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A bem da Nação

A FRANÇA QUE É A FRANÇA

 

 

Quem leu os principais jornais europeus de ontem (2012-05-07) ficou com uma ideia satisfatória das eleições que fizeram de um eterno adjunto, Monsieur Hollande, o novo Presidente de França. Porque a verdade é que mal se falou deste homem que promete ser um "Presidente normal", seja lá o que isso for. Na hora da mudança toda a gente preferiu apontar baterias para o derrotado. "Adeus Sarkozy", "Não voltes", eis alguns títulos. O Presidente que a França não irá lembrar, a página que mais de metade tenciona esquecer, uma figura "postiça", "pindérica", "complexada", "burguesa".

 

A adjectivação usada contra Sarkozy ajuda a perceber aquilo que se passou. Neste momento, o Tozé Seguro da França não desfez a imagem de ser um candidato de recurso. Acontece que grande parte dos franceses quis expressar a sua aversão a um só homem: o pequeno, isolado, napoleónico Nicolas Sarkozy.

 

Não houve na História da V República francesa Presidente tão contestado, tão divisório como Sarkozy e é interessante pensar porquê. Talvez só recuando ao referendo que De Gaulle perdeu em 1969 ou à derrota de Giscard d"Estaing em 1981. Sarkozy tornou-se em cinco anos um político odiado, à esquerda e à direita, o que explica a provisória, mais que provisória, união das esquerdas francesas para o derrubar. Não foram a crise financeira e a austeridade que liquidaram Sarkozy; nem a aliança tácita com Merkel. Na verdade, se fosse por isso o antigo Presidente tinha motivos para ganhar as eleições. Apesar do seu nível crescente de endividamento, a França tem sabido resistir à crise, não teve um ano de recessão e, se não demonstra a robustez económica da Alemanha, isso não se deve a nada que Sarkozy tivesse feito.

 

E, no entanto, ele passou de meteoro ao mais impopular dos presidentes. Abandonado pela direita, repudiado pelos inimigos, mesmo os intelectuais esquerdistas que seduziu em 2007 desta vez preferiram o silêncio e a reclusão. Essa solidão do poder que Sarkozy parece personificar acentua ainda mais o seu perfil napoleónico, o típico caso de ascensão e queda fulgurantes. Os franceses são peritos em devorar os seus filhos.

 

A primeira razão é pessoal. Como Sócrates por cá, Sarkozy representa o típico político gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Um novo-rico da política, comodamente encostado a outros novos-ricos.

 

A segunda razão é ideológica. Nenhum outro presidente francês tentou em vão declarar guerra à herança do Maio de 68. Desde o famoso discurso de 2007, em que Sarkozy verberou os "herdeiros de Maio de 68", a quem acusou de ter imposto "o relativismo intelectual e moral" e o "cinismo na política". Não é impunemente que se toca na religião de 68.

 

A terceira razão é psicológica. Os franceses estão com medo. Com medo de perderem o que têm. Com medo de deixarem de ser a França. Sarkozy? No fundo "era americano", "nem vinho bebia", "nunca compreendeu a França". E a França, como apregoa Hollande, é a França, uma das sociedades mais assistidas do mundo, uma "liderança moral pelo exemplo e pelo progresso". Aqueles que vêem nas eleições francesas um levantamento das massas a favor de uma nova política europeia estão a esquecer-se deste pânico fugitivo dos franceses. Quando Hollande descer à realidade, é com esse pânico que terá de lidar. Vai ficar entre dois mundos, com um país dividido e um sistema político bloqueado. Custa fazer previsões, mas não esperem por um desenlace.

 

 Pedro Lomba

ÁLVARES DE AZEVEDO

 

 

Jovem poeta brasileiro do século XIX (1831-1852)

 

É espantoso e admirável que um rapaz seja capaz de se rir assim de si mesmo...

 

 

 

 

NAMORO A CAVALO

 

Eu moro em Catumby. Mas a desgraça

Que rege minha vida malfadada

Pôs lá no fim da rua do Catete

A minha Dulcineia namorada.

 

Alugo (três mil reis!) por uma tarde

Um cavalo de trote (que esparrela!)

Só para erguer meus olhos, suspirando,

À minha namorada na janela...

 

Todo o meu ordenado vai-se em flores

E em lindas folhas de papel bordado

Onde escrevo trémulo, amoroso

Algum verso bonito... mas furtado.

 

Morro pela menina, junto dela

Nem ouso suspirar de acanhamento...

Se ela quisesse eu acabava a história

Como toda a comédia - em casamento.

 

Ontem tinha chovido... que desgraça!

Eu ia a trote inglês ardendo em chama,

Mas lá vai senão quando uma carroça

Minhas roupas tafuis encheu de lama...

 

Eu não desanimei. Se Dom Quixote

No Rocinante erguendo a larga espada

Nunca voltou a medo, eu, mais valente,

Fui mesmo sujo ver a namorada...

 

Mas eis que no passar pelo sobrado

Onde habita nas lojas minha bela

Por ver-me tão lodoso ela irritada

Bateu-me sobre as ventas a janela...

 

O cavalo ignorante de namoros

Entre dentes tomou a bofetada,

Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo

Com pernas para o ar, sobre a calçada.

 

Dei ao diabo os namoros. Escovado

Meu chapéu que sofrera no pagode,

Dei de pernas corrido e cabisbaixo

E berrando de raiva como um bode.

 

Circunstância agravante. A calça inglesa

Rasgou-se ao cair de meio a meio,

O sangue pelas ventas me corria

Em paga do amoroso devaneio!...

 

 

(Compilado de "Cancioneiro Alegre" de Camilo Castelo Branco)

 

Álvares de Azevedo morreu no Rio de Janeiro com 21 anos incompletos devido a uma tuberculose pulmonar e a um tumor na anca
causado pela queda de um cavalo, o mesmo, julgo eu, que ele nos conta na sua divertida poesia. Ele era um jovem brilhante e muito prometedor.

 

Joaquim Reis

Os submarinos e a marinha de recreio

 

 

Desde que foi conhecida a decisão governamental de se adquirirem os submarinos, já lá vão uns largos pares de anos, que se verificou terem aparecido variadas críticas a tão caro investimento e que, na opinião desses críticos, tinha muito pouco interesse para o País.

 

Poderá perguntar-se por que razão haver tanta gente em Portugal contra o equipamento da nossa Armada com estes submarinos, que na opinião dos conhecedores da estratégia naval são fundamentais para a segurança da nossa vasta área marítima.

 

E a explicação é relativamente simples: porque a maioria da nossa população, incluindo a elite dominante, estava e continua a estar de costas para o Mar e para as atividades a ele ligadas, o que explica quase não termos Marinha de Comércio, a Marinha de Pesca tem vindo a ser reduzida ( na década de 80 pescávamos 90 000t/ano de sardinha, em 2010 apenas 27000 t) , a Marinha de recreio é a mais fraca da Europa que tem mar.

