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A bem da Nação

COISAS DO TEMPO DOS HOMENS

 

Além do coração cheio de saudade, o que mais me satisfaz no retorno a casa é o saborear dos livros.

 

Desta vez, entre eles, um que me foi oferecido, e não posso dizer que tenha sido devorado, mas lentamente apreciado.

Com a devida vénia, e sem prévia autorização dos autores, atrevo-me a fazer um pequeno comentário a um livro que tocou fundo na memória e no valor do português em todo o mundo.

 

Prefácio da jornalista Maria João Avillez, magnífica introdução do embaixador António Pinto da França, fotografias lindas de António Homem Cardoso, e um delicioso texto escrito na terceira pessoa, em que o autor se refere a ele mesmo como o viajante. Lourenço de Almeida.

 

Todo o livro é uma fantástica aula de história, do tempo em que os nossos antepassados enfrentavam os sete mares com a cara, a coragem, uma verdadeira fé no Deus Menino, o culto do Espírito Santo e, apesar de muitas vezes terem sido obrigados a lutar e matar - e se eram valentes - a miscigenação e a missionação fizeram mais do que a conquista e o comércio, deixando marcas que os séculos não apagaram.

 

Lá, para as bandas da Índia e das índias, sem gps, nem Internet ou telefones via satélite, avançavam naquelas cascas de noz, rumo ao desconhecido, levados por vagas informações que iam obtendo pelo caminho.

 

Chegaram primeiro que quaisquer outros europeus a quase todos os lugares da terra. E da mesma forma em praticamente todos os lugares sempre havia um ou mais voluntários ou degredados que se apaixonavam pelas lindas mulheres, pelas paradisíacas ilhas, pelo clima ou simplesmente estavam fartos da longa e sofrida viagem, outros terão naufragado e dado à costa. Assim aconteceu com Caramuru, o bacharel de Cananeia, João Ramalho e tantos outros, não só no Brasil mas por todo o lugar por onde andaram os navegadores: África, Américas e Índias. E aí criaram família, difundiram a sua cultura e seus conhecimentos, e também os valentes e generosos missionários, todos eles deixando raízes profundas.

 

Este livro, além de ser uma detalhada lição da história daquele tempo e daquelas viagens e paragens, vem-nos mostrar como essas raízes perduraram e se mantém ao fim de quase 400 anos!

 

O viajante foi passar a Semana Santa na pequena Ilha de Flores da Indonésia.

 

Praticamente a única cidadezinha de toda a Indonésia islamizada que mantêm, profundas, as suas raízes cristãs, católicas.

 

O viajante, como português, foi recebido com tanto carinho e admiração, porque a todos lembrava aqueles valentes e generosos antepassados que lhes deixaram aquela cultura, e em muitos, muitos, o nome!

 

O rajá de Maumere chama-se Dias Vieira Godinho, e entre as preciosidades que guarda religiosamente, há um capacete de ouro, oferecido ao seu antepassado, D. Alexo Ximenes da Silva, diz ele que em 1602 pelo rei Dom João III (aqui há um lapso de datas que o rajá deve ter baralhado, porque D. João III morreu em 1557, e em 1602 já reinava em Portugal Filipe I – o II de Espanha)! Esta oferta foi feita para marcar uma aliança, quando o rei de Portugal tratou o rajá por “primo”, atitude que não cala no coração dos seus descendentes.

                       

O rajá Dias Vieira Godinho

 

 

O precioso elmo de 1602

 

Não tem grande importância a data, porque o valor está no vínculo estabelecido e no orgulho daquela gente nas suas ligações com os portugueses.

 

Há aspectos desta extraordinária vivência que nos tocam especialmente.

 

Por exemplo o cuidado e o carinho com que D. Felícia da Silva, filha do anterior rajá, guarda ciosamente, com o seu marido, uma bela imagem do Tuan Meninu, o Senhor Menino, que é profundamente venerado pela população cristã.

 

D. Felícia da Silva, seu marido e o Tuan Meninu

 

Enfim, é um livro que merece ser lido e mostrado aos filhos e netos.

 

Chama-se “A Ilha das Especiarias” e podem encontrá-lo em

http://principia.pt/catalogsearch/result/?q=as+ilhas+das+especiarias

 

Afinal Portugal sempre soube fazer muita coisa de belo e grande, e agora o mundo inteiro aguarda que renasça das cinzas, como a Fénix, que segundo a tradição, é uma ave lendária feita de fogo. Vive por 5 séculos, e quando chega a hora da sua morte, prepara um ninho de ervas e gravetos, pronto para pegar chamas, e depois de alguns segundos, renasce das cinzas, para viver mais 500 anos.

Há 500 anos corria o mundo, dominava os mares e grande parte do comércio.

 

Está na hora do renascer de Portugal! Para isso tem que fazer um fogueira – grande – queimar todos os vícios e erros que tem vindo, sistematicamente, a cometer – e continua – e corrigir o rumo que o atual inepto governo teima em manter: o da miséria.

Porque ser miserável se pode ser grande?

 

Rio de Janeiro, 28/10/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

FORMAÇÃO DE PREÇOS AGRÍCOLAS



Desde sempre que os agricultores portugueses começam por produzir e só depois se dirigem ao mercado à procura de cliente. Na posse de produto perecível, submetem-se então ao preço que os comerciantes definem sob pena de ficarem sem produto (por apodrecimento) e sem dinheiro.

 

Trata-se de um óbvio desequilíbrio na distribuição do risco entre os diversos operadores económicos nos mercados agrícolas donde resulta um sistemático empobrecimento da oferta e um evidente conforto da procura.

 

O empobrecimento da agricultura fragilizou drasticamente a produção nacional que foi substituída pelas importações daí resultando um grave défice na balança alimentar nacional e um enorme desequilíbrio na balança de transacções correntes.

 

Urge, pois, distribuir o risco pelos diversos operadores nos mercados agrícolas de modo equitativo e isso só se pode fazer com a instalação em Portugal dos mercados sobre futuros.

