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A bem da Nação

FABULANDIA I

 (**)

 

A compaixão para com os animais

é da mais nobres virtudes da natureza humana

 

Charles Darwin

 

I

 

A ABELHA E O LOUVA-A-DEUS*

 

 

Uma Abelha, voando por cima de um rosmaninhal,

Pousa suavemente numa flor de rosmaninho.

Olha em volta e não vê a cor verde, na planta roxa,

Dum Louva-a-Deus, fêmea, que se preparava, afinal,

Para torná-la num delicioso almocinho.

Como os seus cinco olhos sempre atentos,

Dão conta de tudo à sua volta,

A Louva-a-Deus passou de atitude guerreira a frouxa,

Quando descobriu um agitado Pardal,

Que a elegeu como lauta refeição,

Já que era fêmea de grande estatura.

Escondeu-se num cantinho, camuflada,

Mas, em posição que logo foi vista pela Abelha,

Que, em presença dos dois, levantou voo rapidamente.

O Pardal saiu em atitude desanimada.

A Abelha, voltando ao local, exclama:

"Escapaste-te de ser o almoço do pardalão!"

Louva-a-Deus: "E tu, graças a ele, certamente,"

"Te livraste, melosa e saborosa criatura!"

Abelha: "Face ao acontecido, qual a conclusão?"

Louva-a-Deus: "Não faço a mínima ideia!"

"Não sou culta, muito menos de falar em moral!"

Abelha: "Isso, pergunta-se a um fabulista!"

E insistindo: "Aliás, moralista não és com certeza!"

"Tens a lata de, no bem bom, comer o teu marido!"

"Não sei se sabes? Isso é ser canibal"

Louva-a-Deus: "Pois! Cada um com o seu defeito!"

E continuando: "Vamos lá, acaba com o zumbido!"

"E tu? Depois do bem bom, com uma rainha virgem,

"O teu querido macho fina-se, sem saber!"

"Isto se, antes não o correres da colmeia!"

"E com que direito?"

"O desgraçado morre de fome! Que prazer!"

"Fica tão, tão zangado que lhe chamam zangão!"

Abelha: "Deixemo-nos de inútil discussão!"

"Não quero levar este assunto para a Assembleia"

"Não temos tempo a perder!"

"Que eles já discutem tanta inutilidade!..."

"Levavas na cabeça umas chufas mal amanhadas!"

"Vens citada no Velho Testamento como autora"

"De pragas para chatear o Faraó!"

"Vamos ao que interessa e concluamos! Tem dó!"

"Ok! Fazemos parte da cadeia alimentar!"

Exclama o Louva-a-Deus com umas risadas.

Abelha: "Se me tivesses comido, não vias o Pardal!"

"Estávamos as duas na barriga dele… que é grande!

"Conclusão! Comemo-nos uns aos outros!"

"E os grandes comem os pequenininhos!"

Louva-a-Deus: " Sim, os grandes os comem!"

"E quem os come a eles?"

"É fácil! Responde a Abelha aos risinhos!..."

"O Homem!..."

 

 

 Luís Santiago(3) Luís Santiago

 

*Fêmea

 

(**) http://www.google.pt/imgres?q=louva+deus&um=1&hl=pt-PT&sa=N&biw=1280&bih=891&tbm=isch&tbnid=SWYDKv-3ISeV3M:&imgrefurl=http://deividorigamis.blogspot.com/2011/07/origami-de-louva-deus.html&docid=dYcwNcNpIuKlOM&imgurl=https://1.bp.blogspot.com/-r2Ijk8csQ24/TjB6qMjeIxI/AAAAAAAAANs/6seAseLIG4Q/s1600/louva_deus-cartoon.jpg&w=400&h=400&ei=uL3wToLZNYzUsgby48HyDw&zoom=1&iact=hc&vpx=764&vpy=151&dur=2944&hovh=225&hovw=225&tx=118&ty=104&sig=108364103958560163334&page=1&tbnh=173&tbnw=173&start=0&ndsp=20&ved=1t:429,r:3,s:0

“A BEM DA NAÇÃO” – 4

 

 

 

É com base em ideais que cada um de nós constrói a sua própria utopia, aquela que sonhamos vir a testemunhar no futuro. Eis como hoje, sem Sebastião que nos valha, desenhamos a nossa História do Futuro.

