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A bem da Nação

A SELECÇÃO DE RICARDO BERGAMINI

 

O CAPITALISMO DO POVO

 

 

A coisa mais importante para os governos não é fazer as coisas que as pessoas já fazem, ou fazê-las um pouco melhor ou pior; é, sim, fazer aquelas que no presente ninguém possa fazer.

Lord Keynes

 

Para o começo de conversa precisamos de uma revolução semântica. A expressão “sector privado” inspira uma conotação de egoísmo e apropriação. A expressão “sector público” transmite a ideia de generosidade. Isso é injusto e inadequado. Mais correcto seria, como sugere o economista paulista Rafael Vechiatti, chamarmos o sector público de “sector coercivo” e o privado de “sector voluntário”.

 

Sempre que se fala em destatização, surge logo a indagação: de onde virão os recursos para o sector voluntário comprar as empresas do sector coercivo? Uma resposta complexa é explicar que:

1) O Governo não gera recursos e sim administra os recursos auferidos do sector voluntário por tributação ou tarifas;

2) Que a poupança do Governo é hoje negativa e o seu défice é coberto mediante sucção da poupança privada;

3) Que, na medida em que o Governo corte as suas despesas, libertando a poupança privada, esta poderia comprar as empresas do “sector coercivo”. Estas, aliás, não nasceram do nada e sim de tributos pagos pelo “sector voluntário”. A velocidade de geração de recursos para a privatização dependeria assim apenas da velocidade da redução do défice público e da libertação das poupanças do sector voluntário.

 

Num sentido fundamental, entretanto, o problema é simples e não exige qualquer despesa. Basta uma revolução conceptual, que pode ser feita por definição legal. O importante, num primeiro estágio, é separarmos o conceito de propriedade, do direito de gestão, diferenciando-se “acções de propriedade” de “acções de gestão”. O Governo é gestor das despesas públicas. Mas não precisa de ser seu proprietário. As empresas públicas devem ser do público.

 

É esse o objectivo do projecto de lei número 139 que apresentei ao Senado Federal, em Junho de 1983, e que ali dorme o sono dos justos, pois as ideias simples são em princípio escandalosas. Nesse projecto prevê-se que o Governo devolva aos cidadãos a propriedade das poupanças deles arrecadadas, mediante a transferência gratuita de acções integradas – boas ou más – que sejam de propriedade da União, suas autarquias e entidade públicas, a um grande fundo de repartição de capital. Todos nós, contribuintes, receberíamos gratuitamente fracções ideais desse fundo. Os dividendos eventualmente resultantes seriam creditados aos quotistas, vale dizer, ao universo dos contribuintes, cujos impostos financiaram originalmente a criação dos elefantes estatais. As acções ficariam em custódia num organismo central, que poderia ser a Caixa Económica Federal, ou qualquer outro órgão suficientemente computorizado, que manteria a escrituração da carteira de acções dos beneficiários. Enquanto mantidas em custódia, essas acções seriam de propriedade, porém não de gestão. O poder de voto e de gestão continuaria, como no presente, nas mãos dos administradores governamentais, até que essas acções doadas se transformassem em acções vendidas ou negociadas, através dos mecanismos normais de Bolsas de Valores ou de licitação de acções. O Projecto de Lei acima citado prevê que a alienação das acções ou a retirada da custódia se faça gradualmente (à razão de 5% ao ano), a fim de não se congestionar o mercado de valores.

 

Se a privatização da propriedade pode ser resolvida, resta o problema da privatização da gestão, indispensável para aumento da produtividade global do sistema. Esta continuaria a ser buscada através dos programas correntes de destatização, por venda em bolsa ou licitação. O importante seria abandonarmos a ideia – usada pelos estetizantes para sabotar a destatização – de que o Governo tem que reaver integralmente o capital investido. Em muitos casos, os investimentos foram super-dimensionados, com custos financeiros tornados proibitivos pela lerda execução, de sorte que seria irrealista esperar vendê-las senão pela rentabilidade real ou esperada do património, aferida segundo as regras do mercado.

 

O programa de “repartição do capital” inauguraria imediatamente o capitalismo do povo. O programa de “destatização” aumentaria gradualmente a eficiência de gestão, além de trazer receitas, que o Governo utilizaria para sanar aflitivas carências básicas – analfabetismo, endemias e epidemias, desnutrição e insuficiência dos serviços básicos de infra-estrutura. Não faz sentido o Governo ter postos de gasolina quando não tem postos de saúde, ou competir na fabricação de computadores quando não tem dinheiro para cuidar da malária...

 

Se há hoje uma constatação universal é a da falência do Estado-empresário. Até mesmo os regimes socialistas sentem a rigidez e o desperdício dos sistemas centralistas. No universo das estatais brasileiras, o julgamento da eficiência é dificultado porque, contrariamente ao previsto no art. 170, parágrafo 20 da Constituição Federal, elas desfrutam de privilégios de mercado ou vantagens fiscais inacessíveis às empresas privadas. A Petrobrás, por exemplo, é lucrativa, mas desfruta de um monopólio que impede a aferição de eficiência. O Banco do Brasil é lucrativo, mas recebe recursos trilionários da Conta de Movimento do Tesouro a juros simbólicos, e colecta depósitos compulsórios de entidades públicas, sem ter que pagar os altos custos de captação. A Vale do Rio Doce e Usiminas, que operam super-avitariamente e sem subsídio em mercados competitivos, figuram talvez entre as únicas empresas sobre cuja eficiência não pairam dúvidas. Os grupos Telebrás e Eletrobrás não podem ser julgados porque operam em condições monopolísticas, caso em que o lucro pode resultar de manipulação tarifária e não eficiência competitiva.

