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A bem da Nação

RELATÓRIO PSIQUIÁTRICO

(*)

 

PARA NÃO ESQUECERMOS PELO QUE NOS FIZERAM PASSAR E DONDE HAVEMOS DE SAIR

 

 

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

 

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.


Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.


E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

 Pedro Afonso
Médico psiquiatra

 

In Público, 21 de Junho de 2010

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.cicrescer.com.br/arqs/textos/085033_psiquiatria002.jpg&imgrefurl=http://www.cicrescer.com.br/%3Fsecao%3Dnoticias%26id%3D14&usg=__VKpau3tuK_d-8ZhSFHCyygrUMgM=&h=287&w=324&sz=101&hl=pt-PT&start=0&sig2=NPel-IUdkDLn0bJTQ-5b_Q&zoom=1&tbnid=kzbbG8ER3GpUVM:&tbnh=112&tbnw=126&ei=rfYbTvzkNo6s8QPr052sCA&prev=/search%3Fq%3Dpsiquiatria%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1093%26bih%3D538%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=424&vpy=106&dur=3709&hovh=211&hovw=239&tx=110&ty=112&page=1&ndsp=18&ved=1t:429,r:2,s:0&biw=1093&bih=538

A BORBOLETA

ONU - o mundo globalizado numa sala

 

 

Veio a borboleta e poisou no rabo encaracolado do meu cão. Bastou eu fazer uma festa na cabeça do Caramelo para ele abanar o rabo e a borboleta fugir.

 

Eis como num mundo globalizado o espirro dum pária indiano pode afectar a vida dum engravatado europeu ou americano. É que se esse espirro vier a ser conhecido pela comunicação social, então pode servir de pretexto à redacção de notícia que provoque alguma reacção geral num certo tipo de leitores. A «arte» da manipulação da informação ao serviço de interesses nem sempre linearmente correlacionados com o facto original é uma realidade que todos constatamos mas contra a qual ainda ninguém se levantou em oposição eficaz.

 

Há anos, o protesto contra certas condições laborais feito pelo chefe do pessoal menor duma refinaria de petróleo na Nigéria desencadeou a notícia perfeita para provocar a subida da cotação do crude. Ninguém quis saber se esse protesto foi espontâneo ou encomendado por quem queria essa subida de cotação; ninguém quis saber se a esse protesto se seguiria ou não alguma ameaça de greve; ninguém quis saber se a putativa paralisação dessa refinaria teria algum impacto relevante na oferta de petróleo a nível mundial; ninguém quis saber quem redigiu a notícia e ninguém pensou em accionar judicialmente o director do órgão de comunicação que difundiu notícia tão pouco fundamentada e susceptível de provocar danos na economia globalizada.

 

Não se tratou de informação mas sim de intoxicação da opinião pública; tratou-se de clara manipulação dos mercados; não se tratou de liberdade de imprensa mas sim de libertinagem dolosa. Tratou-se, isso sim, de completa ausência de Ética.

 

E então?

 

Então, restam-nos algumas soluções alternativas:

  1. Pomos fim à liberdade de imprensa;
  2. Montamos um Estado Policial de censura prévia universal à Imprensa;
  3. Assentamos num Código Universal de Ética da Informação.

 

Escusado será dizer que prefiro a terceira solução, sobretudo se esse Código vier a ser discutido e aprovado pelas Nações Unidas e tenha efeitos vinculativos em todos os Estados com assento na Assembleia Geral da ONU.

 

E aqui fica já uma sugestão aos negociadores: quem prevaricar corre o risco de perder a carteira profissional e de ficar sujeito a penalidades judiciais em qualquer Estado que se sinta prejudicado pela prevaricação.

 

E já que estamos com a mão na massa, deixem-se de «borboletices» mas proíbam também a violência.

 

Julho de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca

RETOMAR O "BEM COMUM"

 (*)

 

 

Os tempos em que vivemos não se compadecem com ruído estéril. De esquerda ou de direita


Agora que o Governo tomou posse e que o respectivo programa foi aprovado, é fundamental que sejamos interpelados a revalorizar a salvaguarda do "bem comum" da sociedade portuguesa, neste momento que todos sabemos ser muito difícil. E essa salvaguarda passa por ultrapassar os interesses individuais e dos grupos corporativos de qualquer natureza. Partidos, sindicatos, associações empresariais e outras organizações são convocados a um elevado sentido de Estado e a deixar de lado as divergências mais marcadamente ideológicas. Porque os tempos em que vivemos não se compadecem com ruído estéril. De esquerda ou de direita.


A causa do "bem comum" exige ter os pés bem assentes na terra, exige realismo. Muito sério. Portugal tem de recuperar a credibilidade junto dos mercados internacionais (por mais que as medidas a implementar possam ser diabolizadas pelos sectores mais críticos), através de políticas bem consolidadas, para que seja solto de vez o "lastro" de país do final da linha. E Portugal tem de se credibilizar junto de todos nós, que estamos exauridos de tanto desregramento.