 

Com esse tipo de operações, os agricultores poderão fixar (em Bolsa de Mercadorias, inexistente em Portugal) os preços futuros por que se comprometem a entregar, num prazo acordado, uma determinada quantidade de um produto padronizado (cereais, carne, oleaginosas). O documento a fixar a operação futura deverá ser descontável (o Crédito Agrícola deveria ser chamado a colaborar na implementação do sistema) e endossável (criando um mercado secundário assim atraindo um maior número de operadores e assegurando a transparência geral do sistema).

 

Esta é a solução para promover a transparência dos mercados e introduzir a lógica no método de formação dos preços.

Sem necessidade de investimento público para além do «árduo» esforço legislativo, a oferta ganhará condições que lhe permitirão relançar a produção.

 

A gestão da Bolsa de Mercadorias de Portugal poderia mesmo ser adjudicada (por que não ao Crédito Agrícola?) assim libertando o Estado de funções executivas e deixando-lhe essa bem mais importante de controlador.

 

 Henrique Salles da Fonseca

TUDO SÃO RECORDAÇÕES

 

 

Andamos frustrados. Não direi todos, mas a maioria. Zangados com os homens por amor de Deus ou de nós próprios, zangados com Deus por amor dos homens e de nós próprios.

 

Mas recebi um e-mail comportando um pedaço do génio de Walt Disney, dos anos cinquenta, “Aguarela Brasileira” que o site “Alma Carioca“ disponibilizou – um texto publicitário contendo uma visita de Donald Duck ao Rio de Janeiro, onde é acompanhado por Zé Carioca. E estes seres, que no filme são criados através da paleta de tintas de Disney, acompanhado das canções brasileiras “Brasil, meu Brasil Brasileiro”, “Nico Nico no Fubá” e mais sambas, deixam-nos do Homem uma visão não mais macabra mas edénica, que nos reconcilia, ainda que momentaneamente, com os homens e com Deus, por amor da Beleza e do génio de Walt Disney.

 

E momentaneamente também, me dispus esquecer o presente e a recordar tempos antigos, em que, no jornal Notícias de Lourenço Marques tinha uma coluna – “Amor e Humor” – na “Página da Mulher”, dirigida pela escritora Irene Gil e onde assinava Regina de Sousa.

Textos muitas vezes com graça ainda jovem, e resolvi, à maneira de Vitor Espadinha, recordar alguns que, mesmo hoje, pudessem trazer um sorriso, ainda que momentâneo, a quem anda acabrunhado, na discórdia da vida.

 

De “Prosas Alegres e Não”, 1973:

 

Treinos

Muito gostava eu que acreditassem em mim, mas segundo li há dias, na voz do insigne poeta Beira, só quando agarrar uma arma entre os dentes ou me mantiver em posição vertical, merecerei confiança.

Fiquei desgostosíssima e tenho-me posto em treinos diários, mas confesso que a minha saúde se tem ressentido e serei forçada a desistir, o que deveras me aflige.

À falta de arma, arranjei um pau de vassoura dos mais pesados, mas o único resultado por enquanto obtido foi o de rachar dois dentes, importantíssimos para segurar a vassoura.

Ando a dormir em pé para me manter vertical, e o mesmo fazem as mulheres da minha rua, como eu infelizes e complexadas, por causa da poesia “À Mulher”.

Elas todas têm sofrido em certas circunstâncias da vida – são todas mães de família – umas dores fortíssimas, a que reagem mais ou menos ruidosamente. Mas tão incomodadas ficaram, que prometeram fazer a greve do silêncio, naquelas mesmas circunstâncias, só para se acreditar nelas. Também afirmam, muito aborrecidas, que afinal só os homens podem lamentar-se à mais pequena dorzita, e ninguém os menospreza. No entanto, a lição serviu-lhes, pois são muito receptivas aos bons conselhos, e prometem nunca mais chorar.

Supunham elas andar verticais e humanas cá por estas ruas da amargura e da desumanidade, mas o poeta Beira diz que não, que isso é só com ele e com os outros homens. Humildemente, então, andam todas a treinar-se, tal como eu, e a “tornear desejos”, a ver se chegamos “além das nossas fronteiras”. Algumas já o conseguiram, amavelmente autorizadas pelos terroristas.

Outra coisa feita por nós também com muita perícia é “clamar” – apesar da greve do silêncio – “pelo grito das razões lúcidas”. Todas compreendemos a necessidade da lucidez, e por isso toca de “clamar” e de “esmagar os róseos romances”. Um autêntico massacre! Pior que a devastação sofrida pela biblioteca cavaleiresca do nobre D. Quixote da Mancha. Até tive muita pena da Max du Veuzit e da Magali, tão maltratadas pelas suas ex-admiradoras, condenando-as definitivamente ao índex expurgatório.

E após estes treinos tão exaustivos e plenos de boa vontade, ficamos todas loucamente ansiosas de saber se acredita finalmente em nós o prezado poeta Beira.

 

Fraquezas

Fico sempre muito contente quando me reconhecem qualidades. Acho isso de resto uma fraqueza de todo o mortal pouco confiante em si próprio e necessitando que os outros acreditem nele.

Vem este assunto a propósito da carta aberta – que por sinal vinha fechada – enviada pelo poeta Luís Beira à minha discreta pessoa – a congratular-me pelo meu bom humor, quando o mais que se encontra por aí é gente mal-humorada.

Comparou-me a uns autores espirituosos mas desconhecidos do meu espírito ignorante. Por isso mesmo, o meu amigo João que também me acha muito ignorante, muito desactualizada – entendendo por desactualização uma cultura não superior à do homem do Neolítico – anda a tentar ilustrar-me, emprestando-me livros que eu docilmente vou acumulando na mesinha aonde costumo acumular livros. Agora já estou às voltas com a civilização assírio-caldaica, suspensa na contemplação dos seus jardins miríficos.

Também achou o poeta Luís Beira que o meu humor se enquadra perfeitamente dentro do tipo da revista brejeira e o meu contentamento foi ainda maior, por isso vir de encontro aos meus desejos torneados de lúcida realização. E até, como é essa igualmente a minha ideia, já em tempos concorri para uma empresa organizadora de revistas, mas faltou-me a mola de acesso de todas as realizações, a necessária cunha para a minha pretensão ser despachada a favor das minhas fronteiras. Injustiças, cuja dor o tempo se encarregará de suavizar.

