas “engenharias financeiras” que BdP e CMVM viam com benign neglect).

 

v      O BPN, pelo contrário, é apenas mais um caso de gestão danosa que, visto isoladamente, pouco tem que se lhe diga. O que merece análise atenta é a solução que lhe foi dada. Para isso, há que recordar como reza o guião para liquidar um Banco que caia em crise insanável.

 

v      É um processo que se orienta por duas singelas regras:

-        Preservar o normal funcionamento do sistema de pagamento;

-        Evitar que a crise localizada se propague às restantes Instituições Financeiras e às Entidades de Investimento Colectivo (Fundos de Pensões, Fundos de Investimento, etc.).

 

v        Tudo muito simples de enunciar, como se vê - mas que, sem dúvida, dá trabalho a concretizar.

 

v      Para que o sistema de pagamentos fique incólume, os depósitos (à ordem e a prazo) são logo garantidos, ou por um esquema específico (o Fundo de Garantia de Depósitos, em Portugal; o FDIC, nos EUA; etc.), ou, se esse esquema não existir, pelos contribuintes – que serão chamados a respaldar a actuação do Banco Central (e não o Tesouro), reembolsando-o dos fundos que despender.

 

v      Sem essa garantia, a indisponiblidade dos depósitos (por força da insolvência do Banco depositário) provocará uma quebra imediata e abrupta na liquidez em circulação (os depósitos nada mais são que a parcela maior dessa liquidez) com consequências tanto mais nefastas para a economia real quanto maior for a importância do Banco em crise para o sistema de pagamentos.

 

v      A garantia dos depósitos visa sossegar os depositantes, em geral, que poderiam olhar para os restantes Bancos com suspeição – desencadeando uma “corrida aos Bancos” (e aos Fundos de Investimento) que lançaria o caos no sistema de pagamentos e, consequentemente, na actividade económica, no emprego e no rendimento.

 

v      O outro canal de contágio (diz-se, de risco sistémico) são os mercados interbancários. Daí que um Banco Central ciente do que dele se espera:

-        Promova, de imediato, a compensação automática das posições a débito e a crédito que o Banco em crise tenha junto dos restantes Bancos;

-        Assegure que os Bancos credores líquidos do Banco em crise sejam imediatamente pagos, sem esperar que este seja liquidado.

 

v      E para que accionistas e restantes credores (outros, que não os depositantes) do Banco em crise não saiam injustificadamente beneficiados, quer a garantia prestada a favor dos depositantes, quer a intervenção do Banco Central nos mercados interbancários, serão pagas em primeiro lugar na liquidação da massa insolvente.

 

v      Ou seja, o prejuízo da má fortuna, ou da má gestão, recairá por inteiro e inapelavelmente sobre os accionistas e os restantes credores do Banco insolvente. Os contribuintes, esses, só serão chamados a cobrir prejuízos se a liquidação da massa insolvente não der sequer para reembolsar aquelas garantias e os montantes despendidos pelo Banco Central.

 

v      Para que não restem dúvidas: se, no processo de liquidação de um Banco em crise, os contribuintes forem chamados a pagar € 1 que seja, accionistas e restantes credores (incluindo empregados por remunerações devidas e não pagas) ficarão a ver navios. É duro, mas é assim – para que a insolvência de um Banco não arraste toda a economia, como um buraco negro.

 

(cont.)

 A. Palhinha Machado

Janeiro de 2013

INVERSÃO DE VALORES

 

 

O desmantelamento da produção nacional e o incentivo ao consumo só podia conduzir-nos à ruptura. Demorámos a alcançá-la mas conseguimos! Era só uma questão de tempo.

 

Mais: a exasperante demora foi encurtada – num prazo por enquanto não quantificado – pela aplicação de medidas de política no âmbito das obras públicas cuja utilidade vinha sendo muito contestada logo desde que anunciadas. E, como era de prever, a opção do seu cancelamento provocou custos que as finanças públicas bem gostariam de ter dispensado. Tomando também em consideração a atribuição de «utilidade pública» a uma enorme lista de instituições que muito poucos contribuintes saberão para que servem e a política de desorçamentação que esteve na moda, o resultado foi, como se adivinhava facilmente, a instalação do caos nas finanças públicas.

 

Paralelamente, um país que consumia o que não produzia só podia viver do crédito que alguém lhe ia concedendo até que o dia chegou em que deixou de haver quem lho concedesse – e a sua falta é doença letal para quem dele vive. E quem vive do crédito, não pode facilmente discutir em que condições «se digna pedir emprestado».

 

Caídos, assim, num «modelo de desenvolvimento» crédito-dependente e exaurida a capacidade de recurso aos mercados de capitais, havia que «albardar o burro à vontade do dono», ou seja, havia que criar as condições que permitissem a retoma da confiança por parte de quem possuísse os capitais de que necessitávamos para comprar no exterior o que deixáramos de produzir e para financiar internamente os défices públicos já crónicos.

 

E que condições eram essas? De duas ordens, a saber: redução da despesa pública de modo a que cada vez mais fosse cada vez menos necessário pedir emprestado para suprir os défices públicos; reequilíbrio da balança comercial de modo a estancar a hemorragia de divisas provocada pelas importações e, tendencialmente, reequilibrar as balanças de transacções correntes e de pagamentos.

 

Os cortes na despesa pública começaram fazendo cessar drasticamente a política do betão e do betume a que estavam ligadas algumas das maiores empresas portuguesas as quais entretanto se viabilizaram lá fora ou se inviabilizaram cá dentro.

