Foi a propósito do meu texto sobre a peça “Júlio César” de Shakespeare e o filme de Mankiewicz e as minhas conclusões sobre a morte do nosso César, com os ratos a abandonar o porão, que a minha amiga falou, uma vez mais, da pergunta de que se lembra sempre que assiste às entrevistas dos jornalistas aos entrevistados:
- A televisão deu várias imagens de entrevistas com a Manuela Ferreira Leite, onde ela apontou todos os defeitos da actual política governativa. E não houve um jornalista que lhe fizesse a pergunta: “A senhora, se fosse agora Primeira Ministra, perante a situação do país, como é que fazia?”
Eu, que também a ouvi com revolta e indignação, confesso, pois sempre lhe reconheci elevação moral que esta inesperada performance de falha de solidariedade fez cair por terra, descobrindo eu nela ocultas mágoas contra um companheiro de partido que anteriormente a tinha vencido eleitoralmente, mágoas de outros seus apoiantes, e por tal, não solidários também, não direi com o ministro eleito, mas com o país que o pede, ressalvei a nobre isenção de alguns comentadores, entre os quais Lobo Xavier, que, reconhecendo a política suicidária do Primeiro Ministro, na rigidez de uma intransigência que parece séria mas se afigura de imatura, lembrou fábulas adequadas, como a dos ratos, seres primeiros a abandonar o porão do navio em naufrágio, e a do leão revoltado com os coices do burro à hora da morte, sem o António Costa perceber o porquê da revolta leonina, provavelmente por não ter complexos contra os burros nem os seus coices. Mas Pacheco Pereira acusou o toque e concordou com a questão da rataria em fuga, sem complexos, defendendo, com o brilhantismo da sua filosofia nem sempre proba, o ponto de vista dos ratos.
Também Paulo Portas faz um discurso em que os traços de rigor e elegância expositiva emparelham com a inteligência de argumentação e a nobreza de princípios de amor pátrio que alguns outros igualmente revelam, entre os quais Marcelo Rebelo de Sousa, de um rigor e rapidez de discernimento perfeitamente admiráveis, na precisão das suas respostas de decisiva lucidez a respeito das andanças de uns e outros, com optimismo, simplicidade e orientação, e não apenas para deslumbrar por meio de prosas quantas vezes enigmáticas de outros mais, para o impacto imediato da troça ou da admiração pelos respectivos saberes, sem desejo de conserto e só de substituição do Governo.
A minha amiga tem razão. Concorda com as manifestações do povo (eu também, desde que não deixem passar – mas passam – os slogans revolucionários da desordem, ao estilo chileno “o povo unido jamais será vencido” que copiámos e adaptámos àn ossa condição de brandura inerme e que há 38 anos nos ferem os tímpanos.
Mas ela tem razão: Era necessário saber como fariam os tais que só criticam para deslumbrar ou botar abaixo, varinas saracoteantes apregoando gritadamente o seu peixe, desinteressadas dos problemas que a pesca traz a quem a pratica.
Se, quem a pratica o fez mal, é preciso solidariedade para o corrigir. Por amor do bem comum. Como diz a minha amiga, “se têm uma solução, juntem-se todos para a solução.”
Depois de sofridas doze, doze, horas de avião, e os pés tão inchados que não entraram nos sapatos, o que me fez sair do aeroporto com eles na mão, finalmente lá estava a filha e uns netos à nossa espera na capital da Britannia. Abraços, beijos, etc., logo a caminho de casa algo soava estranho: no carro não se sentiam “poços de ar”, vulgo buracos nas ruas e estradas, seguíamos com um dia lindo – coisa ali rara já desde o tempo dos romanos – sem ver daqueles motoristas “espertos”, os fura-fila, nem aqueles que entram num cruzamento como se estivessem em Silverstone! E quem não está habituado... estranha!
Tudo britanicamente em ordem – Oh! Yes! – e, para quem tem em casa uns 30 ou 50 metros quadrados de área gramada, que tem de regar a toda a hora e cortar uma vez por mês para, ou não secar ou virar “ferolesta”, passar por aquelas imensas áreas verdes, lindíssimas, tranquilas, é um regalo para a vista e uma esplêndida perspectiva para obrigar a fazer caminhadas! Gramados imensos, limpos, umas quantas árvores em plena pujança. E fiz, mesmo arrastando a carcaça meia carcomida, umas boas caminhadas, que me faziam sentir livre, longe do barulho, da poluição... e da política! Uma beleza.
