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A bem da Nação

O ATRASO DO BRASIL

 

Foto: arquivo particular da Autora

 

 

Em época de chuvas de verão, o centro-oeste e o sudeste do país passam por situações graves de calamidade pública. São os rios que sobem de nível assustadoramente, são os desabamentos de terra facilitados pelo desmatamento indiscriminado e criminoso nas áreas de preservação ambiental. Nas cidades são as construções irregulares, feitas em lugares impróprios, perigosos, numa desobediência às determinações da segurança pública, com a passividade e anuência de autoridades corruptas, indiferentes ao bem-estar da população. É o manto asfáltico impermeabilizando o chão, escoando as águas pluviais para as regiões mais baixas e bueiros obstruídos pela sujeira deixada por uma população mal-educada e um serviço público ineficiente. Tudo isso e as chuvas constantes favorecem às enchentes que põem em alerta a defesa civil, e a sociedade em geral. Quando os desastres acontecem, todos colaboram e ajudam com trabalhos voluntários, roupas, alimentos, remédios, produtos de limpeza, numa demonstração inequívoca do carácter bom e sensível do povo brasileiro. Mas todo o ano é a mesma história, chuvas, alagamentos, quedas de barreiras, famílias desabrigadas, mortes por soterramento, acidentes nas estradas. O bom-senso nos diz: - Por que não prevenir, por que não evitar todas essas situações de calamidade pública? Por que é que a população mais carente é a que mais sofre com as mudanças de tempo e os desastres naturais? O que fazem as autoridades?

 

Ao fazer minha caminhada diária, numa manhã fria e acinzentada, sob um céu nublado, com a ameaça de novos temporais para o final da semana, encontrei servidores da limpeza urbana varrendo os meio-fios, limpando as praças, recolhendo o lixo acumulado, para diminuir o risco de enchentes na cidade. Pensei, era uma atitude acertada da Prefeitura, que deveria ser feita com mais regularidade, porém estava sendo executada de maneira incorrecta, com alguns elementos, ao fazerem o seu trabalho, deixando para trás com frequência, papéis, garrafas pet, pequenos animais mortos na estrada, num serviço malfeito e insuficiente. Perguntei a mim mesma, será que esses indivíduos não percebem a importância do seu trabalho? Será que eles têm a consciência de que estão arriscando a saúde da população com essa displicência? Será que não se importam com a impressão de desleixo que as ruas sujas e mal arranjadas passam? Será que só o dinheiro que recebem no final do mês é o que esperam do que fazem? Será que estão insatisfeitos com seus salários? Por que esta atitude relaxada, descompromissada com a Prefeitura e a com sociedade a que pertencem?

 

Enquanto andava, busquei na memória da história a resposta às minhas indagações.

 

Não há como negar, a sociedade e cultura brasileiras tiveram uma forte influência portuguesa. Nos primórdios da existência, como nação civilizada, o Brasil foi gerido e administrado pela elite portuguesa, que empregava escravos índios e negros, brancos pobres e ignorantes, imigrados, como mão-de-obra barata para os serviços sujos, pesados, manuais, menos reconhecidos socialmente. Esse sistema governativo, importado do Império Português, era alicerçado numa rede social e familiar de privilégios, de troca de favores, de serviços prestados pagos com terras, mercês, mordomias, cargos de comando e administração, que garantiam uma base política de sustentação do poder. Essa maneira de governar ficou entranhada na memória brasileira, apesar das mudanças de épocas e governos.

Ainda hoje, o nepotismo, o jogo de favorecimentos, o caixa dois, os conchavos, a tendência para tirar vantagens, quando em posição de comando, são manchas que envergonham a actividade pública brasileira, que atravancam o progresso, e desacreditam os políticos, perante a sociedade e as democracias estrangeiras.

 

o povão menosprezado ficou, continuou sem educação. Mão-de-obra barata, massa humana de manipulação, trabalhava para os interesses daqueles que detinham o poder. Num sistema social como aquele, que não valorizava o trabalho duro e não oferecia estudo à população, raramente se via um dos seus componentes atingir uma posição social de destaque ou de importância política.

 

Como escravos ou empregados pouco instruídos e mal pagos, não tendo voz ou poder de cobrança e reacção, para se vingar daquela submissa situação, usavam de subterfúgios para enganar, faziam pequenos roubos, sabotavam os serviços, até envenenavam donos e patrões.

 

Mesmo na actualidade, com a escola, ainda deficiente em qualidade, porém acessível a todos, há por parte do homem comum, mais simplório, a ideia cristã-velha, que o trabalho manual, menos visível socialmente, diminui a pessoa. O importante é ser rico, famoso, e influente. O patrão (entidade ou pessoa) é aquele que tem o poder, que apesar de lhe dar emprego, é a constatação da sua inferioridade, da sua submissão, merece a antipatia e a sabotagem.

 

Apesar das mudanças sociais que ocorreram ao longo dos anos, no subconsciente do povo brasileiro, ainda existe aquela impressão social depreciativa, herdada do regime antigo, que não tem mais lugar na sociedade contemporânea, onde fazer o bem-feito, qualquer que seja o métier, dá reconhecimento e dinheiro! Já no governo..., muita coisa ainda tem que ser feita!

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 12/01/12

 

LIÇÃO POLICIAL

 

Foi La Fontaine um fabulista

Que às fábulas de Fedro ou de Esopo

Soube acrescentar traços de poeta

E de romancista.

Assim, acrescentou, para sua glória,

Nesta nova história, que não é da treta,

Mas dum Lobo que de gente se disfarçou

Para melhor alcançar o que a sua fome pedia,

Traços de humor, numa caracterização

Feita de sabedoria,

E de muita certeza

A respeito da humana natureza:

 

«O Lobo tornado Pastor»

É como se chama a fábula de mais uma ladinice

De grande qualidade,

Com que La Fontaine brindou a humanidade:

«Um Lobo, que começava a colher parte escassa

Das ovelhas da vizinhança

Achou que, para sua bonança,

Devia com a pele da raposa se prover

E gizar uma nova personagem

Para se dar sorte.

