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A bem da Nação

BREVE ANÁLISE DA SITUAÇÃO EUROPEIA

 

Será que os responsáveis europeus não serão capazes de ponderar?



A sociedade europeia está em vias de se auto-destruir. O seu modelo social é muito exigente em meios financeiros. Mas, ao mesmo tempo, os europeus não querem trabalhar. Só três coisas lhes interessam: lazer/entretenimento, ecologia e futebol na TV! Vivem, portanto, bem acima dos seus meios, porque é preciso pagar estes sonhos de miúdos...

 

Os seus industriais deslocalizam-se porque não estão disponíveis para suportar o custo de trabalho na Europa, os seus impostos e taxas para financiar a sua assistência generalizada. Portanto endividam-se, vivem a crédito. Mas os seus filhos não poderão pagar 'a conta'.

 

Os europeus destruíram, assim, a sua qualidade de vida empobrecendo. Votam orçamentos sempre deficitários. Estão asfixiados pela dívida e não poderão honrá-la.

 

Mas, para além de se endividar, têm outro vício: os seus governos 'sangram' os contribuintes. A Europa detém o recorde mundial da pressão fiscal. É um verdadeiro 'inferno fiscal' para aqueles que criam riqueza.

 

Não compreenderam que não se produz riqueza dividindo e partilhando mas sim trabalhando. Porque quanto mais se reparte esta riqueza limitada menos há para cada um. Aqueles que produzem e criam empregos são punidos por impostos e taxas e aqueles que não trabalham são encorajados por ajudas. É uma inversão de valores.

 

Portanto o seu sistema é perverso e vai implodir por esgotamento e sufocação. A deslocalização da sua capacidade produtiva provoca o abaixamento do seu nível de vida e o aumento do... da China!

 

Dentro de uma ou duas gerações serão ultrapassados pela China.

 

Existe um outro cancro na Europa: existem funcionários a mais, um emprego em cada cinco. Estes funcionários são sedentos de dinheiro público, são de uma grande ineficácia, querem trabalhar o menos possível e apesar das inúmeras vantagens e direitos sociais, estão muitas vezes em greve. Mas os decisores acham que vale mais um funcionário ineficaz do que um desempregado...

 

Os europeus vão a alta velocidade direitos a um muro ...

 

 

Autor não identificado.

 

Texto divulgado na Internet como se se tratasse de resumo de entrevista dada por um Professor chinês de Economia que já se sabe que não existe. Independentemente da fraude, julgo que o conteúdo tem interesse e por isso o publico.

 

Henrique Salles da Fonseca

NUNO CRATO: O PROBLEMA DA ESCOLA…

 

…COMEÇA EM CASA

 

 

 

Nos últimos anos, quando a conversa chegava à educação eu tinha sempre a mesma resposta: "o meu ministro da educação é Nuno Crato" . Razão? O livro que está aqui à direita, que é uma espécie de sistematização das ideias certeiras de Crato para a educação. Que ideias são essas? De forma clara, Crato defende uma revolução pedagógica e cultural, criticando - sem piedade - o eduquês reinante. Crato quer exigência, e não facilitismo. No fundo, Crato acaba por defender que os desejos do aluno não devem ser o centro da escola. O centro da escola deve ser, isso sim, o conhecimento transmitido pelo professor. Porque a escola não é um recreio, não é um passatempo, e os professores não são babysitters.

Porque os adolescentes não vão ser sempre adolescentes. Porque é preciso preparar esses jovens para a vida adulta, para a cidadania e para o mundo do trabalho.

 

Portanto, mais do que o - esperado - trabalho técnico de reorganização das escolas e demais blá blá burocrático do ministério, espera-se de Nuno Crato uma mudança cultural de fundo. E esta mudança cultural começa em casa, com os pais.