No dia seguinte, as inevitáveis compras de supermercado para alimentar mais as bocas que chegavam. E, ó deuses do Olimpo, espantai-vos por encontrar em Londres inúmeros produtos a preços muito mais baixos do que no Brasil – a grande esperança de acabar com a fome do mundo, e o maior produtor de alimentos do planeta. Vinhos da Austrália, Nova Zelândia, Chile, Califórnia, etc., massas e pão de qualidade excepcional, frutas de fazer crescer água na boca, peixe e mariscos de todo o lado, especialmente da Escócia, chocolates e doces que fazem os gulosos babar... e comer, praticamente só encontrando as carnes de valor mais elevado.
No último trimestre a economia britânica recuou mais 1,5%, o desemprego vai afligindo a população, mas lendo com cuidado as notícias e crónicas sobre a economia, tem-se a sensação de que o Reino Unido será o primeiro a sair da crise mundial. Há seriedade no trato da “res publica”, discute-se abertamente o problema e ouvem-se hipóteses de solução, e com tudo isto Londres continua a ser a mais aberta e cosmopolita cidade do mundo.
Não é difícil adivinhar que a ida a Londres não teve objectivos desportivos – as Olimpíadas estavam a acabar – nem culturais – apesar de haver mais museus, magníficos, em Londres do que bandidos no Rio – mas unicamente familiares visto que quarenta por cento dos netos estão lá a estudar e, bem a propósito, comparar as escolas públicas britânicas com as brasileiras... tem a mesma semelhança que existe entre uma roda de bicicleta, nova, e uma caixa de papelão... velha e rasgada!
É conhecido o belo “sense of humor” britânico, mas comparar escolas... nem por piada!
Uma das mais hilariantes, aliás chocantes notícias que surgiram enquanto “londiniei” foi a de um juiz, aqueles que colocam na cabeça umas ridículas cabeleiras brancas – que até hoje não consegui entender com que finalidade – e ficam com cara de babacas, ao julgar um reconhecido bandido, com diversas passagens na polícia por assaltos e tráfico de drogas, e que mais uma vez tinha sido preso por mais três assaltos a residências numa única semana.
Sentença de “sua excelência” o juiz: “Para assaltar três residencias numa só semana é preciso ter muita coragem! Assim, em face dessa coragem... vou absolvê-lo!”
Resultado: a polícia vai ter que o apanhar outra vez e o juiz... foi despedido! Devia estar de porre!
Por estas bandas brasílicas, há juízes da mesma laia: a polícia prende um monte de “menores” – de 16 e 17 anos – acusados de assaltos e tráfico pesado, propõe mandá-los para centros de correcção e o juiz ou juíza determina que não há razão para prendê-los.
E assim vai o mundo.
Depois queixem-se da crise. A crise é sempre igual, tem sempre o mesmo princípio: a falta de gente capaz, honesta, íntegra.
Basta ver também o exemplo destas eleições no Brasil. A madama dona presidenta fez um intervalo na des-governação: anda a correr o país, de palanque em palanque, dizendo besteira para ajudar a eleger gente do PT.
E eu que julgava que ela era Presidente do Brasil, de todos!
É difícil imaginar o descalabro que foi, durante vários reinados, o governo “português” nos antigamentes, mas vamos dar uma pálida ideia do que se passava em 1814.
Só entre 1808 e 1814 devem ter morrido centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, com a guerra, a miséria e a fome.
Com a família real no Rio de Janeiro, Portugal foi pasto dos exércitos ingleses. Eles, só, mandavam. Mas é impressionante ver a quantidade de oficiais, nas Forças Armadas, tanto em Portugal quanto no Brasil, sabendo-se que no Brasil praticamente não havia nem exército nem marinha e o português estava desmantelado.
Era “rei” de Portugal o Duque de Wellington, que não abriu mão de ter no comando da maioria do exército, oficiais ingleses. Os portugueses “enchiam” os postos de major para baixo, os mais altos eram de nomeação inglesa.
Ficaram de fora os regimentos de artilharia e cavalaria, porque certamente eram menos importantes do que a infantaria, e nesse tempo não havia tanques!