 

A propósito do futuro, lembro-me do passado e duma conversa que Paul Ricoeur teve com François Azouvi e Marc de Launay, eles também filósofos, em que falaram sobre história, ética, moral e teologia debatendo longamente a evolução do pensamento e a acumulação de conceitos. A frase que retive é: O trabalho intenso nas interpretações, sucessivamente divergentes e cumulativas, prossegue através dos séculos e até nós[1]. E quando chegou a altura de extraírem conclusões, uma houve que, relativa à teologia, mereceu a minha especial atenção. Não é uma conclusão afirmativa mas sim uma pergunta que serve de reflexão para o resto que falta à humanidade percorrer na História: com tantos milénios de interpretação da palavra divina, o que resta hoje de Deus?

 

Resta certamente o halo do momento fundacional traduzido nas três memórias (individual, social, futura), ou sejam, a «minhidade» (como António Hall traduziu), influenciada pelas «vossidades», na esperança de construirmos a «nossidade», máximo factor comum das memórias, das consciências e das utopias.

 

Quase para acabar, refiro uma frase que recordei há pouco com Hannah Arendt: potestas in populo, auctoritas in Senatu[2]. Eis por que no “A bem da Nação“ nos consideramos do lado do Poder; a Autoridade que se cuide!

 

E, quase para concluir, uma nota sobre a inequívoca opção pela Democracia em cujo seio queremos que sejam tomadas as decisões resultantes da «nossidade» fazendo prevalecer a racionalidade sobre o capricho, tecendo os laços horizontais típicos da nossa igualdade (religiosa, perante o Pai; profana, perante as «Tábuas da Lei»). E isto porque a hierarquia de comando e de autoridade ou resulta da escolha universal entre as diferentes propostas de bem-comum postas a sufrágio ou conta com o nosso NÃO!

 

E pronto, eis o “A bem da Nação”, ou seja, eis-me, tentando dar voz à utopia.

 

Utopia que passa pelo fim das duas maiores pechas lusitanas: a inveja e a mesquinhez. Conseguiremos? Não sei. A única coisa que garanto é a nossa perseverança.

 

Obrigado pela atenção e continuemos...

 

Lisboa, Dezembro de 2011

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

 



[1] - “A Crítica e a Convicção”, pág. 229

[2] - Op. cit., pág. 159

POLÍTICOS OU GESTORES

 (*)

 

 

A indigitação recentemente verificada de gestores, aparentemente sem currículo político mas excelente currículo profissional, para cargos
políticos da maior importância levantou um coro de comentários, porque parece haver dúvidas quanto à eficiência de um gestor de
origem empresarial ou semelhante no desempenho de tais funções políticas.

 

O contrário, isto é a passagem dum cargo político para um empresarial já não levanta tais dúvidas mas, se por vezes isso acontece de forma a originar notícias nos jornais, normalmente apenas houve influência de decisões tomadas pelo visado no primeiro cargo que teriam favorecido alguns interesses da empresa para onde transitou, não se pondo a questão da eficiência.

 

O que interessa na resposta à questão posta em título deste escrito é esclarecer o que de facto influencia a eficiência da gestão por quem ocupa os lugares cimeiros de qualquer organização, seja ela uma empresa ou um país.

 

A definição mais simples de gestão eficiente a enunciar é: o conjunto de princípios e procedimentos que maximizem os resultados a atingir utilizando uma equipa competente e todos os meios ao seu dispor no mercado em que a entidade a gerir está inserida.

 

Estes princípios essenciais da eficiência são os seguintes:

 

1º-Distinguir o fundamental do acessório

 

2º-O primeiro fator é o pessoal, (as pessoas de dentro e de fora)

 

3º-Haver sempre responsáveis

 

4º-Tomar decisões efectivas e oportunas

 

5º-Basear-se nos pontos fortes e não nos fracos

 

6º-Libertar-se de preconceitos e ideias feitas

 

7º-Apontar para os resultados mais do que para o trabalho

 

Estes princípios adicionados às capacidades humanas e técnicas e à experiência em lugares de chefia e/ou ao treino em gestão como é normal nos cursos específicos, devem ficar em equilíbrio com as características do cargo a que se chama a posição estratégica e que são: dependência hierárquica, poderes de decisão e informação recebida. A esta relação dá-se o nome de competência.

