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A bem da Nação

ARGENTINA – 10

 

A LUA

 

 

Nuvens benignas atravessadas sem tremeliques de nota, eis-nos a sobrevoar a Patagónia. Começam os lagos a aparecer por aqui e por ali e o avião continua a descer paulatinamente... Até que surge uma imensidão de água a fazer de crianças aos que viramos antes. E lá fomos descendo... até constatarmos que não era ilusão óptica: não fora o lago e diríamos que estávamos a alunar e não a aterrar – nem uma única erva, tudo completamente estéril, deserto.

 

 

A pista do aeroporto é na margem do Lago Argentino – é esse o nome dele – e o contraste é tal que mereceu uma foto logo que saímos da manga. Pena foi que não nos tivéssemos lembrado de fotografar também o outro avião que ali estava estacionado de cores branca e azul celeste com letras bem visíveis proclamando que pertencia à “REPÚBLICA ARGENTINA”. Já lá vamos...

 

 

A dezena de quilómetros do aeroporto à cidade é de paisagem lunar e logo tentei descortinar a razão de tanta desolação. Os ventos
predominantes sopram da Polinésia para leste mas quando chegam à costa chilena logo encontram os Andes, são empurrados para cima, condensam e a humidade transforma-se em neve. Essa neve faz glaciares nas duas encostas e os que pendem para o lado argentino lá vão criando os lagos que já referi. Mas o vento, esse, continua o seu percurso. Só que já sem a humidade que largara nos Andes e, conjugado com o Sol, «em vez de criar, seca».

 

 

Mas Deus é grande e lá permite que a vida prossiga mesmo onde não era suposto ela medrar. Assim, no sentido dos Andes, os arredores de El Calafate transformam-se em estepe e é nessa que se criam os ovinos que deram origem à cidade. 

 

Nunca eu ouvira falar de Gerónimo Berberena. Contudo, a muito educada população local sabe que se trata do verdadeiro fundador da sua cidade. Mais: até deixam que se digam outras coisas pois sabem que ele é que foi o verdadeiro fundador.

 

Havia por ali «haciendas» de extensíssima produção pecuária com dias de marcha entre elas e sempre que precisavam do mais pequeno
apoio externo, tinham que se deslocar a umas centenas de quilómetros até à capital provincial, Rio Gallegos (pronuncie-se «gaxegos»).

 

E foi no já longínquo 1915 que Gerónimo Berberena decidiu emigrar da sua Espanha natal para a Argentina a fim de conseguir alimentar a família. Teve sorte: arranjou emprego no dia em que pôs pé em terra, nesse remoto Rio Gallegos, como empregado da Sociedade Anónima de Importação e Exportação da Patagónia. É claro que não discutiu a função que lhe atribuíram: instalar um posto comercial (mercearia, diríamos hoje) no interior da Província para abastecer as «haciendas» por lá perdidas e comprar o que elas tivessem para vender.

 

 

E para se resguardar da ventania fria e seca, começou por construir um casinhoto de chapa ondulada lá no meio da estepe, fronteira com o deserto mas à beira de um imenso lago, a trás dumas moitas ressequidas. Esse arbusto é o calafate e, pronto, foi ali mesmo que as pessoas começaram a ir comprar isto e aquilo que a mercearia tinha para vender. E a Sociedade Anónima também comprava a lã que os fazendeiros tinham para vender pelo que as gentes se foram instalando por ali... Passados uns tempos, Berberena decidiu-se por fazer da sua casa um posto de Correio e passados alguns anos foi o próprio Governo argentino que o nomeou Juiz de Direito. Tudo pareceu normal quando ele pediu (e conseguiu) a instalação de uma escola primária e hoje já ninguém poderia imaginar El Calafate sem a sua escola secundária, os seus hotéis, restaurantes, agências bancárias e mais não sei quê, até à casa particular da Presidenta Cristina Kirchner.

 

Fica assim explicada a presença do avião branco e azul celeste estacionado no aeroporto de El Calafate: Sua Excelência a Presidenta
estava a passar o fim-de-semana (que ela prolongara por Decreto) na sua casa privada na Patagónia.

 

 

Passei-lhe à porta a pé e de carro mas não a vi. Foi pena pois que, segundo as fotos, até parece que se apresenta bem!