O esteio do esforço nacional tem de estar em cada um de nós. Tem de estar desde o mais alto responsável da Nação até ao mais humilde dos cidadãos. Todos temos de estar na primeira "trincheira" desta batalha que pode significar ganhar a guerra contra o declínio económico e financeiro. Uma guerra que tem de ser ganha, definitivamente.

 

Realismo é a palavra-chave dos tempos que vivemos. Porque muitas vezes há quem pense que os problemas se resolverão por si mesmos. Que haverá um homem providencial que chegará do meio do nevoeiro e fará com que a nossa dívida externa desapareça; que o número de desempregados baixe; que as empresas em crise sejam em menor número; que a Segurança Social dure para sempre e tudo garanta. Generosidade, honestidade e verdade são três lemas, três linhas orientadoras, que devem fazer parte do nosso dia-a-dia. E esperemos ver espírito de serviço exemplar nos detentores de cargos públicos, a quem mais compete o esforço de devolver credibilidade interna e externa ao país.

Como afirmou recentemente o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, o país "tem de dar o seu contributo à evolução positiva, concretamente da União Europeia e da Zona Euro, e só o fará se resolver positivamente, reconquistando a credibilidade, o momento que passa". "Não é a mesma coisa partilhar generosamente e ser obrigado a distribuir", adianta a Conferência.

Os tempos em que vivemos não são fáceis, já todos sabemos. Por isso, lemas como os da solidariedade e do trabalho árduo em prol do colectivo são decisivos para quem herdou uma situação em que, mais do que chorar o que foi (mal) feito, há a necessidade de trabalhar para o "bem comum". Retome-se e viva-se o conceito.

 

 Pedro Botelho Gomes

Advogado

In Público, 7 de Julho de 2011

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/montecristo/projetos/parceria/imagem/img5.jpg&imgrefurl=http://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/montecristo/projetos/parceria/mosaico.html&usg=__ufMHbTGZLP_LiRMuFMkiXLWZ0dI=&h=295&w=289&sz=19&hl=pt-PT&start=0&sig2=3aHPzV5veZB-xLIc1t1B4A&zoom=1&tbnid=fYA7qdrcSFjVrM:&tbnh=132&tbnw=129&ei=kj4ZTrWxNMeX8QPg2Pz-Dw&prev=/search%3Fq%3Dbem%252Bcomum%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26biw%3D1093%26bih%3D538%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=484&vpy=200&dur=3875&hovh=227&hovw=222&tx=154&ty=110&page=1&ndsp=18&ved=1t:429,r:8,s:0&biw=1093&bih=538

PORTUGUESES LANÇAM NOVA MÁQUINA…

 

…contra o cancro da mama

 

 

Consórcio europeu liderado por portugueses lançou uma nova máquina que pode revolucionar a prevenção e detecção do cancro da mama. Os primeiros protótipos foram instalados em Coimbra e Marselha.


  
  É uma máquina inovadora a nível mundial,

acaba com a ineficácia e o desconforto das
mamografias. A taxa de falsos resultados positivos

 atinge  os 60%  a 70% nas mamografias actuais por

raios X ou por ecografia

 

É uma máquina inovadora a nível mundial, acaba com a ineficácia e o desconforto das mamografias, foi concebida por um consórcio internacional liderado por investigadores portugueses e os primeiros dois protótipos já estão instalados na Universidade de Coimbra e no Hospital Universitário de Marselha.

Chama-se Clear PEM Sonic e integra pela primeira vez as tecnologias PET (tomografia por emissão de positrões, isto é, exame imagiológico de medicina nuclear) e de ultras sons (ecografia), o que permite detectar tumores com apenas 1mm ou 2 mm, que estão numa fase inicial, quando o PET clássico não visualiza tumores com menos de 10 mm e tem uma sensibilidade 10 vezes menor.

A taxa de falsos resultados positivos atinge os 60% a 70% nas mamografias actuais por raios X ou por ecografia, com particular incidência nas mulheres mais jovens, o que obriga a fazer biopsias. Por outro lado, o método de diagnóstico mais usado, por raios X, expõe as mulheres a radiações elevadas e é doloroso, por implicar alguma compressão da mama.

Baixa radioactividade

Na Clear PEM Sonic o exame dura apenas cinco minutos, implicando a injecção no sangue da paciente um composto de glicose com baixa radioactividade conhecido por 18-FDG. Como as células cancerígenas consomem mais açúcar, um tumor não maligno não fixa a glicose, o que é identificado pelo detector de radiação do aparelho.

O projecto nasceu no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), em Genebra, através da experiência "Crystal Clear", e é coordenado por João Varela, investigador do CERN, professor do Instituto Superior Técnico (Lisboa) e presidente da PETsys, empresa criada para desenvolver a nova máquina. Em Coimbra, o protótipo da nova máquina está instalado no Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), um dos parceiros nacionais do projecto. Os outros incluem a PETsys, centros de investigação das universidades de Coimbra, Porto e Lisboa, o Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), o Taguspark e o Hospital Garcia de Orta (Almada).

Além do CERN e do Hospital Universitário de Marselha, os parceiros estrangeiros são a Universidade de Milão e a empresa francesa Supersonic Imagine.