 

O primeiro factor de sucesso é a qualidade de liderança do responsável por essa equipa, e portanto pela sua competência, e a responsabilidade da sua escolha pertence a quem detém o poder de o indigitar. Se for uma empresa será a Assembleia Geral, ou seja os sócios que têm a maioria do capital, se for um país será o partido, ou a coligação de partidos que obtiver a maioria em eleições a isso destinadas.

 

A escolha dos candidatos a estes cargos obedece a critérios vários, alguns subjectivos e outros objectivos, entre ao quais as qualidades pessoais dos candidatos, entre elas as provas dadas anteriormente como sejam: os resultados obtidos, a capacidade de trabalho, a capacidade de liderar, a empatia e outras características pessoais e finalmente as capacidades técnicas mínimas para poder liderar toda a equipa, que se nas empresas já abrange vasta área, num país abrange todas a áreas de conhecimentos e de actividades.

 

Mas, perdoem-me a insistência, o mais importante é o seu comportamento ser orientado pelos princípios acima indicados.

 

A maioria, para não dizer todos, dos desvios verificados no nosso país que o conduziram à situação actual foram consequência do atropelo frequente de alguns ou até de todos eles.

 

Já Camões dizia”um fraco rei faz fraca a forte gente” e Damião de Góis “mais vale um exército de ovelhas comandado por um leão que um exército de leões comandado por uma ovelha”.

 

Por outro lado a actividade de gestão começa com a definição de objectivos e dos meios para os atingir cujo plano de acção faz parte das condições postas à partida quando da indigitação.

 

No caso de um país deverá ser definido durante o período eleitoral, aliás como acontece nas empresas, o que implica ter que haver depois um órgão que permita controlar a evolução durante todo o mandato de forma a evitar desvios, por ineficiência ou por  fraude.

 

Tudo isto porque existe uma base democrática nestas relações de trabalho e de influências, pois em ditaduras nada disto acontece assim, e por isso mesmo se justificam nestes casos as demonstrações de protesto nas ruas, que em democracia significam a falta de eficiência das chefias dos partidos políticos que tem conduzido à enorme abstenção e á adopção generalizada dos movimentos de protesto popular, como única solução para a população se manifestar.

 

Porque se os partidos políticos fossem representativos de facto de toda a população, o resultado das eleições bastaria para satisfazer a sua necessidade e interesse na solução dos problemas e em atingir os objectivos correspondentes às promessas eleitorais que ganharam as eleições.

 

Como melhorar esta situação que obviamente representa uma eficiência de governação fatalmente mais baixa do que seria desejável? E como controlar o trabalho de gestão dos eleitos?

 

Nas empresas privadas motivam-se os gestores (e seria excelente incluir também todos os colaboradores) com ganhos proporcionais aos resultados obtidos e no Estado deveria haver igualmente uma avaliação que premiasse (ou punisse) anualmente e no fim do mandato conforme os resultados atingidos.

 

Quanto ao controle, da mesma forma que nas empresas há o Conselho Fiscal, no Estado já existe o Tribunal de Contas que deveria ter essa função, talvez mais alargada e eleita sempre pelos partidos da oposição. Tal como o Provedor e qualquer órgão de controle, pois só assim nunca dependerão do poder a controlar, única forma de garantir a sua independência.

 

E como a Constituição não prevê este sistema, só resta alterá-la em conformidade, mas por uma equipa onde haja alguém que tenha conhecimentos sólidos de gestão e não apenas juristas.

 

Conclusão final: em teoria não há razão alguma para preferir candidatos exteriores aos partidos, excepto se estes estiverem tão desacreditados, que já não conseguem apresentar candidatos aceitáveis.

 

Moral da história: para o sistema democrático ser capaz de gerar candidatos eficientes e portanto credíveis, os partidos têm que rever rapidamente as suas formas de gestão interna tal como as empresas e os países que quiserem sobreviver e progredir.