Do mesmo modo a “marinha portuguesa”, i.e., os seus poucos navios, mantiveram os seus comandantes, uma vez que todos eles estavam subjugados à marinha inglesa.
Mas o que mais espanta é a exorbitante quantidade de marechais, generais, coronéis, etc., portugueses, quando se sabe que o nosso exército estava extremamente reduzido.
Também impressiona a quantidade de oficiais que foram atrás de D. João VI para o Brasil.
Se a corte já era mal administrada, perdulária, basta imaginar o que seriam estas largas centenas de oficiais, a grande maioria sem nada que fazer, a não ser espavonear-se nas suas fardas cheias de enfeites, quais carnavalescos!
Para se ter uma ideia da organização das Forças Armadas em Portugal basta ver um pouco da sua composição, segundo o Almanach de Lisboa de 1814:
Estado Maior do Exércitos
Marechal General – Arthur Wellesley, Conde do Vimeiro, Marquez de Wellington e de Torres Vedras, Duque de Ciudad Rodrigo e da Victoria, Grande de Hespanha de primeira classe, Cavaleiro da mui distincta Ordem Militar do Banho, Grão Cruz e Comendador da Torre e Espada, e da Militar e Nacional de S. Fernando de Hespanha, Feld Marechal do Exército de Sua Magestade Britânica, Generalissimo dos Exércitos de Sua Majestade Católica, do Conselho do Príncipe Regente de Portugal, Marechal Real dos seus Exércitos, e Comandante em Chefe das forças aliadas na Península.
Marechal dos Exércitos – William Carr de Beresford, Marquez de Campo Maior, Conde de Trancoso,
Havia um terceiro Marechal de Exército, graduado – Marquez de Vagos... no Rio de Janeiro!
E mais:
Vinte e três Tenentes Generais, dezanove Marechais de Campo efectivos, sete Marechais de Campo graduados, oito Marechais de Campo reformados, vinte e cinco Brigadeiros efectivos, dos quais oito eram ingleses, cinco Brigadeiros graduados e quinze Brigadeiros reformados
Além de inúmeros outros oficiais de menor patente.
Estado Maior do Marechal General Duque da Victoria
O coronel, João de Vasconcellos e Sá e mais dois ingleses, um coronel e um capitão
Estado Maior do Marechal Marquez de Campo Maior
Quartelmestre General, inglês, brig., além de cinco ajudantes às ordens, dois ingleses e três portugueses
Comando Geral da Engenharia(Todos portugueses)
Comandante Geral Mathias Dias Azedo, Ten.Gen.
Um Marechal de Campo, três Brigadeiros, dez Coronéis, Tenentes Coronéis, Majores e mais um monte de capitães
Inspeção Geral de Infantaria
Inspector geral, John Hamilton, Ten.Gen.
Dos vinte e quatro Regimentos de Infantaria, dezesseis eram comandados por ingleses. Dos oito restantes, sete tinham como segundo comandante um inglês!
Mais doze Batalhões de Caçadores, dez comandados por ingleses
Depósito Geral de Recrutamento da Infantaria e Caçadores
Inspetor geral, Richard Blunt, Marechal de Campo
Cor. John Watling
Regimentos de Cavalaria
Dezesseis Regimentos, um só comandado por ingleses
Depósito Geral de Recrutamento da Cavalaria
Com. Cor. John Browe e Ten. William Leach
Marinha de Guerra
Nove Chefes de Esquadra, dos quais cinco no Rio de Janeiro, vinte seis Chefes de Divisão, vinte e um no Brasil, cinquenta e cinco Capitães de Fragata, mais quarenta e cinco no Rio de Janeiro, e um “mar” de outros oficiais.
Tudo isto além de muita outra gente colocada especificamente no Brasil.
Com toda esta parafernália, e os ingleses estavam unicamente interessados em manter Portugal como base para protecção das suas bases no Mediterrâneo, como Gibraltar, ameaçada pelas forças de Napoleão, e a prova desse desprezo pelo “pequenino aliado”, está por exemplo em permitir que as tropas francesas ao retirarem do país, vexadas, após as derrotas que sofreram, saqueassem igrejas, conventos, palácios, etc. “Essas coisas” não preocupavam o senhor Wellington. Portugal que empobrecesse...
A Universidade de Coimbra, tinha a seguinte estrutura
O Reformador Reitor, o Bispo de Coimbra, e o Conde Arganil que vivia em Lisboa.