 

Embora nestes últimos anos tenha havido inúmeras afirmações públicas da importância do Mar para Portugal, desde decisões do Conselho de Ministros até afirmações do próprio Presidente da República que revelou ter alterado as suas convicções a este respeito que tinha quando foi Primeiro Ministro.

 

Por isso já tive oportunidade de afirmar que D. João II em 20 anos, sem escrever coisa alguma conhecida, abriu todo o mundo à penetração portuguesa, enquanto atualmente nos últimos 20 anos escrevemos e dissemos centenas de páginas mas nada fizemos de concreto, senão andar para trás!

 

Pois de facto nada aconteceu de concreto além de muitas reuniões, congressos, discursos, estudos excelentes como o do Prof, Ernani Lopes, muitas conferências realizadas desde 1984 na Academia de Marinha e na Sociedade de Geografia e noutras entidades mas nada mais.

 

Por exemplo no início da década de 80 foi apresentada à AGPL uma proposta para se construir em Algés uma marina para cerca de 2000 postos de amarração e em que se reservava uma área para a expansão do Aquário Vasco da Gama até ao rio mas a sua Administração achou preferível realizar um concurso, porque “seria possível aparecer melhor solução” que tão bem feito foi que ficou deserto e a sugestão de implantar no estuário do Tejo cerca de 20000 postos de amarração, sendo a sua maioria de baixo custo, teve igual sorte.

 

Aliás também recordo ter havido em 1998 numa conferência organizada pela Academia de Marinha e a Câmara Municipal do Barreiro a apresentação de um plano que previa a instalação ali de cerca de 4000 postos de amarração que permitiria a transformação deste município num grande centro náutico, criando alguns milhares de postos de trabalho. Ainda houve algumas reuniões com o seu Presidente e mais tarde algumas tentativas junto da AGPL e do IPTM tiveram a mesma sorte: nada aconteceu!

 

Aliás no Algarve onde há condições excelentes para a marinha de recreio nomeadamente no Sotavento Algarvio que tem apenas pouco mais de 800 postos de amarração e que tem potencial para 10 000 que lhe permitiria reduzir drasticamente o seu período de baixa atividade turística já há projetos para concretizar estes objetivos mas os investidores esbarram perante a imobilidade dos responsáveis governamentais e autárquicos e nada acontece!

 

Até dá a ideia que eles acham que Portugal não precisa de investimentos privados sustentados e rápidos em obter resultados.

 

Isto tudo para insistir na importância da marinha de recreio na formação da população, a começar na juventude e a continuar em todas as idades, o que para além do valor económico imediato permitirá um dia termos outra vez Marinhas de Pesca e de Comércio e assim toda a gente entender o que é ter interesses marítimos reais e não mais haver dúvidas quanto à utilidade dos submarinos.

 

Lisboa, 23 de Março de 2011

 

 José Carlos Gonçalves Viana

 

Publicado na Revista de Marinha Maio-Junho 2012

 

LIDO COM INTERESSE – 55

 

 

Título: A ESCAVAÇÃO

Autor: Andrei Platónov

Tradutor: António Pescada

Editora: ANTÍGONA, Lisboa

Edição: 1ª, Outubro de 2011

 

 

 

O camarada activista não tinha nada para mandar Voschev fazer e por isso decretou que durante a noite ele fosse apalpar as galinhas todas do kolkhoze a ver se tinham ovo. Não tinham! Porquê? Porque já não havia galos. E como fora precisamente o camarada activista que comera o último galo, depressa se constituiu comité para apurar quem tinha comido o primeiro galo. Esse, sim, um perigoso agente
reaccionário que deveria ser punido.

 

Mas assim que um velho mujique apareceu com uma ave masculina parecida com um galináceo, logo a busca do comedor do primeiro galo foi esquecida e se decretou nova tarefa que pudesse motivar os descrentes nas virtualidades da colectivização agrícola. E essa nova tarefa foi a construção duma jangada para abarrotar de reaccionários e mandá-los rio abaixo até ao oceano...

 

- Vejam, camaradas, que até os animais gostam do socialismo!

 

Percorrida alguma distância, pararam no caminho porque do lado direito da rua se abriram sem acção humana uns portões e por eles começaram a sair calmamente alguns cavalos. Em passo regular, sem baixarem as cabeças para o alimento que crescia da terra, os cavalos percorreram a rua em massa compacta e desceram para um barranco onde havia água. Depois de matarem a sede, entraram na água e ali ficaram algum tempo para a sua higiene e em seguida subiram para a margem seca e voltaram pelo mesmo caminho, sem perderem a ordem nem a coesão entre eles. Mas assim que chegaram às primeiras casas, os cavalos dispersaram: um deles parou junto a um telhado de palha a começou a arrancá-la; outro, inclinando-se, apanhou com a boca alguns tufos de um magro feno; enquanto os cavalos mais soturnos entravam nas quintas e ali apanhavam, nos seus lugares predilectos e já conhecidos, um feixe que cada qual levava na boca para a rua. Cada animal apanhou a porção de comida que podia e levava-a cuidadosamente em direcção àqueles portões de onde antes todos os cavalos tinham saído. Os que primeiro chegaram pararam junto aos portões comuns e esperaram por toda a restante massa cavalar; quando já estavam todos reunidos, o animal da frente empurrou os portões com a cabeça e toda a formação de cavalos entrou para o pátio com a comida. No pátio, abriram as bocas, o alimento caiu delas numa pilha central e então o gado socializado dispôs-se em volta e começou a comer devagar, submetendo-se à disciplina de maneira organizada, sem o cuidado do homem.

 

Voschev, espantado, olhava os animais por uma fresta dos portões; surpreendia-o a paz de espírito daquele gado mastigador, como se todos os cavalos se tivessem convencido com precisão do sentido kolkhoziano da vida e só ele vivia e sofria mais do que um cavalo.

 

Esta é a obra-prima de Platónov constituindo um perturbador romance distópico que retrata um grupo de operários que escava os alicerces de um monstruoso edifício, a Casa do Proletariado, promessa de um futuro risonho convertida em atroz abismo que suga impiedosamente vidas e almas.

 

Violenta crítica à construção do socialismo soviético e negra reflexão sobre o preço do progresso e sacrifícios aterradores feitos pelo povo em nome de objectivos absurdos, esta obra, escrita em 1930, foi somente publicada na Rússia em finais dos anos 80, devido à censura. Desiludido, o autor evoca sobretudo o horror daquele regime político e, simultaneamente, uma tragédia universal e apocalíptica.

 

Durante a Revolução, os cães ladravam dia e noite por toda a Rússia mas agora tinham-se calado: começou o trabalho e os trabalhadores dormem em silencio. O cão está aborrecido: vive apenas por ter nascido, como eu – disse Voschev.