Veste-se de pastor, enfia uma farda

Faz o cajado dum pau bem forte

Sem a gaita-de-foles esquecer.

Para o embuste levar até ao fim,

Gostaria de ter escrito no chapéu:

“Sou eu que sou Guillot, pastor deste rebanho”.

Construída a figura assim,

Os pés da frente pousados no cajado,

Guillot, o sicofanta, aproxima-se devagar.

Guillot, o verdadeiro, na erva estendido,

Dormia profundamente;

Também o seu cão estava adormecido

E a gaita igualmente;

Das ovelhas a maioria

Dormia, dormia.

O hipócrita deixou-os dormir;

E para poder

Para o seu forte as ovelhas conduzir

Quis acrescentar

A palavra à acção

Isto é, ao vestuário,

Coisa que ele achava necessário.

Mas o que se passou

Foi que esse embuste o primeiro estragou,

Por não conseguir

A voz do pastor reproduzir.

O tom que usou

Fez o bosque troar

E toda a sua farsa denunciar

Mesmo sem um detective a ajudar.

Cada um a esse som despertou,

As ovelhas, o cão, o rapaz.

O pobre Lobo, com todo este escândalo,

Impedido pelo vestuário,

Não pôde nem defender-se nem fugir.

Sempre por qualquer indício

Os embusteiros se deixam apanhar.

Quem for lobo deve como tal agir:

É o mais certo, por ser menos fictício.»

 

Quanto a mim, esta fábula prova

Uma vez mais,

Que o silêncio é de oiro

E a palavra de prata.

Direi mesmo de lata.

Às vezes o maior pecado

Está no excesso de explicação

Que por simpatia ou até compaixão

Pelo povo que se diz maltratado,

Um poderoso pretende denunciar

Um paralelismo ou sequer uma igualdade

Bem longe da realidade.

Mas os pastores são horríveis a vingar-se,

Autênticos lobos ferozes a rebelar-se,

Contra o pobre lobinho definhado.

 

 Berta Brás

POSTAIS ILUSTRADOS LI

 

 

 

Carta Aberta a Sua Excelência o Senhor Presidente da República,

 

Excelência,

 

Tenho-me dedicado, neste espaço de intervenção, a outras matérias que não são a análise da situação que actualmente vivemos.

 

Acho que não vale a pena estar a juntar mais uma voz aos incontáveis opinion makers que por aí pululam, em telejornais, jornais, rádios e blogues. Nem da comunidade do facebook já faço parte, ao contrário de Vossa Excelência.

 

Desactivei a minha inscrição!

 

E venho falar-lhe das suas palavras sobre as suas reformas. Não sou seu fã, mas há duas coisas que respeito e que dependem uma da outra:

 

A Ética e a Verdade.

 

O alarido que se levantou à volta das suas palavras só pode ser entendido como o descarado aproveitamento que em Portugal, há anos a esta parte, se faz, maldosamente, das declarações de responsáveis políticos, com vista a criar manobras de entretenimento popular e a desviar-nos do essencial.

 

E ambos sabemos a quem interessam as manobras de recreação!

 

Na verdade, as afirmações de Vossa Excelência não me afectaram porque não tenho nada a ver com o que Vossa Excelência faz do seu dinheiro; e, só afectam quem não sabe ou finge não saber o que é uma reforma.

 

E uma reforma, numa ideia muito simples, é um pagamento que fazemos a uma entidade que serve de fiel depositária do dinheiro que é propriedade de quem sofre o desconto no seu vencimento. Essa entidade que funciona como um banco, com a diferença que não paga juros do depósito, é fiel depositária do dinheiro que lhe entra cofres adentro. Qualquer fiel depositário, se nomeado judicialmente, responde perante os Tribunais, pelos bens que tem à sua guarda.

 

E quando nas pensões de reforma se vem falar de reformas de luxo e que alguns recebem, estão a esquecer-se que essas pessoas também pagaram mais ao tal fiel depositário para que lhe guardasse o dinheiro.

 

Quem descontou para o luxo terá, também, o direito ao luxo.

 

A questão actual é saber se, numa situação de gravíssima crise económico-financeira, é justo que aja uma gritante desigualdade social.

 

Mas isso é outro debate!

 

Que o Governo tirasse o subsídio de natal aos funcionários públicos é entre o Governo e os funcionários públicos, apesar de incumprir com as promessas eleitorais feitas pouco tempo antes, mas, ainda assim, o dinheiro é do Estado…

 

Que o Governo tire o subsídio de natal aos pensionistas é um acto ilegal, contraria um diploma que nem sequer tiveram o cuidado de revogar primeiro, dando-se o caso de o dinheiro não ser do Estado, ser dos próprios que foram lesados.

 

Se um banco fizesse desaparecer da conta bancária de um seu depositante o dinheiro do seu depósito, sem o consentimento daquele, sofreria um processo judicial pelo crime de abuso de confiança.

 

Vossa Excelência, mal ou bem, tem direito às pensões para que descontou e não tinha que abordar publicamente esse tema, ainda por cima, na situação de carência social que vivemos.

 

Como se diz na gíria popular: "Um tiro no pé!"

 

Creio que Vossa Excelência poderia patrocinar uma associação que se destinasse ao debate destes actos políticos que a maioria das pessoas não compreende e de cuja ingenuidade e desconhecimento servem, estrategicamente, para fomentar alaridos. Dando-se o caso de o berço da nacionalidade ser a capital europeia da cultura, aproveitaríamos, nesses debates, para sermos esclarecidos, entre outras coisas, sobre as pensões dos Senhores Deputados, a forma como as decidiram para eles próprios e os montantes que descontaram para as obter… e ficaríamos, assim, politicamente mais cultos.