 

(continua)

 

Henrique Salles da Fonseca

 

ARGENTINA – 9

 

 

HASTA LA VISTA

 

 

Bons vinhos, os argentinos. Carne de vaca tão pouco (ou nada) saborosa como em qualquer outra parte do mundo, com excepção da Namíbia. O cordeiro, esse sim, saboroso. Não experimentei o peixe com medo de o considerar menos apaladado que o nosso. No final, as contas sensivelmente iguais às de Lisboa. Mas come-se muito na Argentina! A minha balança que o diga que até gemeu quando cheguei a casa. O cavalo não se queixou mas tive o cuidado de não montar a égua que já vai nos 19 anos de idade.

 

Evita morreu mesmo e a Argentina em peso cumpre o pedido da canção de Madonna: não a chora! Ao cemitério de La Recoleta apenas acorrem turistas estrangeiros incentivados pela Broadway; argentinos, só os funcionários. E quando perguntei onde estava enterrado Juan Perón responderam-me quase com desdém. Já nem me lembrava da resposta mas fui agora procurar e recordei que está em San Vicente, província de Buenos Aires.

 

Péron morto.jpg

Terão os argentinos enterrado definitivamente a demagogia em San Vicente?

 

 

Mas há uma coisa que me está atravessada, que tenho tentado calar mas que não resisto a referir: então não é que a Presidenta Cristina decretou para 2012 e anos vindouros mais 17 feriados nacionais, muitos dos quais os chamados feriadões (propositadamente encostados a fins de semana)? Diz ela que é para incentivar o turismo interno... E quando os turistas internos forem parar ao desemprego porque as respectivas empresas não aguentaram tanto feriadão, como vai ser, Senhora Presidenta? Acha que a Argentina ainda aguenta mais demagogia e brincadeira com coisas sérias?

 

Foi durante um desses feriadões que estive em Buenos Aires e por isso visitei uma cidade parada. Mas em compensação não tivemos
engarrafamentos nem poluição.

 

E foi num suave fluir que nos levaram ao aeroporto que serve sobretudo os voos domésticos pois o nosso próximo destino era El Calafate, sopé dos Andes, em plena Patagónia.

 

O voo foi de três horas e meia e durante duas horas o céu esteve limpo pelo que pude espreitar para baixo e constatar que os agricultores argentinos não brincam em serviço.

 

Lembrei-me muito desses atletas olímpicos que foram os nossos cavalos argentinos «Caramulo», «Raso», «Cara Linda» e por aí fora mais uns quantos cujos nomes agora não lembro. Eram bons? Sim, claro que eram bons! Mas o que é um cavalo bom? Na perspectiva da alta competição em obstáculos, é aquele que consegue saltar mais do que os outros que sejam menos bons. E aqueles argentinos que o Exército Português comprou eram tão bons como os melhores mas deram mais nas vistas e ganharam mais que os outros porque eram bem montados. Dentro da alta qualidade, os nossos tinham melhores cavaleiros e por isso ganharam mais. E geneticamente, o que eram eles? Creio que ninguém sabe, nem os próprios criadores que os tinham selvagens por aquelas pampas além. Podemos tentar adivinhar que tivessem sangue inglês lá pelo meio de não se sabe mais quê mas tanto pode ser isso como outra coisa qualquer. O que sabemos é que do nada das pampas saíram atletas olímpicos que fizeram subir bem alto a bandeira de Portugal.

 

Calado e Caramulo.jpg

 O então Capitão (mais tarde Brigadeiro) Henrique Callado no argentino «Caramulo»

 

E no meio destes pensamentos, apertemos o cinto pois estamos a começar a descer para El Calafate.

 

(continua)

 

Buenos Aires, 2012.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

ARGENTINA – 8

 

 

NAVEGANDO

 

 

Dá para encarar a possibilidade de se ir viver para Palermo, arredores de Buenos Aires, numa daquelas moradias pequenas mas com aspecto muito confortável, à sombra de grandes acácias certamente mandadas colocar ali por alguém com muito gosto. E como era fim de Verão e início de Outono, o Sol moderado dava-lhe uma nostalgia digna de um sentido tango. Cumprindo a regra nacional, tudo no sítio certo, nenhum papel no chão, gente asseada, urbana, educada. Graffiti? Nem um!

 

E são quilómetros e quilómetros dessas moradias cercadas de pequenos jardins a mostrar à saciedade a dimensão da classe média que por ali vive confortavelmente.