  

- Quem traz no bolso das calças o cartão do Partido, deve preocupar-se incessantemente em trazer o entusiasmo no corpo. O proletariado vive para o entusiasmo, camarada Voschev! Nas mãos de um proprietário privado, até um bode é uma alavanca do capitalismo.

 

O activista demorou-se a redigir o relatório sobre a execução da colectivização mas não pôde pôr uma vírgula depois da palavra «kulak» porque na Directiva que definia as regras dos relatórios não havia vírgula.

 

 Andrei Platónov (1899-1951), autor até hoje inédito em Portugal, foi descoberto pelo Ocidente nas últimas décadas do século XX, um fenómeno que resultou na tradução dos seus vários livros em diversas línguas e na reescrita da História da literatura russa.

 

Caloroso partidário da Revolução de 1917, poucos autores escreveram de forma mais cáustica e incisiva sobre as catastróficas consequências do processo político sequente aos tempos triunfantes iniciais mas, apesar de sucessivamente condenado pelo regime
então vigente, não deixou de se manter fiel ao sonho inicial.

 

“A escavação” é um grito contra a falta de sonhos a que o comunismo conduziu os povos a que se impôs.

 

Do que nós, portugueses, nos livrámos em 1975!!!

 

Lisboa, Maio de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

A LINHA

 

Recebi por e-mail um artigo de Daniel Oliveira arrasando a figura de Passos Coelho que teve a ousadia de explanar sobre a questão do desemprego da seguinte forma: "Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade."

 

Transcrevo apenas um dos parágrafos do dito artigo de Daniel Oliveira, o que segue os vários considerandos sobre os altos e baixos das fortunas de cada um e caracterização do respectivo comportamento, sob os traços de solidariedade, crueldade, boa formação, ou “rapaziada”, terminando com a interrogação de estranheza: “Como é que este rapaz chegou a primeiro-ministro?"

 

“Não atribuo às infantis declarações de Passos Coelho sobre o desemprego nenhum sentido político ou ideológico. Apenas a prova de que é possível chegar aos 47 anos com a experiência social de um adolescente, a cargos de responsabilidade com o currículo de jotinha, a líder partidário com a inteligência de uma amiba, a primeiro-ministro com a sofisticação intelectual de um cliente habitual do fórum TSF e a governante sem nunca chegar a perceber que não é para receberem sermões idiotas sobre a forma como vivem que os cidadãos participam em eleições. Serei insultuoso no que escrevo? Não chego aos calcanhares de quem fala com esta leviandade das dificuldades da vida de pessoas que nunca conheceram outra coisa que não fosse o "risco".”

 

Em comentário, refiro a minha experiência de retornada, chegada de férias definitivas a uma metrópole mergulhada no êxtase da sua revolução criadora dos vários territórios independentes da tutela portuguesa, e transformadora do território propriamente português em definitivamente tutelado pelas potências simultaneamente esmoleres e endividantes, para recreação dos revolucionários e seus descendentes na governação do tal.

 

Após o vencimento recebido na íntegra durante os seis meses de férias, o Estado português catapultou-me para o estatuto de adida, durante mais seis meses, com o vencimento reduzido a metade e a incerteza no futuro como funcionária, caso não conseguisse, entretanto, colocar-me. Consegui, mas recordo esses tempos de náusea, de frustração, de falhanço relativamente às competências adquiridas, anos antes, no curso tirado, de sentimento de pânico em relação ao futuro, até mesmo de humilhação pela exclusão social a que a falta de emprego iria dar lugar, com as consequências de carência económica num agregado familiar de certa amplitude. Quando se é novo e se não tem espírito aventureiro, porque se está manietado pelos laços familiares constituídos, e se vive sob o peso dessas responsabilidades criadas, a perspectiva de retirada do calço torna-se perfeitamente aterradora. Tudo se resolveu a contento, não passou de pesadelo esse tempo incerto. Os ultramarinos - retornados, na designação mais comum - foram-se adaptando, a velha metrópole estendeu-lhes a mão, permitindo-lhes a integração, ou os mais independentes economicamente criaram as suas próprias defesas.

 

Mas esse tempo incerto nada foi em pesadelo, comparativamente aos tempos de hoje. Apesar de tudo, houve então regras de cidadania, talvez por se estar ainda sob a égide dos velhos parâmetros do governo anterior, que se apoiavam na legalidade dos direitos que a Declaração Universal dos Direitos Humanos propalava. É certo que se foi assistindo à contínua degradação do país, provocada pelos sucessivos “condottieri” mais ou menos inescrupulosos que se foram apoderando das rédeas da nação, apoiados pelos seus partidários. E chegou-se a um estado tal de carência, que as ameaças do que se iria passar, pelos muitos Rasputins da nossa sociedade erudita, em programas de discussão política, não deveriam estranhar hoje os mesmos Rasputins que continuam a publicitar os seus muitos saberes nas mesmas mesas redondas televisivas de ontem.

 

Daniel Oliveira foi um dos que avisou ontem, juntamente com a sua companheira Clara F. Alves, a qual muito troçou do alheamento ignaro da nossa gentinha relativamente ao seu futuro – actual presente em continuidade. Não devia estranhar hoje a tragédia do desemprego que vivemos, pois que estava programado, sabiam-no de antemão. Não se entende o seu discurso tão crítico relativamente a Passos Coelho e à sua dura frase acima transcrita. É uma frase de um rapazola que nunca viveu, talvez, tais dificuldades, ou, se as viveu, as soube ultrapassar com a determinação do ambicioso legítimo. Mas é também a frase de alguém que não pode expor doutra maneira, manietado que está na monstruosidade de uma herança para já, insolúvel, mas que se esforça por ultrapassar, na dureza que impõe a todos os da gentinha, e mais aos que perdem o emprego ou são explorados pelos patrões aproveitadores do contexto.

 

O tempo é de horror, os do Governo vão fazendo promessas, pretendendo resolver e dando esperança. Os intelectuais do contra deviam olhar-se mais ao espelho, lembrar-se dos tempos em que viveram com entusiasmo a libertação do país, indiferentes, então, às tragédias provocadas nos milhões de compatriotas que perderam valores e vidas, fossem embora compatriotas de segunda, no orgulho apoucante destes portugueses de primeira.

 

Passos Coelho foi duro nas frases que pronunciou. Mas não são frases incorrectas. Por vezes a adversidade é ponto de partida para a luta, para a busca de outras oportunidades, ele tem razão nisso. Daniel Oliveira não devia ser tão drástico, só porque deu em moralista, como o são todos os de linhas contrárias.

 

Embora o intelectual Daniel não reconheça nenhuma linha ao nosso P.M., o que é pouco digno num português de primeira.