 

E nessa associação, poderia falar-se, também, de fábulas (aqui no blogue há peritos nessa matéria) e uma das próximas que irei abordar nos meus textos, é a fabula da cigarra e da formiga. Aliás, esta fábula julgo, se a memória não me trai, já ter sido usada e comentada por Vossa Excelência.

 

Essa associação, nos debates que traria a público, teria de demonstrar e provar ao povo português que de formiga não temos nada, ou teremos muito pouco.

 

Infelizmente, assemelhamo-nos mais a uma cigarra cantadeira…

 

De Vossa Excelência,

 

Respeitosamente,

 

 Luís Santiago

FÁBULA

 

 

Num Reino cadaveroso, rei improbo distribuiu os tesouros reais de modo tão incauto que em breve todo e Estado ficou na lama.

 

O Rei morreu e foi sucedido por outro que quis compor a situação caótica.

 

Trabalho hercúleo. Os súbditos, que outrora desprezavam o soberano devido à sua incúria, embora vivessem à larga devido a essa mesma incúria, viram-se obrigados a fazer poupanças e desataram em altos berros a protestar contra o novo rei, porque este os obrigava a sacrifícios.

 

Desonestidade não está bem, mas penúria com decoro – isso de maneira nenhuma, que dá choro!

 

Furtum est necesse, decus non est necesse.

 

E houve quem furtivamente tivesse saudades do rei improbo.

 

Joaquim Reis

EXAME DE CONSCIÊNCIA AOS CHEFES MILITARES

  

 

Se você tiver a coragem de enfrentar outras pessoas em nome dos seus homens, ou, de no momento crítico, enfrentar os seus homens em nome das exigências da missão; se tiver a coragem física de ser o primeiro a enfrentar o perigo ou se tiver a coragem moral de ser coerente e defender os seus princípios, então, você conseguirá o respeito e a confiança da sua equipa, que o seguirá lealmente. No entanto, se eles virem que você cede à primeira investida violenta do ataque de alguém, e se virem que você receia vencer, ou até tentar vencer um obstáculo mental ou físico, então, você perderá rapidamente o respeito e apoio dos seus homens”.

 

Extracto de um folheto sobre Liderança, distribuído no Royal Air Force College – Cranwell

 

 

O que se disse no “Exame de Consciência às Tropas” aplica-se “ipsis verbis” – e por maioria de razão – a todos os que passaram pelos postos mais elevados da hierarquia militar.

           

Neste caso, porém, é necessário ir mais além dadas as responsabilidades envolvidas e inerentes.

           

A seguir ao 25 de Novembro de 1975 a Instituição Militar estava escaqueirada, tanto em termos materiais como, sobretudo, morais. As imagens dessa época ao invés de terem ficado arquivadas deviam ser mostradas, anualmente, em todos os cursos de promoção a oficial superior e relembradas no curso de promoção a oficial general…

           

Deste modo se compreende que a prioridade, na época, fosse o de reconstruir o “edifício”, o que se fez com espantosa rapidez e eficácia. Talvez por causa da Lei da Física da “acção e reacção”…

           

Indubitavelmente as FAs recuperaram muito mais rapidamente do que o resto da Nação. Porém, a convulsão tinha sido profunda e deixou feridas graves no âmbito da ética, camaradagem, espírito de corpo, lealdade e … confiança mútua. O facto do processo de “sarar feridas”e apuramento de responsabilidades, não ter ocorrido nada bem (com culpas muito grandes, também, da classe política), não ajudou nada. A piorar as coisas a imagem das FAs, por uma razão ou por outra – que não vou agora especificar – saiu ferida em praticamente todo o país.

           

Isto causou uma perda severa de auto – estima e uma inibição psicológica de actuação. A evolução do sistema político e da sociedade fez o resto. Ou seja, ainda não superámos tudo isto o que resulta, na prática que, individualmente e como instituição, nos deixámos de dar ao respeito. Ora quem não se dá ao respeito não pode ser respeitado.

           

Convenhamos - para termos uma referência/fronteira - em que a fase de estabilização da IM terminou em 1982, com a publicação da Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas (Lei 29/82). Esta lei, todavia, nunca teve, na prática, nada a ver com Defesa Nacional no seu todo, mas apenas com a sua componente militar, pelo que deveria, com propriedade, ser rebaptizada como Lei para as FAs (e o próprio
ministro, como ministro das FAs). E que passou a ser entendida pelos políticos como a Lei para pôr “ordem na tropa”, para a submeter em vez de a subordinar.

           

Seguindo uma prática, que não deixa de ser ideológica, de não colocar todos “os ovos no mesmo cesto” – que tem sido aplicada, aliás, a todo o país tornando-o uma espécie de helicóptero em estacionário, ou seja, sem resultante - a lei prevê um equilíbrio de poderes entre os quatro chefes militares e entres estes e o MDN, que dificulta muito as decisões e a sua implementação.

           

A partir da existência desta Lei os sucessivos governos – em progressão aritmética a partir do 1º governo de Cavaco Silva – começaram a asfixiar progressivamente as FAs em termos financeiros, em pessoal e legislativos. Descambou agora na situação de exiguidade e disfuncional idade em que estamos.

           

Ora perante tudo isto a hierarquia militar reagiu, por norma, tarde (e atrás dos acontecimentos), dividida e em termos ténues.

           

A primeira (e talvez única) estratégia ensaiada foi a do “facto consumado”. Isto é, pedem-se os meios e depois da sua chegada, solicita-se dinheiro para os manter e operar. Nunca resultou, pelo simples facto dos políticos estarem olimpicamente desinteressados de tais coisas.