 

          DESPESA TOTAL PRIMÁRIA

 

ANOS          (milhões de €)          (% do PIB)

2005                67 956                       44,1

2006                68 246                       42,4  

2007                70 029                       41,4

2008                71 744                       41,7

2009                79 035                       46,9

2010                83 520                       48,4

2011                77 511                       45,4

2012                68 749                       41,3

 Fontes: INE – 2005-2011; Ministério das Finanças – 2012

 

Com uma enorme propensão marginal à importação, o método mais expedito para resolver o problema da balança comercial, era seguramente pela redução da procura interna. E como a grande componente da despesa pública é a das despesas com pessoal, nada mais evidente do que «matar dois coelhos com uma só cajadada» tributando os funcionários públicos e aposentados no equivalente aos subsídios de férias e de Natal.

 

Só que o grau de endividamento das famílias ultrapassava todos os limites da razoabilidade e eis que essa redução dos rendimentos disponíveis provocou a débâcle na construção civil e no cumprimento dos compromissos familiares perante o crédito à habitação. E se já era sobejamente sabido que a política de novas construções tinha que deixar de ser o que era, espanta que tanta gente ligada à construção civil e ao crédito à habitação não tenha percebido que o boom se esfumara e que o desastre se aproximava.

 

Se à redução do consumo interno somarmos os problemas que a banca teve no crédito externo, dá para compreender como o desequilíbrio externo resultara dos vícios inerentes ao «modelo de desenvolvimento» usado e abusado até ao final da Legislatura anterior. Eis como, à falta de crédito externo e de mercado interno, também o comércio importador teve que encontrar soluções, nomeadamente encerrando portas.


E, de repente, começam as estatísticas a mostrar que a balança comercial se está a equilibrar como já se não via há décadas...

 

 

BALANÇA CORRENTE E DE CAPITAL

 

                       

  Fonte: Ministério da Economia – Gabinete de Estratégia e Estudos

 

 

E se, entretanto, houve muita empresa a apostar na exportação, convenhamos que a rapidez do «milagre» da balança comercial se deveu muito à redução das importações.

 

Isto, o que foi feito até ao presente. E como vai ser o futuro?

 

Não dispondo de qualquer bola de cristal, convém reconhecer que as saídas não são muitas sob pena de darmos oportunidade à recessão provocada pelo ruir de um sistema sem que uma alternativa se lhe ofereça. Aliás, alternativa imperiosa pois, não a criando, chegar-se-á à inversão política de valores com o autor das causas que motivaram a crise a passar por cândido e o «médico» por malvado.

 

Assim, desmantelado o «modelo de desenvolvimento» comprovadamente vicioso e regressados ao mercado de capitais de longo prazo, urge retomar a produção de bens transaccionáveis e, dentre estes, começando pelos mais básicos, ou seja, por aqueles que satisfazem necessidades tão elementares como a alimentação.

 

E para que isso ocorra, não são necessários fundos públicos de investimento mas apenas a capacidade legislativa que há décadas falta criando condições que permitam a transparência dos mercados e a criação de operações sobre futuros que garantam a lógica no método de formação dos preços.

 

Sem necessidade de investimento público, a criação de condições legislativas que permitam o desenvolvimento sustentado do sector primário já deu provas ao longo da história para se saber que são rápidos e significativos os reflexos no crescimento da indústria e, posteriormente, dos serviços.

 

A ver vamos...

 

Lisboa, Janeiro de 2013

 

  Henrique Salles da Fonseca

AS CRIANÇAS NÃO SÃO HIPERACTIVAS, SÃO MAL-EDUCADAS

É uma comédia que se acumula no dia-a-dia. Um sujeito vai ao café ler o jornal e o café está inundado de crianças que não respeitam nada, nem os pardalitos e os pombos, e os pais "ai, desculpe, ele é hiperactivo", que é como quem diz "repare, ele não é mal-educado, ou seja, eu não falhei e não estou a falhar como pai neste preciso momento porque devia levantar o rabo da cadeira para o meter na ordem, mas a questão é que isto é uma questão médica, técnica, sabe?, uma questão que está acima da minha vontade e da vontade do meu menino, olhe, repare como ele aperta o pescoço àquele pombinho, é mais forte do que ele, está a ver?".

 

E o pior é que a comédia já chegou aos jornais. Parece que entre 2007 e 2011 disparou o consumo de medicamentos para a hiperactividade. Parece que os médicos estão preocupados e os pais apreensivos com o efeito dos remédios na personalidade dos filhos. Quem diria?

 

Como é óbvio, existem crianças realmente hiperactivas (que o Altíssimo dê amor e paciência aos pais), mas não me venham com histórias: este aumento maciço de crianças hiperactivas não resulta de uma epidemia repentina da doença mas da ausência de regras, da incapacidade que milhares e milhares de pais revelam na hora de impor uma educação moral aos filhos.

 

Aliás, isto é o reflexo da sociedade que criámos. Se um pai der uma palmada na mão de um filho num sítio público (digamos, durante uma birra num café ou supermercado), as pessoas à volta olham para o dito pai como se ele fosse um leproso. Neste ambiente, é mais fácil dar umas gotinhas de medicamento do que dar uma palmada, do que fazer cara feia, do que ralhar a sério, do que pôr de castigo. Não se faz nada disto, não se diz não a uma criança, porque, ora essa, é feio, é do antigamente, é inconstitucional.

 

Vivendo neste aquário de rosas e pozinhos da Sininho, as crianças acabam por se transformar em estafermos insuportáveis, em Peter Pan amorais sem respeito por ninguém. Levantam a mão aos avós, mas os pais ficam sentados. E, depois, os pais que recusam educá-los querem que umas gotinhas resolvam a ausência de uma educação moral. Sim, moral. Eu sei que a palavra moral deixa logo os pedagogos pós-moderninhos de mãos no ar, ai, ai, que não podemos confrontar as crianças com o mal, mas fiquem lá com as gotinhas que eu fico com o mal.