 

 Berta Brás

MAIS UNS COPOS...

 

 Desta vez do melhor!

 

Começámos a falar de vinhos e... como diz o Abade de Travanca, foi só para começar.

 

Não sou entendido em vinhos, só o bastante para apreciar. Um apreciador à minha moda e paladar, porque também não sou obrigado a gostar de Picasso, Juan Miro ou Tarsila do Amaral, apesar de valerem milhões.

 

A verdade é que ao almoço não me faltam – Deo Gratias – pelo menos dois ou três copos, que têm ajudado a minha saúde a desfazer-se dos cerca de 3.500 compridos que sou obrigado a ingerir por ano, isto se não me der uma torcedura na coluna ou uma gripe!

 

E faço com dizia Winston Churcill, “eu não sou exigente, para mim contento-me com o melhor!”

 

Apesar de não ser um apreciador de Champagne, reconheço que a sua preparação é extremamente exigente, daí ser uma bebida cara, mas ver, constantemente, os vencedores de qualquer prova desportiva – carros, corridas a pé, de bicicleta ou nado, ou ping-pong – abrirem “Veuve Clicquot” ou “Dom Pérignon” para jogarem tudo fora, uns para cima dos outros, acho um crime não só contra a economia, uma afronta a quem não tem dinheiro para beber esses vinhos e uma ofensa a Baco. Enfim, uma cretinice. Modismo é no que dá.

 

Aquela bebida, transparente, amarelinha, com um delicado gás, acreditem ou não é feita sobretudo de uvas Pinot Noir... tintas! É
verdade, com as uvas Pinot Noir de que se faz o maravilhoso Bourgogne, tinto, faz-se também o champagne branco! Como? Espremem pouco, para não esmagar a película que dá a cor (não se aflijam que esta não se joga fora! Aproveita-se para outro tipo de vinho.) E o célebre Dom Pérignon, um monge da abadia de Hautvilliers, degustador de génio, grande químico e físico, aperfeiçoou este vinho para o elevar à qualidade que tem hoje.

 

É feito duma mistura de uvas, concluindo que a mistura das três resulta melhor do que qualquer delas separadamente! Foi ainda Dom Pérignon quem passou a usar rolhas de cortiça, em vez do velho batoque revestido com um trapo oleado! Foi mesmo o “inventor” das rolhas de cortiça!

 

Apesar do Champagne ser muito famoso, caro, e obrigatório quando os emergentes querem aparecer, eu não troco pelo melhor vinho do mundo!

 

Colares. O maravilhoso vinho que está a desaparecer com o avanço da urbanização, e pela complexidade da sua multiplicação.

 

Colares, para quem não sabe, fica “ali”, na base norte da Serra de Sintra. Lugar lindo, aprazível, perto das praias das Maçãs, Grande e
Adraga. Conquistada aos mouros em 1147, foi sede de concelho com o primeiro foral concedido nos primeiros tempos da monarquia. Em 1154 Dom Afonso Henriques já refere o vinho da região, concedendo-lhe privilégios, e em 1255 D. Afonso III fazia doação do Reguengo de Colares a Pedro Miguel e sua mulher, Maria Estêvão, com a obrigação de plantar mais vinhas.

 

A fama deste vinho vinha de longe. Políbio, (c. 203 a.C. - 120 a.C.) já escrevia também que no seu tempo o vinho da península, era caro, valia 4 reis o litro! Na região existem ainda hoje, resistem, casas agrícolas romanas, algumas delas tão bem conservadas que mostram o sistema de aquecimento central da água!

 

O clima daquela região é especial: na base norte da Serra de Sintra, onde os ventos de noroeste, carregados de humidade do oceano se vêm chocar, dão à região a humidade necessária, e justa, para o florescimento da vinha.

 

Influem na qualidade deste vinho, o tinto da casta “Ramisco”, esta constante humidade e o seu terreno de areias. Areias do período
terciário, assentes sobre argilas cretáceas, mais recentes! Ao plantar o bacelo (a vara da videira que se planta para reprodução) a cava tem que encontrar a argila, onde ele é fixado. Como a camada de areia tem uma profundidade que oscila entre 1 e 8 metros, imagina-se o trabalho, imenso que é necessário para alcançar essa profundidade.

 

 

 

 

 

Não há muito tempo estas cavas, em vala, eram feitas à mão, e como as areias não são firmes, sempre havia o perigo de as laterais
desmoronarem quando o cavador lá estivesse dentro. Para evitar o pior, o capataz estava sempre atento, com um cesto de vime à mão, para lançar sobre a cabeça do trabalhador e ele não morrer asfixiado!  

 

O “Colares – Ramisco” tem outra particularidade notável: quando ainda no século XIX a malfadada filoxera, um inseto f... , atacou as
vinhas da Europa, devastando a maioria das plantações, acabou com as vinhas do Alentejo (ele e o Marquês de Pombal!!!) mas o “Ramisco” nada sofreu! O maldito insecto não conseguiu alcançar a raiz da planta! Isto porque desenvolvendo-se esta a grande profundidade, em areia, o insectozinho (miserável) quando começava a crescer não conseguia abrir caminho através da areia e morria! E esta, hein?

 

Sempre houve quem comparasse o “Colares-Ramisco” aos melhores vinhos de Medoc. E são de Medoc só, por exemplo, o Chateau
Lafite-Rothschild, o Chateau Margaux, Chateau Latour, e outros (“vinhos correntes” ) para milionários!

 

Colares chegou também a ter o seu castelo que com o tempo sumiu.

 

Mas o seu vinho, infelizmente raro, continua a não “pedir meças” aos notáveis, mesmo sabendo que hoje já não é 100% Ramisco, porque está a desaparecer. Mas assim mesmo...

 

Uma perda nacional!

 

E nas areias de Colares ainda resiste, igualmente pouco, o branco “Malvasia”. Vinho forte, ótimo para acompanhar peixe bem temperado,
“primo” do Muscat francês. (Só para fazer inveja: bebi hoje a última garrafinha que tinha desse vinho!)

 

 

 

Linhagens que estão a desaparecer e empobrecer o que de, MUITO BOM, Portugal.. ainda tem.

 

 

 

Rio de Janeiro, 17/05/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

A HORA LUSÓFONA ESTÁ A CHEGAR

 

Assumir de novo a Bandeirância da Civilização Ocidental

 

 

Como reacção ao meu artigo “Falta de Cultura da Europa face a outras Culturas mundiais – Europa Berço da Cultura jurídica da Humanidade” recebi, dum digníssimo professor duma universidade de Lisboa, o seguinte reparo: “Penso que, na apreciação dos três pilares europeus, lhe faltou a identificação de um quarto: o braço armado da projecção lusitana da Europa”.