Mais um Cancellario, um Vice Reitor e um Secretário da Reforma que vivia também em Lisboa.
Na Faculdade de Teologia, oito lentes, mais sete substitutos e dezesseis “oppositores matriculados” *;
Na Faculdade de Cânones, oito lentes e oito substitutos e quinze “oppositores matriculados”;
Faculdade de Leis, nove lentes, sete lentes substitutos e oito “oppositores”;
Faculdade de Medecina; seis lentes, quatro substitutos e seis “oppositores”, entre este os “demonstradores” de Anatomia, em Lisboa (!), e de Matéria Médica;
Faculdade de Matemática, sete lentes, três substitutos e quatro “oppositores”
Faculdade de Filosofia: cinco lentes, dois substitutos e cinco “oppositores”
Real Colégio das Artes
Professores de Filosofia e moral, Antiguidades e história, Rhetórica e Poética, dois de Língua grega, dois de Língua latina, além dois outros sem função anotada, mais seis substitutos;
Lisboa tinha cerca de setenta médicos e quase cem cirurgiões! Negociantes “nacionais” no Rio de Janeiro eram cerca de duzentos!
Podiam indicar-se mais um imensa quantidade de números de ocupações que hoje nos parecem absurdas, porque produzir-se... produzia-se muito pouco!
Foram complicados aqueles tempos... e continuam ainda hoje! A diferença é que hoje não são as ordens religiosas e a imensidão de militares “penduras” que empobrecem o país, mas a sua substituição por uma democracia partidária, que permite a uns quantos da camarilha que esbanjem, destruam e roubem o quanto quiserem, enquanto a miséria, que é visível, cresce nesse velho torrão lusitano.
* Oppositores – Eram os candidatos ao lugar de professores. Possivelmente doutorandos, estagiários.
Nos finais do séc. XIX e nos primórdios do século XX surgiu, na então Vila de Alcobaça e nas suas freguesias concelhias, um núcleo fortemente imbuído de ideais republicanos que pretendia implantá-los no País, sobretudo após a intentona de 31 de Janeiro no Porto.
Em vésperas do I Centenário da Proclamação da República em Portugal, aos 05.10.1910, sou levado a supor que nenhum português poderá ficar indiferente a essa efeméride que, com seus altos e baixos, perdurou 100 anos.
Implantado o regime político, os fautores da República deram à Nação uma Constituição que tem sofrido sucessivas e periódicas beliscaduras ao sabor dos políticos, com outras ainda previstas para os próximos meses.
Em Alcobaça, o 5 DE OUTUBRO DE 1910 foi calorosamente saudado pelo povo sob a batuta das cabeças pensantes da sociedade civil cisterciense. Como a História nunca desmente os factos, mas só os aprecia na sua balança, tanto a fundação do Partido Republicano (1873) como a malograda intentona do Porto (1891), haviam contribuído para a formação do núcleo republicano em Alcobaça acima mencionado.
Urge, portanto, não deixar de apontar aqui os nomes dos proto-republicanos com seus dados biográficos sumariados, sem qualquer intuito de ferir as susceptibilidades seja de quem for.
Com essas premissas, vão em seguida apontadas essas individualidades. Ei-las numa arrumação da sua senioridade:
- JOSÉ EDUARDO RAPOSO DE MAGALHÃES (1844/1942). Era natural da Vila de Alcobaça, frequentara as Faculdades de Filosofia e Matemática em Coimbra, mas fora diplomar-se em Lisboa como Engenheiro Militar. Em Alcobaça dedicara-se à agricultura com certo sucesso e paixão. Os fautores da República nomearam-no o 1º Governador Civil do Distrito de Leiria;
- JOÃO CUPERTINO RIBEIRO (1846). Oriundo de Pataias e formado pela Escola Médica de Lisboa, evidenciara-se como um distinto perito nos domínios de neurologia e psiquiatria. Fora um ferrenho político republicano que participara na 1ª Vereação Republicana de Lisboa;
- AMÉRICO LOPES DE OLIVEIRA (1878/1954). Foi um apreciado jornalista, pintor e político republicano. Era natural de Alcobaça e formado pela Escola Comercial de Lisboa e pela Escola Nacional das Belas Artes (Pintura). Fora um dos fautores da 1ª República e Co-Fundador dum semanário – O REPUBLICANO, de Alcobaça - juntamente com Raul Proença, além de dois outros jornais políticos em Lisboa. O citado jornal O REPUBLICANO fora um grande paladino dos ideais da República em terras de Alcobaça;
- J. CUPERTINO RIBEIRO (s.d.). Conseguira fazer-se eleito Deputado à Constituinte pelo Círculo de Alcobaça (Junho/1911) e, mais tarde, passara a ocupar um assento no Senado da República (1914). Consta que era natural de Pataias;
- JOÃO EMÍLIO RAPOSO DE MAGALHÃES (1884/1961). Nascido em Alcobaça, formara-se em Filosofia (1907) e Medicina (1910), sendo depois designado Professor Catedrático em Coimbra onde regeu a cadeira de Patologia Cirúrgica até 1917. Foi um homem notável que exerceu vários e importantes cargos como os de Administrador da SACOR, da Seguradora FIDELIDADE e do Banco de Portugal. Diz-se que ele fora um autêntico democrata e um convicto republicano.