Quanto aos treinos, eu agradeço os cuidados do poeta Luís Beira, mas para já encontro-me impossibilitada de os continuar por falta de tempo. Tenho-o perdido todo no dentista, onde ando a fazer a dentadura substituta dos dois molares rachados durante aqueles...

 

Finalizo com um “auto-retrato”, confirmativo da valentia demonstrada nos treinos com a vassoura, texto contido no livro “Pedras de Sal”, de 1974, no capítulo “Antes do Golpe”, ainda brincalhão, livro que incluiria como 2ª edição em “Cravos Roxos – Croniquetas verde-rubras”, publicado cá, em 1981:

 

Solidez

Sou sólida. Fernando Pessoa dizia-se lúcido, eu apenas me posso gabar da minha solidez.

Mas gostava de ser frágil, isso sim. Quando precisasse de transportar coisas pesadas, diante de assistentes, haveria logo um cavalheiro, dos velhos admiradores de fragilidades, que me tirasse o peso das mãos e o transportasse ele. Acho muito lindos gestos assim, ainda há pouco observei um. Uma jovem magrinha e bonita, de olhos baixos e sorridentes, tentando transportar uma máquina de escrever. Não devia ser pesada, mas para ela era, pois com um sorriso, convidou um cavalheiro para o transporte.

Assim mesmo é que deve ser, mas hoje explora-se pouco o ramo da delicadeza masculina. A mim, pelo menos, não se me têm deparado muitas atitudes daquelas, e talvez se deva isso à minha solidez que inspira confiança imediata na minha capacidade transportadora de pesos.

Como sou romântica, embora sólida, preferiria o “côté fragile”, mas nem todos, neste mundo, podemos ter as mesmas coisas, temos de nos conformar.

De resto, depende muito também, a consideração alheia, do nó de gravata nos homens, ou da distinção da saia, nas mulheres. A cada passo o vou notando, desgostosa e desiludida.

 

E a mensagem de optimismo destes textos arcaicos, dos tempos da máquina de escrever, é a contida neste último, como consolo dos acima ditos frustrados: nem todos, neste mundo, podemos ter as mesmas coisas, temos de nos conformar.

 

Sensível como é às injustiças do Jeová e mesmo do mundo português, Saramago não concordaria, em todo o caso, com tal postulado, embora não haja o perigo de que o leia.

 

Todavia, serve o remate para, gentilmente, eliminar a malquerença para com ele.

 

 Berta Brás

DIFÍCIL É FAZER BEM

 

 Vivemos tempos dolorosos, com Portugal enfrentando desafios históricos. São compreensíveis discussões, protestos, até tumultos. Apesar disso, alguns extremos verbais de pessoas responsáveis degradam o debate político.

 

Compreende-se a irritação, mas espanta a falta de sensatez e nível democrático. Precisamente porque o momento é doloroso tem de haver recato.

 

"É preciso uma nova revolução, há essa tendência de que é preciso modular isto tudo de novo, mas ninguém pensa que a evolução para essa revolução possa ser pacífica. Esse é o grande temor que existe" (Lusa, 17/Out). Quando o herói do 25 de Abril, coronel Otelo Saraiva de Carvalho, fala em revolução exige-se atenção. Mas a revolução que ele fez há 38 anos implantou a democracia, libertou a sociedade, mudou o regime. Onde estão hoje as terríveis situações paralelas às de 1974? Há presos políticos? Censura? Partidos proibidos? Falta de liberdade? Vivemos, sem dúvida, situação grave, mas a questão é de dinheiros, uma herança endividada com zangas nas partilhas. É normal os ânimos exaltarem-se, mas não é digno comparar tais discussões a momentos grandes do passado. O 25 de Abril teve razões e ideais profundos e não deve ser rebaixado, invocando-o em questões fiscais.

O Dr. Manuel Alegre achou conveniente afirmar: "É bom não esquecer que matou-se um rei, um príncipe, um primeiro-ministro, um presidente da República e até os fundadores da República. Portanto isto não é um povo assim de tão brandos costumes como à primeira vista parece" (TVI24, 17/Out). Pode conceder-se-lhe toda a liberdade poética, mas isto parece incitamento ao terrorismo.

O mais surpreendente e negativo, porém, é ver grandes economistas, ex-ministros da área do Governo enfurecerem-se com expressões violentas e incendiárias. Por exemplo, a Dra. Manuela Ferreira Leite pergunta: "O que é que interessa Portugal não entrar em falência, se no fim vamos estar todos mortos?" (DN, 19/Out). É bom lembrar que para nos matar a todos é preciso bastante mais que alterar escalões do IRS.

Cada um tem as opiniões que quiser, e em tempos dolorosos elas tendem a extremar-se. Apesar disso surpreende a falta de sensibilidade a alguns pontos elementares. Os economistas que zurzem tão violentamente a orientação do Governo conhecem como poucos a situação delicada em que o país se encontra. Sabem perfeitamente como é mínima a margem de manobra que nos é permitida. A condição do actual ministro das Finanças é a mais limitada e restrita de todos os detentores do cargo nas últimas décadas, precisamente por causa dos erros cometidos nessas décadas.

O Orçamento em discussão nasce totalmente espartilhado, preso ao Memorando de Entendimento, que foi concebido, não por forças maléficas, mas pelos nossos parceiros europeus e pela instituição mundial mais experiente em ajustamento de economias. A reestruturação é indispensável e inevitavelmente dolorosa. O compromisso assinado, vinculativo em termos nacionais e aceite pelas forças políticas responsáveis, exigia um défice de 3% em 2013. Na última revisão o limite foi ajustado para 4.5%, concedendo na prática mais um ano de folga ao país.