 

Status quo da Situação ocidental

 

Se do encontro da fé de Israel, com a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma nasceu o grande projecto cultural europeu, o seu agir ganhou expressão, a nível global, no “peito ilustre Lusitano”.

 

Os descobrimentos são, certamente, o quarto pilar da cultura europeia, o pilar do saber de experiência feito que Portugal soube concretizar. Sagres resumiu o saber (doxia) europeu e tornou-se no lugar da ortopraxia. Portugal ao saber-se Europa descobriu-se mundo. Por isso onde se encontra hoje um lusófono lá pulsa a alma toda do mundo.

 

Conseguiu-o porque resistiu ao espírito oportuno do tempo indo-se assim “da lei da Morte libertando”, como bem descrevia Camões n’OS LUSÍADAS dos descobrimentos. O alemão R. Schneider, grande conhecedor da alma portuguesa, diz no seu livro “Camões / Philipe II”p.120 “nos Lusíadas não se trata apenas dum povo, mas sim da Humanidade”. Sim, da humanidade que actuava no Portugal de então. Camões canta a alma portuguesa (ainda inteira) que, não se deixando levar pelas lutas/modas de reforma particularistas de então, manteve a visão filosófica cristã global da humanidade, cultivada à sombra das ordens na tradição de Carlos Magno, longe dos interesses meramente individualistas.

 

Portugal foi outrora o primeiro a expressar e a realizar o sentir e a pujança do ser europeu tal como hoje é o primeiro a expressar a sua fraqueza. Hoje como então Portugal é o palco de pontos altos da mudança.

Outrora virada para o exterior e hoje de volta, para depois da crise moral e cultural se encontrar.

 

A Europa medieval, aquela velha árvore que depois de ter estendido as suas raízes às diferentes civilizações até então vividas, floresceu no Renascimento. Desta florescência surgiu o ramo protestante, que começa a afirmar mais o valor do indivíduo, do eu (factor emancipador, a individuação) enquanto o catolicismo continuou a acentuar mais o valor da comunidade. Dois polos necessários, na vida social, que se encontram hoje em radical conflito. De facto, a Idade Média, que é mãe, comunidade, é nós, deu à luz o eu (individuação). Este ao tomar forma no movimento emancipatório protestante sente a necessidade de se afirmar contra a mãe. Mãe e filho afastam-se. Hoje temos uma europa de filhotes sem mãe, que se extenuam no seu cacarejar e na contemplação das próprias penas. A Europa ao combater a maternidade torna-se infecunda e assim sofre o mundo todo. Não suportamos a diferença nem a coexistência de extremos, num condicionalismo de reduzir e simplificar tudo a dimensões uniformes e rectilíneas.

 

O ressentimento dos deuses germânicos contra Roma, no Renascimento, deu lugar ao desejo de liberdade que se fora articulando através da Idade Média e culminou na ruptura protestante com Roma. Assim se iniciam grandes convulsões religioso-político-sociais, e surge um novo sentir da vida, uma nova ordem económica, o capitalismo. A Europa rejuvenesce e transforma-se na procura de diferenciação e emancipação. A vertente protestante culminou no iluminismo, na proclamação da constituição dos USA e depois na revolução francesa e no enfraquecimento das monarquias. Esta importante vertente do desenvolvimento da Europa afirma o eu (a individuação) recalcando o espírito comunitário, o nós. Se na Idade Média a consciência individual ainda vivia em parte sob o manto da letargia institucional (nós à custa do eu) com o movimento emancipatório que ganhou forma no protestantismo começa-se a afirmar o eu (indivíduo) à custa do nós (comunidade). (Este movimento, encontra, actualmente, o seu extremo macabro no capitalismo liberal que reduz a pessoa a ego mercantil e transforma a essência do ego numa metafísica de consumo deixando o ser humano cada vez mais só no deserto do seu egoísmo.)

 

Com os descobrimentos, enquanto na Europa os países se ocupavam consigo mesmos, Portugal já adulto (numa Europa ainda adolescente) assume em plenitude a mundivisão católica e burguesa, aliando-a ao desejo do novo e do “saber de experiência feito”. Portugal precoce realiza o ideário europeu que florescia então nos jardins da Lusitânia. A Europa alcança, através das viagens portuguesas (descobrimentos), um novo panorama do mundo. Este em vez de afinar os espíritos do sentir universal deu lugar à afirmação dos egoísmos nacionais e ao instinto colonizador. Em vez do sentimento do nós católico e universal temperado pelo outro polo, o protestantismo, apenas este encontra expressão na afirmação particular seja a nível estrutural seja a nível individual. A Europa afirma-se na divisão, o norte contra o sul, o politeísmo contra o monoteísmo mitigado. O mundo, à imagem da Europa, afirma-se então na divisão e no contraste em vez de integrar os polos contrários como pretendia o eclectismo complementar da alma portuguesa expresso pela ínclita geração. O despertar dos individualismos nacionais leva à afirmação do particular sobre o comum. Impõe-se a ganância à curiosidade, projecta-se a puberdade contra a maturidade. Os deuses do norte vingam-se contra os do sul. O politeísmo intelectual e político, então iniciado, tudo justifica, restabelece a mentalidade bárbara, não reconhece pai nem mãe, chega-lhe o bordel.

 

Chegamos a um ponto de puberdade negadora duma tradição que lhe deu o ser e que é levianamente negada por uma sua parte. Esta não está consciente de que a negação provém da acentuação exagerada do outro polo que constitui a sua afirmação, o seu ideário. Entretanto o espírito emancipatório acentuou-se de tal modo que reprimiu o aspecto comunitário, só quer machos, a feminidade/maternidade constitui obstáculo ou é sufocada pelas estruturas vigentes, demasiado masculinas. Quer-se uma sociedade sem comunidade, querem-se filhos sem mãe. O ressentimento que hoje se expressa contra instituições, especialmente contra a UE, contra a Igreja católica, é o mais visível sintoma dum individualismo exacerbado que não conhece pai. O politeísmo da opinião não suporta a procura da verdade no sentido da unidade, circula em torno de si mesmo sem conhecer o sentido linear ascendente da evolução natural, individual e cultural.

 

A crise actual é uma crise cultural e moral duma civilização que perdeu o seu ideário; é o resultado da acentuação do eu contra o nós, do objecto contra o sujeito. Socialismo e capitalismo sofrem do mesmo vírus epocal. Todo o mundo sofre em consequência da crise espiritual europeia que vendeu a alma ao Mamon para continuar a afirmar o seu polo individualista. O capitalismo exagerado machista foi-se afirmando à custa da comunidade até ao extremo de hoje se afirmar contra ela, não tendo escrúpulos em destruir os próprios Estados.