 

O importante é acentuar que o Ministro Dornelles e Roberto Gusmão, que pregam a privatização por sentirem na carne os abusos dos elefantes enlouquecidos do sector coercivo, não precisam de se preocupar inicialmente com a carência de recursos para a privatização. Podemos privatizar imediatamente a propriedade por transferência gratuita, e, mais gradualmente, o voto e a gestão, pela venda convencional das acções à medida que o mercado as absorva. Mas mesmo o primeiro passo tem consequências psicológicas importantes. Sentindo-se proprietário, ainda que em fracções minúsculas, das empresas públicas, os contribuintes interessar-se-iam por as fiscalizar, na esperança de algum dividendo, e para isso organizar-se-iam em associações civis a fim de se manifestarem nas assembleias-gerais. Os gestores, sentindo-se também co-proprietários, ainda que microscópios, talvez deixassem de considerar os dinheiros públicos um bem de ninguém. E o lucro da empresa passaria a ser considerado o que realmente é, um prémio do desempenho e não uma secreção de cupidez capitalista. É uma perfeita imbecilidade dizer-se que não se pode privatizar as estatais porque elas são “património do povo”. Precisamente por isso é que devem ser privatizadas, na forma indicada no Projecto de Lei nº 139. Para que sejam do povo. Hoje são dos tecnocratas que às vezes delas abusam, ou dos políticos que as desfiguram. O povo não tem vez....

 

(11/08/85)

 

Roberto de Oliveira Campos*

 

 

* Economista, diplomata e político A sua carreira começou em 1939, quando prestou concurso para o Itamaraty indo servir na Embaixada em Washington; cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra.

 

ENTRE A GRANDEZA, A EUFORIA E A MENTIRA!

 

  (*)

 

Não há dúvida de que o Brasil vive momentos de grande euforia. E de grandeza. Euforia (do grego euphoria – força para aguentar) e esta “grandeza” convém esclarecer que é grande, enorme, desmedida, a vergonha, os compadrios, as burlas, a corrupção, e o total desprezo pela justiça. Nisto é que está a sua grandeza!

 

CPIs criam-se muitas, mas levam anos e anos para acabarem arquivadas, esquecidas e/ou os seus canalhas ilibados.

 

Agora fala-se muito numa retumbante CPI envolvendo um monte, sim, um monte de senadores, deputados, governadores e outros quejandos que, através dum “bicheiro” (os donos do “ilegal” jogo do bicho que não precisam prestar contas ao fisco!) têm levado biliões em superfacturamentos, lobbys, e outras manobras de enriquecimento vertiginoso.

 

Mas já se antevê que tudo acabe em pizza porque o indiciado bicheiro e mais o seu compadre senador, detém dossiers completos de
cada congressista que, em teoria, os irá questionar. E como tal... quem se aventurar a tentar entalar o compadre vai ter toda a sua vida colocada em vitrina de luxo, e passar “mocinho a bandido”!

 

Mas não há grande perigo, até porque ambas as casas, câmara de deputados e senado federal, para evitar mais lavar de roupa suja, nojenta, decidiram acabar com os respectivos conselhos de ética! Ética para quê? Para complicar a vida deles próprios? Jamais.

 

Há pouco mais de um mês o glorioso eminente e eterno senador josé marimbondo, deu declarações (04 de Abril), justificando a medida e dando as razões que a motivaram: “Olha, me pareceu o melhor a se fazer, porque todo mundo está mesmo pendurado. Quem não está pendurado na justiça, está pendurado pelos dossiers que os pares possuem. Aí resulta que nunca conseguimos preencher as vagas. Ademais, ninguém se sente a vontade julgando um par. Realmente, quem somos nós para julgar? Aquela coisa de jogar a primeira pedra e tal. Se o suplicante for do partido do suplicado, então todos declinam alegando conflitos. Era uma dor de cabeça só.... E se por nada fosse, é a primeira vez, depois de oito mandatos, que eu vejo unanimidade nas duas casas!”

 

Que brilhante raciocínio! Que integridade. Que moral!

 

Mas isto ainda é pouco. Não há nem uma semana o outro eminentíssimo sapo barbudo, que ainda se julga (e em boa parte é) dono cá do
pedaço, chantageou um juiz do SUPREMO Tribunal Federal, para que fosse adiado o julgamento do famoso caso do “Mensalão” que foi uma das maiores escroquerias do seu mandato, e que ele “nunca viu nada”! ”Era melhor esperar mais uma ano”; disse o super honoris causa de todo o mundo, ex-presidente deste maravilhoso país, que enriqueceu loucamente, deixou a família milionária e mais os seus correligionários! Porquê esperar mais um ano? Porque há dois juízes que passam à aposentadoria e os novos... talvez possam lá ser colocados por ele, ou melhor ainda caducar o prazo.

 

Isto é a esculhambação total. O chamado fim da macacada! A imoralidade oficializada.

 

Como soam cada vez mais alto as palavras de De Gaulle!!!

 

Entretanto os planos do governo são espantosos:

 

- como o PIB no primeiro trimestre não cresceu nem 0,5%, após o cantar de galo do governo afirmando que em 2012 iria crescer 5%, a saída encontrada foi baixar alguns impostos de carros, geladeiras e material de construção, e aumentar o crédito ao consumidor!!!! Maravilha de governação.

 

Um carro que custava 50, agora fica baratíssimo... só 48,5! Um dos pequenos poréns é que há algumas centenas de milhares de carros
encalhados nos parques das montadoras e das distribuidoras, e as vendas, este ano baixaram mais de 15%.

 

Segundo estudos a família brasileira já tem mais de 25% dos seus proventos comprometidos com dívidas. Assim, deixam de pagar as prestações do que compraram e também não há quem compre carros usados. Muitos nem conseguem já “oferecer” o carro desde que o novo dono pague as restantes prestações. A inadimplência aumenta de mês para mês (o último foi de 5%)!

 

- Para ajudar, a Bolsa de Valores já perdeu 15% nos últimos 12 meses e os investidores estrangeiros estão levando a carroça para outras
bandas.

 

- As perspectivas de “voltar a enriquecer” com as exportações é negra porque o mercado mundial está todo ele nas encolhas.

 

Solução: investimento em infraestruturas. Mas pobre Brasil: no último ano não investiu mais do que 0,4% do PIB.

 

Então na educação: pior ainda. É grande o analfabetismo daqueles que “completaram” o ensino básico!

 

Solução? A curto prazo ninguém consegue enxergar. Mais longe, quando os pts conseguirem largar a mamata, e para o governo entrar gente capaz.

 

Mas quando? Deus que é brasileiro deve saber quando. Mas só Ele.