 

21 de Janeiro de 2013

 

 Henrique Raposo

 

«Expresso on-line»

IN ILLO TEMPORE / HOC TEMPORE

 

 

A história de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado de Agra de Freimas na aldeia de Caçarelhos, vem contada em “A Queda de um Anjo” de Camilo Castelo Branco. É a história de um homem cumpridor, bom leitor dos clássicos greco-latinos e dos clássicos portugueses anteriores ao século XVIII, e como tal seguidor dos parâmetros de riqueza de linguagem e do conservadorismo conceptual neles colhidos. A intenção caricatural é óbvia, já contida nos nomes próprios e na inadaptação da personagem a um mundo moderno em que as discrepâncias sociais se não coadunam com uma virtude gerada na muita leitura moralista de antanho e que um casamento de conveniência com uma prima Teodora de Figueiroa “de génio cainho e apertado” tanto na orientação económica como na tacanhez cultural e matrimonial, fizera anquilosar numa austeridade de conceito e vivência, “anjo” defensor e praticante de uma virtude passadista.

 

Deputado por Miranda em Lisboa, fazem furor pelo ridículo os seus trajes provincianos, e pela admiração controversa os seus discursos parlamentares de uma objurgatória inflamada e corajosa, em retórica clássica e rica, de inadaptado à modernidade do viver citadino. A paixão por uma prima brasileira, viúva de um seu primo – D. Ifigénia Ponce de Leão, que vem a Portugal requerer herança do marido defunto – humanizará e embelezará fisicamente a figura de Calisto Elói e os seus conceitos cediços, que o contacto com os modernos franceses ajudará a transfigurar, numa “queda” que corresponde mais a uma visão curta do preconceito provinciano do que a um Camilo, em vias de mudança quanto ao radicalismo dos conceitos, quer relativamente ao amor, perdendo em espiritualidade romântica e ganhando em sensualidade realista, quer à modernização dos costumes, ganhando em dimensão.

 

Uma história banal, em que sobretudo contam a riqueza do discurso aliada a uma sardónica intenção crítica, deslumbrando-nos de admiração pelo escritor e pelo seu génio literário, de um poder linguístico inexcedível, prova de um “nocturna versate manu, versate diurna” do conselho horaciano, de que sentirão sem dúvida irremediável falta no nosso ensino de agora os ainda existentes filólogos do classicismo, que a orientação educacional nos severos tempos de Salazar permitiam que fosse aprendido nos próprios estabelecimentos liceais, e que as mudanças pós-abrilinas feitas na sociedade e na governação, para um abaixamento e rebaixamento linguístico e nacional de peso, retiraram, sem pejo, do ensino e da exigência cultural.

 

Vivendo nós numa época de debates parlamentares, em que a retórica pende para o ataque monocórdico permanente à acção do governo numa nação que governos sucessivos fizeram afundar num fosso de empobrecimento económico dificilmente remediável, a temática de alguns debates no parlamento, na novela camiliana causa uma admiração pelo primor da linguagem que não resisto a transcrever, como forma de deleite de “nocturna et diurna manu” desses nossos clássicos, por muito risíveis que se nos afigurem as ideias retrógradas.

 

Eis alguns respigos dos seus discursos, o primeiro (Capítulo II – “Dois Candidatos”) ainda dirigido aos seus patrícios da aldeia de Caçarelhos que o catapultaram para Lisboa, como seu representante:

 

« Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma imperial! Os costumes de nossos maiores são metidos a riso! As leis antigas, que eram baluarte das antigas virtudes, dizem os sicofantas modernos que já não servem à humanidade, a qual, em consequência de ter mais sete séculos, se emancipou da tutela das leis. (Alusão ervada aos vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral dado por D. Afonso. Vinham a ser sicofantas os colegas municipalenses.) “Credite, posteri”! – exclamou Calisto Elói com ênfase, nobilitando a postura.»

 

No final do Capítulo IV -“Asneiras da erudição” - após uma busca vã de Calisto de uma fonte milagreira em moléstias de olhos – o Chafariz dos cavalos, na Rua Nova, segundo lera, e que provocara a chacota de um bacharel, que o ouvira: “- Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!” , comenta o narrador de “A Queda dum Anjo” com a mordacidade habitual:

 

«Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados… Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.»

 

Nos novos tempos, são, naturalmente outras, as prebendas ofertadas aos tais, e também nunca com zombaria relativamente a eles, virada aquela sobre o povo pagador das ofertas.

 

É no capítulo VI – “Virtuosas parvoiçadas” - a propósito da ópera de Donizetti Lucrécia Bórgia, que Calisto fora ver ao teatro S. Carlos, na companhia do abade de Estevães, que aquele se rebela contra o facto de o Estado subsidiar espectáculos de “exposição das chagas asquerosas da humanidade” o que o movera a um ardente discurso de protesto no parlamento, perante a hilaridade geral:

 

« … - Senhor Presidente! Que me não queiram persuadir de que estou em casa de orates! Que é isto? Que bailar de ébrios é este em volta de Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um enviado do povo exclama: Não tireis à nação o que ela vos não pode dar, governos! Não espremais o úbere da vaca faminta, que ordenhareis sangue! Não queirais converter os clamores do povo em cantorias de teatro! Não vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das suas economias para regalos da capital, enquanto ele se priva do apresigo de uma sardinha, porque não tem uma pojeia com que comprá-la. E vinte contos e trinta contos de subsídios que moralidade fomentam, que lâmpadas acendem nos altares da civilização?... O que são comédias? … Não menos fervorosamente peço a V. Exª e às câmaras que leiam as miríficas páginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações teatrais. Responda por mim o eminente moralista e mais que todos vernaculíssimo escritor: “Os assuntos das comédias pela maior parte são impuros, cheios de lascivos amores, de galanteios profanos, de papéis amorosos, de rondas, passeios, músicas, dádivas, visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados, quimeras, empresas impossíveis, que solicita ordinariamente um criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um descuido de pai, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma parar em uma comunicação desonesta, em um incesto, ou em um adultério, em que há muitos lances torpes, louvores lisonjeiros da formosura, expressões afectadas de amor, promessas de constância, competências de afectos, temores, ciúmes, suspeitas, sustos, desesperações, e em suma uma gentílica idolatria, ajustada pontualmente às infames leis de Vénus e Cupido, e aos torpes documentos de Ovídio no livro de “Ars amandi”-

 

«Vozes da galeria: “Muito bem! Bravo! (Espirram as risadas de vários sujeitos. Gargalhada compacta).