 

Os países lusófonos, em vez de assumirem a nova mudança de consciência individual e histórica deixam-se destruir, sem tecto metafísico, seguindo sem reflexão própria os novos deuses e cultos que, de maneira anónima, em nome da emancipação se afirmam contra uma comunidade que albergue todos na complementaridade. A lusofonia, para assumir a bandeirância do progresso, tal como o Portugal de outrora, terá de descobrir-se a si mesma e de consciencializar-se e assumir o tecto metafísico que dê consistência à sua acção.

 

Outrora, enquanto os povos da Europa combatiam pela definição de suas identidades políticas, Portugal, que já tinha encontrado a sua identidade nacional, pôde dedicar-se à tarefa original de levar ao mundo o espírito europeu. A bandeirância que fez nascer Portugal é a mesma que o torna adulto e o leva à expansão. A revolução axilar do renascimento que explode por um lado no protestantismo na procura duma individualidade que se expressa no capitalismo e no espírito cívico, afirma, por outro lado, o seu carácter global (católico – aspecto comunitário) na continuidade espiritual da escola de Sagres.

 

Hoje encontramo-nos numa época axiomática da História na qual a crise não é só de ordem estrutural/mental mas espiritual. Os fundamentos que deram origem à grande árvore da civilização ocidental são descurados e as suas raízes sistematicamente amputadas. Em vez de nos preocuparmos com o que deu vida a esta árvore, serramos nela o próprio ramo em que nos encontramos. Depois da insónia desta crise surgirá porém o sonho que renovará o mundo; até lá os ventos da contradição continuarão a destruir pontos altos da nossa civilização.

Ao ressentimento dos deuses germânicos, com o seu espírito capitalista, sucede-se agora o ressentimento socialista aliado à derrocada dum capitalismo liberal injusto que, como um polvo, procura abrir os seus tentáculos num globalismo aniquilador de nações. Junta-se a feiura do turbo-capitalismo à fealdade do comunismo materialista na tarefa de reduzirem as estruturas de Estado a seus veículos de ideologia trituradora da pessoa.

 

O mito da Europa como vaca degenera-a agora em touro de cobrição. Como um touro de olhos fechados sai do curro ocidental para dominar o mundo, destruindo a cultura que lhe deu o ser, não respeitando os ecossistemas culturais. É verdade que as “constelações postnacionais” de que fala o filósofo alemão Habermas já não podem resolver os seus problemas sozinhas pressupondo isto o abandono de individualismos nacionais e culturais mas sob o tecto metafísico civilizacional que lhes deu o ser.

 

Se o desejo de individuação, no renascimento, deu lugar à “monolatria” protestante, o modernismo volta ao politeísmo anterior à civilização.

Deixou-se de considerar o mundo como um conjunto de ecossistemas sociais com as suas leis e ordem inerente para os transformar em biótopos individualistas em que as divindades se sobrepõem umas às outras tornando notórias as fracturas a nível ideário, estrutural e pessoal. A nível ideário e cultural assiste-se à batalha do politeísmo contra o monoteísmo. Se o conflito surgido do renascimento (dois modelos de vida sob o mesmo teto metafísico) era expressão da força dum sistema e duma vivência, a crise a que assistimos hoje revela-se decadente (sem sentido, destroem-se modelos à margem dum ideário colectivo que justifique tal actuação). O saber deu lugar à opinião fundada em castelos no ar. A nação deu lugar a estados à mercê de mercenários que em nome duma europa mal-entendida se afirmam. Estes, para se sentirem mais à vontade mandaram a cultura ocidental para rua sem qualquer guarda-chuva espiritual. Resultado: chuva ácida nos biótopos naturais e nos ecossistemas culturais.

 

O capitalismo e o socialismo, dois filhos pródigos do cristianismo, depois de terem provocado grandes buracos no ecossistema espiritual ocidental, parecem, não querer voltar à velha casa paterna onde, juntos, a poderiam renovar, engrandecer e projectar. Preferem seguir o poder da monocultura masculina islâmica e a desorientação do politeísmo oriental. Nestas, o indivíduo encontra-se indefeso, à chuva, e sem privacidade com a própria divindade. Desprotegido e desalojado dos ecossistemas sociais, fica mais disponível para o mercado e aberto a ideologias baratas e a uma oligarquia anónima mundial.

 

Enquanto o espírito europeu envelhece, no Brasil e nos países da lusofonia, a antiga vontade poderia erguer-se.

A lusofonia surge como lugar duma nova missão no mundo. Nela se podem congregar os anseios do velho Portugal com as ânsias das novas gerações. Como parte do legado, visto da perspectiva portuguesa temos o espírito universal católico, e os escritos de Camões, de António Lopes Vieira, de Fernando Pessoa, etc. Não chega apostar apenas em ideologias, estas passam como os ventos entre a alta e a baixa pressão, é preciso ter-se presente o eixo que tudo suporta e dá continuidade a quem conta com o futuro; para os lusófonos, este eixo é o cristianismo com a sua perspectiva mística do triálogo. A filosofia e a espiritualidade cristãs terão de, num processo de aculturação e inculturação, se tornar num verdadeiro tecto metafísico do mundo da lusofonia. Neste sentido será necessário manter o modelo católico calibrado com o espírito protestante.

A bandeirância outrora assumida por Portugal na Europa espera por ser assumida e renovada por todos os países da lusofonia. A nova bandeirância já não será de carácter expansionista para o exterior mas para o interior, da quantidade para a qualidade num espírito integrativo e de complementação num processo de integração de espírito e matéria, de ecologia e tecnologia. A força em toda a natureza vem de dentro para fora muito embora seguindo o chamamento da luz; o mesmo se diga dos ecossistemas culturais e dos seus biótopos humanos. Não podemos continuar a cultivar árvores repelindo a floresta.

 

No passado dominou o princípio dialéctico (um sistema de pensamento redutor elaborado na contradição/dissecação) como princípio de pensamento e da realidade que se reflecte na nossa maneira de organizar a sociedade e a vida individual numa espécie de dicotomia entre indivíduo e sociedade, superior/inferior, sujeito/objecto. O novo pensar será trinitário equacionando o problema dos contrastes num triângulo circular ascendente. Numa cadeia de relações infinitas dum contínuo tornar-se, num processo espiral ascendente que transcende o espaço e o tempo na dinâmica da união que se não limita a um estado momentâneo mas se expressa na sua dinâmica relacional, numa nova Realidade que engloba o real aparente despetreficando-o para um estado fluido, para lá do momento e das amarras da definição que são o espaço e o tempo. A relação torna-se então processo pessoal e não estado, deixando de ser objectivável no todo e no particular. A Realidade desinforma-se para se consciencializar do ser in do processo in-formar.