 

Também só Ele sabe quem anda a roubar notas fresquinhas, mesmo dentro da Casa da Moeda. Para quê corromper se ali a fonte é imaculada! Mas roubou pouco... está ferrado. Se muito... aparecerá senador!

 

 

Rio de Janeiro, 31/05/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

(*) The Economist

PROFESSOR LUÍS ARCHER

 

 

 

Escrevo sob a emoção de ter chegado de acompanhar à sua última morada um grande amigo meu, o padre jesuíta Prof. Luís Peixoto Archer, falecido ontem, 8 de Outubro de 2011.

 

O Prof. Luís Archer licenciou-se em Biologia na Universidade do Porto com alta classificação. Mas pouco depois decidiu seguir a carreira eclesiástica, licenciou-se em Filosofia e em Teologia e, ordenado padre, ingressou na Companhia de Jesus. Anos mais tarde, quando se encontrava a leccionar no Colégio de Santo Tirso, os seus superiores decidiram que voltasse à universidade.

 

Foi aí que o encontrei, pelos fins de 1963 ou princípios de 1964, como Assistente, então a trabalhar na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto. Algum tempo depois foi para os Estados Unidos, onde em 1967 fez o doutoramento num sector da Genética que, embora não desconhecido dos portugueses, não tinha ninguém a trabalhar nesse campo: a Genética Molecular. (Eu próprio, depois dum Colóquio na Estação Agronómica, para fazer o ponto, para os colegas de outras especialidades, das últimas descobertas nesse campo, publiquei, em 1964, no primeiro número dum jornal de divulgação científica de efémera duração, um artigo intitulado "A base molecular da hereditariedade". Nesse artigo descrevi as novas descobertas, que se iniciaram em 1953 com a descoberta da estrutura molecular do DNA e que culminaram com a completa decifração do Código Genético).

 

Regressado dos Estados Unidos com o seu doutoramento e com um forte apoio da Fundação Gulbenkian, realizou diversos cursos dessa matéria e instalou na Fundação um Laboratório de Genética Molecular. O trabalho desenvolvido foi de grande projecção internacional e foram numerosos os prémios e outras honrarias que recebeu.

 

Com a sua inteligência fulgurante e a sua prodigiosa memória, entrava a fundo em tudo o que fazia, como constatei várias vezes. Foi o padrinho no meu doutoramento Honoris causa e no seu discurso relatou factos e ocorrências de que mal me lembrava.

 

Na fase final, mais do que a Genética - de que me dizia já estar afastado - dedicou-se aos problemas da Bioética, tendo sido o primeiro Presidente da respectiva Comissão Nacional.

 

Teve alguns sérios problemas de saúde. Nas vésperas da homenagem que lhe estava preparada em Vila Real, durante as Jornadas Portuguesas de Genética, pela Sociedade Portuguesa de Genética, então sob a minha Presidência, não pôde estar presente por motivo duma grande cirurgia, a um aneurisma na aorta abdominal. Recompôs-se bastante bem e, embora com alguns outros problemas, continuava com grande actividade e foi uma surpresa o seu falecimento. Dele se esperava ainda muito, mas o destino assim não quis. Eu perdi um Amigo. O país perdeu um cientista de alto nível.

 

 

 Miguel Mota

 

Publicado no Linhas de Elvas de 13 de Outubro de 2011

O PRIMO DO SUL

 (*)

 

Muito se tem falado dos Eurobonds, as obrigações europeias que, para alguns, seriam uma panaceia que resolveria todos os males e que só não foi realizada por culpa exclusiva da senhora Merkel. Na opinião desses crentes, a chegada ao poder do senhor Hollande irá resolver a equação, levando os alemães a aceitarem a receita.

 

Curiosamente, entre o muito que se vai lendo aqui e ali, parece haver falta de informação sobre a natureza dessas obrigações. Pior do que isso, há também muita desinformação. E, por isso, é conveniente descodificar uma palavra que entrou no jargão das conversas de café e das trocas ácidas de comentários nas redes sociais, mas que carece de contextualização.

 

Imagine o leitor, por um momento, que tem um primo que está em dificuldades financeiras. É gente boa, é um rapaz divertido, um estroina, que sempre teve uma atracção fatal pelo consumo, e quando teve uma folga fez investimentos de risco que depois não conseguiu suportar. O leitor, pelo contrário, é um homem regrado, que só gasta aquilo que pode, porventura algo sisudo, mas que cuida dos seus deveres e das suas obrigações.

 

Certo dia, o seu primo aparece a bater-lhe à porta a pedir-lhe auxílio. Já não tem dinheiro para os seus gastos, e só se consegue financiar junto de agiotas. Propõe-lhe então uma visita ao gestor do seu banco, para procurar uma solução. O seu gerente diz-lhe que como o leitor é pessoa de bem e de posses, está disponível para abrir uma linha de crédito acessível aos dois, desde que ambos se responsabilizem solidariamente pelo cumprimento escrupuloso das obrigações assumidas. O leitor quer ajudar o parente mas, quando chega a casa, ouve a sua família, que lhe explica que se aceitar a proposta arrisca a sua fortuna. Pior do que isso, uma vez que se um dos dois não cumprir aquilo a que se obrigou, responde o outro pela totalidade da dívida, Pode pois acabar na mesma posição que o seu primo, se ele não arrepiar caminho e mudar de vida.

 

Ora, este pequeno exemplo serve para explicar o problema que se vive na Europa. O leitor é a senhora Merkel, a sua família é o eleitorado alemão, o seu primo são os países incumpridores da Europa. A proposta que lhe foi apresentada pelo banco é idêntica à da criação dos Eurobonds.

 

Dir-se-á que os alemães beneficiam com a existência do euro e que, por isso, por razões de justiça e de interesse terão de ser capazes de fazer mais do que aquilo que têm feito. Deveriam abrir os cordões à bolsa e investir, em seu benefício, em infraestruturas de que precisam. Esse investimento teria, como vantagem colateral e nada despicienda, um impulso na economia europeia, com impacto directo nos países periféricos que têm excesso de mão-de-obra e que, dessa forma, adquiririam riqueza que, depois, iria ser utilizada a comprar produtos alemães. Ou seja, criar-se-ia um ciclo virtuoso, que estimularia toda a economia europeia.