Fonte: Expresso

CATURRICES - 25

 

Detalhes - I

 

 

Uf! Finalmente um programa (o da troika) comme il faut: disciplina orçamental férrea, a Banca com a rédea curta (ou mais capital, ou mais modéstia) e reformas estruturais que, desta vez, é que são mesmo para levar por diante.

 

Um roteiro que, diz-se à boca cheia, nos levará a porto seguro. É certo que por mares tormentosos. Mas, vejam, está lá tudo! Haja vontade e empenho, que não nos perderemos.

 

Correcto? Não tanto, Leitor, porque...não está lá tudo. Não está lá a grande esquecida dos teóricos: a liquidez (melhor dizendo, o volume e a distribuição da liquidez no decurso de uma viagem há muito inevitável). Um detalhe que fará toda a diferença, como tentarei explicar a seu tempo.

 

Começando pelo princípio. Nos primeiros quinze anos da nossa aventura europeia, os Quadros Comunitários de Apoio financiavam, e justificavam, os persistentes desequilíbrios da Balança de Transacções Correntes (BTC). E a liquidez era como o maná: criaturas angelicais espargiam-na generosamente sobre as nossas pobres, mas ávidas cabeças.

 

com o euro: (1) endividava-se o Estado lá fora para gastar, com liberalidade, cá dentro (em remunerações, serviços de toda a espécie, equipamentos e infra-estruturas – despesa que empolava a procura interna, mas pouco contribuía para a qualidade da oferta nacional); (2) endividavam-se os Bancos lá fora para emprestarem, com não menor liberalidade, cá dentro; (3) pedia-se emprestado cá dentro para comprar no exterior, despreocupadamente, bens e serviços variados. A liquidez, essa, com tanta dívida, afluía que dava gosto.

 

Por muito que custe aos teóricos da dismal science (em vernáculo: a economia) e aos adeptos do Pacto de Estabilidade e Crescimento, não eram os deficits orçamentais que lançavam luz sobre o rumo que levávamos. Eram, sim, os deficits da BTC, a que ninguém parecia dar grande importância. Nesse tempo, quem sabia acreditava piamente em que, no âmbito de uma união monetária, “tudo se financiava”.

 

Talvez. Até ao dia de começar a pagar (nem árvores, nem cotações, nem dívidas crescem até aos céus que fazem chover maná). Ei-lo! É chegado o dia. Como pagar, então?

 

Em termos de simples contabilidade nacional, é certo e sabido que a procura interna vai contrair-se (tal como a troika quer no imediato), porque: (1) aquela parcela que, dia após dia, era paga com mais dívida levará sumiço; (2) vão desaparecer também as despesas públicas financiadas por impostos indirectos sobre comércios que só o endividamento externo tornava possíveis; (3) haverá que desviar para os juros da Dívida Pública uma parte do rendimento que se gastava, até agora, em importações de bens e serviços; (4) enfim, há que poupar o suficiente para ir amortizando a dívida em excesso (abater à Dívida Pública externa o equivalente a 60% do PIB 2010, e pelo menos outro tanto à dívida externa dos Bancos).

 

Para quem pensa que, na economia, os números são todos iguais, a solução está à vista: basta produzir e não gastar um cêntimo que seja durante os próximos 15-17 meses (cerca de 120% do PIB 2010, mais uns trocos, que os juros ao exterior têm de ser pagos também) para as contas ficarem, de vez, certinhas – e nós voltarmos a pôr o pé em terra firme.

 

O diabo está, uma vez mais, nos detalhes (mesmo se o PIB aguentar os solavancos da viagem): hoje por hoje, só 1/3 do que produzimos encontra comprador lá fora, pelo que não deveremos falar de 15-17 meses, mas de 4-5 anos (isto, com as importações de bens e serviços a zeros).

 

E para não ficarmos pelo caminho, algo teremos sempre que comprar à estranja: alimentos, energia, medicamentos, um ou outro serviço inadiável - mais as matérias-primas e os produtos intermédios que importamos para incorporar nas nossas exportações.

 

Contas feitas, com a actual capacidade exportadora, teremos para aí 40 anos, ou mais, de viagem atribulada pela frente. É bíblico! Não há melhor prova de que somos, na verdade, um povo escolhido.

 

Para encurtar a viagem, só três soluções contam: (1) um súbito interesse dos estrangeiros por bens e serviços que, até à data, só têm tido clientes em Portugal; (2) reorientar para a produção de bens e serviços exportáveis uma boa parte da actividade económica que tem vivido exclusivamente da, e para a procura interna (o Sector de Bens não Transaccionáveis: SBnT); (3) a entrada de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em catadupa.

 

Não, Leitor, o pacote financeiro do FMI e da UE não conta para este efeito. Limita-se a trocar dívida por dívida. Com a agravante de substituir credores que, em processo de renegociação, seriam credores comuns (do Estado e dos Bancos) por credores com privilégios absolutos e inegociáveis sobre todos nós, contribuintes.