Não me ocorrem à mente outros proto-republicanos cistercienses, pelo que dou por terminado este breve apontamento histórico, já que outros assuntos em mãos exigem minha atenção imediata dada a precariedade de vida nessa fase de adiantado nonagenário.
O Mestre da Galileia inicia um novo Eixo da História
Deus não encarna numa Cultura mas no Homem
“Mestre, vimos um homem a expulsar demónios em teu nome e procuramos impedir-lho porque ele não anda connosco…” – “Não o proibais… Quem não é contra nós é por nós…”. “Se alguém escandalizar algum destes pequeninos…melhor seria… o lançassem ao mar”. Se a tua mão…, se o teu pé…, se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena…” Mc 9,38-43.45.47-48 (1)
Dois pontos de referência: o Homem é mais que ele mesmo, é tornar-se.
O velho Adão (Homem) significa a separação de Deus; o novo Adão (Jesus Cristo) significa a união n’Ele. O mestre da Galileia explica a diferença aos seus discípulos.
Para se ter acesso intelectual a este texto é necessário ter-se em conta o contexto social em que foi proferido. O texto enquadra-se na disputa que havia entre os Judeus defensores da tradição antiga de Moisés e os Judeus seguidores da Boa Nova de Jesus (N T). As disputas eram por vezes violentas e escandalosas. Era o embate duma tradição autoritária institucionalista e legalista, fechada em si mesma (AT – aqui o Homem é apenas objecto, destinatário de salvação) com uma visão radicalmente nova, aberta a todo o ser humano, em que o Homem é agente (NT- aqui o Homem é sujeito activo, receptor e emissor de salvação – possui o gene divino) sendo, nesta, o Homem e Deus o centro de tudo, num processo de evolução humana até à estatura do protótipo Jesus Cristo (JC). (2) Deus não encarna num livro mas no Homem. (3).
Um outro elemento do contexto está na discussão, entre os discípulos, de quem entre eles seria o maior. Não tinham percebido a nova maneira de estar e ser na nova ordem humana e social JC. Nela a dignidade vem de baixo, surge do servir, do interior onde se encontra o germe divino a desenterrar numa atitude de louvor a Deus bem condensada no Magnificat.
A atmosfera de competição religiosa, inveja, intolerância e do escândalo provocado levam Jesus a ter de explicar, de forma clara, o que ali estava em jogo: duas mundivisões quase antagónicas na maneira de entender o mundo, Deus e o Homem (de notar que no AT havia a vocação messiânica que desagua no JC, o problema estava nas diferentes facções e vivências; ao falar aqui de AT refiro-me à lei petrificada e alienatória que obriga as pessoas a terem medo e a andarem de cabeça baixa). Também os seus discípulos se embrenhavam nos conflitos, por vezes, ainda com o espírito velho e isso provocava escândalo entre os fiéis mais frágeis, aos “pequeninos” na fé. De facto, os discípulos queriam reservar para si a patente JC e construir muros, tal como os “fariseus„ faziam. Ainda não tinham compreendido que a porta de acesso ao divino e ao humano é o Homem no JC e não uma mera doutrina/lei.
Jesus emprega uma linguagem simbólica e usa nela as imagens de expressão da época.