 

Para voltar ao seu exemplo pessoal, caro leitor, e se a situação lhe fosse colocada, propunha-lhe que só aceitasse ser solidário com o seu primo se ele, pelo seu lado, se comprometesse a cumprir com as regras do jogo. Sendo assim, não virá mal ao mundo se aproveitar a disponibilidade dele, e a sua proverbial capacidade de se ajustar à mudança, para contratar os seus serviços.

 

Verá que desta forma conforta os seus familiares, que são gente desconfiada, mas que serão persuadidos se retirarem um justo benefício da sua generosidade. Compreenderá que a alegria do seu primo é irradiante, e vai contribuir para a sua qualidade de vida. Perceberá que, com o tempo, tudo isto resultará num aprofundamento do espírito de família, e que as diferenças que sempre existirão ente as vossas formas de viver deixarão de ser um ónus, para resultarem num claro benefício para todos.

 

É desta forma que consigo imaginar o aprofundamento da identidade europeia. Com todas as diferenças, é este o continente que temos. Aliás, quanto mais conheço o Mundo, mais o aprecio. Falta, apenas, que sejamos capazes de tirar partido das suas complementaridades e de entender e de respeitar a importância de todas as suas diferenças.

 

1 de Junho de 2012

 Rui Moreira

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=eurobonds&um=1&hl=pt-PT&sa=N&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=oEKiIDG8rB-ewM:&imgrefurl=http://twistedeconotwist.wordpress.com/2011/09/15/goodbye-eurobonds/&docid=mMmtrYKUYdfXJM&imgurl=http://twistedeconotwist.files.wordpress.com/2011/09/eurobonds_13997951.png%253Fw%253D500%2526h%253D354&w=500&h=354&ei=vbrLT7n8DsrL0QWrj9nJAQ&zoom=1&iact=hc&vpx=717&vpy=418&dur=772&hovh=189&hovw=267&tx=193&ty=111&sig=109573699884915906692&page=1&tbnh=116&tbnw=164&start=0&ndsp=20&ved=1t:429,r:14,s:0,i:106

DEVANEIOS

(*)

PADRE GOÊS EXPLORADOR DO SERTÃO AFRICANO

(Séculos XVI/XVII)

I

 

Adams Segued, soberano da Etiópia, resistiu à implantação do Cristianismo do Rito Latino nos seus domínios, de 1577 a 1597, pelos missionários jesuítas. Proibiu o casamento dos etíopes com os portugueses e até mandou prender por algum tempo o Bispo André de
Oviedo. A pregação da Doutrina Cristã do Rito Latino foi suprimida com severas penas aos infractores. Goa enviara à Etiópia três missionários brancos, dois deles descobertos e presos, enquanto o terceiro foi simplesmente martirizado.

 

Para fazer face à situação, Pe. Belchior da Silva, brâmane de Goa, voluntariou-se em socorrer os cristãos minoritários do Rito Latino na Etiópia, embarcando em Setembro de 1597 num barco à vela indiano do porto de Baylur, nas proximidades de Diu, com destino ao porto de Melinde, no Este Africano. Na época, Goa dominava toda a extensão da costa oriental africana, de Sul a Norte.  

 

O missionário goês, de tez morena ou bronzeada, palmilhou todo o sertão do Leste Africano durante penosos oito meses até chegar ao seu destino, em Maio de 1598. Do seu curioso itinerário, fez um relato minucioso nas Cartas endereçadas ao Arcebispado de Goa. Homem de saber e de virtudes não teve dificuldades na sua pregação levando muitos etíopes a aceitar o Cristianismo do Rito Latino. Evangelizou, baptizou e recristianizou muitos etíopes durante longas décadas, fundando e construindo novas paróquias e igrejas até sua morte (s.d.), no olor de santidade. Levado por humildade cristã, declinou a Dignidade Episcopal que lhe fora proposta de Roma, mas aceitou o cargo de Vigário-Geral do Apostolado de Abissínia (1603/04).

 

2

 

Explorador pioneiro do sertão africano

 

Lamentavelmente nunca se fez a divulgação das citadas Cartas enviadas ao Arcebispado de Goa, com circunstanciado relato do que vira nos longos e penosos oito meses de sua penetração no sertão do Leste Africano. Sabe-se que este explorador pioneiro não teve o apoio nem dos Governos nem das Instituições, como sucedeu com os exploradores do século XIX, cujas façanhas andam cantadas e decantadas até aos nossos dias. A História Universal nunca pode ter outra moral que não seja imparcial, enaltecendo o valor, a coragem e o sofrimento dos exploradores de qualquer origem e etnia.

 

Eis a razão de ser deste modesto apontamento destinado a prestar a minha admiração pelo Pe. Belchior da Silva, meu ilustre conterrâneo, que serviu até seu decesso o Padroado Português do Oriente e a Igreja de Roma, num espírito de bem-fazer e de
voluntariado, apenas munido de três armas: Breviário, Crucifixo e Rosário!

 

Quase decorridos uns 250 anos, o sertão africano voltou a ser explorado por seis figuras marcantes da História Universal, três delas estrangeiras e três portuguesas. É de jus que sejam evocadas nessa ordenação convencional dos seus nascimentos e respectivas façanhas. Ei-las:

 

1. David Livingstone (1813/73), médico e descobridor de lagos e de cataratas do sertão africano;

 

2. Henry Morton Stanley (1841/1904), repórter jornalístico e descobridor de lagos e rios;

 

3. Hermenegildo de Brito Capelo (1841/1917), Oficial da Marinha naval Portuguesa, que percorreu o sertão de Angola a Moçambique;

 

4. Verney Lovett Cameron (1844/94), oficial da Marinha Naval Inglesa, que percorreu o interior do sertão da margem do Lago
Tanganica até ao Porto de Benguela (Angola);

 

5. Alexandre Serpa Pinto (1846/1900), participante na Expedição ao Centro da África (1877) que do Bié-Angola  ao Rio Zambeze (1878) percorreu sozinho o Continente passando as cataratas de Vitória, o deserto de Kalahari e as incipientes vilas e cidades de Pretória, Pietermaritzburg e Durban, da África do Sul (1879);

 

6. Roberto Ivens (1850/98), Oficial da Marinha Naval Portuguesa e Chefe da Expedição da Travessia do Continente Africano com Brito Capelo e Serpa Pinto e co-autor do livro «De Angola à Contracosta» (1886).