 

Confiar em que, de um momento para o outro, bens e serviços aqui produzidos vão revelar insuspeitadas capacidades exportadoras, em volumes que se façam notar nas estatísticas, parece-me pouco sensato. Não é que tal não possa acontecer. Claro que pode. Mas serão sempre casos pontuais, por certo muito estimáveis, mas com contributo insignificante para o reequilíbrio da BTC.

 

“Para o Sector de Bens Transaccionáveis (SBT), rápido e em força” – é, talvez, o sound byte mais ouvido nos dias que correm. Se, por obra e graça das exportações, e de alguma moderação nas importações, a BTC passasse a exibir excedentes da ordem dos 5%-8% do PIB 2010 (e seria obra), a viagem encurtaria: duraria então só 15 a 20 anos.

 

E já só se perderiam duas gerações: a actual (que, mesmo assim, teve a oportunidade de faire la grand vie antes de a Dívida Externa descambar) e a que entra agora no mercado do trabalho (levada à força para uma viagem que não quer nem merece).

 

Mas, tudo somado, o SBT teria de passar do actual 1/3 para, pelo menos, 50% do PIB 2010. Quer o destino que não seja só descobrir o que começar a produzir para exportar. É também: (1) ter qualidade e preços capazes de competir nos nossos tradicionais mercados de exportação; (2) encontrar novos mercados que paguem a tempo e horas o que lhes vendermos; (3) criar empresas com dinâmica suficiente para se lançarem com ganho na aventura que é vender nos mercados externos; (4) conseguir reunir o capital necessário para que as novas empresas não nasçam já carregadas de dívidas; (5) e, acima de tudo, dar trabalho a mais 15%, se tanto, da população activa (o SBT é bastante capital intensivo).

 

Tudo isto em 3 anos - vá lá, 4 anos? Tenho de ver para acreditar. E convém não esquecer a população hoje desempregada (12.6%), mais todos aqueles que a rápida contracção da procura interna e o consequente “emagrecimento” do SBnT (quanto a isto não há alternativa) vão lançar no desemprego (por alto, outros 20%).

 

Resta o IDE. Por via das privatizações pouco ou nada contribuirá para a criação de emprego e para a expansão do SBT. Mas sempre ajudará a financiar os deficits que a BTC vai ter de registar ainda nos próximos tempos (não é de um dia para o outro que se passa de deficits a rondarem 10% do PIB para superavits acima de 5%).

 

O IDE que estabeleça entre nós novas empresas orientadas para os mercados externos é o mais desejável: (1) ajuda a financiar a BTC; (2) supre a descapitalização do país; (3) expande o SBT; (4) e cria empregos. Venha ele (eis a grande aposta da troika) – e, por isso, exigem-se mudanças que tornem o contexto apetecível aos investidores vindos de fora.

 

E se Paris valia bem uma missa, o IDE que trouxer até nós empresas destas valerá, sei lá, que abjuremos as sacrossantas teorias dos direitos adquiridos à revelia de qualquer relação contratual livre e consciente? Ou as burocracias que se auto-justificam? Ou os corporativismos medievais de roupagem progressista? Ou os legisladores bacocos?

 

(cont.)

 

PS: Os valores aqui referidos são simples ordens de grandeza que têm por único propósito ajudar a ver claro o que está verdadeiramente em causa.

  A. PALHINHA MACHADO

A PATA

 

Se antes nos sentíramos felizes com um Governo que parecia iniciar uma nova era de actuação, na promessa de um rigor e transparência que faltara antes, e na seriedade e educação de um discurso inteligente, a notícia que ouvíramos ontem sobre a redução a lixo na classificação económica de Portugal pela Moody’s, deixara-nos indignadas, apanhadas na surpresa do que nos parecia um golpe baixo, que não dera a oportunidade de verificação das anunciadas reformas, atribuindo a nota antes das provas prestadas.

 

É certo que há muito que pairava entre nós, como véu soturno de vergonha e preocupação, esse conceito negativo de sermos lixo, resultante da indignidade com que fôramos convivendo durante décadas da redução da consciência nacional, concomitante com a redução do território nacional, e transformada gradativamente em consciência de classe, pela elevação a novos estatutos sociais dos que se souberam insinuar nas malhas tecidas pelo dinheiro fácil que sobre nós choveu, dos empréstimos não da nossa integração mas da nossa dependência preguiçosa de que grande parte de nós se aproveitou, sofregamente, obscenamente.

 

Saloios deslumbrados à mesa do Orçamento europeu

 

Sim, fizeram-se obras, bastantes obras, excessivas e inúteis por vezes, na megalomania de povo que fora sempre mísero e que, no desejo de se equiparar àqueles povos mentalmente e socialmente defendidos, se locupletava no esbanjamento consumista, num fartote materialista sem prevenção, nem receio de consequências, indiferente ao futuro, desprezador do passado.

 

E os Governos foram-se sucedendo, no deslumbramento do dinheiro fácil que levaria à corrupção, à defesa do interesse próprio, ao descalabro económico pela omissão de obras propícias à criação de riqueza, ao trabalho, ao emprego. Que levaria às discrepâncias sociais cada vez mais gritantes.

 

Lixo. Foi a classificação da Moody’s.