           

A verdadeira grande “estratégia”, contudo, que se pode divisar e comum aos três Ramos foi a de “encaixar danos”. Fez-se isto em nome da subordinação (que os políticos entendem como submissão) militar; na “profundidade estratégica” – sobretudo no Exército; na esperança de melhores dias; que o governo caísse e viesse outro melhor; que a conjuntura internacional ou a percepção de ameaças
mudasse o modo como as FAs são encaradas, etc.

           

Ora nada disto se passou e nunca se cortou capacidades com medo de nunca mais as voltar a ter, foi-se degradando tudo até chegarmos à actual indigência e limiar da sobrevivência em que nos encontramos.

           

Tudo isto, sobretudo, pela falta de entendimento crónica entre os Ramos que roça a irracionalidade; outro sim, por um erro de análise profundo que resulta de se ter incluído a generalidade dos políticos, oriundos dos partidos políticos de que somos servidos, na “Ordem de Batalha” das “Forças Amigas”! Não faz sentido que assim não fosse, mas o que é certo é que o seu comportamento não o permite ou aconselha.

           

Ora se nós fizermos uma ordem de batalha errada está-se mesmo a ver o resultado…

           

Estes dois últimos aspectos saltam à vista, por exemplo, na definição de missões e nas Leis de Programação Militar. Resumidamente: as FAs “nunca têm dinheiro a menos, podem ter é missão a mais”. De modo que, quando os políticos não dão os meios para se poderem cumprir as missões, que eles definiram, que derivam do Conceito Estratégico que eles aprovaram; que, por sua vez, decorre da Política que eles definiram (se é que alguma), então os chefes militares só têm uma coisa a fazer, depois de se (des)entenderem: é apresentarem um estudo de Estado-Maior com várias opções, vantagens, inconvenientes e consequências e forçarem, é o termo, a que haja uma definição política sobre isto e que seja assumida publicamente (naquilo que não for classificado).

           

Assim é que não. Ainda não repararam os senhores generais e almirantes que o comum dos políticos não tem pejos éticos na sua actuação e a única coisa que daqui resulta é terem colaborado no seu jogo pouco limpo e porem-vos uns contra os outros a lutarem por migalhas do orçamento?

           

Porque se permitiu que um grupo de inspectores das finanças fosse vasculhar as contas dos Ramos, nos moldes em que tudo se passou, em vez do sargento da guarda (se é que ainda há…) os mandar fazer 180º?

            

No último Conselho Superior Militar o Sr. Ministro da Defesa fez, aparentemente, um trocadilho de mau gosto, entre a diferença entre “ilegalidade” em linguagem jurídica e uma “ilegalidade” em linguagem militar que, pelos vistos, os outros intervenientes na reunião engoliram sem que lhes doesse a traqueia (em que compêndio jurídico é que isto virá?).

           

Ora ponham lá a mão na consciência, já não deviam ter mudado de atitude e de estratégia, há muito tempo?

 

16 de Janeiro de 2012

 

 

João José Brandão Ferreira

TCor/Pilav(Ref.)

ELE E A SUA MARIA

 

“Pouparam!” – disse a minha amiga, presa de admiração.

 

Eu também manifestei a minha. Os nossos vencimentos não têm dado para isso, devido a factores adversos diversos, que existem em todas as famílias dependentes dos diversos factores adversos, geralmente sem reversos, mas por isso mais propensas à admiração e quem sabe se a um resquício de inveja pelos que, ao inverso, fizeram poupanças, como o nosso presidente que afirmou desde sempre ter feito poupanças, juntamente com a sua mulher, por serem ambos poupados, o que foi uma lição para os esbanjadores, que somos todos os do adverso.

 

Até nos pegámos, a minha amiga e eu, pois eu não aceitei bem os lamentos do nosso presidente e desta vez fui eu que o achei zezinho, que era uma designação muito dela, já eu lha criticara, pela simples razão da necessidade de deferência para com os nossos superiores, mas a minha amiga, não sei por que carga de água - talvez porque as provações incitam aos receios dos castigos divinos, embora ela ache que estamos mais dependentes dos castigos humanos, resultantes de factores controversos entre os quais uma calçada adversa, avessa aos pés calçados e muito mais aos descalços – a minha amiga, digo, embandeirou numa de generosidade e abertura, frisando que o nosso presidente pretendeu essencialmente mostrar que estava com os portugueses mal vistos em questão de finanças, irmanando-se com eles, por um dos vencimentos não lhe dar para as suas despesas familiares, omitindo, contudo, os restantes vencimentos que se diz que tem.

 

Ainda nos perguntámos se porventura o novo governo iria interceder junto das finanças no sentido de resolver o problema do nosso presidente, aumentando-lhe a reforma referente a esse vencimento, ou aconselhando-o antes a um menor despesismo em virtude da situação precária do nosso país esbanjador, contrariamente às atitudes poupadas do nosso presidente e da esposa, que se vê bem que é sua alma gémea nas poupanças e na reciprocidade da estima.

 

Na realidade, eu não me admirei muito da saída queixosa do nosso presidente. Somos um povo dado ao queixume e os nossos jornalistas bem fazem os possíveis por demonstrar isso, interrogando as pessoas sobre isso e as pessoas dando dados disso. Até me lembrei de uma observação do meu pai, nos meus tempos da infância, quando se encontrava em momentos de euforia, definindo o povo português através de uma expressão de expressivo chorinho: “Chora a mãe trabeculosa junt’à filha qu’agoniza”. Assim éramos, segundo o maroto do meu pai, que não gostava do fado gemido. Ainda somos, mas com o fado alcandorado agora a património da humanidade, por muito imaterial que se apresente. Mas o nosso choradinho dá sempre matéria a sempre ouvido canto – elegíaco - até mesmo em prosa, como fez Samuel Usque a respeito das tribulações do povo israelita, o que prova que não somos só nós a prantear-nos.