Embora o radicalismo das imagens pareça ser uma hipérbole, as metáforas usadas querem incutir no discípulo a seriedade e a radicalidade da nova maneira de ser e definir a Realidade e o Homem (democracia humana radical - eclésia). Nas metáforas, aqui empregadas usa-se o órgão pela função que desempenha (método de comunicação muito usado na Bíblia). As mãos, os pés fazem aquilo que se vê e que é natural a partir duma visão antiga legalista, opressora da pessoa e da liberdade individual. Por isso é preciso cortar radicalmente com a visão/olho e os meios/pé e mão que levam à sua realização. Na lei há uma mão (agir velho), um pé (submissão: porque Jesus é contra o domínio lava os pés dos discípulos), um olho (visão/mentalidade velha), que não pode ser assumido na Boa Nova; chegou a hora de usar o olho divino.
Jesus não manda lançar fora os dois olhos, as duas mãos, os dois pés na Geena. Sabe que a realidade se expressa de maneira bipolar e por isso escolhe exemplos de órgãos duplos. Isto porque a pessoa consta de duas componentes, a materialista e a divina. Trata-se aqui de deitar fora a parte má de nós. Aquela que nos impede a salvação e o acesso ao bem. Na nova visão do mundo iniciada em e por J C há uma dimensão trinitária, não apenas a dualista. Todos são chamados a sacrificar algo. O sacrifício por maior que seja ainda é pequeno comparado com o mais importante que é o reino de Deus e a tragédia da catástrofe que seria tornar-se lixo.
Também não chegam as obras porque também estas podem acontecer numa relação de objecto-sujeito e não de sujeito-sujeito (A ortodoxia deve ceder a uma ortopraxia relacional pessoal). Esta implica uma relação sujeito-sujeito (à imagem da relação entre Jesus e o pai no JC). O Homem novo é fundamentalmente desobediente ao ambiente porque é filho de Deus e não da lei.
O Filho do Homem quer reiniciar a criação e estabelecer uma nova ordem e uma nova mentalidade em certo paradoxo com a tradição. O que estava em questão não era a passagem duma crença para outra nem duma ideologia para outra. O que estava em questão era a destruição dos muros elaborados para a subjugação do Homem e em benefício de alguns. Tudo o que prejudica o desenvolvimento do Homem deve ser sacrificado. As coisas não têm valor se não servem o Homem. A grande viragem axial da História iniciada pelo JC é o reconhecimento (consciência nova) que o novo Homem se encontra no centro do ser, na divindade. Agora não se trata de descobrir Deus fora porque ele se encontra dentro, como se verifica no JC. Tarefa do Homem é integrar em Deus a sua parte de fora. Por isso o Cristianismo é muito mais que uma religião, não podendo, por isso, ser reduzido a uma cristandade, nem deixar-se abusar tornando-se preparador de ovelhas submissas para uma sociedade política e económica que se expressa mais pela exploração do Homem do que pela sua libertação.
A mudança (metanoia) não pode acontecer sem o corte total com a maneira de pensar e agir normal (habitual). A dor que custa o cortar com o passado, com o homem velho, não é nada em comparação com a nova vida. O Homem novo passa a ser fonte de vida, deixando de beber a água menos límpida trazida por outras vias/mentalidade patriarcalista proveniente duma sociedade de tribos ou de ideologias arrogantes. A pessoa nova é filha de Deus e não apenas adepta ou súbdita! A filiação divina concede a todo o Homem, por natureza, a dignidade de participar na divindade e tornar-se também obreiro de salvação. As estruturas exteriores são condicionalismos necessários mas a purificar também. O Homem, para entrar nesta nova ordem do Homem e da criação (novo eixo da História, nova infra e supraestrutura), terá que mutilar muito do passado e iniciar uma mudança de atitude. O Homem novo já não se restringe à verdade empacotada na roupagem da lei ou da cultura porque a verdade acontece na pessoa livre e sem medo de Deus nem do diabo. O valor da lei e da cultura, se não é contra o Homem serve de referência, podendo tornar-se numa pedagogia/liturgia de iniciação. Todos nós precisamos duma referência e esta implica também o reconhecimento da eclésia (Deus, a Realidade não é só pessoa mas também comunidade!); se não fosse a Igreja com o seu pecado, por muito estranho que pareça, (até o espírito precisa dum corpo limitado!) a cristandade não teria passado dos primeiros séculos e da vivência de pequenos grupos. Através da culpa e nela conseguiu afirmar-se no mundo entre sociedades também elas a viver da culpa (“Oh felix culpa”- reconhecia Paulo!) Sem a culpa teríamos perdido a memória! Ela faz-nos conscientes e abre-nos a porta de entrada para o JC. O seguimento do JC exige a auto-renúncia (deixar o homem velho) para assumir a atitude do JC e assim se tornar no sal da terra. Por isso é preciso cortar o lixo em nós.