Compreende-se a irritação dos ex-ministros, mas lamenta-se a falta de comedimento e auto controle. Eles próprios ouviram no seu tempo frases desse tipo, mas nunca na boca de antecessores. A sua experiência ensinou-lhes como a retórica exagerada pode ser devastadora. Têm consciência que expressões como as que disseram, não contribuindo em nada para resolver as dificuldades, ajudam pelo contrário a aumentar a animosidade, incerteza e desequilíbrio nacionais. Críticas há muitas, e até há alternativas. São é piores. Todas as soluções passam por pedir renegociação das condições, o que manifesta não haver escolha.

A discordância é saudável e o debate democrático. Mas quando as coisas serenarem, será difícil entender como pessoas responsáveis sugeriram revoluções violentas, assassinatos políticos ou que o Orçamento nos mata a todos.

 

É tão fácil dizer mal. Difícil mesmo é fazer bem.

 

 João César das Neves

 

DN 2012-10-29

 

PATCHWORK PORTUGUÊS

 

 

Que as línguas vivas mudam

É ponto bem assente,

Mas que se suicidam,

É algo que se pressente.

 

Uns pontapés na gramática,

Terminologia popular,

E uma pitada de “modernática”,

E em breve se há-de assim falar:

 

Houveram dias na minha vida

Como um há vinte e um ano

Foi a cena mais curtida

E vou-te já contar ó mano.

 

Alevanto-me na descontra,

Como uma anêspera e bazo.

E quem é que euzinho encontra

Por um feliz ocaso?

Um bróder com buéda guito

E que tinha almorroidas

E por isso um andar esquisito

Que punha as chavalas doidas.

 

Tásse meu puto, disse eu,

E ele logo arrespondeu:

Bora tomar a carreira

E apanhar uma bubadeira.

 

E vamos para a casa dele

A mãe gorda tal cachalote

Vivia com um tipo rele

Que ganhara o jack do pote.

 

Assentamo-nos no quarto

O mesmo onde tinha nascido,

E que por ter engolido o parto

Da mona não tinha invluído.

 

No pechiché tão uma jolas,

Diz o bacano pr’a mim,

Pega nelas e trázeas.

Bora buer pó jardim

Eu digo as coisa, tu fázeas.

Ya meu, arrespondo eu,

E lá vamos ambos os dois,

Inté que páro e digo: ó meu!

E que vamos fazer despois?

Ora népia é só chamar

E há-des ver as garinas

Logo a s’aproximar,

Das grandes às mais caninas.

 

E é então que se m’aparece

A chavala mais brutal

Coisa que só te acontece

Uma vez ou coisa e tal.

 

Tu és homem sexual?

Pergunta pr’a começar.

Digo eu: tás-te a passar?

Ó minha cai na real.

 

Ela fica tão pasmada

Que diz logo de enfiada:

Já há bué que procuro,

E olha tem sido duro,

Um brother que seja macho,

E vai daí que te acho.

 

E é logo nesse momento

Que a gente nos ajuntamos,

E se às vezes não auguento

O certo é que ainda tamos.

 

Falar bem, nós não falamos

Mas lá felizes nós samos.

 

 

Helena Salazar Antunes Morais

INFÂMIA

 

 

O défice dos Estados Unidos é algo como 99% do PIB, ou 1,6 mil triliões de dólares. É evidente que a continuar assim, as contas a acusarem cada ano que passa um acúmulo e aumento dessa dívida, por muitos dólares que estejam espalhados pelo mundo... a grande economia americana entrará em colapso.

 

Parece que estamos a assistir a um governo sério, comprometido com o acerto de contas e com o problema social da maioria dos americanos, que vive, por muito incrível que isso nos pareça, mal. Sobretudo na saúde. Mais de 50% dos americanos não tem dinheiro para se tratar, nem da saúde, nem dentes, nem nada. Tudo é absurdamente caro.

 

O Presidente (com letra MAIÚSCULA) decidiu enfrentar, corajosamente os dois problemas: a dívida e a saúde. Mas, por muito azar, uma só cadeira no congresso o fez perder a maioria. E a luta dos republicanos, os ricos, para não perderem espaço financeiro, têm atacado, por todas as formas, a administração Obama. Obama que quer fazer da saúde uma obrigação nacional, e isso, como é óbvio tem custos, e altos, e ao mesmo tempo diminuir as despesas administrativas. Disse ainda, e muito bem que, quem deveria pagar a parte principal da conta seriam os ricos, os republicanos. E estes, os donos dos hospitais, indústrias farmacêuticas e outras igualmente mortíferas, não querem perder a boquinha duma série de desgraçados que pagam para ter saúde, e tudo fazem para negar ao Presidente, e ao povo, a assistência médica. E também não querem, de jeito maneira, que a conta sobre para eles pagarem, mesmo sabendo que as fortunas acumuladas foram à custa dos trabalhadores!

 

Em 1948, Inglaterra, em banca rota, devastada pela guerra, instituiu o programa nacional de saúde, para todo o povo do Reino Unido, incluindo odontologia, aposentadoria e praticamente toda a espécie de assistência médica! Maravilha.

 

Os americanos, ditos republicanos, querem que o povo se... Infâmia.

 

O Canadá é mais cínico! Além de ter um governo descaradamente pró semitismo, manifestando-se até agressivo com os palestinos, tem um razoável sistema de saúde. Mas... a um casal de franceses que ali vive e trabalha há mais de cinco anos, ambos com curso superior, mas ainda sem visto de permanência, foi-lhe, finalmente, negado o visto! Razão: este casal tem uma filha com grave deficiência, “e isso custaria muito caro ao governo tratar da saúde dessa criança”! Inacreditável, mas, infelizmente, verdade.

 

Infâmia.

 

Há pouco tempo uns pescadores mexicanos depois de se lhes acabar o combustível, ficaram nove meses à deriva no mar! Por quase milagre, foram resgatados por um pesqueiro coreano, perto das Ilhas Salomão! Percorreram num barquinho, pouco mais que um bote, cerca de 7.500 milhas (náuticas), uns 12.000 kms.

 

Um feito único. Mas... duas semanas após terem começado à deriva, já em total desespero, avistaram um outro pesqueiro, embarcação grande, viu os náufragos, chegou perto deles, parou a seu lado e, sem dizerem uma palavra foi embora! Infâmia.