 

Ora porque havia o nosso presidente de ter um canto diferente? Eu própria acabei de exprimir um queixumezinho de desengano – ou de engano, nem destrinço bem - neste meu texto que pretendia ser de sentido humor!

 

Ninguém deve lançar pedras sem antes fazer exame de consciência, bolas, já Jesus disse!

 

Não há nada como a reflexão para nos compreendermos melhor.

 

E a consciência de que as poupanças do nosso presidente e da esposa lhes podem proporcionar uma velhice tranquila, encheu-nos, finalmente, as medidas. Até lhes dirigimos o canto dos aniversários, do íntimo dos nossos seres:

 

“Parabéns a você

Pela poupança obtida.

Muitas felicidades,

Muitos anos de vida.”

 

 Berta Brás

TROVAS ANTIGAS

SOLUÇÃO DESPREZADA

Os economistas estão de acordo. Isto em si mesmo deve ser celebrado. O interesse é ainda maior pois o consenso situa-se no assunto mais grave e influente da vida pública, a crise nacional. Existe uma unanimidade estrutural dos diagnósticos e
em grande medida das terapêuticas. Claro que há contestatários, como se impõe na sociedade mediática, mas aqueles que interessa ouvir dizem o mesmo.

 

Nos últimos meses, além de múltiplas entrevistas e declarações, foram publicados vários trabalhos de fundo de eminentes economistas e instituições, explicando e resolvendo a grave situação da nossa economia. Embora diferentes no estilo e argumentos o quadro que traçam é bastante consistente. Como afirma talvez o melhor, o caminho a seguir é

 

a) Restaurar a competitividade;

b) Redireccionar o investimento público e os incentivos ao investimento privado a favor do sector transaccionável;

c) Redireccionar os incentivos à produção, também a favor deste sector; e

d) Flexibilizar o funcionamento da economia e nomeadamente do mercado de trabalho (...) Complementarmente, é necessário reduzir a procura interna para um nível mais sustentável

[Vítor Bento (2009) Perceber a crise para encontrar o caminho, bnomics, p.101-102]

 

Se temos diagnóstico e terapêutica, que falta? Alguém que lhe ligue. De facto, lendo discursos oficiais, reportagens jornalísticas e discussões políticas, tudo parece alheio a este caminho. Nos debates da televisão ou conversas de cafés só se fala de professores e saúde, fiscais e polícias, funcionários, escutas e sucatas. As atenções continuam bem centradas nas questiúnculas do sector não
transaccionável, aquele que não tem relações externas e aumenta a dívida. Só nos preocupam direitos adquiridos e pensões, férias e ambiente, estradas e construção.

 

Entretanto, as exportações oprimidas, défice externo, dívida crescente, falta de competitividade, são temas omissos ou meramente incómodos. Afinal, vivemos há tanto tempo com o buraco na balança de pagamentos sem problemas, porquê perder tempo com ele? Notam-se os seus sintomas no desemprego, pobreza, recessão. Esses seriam resolvidos se o desequilíbrio estrutural fosse tratado, mas acabam por escondê-lo.

 

As medidas e planos políticos apresentados, centrando-se nas tais actividades que agravam o endividamento, ainda impõem novas restrições reduzindo a flexibilidade económica. Além de continuar a pressão política do sector da construção nos sonhos de comboios e aeroportos. Os responsáveis insistem na via que nos enfiou no buraco, o que nem surpreende, sendo eles quem nos trouxe aqui.

 

A única proposta remotamente relacionada com as medidas necessárias é a sempre adiada consolidação orçamental. Essa ao menos reduziria a insustentável procura interna. Mas centrando atenções no défice errado acaba ineficaz. O Governo anterior é prova disso. O nosso desequilíbrio vem de vivermos acima das nossas posses pois a competitividade não permite despesa tão alta. A manifestação
directa está na balança externa, sendo o Orçamento do Estado apenas parte do mal. Por isso dominar esse défice aumentando a pressão fiscal sem reduzir os gastos reduz a sangria pública mantendo a hemorragia externa, como se viu nos últimos anos.

 

Isto mostra porque subida de impostos não é caminho aconselhável. Tem, é verdade, a vantagem de limitar a despesa das famílias e empresas, contribuindo para colmatar o desfasamento. Aliás, a crise internacional está a ter o mesmo efeito e a poupança privada começou a subir. Mas há séculos que a democracia em Portugal tem um problema: aumentar receitas do Estado apenas confirma a
despesa, que depois sobe mais um patamar. Estes anos também confirmam isso.

 

A situação financeira nacional está longe de ser desesperada, até comparando bem com parceiros próximos. Os níveis ainda são razoáveis, embora cresçam assustadoramente. As boas notícias é que ainda vamos a tempo, o diagnóstico está feito, é claro e simples.

 

Temos a dieta pensada e remédios para anestesiar o processo. Só falta quem.

Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

 João César das Neves

DN20091207

 

DISCOS PARTIDOS

 

Disse a minha amiga a respeito daquele risonho jovem da bancada socialista, Pedro Santos, que afirmou estar-se marimbando para a dívida à Europa, e que não a devíamos pagar, no rasto do pai Sócrates. Certamente, todavia, sem os estudos que este se esforça por adquirir nas universidades por onde passa, com o conforto preciso.

 

- Quando estes fazem parte do conjunto, que gente é esta? Que qualidades é que esta gente tem para fazer parte dum partido? E os partidos também estão entregues a gente assim!

 

Eu embirro com a displicência contida no colectivo depreciativo “esta gente”, que suponho foi buscar ao salero megalómano da Clara do Eixo, e assim lho expressei. Mas ela estava encolerizada, lançada nas suas memórias de véspera:

- Eu digo uma coisa: entreguem os governos às mulheres.