Geena era a lixeira de Jerusalém; o fogo dessa fogueira era alimentado pelos restos (lixo) não aproveitáveis, aí lançados pelos moradores da cidade.
Jesus, nestas conversas com os discípulos, procura iniciá-los na nova mística (no novo Adão) que está a irromper na nova concepção da realidade na natureza JC e na sua comunidade. Ele está muito preocupado com o escândalo que uns e outros dão aos “pequenos na fé” ao defenderem posições numa práxis ainda do velho Adão.
Jesus corta com um Deus senhorial, que legitimava, consequentemente, todos os senhorios sociais e humanos. O lugar de acontecimento divino não é já a sinagoga, a lei nem a moral de costumes. O lugar do acontecer divino passa a ser o Homem, a terra. Deus desce à terra (encarnação!) e não ao templo nem a uma cultura, como era dantes (deslegitimou toda a cultura ou ideologia que se arroga para si o monopólio da divindade; neste sentido, também atitudes senhoriais da igreja petrina, e especialmente o Islão são um regresso a um “antigo testamento” legalista). Esta é a grande revelação do cristianismo. Deus entra no mundo pelo Homem, pelo JC e o acesso ao divino e ao humano é agora o Homem, através do seu protótipo e da natureza JC. As instituições, as leis, os gurus e as autoridades perdem a sua relevância. O ser humano, na convergência do JC atinge agora a sua maioridade, deixa de ser criança e de ser escravo do exterior. Nos nossos genes trazemos a divindade e a materialidade, temos uma personalidade múltipla. Daí a necessidade duma aprendizagem pedagógica. Por vezes o espírito encontra-se enterrado mesmo no fundo de nós. Necessita da ajuda dos irmãos (eclésia) e do Espírito Santo para adquirir consciência e realizar a natureza JC. A dignidade não vem do cargo nem do serviço mas do servir com a consciência de ser verdadeiramente um membro da família de Deus a realizar o Seu reino. Não há mestres, todos estão vocacionados a ser caminho, verdade e vida em serviço e interacção com o JC. Mesmo aquele que se usa de Jesus para expulsar os diabos, se o faz no seu espírito isto é suficiente porque o novo reino, não se confina à pertença a este ou àquele grupo, é uma atitude de tudo em todos num esforço comum de assumir a natureza JC. Na resposta que deu aos discípulos, Jesus condena a sua mentalidade de arame farpado, apontando para a tolerância do bem noutros ambientes. Não é relevante o religioso ou o profano, qualitativo é o serviço do Homem, ao Homem à medida do JC. Há muitos cristãos anónimos que actuam no espírito de Cristo e muitos cristãos registados que não entenderam o espírito (natureza) de Cristo, isto é, a realidade que são nEle. Há que aceitar a diferença, todos nos encontramos a caminho… A nova ordem não se delimita pelo muro das definições ou pertenças mas pela consciência da filiação divina. A nova orientação não é o templo nem a lei mas o Homem e em todo ele se encontra enterrado um tesouro a descobrir.
A nova ética é estar em serviço, não servindo nem sendo servido. Agimos todos para o bem na tarefa de realizar o JC em nós e no mundo. O JC não pretende substituir um sistema antigo por outro sistema. Ele sabe que os sistemas se definem pelo poder que legitima a violência entre si e contra terceiros. Por isso o JC aposta apenas no Homem, na pessoa humana, que é vítima de si mesma, das estruturas, da lei e até da moral. (Esta é uma razão porque a Igreja apela à transformação do homem a nível individual não se pondo à frente de revoluções) Na nova ordem do mundo e do Homem não há uns a dar ordens e outros a cumprir, nele todos são filhos divinos em atitude de servir uns aos outros no espírito de uns nos outros. O ajudar o outro é ajuda a mim na construção do nós. Se todos os filhos do rei são príncipes, todo o ser humano é príncipe na realeza divina. Por isso não pode haver escravos nem senhores, apenas filhos. Não se trata de se procurar a salvação mas de salvar-se salvando em comunhão com o JC no amor do Paráclito.
