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A bem da Nação

HISTÓRIA DA IMPUNIDADE

 

 

De onde nascem as revoltas? Chega sempre o momento em que os governos – governos fechados, impunes, corruptos – enfrentam multidões em fúria a que se juntam outras multidões em fúria. Governos que, ou acabam por fugir à força como fez Ben Ali na Tunísia, ou perdem a bússola, incapazes de estancar a rebelião nas ruas, como […] Hosni Mubarak […]. "O catalisador indispensável é a palavra. Por isso, mais do que petardos ou estiletes, são as palavras – palavras descontroladas, circulando livremente, subterraneamente, rebeldemente".

A liberdade de expressão tem sido uma ficção no Egipto. Como no resto do mundo árabe. O controlo da imprensa, a perseguição dos dissidentes, o condicionamento do espaço público são fenómenos banais. Publicam-se mais livros na Grécia, lembra Anne Applebaum, do que em todos os países árabes. O que pode fazer uma população jovem neste sufoco? Pode usar o Twitter para espalhar mensagens, ideias e fotografias. E o que faz o Governo logo que toma conhecimento da ameaça? Fecha tudo; proíbe o acesso à Internet; limita o telemóvel; prende jornalistas. Uma ilusão. Se quiserem mesmo protestar, aqueles jovens arranjarão maneira de o fazer. "É a autoridade que provoca a revolução. Isto ocorre quando um sentimento de impunidade toma conta da elite: Estamos autorizados a tudo, podemos fazer tudo. Por algum tempo parece mesmo que eles podem fazer tudo. Escândalo a escândalo, ilegalidade a ilegalidade, passam sem punição. O povo permanece quieto, paciente, temeroso. Ao mesmo tempo, guarda um registo detalhado de todos os erros que em determinado momento serão somados". Os tunisinos sabiam da roubalheira do Governo em que se tinha especializado Ben Ali. Sabiam que no regime a impunidade era norma, que eles podiam fazer o que quisessem. Os egípcios também estavam a par do nepotismo e corrupção do país. Sabiam que Mubarak falsificou as últimas eleições, que o seu poder depend(ia) da repressão policial. Eram testemunhas da ostentação da família, num país em que 40% vive com menos de dois dólares diários. Bem podia Mubarak criar uma aparência de aprovação popular, bem podem os media do Estado ignorar os protestos do Cairo. Podemos resistir a tudo, excepto à humilhação. "Que foi que eu fiz", pergunta o governante, em derrota. "O que é que lhes deu na cabeça assim tão de repente?". Foi isto que ele fez: Ele abusou da paciência do povo." Mubarak promete reformas, recompõe o Governo, promove o chefe dos serviços secretos. Mas nada parece apaziguar a multidão do Cairo. Mais um cerco para hoje. Porque não são mudanças formais que a multidão procura. O desafio para Mubarak é restaurar a paciência do povo. Mas como é possível depois de se ter abusado? "A História conhece dois tipos de revolução. A primeira é a revolução por assalto, a segunda a revolução por cerco. O sucesso da revolução por assalto é decidida no primeiro ataque. Uma revolução por cerco é diferente; aqui o primeiro ataque é geralmente fraco. Mas os acontecimentos aceleram. Mais pessoas tomam parte. O sucesso da revolução por cerco depende da determinação e resistência dos rebeldes. Mais um dia. Mais um golpe." O que ditará o sucesso ou insucesso dos protestos é a intensificação da revolução por cerco. Dizem os repórteres que nunca, em ocasiões anteriores, a polícia de Mubarak foi tão ineficaz em reprimir. E se os polícias engrossarem em massa os manifestantes, aí sim, teremos atingido o ponto de não-retorno. O cerco destruirá a autoridade do regime.

"O xá deixou ao povo a escolha entre a Savak e os mullahs. E eles escolheram os mullahs". No Irão de 1979 milhares de iranianos educados estudavam na Europa e nos EUA. Não queriam regressar para a Savak (a polícia do xá). No Egipto, os resistentes são uma população jovem que estuda e vive no país. O que querem eles ainda não sabemos. E não querem, ou muitos não querem, a Irmandade Muçulmana ou líderes de fachada. Querem, para já, existir.

(Todas as citações pertencem ao livro de Ryszard Kapucsinski, Shah of Shahs, sobre a revolução no Irão em 1979.)

 

 Pedro Lomba

 

 

Público, 2011-02-01

 

(Adaptações assinaladas apenas para transformação do presente em pretérito, HSF)

 

 

COMENTÁRIO:

 

O mundo é velha cena ensanguentada

Coberta de remendos, picaresca,

A vida é chula farsa assobiada

Ou selvagem tragédia romanesca.