 

«O orador:- Senhor presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação nacional, porque ousei dizer que um país carregado de dívidas não instaura divertimentos atentatórios dos bons costumes com o dinheiro da nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas despeitoradas das Lucrécias Bórgias que custam quarenta libras por noite!......

 

«….O que eu requeiro, em nome da justiça e da pobreza do país, é que se não sisem os povos provinciais para manutenção dos divertimentos de Lisboa……»

 

Quando Bernardes condenava a arte dramática dos clássicos, em síntese lapidar, de uma exactidão abrangendo tantos mestres da comédia antiga e moderna, uns provocando a gargalhada alvar, outros o sorriso exultante da conivência, verificamos quanto hoje isso ainda é verdadeiro, na variedade dos executores da “Arte de Talma”, uns merecendo o apreço, outros o menosprezo, em função da qualidade ou da vanidade de conteúdo e de actuação, onde o desbragamento gestual ou de imagem realmente enfastiam mais do que contribuem para formar e distrair.

 

Mas também sobre o luxo o morgado da Agra se irá pronunciar, em páginas de leitura necessária ainda hoje, de que transcrevo o passo seguinte (Cap. VIII – Faz rir o Parlamento), apesar da pertinência e actualidade dos ditames evocados:

 

«….O que eu vejo? Quer o ilustre deputado saber o que eu vejo? É a indústria agrícola de Portugal devorada pelas fábricas do estrangeiro; é o braço do artífice nacional alugado à escravidão do Brasil, porque a pátria não lhe dá fábricas; é o funcionário público prevaricado, corrupto e ladrão, porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o julgador dos vícios e crimes sociais transigindo com os criminosos ricos, para poder correr parelhas com eles nas regalias; é a mulher de baixa condição prostituída, para poder realçar pelos ornatos sua beleza; é a aluvião de homens inábeis, que rompe contra os reposteiros das secretarias pedindo empregos e conjurando nas revoluções, se lhos não dão. O que eu vejo, senhor presidente, são sete abismos, e à boca de cada um o rótulo dos sete pecados capitais que assolaram Babilónia, Cartago, Tebas, Roma, Tiro, etc. É o luxo, senhor presidente!”

 

É contra os arrazoados conservantistas de Calisto Elói que se pronunciará “O Doutor do Porto” (Cap. IX), Dr. Libório Meireles , “sujeito de trinta e dois anos, cara honesta, e posturas contemplativas” que reunia os predicados que nos outros países ou passam despercebidos, ou são solenizados pela irrisão pública; mas, em Portugal, tais predicados alçam o homem ao cume da escala política, e dão-lhe escolta de absurdos propícios até onde o parvo laureado quer guindar-se”.

 

O discurso de Libório, condenado à irrisão, vale pelo mimo de uma retórica que põe em jogo a mordacidade de Camilo, envolta na sua proverbial riqueza linguística. Dele transcrevemos alguns passos que hoje seriam inusitados, mas que servem para confronto de contraste com a objectividade e o rigor discursivo de alguns dos nossos parlamentares ou com a iracúndia banal ou grosseira do discurso batido de outros:

 

«- Senhor presidente, discorri cerca de ano por estranhas plagas. Fui-me mundo fora com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social. Bebi a tragos nas enchentes de mel hibleu que desborda dos mananciais da civilização. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender, fomes de Ugolino que rompe seus ferros e se defronta com lautos estendais de loirejantes iguarias. Que delíquios de exultação me tomavam alma! Como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aqueles climas onde o supremo arquitecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito e vi tudo, senhor presidente. Encheu-se-me o peito de anelos pela sorte da Pátria, e de amores muito seus dela, como de filho que do imo das entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal me enrubesceram os horizontes desta minha e tão nossa terra de fragrâncias e idílios, assim me coou às fibras do seio um como filtro de melancolia, que me subia aos olhos exsudando lágrimas.

 

«…. É que eu, senhor presidente, muito adentro de alma sentia uns rebates de presságio. Locustas de excruciantíssimos tóxicos, que me estavam empeçonhando esperanças de ainda ver florejarem os agros da Pátria, estrelarem-se estes céus plúmbeos e rasgarem-se os horizontes à onda fecundante deste ubérrimo torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e compreendi a angústia virgiliana do hemistíquio: “dulcia linquimus arva”. (Muitos apoiados)

 

«Pois quê, senhor presidente? Cansariam mágoas a quem se lhe antolhasse ter de ainda ouvir nesta casa voz de homem do ventre deste século, do homem que aqui entrou a verter no gazofilácio do templo do eterno Cristo da eterna liberdade, a dracma ou o talento, a mealha ou o tesouro da dedicação! Repito, senhor presidente, quem deixara de estilar bagas de pranto, ao aportar em chão português com o presságio de que, alguma hora, havia de ouvir neste sancta-sanctorum das luzes, blasfêmias contra o luxo, que é a aorta do corpo industrial?