 

Lisboa, 24 de Novembro de 2011

 

 José Carlos Gonçalves Viana

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=lucros%2Be%2Bprejuizos&um=1&hl=pt-PT&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=JCw9Q8k2Qv2TpM:&imgrefurl=http://informacaocontabil.blogspot.com/2011/02/balancos-da-nova-era-dao-mais-lucro.html&docid=0VFy2Ris_gxEKM&imgurl=https://1.bp.blogspot.com/-vg67qCqpvog/TVQETYaT8BI/AAAAAAAABpQ/qbYkyn4F8ZI/s1600/lucro%252Bprejuizo.jpg&w=640&h=383&ei=m4DvTsmoI4G3hQej0ISqCA&zoom=1&iact=hc&vpx=414&vpy=152&dur=53&hovh=174&hovw=290&tx=166&ty=86&sig=108364103958560163334&page=1&tbnh=105&tbnw=175&start=0&ndsp=20&ved=1t:429,r:2,s:0

“A BEM DA NAÇÃO” – 3

 

 

É conjugando os fundamentos da Ética (laica, católica, evangélica ou agnóstica) que pretendo que o nosso blog viva da memória individual, a traga para o centro da praça pública e contribua para a criação da memória social, aquela que prepara a «memória futura». Como dizia Paul Ricoeur, «cada período tem à sua volta uma aura de esperanças que não terá preenchido e é essa aura que permite retomá-las no futuro. Talvez seja assim que a utopia se poderá curar da sua doença congénita que é acreditar na possibilidade de começar do zero: a utopia é muito mais um re-nascimento» [1].

 

Não que tenha a pretensão de plagiar o Padre António Vieira com a sua “História do Futuro” mas vem a calhar perguntarmo-nos se serão essas ideias assim tão exóticas... Dizia ele que Portugal seria a fonte de onde nasceria o Quinto Império não de terras e outros bens materiais, mas um Império Espiritual. E, claro, como jesuíta, não iria contra a Santa Sé (ou seja, contra o II Império Romano) mas de certeza que não ignorou o facto de a rainha Santa Isabel ser cátara, promovendo o culto do Divino Espírito Santo para se alcançar essa terceira era esplendorosa que logicamente se seguiria à primeira, a do Pai e à segunda, a do Filho. E por certo que também não se esqueceu de Pêro da Covilhã, enviado por D. João II à corte do Preste João e à sua Igreja monofisista, tão consentânea com a terceira era cátara. O Rei de Portugal a emparelhar com o Négus da Abissínia e eis o II Império Romano cercado, a rota da seda e das especiarias controladas pelas naus do Tejo e não mais pela República de Veneza. Sim, claro, nem só de pão vive o homem mas... primum vivere, deinde philosophari.

 

(continua)

 

Lisboa, Dezembro de 2011

 

 

Henrique Salles da Fonseca



[1] - “A Crítica e a Convicção”, pág. 200

“A BEM DA NAÇÃO” – 2

 

Explicando o nome do blog, “A bem da Nação”...

 

O conceito engloba uma perspectiva histórica, considera sobretudo o tipo de pensamento positivo, assume como suas as três grandes questões éticas e suas personagens centrais, pretende contribuir para os três níveis da memória, está sempre atento à autoridade e assume incondicionalmente a democracia.

 

Simples, como é de ver...

 

Na perspectiva histórica, que pode ser a estritamente documental, a minha atenção assenta sobretudo na explicativa (cuja definição dispensa qualquer explicação) e na fundacional, a relativa à nossa um tanto mítica civilização.

 

Já no que se refere ao tipo de pensamento português neste último século e picos, evito a excitação típica do período que compreendeu o final da Monarquia e a 1ª República, o chamado «cogito exaltado», não perfilho o «cogito humilhado» característico dos que se conformaram com o peso da autoridade exercida durante o consulado salazarista, não dou qualquer abrigo ao «cogito irado» que assolou Portugal durante o período revolucionário de 1974-75 e tento recuperar do «cogito ferido» que é este em que hoje nos encontramos, lambendo as feridas da desgovernança pós-moderna e tentando fazer o slalom possível entre os lances bolsistas dos nossos credores...

 

Mas é à Ética que dedico mais atenção.