É por isso que digo que este livro devia ser lido pelos pais antes de ser lido pelos professores. Em Portugal, o problema da escola não se resolve enquanto os pais não forem exigentes com os filhos. Tal como defende Crato, "O que precisamos é de perceber que a autoridade dos pais deve ser exercida não criticando os professores por serem exigentes, mas ajudando os professores a serem exigentes. É raríssimo um pai entrar numa escola por o aluno ter boas notas. Em contrapartida, aparecem muito frequentemente pais a queixar-se das fracas notas dos filhos, sem estarem preocupados com saber se eles de facto sabem ou não sabem o correspondente às notas".

 

Este é o grande problema da nossa escola. Mas, apesar de ser da escola, este problema começa em casa. Se uma criança é ensinada no facilitismo pelos próprios pais, como é que um estranho - o professor - pode pedir exigência à dita criança? É impossível. Tudo o resto (avaliação dos professores, as direcções regionais, os exames nacionais, etc.) está situado a jusante desta questão central: os pais portugueses querem ser pais exigentes ou amiguinhos complacentes dos filhos? Se conseguir impor esta discussão cultural à sociedade portuguesa, o consulado de Nuno Crato ficará na história da 5 de Outubro.

 

 

5 de Julho de 2011  «A tempo e a desmodo» (www.expresso.pt)

VIVA A LIBERDADE!

 

 

LIBERDADE BOÇAL.jpg

  

Nobreza de espírito é a realização da verdadeira liberdade, é a busca permanente da verdade e do bem, a encarnação da dignidade humana.

 

Não pode haver democracia nem sequer mundo livre sem este alicerce moral.

 

A verdadeira liberdade é aquela que permite seguir na busca do padrão absoluto pelo qual o nível da dignidade humana deve ser medido.

 

Eis o grande ideal!

 

***

 

Quem preza a civilização e a vida intelectual olha para a história do século XX com verdadeira perplexidade. Quase diria, com estupefacção. Quantos eruditos – académicos, artistas e cientistas – puseram de lado a vida civilizada optando pelo triunfo da mentira, da ditadura, da violência? Quantos deles colocaram as suas potencialidades às ordens do terror? O rol é certamente incontável.

 

Mas também, quantos os que se recusaram a abandonar a integridade e por isso morreram às mãos dos algozes da Civilização? Eis outro rol interminável que nos deixa atónitos…

 

E olhando em redor, o que vemos? Vemos exércitos de eruditos que consideram mais importante alcançar a resposta final política do que dizer a verdade e pensar sem preconceitos.

 

Foi depois da guerra de 1939-45 que Hannah Arendt concluiu que a crise só se transforma em drama quando lhe respondemos com preconceitos. E estes mais não são do que as ideias politicamente formatadas. Em vez de recorrerem à liberdade, recorrem às «cartilhas». Ironicamente, fazem-no em nome da liberdade que, desse modo, não praticam nem sequer, afinal, admitem.

 

A traição de parte significativa da intelectualidade está na razão directa da falta de capacidade para assumpção das responsabilidades intelectuais. É para esses mais cómodo responderem às questões com soluções politicamente formatadas do que assumirem a integridade que deles seria legítimo esperar. Não passam daquilo a que Thomas Mann ironicamente apelidava de «literatos da Civilização», os que sabem tudo relativamente ao que os outros pensam mas pouco ou nada acrescentam da sua própria autoria. Para estes, a felicidade não é uma questão metafísica ou religiosa mas sim e apenas um problema político.

 

Logicamente, arriscam-se a propor soluções baseadas em ideias geradas em contextos completamente diferentes dos que estão na circunstância em observação. É que, se existe algum lugar onde a submissão reina, é seguramente entre os intelectuais politizados.

 

Cúmulo da ironia, bradam as receitas encartilhadas à mistura com VIVAS à liberdade.

 

Porquê tanta traição à nobreza de espírito?

 

Sedução do poder, influência, inchaço por ser ouvido e quiçá admirado. Numa palavra, vaidade.

 

O significado de conceitos imortais como o do bem, do mal, da compaixão, da sabedoria, da justiça, da virtude, raramente é aflorado porque a linguagem actual preza a objectividade dos factos que se analisam em função de objectivos que visam o progresso material.