 

A extensa e arriscada viagem do Pe. Belchior da Silva através do sertão do Leste Africano feita sozinho, sem quaisquer apoios, sem
mantimentos, nem roupas ou cobertores, merece ser considerada como um feito extraordinário a emparceirar-se com os feitos históricos dos acima citados exploradores do século XIX.

 

Alcobaça, 29.05.2012                                                             

 

 Domingos José Soares Rebelo

 

 

Fontes (consultadas):

  • Dicionário Enciclopédico de Língua Portuguesa (2 vls.) -ed. R. Digest, Lisboa, 1992;
  • Goans Abroad and in British Lands (A Study) by D.J.Soares-Rebelo, Mombasa-Kenya,1944;
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Cf.Abissínia), Lisboa, 1946.

      

Fontes (sugeridas):

  • Ethiopia Oriental & Varia Historia de Cousas Notaveis do Oriente por Frei João dos Santos -Évora, 1609; Histoire de L`Éthiopie Orientale, traduite de portugais de R.P. Jéan dos Santos, réligieux de S. Dominique, 1684;
  • Quadros Biographicos dos Padres Illustres de Goa (Estudos) em 2 vs -Rangel, Bastorá, Bardez, Goa pelo Mons. Francisco Xavier Expectação Barreto (Cf. Volume II –Pe. Belchior da Silva),  1899/1907.

(*)- Gorgora Nova, Etiópia, edificada por portugueses v. http://www.google.pt/imgres?q=eti%C3%B3pia&um=1&hl=pt-PT&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=JSx7L2_dXZxtQM:&imgrefurl=http://olavilnius.blogspot.com/2009/04/7-maravilhas-gorgora-nova-etiopia.html&docid=xVL2uTA4LUAvkM&imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_LhqfVW4bsMc/SeeWYwAwVII/AAAAAAAABRM/NUQlv7zDnmE/s400/7etiopia04.jpg&w=400&h=300&ei=3CfLT6i1CurR0QWpxJWnAQ&zoom=1&iact=hc&vpx=725&vpy=186&dur=7414&hovh=194&hovw=259&tx=162&ty=144&sig=109573699884915906692&page=6&tbnh=166&tbnw=222&start=77&ndsp=16&ved=1t:429,r:11,s:77,i:284

UM CIDADÃO DOUTRA CIDADE

 

 

«Língua e cidadania», é mais uma bela lição de Vasco Graça Moura, saída no DN Fórum em 30 de Maio, retomando a sua incansável análise dos efeitos perniciosos do Acordo Ortográfico sobre as gerações futuras, e o seu apelo para a reflexão das gerações presentes que o promoveram e o utilizam, no desprezo pelo bom senso e no desrespeito pelo significado da sua língua como valioso veículo cultural identificador de uma origem comum a outros povos europeus – característica que não tira minimamente o sono aos fautores e seguidores do dito Acordo.

 

Entende Graça Moura que «Há uma relação importante entre língua e cidadania. Do seu correcto entendimento também resulta uma maior eficácia no combate à crise que o país atravessa.»

 

Essa asserção, por justa que seja, não nos diz respeito, todavia, desligados que estamos, não da crise mas de consciência de cidadania, há tanto tempo já, que o cepticismo nos não deixa crer em medidas de eficácia para esse combate, por conta de um qualquer conceito de correcção linguística obsoleta.

 

“Portugal, para subsistir enquanto país com uma fisionomia característica e um nível digno de independência – muito embora os aspectos conceptuais ligados a este termo sejam cada vez mais problemáticos – carece de reformular por completo as suas políticas de educação e de reinventar a sua relação com a cultura.»

 

De tal modo problemáticos, de facto, que são os próprios governantes que se esmeram em boicotar tais desígnios de digna independência.

 

«Uma das dimensões em que o problema se coloca tem a ver com a chamada herança cultural, conjunto de elementos que permitem a um determinado grupo reconhecer-se como portador de uma identidade própria e comunicar ao longo do tempo. Essa herança cultural passa por muitos factores, e em especial pela língua, pelo património material e imaterial, pelos costumes e tradições, pela história e e pela geografia… Dela decorrem consequências importantes para todos os aspectos da vida política, social e económica.»

 

Creio que V.G.M. se exprime em termos genéricos aos factores da herança, aplicáveis aos países dignos de o ser. De facto, os factores históricos, geográficos, linguísticos, deixaram de ter sentido entre nós. Restam-nos os costumes e as tradições, e o património material referente às comezainas, ao artesanato, às marchinhas, pois o nosso património imaterial vai ficando cada vez mais em levitação, confinado aos estudos magistrais dos professores universitários, estudos que, felizmente, a Internet nos vai revelando parcialmente, ou os livreiros empenhados, ou os media, ou os artistas da nossa dimensão…

 

“Toda a gente sabe que, actualmente, há um fosso muito acentuado entre os portugueses, sobretudo os mais jovens, e as componentes principais integradoras dessa herança.

 

«No que à língua diz respeito, os programas escolares não têm contemplado nas últimas décadas o contacto exigente e variado com os grandes testemunhos da nossa língua ao longo da história, que são os veiculados pela literatura.»

 

Relativamente a este último parágrafo, todavia, custa-me a aceitar a drástica asserção relativamente aos programas de literatura, pelo menos aqueles que foram leccionados nos anos em que leccionei – de 76 a 93. Com efeito, os manuais de literatura portuguesa eram, embora não na sua totalidade, um festival de textos dos escritores portugueses acompanhados por propostas de leitura, por textos de confronto, por textos didácticos e indicações várias, espécies de didascálias de orientação, não de actores mas dos alunos, que dificilmente deixariam de enriquecer docentes e discentes. Bem superiores se mostravam às antologias dos meus tempos de aluna, circunscritas aos textos dos autores, o que me fez ficar para sempre grata aos professores de crítica literária e aos professores organizadores dos manuais actuais. Não julgo que os objectivos tenham mudado grande coisa de então para cá. O que se tem acentuado é a desordem mental e o mau comportamento dos alunos proveniente dos factores de laxismo, impertinência e indisciplina por parte dos alunos, menos rigor na exigência, com permissividade ao erro na orientação docente. Aliás, V.G.M. o refere na sua análise:

 

«As gerações mais novas são confinadas a um pragmatismo comunicacional empobrecedor e rudimentar cujas consequências nos vão sair muito caras.