 

Quanto às três grandes questões éticas e começando pela mais antiga, por Aristóteles, que significa a procura da vida boa? E depois, que é isso a que fomos conduzidos por Kant de sempre cumprirmos o dever? E nos tempos modernos, como resolver um problema inédito que a ciência e a tecnologia acabam de nos apresentar? E tudo isso em nome das três pessoas fundamentais: eu, tu, ele. O que devo eu fazer para beneficiar a tua dignidade salvaguardando a de terceiros que nem sequer conheço? Por outras palavras: a minha autonomia (que se explica pela minha liberdade responsável) conduz-me à beneficência com vista ao império da justiça. Se no tratamento destas três questões passarmos do plano individual para o
do serviço público, eis-nos chegados ao Sentido de Estado.

 

Como dizia o meu malogrado vizinho Padre Luís Archer, SJ, em Janeiro de 2000 na sua BROTÉRIA, “A espécie humana será a única que, devido à sua capacidade ética de sacrificar o presente ao futuro, poderá evitar a sua própria degradação”. Eis como numa penada se rejeita o hedonismo reinante nos dias de hoje, eis como laconicamente se dá um sentido superior às opções humanas. Numa perspectiva prosaica, direi que é ao homem que cumpre utilizar a inteligência de que dispõe para gerir um plano estratégico que no longo prazo o conduza à glória através da virtude.

 

Os bichos, sim, são hedonistas.

 

(continua)

 

Lisboa, Dezembro de 2011

008.JPGHenrique Salles da Fonseca

“A BEM DA NAÇÃO” – 1

 

 

Pedido para que apresentasse o “A bem da Nação” a plateia menos habituada às lides internéticas, alinhavei algumas ideias que se referem ao estatuto editorial e, no limite, acabam por me localizar a mim próprio neste mundo difuso em que navegamos.

 

Publicar estas linhas no próprio blog não passa, pois, duma redundância mas não quero que os nossos mais recentes leitores nos antípodas se possam queixar de os não ter prevenido sobre o que podem encontrar nestas «páginas».

 

Assim, para quem chega de novo, começo por dizer que iniciei este blog em Janeiro de 2004, dias antes de me aposentar de facto, em 1 de Fevereiro. O servidor é o SAPO e não poderia ser qualquer outro, por este ser o único verdadeiramente português. E se eu pugno pelo bem da nossa Nação, mal seria que utilizasse um servidor de outra nacionalidade.

 

Salvando interrupções de cariz técnico (p. ex. inacessibilidade pontual à Internet, avaria do meu computador, etc.), todos os dias de calendário publico um texto. Mas também só publico um. Tenho com essa prática o objectivo de dar tempo ao leitor para digerir a mensagem. E se todos os dias de calendário tivermos um tema para reflexão, já não nos poderemos considerar em grande risco de anquilosamento...

 

Excepcionalmente, quando a fila de espera de textos a publicar já vai muito longa, então abro uns parênteses e publico dois textos diariamente. Mas essa é a excepção.

 

E que temas cabem no blog? Todos aqueles que nos ponham a meditar para o bem da nossa Nação.

 

Mas explico um pouco melhor: durante algum tempo escrevi quinzenalmente para o suplemento de economia do semanário “O Independente” e para a revista mensal “Economia pura” mas essas colaborações (graciosas, claro) chegaram ao fim por razões diversas e isso coincidiu – mais coisa, menos coisa – com a minha aposentação. Como, entretanto, eu andava muito enjoado com a vulgarizada maledicência sobre o meu país, decidi fazer algo que contrariasse esse pernicioso vício e em que se identificassem problemas importantes de que Portugal padecesse e se apresentassem soluções plausíveis, ou seja, não destrutivas e compatíveis com o modelo democrático ocidental. Comecei por republicar os textos que já havia publicado no semanário e na revista e comecei paulatinamente a convidar outras pessoas para me acompanharem na missão. O meu primeiro convidado foi o Dr. Palhinha Machado – meu vizinho na página ao lado no semanário “O Independente” – a que se seguiram outros Autores igualmente ilustres cujas mundividência, sensatez, sentidos ético e de Estado e perspectiva racional de futuro constroem o nosso timbre.

 

Que características mais abonatórias de uma publicação do que estas que acabo de referir? Não há! E, se há, não conheço e, como se vê, tenho passado bem sem elas.

 

E se os temas iniciais se referiam à economia e finanças portuguesas, cedo dei por mim a alargar o leque temático e a abrangência do conceito «nação» acolhendo todos aqueles que alguma vez na História e algures por esse mundo além tenham sigo governados por nós, Portugal.