 

Mas o meu filho João explicou que, além de uma infâmia, se tratava de uma manobra americana desestabilizadora, para destruir o euro, começando pelos países da periferia… Porque também os Estados Unidos estão grandemente empenhados, embora com recursos para colmatar o défice. Não lhes convém a coesão europeia.

 

Poderá ser.

Eu vejo-a como um acto desprezivelmente traiçoeiro. Porque reduziu antes de analisar, classificou sem ter em conta as promessas de um novo Governo que parece empenhado. E sério, talvez pela primeira vez.

 

Mas a Moody’s não deve saber desses dados ínfimos de um novo Governo de um país sem préstimo.

 

Uma agência pondo a pata, indiferente à miséria que cria.

 

Um dia apoiará canções beneméritas do estilo “We are the world”. Ou apoiará o envio de agasalhos e géneros alimentícios para sobrevivermos.

 

Porque os Estados Unidos são cimeiros na caridade.

 

 Berta Brás

SALAZAR e FRANCO

 

 

Foi em Fevereiro de 1942, o encontro que definiu a sorte da guerra. Salazar encontra-se secretamente com Franco e obtém uma certeza: a não beligerância espanhola manter-se-á. O Presidente do Conselho de Ministros de Portugal saíra de Lisboa pela manhã. Ao almoço tinha lugar um insólito pic-nic.

 

Eram 10 da manhã do dia 10 de Fevereiro de 1942.

 

Ao chegar à Rua da Imprensa à Estrela para iniciar mais um dia habitual de funções, nesses tempos conturbados de guerra, o secretário de Oliveira Salazar, constata, perplexo, a ausência do Presidente do Conselho de Ministros. Mas pior: feitos uns contactos dentre os círculos que naturalmente deveriam estar a par de qualquer deslocação de Salazar, rapidamente se conclui que ninguém estava prevenido quanto a qualquer eventual saída ou motivo para ausência.

 

A situação assume foros de paroxismo quando se acrescenta ao rol dos faltosos mais um nome. Também o Director da PVDE, a antecessora da PIDE, o Capitão de Infantaria Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes se não achava no seu posto, na Rua António
Maria Cardoso, nem na residência sita a Avenida Barbosa du Bocage.

 

Facto consumado! No maior segredo, nem aos mais íntimos confessando a sua intenção, Salazar partira essa manhã, de automóvel, acompanhado de Lourenço e de dois oficiais de segurança, rumo ao Sul de Portugal. Passado o Tejo pelas nove e meia, junta-se-lhe em Estremoz o Embaixador Pedro Teotónio Pereira, que para o efeito se deslocara de Madrid, onde chefiava a legação portuguesa junto de Franco. Retomada a marcha, pela hora do almoço os viajantes estão perto da fronteira.

 

Dá-se então o ainda mais inesperado. A um gesto de Salazar, o motorista estaciona num local retirado da estrada. Cumprindo um ritual pré estabelecido, abre a bagageira da viatura e dali retira um cesto. Dali sai, queiram ou não os circunstantes acreditar, o farnel para o almoço. Disposto a não dar nota da sua presença e a isso juntando uma economia de despesa, Salazar confunde-se com a paisagem e quais turistas acidentais em improvisado piquenique, satisfaz assim as exigências vitais. Os outros acompanham-no em respeitoso silêncio.

 

Filho de camponês, a refeição é frugal. E, no entanto, é um momento decisivo da História contemporânea que então se vive. Não adivinhariam os poucos passantes que ali, nesse “déjeneur sur l’herbre” estava a jogar-se o futuro de Portugal e a sorte da Segunda Guerra Mundial.

 

Salazar dirigia-se a Sevilha para um encontro com Franco.

 

Iriam ver-se pela primeira vez. E, no entanto, até ali, tinham estado sempre juntos. O encontro, ocorrido nessa noite no Alcazár, seria decisivo.

 

O ambiente político e militar de então não poderia ser mais carregado. A ameaça de envolvimento de Portugal no conflito militar que, desde há três anos, dilacerava a Europa, era cada vez mais iminente. O país havia definido desde o princípio das hostilidades uma política de neutralidade, ditada pela Aliança Inglesa e pela consideração que não poderíamos por causa dela hostilizar os britânicos nem por efeito dela guerrear os alemães.

 

Mas, na concepção de Oliveira Salazar, a neutralidade jogava-se igualmente na frente atlântica, envolvendo o destino dos Açores e de Cabo Verde, e no bloco peninsular, envolvendo uma concertação com a Espanha. Com o Governo de Madrid Portugal firmara, logo em 1939, um “Tratado de Amizade e de não agressão” e em Julho de 1940 um Protocolo Adicional. Dois anos volvidos, em 1942, o panorama estava diferente e mais complexo.

 

Aos riscos de uma invasão nazi, que Hitler prenunciara com o Plano Félix, sucedem-se, em cumulação, os riscos de uma invasão Aliada, pois certos sectores das “nações unidas” não queriam correr o risco de deixar um país estrategicamente tão importante como Portugal ao acaso de uma ocupação pelo Eixo e da subsequente perda de posição dos pontos nevrálgicos dos Açores e de Cabo Verde.