 

Foi a caminho de Tigre para um passeio pelo delta do rio Paraná seguido da viagem de regresso a Buenos Aires ao longo da costa argentina do Rio de la Plata que fiquei a saber que in illo tempore houve quem imaginasse tigres na América do Sul. Confusão com a onça-pintada entretanto desaparecida daquelas paragens para tranquilidade dos muitos que ali vivem naqueles encantadores arredores da cidade autónoma.

 

 

Dará muito trabalho contar o número de ilhas que compõem o delta do Paraná na certeza, porém, de que todas as casas têm endereço
completo com número de lote e nome da ilha em que se localizam. E à semelhança de Veneza, há barcos para transporte público a que por ali não chamam «vaporetti» mas chamarão de qualquer outro modo que não apurei. A recolha do lixo tem barcos apropriados, a mercearia flutua e apita à porta da clientela, a ambulância tem proa e popa, as garagens são pelo método do guincho para que a «viatura» poise sobre o cais privativo e o transporte escolar é gratuito para que ninguém possa argumentar que não vai à escola porque não sabe nadar. Os bólides fazem grandes ondas mas todos abrandam quando se cruzam com outro barco de modo a que os solavancos e as molhas são acidentes e não acontecimentos normais. E como era Domingo de finais de Verão, as famílias estavam nos seus jardins à beira-canal, as praias artificiais públicas e privadas com tartan granulado a fingir de areia, todos com a certeza de que é bom viver ali. E nós, passantes, com gosto de os ver gostar. Castanha escura, a cor da água. Mas quem é que havia de a querer de outras cores?

 

Transporte público

 

A palafita é imprescindível a quem vive num delta.

 

E saímos do delta...

 

O Rio de la Plata é a perder de vista e foi só necessário entrar nele para percebermos como terá sido fácil a tanto descobridor de antanho julgar que aquela era a passagem para o outro lado daquele novo continente que abusivamente se interpunha entre a cobiça e as Molucas. Na lancha rápida, 50 minutos para a atravessar; de barco convencional, quase 3 horas.

 

Mas foi só começarmos a navegar ao longo da costa argentina e eis-nos a ziguezaguear entre muitos e muitos barcos e barquitos pertencentes aos inúmeros clubes de vela que por ali existem. Sim, recordemos que era Domingo e que o tempo estava amigo das férias de finais de Verão. Das bandas do Uruguai soprava brisa amiga dos navegadores novatos daquelas tantas escolas de vela e também amiga dos turistas que por ali passeávamos já encantados pelo país a que há pouco chegáramos.

 

Eram tantos que navegavam por ali...

 

Fiquei cheio de pena de não ter sido possível encaixar no nosso programa uma ida a Colónia de Sacramento mas o óptimo é inimigo do bom e a ex-colónia portuguesa lá terá que ficar à minha espera na margem norte do Rio de la Plata... 

 

 

Aportámos a Puerto Madero e logo nos disseram que aquela obra era uma das causas da dívida externa argentina. Podem dizer o que quiserem assim como nós somos livres de acreditar (ou não) no que nos digam. Admito que aquela obra possa não ter ajudado à resolução da crise da dívida externa argentina mas é para mim óbvio que as causas foram outras e de muito maior dimensão. Por favor, deixem Puerto Madero tranquilo, sem essas culpas. Leiam a História e meditem.

 

Siga a viagem!

 

(continua)

 

 Henrique Salles da Fonseca

ARGENTINA – 7

 

 DE PASSEIO

   

E como era antes da Internet?

 

É claro que todos nós sabíamos com maior ou menor precisão o que relatei nas crónicas anteriores mas, se não fosse a Wikipédia, eu não seria capaz de referir datas tão precisas nem números tão concretos.

 

Fique o mérito a quem de direito e o proveito a nós, os que nos aproveitámos de tantos conhecimentos.

 

O peso da História, senti-o um pouco por toda a parte e por certo que saboreei mais a cidade do que alguns daqueles outros turistas que comigo andaram em certos circuitos standardizados a quem ouvi comentários sobre temas bem diversos dos que me iam passando pela cabeça. Nada tenho contra os profissionais da bola cujos desafios equiparo a bafordos mas recuso-me a tomar em consideração o que sobre o país possam pensar os “Beladonas” e outros «heróis» marados do chuto. Mas mesmo assim tive que ir ver a «Bombonera»(felizmente só por fora), o estádio do Boca Juniores.
 