 

Não cheguei a soltar um “Credo!” assustado, na antevisão da inflação de sensibilidades, ao lembrar-me das vozes apaixonadas e esganiçadas das nossas parlamentares de esquerda, e logo me recompus pensando nas vozes serenamente inteligentes das nossas parlamentares de direita e o trabalho consciencioso de algumas ministras. E fiquei na dúvida, pois também confio no Passos Coelho e os seus homens, que se estão a revelar com inteligência, honestidade, serenidade e firmeza, na actual conjuntura, mas, de resto, a minha amiga nem me deu tempo a abrir a boca:

- Eu ontem ouvi uma advogada, uma rapariguinha nova, num caso de crianças e de pais separados, no programa da Fátima Lopes. Um caso alarmante! Um pai que começa por difamar o novo companheiro da mãe no espírito das filhitas, aquando das suas visitas ao pai, e acaba escondendo-as, impedindo-as de irem à escola, de comunicarem com a mãe, acusando o sujeito, com quem as crianças se davam bem, de intenções pedófilas, sujeitando as crianças a observações médicas para provar a honra do homem e o direito à posse das crianças pela mãe. E depois disso voltaram para o pai, e nem a polícia acode à pobre mãe, e a nossa Justiça não anda, nem desanda.

 

A minha amiga estava indignada:

- E é isto no século XXI! Aquelas crianças ficam traumatizadas para o resto das suas vidas!

 

Lembrei-me de um texto que escrevera nos idos de setenta, a respeito da Justiça protectora dos homens, vá-se lá saber porquê, e discriminatória relativamente às mulheres, apesar dos direitos de protecção social destas e das crianças, consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, e desenvolvidos sucessivamente em outros organismos legislativos.

 

Foi este o texto, extraído de “Prosas Alegres e Não”:

«PERGUNTAS MINUCIOSAS»

 

«Quando se põe uma pergunta com brilho, os espíritos das pessoas em geral deslumbram-se. As casas onde se fazem mais perguntas deste género, além das escolas, onde a maior parte das vezes, por natural timidez, elas ficam sem resposta, são os tribunais onde, pelo contrário, cada pergunta recebe duas e mais respostas, todas demonstrativas da infinita variedade das interpretações humanas.

 

É por esse facto, certamente, que em alguns casos onde a maioria preferiria reserva, se usa de uma desmedida prolixidade, para que se admire a argúcia nos interrogatórios a que se expõem as pessoas visadas.

 

É, por exemplo, o caso da legitimação dos filhos a que determinados papás de facto, pretendem furtar-se por direito. As felizes mães – felizes porque em muito destaque então – são sujeitas a um interrogatório em forma, em sala onde entra quem quer, ouve e observa quem quer e mesmo quem não quer, embora estes últimos em minoria, dada a natural e sempre fecunda curiosidade humana.

 

Certas mães recusam-se a responder, entendendo que para se provar a legitimidade de um filho há pormenores escusáveis.

 

Mas essas mães estão erradas. Porque tudo interessa a quem interroga. Para formar a tese
sobre a possível filiação da criança, factos, detalhes, atitudes, caracteres, romance naturalista em suma, tem um interesse infinito.

 

Quantos mais argumentos encadeados sabiamente, mais o caso terá probabilidades de êxito, e a criança em questão terá então o seu pai, após a perfeita humilhação da sua mãe.

 

Chama-se dialéctica a esta arte feliz dos argumentos e para isso não houve outro como o nosso Padre Vieira – embora sobre outros motivos que também deram que falar.

Mudam-se os tempos, e como já não temos índios nem cristãos-novos a defender, usamos a dialéctica a defender as crianças, o que é sempre uma atitude de enternecer, conquanto os meios usados o sejam menos, segundo alguns pensadores severos.

 

Cristo mandou que as criancinhas se chegassem a Ele, é certo, mas também obstou a que a Madalena levasse pedradas. Possivelmente só o primeiro gesto de Cristo é conhecido, ignorando-se o das pedradas.

 

É por se ignorar isso, com certeza, que alguns interrogatórios se fazem tão minuciosamente.»

 

A mulher conquistou direitos e as crianças também. Aparentemente. Porque, talvez por falta de meios mediáticos, talvez por convencionalismos inibitórios, talvez porque, apesar de tudo a Justiça funcionasse melhor, em todo o caso dantes não se punham tanto estes graves problemas de violência doméstica, de pedofilia, de monstruosidades incestuosas, como actualmente.

 

Mas o que se espanta é que neste ano 2011, a terminar, a Justiça não acorra célere, para salvar estas duas crianças raptadas pelo pai vingativo, entregando-as à mãe, permitindo os traumas hediondos que estão a sofrer, longe da mãe, da escola, da luz.

Resta-nos pedir um milagre.

 

 Berta Brás

A DECISÃO DE FICAR

 (*)

Existe uma lei inexorável, da qual os pequenos países, incluindo Portugal, possuem uma repetida, longa e dolorosa experiência, que a progressiva liberdade de circulação e comércio acentuou: os países ricos exportam capitais e os países pobres exportam gente.

 

A ameaça de fractura entre uma Europa dos ricos e uma Europa dos pobres, arma dos que teimam contra o projecto da unidade europeia pelo método dos pequenos passos, mas prudentes, e preferem o autoritarismo da hierarquia interna e directora, contribui para tornar ainda mais complexa, pelos efeitos não programados, a narrativa da intervenção dessa lei.


Ao longo da história portuguesa, cujos sucessivos impérios terminaram de regra com o Estado em crise financeira, o fenómeno produziu um facto mal reconhecido e recordado, sobretudo neste período contrário às celebrações, que foi a continuada presença, nas responsabilidades de governo da sociedade civil, designadamente da família e dos patrimónios escassos, das viúvas de homens vivos que por aqui asseguraram a retaguarda, não apenas das necessidades de sobrevivência, também das levas de mancebos mobilizados para as tarefas da expansão.