 

Moisés subiu o Sinai a ali esteve quarenta dias a rezar. Entretanto Deus entregou-lhe as Tábuas da lei. Quando desceu da montanha, seu rosto resplandecia, e encontrou seu irmão Aarão que, por vontade do povo, tinha mandado fundir um bezerro em ouro!

 

Moisés, furioso, quebrou as Tábuas, desfez o bezerro em pó, misturou esse pó com água que fez beber a todos; depois ordenou: “cada um cinja a sua espada; passe de porta em porta e cada qual mate seu irmão, o seu amigo o seu parente, e naquele dia cerca de três mil homens foram mortos. (Ex. 32.19-25)”

 

Por muito que se queira impor ordem, esta passagem da Bíblia, lembra os actuais acontecimentos nos países árabes e em África, onde à força se quer impor um comando. Tal como os extremistas islamitas. Infâmia.

 

Infâmia ainda a covardia dos chamados países ricos. Por um lado, mais ou menos, se mostram aliados aos rebeldes líbios, mas entretanto, como medo de os armarem, para não terem mais tarde o troco, como aconteceu com o Afeganistão, vão-nos deixam morrer. De vez em quando largam umas bombas no Kadhaffi, e quando o material de guerra da Líbia estiver destruído e o maluco na cadeia, ali voltarão os abutres para lhes venderem armas!

 

Sempre a ganância, o lucro, o dinheiro.

 

Jesus, próxima a Páscoa, subiu a Jerusalém. E encontrou no tempo os vendilhões e os cambistas que negociavam à sombra do Senhor. Jesus, de suas próprias mãos fez um chicote e correu com essa corja do Templo, derrubando as mesas dos agiotas. “Não profanem a casa de meu Pai!”

 

O que é a Terra, como todos os seus seres, se não a casa do Pai? E como hoje a profanam! Aliás, sempre a profanaram!

 

Na Páscoa vendem ovos de chocolate, mas quem corre atrás dos vendilhões? Estes não têm vergonha de espécie alguma. Os republicanos vão lutar até ao fim para que o povo se...

 

O governo canadiano, numa atitude inqualificável, quer que a criança francesa se...

 

A França vende 80 ou mais aviões de combate de última geração à Arábia, sabendo que é ela quem financia a difusão do extremismo islâmico.

 

Este texto vai sair depois do domingo de Páscoa.

 

Jesus, ressuscitado, não tem mais azorragues e os cristãos, até aqueles republicanos americanos que se dizem cristãos (vejam a blasfémia!), só sonham com o bezerro de ouro.

 

Infâmia!

 

Rio de Janeiro, Domingo de Páscoa de 2011

 

Francisco Gomes de Amorim

PELINTRAS

 

Depois do então primeiro-ministro José Sócrates ter anunciado o pedido de ajuda, o país ficou suspenso.

 

A expectativa era grande, os media anunciavam á exaustão a chegada eminente do FMI.

 

Eis que numa segunda-feira os homens desembarcam na Portela. Cercados de jornalistas, os FMIs (com ar de quem tinha viajado em turística) avançam rapidamente para a saída e apanham... o primeiro táxi.

 

???

 

O País ficou estupefacto. É conhecido o caso de um reformado que quase sufocou ao engolir abruptamente um ovo cozido quando acompanhava o directo na SIC Notícias.

 

Os gajos foram de táxi?????

 

Nem chauffeur nem limusina, nada, niente ...Táxi!

 

Portugal pode estar à rasca, mas aqui qualquer quarto Secretário de Estado tem pelo menos um carro com dois chauffeurs ao dispor, isto para não falar no Primeiro-ministro que tem 10 chauffeurs e N carros, o último dos quais é um chiquérrimo Audi A8 com corninhos luminosos.

 

Mas a surpresa não ficou por aqui.

 

No dia seguinte, os camones foram a butes do hotel até ao Ministério. What??? Então e os carros de vidros escuros, batedores da PSP a cortar o trânsito, a algazarra típica e tão nossa característica, aquele colorido que dá vida à nossa cidade e que tão bem foi copiado pelo pessoal lá do Gabão?

 

Enfim, esquisito. Só há uma explicação: os gajos, coitados, apreciam o Sol, só pode.

 

E chegaram às 9h??? Mas será que o grau de (sub) desenvolvimento deles ainda não lhes permitiu descobrir que antes das 10:30 não se trabalha? Coitados…!

 

Mas o pior ainda estava para vir. Então não é que eles não almoçam, trocando-o por uma coisa a que chamam sandes?????? Espera aí, então não é durante o almoço bem regado no Aviz ou Gambrinus que se trabalha e se tomam as decisões mais importantes? Vê-se logo que daqui não vai sair nada de bom…! Estamos desgraçados!

 

Só nos faltava mais esta... Cambada de ignorantes incompetentes!

 

O carro topo de gama vs. o estado da Nação

 

Manuel ...

(Chauffer n° 10 com formação específica em Audi A8)

 

Recebido por e-mail, Autor não identificado

DO BRASIL!

 

Há muito tempo que não falamos do Brasil. Até foi bom porque se acumulam mais notícias e se confirma o que anteriormente foi dito.

Há nesta terra contra-sensos difíceis de explicar, mas rebuscando daqui e d’além sempre se pode tentar entender como isto funciona, aliás, como isto... funciona mal.

 

Em primeiro lugar há que reconhecer que o percentual de gente que alcançou a classe média é muito importante, e de aplaudir. Como não há bela sem senão, é necessário esmiuçar algumas das causas desse ”fulgurante” crescimento.

 

Talvez o principal, e autêntico, seja o aumento do salário mínimo nacional, hoje em R$ 622, equivalente a € 234 ou US$ 307, e então já se considera que uma família que ganha R$ 1.000 - € 377 –é contabilizada como pertencente a essa classe! Se for uma familinha só de casal e um filho... o rendimento mensal por cabeça é de exorbitantes R$ 377 : 3 = 125,8 Reais.

 

São Paulo

 

Aqui está uma das fórmulas usadas para apresentar esse crescimento económico-social.