 

Só para referir mais um detalhe da linha editorial: apresentar e debater ideias, referir factos para ilustração dessas ideias mas NUNCA discutir pessoas (sobretudo se vivas).

 

Posto isto, só falta agora explicar o nome do blog, “A bem da Nação”.

 

(continua)

 

Lisboa, Dezembro de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca

OS VENTOS DA (DES)GRAÇA

 

 

Uma fábula de Esopo

Que vem a propósito

Dos nossos costumes

De eternos acusadores

Dos causadores

Dos nossos queixumes,

Como infractores

Das regras, das leis,

Sem problemas maiores,

Pois que a elas são

Por condição

Superiores:

 

«O mar e o náufrago»

 

«Sobre a costa largado,

Um náufrago fatigado

Depois de tanto se ter esforçado

A nado,

Tinha adormecido

Esmorecido.

Pouco depois voltou a si e, olhando o mar,

Censurou-o por os homens atrair

Com o seu ar amigo,

Quando, seguidamente,

Depois de os ter acolhido,

Contra eles se lançar

E os exterminar

Furiosamente.

Então o mar

Sem se alterar,

Tomou a forma duma mulher

Que nem sequer era sereia,

E respondeu-lhe a sorrir:

“Homem, não me culpes tu a mim

Mas sim

Os ventos peneirentos.

Porque quanto a mim

Eu sou assim,

Como me viste e me vês.

São eles que me atacam

De surpresa,

Pela frente ou por detrás

Seguindo as orientações

Dos pontos cardeais e mais

De toda a rosa-dos-ventos.

E me agitam e enfurecem

Sem qualquer delicadeza

Por mim, mulher de grande beleza.”

Da mesma maneira nós

Não devemos logo responsabilizar

Os executores dum crime

Sabendo que eles não são senão

Simples subordinados

Dos chefes de quem eles são

Apenas paus mandados.»

 

Isto disse
Esopo outrora,

E hoje é tão verdadeiro

Como foi no tempo dele

Porque como clássico que foi,

Primeiro,

Conheceu bem o homem

Useiro e vezeiro

Nos seus malabarismos,

Mas também

Nos seus dinamismos,

Vento revoltoso

Empurrando, atacando,

E redes organizando,

Os não amigos excluindo,

Destruindo,

Afastando, num segundo,

Desse seu mundo bem fundo

E até, por vezes, imundo.

Nós, os governantes acusamos

De serem ventos danosos.

Mas realmente eles não são mais que mar

Que é empurrado sem parar

Pelos ventos furiosos

Que sopram do centro e do norte

E do leste e do oeste

Piores do que a peste.

É preciso sabermos lutar,

Mas colaborar

Com o mar

Para os ventos apaziguarmos

Da rosa-dos-ventos.

Ventos e marés venceremos

Se quisermos.

Cada um de nós esforçando-se,

Confiantes,

Competentes,

Em vez de só criticarmos.

Sem jamais nos responsabilizarmos,

Impecáveis que somos.

Sempre.

 

 Berta Brás

NEM TODO O PROJECTO DE INFRA-ESTRUTURA DEVE USAR RECURSOS DO TESOURO

 

 

 Já não resta dúvida de que a indústria de transformação brasileira passa por um momento difícil. O nível de produção actual ainda não superou o atingido em 2008, logo antes da deflagração da fase mais aguda da grande crise global. São muitas as causas apontadas para o fenómeno: câmbio valorizado, competição chinesa, retraimento dos mercados ricos (que causa sobre-oferta) e diversos entraves ligados ao chamado custo Brasil.

 

É nesse último item, porém, que a história se complica um pouco. É comum a afirmação de que uma das acções para aumentar a competitividade da indústria nacional que depende apenas do esforço e da capacidade de decisão dosbrasileiros — ao contrário do câmbio, da China e da desaceleração nos EUA, Europa e Japão — é melhorar a infra-estrutura do país. Afinal, com melhores estradas e portos, nossos produtos escoarão de forma mais eficiente e barata, tornando-se, consequentemente, mais competitivos.

 

É absolutamente certo que o Brasil deva melhorar a infra-estrutura, mas, infelizmente, ao contrário do que muitos preconizam, isso pode não facilitar a vida da indústria de transformação. Tudo vai depender do tipo de investimento que será feito.