 

Libório prossegue neste arrazoado precioso, que vale a pena ler na íntegra, tal o rebuscamento usado para denegrir o colega chegado das berças. Mas Calisto não se deixa vencer:

 

«… Estou a desconfiar que a minha linguagem seca e desornada raspará nos ouvidos da câmara, que ainda agora se deleitou com a retórica florida do senhor deputado do Porto. Sou homem das serras. Criei-me por lá no trato fácil e chão dos velhos escritores: aprendi coisa de nada ou pouquíssimo. A mim, todavia, me quer parecer que o falar gente do uso comum é coisa útil para nos entendermos todos aqui, e para que o país nos entenda. Do menospreço desta utilidade resulta não poder eu aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas ideias; porém, querendo Deus, hei-de, se me ajudar a paciência com que estudei o idioma de Tucídides, decifrar os dizeres de S. Exª no Diário das Câmaras. (Riso.)

«O ilustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é o que eu entendi no seu arrazoamento. Em França viu S. Exª mosquitos por cordas. Pois, senhor presidente, eu li que, em França, onde o luxo é maior, aí é menor, em proporção, o número dos indivíduos ricos. (Vozes: Apoiado!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas dos jardins oratórios do Sr. Dr. Libório. (….)»

 

Capítulo IX de “A Queda dum Anjo”, páginas admiráveis de discurso de uma amplificação caricaturizante, que, pondo em destaque o pedantismo de um dos intervenientes, não deixa de servir para realçar as verdades do bom senso do protagonista da novela, fazendo-nos meditar no paralelismo de situações com as da actualidade, verificando contrastes de actuações, embora a mesma tendência irónica dos membros parlamentares. E, sobretudo, verdades que hoje ainda dominam, como aquela referente a França de que “onde o luxo é maior, aí é menor, em proporção, o número dos indivíduos ricos”.

 

Resta-nos fazer votos para que também se enchesse “de anelos pela sorte da Pátria” o peito dos nossos deputados e dos nossos governantes, enfronhados nos seus brilharetes atrabiliários, e que uma ponderação de maior modéstia provasse os seus amores por ela, como de filhos que do imo das entranhas lhe quisessem”, arredando para bem longe o agouro do “Portugal moribundo” por conta do “bailar de ébrios” da metáfora.

 

 Berta Brás

O FUTURO DO PRESENTE

 

Estou cansado de afirmar que o Brasil é um país lindo, gente maravilhosa, recursos quase inesgotáveis, mas...

 

- Quando crápulas condenados à cadeia pelo Supremo Tribunal, e por vários anos, assumem “seus lugares” de deputados na Câmara Federal...

 

- Enquanto os des-governos continuarem a desviar verbas, fabulosas, de auxílio a populações que tudo perderam nas enxurradas, e continuam a assistir ao descalabro...

 

- Quando, por exemplo, num município em três anos só tenham feito obras de contenção em 4 quilómetros do rio, quando 27 são os que perigam a povoação...

 

- Quando continuamos a ter mais de 50.000 homicídios por ano, enquanto na guerra civil da Síria morreram 60.000, mas em DOIS anos, e já é considerado um genocídio...

 

- Quando cai uma chuva e a minha casa fica sem telefone e com falta de energia eléctrica...

 

- Quando permitem a construção de dezenas e dezenas de prédios com mais de meio milhar de apartamentos, num bairro que não tinha infra estrutura para isso, e agora, na minha rua há cerca de um mês ninguém recebe água...

 

- Como os lobbies das construtoras são imensos, como imensas as verbas por estes oferecidas aos governantes para se elegerem, primeiro constrói-se, depois o governo arruma facilidades de crédito para os compradores e depois, depois, depois, se pensa em infra estrutura. Quando pensa. Porque só remenda.

 

- E... etc., etc., etc....

 

Por muito bonito que o país seja e carinhosas as suas gentes, um mau estar se instala e fica difícil de remover.

 

Vivi vinte e um anos em África. 21. Naquela África a que chamavam atrasada. Não recordo, nem ninguém da minha família, que alguma vez nos tivesse faltado a água, a luz ou o telefone e isto desde os começos dos anos 50, quase sessenta anos passados. Luanda tinha o seu abastecimento de água a funcionar perfeitamente desde 1889. (Infelizmente hoje não está mais assim. Luanda cresceu loucamente.

 

Mas só se tornou independente há 37 anos, e o Brasil há 190!)

 

Naquela África onde o analfabeto presidente desta pindorama manifestou “oficialmente” o seu espanto por ver ruas alinhadas e limpas e a população a comportar-se com cidadania, o que ainda não acontece por aqui em todo o lado.

 

Neste país tudo parece jogo infantil e, pior, de mentirinha.

 

O percentual de desemprego está no seu nível mais baixo. Infelizmente não é por o país estar a crescer, mas pelo fomento dado ao consumismo. Loucura.

 

A indústria terá encolhido cerca de 2,6%.

 

O PIB de 2012 deve ficar abaixo de 0,9%, apesar do governo já estar a preparar outro “método” contábil para enganar o povão.

A Balança Comercial ficou no mais baixo nível dos últimos dez anos.

 

Mas, e então a “inesgotável riqueza” do petróleo do pré-sal ??? Ah! É verdade. Dizem, dizem, que o petróleo está lá. Lá em baixo, a uns 4.000 metros de profundidade, no mar, e a alguns centos de milhas da costa. Mas parece que está.

 

É só ir lá buscá-lo. Só.

 

Só que para isso o governo, perdão, o des-governo, tem que abrir os leilões de exploração dessas áreas. Mas... voltamos a esta horrível palavra, o “mas”... os interesses são tão escusos que há anos se vêm adiando esses leilões. Pasmem agora ó incultas gentes: as empresas BRASILEIRAS, ligadas à exploração de petróleo, como o governo nada resolve... saíram para ir investir no estrangeiro.