 

Então a relação torna-se pessoal, é tornar-se, essência relacional; o in (do in-formar antes e depois da forma numa dinâmica de pai-filho-paráclito) da a-perspectividade resolve a aparente contradição matéria-espírito, indivíduo-sociedade, eu-tu, na dimensão da vivência superadora da alternativa através do paráclito. O indivíduo passa a ser pessoa e a sociedade a ser comunidade. Nós só exercitamos a perspectiva funcional da relação e por isso petralizamo-la numa ou noutra identidade. Em Jesus cristo exclui-se a exclusão mútua de matéria e de espírito. Nele (JC) torna-se visível uma unidade dinâmica do tornar-se da petrificação (J) e do fluido (C); a relação duma com a outra possibilita-se num processo de mudança concretizado na relação pura (o paráclito). Aqui dá-se já não um progresso quantitativo (estados), negador do anterior ou afirmador do posterior, mas uma dinâmica da relação pessoal (de ipseidade) em que o outro participa do espírito comum a toda a realidade em relação. A base constante é a divindade subjacente a tudo, a todos comum, num processo universal sem funções dado a relação ser pessoal num eterno tornar-se (“eu sou o tornar-se”, dizia Deus a Moisés) para lá do acontecer. A oposição dialéctica do eu/tu, eu/objecto resolve-se na realidade trinitária dum eu-tu-nós. Passamos a não ter apenas o diálogo como o contrário do monólogo, como relaç1bo entre objectos, mas o triálogo como integrador do diálogo, do monólogo e do “objecto” num processo de sujeito-sujeito. A dialéctica passa a ser integrada como momento do processo e a não ser vista como realidade ou espelho da mesma. Isto tem como consequência uma outra forma de vida e de estar superadora duma pedagogia, duma política e duma economia meramente objectivadora.

 

Uma nova filosofia de vivência e de Estado pressuporá a união da filosofia com a mística, uma aplicação prática da filosofia trinitária.

 

A Hora da lusofonia está a chegar, precisam-se faróis por todo o espaço lusófono. Para isso terá de coadjuvar-se modernidade e tradição, maternidade e filiação, o indivíduo passar a ser pessoa e a sociedade a ser comunidade. “O espírito do mundo desce ao Brasil e abandona a América iankye. A China cairá brevemente com a sua crise demográfica e é preciso preparar a Lusa- áfrica pela mobilização do Brasil”, confessava-me o amigo.

 

Pegadas do Tempo | Rascunhos da vida António da Cunha Duarte Justo

PROTESTOS



 

 

Os dias 25 de Abril e 1.º de Maio são momentos anuais de protesto, este ano com muito mais razão. Pela primeira vez a Associação 25 de Abril e o ex-presidente Mário Soares faltaram às celebrações oficiais do aniversário da revolução, facto inaudito e grave.

No meio do grande sofrimento nacional não surpreende a irritação. É compreensível e razoável. O que surpreende são duas coisas. Primeiro a ruptura com as instituições, chegando-se a gravíssimas atitudes antidemocráticas como a de Vasco Lourenço ao afirmar no discurso de 25 de Abril: «Hoje, os eleitos já não representam a sociedade portuguesa.» Depois surpreende que tenham estado calados durante os 20 anos em que acumulámos a monstruosa dívida que agora nos arruína. Afinal, a tão repudiada «ditadura dos mercados» só existe porque não soubemos gerir a casa e agora temos de pagar as benesses a crédito que todos tivemos durante décadas.

 

Esta não é a primeira, mas a terceira vez que o FMI é chamado a Lisboa para nos resolver uma emergência financeira. Curiosamente, na última, em 1983, era primeiro-ministro o Dr. Mário Soares, na altura fortemente zurzido pela austeridade que impunha ao País.

Então ele explicou repetidamente a necessidade de sacrifícios, acusando muito justamente os governos AD que o precederam. Essas palavras são precisamente as mesmas que o Governo actual utiliza, de novo com toda a razão. A zanga e o protesto são compreensíveis. Mas protestar é fácil. O que é difícil é apresentar alternativas. Não se ouviu uma única credível nestes dias de protesto.

 

 João César das Neves

 

LIDO COM INTERESSE – 54

 

 

 

Título: POESIA CUBANA CONTEMPORÂNEA

 

Coordenador: Pedro Marqués de Armas

 

Tradutor: Jorge Melícias

 

Editora: ANTÍGONA, Lisboa

 

Edição: 1ª, Março de 2009

 

 

Conheço Cuba e por isso sei que nem tudo são trevas: há quem se ria ao lado de quem chora; há quem viva «na maior» ao lado de quem usa as meias rotas; há quem acredite na utopia ao lado de quem só pensa em fugir do que lhe parece o Inferno.

 

Cheguei a Havana no dia seguinte ao que pareceria ter sido um bombardeamento aéreo, tanta a ruína e degradação. Mas para atender aos usos e costumes dos «viciosos burgueses estrangeiros», o Hotel Nacional refulgia no seu amarelo ainda a cheirar a pintado de fresco. Foi aí que dei de gorjeta ao velho «maletero» a nota mais pequena que tinha no bolso e o homenzinho quase deu saltos de contente quando constatou que eu lhe dera um ordenado mensal; era a idosa pianista que nos acompanhava às refeições que tinha as meias rotas e a cicerona do Museu da Revolução foi disfarçadamente ao hotel buscar uma t-shirt que lhe prometêramos.

 

Em Cuba, o eufemismo de prostituição é «relações públicas» e a mentira impera em toda a parte de modo a que o povo se julgue no
paraíso e que nós, os turistas, somos uns viciosos do pior.

 

E no meio de tudo isto, até há quem verseje. Versos ambíguos ou contestatários. Os primeiros lá dentro; os segundos na diáspora.

 

Só na década de 80 a poesia cubana recupera a sua força libertando-se, a pouco e pouco, do lastro da ideologia. Nesta antologia
mostra-se uma dezena de poetas começando pelos surgidos por volta de 1970 e concluindo com alguns que já se puderam influenciar pela Perestroika. De qualquer modo, todos nascidos depois do triunfo da Revolução castrista e educados sob a experimentação guevarista do Homem Novo, com a qual muitos rompem e por isso lhe sofrem as previsíveis consequências.

 

A poesia cubana encerra uma história rica que a coloca entre as mais fortes da América Latina. O seu estranho vigor não assenta apenas
no facto de contar com poetas de alcance universal (José Martí, Nicolás Guillén, Dulce Maria Loynaz ou José Lezama Lima) e com outras figuras imprescindíveis ainda que menos conhecidas internacionalmente (Julián del Casal, Virgilio Piñera, Gaston Baquero, atc.) mas também nalgumas particularidades da sua tradição que de algum modo a diferenciam das outras poesias do continente.

 

Umas dessas particularidades é a sustentada tensão entre poesia e História, que chega até aos nossos dias, não isenta dos traumas que
têm o seu ponto de partida nos próprios começos do processo literário cubano. Ler a História como poesia ocultando a sua extrema violência e a poesia como se tratasse de premonições históricas, eis as constantes num país cuja identidade nacional só se estabelece a saltos e em que o tema não poucas vezes foi a própria falta de identidade.