É claro que na minha terra também só conheço os estádios de futebol pelo lado de fora.
 
 https://video.search.yahoo.com/search/video?fr=yfp-t&p=Marta+argueritch#id=1&vid=89cf04b977d80aaef27aa9a56d2841bb&action=click
 
Mas como facilmente se imagina, Buenos Aires é muito mais interessante do que aquilo que não nos interessa. As dimensões imperiais da Avenida 9 de Julho, o recuperado e interessantíssimo Caminito, Puerto Madero no que ele foi e no que ele é, a Plaza de Mayo e as suas «abuelas» inconformadas, o cemitério de la Recoleta e o jazigo da Família Duarte em que se encontram os restos de Eva Perón, o Teatro Colón (esse, sim, lastimei ter visto apenas por fora), o que ele é no meio musical do planeta Terra e representou para gente tão importante no mundo da música como o pianista Daniel Baremboim, o maestro Carlos Kleiber e não sei quantos mais argentinos de nascimento que tão alto fazem (ou fizeram) honra ao seu país de origem. E a propósito de música, ao passear por Buenos Aires eu nunca poderia esquecer Martha Argerich, Carmen Piazzini ou Astor Piazzolla e o seu “Adiós Nonino”...
 
 
Mas se me ponho aqui a citar mais argentinos ilustres que deram (ou dão) novos mundos ao mundo, arrisco-me a fazer um rol mais parecido com uma longa lista telefónica.
 
 
 
E é sempre para mim uma grande incógnita quando vejo as pessoas a andar pelos passeios duma cidade e me pergunto se elas por acaso imaginam a História das pedras que pisam... ou se se limitam a pisar a História das pedras. E Buenos Aires tem tanto que ver que faz dó não podermos saber o que cada esquina possa ter para nos contar.
 
A propósito desses que eu vi a andar pelos passeios, há então que apurar quem são eles, o que é um argentino? Se tomarmos em consideração o que diz a anedota, «um argentino é um italiano que fala espanhol e tem a mania de que é inglês».
 
(continua)
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 

ARGENTINA – 6

ATÉ HOJE!

 

 

Foi num dramático contexto económico que se realizaram eleições presidenciais em Maio de 1989 e, como seria de esperar, a vitória coube ao candidato da oposição, o peronista Carlos Menem, com 51% dos votos. Só a magnitude do caos económico-social justificou a vitória da oposição que, ironia das ironias, era a herdeira da linha que levara a Argentina à bancarrota uns anos antes. Mas, contudo, pela primeira vez na história da Argentina realizava-se uma sucessão entre dois mandatários civis constitucionais de diferentes partidos políticos.

 

 

 

Menem governou a Argentina de 1989 a 1999 recebendo o país mergulhado no caos económico e inflacionário. Durante o seu primeiro
mandato, Menem procurou estabilizar a situação inflacionária do país. Assim, avançou com a chamada Lei de Convertibilidade, igualando o valor do Peso ao do Dólar americano, o que provocou uma catástrofe económica por completa inaptidão ao novo valor atribuído à moeda nacional. Mas também privatizou empresas, abriu o mercado e firmou o Tratado de Assunção, que deu origem ao MERCOSUL. Na sequência da sobrevalorização artificial do peso, o segundo mandato de Menem caracterizou-se pelo aumento do desemprego, da pobreza e do trabalho ilegal com a dívida externa a aumentar quase 82 biliões de Dólares. No final de 1998, a Corte Suprema decidiu que Menem não se podia candidatar a um terceiro mandato consecutivo e, entretanto, iniciara-se uma recessão de quatro anos que se tornaria a mais longa e destrutiva da história argentina. Estes problemas continuaram em crescendo até 2001, o que provocou a resignação de Fernando de la Rua, advogado e membro da União Cívica Radical, que ganhara as eleições dois anos antes.

 

À crise económica junta-se então a crise política e há quem seja nomeado provisoriamente para assumir a presidência e lá fique apenas alguns dias (cinco Presidentes em apenas 15 dias), um dos quais anunciou urbi et orbi a suspensão de pagamentos da dívida externa. Para ornamentar o cenário, os distúrbios de rua a transferirem-se para dentro do próprio Congresso Nacional com zaragatas vergonhosas redundando em incêndios, vidros partidos e mobiliário espatifado.