 

E a Marinha Mercante? Aquela que transporta para dentro e fora do país tudo quanto se movimenta? Não tem um navio, unzinho só. Tudo é estrangeiro! E quais planos existem? Planos? O que é isso de planos?

 

Isto é uma maravilha.

 

E em minha casa... não tem água!!!

 

Rio de Janeiro, 4-Jan-13

 

 Francisco Gomes de Amorim

25 DE JANEIRO

 

Fazia anos o meu Pai, neste dia 25 de Janeiro, faria 112 anos este ano, mas morreu com 78. Em tempos escrevi um livro de memórias – Melodias do Passado – que a Sinapses prometeu editar, e que apenas manteve visível, durante uns tempos, na Internet, apesar do contrato assinado. Era um livro de homenagem a meu Pai, na evocação da sua pessoa, associada às minhas próprias vivências. Outros livros escrevi em que a sua figura perpassou, recta, na timidez da sua modéstia, mas na elegância de um saber de autodidacta e de um espírito vivo, ciente dos sarcasmos do mundo, mas também grato da felicidade que soube construir no amor familiar, a que o sacrifício de separações – no tempo da Segunda Guerra, e mais tarde, durante dois anos, por transferência, em serviço – fortificara o elo da coesão, no ganho do saber e da experiência, que as cartas acompanhavam, nos ditames da ternura e do apoio escolar.

 

Sempre o meu pai foi companheiro nas minhas escritas, algumas com mais afinco, que chegava a guardar no bolso por dias, segundo contava, e muitas vezes lhe lia o que escrevera às mesas dos cafés, nos intervalos maiores dos meus horários de aulas.

 

Em 1975, frequentando um Seminário em Coimbra, dirigido por Andrée Crabbé Rocha, escrevi sobre os autores do nosso programa de trabalhos – “A Literatura da Resistência” – naturalmente na berra, o que não obstou a que encarasse tais autores sem o parti pris da subserviência demagógica.

 

Foi assim que analisei a poesia de José Gomes Ferreira, e é como lembrança do meu Pai – em cuja casa vivia na altura, de regresso de África, com a família – que transcrevo um passo dele extraído, cuja poesia comparo com um poema de Torga que o meu Pai tanto admirava, e que eu também sempre admirei, embora não partilhássemos inteiramente as ideologias dos respectivos autores (in “Cravos Roxos – Croniquetas Verde-Rubras”, 1981):

 

«… O mesmo não diremos do poema XXIII, ainda de “Café”, com reflexos de Pessoa, que nos parece significativo, quer no aspecto imagístico, quer no aspecto ideológico. Só achamos supérfluo o parêntese inicial, processo muito utilizado por Gomes Ferreira, ainda em jeito narcísico pueril, de nos dar mais intimamente conta das suas insónias e debates de consciência:

 

 

«(Relatório às duas da manhã diante dum copo de leite)»:

«Hoje acordei na dispersão cinzenta

Dum dia decepado…

Com o corpo dividido,

As imagens sem olhos,

Os gestos a fugirem-me dos dedos

E a sombra esquecida no quarto ao lado.

Desatado de mim,

Andei todo o dia assim

Com os passos nas nuvens,

Os pés na terra,

As mãos na terra,

As mãos a estrangular o nevoeiro

E os olhos… Ah! Os meus olhos onde estão?

(Só há momentos me encontrei por inteiro

Num charco a evaporar-se do chão…)»

 

Poesia demasiado directa, como o é também a prosa neo-realista, mau grado as subtilezas vocabulares ou imagísticas, ela não deixa qualquer lugar ao devaneio, àquilo que fica subentendido, como observamos neste exemplo de Miguel Torga, onde se explora, com uma elegância natural e simples, mas de um pensamento trabalhado, a par da fluidez rítmica, uma temática de protesto idêntica à de Gomes Ferreira, conquanto não exclusiva da poética variadíssima do autor dos “Bichos”:

 

«Depoimento»

«Deponho no processo do meu crime.

(Sou testemunha

E réu

E vítima

E juiz).

Juro

Que havia um muro

E na face do muro uma palavra a giz.

MERDA! Lembro-me bem.

- Crianças… - disse alguém

Que ia a passar.

Mas voltei novamente a soletrar

O vocábulo indecente,

E de repente,

Como quem adivinha,

Numa tristeza já de penitente,

Vi que a letra era minha…»                     

(in “Câmara Ardente”)

 

Eis o meu presente de anos para o meu Pai, evocação da sua presença inesquecida, que ficará no meu blog até que as convulsões do tempo ponham fim a um participar já próximo da idade com que ele partiu.

 

Com os “Parabéns a Você” sempre. Os “Muitos anos de vida” também. Até que a memória se acabe. “Até que a voz me doa”.

 

 Berta Brás

A IDA AOS MERCADOS

 

Primeiro ponto: É verdade que Vítor Gaspar foi pedir a Bruxelas “mais tempo”, como diz o líder do PS? Não, não é verdade. Quando o PS falava de “mais tempo”, falava de mais tempo para baixar o défice orçamental, e não é isso que está em causa. Em 2013 o nosso défice terá de ser de 4%, conforme acordado com a troika, e aí não há novidades.

Segundo ponto: Mas então Vítor Gaspar não pediu “mais tempo” para pagar os empréstimos? Pedir, pediu – é isso que significa “alargar a maturidade da dívida” –, mas isso não representa que vamos pagar a dívida em prestações mais suaves, como sucederia se estivéssemos a falar de um empréstimo à habitação. A triste verdade é que, apesar de todos os sacrifícios, nós não estamos a pagar nem grandes, nem pequenas, amortizações da nossa dívida, nós até continuamos a acrescentar dívida à dívida pois continuamos a gastar mais dinheiro do que aquele que temos (é isso o défice).