 

Outra está no alargamento do financiamento a pessoas físicas: tanto para compras de fogões, geladeiras, electrodomésticos em geral e automóveis – tudo isto fruto da dependência do atual governo dos sindicatos de metalúrgicos, de onde surgiu o famigerado “sapo-barbudo”, ainda a mandar mais do que a madama dona presidenta. E ainda o crédito à habitação, com financiamentos a longo prazo e juro baixo. (Estava a pensar na bolha imobiliária dos EUA, mas, é bobagem. Aqui é Brasil.) Como é de calcular o preço dos imóveis subiu em flecha. E o dos alimentos, e de tudo. (Hoje São Paulo e Rio de Janeiro estão entre as cidades mais caras do mundo!)

 

Depois os números começam a traduzir um pouco mais a realidade. Com tudo isto, super eleitoreiro, a arrecadação fiscal no ano foi inferior em 1% a 2011! Estranho, né? A inadimplência aumentou 5,9%, e já alcança os 20%! O lucro da Petrobrás, que descobriu as famosas reservas do petróleo, o super comentado “pré-sal”, já caiu este ano cerca de 14%, e as suas acções tiveram igual desvalorização. Em 2007 as mesmas acções tiveram um aumento acumulado de 98,88%, e este ano “acumula para baixo”! Uma festa.

A taxa Selic, a básica do Banco Central, está em 7,25% ao ano, mas os juros do cartão de crédito, depois dos bancos terem baixado 50% do seu valor (parece mentira mas é o que apregoam!) continua em 10,5% ao mês, o que dá mais de 200% ao ano! Assim a classe média cresce!

 

Entretanto, o Brasil, aliás o PT que tanto bramou contra a dívida externa, tendo feito disso um cavalo de batalha contra o governo de FHC, já vai, mais uma vez, em US$ 817 mil biliões!

 

E o PIB? Ah! É verdade, o PIB, que os crânios do governo anunciavam no início do ano que devia alcançar 4% de aumento, segundo os últimos números, está a travar-se uma dura batalha para não ser inferior a 1,3%. Para o próximo ano já se fazem previsões mais optimistas: o governo havia anunciado uma previsão de 4%, mas, por prudência acaba de informar que não deve passar dos 3,25.

O que não constitui qualquer problema visto a inflação em 2012 dever alcançar 6%!

 

E por aí segue: a indústria está com crescimento negativo de 3,1%, o que não impede que dentro de 3 ou 4 anos em São Paulo estejam em circulação um carro para cada dois habitantes! Onde os vão meter? Quem responder é despedido!

 

No Rio, com Copa do Mundo e Olimpíadas à vista, a organização está meia perdida. Só para a festa da inauguração, um daqueles segredos que não tarda todo o mundo conheça, o prefeito já convidou dois ou três mil estudantes dos países vizinhos, para virem participar dessa cerimónia! Voluntários, é evidente; voluntários a quem terá de pagar viagem, alojamento, refeições e um mínimo de “pocket money” para poderem beber um refresco durante os ensaios! Uma economia interessante. (Como é de calcular a agência de viagens que vai tratar disso deve ser de um comparsa.)

 

Há dias um ónibus, que para não quebrar o ritmo, circulava em velocidade alta no centro da cidade, ao fazer uma curva tombou de lado.

 

Não há crise porque morreram só 3 pessoas e 6 ficaram feridas. O curioso é que se constatou, depois, sempre depois, que esse ónibus já tinha 143 multas, a maioria por avançar o sinal vermelho! Mas continuava a circular. Nesse mesmo dia houve só mais seis acidentes de ónibus. Só. Mas como todos os ónibus são de empresas privadas, com muita força na política e na polícia, fica-se imaginando qual será o número de multas NÃO PAGAS de toda a frota que circula na cidade. E o seu valor, que deve ser absurdo!

 

De qualquer maneira o Rio de Janeiro continua lindo!!!

 

Com assaltos, tiroteios – ontem foram assassinados mais três policiais – e a paisagem urbana mais bonita e imponente do mundo.

Mas não é só aqui, não: na China há menos assaltos, mas mais prisões e desprezo pelos direitos humanos, se é que isso existe por lá, o que não deve preocupar o 先生 (isto quer dizer senhor) Wen Jiabao, que só acumulou uma fortuna de quase três mil biliões de dólares, e isto porque ele é comunista verdadeiro e devia achar que essa grana se destinaria a distribuir pelos mais necessitados, ou o 先生 Bo Xilai, que deixou a mulher assassinar o sócio inglês, para ficar com empresa de que era sócio só para eles, enquanto o seu filhinho 花花公子 (isto é playboy em chinês) fazendo o seu dever de comunista sincero matou-se a ele e três prostituas, tudo nu, quando chocou com o seu modesto Ferrari contra um muro! Esta de andar com três prostitutas nuas num ferrarizinho, e mais o condutor e proprietário com a mesma indumentária, e até parece que o pobre 花花公子 comunista ia bem devagar sem se distrair com o espectáculo que à sua volta se desenrolava, i.e., despia!

 

Por enquanto, por estas bandas esta cena ainda não vimos. Mas tem outras com o mesmo fundo moral!

 

Os vereadores, que deviam trabalhar, de graça, pelo bem da comunidade, ganham o equivalente a 75% do salário do governador do Estado, que no Paraná era de mais de R$ 24.000, superior até ao presidente desta res publica!

 

Mas há casos interessantes que quase fariam inveja até ao tal 先生 Wen Jiabao. Ora leiam este pedacinho duma reportagem da revista Época, sobre salários: “No começo de Setembro, ÉPOCA deu início a uma série de reportagens sobre os supersalários no sector público. A primeira delas mostrava, a partir de documentos obtidos com exclusividade, a composição dos maiores salários entre os servidores na activa do governo paulista. Entre os cinco primeiros, quatro eram de engenheiros do DER, o Departamento de Estradas e Rodagem, que haviam conseguido liminares na Justiça para ganhar mais que os R$ 18.725 recebidos pelo governador, o teto do Estado. O engenheiro José Luiz Fuzaro Rodrigues, líder do ranking, recebia, àquela altura, R$ 69.961,14 mensais - R$ 47.576,44 só de auxílio-combustível – e levava para casa, líquidos, mais de R$ 51 mil.”