As comunidades portuguesas, até em Estados cujos territórios não foram de soberania colonial portuguesa, como acontece nos EUA, são testemunhos vivos de submissão a essa lei que, no século passado, levou à movimentação e fixação de multidões de emigrantes vindos do sul para o norte do globo afirmado como rico, consumista e promissor.


No caso das nossas emigrações para o Brasil, depois da independência que colocou um ponto final no segundo império, as remessas das suas economias, durante talvez um século, para as famílias que aqui ficaram, pesaram favoravelmente no equilíbrio da nossa balança de pagamentos. Na violenta crise que atinge as nossas finanças, e ainda mais inquietantemente a nossa economia, o realismo não consente omitir que a fronteira da pobreza ultrapassou as margens europeias do Mediterrâneo, que estamos envolvidos nessa realidade e conceito, e que a lei de relação entre ricos que exportam capitais e pobres que exportam gente entra inexoravelmente em funcionamento.


Por isso são dispensáveis incitamentos à emigração, que agora não é dos que chegam do Sul em fuga da desordem política e das carências, é dos que partem, por decisão e direito próprio, em busca de futuro melhor, ou pelo menos algum.

O que se afigura evidentemente necessário é, reconhecendo o facto, verificar, com inquietação cívica, que o movimento inclui uma juventude qualificada, que se encontra afligida pelo facto de o País ter os técnicos, necessitar dos técnicos, e não ter emprego para os técnicos.


Se alguma política de incitamento é necessária, subordinada aos direitos humanos de livre circulação, é no sentido de restaurar a vontade de ficar para ajudar, com convicção, na redefinição de um novo futuro para a comunidade portuguesa no século XXI.


O despovoamento da interioridade, que significa a quebra da relação indispensável entre a gente e a terra que a sustenta, pressuposto da real soberania sobre qualquer território, acrescenta-se com a perda do capital imaterial que é o saber e o saber-fazer dos milhares que se ausentam.


A política de incitamento à decisão de ficar é urgente, porque do contrário trata a natureza das coisas. É evidente que nenhuma soberania pode ou deve assumir o poder de impedir qualquer homem ou mulher de exercer em liberdade o direito de ir pelo mundo em busca da realização pessoal e futuro aceitável. Mas também nenhum governo pode secundarizar o dever de fortalecer a relação entre os cidadãos e a terra onde nasceram, sobretudo criando a confiança, o primeiro alicerce da decisão de ficar. Esta necessidade não se afigura um desafio fácil de enfrentar, em vista do teor da governança europeia, do repetido anúncio de crise insuperável e dos sintomas de vocação para o directório. Mas é um desafio que exige resposta.

 

 Adriano Moreira

DN10 Janeiro 2012

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=emigrantes+portugueses&um=1&hl=pt-PT&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=HAuZkoG1LdUo-M:&imgrefurl=http://imigrantes.no.sapo.pt/&docid=gk53zKMZ-bGuKM&imgurl=http://imigrantes.no.sapo.pt/FotoImigrantes.jpg&w=352&h=223&ei=9tYbT8zwBcu58gObpoy6Cw&zoom=1&iact=hc&vpx=311&vpy=199&dur=1251&hovh=178&hovw=281&tx=135&ty=103&sig=108364103958560163334&page=1&tbnh=150&tbnw=201&start=0&ndsp=12&ved=1t:429,r:1,s:0

A CRISE PORTUGUESA ACTUAL

 

 

Esta crise não é mais de que a continuação da perpétua crise em que Portugal sempre viveu, agravada, nos tempos actuais em que vivemos,  por ideias erradas e negativas, baseadas em destrutivos slogans de conveniência política e que não passam de falsas verdades. Falsas verdades em que o nosso Povo, principalmente o pouco culto, sempre acreditou.

 

O mais falso de todos estes slogans é o que está sendo permanentemente apregoado aos quatro ventos, intoxicando o raciocínio das grandes massas e está sendo aproveitado pelos políticos para grande obtenção de votos e não só! 

 

O slogan diz: - Todos nascem com direitos!

 

Porém, a verdade é outra! Todos nascem com deveres; os direitos conquistam-se!

 

Quando se enraíza a ideia de que todos nascem com direitos, imediatamente se pensa, na sua lógica mais simplista, que tudo tem que lhe ser dado. Aí, estamos a falsear todas as regras em que na realidade se baseia qualquer sociedade, tanto humana como em
qualquer sociedade animal da natureza.

 

Sim, porque nós, como animais que somos,  acrescento racionais para não melindrar muita gente, obedecemos às leis da nossa própria natureza e uma delas, a que mais prevalece, é o sentido de posse. E nós temos que saber fazer uso dela como qualquer animal faz quando marcou o seu território e a seguir o defende  E defende-o somente porque conquistou o direito de o ocupar.

 

Mas a ambição também não tem limites, principalmente quando as pessoas que ocupam o Poder não têm capacidade nem inteligência para o exercer ou não são sérias. Tudo isto é mais complicado e insolúvel, quando se é confrontado com situações de verdades virtuais cronicamente herdadas de passados longínquos, mesmo para pessoas dotadas de capacidade e inteligência invulgares. Perante esta situação,  é vulgar viver-se de expedientes de momento,  perante a inexistência da verdade pura e absoluta.

 

E a solução mais fácil e rápida é fazer BLUFF.  Começa-se por mentir, a dizer meias verdades cheias de sofisma, para mais tarde se justificar e vive-se então durante algum tempo na ilusão de tempos melhores.

 

Mas, com estes métodos, esses tempos nunca poderão chegar!

  

Este é um dos problemas que arrasta uma continuidade de outros.  

 

Na minha óptica o problema  da crise já existia muito antes de  Eça de Queiroz o ter escalpelizado.