 

«O sistema tende a incorporar o erro gramatical, legitimando-o, e a aceitar o empobrecimento lexical e sintáctico.

 

«A língua, numa visão cara a George Steiner, é um instrumento de conhecimento e apreensão do mundo. Esse instrumento está permanentemente irisado de uma multiplicidade de valores afectivos, estéticos, sociais, culturais, etc., sedimentados pela memória e pela história colectivas, pelo uso transgeracional, pelos autores, pelas características dos lugares onde é falada, por muitos outros factores.

 

«Disso não se pode fazer tábua rasa. Há quem não encontre solução para as dificuldades de definição dessa norma-padrão, mesmo quando se diz reconhecer a conveniência dela, de modo a ser possível circunscrever o que é “correcto” e o que é “incorrecto”. Afinal, parece que não se quer legitimar essa distinção pelo próprio processo evolutivo da língua, num reducionismo pretensamente lógico que só pode ser empobrecedor e que não compreende que as línguas não se regem propriamente pelas regras da lógica formal.

 

«Uma língua transporta grande parte de uma visão do mundo e de uma cultura. É pela boa aprendizagem de uma língua que se torna possível a formulação eficaz do pensamento abstracto nas suas implicações filosóficas, matemáticas, científicas. E é por aí que se chega ao conhecimento e ao progresso.»

 

Destes argumentos pertinentes partiu a justificação do título do meu texto -“Um cidadão doutra cidade” - subentendendo a homenagem à seriedade e elegância expositiva de um estudioso e de um português, que, contra ventos e marés, insiste em defender corajosamente – outros dirão ingenuamente - uma teoria há muito derrotada pelos verdadeiros dilapidadores do sentido de pátria, repoltreados comodamente e brincalhonamente na pilotagem dos destinos nacionais.

 

«Por isso é imperativo que seja reabilitada a relação dos portugueses com a língua que falam e com a cultura que se exprime através dela.

 

«É claro que isto implica, de par com a responsabilidade da escola e das famílias, a continuidade de plenas condições de liberdade e expressão, de afirmação da individualidade criadora, de respeito, de tolerância e de dignidade da criação cultural. E ainda, que Portugal possa continuar a participar num processo interactivo, e sem estanquicidades, de elaboração da riqueza cultural da Europa, bem como de preservação, fruição, divulgação e partilha da herança cultural europeia.

 

«A cultura portuguesa não pode deixar de ser parte dessa realidade em que se inscreve, de uma herança cultural europeia, entendida na diversidade das suas expressões e na conjugação das suas matrizes principais, como, entre outras, a antiguidade grega e latina e a judeo-cristã, o desvendamento do mundo e a aventura epistemológica do século XVI, o Século das Luzes, o Romantismo, o Realismo, os Modernismos, tudo o que configurou a Europa ao longo do tempo e alastrou, a partir dela, para outras zonas do mundo.

 

«Tratando-se da cultura portuguesa, temos de ser nós, portugueses, os primeiros a zelar por esse estatuto e o processo correspondente passa por uma grande atenção ao que vai acontecendo no plano da escola, da família e das instituições que se preocupam com a formação e a aprendizagem dos jovens e com os valores insubstituíveis da cultura.»

 

Palavras de uma seriedade elegante, mas paulatinamente incompreensíveis, que têm como efeito um cada vez maior afastamento do seu sentido, dada a cegueira de entendimento dos responsáveis pelo desmoronamento linguístico da nossa idiotia.

 

Acode-nos o dito “Ninguém” do medroso mas astuto Ulisses desmascarando junto de Polifemo a sua identidade, para que os outros ciclopes, chamados a defender este, pelos seus gritos de cego ferido no único olho pelo “sábio grego”, desprezassem o apelo, já que “Ninguém” o perturbava.

 

Como Ulisses que, por astúcia se apelidou “Ninguém”, por astúcia humilde nos fizemos “Ninguém” junto do “bruto Polifemo” poderoso. Mas enquanto o “Ninguém” salvou Ulisses dos ciclopes iludidos por um determinante indefinido negativo, o “Ninguém” da nossa curvatura espinal corresponde à exacta medida da nossa cada vez maior e vil impotência.

 

 Berta Brás

SILÊNCIOS

 




 
 
 
 
 
 
 
(*)

 

Silêncios de paz, silêncios constrangedores,

Silêncios úteis na altura exacta,

Silêncios ensurdecedores

De um ruído que mata.

 

Silêncios de cumplicidade,

Ausências de palavra,

Plenos de sentimento e verdade

Que no fundo das mentes lavra.

 

Silêncios de solidão,

Companheiros da escuridão.

 

Silêncios de luz e cor,

Repletos de paz e amor.

 

Silêncios de apatia ou ignorância,

Silêncios de ironia ou arrogância.

 

Silêncios de melancolia

De vidas já passadas,

Numa doce melodia

De memórias já usadas.

 

Silêncios de sonhos futuros,

Esperança de dias não duros.

 

Silêncios maus, silêncios bons,

Silêncios sós e acompanhados,

Silêncios em todos os tons,

Silêncios nem sempre dourados.

 

Silêncios transparentes ou indecifráveis,

Silêncios planeados ou incontroláveis,

Silêncios breves, longos, sem fim,

Tantos silêncios enfim...

 

Silêncios em tão diferentes momentos,

Quão diferentes são os sentimentos.

 

Silêncios que não falam mas significam,

O que mil palavras não explicam.