 

O mesmo fuzaro, coitado, só levava para casa R$ 51 mil por mês, e como têm 14 salários por ano, ficava na miséria de R$ 714 mil por ano! É difícil imaginar como se pode viver neste nível de pobreza! Afinal são só cento e doze salários mínimos... brutos. Mais difícil ainda é como conceber como ele conseguia, e consegue, que a mamata segue, consumir tanto combustível.

 

Ora digam lá se o grande cantor Jorge Ben Jor não tem razão quanto canta:

Moro num país tropical.

Abençoado por Deus E bonito por natureza.

Mas que beleza.

Mas não é para todos.

 

02/11/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

UM AÇORIANO DE PESO

 

 ARRIAGA DA SILVEIRA

 

Nasceu nas Angustias em 22/03/1776 e faleceu em 13/12/1824 em Macau. Descendente de uma das mais ilustres famílias portuguesas das Ilhas, Miguel José d’Arriaga da Silveira, teve como primeiro ascendente açoriano João d’Arriaga.

 

João d’Arriaga era filho de outro João d’Arriaga (Jean D’Arriague natural de Baiona, França, casado com a faialense dos Flamengos, Catarina Brum da Silveira) e neto de Salvador d’Arriaga, fidalgo espanhol e da Sra. Heribaron, da Casa francesa de Berrendi.

 

Os Arriaga, da família tradicional açoriana, deram a Portugal inúmeros homens ilustres, como o primeiro presidente da República Portuguesa, Manuel José d’Arriaga Brum da Silveira e o político de carreira, bacharel em Leis, Provedor da Fazenda e Alcaide-mor da Horta, Miguel José d’Arriaga da Silveira. Amigo da família real portuguesa e da imperial brasileira teve uma filha (D. Maria da Glória Vicência de Paula Arriaga Brum da Silveira) afilhada de D. Maria I e de D. Pedro I do Brasil (IV, de Portugal).

 

Miguel José d’Arriaga da Silveira era um espírito empreendedor. Nascido nas Angustias (cidade da Horta, Ilha do Faial, Arquipélago dos Açores), formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Fora da ilha onde nasceu, foi Juiz do Crime em Lisboa, Desembargador da Relação das Índias e Ouvidor Geral de Macau. Personalidade inquieta, activa, desempenhava todas as atribuições de Ouvidor com afinco e presteza. Em Macau, superintendia a Fazenda, a instrução religiosa e laica, as áreas administrativa, militar e da Justiça.

 

Ilustrado e dinâmico, era como afirma o historiador faialense Marcelino Lima; “um pequeno rei”. Dentre os seus empreendimentos:

- Fundou uma escola real de pilotagem, uma fábrica de pólvora, um colégio para missionários, uma casa de seguros, criou um batalhão provincial de infantaria, aboliu o imposto das sisas, revogou a distinção vexatória entre os súbditos do mesmo Estado, desenvolveu o comércio marítimo, estimulou o estudo do Português entre os macaístas, encaminhou chineses para a Universidade de Coimbra, estabeleceu carreiras directas entre Macau e Brasil, isentando de direitos aduaneiros os produtos macaenses, fomentou a emigração de chineses para o Brasil, com o intuito de promover ali a cultura do chá (Arquivo dos Açores vol. XI 403). Com ele Macau cresceu e floresceu, como nunca. A cidade enriqueceu e se enfeitou com belos edifícios. A diplomacia decidiu as divergências e as disputas.

 

Famosa foi a intervenção apaziguadora do Ouvidor entre os ingleses e os chineses, quando estes se sentiram ameaçados pela esquadra britânica que aportara em Macau. Arriaga mediou habilmente o conflito (1808). Angariou respeito junto aos Mandarins quando, à custa própria e dos cofres do Estado, na contramão dos interesses portugueses, limpou os mares da costa dos piratas chineses (Tigres dos Mares). Atitude paradoxal que angariou confiança dos chineses. A todos procurava ajudar. Por muitos era estimado, por alguns potentados da Índia, invejado. Intrigas e manobras políticas fizeram com que se demitisse. Mais tarde, o rei D. João VI, seu simpatizante, reconhecendo as injustiças, atende os pedidos dos chineses para que Miguel José d’Arraiga volte a Macau. Mas a doença já lhe abatera a força e o ânimo. Com comoção pública, morre na cidade que governou em 13/12/1824 aquele que mereceu com toda a justiça o cognome de “ O Pombal de Macau”, pelos benefícios e desenvolvimento que trouxe à colónia portuguesa do Oriente.

 

Uberaba, 02/02/12

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

 

Dados e referências bibliográficas:

- Genealogia das Quatro ilhas (Jorge Forjaz e António Ornelas Mendes)

- Famílias Faialenses (Marcelino Lima)

SOL NA EIRA E CHUVA NO NABAL – 1ª ADENDA

 

 

Caros correspondentes e leitores,

 

A minha afirmação:

"É claro que se os subsídios de desemprego para os desempregados de Espanha e Portugal, fossem, como deveriam ser, pagos pelo BCE resultaria na “estabilização automática” das respectivas economias, bem como das economias dos Estados beneficiados, que não corriam o risco de ver as Taxas de Juro aumentarem numa eventual acção de “arrefecimento” .

Tem suscitado algumas reservas e até desacordo de alguns de vós.

 

É com profundo respeito por todos os que discordam, que lhes digo que, não obstante, continuo a defender a ideia, porquê?