Terceiro ponto: Para que serve então ter mais anos para pagar os empréstimos europeus? Para, como disse o ministro, “facilitar o regresso aos mercados”. Vou tentar explicar. Ao contrário do que sucede com os nossos empréstimos particulares, quando uma das dívidas do Estado vence e tem de ser paga (o que está sempre a acontecer), o Estado vai aos mercados buscar dinheiro para pagar essa dívida mais o que necessita para financiar o défice corrente. Ou seja, substitui uma dívida antiga por uma dívida nova. Ora o que sucede nos próximos anos, sobretudo em 2016, é que há muita dívida para “trocar”, logo uma enorme necessidade de “ir aos mercados”. Ao ganhar tempo nos prazos de devolução dos empréstimos europeus, Portugal adia algumas idas ao mercado com a esperança de que, lá mais para o final desta década, já não exista a actual turbulência (o gráfico mostra as nossas necessidades de financiamento nos próximos anos).

 

Quarto ponto: Mas não ganhamos mesmo nada em termos financeiros? Ganhar, ganhamos, mas não muito e espalhado no tempo. Como há inflação, quando pagarmos as dívidas que forem prolongadas no tempo, pagaremos menos em termos reais porque o dinheiro valerá menos. Como os montantes são muito grandes, ainda é um ganho que vale a pena. Mas não altera nada de essencial no que toca às actuais dificuldades orçamentais.

 

Quinto ponto: Mesmo assim, Vítor Gaspar não se contradisse quando disse que não ia pedir as mesmas condições da Grécia? Para responder a esta pergunta, é preciso recordar as suas palavras exactas, quando esclareceu a posição portuguesa depois de toda a polémica e das contradições de Juncker. Que foram: “Portugal está atento a oportunidades nessa matéria e solicitará a discussão destas questões quando oportuno no contexto da sua estratégia global de regresso ao mercado” da dívida. Ou seja, foi exactamente isso que Portugal e Gaspar fizeram, numa jogada de mestre que nos permitiu aparecer ao lado da Irlanda e que talvez permita regressarmos já amanhã aos mercados.

Internamente, Vítor Gaspar perdeu a opinião pública. Mas externamente, no que toca ao cumprimento dos objectivos portugueses, continua com uma folha de serviços impecável. Eu diria até que ele hoje começou a renascer das cinzas para o cidadão comum. Vamos ver o que nos reservam os próximos dias.

 

 Luis Borges Gouveia

Proferror na Universidade Fernando Pessoa

 

OS CLUBES AGRÍCOLAS PARA A JUVENTUDE

 

 

Em todos os trabalhos e projectos de assistência técnica à Lavoura tem-se pensado, até aqui, duma maneira geral, apenas no aperfeiçoamento dos adultos.

 

Os actuais organismos só visam - e mesmo assim muito pouco para o que seria necessário - o agricultor já feito, em muitos casos um homem idoso a quem a inércia natural dos anos não predispõe para as inovações.

 

No capítulo do aproveitamento e aperfeiçoamento das massas de jovens, praticamente não se fez nada. Todavia, serão eles os agricultores de amanhã, dentro de alguns anos estarão à frente das explorações agrícolas e, provavelmente, mostrarão a mesma ignorância e o mesmo espírito que seus pais.

 

Acusa-se - nem sempre com justiça, diga-se de verdade - o nosso agricultor de rotineiro, pouco progressivo, conservador em extremo. Abstraindo os muitos casos em que o é porque ainda não lhe mostraram convenientemente as vantagens dos novos processos, se não prepararmos os jovens dentro dum espírito diferente, se não começarmos a trabalhar com eles quando as energias da juventude são capazes de operar milagres, fatalmente, com o correr dos anos, eles virão fornecendo sempre o mesmo contingente de rotineiros, tal como os seus antecessores.

 

E, creio que é sabido, é dos novos que mais facilmente se conseguem as energias necessárias a qualquer iniciativa. O espírito jovem, sempre aberto às novidades, não tem ainda as ideias depositadas por umas dezenas de anos, como no caso dos agricultores mais idosos.

 

Mas acredita-se tão pouco, em Portugal, nos novos, há a ideia feita de que só dos quarenta anos para cima um homem está apto a qualquer coisa, que não admira que, no caso da agricultura, isso tenha sido tomado em absoluto.

 

E, no entanto - assim o julgamos - é um erro e erro muito grave.

 

Os países que acreditam na juventude - certamente não são os latinos... - há muito puseram em prática o desenvolvimento da juventude agrária. Mais ainda: têm-na aproveitado como alavanca para actuar na família e obtêm resultados surpreendentes. Os Estados Unidos iniciaram há mais de trinta anos os clubes dos 4 H; em Inglaterra há os Young Farmers Clubs; o Brasil tem os seus Clubes Agrícolas; e a pequena República Dominicana, em 1945, tinha 159 Clubes Agrícolas com 9.287 sócios.

 

Em Portugal, isso é praticamente desconhecido. Que ideia tão absurda pretender qualquer coisa do trabalho de crianças!.. .

 

E, contudo, o povo diz: “o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco”.

 

Porque temos sido até agora verdadeiramente loucos sob esse ponto de vista, sem sequer verificar o quanto isso nos prejudica para o futuro, urge arrepiar caminho, olhar de frente o problema e atacá-lo a fundo.

 

Porque o modelo americano é, talvez, o que, por ter mais experiência e ser mais bem conhecido, pode fornecer mais úteis indicações, vale a pena dizer alguma coisa a seu respeito.