 

Até que é finalmente nomeado um peronista e a calma regressa. Coincidências... 

 

Eduardo Duhalde foi o quinto Presidente provisório e ficou no cargo até Maio de 2003, ou seja, durante um pouco mais de dois anos. Promoveu um programa de assistência aos desvalidos pela débâcle e – fundamental – desvalorizou a moeda.

Malabarismos circunstanciais à parte, as eleições foram então ganhas pelo seu correligionário Nestor Kirchner.

 

Nova desvalorização e eis que, contra todas as expectativas, se dá início a uma política de equilíbrio orçamental. O PIB voltou a crescer e a vida política estabilizou.

 

 

E a Nestor seguiu-se a Cristina que lá está.

 

Eis a carga histórica que me acompanhou nas deambulações por Buenos Aires e arredores. Também me acompanhou um Peso que comprei ao câmbio de 5,4 relativamente ao Euro.

 

 

A ser verdade o que li num jornal «fueguino» (natural da Terra do Fogo – como se dirá em português?), em Janeiro de 2012, o saldo da balança comercial argentina terá sido positivo em 550 milhões de Dólares, o que me pareceu muito bom. Perante as hesitações do gerente do hotel em que me hospedei em Uchuaia, acho melhor repetir: a ser verdade...

 

Agora, sim, considero-me em condições de contar o que por lá vi.

 

(continua)

 

  Henrique Salles da Fonseca

ARGENTINA – 5

 

A REVOLUÇÃO LIBERTADORA

 

É altura de meditarmos sobre como foi possível levar à bancarrota um país que depois da segunda guerra mundial era credor das potências vitoriosas. E de seguida se verá ainda mais que dará para nos espantar...

 

Exilado Perón no Paraguai e depois em Espanha, a vida continuou na Argentina como se pode imaginar: casa onde não há pão, todos ralham mas ninguém tem razão.

 

Revolução Libertadora, assim se auto-denominou a ditadura militar transitória que governou a Argentina após a deposição de Perón.

Fechado o Congresso Nacional e deposta a Corte Suprema, foi o Poder entregue ao general Lonardi que foi substituído pelo general Arumburu o qual, cerca de 2 anos depois, foi substituído por Frondizi, um advogado, que por sua vez acabou derrubado por um golpe militar em 1962. Este golpe foi seguido em 1966 por outro golpe militar cujos membros convidaram Perón a regressar ao país.

 

Regressado em 1973, ganhou as eleições presidenciais realizadas em 21 de Setembro desse ano com mais de 60% dos votos expressos. A mulher com quem entretanto casara em Madrid, Isabel Martínez de Perón, concorreu como Vice-Presidente e substituiu-o na morte
conforme prescrito pela Constituição.

 

Mas Isabel Perón esteve muito longe do que se deve esperar de quem exerce cargo tão importante e acabou derrubada em 1976 por... outro golpe militar.

 

 

Com a morte de Perón, o país ficara num completo caos com grupos extremistas a fazerem sequestros e assassinatos, levando a sociedade a um terror poucas vezes visto no país. Eis como surge o auto-denominado Processo de Reorganização Nacional, presidido pelo General Jorge Videla, que se caracterizou por acentuada repressão política.

 

 

Porém, justiça seja feita, a economia cresceu tornando-se mais competitiva e moderna havendo também um grande incremento nas obras públicas.

 

A Guerra das Malvinas derrubou estes militares e em 10 de Dezembro de 1983 a democracia regressou formalmente ao país no âmbito de um complexo processo de transição com reiteradas insurreições militares. Finalmente em 1989, pela primeira vez na história argentina, um Presidente de um Partido entregou o Poder a um Presidente de outro Partido. A situação repetiu-se em 1999 mostrando uma notável consolidação democrática.

 

Contudo, os governos eleitos mostraram-se menos capazes na resolução dos problemas económicos: a pobreza, que era de 5% em 1974, subiu para 25% em 1983, atingindo o pico de 56% em 2002; o desemprego, que era de 6% em 1975 e 18% em 1995, chegou aos espantosos 31% em 2002.