 

Helena Salazar Antunes Morais

 

(*) http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_VuNoSZ7u_1E/S_Vzd70kkAI/AAAAAAAAEgo/yhUSTOQhaDk/s1600/silencio.jpg&imgrefurl=http://julima5.blogspot.com/2010_05_01_archive.html&usg=__1Gh0gkZrK-X3pZ130pQH4d25P5s=&h=768&w=1024&sz=236&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=702ojp5HnTFFtM:&tbnh=122&tbnw=163&ei=gpPoTeb6KI-whAf_2bWVAQ&prev=/search%3Fq%3Dsil%25C3%25AAncios%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DG%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=110&page=1&ndsp=21&ved=1t:429,r:1,s:0&tx=88&ty=81

 



CULTURAS... OU INCULTURAS?

 

 

Muito se criticam entre si os povos de culturas diferentes! Cada um acha que a sua cultura ou o seu Deus é que estão certos, criticam, ridicularizam, e, quantas vezes tentam interferir, e interferem, na vida dos outros. A bem ou na espada!

 

A história nos mostra dezenas, centenas de casos de intolerância!

 

Nós, ocidentais, continuamos indignados com algumas práticas selváticas, ainda em rigoroso vigor nalguns países, como a excisão feminina (ou circuncisão feminina). Uma forma de bestialidade é o domínio do homem sobre a mulher, que resignadas e medrosas sofrem toda a espécie de abuso.

 

Outra situação que não compreendemos é o usa da burca. A mulher obrigada a usar aquela carapaça, nos dias quentes, deve estufar.

 

Por outro lado há outros hábitos como o ichad (que deu origem a écharpe), aquele véu com que as mulheres árabes cobrem a cabeça deixando o rosto à vista, que podem considerar-se perfeitamente normais.

 

Todos os povos – mulheres – do mediterrâneo usavam, e muitas ainda usam esse lenço, como é fácil encontrar nas mulheres mais idosas, em Portugal, na Grécia, na Espanha. Não é uma invenção árabe, mas um costume que vem de muito antes do islamismo.

 

Nos séculos anteriores, do XX para trás, a evolução da moda fez muitas mulheres trocarem esse lenço, por chapéus, e os homens, os turbantes também por chapéus vários, como as cartolas, os “coco”, palhinha, etc.

 

No princípio do século XX, em Portugal, os homens ficavam excitados só ao verem o tornozelo das mulheres, ao subirem, por exemplo, para uma carruagem!

 

Mas enquanto a “evolução” não começou a despir homens e mulheres, sobretudo as mulheres, o interesse pelo sexo oposto era muito mais respeitoso. Era bonito.

 

Consta que um dos problemas que derrubou o Império Romano, foi a bandalheira de costumes em que se envolveram os seus maiores. Prostituição descarada, adultério, sodomia, eram exibidos como demonstração de “status”!

 

O mais grave de tudo isto é a destruição do núcleo central de qualquer sociedade: a família.

 

Causa até mau estar assistir-se hoje ao estímulo do sexo desenfreado, sexo livre, como se isso fosse um “valor adquirido”! Cada um dispor do seu corpo para fins unicamente de prazer... quando dá prazer! Isso é liberdade? Ou liberdade não será cada um impor a sua moral?

 

Qualquer revista, mesmo que o assunto seja literatura ou filosofia, “obriga-se”, para chamar a atenção dos idiotas, a trazer na capa a figura duma mulher despida ou mostrando estupidamente o quanto de silicone conseguiu colocar no peito! E não só no peito: na bunda, nas coxas, nas rugas da cara, e que as operações plásticas acabam por desfigurar.

 

Calcula-se que largas centenas de milhares de mulheres fizeram implantes nos peitos. Para quê tudo isso? Mas não são só as mulheres!

 

A quantidade de homens que fazem plástica, usam botox, ou implantes para mostrar braço e perna fortes, músculos abdominais (de mentirinha), passa dos 20% de todo esse grande negócio. Alguns conhecidos actores de cinema, hoje parecem mais bonecos de cera do que gente.

 

Mas há outros hábitos culturais, difíceis até de qualificar.

 

Há dias, em Brasília, na piscina de um clube, um funcionário da Embaixada do Irão, enquanto nadava na piscina, com crianças, foi metendo a mão nas pernas de garotinhas de 10 a 12 anos. Uma, já de 14, foi queixar-se ao gerente do clube que logo interditou a piscina. E começa a polémica. O iraniano tem imunidade diplomática. O governo brasileiro reclamou e a Embaixada dos aitolás respondeu que não via nada de mal no assunto: era só uma questão de “culturas diferentes”! O caso está a ser investigado para ver se pode indiciar o miserável. Parece que entretanto ele já deu o fora para casa, onde, para manter a sua “cultura” viva deve ir meter a mão nas saias da mãe... do Hamanidejah ou do aitolá!

 

Outra “cultura” interessante é a dos americanos. Maravilha.

 

Para que não pensem ser invenção minha, passo a transcrever uma notícia escrita por um jornalista americano:

 

Quanta bobagem

 

 

Será difícil para qualquer país, mesmo do quinto mundo, con­seguir superar a mais recente estultice dos Estados Unidos.
Berço do politicamente correcto e in­cubadora das versões mais xiitas da prática, a nação americana acaba de ultrapassar um novo patamar.

Uma directriz da Secretaria de Ensino de Nova York enviada semanas atrás a várias empresas que elaboram testes educacionais pa­ra a prefeitura, parece saída de um programa de humor. Ela lista meia centena de palavras, tópicos ou referências que devem ser evitados, diz a instrução, "para não provocar emoções desagradáveis nos estu­dantes".

As palavras proibidas são tão anódinas que não mereceriam registo algum. Acopladas ao arrazoado que as acompanha para justificar o veto, contudo, elas adquirem vida no­va e delirante. Alguns exemplos:

"Dinossauros" — segundo os zelo­sos educatecas nova-iorquinos, os simpáticos dinos, que de tão queridos pela garotada já foram rebaptizados pe­lo diminutivo, arriscam evocar a evo­lução das espécies e portanto ferir as susceptibilidades de crianças forma­das dentro dos preceitos do fundamentalismo criacionista.

"Aniversários" — seguidores das Testemunhas de Jeová não costumam celebrar a data, portanto melhor evi­tar.
Aproveitando a ocasião, convém também banir menção ao inofensivo (embora irritante) Halloween, o Dia das Bruxas, hoje imitado no Brasil, por sugerir paganismo. E "dança", seja na forma verbal ou substantiva, só se for na modalidade balet.