 

A razão é simples. As deficiências de transporte e logística têm um impacto negativo muito maior na competitividade das commodities do que na dos manufacturados. A participação do frete e dos custos portuários na exportação de soja, por exemplo, é muito maior proporcionalmente do que nas vendas externas de automóveis ou de calçados.

 

Em 2010, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), as despesas portuárias e de frete reduziam a receita líquida do exportador de soja em US$ 70, isto é, de US$ 412 por tonelada (preço FOB, free on board) para US$ 342. Em comparação, a perda nos Estados Unidos, graças aos subsídios, era de apenas US$ 2, para o mesmo preço FOB. Na Argentina, era de US$ 164, por causa da política das “retenciones”, que significa um imposto de exportação de 35%.

 

No que tange ao automóvel, o custo de transportar um carro brasileiro exportado para a Argentina é de R$ 875,64, segundo trabalho de Rachel Ballardin, Antonio Cezar Bornia e Rafael Tezza. Uma simples passada de olhos sobre a relação entre custo de transporte e preço da mercadoria sugere que, no caso brasileiro, a exportação de soja é significativamente mais onerada do que a de produtos manufacturados, como veículos.

 

Se houver ganhos de eficiência nas estradas e nos portos brasileiros, portanto, os preços dos bens primários no embarque cairão bem mais do que os dos manufacturados. Dessa forma, a vantagem das commodities se ampliará, suas exportações crescerão e o Brasil ficará ainda mais especializado em produtos da natureza. E uma das consequências desse processo será a continuação da valorização do câmbio, que tornará a situação competitiva dos manufacturados ainda mais problemática.

 

Um provável efeito da melhora das estradas e dos portos é o de desestimular a produção de óleo de soja e incentivar a exportação da leguminosa em grão. A lógica aqui é a mesma que afecta os efeitos diferenciados da maior eficiência da infra-estrutura nos custos de matérias-primas e de produtos acabados, descrita acima. Assim, por mais paradoxal que possa parecer, as más condições das estradas e os altos custos portuários são favoráveis à indústria de esmagamento de grão de soja no Brasil.

 

Assim, quando se fala na redução do custo Brasil como factor de aumento da competitividade da indústria de transformação, é necessário verificar se as melhorias planeadas afectam de forma positiva o sector manufactureiro especificamente.

 

No entanto, parece incontestável que melhores estradas e portos sejam uma prioridade nacional, e que trarão ganhos para a sociedade brasileira, independentemente do impacto na indústria de transformação. O que é necessário, portanto, é que a estratégia nacional de ampliação e aperfeiçoamento da infra-estrutura leve em conta o custo e o benefício dos diversos projectos, no lugar de simplesmente se colocar recursos nos empreendimentos à medida que estes vão surgindo.

 

A opção de investir indiscriminadamente em infra-estrutura com recursos públicos deveria ter um pressuposto: as melhoras proporcionadas por estes investimentos deveriam ocorrer de forma abrangente e igualitária entre todos os segmentos sociais e económicos da vida nacional. Porém, como se viu em relação às manufacturas, aquela hipótese está equivocada. Os benefícios de novas e melhores estradas e portos distribuem-se de forma bastante desigual entre diferentes actores sociais e económicos (e também com forte componente regional, é claro).

 

Não é preciso nenhuma análise mais profunda para se perceber que a carteira brasileira de investimentos públicos em infra-estruturas está bastante orientada para a exportação de produtos básicos, com muitos projectos concentrados nos eixos que vão das zonas produtoras de cereais no interior do país aos portos de escoamento, com escassa conexão entre si. Esse padrão, aliás, tem raízes históricas, como fica claro na rede de ferrovias associada ao ciclo do café.

 

Quando se analisa a exportação de produtos básicos, principais beneficiados pelos investimentos em infra-estrutura viária e portuária, fica claro que, apesar das inúmeras vantagens que essa actividade traz para as empresas do sector e para o país em geral, há alguns efeitos colaterais indesejáveis. O mais conhecido deles é o câmbio valorizado, prejudicial à indústria.