 

Vejam bem, a maioria das decisões de política económica da UE têm afectado profunda e negativamente a economia dos Países do Sul da Europa e  beneficiado objectivamente as economias da Alemanha e seus satélites e da França. Exemplos:

 

  1. A PAC, que “impôs” a Portugal o abandono da produção de cereais, de leite e um dia destes de carne de porco. Os “subsídios” pagos à tradicionalmente acomodada classe  dos proprietários de terra (não aos agricultores, estes recebem subsídio de desemprego do Estado Português!) jamais conseguirão repor a nossa economia a produzir bens de consumo, que somos obrigados a importar, primeiro da França e da Alemanha – através dos mecanismos de taxas aduaneiras impostas às importações de cereais mais baratos de países terceiros, taxas que vão direitinhas para financiar a PAC -  enquanto não se  esgotam os produtos de origem “europeia”, protegendo assim o mercado destes.
  2. A “apropriação” pela UE da exploração dos recursos piscícolas do NOSSO mar, obrigando-nos a quotas de pesca que nada têm a ver com a extensão dos nossos recursos, alocando estes aos restantes Países da EU, incluindo aqui a Espanha. Mais uma vez houve subsídios para os armadores dos navios de pesca abatidos (os pescadores ficaram a receber subsídio de desemprego do Estado Português!!!)
  3. Os acordos de livre comércio celebrados com Marrocos, que levaram à deslocalização para aquele País da produção de frutas e legumes do Sul de Espanha e de Portugal.  Para agravar a situação do emprego em Portugal e Espanha não se excluíram deste acordo as manufacturas da Zona Franca de Tanger. Resultado, assistimos impávidos à “deslocalização” de empresas de produção de componentes para automóveis, de têxteis e de calçado,  de Espanha e Portugal para a Zona Franca de Tanger, onde não se pagam impostos e onde as condições de trabalho permitem custos muito mais baixos, mesmo se comparados com Marrocos, quanto mais com Portugal ou Espanha. Claro que beneficiam as Empresas de fabrico de automóveis de capitais franceses e alemãs instaladas em Portugal, com preços de componentes muito mais baixos dos que antes eram fabricados em Portugal.  Este acordo de livre comércio assinado pela  UE  com Marrocos,  com o Egipto e com  Israel, permitiu às indústrias Alemã e Francesa chorudos negócios (só para Marrocos um TGV para ligar Tanger a Casablanca, três novos grandes aeroportos, um porto marítimo de água profundas e uma “rede” de auto-estradas (suponho que algumas ligarão o deserto ao deserto, copiando o que fizeram aqui em Portugal). Em resumo, o emprego foi, ainda que por via directa deslocalizado de Portugal e Espanha para Marrocos e por via  aparentemente indirecta, para a França e para a Alemanha e França,  Quem paga aos desempregados portugueses e espanhóis? Não me parece justo que sejamos nós os portugueses e os espanhóis.

Estes são apenas alguns exemplos, entre muitos, muitos outros, como a imposição ou isenção de direitos aduaneiros sobre importações de produtos e matérias-primas, em benefício de países terceiros, sem contrapartidas nos países beneficiados para os produtos de exportação portuguesa e espanhola, além de regulamentações internas  cujo interesse, ninguém que esteja por fora da área específica de actividade consegue entender, com a carga fiscal, com a euro-burocracia reinante, com a insegurança pública derivada da “globalização” do crime organizado, com a inadaptação dos poderes públicos, de que a Justiça e os Tribunais são o exemplo máximo,  Portugal e Espanha têm muito poucas hipóteses de evitar a destruição de empregos, quanto mais criá-los.

 

Todos os exemplos dados têm em comum um efeito prático, que é a protecção das economias e do emprego na Alemanha e França e tornam claro que a actividade económica nos Estados que compõem  a UE é fortemente condicionada por decisões da própria UE, sem que os Estados tenham a mínima oportunidade de se defender.

Criou-se a “federação do euro” para a emissão de moeda e gestão da política monetária, “federação” esta corporizada pelo BCE. Não sendo crível que alguém, algum governante dos Estados que compõem esta “federação do euro” tenha abdicado de ter uma política monetária, é certo que a “federação do euro”, ou seja o BCE, tem obrigação de gerir a política monetária dos Estados aderentes na qualidade de delegado, o que obviamente impõe a defesa dos interesses de todos e de cada um desses Estados, para o que é necessário ter sempre em conta as especificidades das diferentes economias e os impactos positivos ou negativos consequentes com a política seguida.

A economia dos Estados da União depende de decisões centrais da UE  – acordos internacionais,  taxas aduaneiras, realocação das áreas de produção agrícola, pescas, condições sociais e ambientais, euro-burocracia -   tudo com terríveis impactos na economia dos Estados, mas da exclusiva responsabilidade do poder Central da UE, que por isso mesmo deve  suportar as consequências das suas decisões, a mais grave das quais e com maior impacto social é a deslocalização do emprego de umas zonas para outras dentro da própria  UE e da “federação do euro” ou para fora da UE.

 

Com todo o respeito que os discordantes me merecem pergunto:

  1.       Quem pratica um acto não tem de ser responsável pelas suas consequências?
  2.       O pagamento dos subsídios de desemprego, pela UE/BCE,  deslocando meios financeiros das zonas beneficiadas pela política económica, para as zonas prejudicadas, não vai, de um modo automático, criar condições para a reanimação da economia das zonas prejudicadas?
  3.       O alívio do deficit do Orçamento de Estado – que por esta via pode até transformar-se em superavit – pelo valor dos subsídios em si mas também pela animação da actividade económica e abaixamento das tensões sociais, não será a resposta para os problemas que Portugal, Espanha, Grécia e brevemente toda a UE estão a enfrentar?
  4.       Que justificação, em termos de justiça, se pode descortinar, nos pagamentos pela UE  de indemnizações aos proprietários de terras e aos armadores de navios, e o não pagamento dos subsídios de desemprego aos trabalhadores que ficaram sem trabalho?

Julgo que estas, são questões chave da economia e da justiça no âmbito da UE, da Zona Euro e sobretudo de Portugal, que não têm merecido a atenção que merecem da sociedade portuguesa, particularmente dos “fazedores de opinião”.  Julgo, que quanto mais não seja por isto, esta minha incursão nos mundos da política, da finança e da economia se justificam plenamente.

 

Lisboa, 2 de Novembro de 2012.

 

 João António de Jesus Rodrigues

Gestor Profissional de Empresas

Livre-pensador em questões políticas, financeiras e económicas.

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