 

Disse-o Cesário, numa boa síntese, aplicável a estes e àqueles. E as causas estão na loucura dos que se assumem como poderosos e aos quais se permitem todas as manigâncias do poder, por  longo tempo impunes. Mas o desenvolvimento do progresso faz despertar para a consciência dos humilhados e lá se vai a impunidade dos poderosos. Nem sempre, contudo,  acontece isso, e a farsa segue.
 Berta Brás

HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA

Edição completa em 8 volumes

Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

 

Resumo: Publicada em oito volumes, a colecção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da colecção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projectos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a colecção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do património cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrónica e objectiva, obtida de dentro do continente. A colecção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direcção de um Comité Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos. 

 

Download gratuito  (somente em português):

 

http://www.unesco.org/pt/brasilia/dynamic-content-single-view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese/back/9669/cHash/d6c86ae49c/

 

 

DEVANEIOS

NA SAGA DOS XÊTES DE GOA (Sécs. XVI/XXI)

 

 

 

XÊTE, XÊTTE e XÊTTY são étimos da língua concani falada em Goa e nas terras limítrofes. Sua transliteração em português deu o étimo SETY, conforme se encontra escrito nos Arquivos da Torre do Tombo, e em inglês gerou o étimo SHETYE.

 

Antes de discutir o tema em epígrafe urge frisar que o Estado da Índia, fundado por Albuquerque em 1510, apenas abrangia os distritos provinciais de Tisvadi (Ilhas), Salcete e Bardez com uma área de c.1044 km2 e assim mantidos até os anos de 1700. Outras nações europeias vieram fundar suas “colónias” na Índia, pelo que Portugal, em defesa e em consolidação do minúsculo Estado da Índia, guerreou os pequenos potentados indianos circunvizinhos, conquistando-os e anexando assim ao seu citado Estado, uma área de 2.655 km2, que foram a origem de sete novos concelhos provinciais: Bicholim, Canácona, Perném, Pondá, Quepém, Sanguém e Satari. Após a invasão de 1961, o Estado da Índia (sem Damão nem Diu) deu lugar ao actual Estado de Goa com 3.702 km2 e que inclui as chamadas “Novas Conquistas” do século XVIII.

 

No plafond histórico descrito, de 1541 a 1630, os indus de Goa, incluindo os Xêtes e ourives profissionais da casta charadó ou outra, tiveram duas opções, a saber: a saída de Goa com seus parcos haveres móveis e seus deuses ou a aceitação da Fé Cristã  pelos jesuítas (Salcete), franciscanos (Bardez) e dominicanos et alii (Tisvadi). Do exame minucioso dos Registos do Arquivo Geral de Goa, compilado por Francisco Paes e depois divulgado e comentado pelo arqueólogo e historiador Panduronga Sacarama Sinai Pissurlencar (f.1969), apurou-se que, de um milhar de indus de Goa cristianizados na citada época, apenas alguns dos Xêtes, ourives profissionais, foram cristãos: Mallu Vittu Xêtty, em Parrá (1580); Vitu Xête, filho de Boguna Xête, em Aldonã (1595); três Xêtes  - Bicu, Logu e Vitu – em Colvale (1595). Não houve qualquer Xête cristão convertido em terras de Tisvadi. Na Província de Salcete, Issara Sety (Xêtte) fez-se cristão em Davorlim (1625) com o nome de Miguel Vaz, enquanto seu pai Marta Sety abraçou o Cristianismo com o nome de Domingos Vaz.

 

Dos Registos do Arquivo Geral de Goa não constam as profissões dos indus cristianizados, ignorando-se no punhado de Xêtes se houve ou não um ourives cristão. Todavia no alvorecer do século XX o filho duma mãe solteira, filha de pai cristão e ourives profissional, natural de Raia, Salcete, recorreu ao Tribunal reclamando seus direitos de filiação, embora ilegítima, com o patrocínio do advogado Soares Rebelo (1873/1922) (Cf. Investigação de Paternidade Ilegítima, Nova Goa, 1902, in Volume IV de Obras Completas, Alcobaça, 2010). Actualmente, todos ou quase todos ourives de Goa são da cepa indu, através do país.

 

 Há quem remonte a ancestralidade do clã Shetye aos anos de 1534/44 e afirme que o seu fundador fora oriundo da aldeia Narve, de Bicholim. Relata-se mais que ele emigrara de Goa para Kholapur no Maharastra, levando consigo seus deuses e os parcos haveres familiares, para escapar à onda de cristianização aí ocorrendo. Desse Sety (Shetye) nasceu na grande Índia uma pequena comunidade com seus membros radicados na Índia, na Europa e até mesmo nos estados norte-americanos de Carolina do Norte, Florida, Louisiana e New York.