 

Ao governo de Raul Alfonsín (1983-1989) cumpriu a difícil transição para a democracia e na área económica há que recordar que iniciou as suas funções no momento em que se produzia uma grande crise de dívida externa: durante o governo militar a dívida externa havia crescido de 7 biliões de dólares em 1976 para 66 biliões em 1983. Mais: grande parte da capacidade produtiva, sobretudo industrial, havia colapsado. Perante tal cenário, Alfonsín decidiu aplicar em 1985 um plano económico especial, o Plano Austral, que ele mesmo qualificou como "economia de guerra".

 

O Plano Austral conseguiu conter a inflação durante algum tempo, mas não resolveu os problemas económicos estruturais. O congelamento dos salários e a identificação dos sindicatos com a oposição peronista levaram a um grande impasse traduzido em 13 greves gerais. Os graves problemas económicos traduziam-se numa taxa de inflação de 343% em 1988 e o início de um processo hiper-inflacionário a partir de Fevereiro de 1989 superior a 3000% ao ano, o que fez aumentar a pobreza até um nível histórico: 47,3% em Outubro de 1989 na Grande Buenos Aires.

 

(continua)

 

 Henrique Salles da Fonseca

ARGENTINA – 4

 

A BANCARROTA

 

Após campanha violenta e repressiva, Perón ganhou as eleições com 52,4% dos votos tendo casado com Eva Duarte dias antes da «subida ao trono». Sim, fora ela a obreira da grande mobilização das massas populares sendo compensada não só com o casamento mas também com a gestão do orçamento social como se essa função fosse natural numa «dona de casa» não especificamente mandatada (nem habilitada) para o efeito.

 

Na presidência, já pensando na questão das Malvinas, Perón aplicou o plano económico chamado "nação em armas" ao abrigo do qual o país deveria estar preparado para a guerra no limite das suas capacidades. Assim foi que o orçamento militar subiu de 27% em 1942 para 50% em 1946 e sempre em crescendo até...

 

Com vista à redução dos interesses estrangeiros (ingleses, sobretudo), durante os 6 anos em que neste primeiro mandato se manteve no Poder, nacionalizou a rede ferroviária, a produção de gás, o Banco Central, a rádio e algumas companhias de electricidade; promoveu a substituição de importações por produções nacionais no âmbito daquilo que ficou conhecido como «industrialização forçada»; deu aos trabalhadores diversos benefícios tais como o 13º mês, reforçou a folga semanal, reduziu o número de horas da jornada laboral e aumentou em 33% o salário mínimo, tudo significando um aumento geral de 70% no custo da mão-de-obra.

 

É claro que a economia do país não aguentou tanta mudança e entrou em recessão.

 

Com medo dos despedimentos em massa pelo aumento do salário, a lei do trabalho foi alterada dificultando seriamente os despedimentos e os trabalhadores passaram a sentir-se imunes à perda do emprego fazendo disparar a taxa de absentismo. O duplo emprego em horários coincidentes passou a ser coisa frequente. Com o aumento dos salários o consumo aumentou muito e, sem capacidade para abastecer a procura, a inflação disparou e o custo de vida cresceu 68% num único ano. Perante tão grandes alterações nos custos, as falências começaram a ser frequentes e entre 1946 e 1950 fecharam 3.316 fábricas.

 

Onde é que nós, portugueses, já vimos isto?

 

Por incrível que possa parecer, Perón foi reeleito em 1951, modificando tardiamente algumas das políticas mas em 1952 Evita morre e Perón foi afastado do cargo por um golpe militar cujo objectivo aparente era o de tentar evitar a bancarrota.

 

Seria este o fim da demagogia argentina?

 

(continua)

 

  Henrique Salles da Fonseca

ARGENTINA – 3

 

O REINO DA DEMAGOGIA

 

 

Foi pela da esquerda que em 1946 Juan Perón subiu pela primeira vez as escadas do Poder, empurrado pelos descamisados portenõs, esses tais desamparados que aspiravam a melhores dias.

 

Em 1943, uma conspiração militar assumira o Poder derrubando Ramón Castillo, um civil acusado de fraude generalizada, repressão e
corrupção que, no entanto, lá estava em resultado de outro golpe militar, o de 1930. Até 1946, sucederam-se no Poder os Generais Arturo Rawson (presidiu apenas de 4 a 6 de Junho de 1943), Pedro Pablo Ramírez (o seu mandato desenvolveu-se durante escassos oito meses terminando a 25 de Fevereiro de 1944) e Edelmiro Farrell cuja presidência decorreu entre 25 de Fevereiro de 1944 e 4 de Junho de 1946. Todos governando em ditadura, puseram fim às relações de privilégio que o Governo anterior tinha com os grandes proprietários agrícolas e com a generalidade do empresariado industrial. Ou seja, destabilizaram o status quo até então vigente e não foram capazes de criar novo equilíbrio.