 

É nesta ambiência que se dá o encontro entre o Generalíssimo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde, o “caudillo” de todas as Espanhas, e o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Professor António de Oliveira Salazar.

 

À histórica conversa apenas assistiria Serrano Suñer, o recém-empossado Ministro das Relações Exteriores, líder da Falange e cunhado de Franco. O jogo é denso, quer por causa das pessoas em presença, quer por virtude das realidades políticas do momento.

 

Preparado para todas as eventualidades, Salazar não ignorava a manhosa habilidade de Franco que, em declarações sucessivas, parecia decisivamente inclinado para o lado do Eixo nazi fascista, enquanto, por outro lado, dava sinais contraditórios aos Aliados de que respeitaria a “não beligerância” que definira no advento do conflito.

 

Ainda para complicar a cena, no tablado da encenação política, Franco, que até então havia jogado no apagamento intencional da sua imagem, fazendo projectar à boca de cena, a do seu cunhado, Serrano Suñer, cuja germanofilia era mais do que patente, surpreendera
agora tudo e todos com um golpe de asa, invertendo os papéis e assumindo agora um papel decisivo na condução dos negócios políticos exteriores. Mas, para além das aparências da encenação política, Suñer era, naquele encontro, uma peça decisiva.

 

O seu passado quando da elaboração do Protocolo Adicional ao Tratado de não agressão havia deixado marcas indeléveis da sua má vontade contra a posição portuguesa. Negociado secretamente entre Teotónio Pereira e Juan Beigbeder Atienza, o documento havia sido aprovado por Franco, mau grado a fria oposição de Suñer, que para o efeito não desdenhara mesmo o animar uma campanha de imprensa hostil a Portugal.

 

Perante isto, Oliveira Salazar não ignora que parte decisiva do que disser ou fizer deve também visar o convencimento do cunhado do Generalíssimo, pois é dele que poderá vir o obstáculo definitivo a qualquer acerto que então se faça. Neste particular a sua vitória pessoal foi total. No plano político, a situação também não é fácil para um alinhamento da Espanha com a pretensão portuguesa de subsistência da neutralidade comum.

 

Internamente, eram cada vez mais activas as forças do regime que, confiadas numa vitória nazi, clamavam por um alinhamento militar ao lado de Berlim, a que se juntavam quantos pretendiam a oportunidade para concretizar uma anexação política de Portugal, viabilizando assim a formação de um bloco ibérico, mais satisfatório aos apetites hegemónicos imperiais de Castela. Provocatoriamente, a Falange havia mesmo mandado imprimir, no Auxílio Social de Valladolid um mapa da península no qual Portugal aparecia como uma província de Espanha.

 

Exteriormente, a cada vez mais intensa colaboração militar dos Aliados com a União Soviética, aliciava o endémico anti-comunismo espanhol a não alinhar com aqueles que estão agora no mesmo campo dos vermelhos contra os quais se havia erigido, em três anos
sanguinolentos, a guerra civil. No meio deste “albergue espanhol” Franco, prudente e ardiloso. Instintivamente, Salazar está convencido de que Franco, mau grado o espectáculo das suas declarações e das dos seus, não dará o passo final em favor de Hitler e apenas pretende sossegar o Führer, entretendo-o no eterno jogo das esperanças.

 

A origem de Franco explica a sua psicologia. Fiel ao dito “se vires um galego numa escada nunca saberás se vai a subir ou a descer”, Salazar conta com a indefinição do seu interlocutor e não espera dele mais do que sinais. Formal, a conversa entre os dois estadistas decorre com fluência. Em atenção a Salazar, Franco fala no seu dialecto de origem, o galego, absolutamente compreensível pelo seu
interlocutor. Atento, Suñer surpreende-se pelo que lhe é dado observar.

 

Minado de preconceitos políticos, mas arguto observador, rende-se incondicionalmente ao Presidente do Conselho português. Em entrevista posterior com o Embaixador alemão em Madrid, não hesita em declarar a sua opinião. Para si, Salazar é um “homem extremamente simpático, extremamente bem-educado, culto, amável, duma perfeita dignidade”.

Mais tarde a amigos dirá que Salazar é “um homem de primeira ordem, com todo o rigor de um catedrático e a paixão de um místico”. Do lado de Franco o desconcerto é algo evidente. Cioso de um encontro com pompa e circunstância, fica desarmado por aquela discretíssima embaixada.

 

Uma década volvida, em 13.01.58, em entrevista ao jornal conservador francês Le Figaro, o Generalíssimo não esconderá os seus sentimentos acerca de Salazar que, para ele é “o mais completo e mais digno de respeito estadista que conheci. Olho-o como uma personalidade extraordinária pela sua inteligência, o seu senso político, a sua humanidade. O seu único defeito é a modéstia”.

 

Exercício de sedução, a conversa entre os estadistas não foi fácil. Violando a regra estratégica de que uma força cercada não faz manobras, Franco, fugindo para a frente, tenta convencer Salazar de que os Aliados preparam a invasão de Portugal, facto que a
Espanha tomará então, a acontecer, como um acto de agressão contra si própria.