 

Os Clubes 4-H, organizados pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, têm esse nome das iniciais das quatro palavras “head”, “heart”, “hands” e “health” (cabeça, coração, mãos e saúde) que são o lema do tais colectividades.

 

Fazem parte dos Clubes 4-H jovens rurais de ambos os sexos, de 10 a 20 anos de idade. São dirigidos e orientados pelo agrónomo do concelho (“county agent”) ou os seus assistentes, e o seu trabalho abrange um plano vasto e variado.

 

A actividade principal destes jovens exerce-se nas suas próprias casas, onde elaboram projectos para a exploração das quintas, cuidam da criação, aprendendo as noções fundamentais para isso, tratam dum jardim ou duma horta, etc. As raparigas aprendem e executam trabalhos de fiação ou tecelagem, a confecção de conservas, a preparação perfeita de refeições, etc., nos quais são dirigidas pelas “home demonstration workers” (demonstradoras).

 

Enfim, rapazes e raparigas aprendem, na idade em que essa aprendizagem é mais fácil e em que o entusiasmo abunda, a serem mais tarde homens e mulheres capazes de aproveitar os recursos postos à sua disposição e, assim, contribuírem para a melhoria do nível de vida do país.

 

Como deverá realizar-se o movimento agrícola da juventude em Portugal?

 

Em primeiro lugar faltam-nos os agrónomos concelhios, que consideramos a mola real do progresso da agricultura. Com esses elementos, a tarefa simplificava-se. Podemos, contudo, principiar pelos concelhos onde eles existam, embora sejam bem poucos.

 

Sempre que num pequeno núcleo rural haja a possibilidade de fundar e dirigir um clube agrícola, procurar fazê-lo.

 

Que se necessita para isso?

 

O técnico deverá, primeiro que tudo, procurar interessar no assunto os lavradores e os rapazes e raparigas da região. Uma palestra, uma reunião, qualquer coisa, enfim, pode servir de ponto de partida.

 

Para sede inicial do clube - que convém que exista - serve qualquer pequena dependência que um lavrador ou organismo possa emprestar. Caso não seja possível obtê-la dessa forma, não custará caro o aluguer.

 

Todos os filiados deverão pagar uma quota, excepto os reconhecidos como pobres, que poderão ficar isentos. Para a execução dos trabalhos administrativos, de organização, etc., deverá ser escolhida, entre os filiados, uma direcção que se encarregara de os efectuar.

 

Sendo possível obter, por cedência ou empréstimo, alguma ou algumas parcelas de terreno, será esse terreno trabalhado pelos sócios, revertendo a receita para os cofres do clube. Quando haja grandes agricultores, não é, em geral, difícil obter campos para treino e ensaio, assim como máquinas agrícolas.

 

O agrónomo efectuará no clube uma reunião semanal, por exemplo, com todos os sócios, discutirá os casos apresentados, sugestionará outros, apreciará os trabalhos já efectuados, fiscalizará os actos da direcção, etc.

 

Será do máximo interesse que cada clube possua uma biblioteca e, quando possível, pequenos campos e salas de jogos. A realização de excursões a centros de estudo e investigação ou simples digressões a regiões diferentes são muito úteis e podem constituir motivo para relatórios onde se fixará melhor o que se viu e aprendeu.

 

A pouco e pouco, os membros mais velhos do clube podem ir servindo de instrutores para os mais novos e até para óptimos auxiliares do agrónomo regional quando haja que fazer demonstrações aos lavradores.

 

Numa fase mais progressiva, um clube agrícola ideal será constituído por uma quinta modelo, terá sede própria, onde, a par dos conhecimentos que é necessário ministrar, se atenderá à parte recreativa, orientando esta o melhor possível e conseguindo sempre que os filiados aprendam brincando, terá salas de biblioteca, será equipado com máquinas de cinema ou simples lanternas de projecção, poderá, inclusivamente, ter posto médico, etc., etc.

 

O financiamento de tudo isto pode ser o mais variado possível.

 

No início quase não exige nada. As quotas e a boa vontade suprirão tudo. A pouco e pouco podem ir interessando-se no assunto diversas pessoas, os Grémios da Lavoura devem contribuir fortemente, os organismos oficiais e corporativos também pelos meios ao seu alcance, os rendimentos dos terrenos, quando os haja, etc. A Mocidade Portuguesa, como Organização Nacional que é, teria papel importante a desempenhar, especialmente na parte desportiva.

 

Enfim, a fantasia tudo permite supor agora, mas, estamos certos, seria sempre ultrapassada pelos factos desde que a iniciativa e o entusiasmo do técnico e dos rapazes e raparigas o quisessem.

 

Neste, como em muitos outros sectores da assistência técnica à Lavoura, estamos hoje, mais que ontem, capazes de actuar. Mas o passo, por vezes pequeno, que falta, teimamos em não o querer dar.

 

 

 Miguel Mota

 

Nota do autor: Este artigo foi publicado há 64 anos ("Gazeta das Aldeias", 53.º Ano, N.º 2135, 16 de Maio de 1948) mas, infelizmente, continua actual.

 

QUADROS DE INVERNO

 

Um vento muito gelado

Um pardal em forma de bola

Uma senhora de estola

Um rosto encarquilhado

Corpos escondidos que espreitam

Dentro de quilos de roupa

Bafos de bocas que deitam

Uma névoa a cheirar a sopa

Gente que saltita em vão

Tentando os pés acordar

Pobres que carregam carvão

Um autocarro a tardar

Jovens inchados, vestidos de penas

Um rafeiro tremendo num canto

Trincando umas côdeas pequenas

Um céu com um negro manto

Que não quer abrir por nada

Como uma porta trancada

Porém, nada, mas nada, é eterno

Nem mesmo os dias de Inverno

 

Helena Salazar Antunes Morais

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