 

 (*) Reina Maria Rodriguez, natural de Havana onde nasceu em 1952, é licenciada em literatura hispano-americana e actualmente dirige em Havana o projecto cultural «Casa de Letras» sendo também editora da revista Azoteas. Uma “situacionista” que escreve «à bons entendeurs»:

 

Eu conheci certo homem, um homem singular.

Cuidava todos os dias e todas as noites da luz do seu farol,

Um farol mediano que não sinalizava muito,

Um farol pequeno para embarcações de pequeno porte

E obscuras povoações de pescadores.

Ali, na sua ilha ele intercambiava com o seu farol as sensações

Esperando todos os dias, todas as noites, essa outra luz

Que não vigia a perseguição de nenhum objecto,

Essa outra luz que não ilumina nada,

Outra luz reflexiva, que atravessa, para dentro,

A distância entre o porto seguro do sítio

E o olho que procura restituir, superficial e transparente,

A ilusão provisória que se eterniza.

(...)

 

 Rolando Sánchez Mejías, nasceu em Holguin no ano de 1959 e em 1993 fundou a revista Diásporas que circulou clandestinamente em Havana até 2002 fazendo frente à política cultural cubana a formulando as mais fortes críticas à tradição literária do país. Reconhecido como um dos melhores poetas e narradores da língua espanhola, os seus textos foram incluídos em antologias da poesia e do conto hispano-americanos do século XX. Desde 1997 que vive exilado em Barcelona.

 

Se fosse a ti

Não teria esperado tanto.

Esperavas que eu fosse

Ao encontro onde falarias da palavra dor.

De lá para cá

(o tempo corre, querida,

o tempo é um porco veloz

que cruza o bosque da vida!)

Passaram-se muitas coisas.

Entre elas,

A leitura de Proust.

(Se me visses!

Sou mais cínico mais

Gordo e

Caminho meio lerdo

Como uma retrospectiva da morte).

Se fosse a ti não teria esperado tanto

E teria ido com aquele que te dizia

Com uma saudável economia de linguagem:

Casa-te comigo.

(...)

 

Já me ia esquecendo de outro gato escondido com o rabo de fora: grande profusão de bandeiras canadianas flutuando sobre os mais
relevantes empreendimentos industriais. Todos desconfiamos que se trata de investimentos de «canadianos do sul»...

 

Cuba, o país da mentira e da poesia «à bons entendeurs».

 

Lisboa, Maio de 2012,

 

Henrique Salles da Fonseca

 

(*) Photo credit: © 1998 Andrés Walliser in http://epc.buffalo.edu/authors/reina/

A GENTE IMPORTA BATATAS E PROGRAMAS

 

Foi a propósito do programa “A tua cara não me é estranha” da TVI de que escutei Luciana Abreu no fado de Amália “Lágrima”, imitando Dulce Pontes. Já ouvira falar dela como excelente intérprete, mas para mim a interpretação de Margarida Bessa desse fado excedia a da própria Amália e, desconhecedora das regras do programa, que só vira de passagem – e numa delas, dando com Goucha de
gatas, preso por uma coleira a imitar um cão, logo orientara o comando televisivo para outro destino menos deprimente – comentei que me lembrara a Dulce. A minha amiga explicou que era esse o objectivo do programa, reproduzir as vozes de outros cantores. Mas tratava-se de um programa de importação. E concluiu, com o arrebatamento costumeiro:

- “A gente importa batatas e programas”.

 

Gabei a voz de Luciana Abreu, condenei os arrebiques linguageiros dolicodoces de António Sala, mas a minha amiga contou que se tratava de um programa brincalhão, gabou a Alexandra Lencastre, que fazia parte do júri, como actriz segura.

 

Eu tinha outra na manga, e a nossa bica domingueira descambou por aí. Com efeito, tinha ouvido das 7 às 8 horas da manhã, o “Eixo do Mal”, em repetição, e entre a barafunda das gargalhadas, interrupções ou discursos de diferente alcance, dos cinco participantes, ouvi da Clara Ferreira Alves, a respeito da caçada de Juan Carlos, o desdenhoso comentário sobre Cavaco Silva, “que oxalá fizesse caçadas com amantes e se perdesse com elas” – não distingui se a perdição se reportava à companhia das caçadas ou das amantes.

 

 

A minha amiga não me deu tempo a comentar sobre a infantilidade do insulto da cronista, porque enveredou logo pela figura do rei de Espanha e pelas suas experiências cinegéticas de zambeziana divertida:

- Foi caçar elefantes aonde? Aquilo é só para a fotografia! Foi vê-los ao longe. Foi à mata e partiu a anca. Ele é presidente de uma associação de protecção do ambiente, não pode caçar. É preciso gente competente para caçar elefantes. Foi passear para o Botswana, sem se preocupar com as despesas, e agora agradece a quem se preocupou com a sua perna.

- Mas pôs o mundo em alvoroço.

- Eu já estive na Gorongosa juntamente com um grupo de amigos. Em vez de irmos pela estrada principal, metemos por uma picada e apanhámos grandes sustos, pois vimos manadas de elefantes, sem estarmos protegidos. São muito perigosos, pois as trombas são muito pesadas. E abanam assustadoramente as orelhas. Nunca devíamos ter ido pela picada. É claro que tudo, mais tarde, foi motivo de risota, mas já estávamos a salvo. Só não houve fotografia com elefante. Ainda hoje nos telefonamos. Era gente divertida, à moda da Zambézia.

 

E passou a falar em Pio Cabral, seu amigo, que começara como caçador de elefantes:

- Um dia um dos empregados disse-lhe que havia coisas a brilhar, numa determinada zona. Pio Cabral foi ver. Encontrou esmeraldas, turmalinas. Mas não era essa a fortuna da terra. Mandou examinar no estrangeiro o pó da terra, uma espécie de pó de carvão. Tratava-se de tantalite, uma liga que serve para fazer aviões.
Durante anos Pio Cabral explorou a liga, tornou-se o homem mais rico da terra.
Aquela mina, até ao 25 de Abril nunca acabou, estava no auge. No aldeamento que construiu, nada faltava. Aquilo tinha tudo: casas, igreja, cemitério, cantinas, cinema, uma piscina fabulosa na casa dele, campo para os táxis aéreos, pois nos fins de ano as festas na sua casa eram fabulosas, trajes de cerimónia, tudo iluminado… Parecia uma cidade americana…

 

E a minha amiga revivia com entusiasmo o seu passado de passeios e diversão frequentes.

- E a tantalite?

- Creio que continua a ser explorada, talvez por gente da terra, a mina só se acabou para os portugueses.

 

 Berta Brás

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