 

Os primeiros ourives indus a pisar o solo americano, porém, foram dois inominados e naturais de Taleigão (Tisvadi) que, apanhados a tratar dos seus arrozais inundados pelas chuvas copiosas da monção de 1699, foram presos, julgados e condenados à expulsão de Goa para Brasil como presos das galés, pelo desrespeito dum Edital da Inquisição de Goa proibindo o trabalho braçal em dias domingos. Nessa ocasião também foram apanhados 38 cristãos de Taleigão, de 18 a 60 anos de idade, não-excomungados mas condenados a dois anos de galés ou da Casa de Pólvora (onde eram frequentes as mortíferas explosões). Seu crime fora o desrespeito do Edital da Inquisição. Todos esses 43 goeses foram condenados em nome da sublime religião do Salvador da Humanidade. O tempora! O mores!

 

Alcobaça, 27.08.2012

 

 Domingos José Soares Rebelo

 

A FRANÇA QUE É A FRANÇA

 

 

Quem leu os principais jornais europeus de ontem (2012-05-07) ficou com uma ideia satisfatória das eleições que fizeram de um eterno adjunto, Monsieur Hollande, o novo Presidente de França. Porque a verdade é que mal se falou deste homem que promete ser um "Presidente normal", seja lá o que isso for. Na hora da mudança toda a gente preferiu apontar baterias para o derrotado. "Adeus Sarkozy", "Não voltes", eis alguns títulos. O Presidente que a França não irá lembrar, a página que mais de metade tenciona esquecer, uma figura "postiça", "pindérica", "complexada", "burguesa".

 

A adjectivação usada contra Sarkozy ajuda a perceber aquilo que se passou. Neste momento, o Tozé Seguro da França não desfez a imagem de ser um candidato de recurso. Acontece que grande parte dos franceses quis expressar a sua aversão a um só homem: o pequeno, isolado, napoleónico Nicolas Sarkozy.

 

Não houve na História da V República francesa Presidente tão contestado, tão divisório como Sarkozy e é interessante pensar porquê. Talvez só recuando ao referendo que De Gaulle perdeu em 1969 ou à derrota de Giscard d"Estaing em 1981. Sarkozy tornou-se em cinco anos um político odiado, à esquerda e à direita, o que explica a provisória, mais que provisória, união das esquerdas francesas para o derrubar. Não foram a crise financeira e a austeridade que liquidaram Sarkozy; nem a aliança tácita com Merkel. Na verdade, se fosse por isso o antigo Presidente tinha motivos para ganhar as eleições. Apesar do seu nível crescente de endividamento, a França tem sabido resistir à crise, não teve um ano de recessão e, se não demonstra a robustez económica da Alemanha, isso não se deve a nada que Sarkozy tivesse feito.

 

E, no entanto, ele passou de meteoro ao mais impopular dos presidentes. Abandonado pela direita, repudiado pelos inimigos, mesmo os intelectuais esquerdistas que seduziu em 2007 desta vez preferiram o silêncio e a reclusão. Essa solidão do poder que Sarkozy parece personificar acentua ainda mais o seu perfil napoleónico, o típico caso de ascensão e queda fulgurantes. Os franceses são peritos em devorar os seus filhos.

 

A primeira razão é pessoal. Como Sócrates por cá, Sarkozy representa(va) o típico político gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Um novo-rico da política, comodamente encostado a outros novos-ricos.

 

A segunda razão é ideológica. Nenhum outro presidente francês tentou em vão declarar guerra à herança do Maio de 68. Desde o famoso discurso de 2007, em que Sarkozy verberou os "herdeiros de Maio de 68", a quem acusou de ter imposto "o relativismo intelectual e moral" e o "cinismo na política". Não é impunemente que se toca na religião de 68.

 

A terceira razão é psicológica. Os franceses estão com medo. Com medo de perderem o que têm. Com medo de deixarem de ser a França. Sarkozy? No fundo "era americano", "nem vinho bebia", "nunca compreendeu a França". E a França, como apregoa Hollande, é a França, uma das sociedades mais assistidas do mundo, uma "liderança moral pelo exemplo e pelo progresso". Aqueles que vêem nas eleições francesas um levantamento das massas a favor de uma nova política europeia estão a esquecer-se deste pânico fugitivo dos franceses. Quando Hollande descer à realidade, é com esse pânico que terá de lidar. Vai ficar entre dois mundos, com um país dividido e um sistema político bloqueado. Custa fazer previsões, mas não esperem por um desenlace.

 

 Pedro Lomba

 

in Público, 8 de Maio de 2012

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