 

Portugal, por ser pequeno e sermos poucos, quase sempre viveu assim para poder sobreviver. Mas sempre com uma grande ambição de todo o seu povo sonhando com grandes projectos. Isto é, olhando para coisas longínquas e descuidando o essencial que está ao pé da porta.

 

Essa sua característica foi, ao longo dos séculos,  bem aproveitada por outros povos que tinham os meios e espaço necessários para a realização dos seus projectos e que os enriqueceram, servindo-se da nossa indispensável colaboração e iniciativa.

 

Concretizando, para não me alongar mais nesta divagação,  escolho um exemplo bastante evidente e que constituiu o maior feito da nossa história!

 

Porque razões fomos escolhidos, entre tantos outros, para realizar um projecto cujo êxito nos trouxe o indiscutível período áureo das 
navegações?

 

Começo por esclarecer que o projecto das nossas navegações não foi financiado pelos Reis de Portugal.

 

Portugal não tinha dinheiro para tamanho projecto!

 

Um conjunto de circunstâncias, às quais os Papas, movidos por interesses da Igreja, não foram alheios como mediadores, ditaram a razão por que entrámos, antes de Espanha, na corrida das descobertas dos caminhos marítimos,  com o fim de tornar mais fácil e seguro o transporte para a Europa dos produtos orientais, substituindo a velha rota da seda, as rotas do deserto e outras, onde se perdiam cerca de 90% desses produtos.

 

O transporte destas mercadorias até Veneza, principal porto de entrada na Europa,  era muito difícil devido à pirataria que enxameava a navegação mediterrânica e a solução era encontrar a forma de contornar Africa para um transporte seguro e directo do Oriente para a
Europa.

 

Como a Espanha só em 1492, após a conquista do Reino de Granada, ficou em condições de entrar na corrida das navegações, a solução éramos nós, depois de falhadas tentativas de armadas mediterrânicas enfrentarem o Atlântico.

 

Foi assim que entramos neste grande projecto, que se iniciou com as Cruzadas.

 

Este projecto era no seu princípio financiado por banqueiros das cidades do norte da Alemanha e por outros sedeados em Veneza e mais tarde na Flandres, com cujo dinheiro o Infante D. Henrique, baseado em Lagos, soube gerir com muita eficiência a Escola de Sagres.

 

 

(*)

Para ser mais preciso, devo ainda informar quem não sabe, que a segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, via Cabo da Boa Esperança em 1502 e a de Fernão de Magalhães à volta do mundo ao serviço de Espanha, foram financiadas inteiramente pela família Afaitatis, uma das mais ricas da Europa e principais credores de Carlos V de Espanha, de Eduardo VI de Inglaterra e até mesmo do próprio rei de França.

 

Esta família de banqueiros, oriundos de Cremona, veio viver para Portugal para a que é hoje a Quinta dos Loridos (actual propriedade do Sr. Joe Berardo) para acompanhar de perto todo o projecto das nossas descobertas e gerir os seus negócios.

 

Mas como é que tudo evoluiu?

 

Com a descoberta do caminho marítimo para  a Índia por Vasco da Gama em 1492, as actividades comerciais de Veneza, (que esta detinha há mais de 200 anos), transferiram-se para Lisboa, transformando o seu porto no maior entreposto comercial europeu por ser a plataforma ideal para a distribuição das mercadorias orientais para toda a Europa.

 

Portugal, aberto ao livre comércio, foi então durante cerca de 10 anos o País mais rico da Europa.

 

Mas, perante tanta riqueza, o Rei D. Manuel, pensando ser o dono de tanta riqueza, mandou cobrar impostos  (a dízima) sobre essas mercadorias e, como consequência, as armadas começaram a ir directamente para a Flandres, primeiro para Bruges e depois para os restantes portos dessa região, principalmente para os que são hoje os portos de Antuérpia, Roterdão e Amesterdão.

 

Entretanto o banqueiro Afaitatis morreu, não se soube mais da viúva e seu filho o cabeça de Família, Juan Carlos,  foi viver para o
Castelo de Selsaeten,  nos arredores de Antuérpia.

 

Com esta alteração e a expulsão dos judeus de Portugal, (condição expressa pelos reis católicos Fernando e Isabel para que D. Manuel pudesse casar - pela terceira vez - com a Infanta D. Isabel),  os banqueiros, quase todos judeus, deixaram também  Portugal, tal como já tinham deixado Espanha.

 

Com eles foi também para a Flandres um grupo de famílias de banqueiros portugueses que foi considerado o grupo mais poderoso de todos, entre os quais se destacavam os Ximenes, os Teixeira de Sampaio e os Duarte, mas o mais importante de todos foi o Barão Rodrigues Ximenes, de Évora, conhecido como The Little King. (Ainda hoje existe uma placa comemorativa na Rua Meir em Antuérpia no local onde existiu o seu estabelecimento.)

 

Por esta razão Portugal passou de rico a pobre e ficou na miséria.

 

15 de Setembro de 2009

 

João Augusto Graça

Comandante Sénior de Linha Aérea (B 747)

Reformado TAP

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/2/21/Caminho_maritimo_para_a_India.png/300px-Caminho_maritimo_para_a_India.png&imgrefurl=http://pt.wikipedia.org/wiki/Rota_do_Cabo&h=214&w=300&sz=45&tbnid=87Sv1-fATi30jM:&tbnh=87&tbnw=122&prev=/search%3Fq%3Drota%2Bdo%2Bcabo%26tbm%3Disch%26tbo%3Du&zoom=1&q=rota+do+cabo&docid=Xeo1KkTQbcZA1M&hl=pt-PT&sa=X&ei=KlcbT_LrDInE8gPVl6HPCw&sqi=2&ved=0CCwQ9QEwAQ&dur=6546

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