No plano interno, mostra a funda preocupação pela aliança dos Aliados aos comunistas, face ao que só a esperança de que o III Reich liquide a Rússia lhe dá algum alento. Inteligente, Salazar percebe o equívoco acerca da eventual vitória a Leste e desloca o problema para o campo onde poderá estar mais à vontade.

 

E adquire a certeza de que a única razão decisiva que fará a Espanha entrar na guerra contra os Aliados serão razões vitais de abastecimento, caso os víveres que lhe chegam através dos intencionais “buracos” ao bloqueio económico, se venham a mostrar
insuficientes. E isso é algo que está ao alcance do Ministério da Guerra Económica (MEW) britânico definir. E a política de bloqueio aligeirou.

 

Regressado de Sevilha no dia seguinte, esgotado pela viagem e pela vertigem do que negociara, Salazar trazia a mais formidável certeza para o futuro próximo da guerra: sabe que a não beligerância espanhola se manterá.

 

António Pina do Amaral

AUTOMÓVEL CLUBE DE PORTUGAL

 

 

Sugeria-me há tempos o ACP por e-mail que eu fosse ao Porto ver um salão de carros assim e assados… e encimava a sugestão com o slogan «é claro que sou Sócio».

 

Respondi de imediato mas não vi na revista a publicação da minha resposta.

 

Ei-la:

 

Sim, é claro que sou Sócio! Mas com uma sensação de enorme inutilidade.

 

Numa época em que o automobilista é o maior contribuinte do Estado Português, em que os políticos (sobretudo os autárquicos) diabolizam a circulação e estacionamento automóvel e infernizam a vida do automobilista, raramente se vê o ACP assumir posições de frontalidade em defesa dos seus Sócios.

 

Será que o ACP concorda com essas políticas impeditivas do acesso automóvel a zonas urbanas, com o condicionamento da circulação, com as faixas BUS que impedem  os Contribuintes de circular beneficiando o recebedor de subsídios públicos? Ou será que, discordando, tem medo?

 

Disciplinar o trânsito nada tem a ver com impedir o trânsito; condicionar o trânsito em circuitos essenciais (Ribeira das Naus, em Lisboa) e impedir a circulação num dos sentidos na Cintura do Porto de Lisboa junto ao Cais do Sodré fazem parte duma política pseudo-ecológica sem bases científicas credíveis e apenas fundamentada na demagogia eleitoralista de agredir o vicioso burguês motorizado para agradar ao proletário peão.

 

E o ACP vê e cala ou pouco faz em vez de liderar um movimento significativo que ponha os políticos em sentido.

 

Sou Sócio do ACP exclusivamente para efeitos de eventual assistência em avaria. Todas as demais actividades do Clube me parecem inúteis e dou muito mais crédito à DECO (que tem que acorrer a todos os Sectores) do que ao Automóvel Clube de Portugal que beneficia do facto de só ter que se dedicar ao Automóvel; mas fá-lo de um modo diletante, superficial, praticamente inútil.

 

Henrique Salles da Fonseca (Sócio nº 13096-0)

 

O DRAMA SALVADOR-ANGÉLICO

  (*)

 

Angélico Vieira não resistiu ao brutal acidente de viação que sofreu e acabou de falecer. A geração “Morangos com Açúcar” já tem o seu mártir.

 

Para o caso não interessa nada que o carro circulasse na via pública sem seguro, ou que a maioria dos ocupantes não tivesse colocado o cinto de segurança. Também parece não interessar a ninguém saber a que velocidade ia a viatura ou se condutor apresentava excesso de álcool ou drogas no sangue. Ninguém falou disso. A comunicação social em peso preferiu a exploração do efeito emocional e ficou por aí.

 

Mais ou menos na mesma altura morreu o empresário Salvador Caetano. É verdade que o senhor tinha 85 anos e estava doente, mas a histeria mediática à volta do desaparecimento do jovem artista Angélico Vieira, por contraste com a discrição da notícia da morte do empresário nos órgãos de informação dá-nos um excelente

 

Por aqui se vê que um jovem cantor e actor é muito mais importante do que um homem que subiu na vida a pulso, construiu um império industrial, contribuiu para a produção da riqueza nacional e deu emprego a milhares de pessoas.

 

Por aqui se vê que para muita gente é mais importante uma novela de duvidosa qualidade, com adolescentes, do que construir fábricas, criar empregos no país e dar pão a inúmeras famílias.

 

Apesar de tudo entendo muito bem a reacção dos adolescentes neste caso. A culpa desta inversão de valores nem sequer é deles. É da geração anterior, dos pais, que os educaram assim. Para a diversão e não para o trabalho.