 

A busca da verdade só pode seguir a via dos valores perenes de distinção entre útil e inútil, bem e mal, relevante e insignificante.

 

Assim, em nome da liberdade, se mata a verdadeira liberdade e se abandona a procura da verdade.

 

17 de Julho de 2011

 

De Denang para Hué.JPG

  Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Riemen, Rob NOBREZA DE ESPÍRITO, UM IDEAL ESQUECIDO, Ed. Bizâncio, Lisboa, Abril de 2011

 

 

VALEU A PENA?

 (*)

 

Viver em um país democrático, em franco processo de desenvolvimento industrial e tecnológico, é poder fazer escolhas. É aceitar ou não mudanças que a modernidade cobra. Se o progresso material traz benefícios, traz também poluição e perda na maneira simples e saudável de viver o quotidiano. Ter um pouco de cada talvez fosse a medida certa para se obter uma boa qualidade de vida.

 

A esperança utópica da felicidade e da imortalidade acompanha o homem desde a sua milenar existência. Ele ousa, revoluciona, descobre, experimenta, emprega toda a sua potencialidade intelectual, física e imaginativa, na busca da realização de seus objectivos e sonhos.

 

Nos tempos recentes, as conquistas da revolução industrial e tecnológica trouxeram para os países industrializados, mais desenvolvidos, conforto, facilidade de obter alimento e perspectiva de vida longa. O preço foi a destruição da maior parte dos seus recursos naturais e a poluição do meio-ambiente. A população cresceu e envelheceu. Hoje a juventude produtiva, paga caro para manter os benefícios dessas conquistas.

 

No planeta somos 7 biliões de seres disputando, desigualmente, espaço e alimento. Pagamos todos, igualmente, o custo ambiental do desenvolvimento de alguns. A medicina moderna aumentou a expectativa de vida e diminuiu o sofrimento físico. Se raramente morremos de infecções ou de ataques cardíacos, em contrapartida morremos mais tardiamente de doenças consuntivas e degenerativas da velhice, com todas as suas consequências. Será que valeu a pena?

 

Para aqueles que ainda têm na memória a experiência de uma época vivida, mais pura e saudável em termos afectivos e sociais, onde nem tudo era difícil, em termos de conquistas materiais, talvez a resposta seja um dilema. Para o jovem que não tem parâmetros de comparação ou para aqueles que tiveram um passado de vicissitudes será mais fácil dizer que hoje a vida é melhor, sem dúvida.

 

A natureza, no entanto, para subsistir está sempre à procura do equilíbrio. Morte e vida fazem parte um ciclo que mantém a sua existência. As mudanças evolutivas que os milénios anteriores trouxeram vieram de forma gradual e selectiva, dando tempo para que as adaptações necessárias ocorressem. Hoje, as enxurradas de novidades e acontecimentos que chegam todos os dias, tudo muda rapidamente. Será bom para o nosso corpo, será bom para a nossa mente?

 

Todo o conhecimento científico é provisório, até que surja outro, à luz de novas descobertas. Testar possibilidades, aprender com as experiências é vocação humana. Agir com inteligência e sabedoria é viver melhor o seu tempo. Para celebrar a vida e ser feliz cada um e cada povo têm a receita específica, baseada nos seus valores e cultura. E o futuro vai depender da maneira como a humanidade utilizará os conhecimentos aprendidos.