Com JC o Homem alcançou a sua maioridade e plenitude (transformação do velho Adão no novo Adão), tendo de se regenerar a partir de dentro, numa caminhada do Jesus para o Cristo. No cadinho da nossa vida teremos de expulsar o lixo, aquilo que nos impede de resplandecermos a divindade.
Quem entra na relação com JC encontra-se na fonte da vida que é o Paráclito, passando este a agir nele. JC quebrou os muros do eu para mergulhar no nós, na divindade, onde cada pessoa assume a consciência de todas as pessoas numa imanência transcendente (corpo místico e realidade trinitária).
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
(1) Para Marcos o acesso a Jesus Cristo só é possível mediante uma mudança radical de atitude e mentalidade, uma visão espiritual (ver com o olho de Deus) porque, num mundo que vive sobretudo de exterioridades e da afirmação pelo contrário, a identidade do Messias encontra-se oculta, precisando duma pedagogia especial, duma iniciação (catarses do intelecto e da prática) para se poder chegar a ela (evolução do Adão velho para o novo Adão). O JC encontra-se na intimidade do céu com a terra, por isso é preciso subir ao céu para poder compreender a terra. Os discípulos, ainda mal iniciados, discutiam acerca do céu e da terra mas principalmente a nível de intelecto e da velha mentalidade (olho do domínio) sem a “vivência” da fé que parte da intimidade/unidade (reino de Deus) e não da divisão.
(2) Resumindo: A mentalidade semita de estrutura autoritária tribal representada num Deus distante e legalista (Moisés, AT) com a subjacente concepção de Homem escravo, objecto de salvação, é contrariada pela nova atitude judaica expressa no JC que reconhece em Deus o pai e em cada Homem um filho de Deus e como tal sujeito de salvação; esta mundivisão desautoriza as instituições e as leis que se afirmem no sustentáculo da velha mentalidade. Esta nova consciência de ser e estar no mundo é de tal modo revolucionária que levou os historiadores a considerar o JC como eixo da História. De notar que apesar de 2000 anos passados ainda prevalece nas pessoas e nas instituições a velha mentalidade. A “democracia de filhos de Deus” em que cada Homem é realmente “príncipe herdeiro”, continua, duma maneira geral a ser uma utopia cristã.
(3) Deus não encarna num livro, numa língua, numa cultura mas no Homem. O centro do acontecimento não está na Bíblia, no Corão, no Templo, na nação, no costume, no chefe mas no Homem, filho de Deus. A lei, a tribo, a nação, a cultura não podem subordinar o Homem individual. Cada ser humano, como filho de Deus faz parte duma realidade maior! A sua dignidade é intocável (Daqui os direitos do Homem). A incarnação/inlibração de Deus no Corão constitui um retrocesso histórico; por isso continuam a subjugar o Homem à sua cultura. Com JC a referência de pensamento religioso passa a ser uma pessoa e não um abstrato, um constructo. O organigrama de pensamento e social tem de ser elaborado ao contrário, pondo a pirâmide ao contrário. Pensar o eu a partir do nós, do nós divino.
Uma anedota histórica, contada por Eduardo de Noronha em "O Rei Marinheiro" (D. Luís I):
O Congresso de Viena, aprazado em seguida à queda de Napoleão I, reuniu na capital austríaca quase todos os soberanos da Europa. Cada monarca dos assistentes ao congresso era hóspede de um membro eminente da aristocracia austríaca. Um destes príncipes oferecera um banquete para o qual haviam sido convidados todos os monarcas e o barão de Rothschild, mas o banqueiro não se assentava na mesma mesa que os reis, senão noutra mesa ao lado. Isto não impediu que cada soberano se levantasse da sua cadeira para ir saudar o milionário. A única excepção fê-la o rei da Prússia, mais tarde Guilherme I, da Alemanha. Alguém atreveu-se a perguntar-lhe por que não o tinha ido cumprimentar, como os demais.
- Ah! Não o cumprimentei? Bah! Talvez por ser o único que não lhe devo dinheiro.
Moral da história: Como são soberanos aqueles que não devem!
... E foi assim que a Europa devedora haveria de perder-se!!!