 

Durante esse período, Perón manteve-se numa posição secundária como Secretário do Trabalho e Segurança Social sendo nesse cargo que ganhou o apoio dos estivadores e dos trabalhadores precários nos frigoríficos (por onde passava toda a carne em vias de exportação), os chamados "descamisados". Em 1945 tornou-se Vice-Presidente e Ministro da Defesa assim ficando mais próximo da cadeira do Poder mas acabou demitido e preso. Mas Eva Duarte e os líderes sindicais mobilizaram os trabalhadores da grande Buenos Aires e exigiram a sua libertação. Perante enorme multidão, os militares não tiveram outra opção senão libertá-lo de imediato.

Buenos Aires, 17 de Outubro de 1945

 

Em 17 de Outubro (8 dias depois de ter sido preso) Perón discursou perante uma imensa mole ululante (ou ululada?) de 300.000 pessoas sendo as suas palavras rádiodifundidas para todo o país. No seu discurso prometeu ao povo argentino a realização das eleições que estavam prometidas mas adiadas sine die e construir uma nação forte e justa baseada em princípios que as multidões aplaudiram:

  • A verdadeira democracia é aquela onde o governo realiza o que o povo quer;
  • O Peronismo é essencialmente popular; todo o círculo político, elitista, é antipopular;
  • O Peronista trabalha para o movimento que serve a um caudilho;
  • Para o Peronismo só existe a classe dos trabalhadores;
  • Para um Peronista não há nada melhor que outro Peronista;
  • Os braços do Peronismo são a justiça social e a ajuda social;
  • Na Nova Argentina os únicos privilegiados são as crianças;
  • O Peronismo tem a sua própria doutrina política económica e social, o justicialismo, que é uma nova filosofia de vida simples, prática, popular, profundamente cristã e humanista;
  • O Peronismo pretende constituir um Governo centralizado, um Estado organizado e um povo livre.

 

Caro Leitor: permita-me a sugestão de conter o seu sorriso perante tanto primarismo e tanta demagogia. Claramente, Immanuel Kant desenvolvia silogismos mais sofisticados.

 

É que foi com muitos destes princípios do Partido Justicialista argentino (ainda hoje no Poder) que até há cerca de um ano alguém afundou Portugal e os esforços danados que agora estamos a fazer no sentido da recuperação são imprescindíveis para colmatar o anterior abuso na utilização de dinheiros públicos para a «compra de votos».

 

Se os europeus actuais soubessem História, também saberiam que a demagogia eleitoralista apenas tem um destino: o caos.

 

(continua)

 

  Henrique Salles da Fonseca

ARGENTINA – 2

 

 

DESAMPARADOS

 

 

Muitos dos que chagavam à Argentina desembarcavam em Buenos Aires. Porquê? E por que não?

 

Uma vez desembarcados, era-lhes facultado alojamento gratuito durante cinco dias no final dos quais se viam na rua. Nesse “longo” período era suposto arranjarem trabalho e instalarem-se na vida. Está-se mesmo a ver, não está?

Hotel de Inmigrantes es un complejo de edificios construidos entre 1906 y 1911, en el puerto de Buenos Aires , Argentina , para recibir y ayudar a los miles de inmigrantes que, en ese momento, donde su llegada a la Argentina desde muchas partes del mundo. El hotel dejó de funcionar en 1953, fue declarado Monumento Nacional en 1995 y hoy en día alberga el Museo Nacional de Migración.

in «Hijos y nietos de portuguese que viven en Tierra del Fuego» Facebook

http://www.facebook.com/groups/133088186701834/389096711100979/#!/groups/307346416191/

 

Eis como fizeram história as casas de lata que muitos erguiam com os materiais que arrebanhavam sabe-se lá onde e como... Mais: houve-os até que ergueram “mansões”, os convencillos, onde recebiam outros recém-chegados a quem hospedavam em regime de cama fria ou quente, assim pudesse o hóspede pagar mais ou menos mordomias. Cama fria, a daquele “ricaço” que se podia dar ao luxo de ter uma cama só para si; cama quente, a daquele, mais comum, que só se deitava quando o anterior cliente se levantava e lha deixava quente... Mas esses eram os afortunados que dormiam deitados pois havia também os hóspedes do encosto pelo direito de se sentarem no chão encostados à parede. E tudo isso numa misturada de espanhol, italiano, croata... E quanto aos equipamentos comuns, nem sempre a cozinha era muito longe da latrina.