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 17 de Julho de 2011

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_pSiCXKtmoS8/RsSSbk_1vTI/AAAAAAAAAAc/-b6vDIE2wFE/s320/faage001.jpg&imgrefurl=http://arcadismo3c.blogspot.com/&usg=___tTroNopzKUUNHtG_4MNwVJEXpM=&h=207&w=300&sz=15&hl=pt-PT&start=0&sig2=NKXZQq7Nmlv-9pd8SDXUyg&zoom=1&tbnid=7v7JBk4S4JSIfM:&tbnh=120&tbnw=156&ei=gTYlTpnWFsuo8QOo9InmCg&prev=/search%3Fq%3Dbucolismo%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1093%26bih%3D538%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=640&vpy=97&dur=5900&hovh=165&hovw=240&tx=160&ty=113&page=1&ndsp=15&ved=1t:429,r:3,s:0&biw=1093&bih=538

Caturrices 27

 

 

Ah, Malvados! Então isso faz-se? - III

 

 

Eu sei que o pecado da auto-citação é horrendo. As suas duras penas pedem meças a um qualquer programa da troika: fome e ranger de dentes, para sempre. Mas vou incorrer nele, apesar de tudo, para encurtar razões.

 

Em Março deste ano, dei à www dois escritos sob este mesmo título. Neles procurei demonstrar:

 

-       Que é uma ilusão pretender mercados financeiros livres de manipulações e aldrabices várias sem informação atempada, consistente e facilmente comparável entre datas, países, regiões e sectores.

 

-       Que as notações de risco de crédito (ratings) são a maneira mais expedita de divulgar informação comparável sobre instrumentos de dívida (o que mais interessa ao credor é perspectivar se vai ser pago, ou não).

 

-       Que raros serão os investidores institucionais (e só esses) com meios para formar a sua própria opinião sobre um lote suficientemente diversificado de instrumentos de dívida – e com ânimo para arcar com os correspondentes custos.

 

-       Que, sem ratings susceptíveis de serem comparados internacionalmente, regredimos à época das economias nacionais compartimentadas - umas, a abarrotar de liquidez estagnada; outras, à míngua de divisas, mergulhadas em atraso persistente.

 

-       Que tudo isto aponta para a importância de ratings credíveis (o que não significa proféticos) - mas nada prova sobre a qualidade das notações que as actuais Agências de Rating publicam.

 

-       Que, mesmo assim, os Bancos Centrais de vários países desenvolvidos - com o firme empenho do Comité de Basileia (no Basileia II) e da UE (na Directiva sobre Requisitos de Capital) - descansaram totalmente nas notações atribuídas por umas quantas Agências de Rating (e só essas) para concluir sobre a solidez e solvabilidade de Bancos, Seguradoras, Fundos de Investimento, Fundos de Pensões e outras entidades sujeitas a regulação e supervisão. Das suas economias, enfim.

 

A Moody’s (uma das três Agências de Rating que dominam - com alguma soberba, reconheço - os principais mercados financeiros) resolveu, há pouco, atribuir à Dívida Pública portuguesa a notação de “especulativa” (também designada, algo exageradamente, por “lixo”). E foi um clamor como há muito se não ouvia.

 

Tem-se dito da Moody’s (e das suas “irmãs”, por tabela) o que Mafoma não ousou dizer do porco: “ataque premeditado”; “ataque de oportunidade mais que suspeitosa”; “ataque encomendado contra o euro”; “ataque sem um módico de fundamento”; “descarado conflito de interesses” - e por aí fora, a lembrar a reacção pátria (inflamada, mas completamente estéril) ao Ultimato Inglês (curiosamente, também em época de bancarrota).

 

Convenhamos:

 

-       Não foram estas Agências que nos empurraram à viva força para o sarilho em que nos encontramos. Foram elas, sim, e quase só elas, com a sua complacência simpática, mas um pouco displicente, que tornaram possível este sobreendividamento aterrador.

 

-       Não foram estas Agências que nos convenceram a gastar dinheiro em obras inúteis, num Estado Social que não faz contas nem nada controla, e a importar bens e serviços como se fossemos ricos. Foram elas, sim, que convenceram investidores que nem sequer conseguiam localizar Portugal no mapa-mundi a financiar-nos - por nos terem na conta de devedores confiáveis.

 

-       E quem gasta como se nunca chegasse a hora de pagar não é um devedor confiável, por mais bem intencionado que seja.