Na mesma linha, conceitos como "terrorismo" foram previsivelmente considerados por demais assustado­res, e "escravidão", por via das dúvi­das, também merece ficar fora de testes de avaliação.

Segundo a porta-voz da Secretaria Municipal da pasta, ou­vida pelo "New York Post", alguns desses tópicos, "embora perfeita­mente aceitáveis em ou­tro contexto, não se en­quadrariam numa avali­ação mais ampla da rea­lidade da cidade". Há quem divirja. O que fazer com Mitt Romney, o candidato (quase) oficial do Parti­do Republicano, encar­regado de enxotar o Pre­sidente Barack Obama da Casa Branca em Novembro próximo? Uma das ins­truções no novo léxico politicamente correcto recomenda passar ao largo lu­xos e riqueza, piscinas e mansões, pa­ra não melindrar sensibilidades soci­ais. "A intenção é evitar ofender ou prejudicar qualquer aluno por ele ter pouca familiaridade prévia com o te­ma", explicou o porta-voz da Core Knowledge, uma das fundações que elabora testes educacionais no país.

Coincidentemente, dias atrás, Rom­ney liderou o noticiário em boa parte da mídia por algo tão tolo como a directriz sobre os testes, mas que nela en­controu um ponto de intersecção. Se­gundo revelou o jornal electrónico "Po­lítico", o ex-governador de Massachusetts aproveitaria a reforma que pretende fazer numa casa em La Jolla na costa do Pacífico, para instalar um elevador interno e uma lavadora automá­tica para os quatro automóveis que mantém na casa de praia.

Foi um brouhaha. De uma hora para outra todo mundo queria detalhes desse elevador capaz de lhe trazer o carro quase até à mesa de jantar, e Romney arriscou ser crucificado por teimar em ser bilionário e usar o di­nheiro da forma que melhor lhe con­vém. Ou, na ponta oposta do ideário partidário, ser admirado justamente por se ter tornado bilionário e usar a fortuna como quiser. Como opinou o tuiteiro David Waldman na secção de humor que o episódio gerou, "certa­mente há razões sólidas para se ter um elevador doméstico de carros. Você apenas não é rico o suficiente para saber quais são elas". Eike Batista, que até há pouco tempo tinha na sala a Mercedes SLTL-McLaren usada pelo filho Thor, além de uma Lamborghini, sabe.

Disparidades sociais são difíceis de deletar com uma canetada. Mais difíceis ainda do que convencer a molecada do Harlem ou do Brooklyn a não se interessar ainda mais pelos hábitos da actriz australiana Nicole Kidman, que recentemente se tor­nou a primeira moradora de Manhattan a ter um elevador que lhe leva o carro até à cobertura que ocupa em Chelsea.

 DORRIT HARAZIM

Jornalista

 

Fica para a próxima o comentário sobre o tal de Mitt Romney, que estou a ver na minha bolinha de cristal!

 

Rio de Janeiro, 23/04/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

Luis XIV e a crise actual

 (*)

 

Consta das crónicas do reinado deste rei de França que, para aquietar muitos nobres irrequietos e portanto incómodos para a governação, teve a ideia de ir exigindo, de forma crescente a todos que pretendiam participar da corte, padrões de vestimenta e de arranjo dos seus palácios muito dispendiosos.

 

E para “facilitar” este aumento de qualidade de vida fornecia-lhes abundantes créditos.

 

Desta forma explorando a vaidade e a ganância destes cortesãos rapidamente os controlou pois a alternativa à obediência seria a bancarrota.

 

Ora nestes últimos trinta anos, mais ano menos ano, a finança internacional (a que se dá o nome de mercados), que ao contrário de Luís XIV ninguém sabe muito bem quem é, aproveitou a vaidade e a ganância de vários governantes e de muitos cidadãos que a troco de fartos e fáceis créditos endividaram os seus países, eles próprios (os governantes) nem por isso, ficando aqueles assim sem independência e à beira da bancarrota.

 

A História conta também que, dois luíses mais tarde, houve em França uma revolução bastante violenta que alterou drasticamente esta situação e este sistema de poder.

 

E nós, agora, como iremos resolver esta situação de crise?

 

1º - Cada um por si eliminar o domínio daqueles que têm a ganância e a vaidade como norma de vida e passar a viver com eficiência e austeridade, não gastando o que se não tem e só aceitando crédito para investimento produtivo e sustentado, é claro depois de saldar as dívidas.

 

2º - A exemplo da destruição da Bastilha, símbolo da revolução francesa, destruir os mercados, não pela via do camartelo, mas da adopção de sistemas financeiros correctamente regulados e independentes dos especuladores, natural e realisticamente como europeus, pois só como portugueses pouco ou nada poderemos conseguir.

 

Capital? Sim como meio essencial para produzir e contribuir para a riqueza global e não para apenas muito poucos especuladores enriquecerem.

 

É chegada a hora dos políticos se redimirem dos erros e desvios ocorridos e realizarem as mudanças estruturais que é de facto urgente pôr em prática para evitar males maiores.

 

Lisboa, 12 de Maio de 2012
         

 José Carlos Gonçalves Viana     

 

Publicado no DN em 30-06-12

nossomar.blogs.sapo.pt

 

 (*) http://www.google.pt/imgres?q=lu%C3%ADs+xiv+o+rei+sol&um=1&hl=pt-PT&sa=N&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=T1aMA2kcLsOFiM:&imgrefurl=http://www.stormfront.org/forum/t826273-11/&docid=mi583exh3sfVVM&imgurl=http://www.oceansbridge.com/paintings/artists/recently-added/jean-leon-gerome/big/Jean-Leon_Gerome_XX__The_Reception_for_Prince_Conde_at_Versailles_1878.jpg&w=500&h=335&ei=CHvIT42bO4WJhQfYjJ30Dw&zoom=1&iact=hc&vpx=599&vpy=424&dur=2764&hovh=184&hovw=274&tx=134&ty=121&sig=109573699884915906692&page=1&tbnh=113&tbnw=163&start=0&ndsp=26&ved=1t:429,r:18,s:0,i:107

 

 

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