 (*)

E como conseguiam estes recém-chegados ganhar para a bucha? A estiva era realmente a solução mais óbvia numa cidade portuária de
primeira grandeza, porta aberta para o mundo não só como entrada principal de quem procurava o país mas também via da exportação dos cereais e da carne que deram à Argentina a fama internacional (e o proveito) de grande alimentadora, the big feeder.

 

Muitos homens em vias de instalação na terra de adopção, à espera de condições para poderem chamar as famílias que ficavam lá longe, no outro lado do mar. Dá para imaginar o ambiente de solidão alagado de saudade, tristeza e álcool em ambientes que os mais castos diriam de perdição. E as primeiras notas de desamparo foram soando pelos dedos de quem levara uma concertina. Só que não foram apenas os homens que se adaptaram às novas paragens: a concertina cresceu e transformou-se nesse fantástico bandaneon que marca a nostalgia do seu tango.

 

El Caminito, Buenos Aires (arquivo particular)

 

O desamparo de quem descobre que o «el dorado» custa a conquistar, que muito se padece até se começar a controlar a nova vida.

 

Dá, finalmente, para compreender como num país de sonho nasceu uma canção de desespero: é que foram esses, os desamparados, que
começaram a dedilhar e hoje cantam flamenco, fado e tango.

 

(continua)

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=conventillo&um=1&hl=pt-PT&sa=X&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=YC-UTaUBHhFOcM:&imgrefurl=http://www.barracavorticista.com.ar/historia/conventillo/index.htm&docid=SA-6FRl1UFa6OM&imgurl=http://www.barracavorticista.com.ar/historia/conventillo/foto1.jpg&w=550&h=354&ei=zdhRT5PRPIa50QWCwdXfCw&zoom=

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ARGENTINA - 1

 

MISTÉRIOS…

 

 

Foi por San Lucar de Barrameda que também nós largámos a Península. Mas Fernão de Magalhães foi até lá aos «saltinhos» e nós fizemo-lo duma vezada só num voo diurno de mais de 13 horas. Bolas! A outra diferença está em que a viagem dele ficou na História enquanto a nossa é apenas uma história. Para nosso conforto, há mais uma diferença: nós regressámos a casa.

 

Parafraseando António Pigaffeta, c'era una volta...

 

... e eis-me chegado a uma terra que sempre me inspirou grandes enigmas mas também enormes fascínios. Confundindo, direi que a Argentina sempre me inspirou fascínios enigmáticos. E aqui estava eu para tentar desvendar os enigmas e, se possível, confirmar os fascínios.

 

Como tinha sido possível um país tão grande e rico ter eleito duas vezes pelas urnas democráticas um ditador que pelas duas vezes tudo deitou a perder? Como era possível uma Nação culturalmente tão pródiga deixar-se atropelar por violadores que ficaram nas páginas negras da História? Como era possível que do nada das pampas tivessem surgido campeões olímpicos? Como é que uma «terra de sonho» produzira o desespero do tango? Como é que uma mulher tão feia quanto Carlota Joaquina pudera imaginar ser rainha duma terra com mulheres tão bonitas?

 

Mistérios...

 

Seguindo o critério decrescente da dimensão dos meus enigmas, começo pelo tango, essa desesperança nascida na terra do sonho.

Convenhamos que se os peruanos descendem dos incas e os mexicanos dos aztecas, os argentinos descendem dos barcos. Sim, a Argentina é sobretudo uma Nação composta por europeus que se fartaram das quizílias no Velho Continente e que decidiram fazer vida nova noutras bandas. Chegaram ali como eventualmente poderiam ter chegado a outro local qualquer desde que fosse longe da origem que lhes fora madrasta. Chegaram nos barcos de que hoje se dizem descendentes...

 

(continua)

 

 Henrique Salles da Fonseca

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