 

Um problema adicional deriva do facto de o Brasil ser um formador de preços no mercado global de diversas commodities, dados os grandes volumes exportados pelo país. Dessa forma, as melhoras de infra-estrutura que barateiam a soja e o minério de ferro acabam trazendo benefícios para o consumidor final, que são as empresas chinesas, por exemplo.

 

Esse efeito é mais uma indicação de que o investimento em infra-estruturas deveria ser realizado a partir de uma estratégia que considerasse os diversos e complexos impactos na economia. Grandes corredores de exportação deveriam ser financiados por receitas derivadas dessa própria actividade económica, e não deveriam contar com recursos do Tesouro Nacional. É interessante notar que foi assim que se procedeu no caso das ferrovias de escoamento durante o ciclo do café.

 

Como é do interesse dos importadores baratear o custo logístico das matérias-prima brasileiras, fica evidente que o escopo para o financiamento privado é muito amplo no caso dos corredores de exportação. A China, aliás, com a sua gigantesca poupança excedente e a dependência de matérias-prima exportadas, não se tem acanhado em investir directamente ou financiar investimentos em infra-estruturas nos países fornecedores. Está claro que o dinheiro do Tesouro não fará falta para esse tipo de projecto.

 

A infra-estrutura, entretanto, não se limita a estradas para escoamento de matérias-prima e instalações portuárias. A economia que se deveria fazer nesses projectos poderia ampliar os recursos, por exemplo, para as obras de saneamento e infra-estrutura urbana em geral — estas sim, com impactos positivos amplos e bem disseminados entre a grande maioria da população brasileira.

 

Para os demais investimentos, o critério para utilização de recursos públicos seria o de que os projectos componham uma rede com ganhos que se espraiam entre diversos sectores e actividades. Diante da necessidade de conter a expansão dos gastos públicos e o aumento da carga tributária, de um lado, e a de fazer do investimento público um indutor do crescimento, do outro, é preciso focalizar muito bem a carteira de empreendimentos do Estado.

 

Não há sentido em usar recursos do contribuinte para financiar investimentos de forte interesse privado, inclusive estrangeiro, e para os quais não faltará financiamento com uma boa engenharia financeira. É preciso, portanto, aprofundar e sofisticar a análise de custos e benefícios dos projectos de infra-estrutura que demandam financiamento estatal.

 

 

 Ricardo Bergamini

 

Revista Conjuntura Económica – Fundação Getúlio Vargas

Vol 65 nº 11 Novembro 2011

TERÃO OS FRANCESES SIDO EXPULSOS DE PORTUGAL, EM 1811? - 1

 

 

  A teus pés, fundador da monarquia    

  Vai ser a Lusa gente desarmada!

  Hoje cede à traição a forte espada

  Que jamais se rendeu à valentia!

 (Inicio do soneto declamado pelo autor Capitão de Cavalaria Luís Paulino de Oliveira Pinto da França, junto ao túmulo de D. Afonso Henriques, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra, em 1807, após a 1ª Invasão Francesa).

                                                                                        
                       

    INTRODUÇÃO

   

O tema deste escrito trata da expulsão dos franceses de Portugal na sequência da que é tida como terceira invasão francesa, concretamente após o combate do Sabugal, em 3 de Abril de 1811. Após o que foram sendo perseguidos até Toulouse onde se renderam, em 10 de Abril de 1814.

   

Perseguidos eles foram, de facto – e só é pena não terem sido mais, dado o rasto de destruição e morte que provocaram em
Portugal, numa escala nunca vista (da qual, hoje em dia, não temos a menor ideia, em termos de memória colectiva…).

   

Mas será que foram realmente expulsos ou derrotados?

   

A mim parece-me que não foram!

   

E aos próprios também não, basta ir ao Arco do Triunfo, em Paris, e verificar que eles, aqui, só somaram vitórias… Esse, de facto, algum dano lhes infligimos, estes serviram mais aos ingleses do que a nós e foram sol de pouca dura já que, passados poucos anos, nos bloqueavam a barra do Tejo e ajudavam a impor-nos, “manu militari”, com ingleses e espanhóis, a Convenção de Gramido, de 1847.

   

Não sei se os leitores sentem como eu, mas quero confessar-lhes que me causa especial incómodo que “alguém” nos venha fechar a barra do Tejo!...                                         

 

18/11/2011

 

 

João José Brandão Ferreira

              TCorPilAv. (Ref.)

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