 

29 de Junho de 2011

 

Recebido por e-mail, Autor não identificado

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.gruposalvadorcaetano.pt/bin/XPQ0324CC266143190811CBZKU.jpg&imgrefurl=http://www.gruposalvadorcaetano.pt/html/grupo__q1id_class_--_3D5__--_3D_l_--_3DPT__q20__q30__q41__q5.htm&usg=__WpBVj0y5f2joQT6DoMk4mQD0khs=&h=185&w=179&sz=18&hl=pt-PT&start=0&sig2=5dT-5C4utuwAr9NwZcXxnQ&zoom=1&tbnid=8r5hHXJn39A_FM:&tbnh=148&tbnw=143&ei=QLoSTtfJA4_1-gbGnKTjDQ&prev=/search%3Fq%3Dsalvador%2Bcaetano%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D979%26bih%3D482%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&page=1&ndsp=8&ved=1t:429,r:0,s:0&tx=85&ty=57&biw=979&bih=482

TEMPO DE ESPERANÇA

(*)

Raramente nas últimas décadas teremos tido entre nós condições mais favoráveis a reformas políticas

 

O novo director da Fundação Konrad Adenauer para Espanha e Portugal, Thomas Stehling, promoveu em Lisboa, durante o fim-de semana, a conferência regional anual daquela fundação alemã, dedicada à reflexão estratégica. Foi uma ocasião estimulante que permitiu ouvir sensibilidades diferentes, vindas sobretudo de responsáveis alemães, ingleses e espanhóis.


O tema central do encontro era a "Primavera árabe", mas o centro das interrogações estava sobretudo no futuro do Euro. Paulo Portas falou na sessão de abertura, como novo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Foi a sessão mais concorrida, com uma vasta plateia de embaixadores estrangeiros. Esperava-se uma apresentação da nova política externa do novo Governo de Lisboa.


Paulo Portas fez um vigoroso discurso de política externa, e para ouvidos externos, mas não falou sobre a política externa portuguesa. Explicou que não devia fazê-lo, antes da apresentação do programa do novo Governo no Parlamento. Preferiu explicar a nova situação política portuguesa e enumerar as condições que vão permitir a Portugal cumprir o acordo com a troika. A impressão final, na audiência, foi a de que tinha sido convincente.


Portugal tem realmente condições invulgarmente favoráveis para enfrentar a situação financeira - que é invulgarmente desfavorável. Os partidos da nova coligação governamental dispõem de maioria parlamentar confortável e de maioria eleitoral. Existe significativa convergência programática entre os dois partidos. Existe também uma hierarquia eleitoral clara entre eles, o que desincentiva quezílias desnecessárias.


O novo Governo foi constituído em tempo recorde e apresentou caras novas, com sólidos currículos profissionais. Dispõe da confiança do Presidente da República. Mesmo o episódio da não-eleição de Fernando Nobre para a presidência do Parlamento - que poderia ter sido sombrio - foi superado com elegância e acabou por ter um final feliz.


Acresce que o maior partido da oposição foi o promotor e primeiro subscritor do acordo com a troika. A extrema-esquerda sofreu um recuo eleitoral vincado e o Partido Comunista limita-se a resistir no declínio. Por outras palavras, Portugal tem uma esmagadora maioria parlamentar, eleitoral e social favorável à aplicação do acordo internacional de saneamento financeiro.

Raramente, nas últimas décadas - talvez desde os primeiros mandatos da coabitação entre as maiorias absolutas de Mário Soares, em Belém, e de Cavaco Silva, em São Bento -, teremos tido entre nós condições mais favoráveis a reformas políticas. É certo que o desafio é enorme e o risco de saída do Euro é simplesmente brutal. Mas Portugal teve já duas experiências de sucesso com o FMI, e os portugueses estão obviamente convencidos de que não há alternativa ao plano de reformas.


É agora imprescindível que o novo Governo não interprete mal estas boas notícias. Elas simplesmente representam uma enorme responsabilidade para o executivo. Não há desculpas para falhar. E o preço do fracasso seria colossal.


É imperioso que a coligação mantenha os boys fora dos lugares de controlo e que os apetites das máquinas partidárias sejam implacavelmente dominados. As habituais clientelas, públicas e privadas, têm de ser submetidas a uma dose maciça de concorrência. E o queixume terceiro-mundista contra o capitalismo deve dar lugar a um clima de confiança na empresa livre, na poupança e no investimento. Talvez não seja impossível.

 

  João Carlos Espada

Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa;

titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no
Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia

 

In Público, 27 de Junho de 2011

 

(*) http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/-D67k-GTSoh0/Ta1e1sbfufI/AAAAAAAAAPI/Yvj_47X9lWI/s1600/esperan%2525C3%2525A7a3.jpg&imgrefurl=http://siii-sementinhas.blogspot.com/2011/04/esperanca.html&usg=__TbQLso35aB9wqfwWJcneMbaf4ok=&h=768&w=1024&sz=170&hl=pt-PT&start=71&sig2=bMaRlDL6q9uMdxKGm0NZbQ&zoom=1&tbnid=7WYQA5EDbOIBhM:&tbnh=125&tbnw=161&ei=TW4RTobbNs-hOs7i1P8G&prev=/search%3Fq%3Desperan%25C3%25A7a%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1192%26bih%3D587%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=892&vpy=282&dur=153&hovh=194&hovw=259&tx=112&ty=119&page=5&ndsp=17&ved=1t:429,r:5,s:71&biw=1192&bih=587

 

 

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