 

Faz de nós devedores mais confiáveis, sentirmo-nos ultrajados até ao tutano porque uma delas (ou todas elas, para o caso é igual) entendeu, agora, dar a conhecer ao mundo que, em sua opinião, é significativa a probabilidade de a Dívida Externa portuguesa não ser paga por inteiro e pontualmente? Não faz.

 

quem anda muito, mas mesmo muito distraído é que ainda não percebeu a realidade em que nos metemos: não fosse o BCE (e, agora, o pacote financeiro da troika) e estaríamos insolventes (Estado, Bancos, nós todos) há mais de um ano.

 

Mas a Moody’s é que é a má da fita por dizer isto mesmo (que, se não houver quem pague por nós, é incumprimento pela certa) - em vez de pintar o quadro, que é negro retinto, com tintas cor-de-rosa berrante. Alguém, em seu perfeito juízo, está convencido do contrário?

 

Os outros - os que nos arrastaram para este buraco, os que clamavam “haver mais vida para além do deficit” (e iam à sua vidinha bem regalada), os que distribuíam por aqui e por ali benesses pagas com o dinheiro dos contribuintes (actuais e futuros) – esses, não são alvo da nossa “justa indignação”. Coitados! A coisa correu-lhes mal!

 

“Ah! Mas o nosso Governo, mais isto e mais aquilo”. Pois é, o nosso Governo tem intenções, tem vontade, anda a ver se tem meios e condições - e opina. Opina sobre o que gostaria que acontecesse lá para o final do ano, e sobre o que pensa que vai acontecer, de facto. Em suma: opinião contra opinião, só isso.

 

“Mas logo agora, à beira de mais uma emissão de Dívida Pública, quando tanto precisamos de compadres amigalhaços? Isto só pode ser jogada combinada para nos tramar, tramar o euro e dar cabo da UE”. Vamos a ver: não é quando uma novidade chega ao mercado que procuramos saber se ela vale ou não a pena? Se o preço pedido é razoável ou exagerado? Ou é mais tarde, quando já não houver volta a dar?

 

No mercado da dívida, valer a pena é falar do risco de crédito. Para os investidores com apetite pelo risco é tudo uma questão de preço; para os outros, avessos ao risco, fica o alerta. Por estranho que pareça, foi para isto, e só para isto, para opinar, que o Estado Português pagou à Moody’s umas generosas comissões, ao longo destes últimos anos.

 

E convém não esquecer que a Moody’s, ao opinar assim, coloca a sua credibilidade em jogo: se esta notação se revelar exageradamente baixa, se a realidade futura a desmentir, os investidores que, por causa dela, tiverem de vender com menos valias substanciais Dívida Pública portuguesa (todos aqueles cujos critérios de investimento não lhes permite ter em carteira dívida “especulativa”), nem lhe perdoarão, nem esquecerão.

 

“Gente malvada! Votemo-la ao desprezo!”. Porque não? Desde que haja estômago bastante para aceitar a realidade: a procura por dívida sem rating é ainda mais escassa do que a procura por dívida “especulativa” - e exige melhor remuneração (justamente, por saber ainda menos o que a espera no fim da linha).

 

“Mas então, é comer e calar?”. Nem por sombras. Quem achar que a Moody’s, os mercados, os especuladores, toda essa cáfila, não têm razão, dispõe de um excelente remédio: acorra a comprar Dívida Pública portuguesa, ponha a carteira onde já tem a alma.

 

O Governo e nós todos, contribuintes, agradecemos sensibilizados.

 

  A.PALHINHA MACHADO

A PROPÓSITO DE UMA FRASE

 

 

Uma frase já antiga, da revista Única do Expresso de 10/6, extraída da “Pluma Caprichosa” de Clara Ferreira Alves: “É preciso odiar muito um partido e no que ele se tornou para eleger Passos Coelho”.

 

Mais de um mês passou sobre as asserções de Clara Ferreira Alves que incluíram as opiniões dos canais reputados de língua inglesa – CNN e BBC – a respeito das escolhas portuguesas do novo leader, o significado do termo socialismo, os concorrentes à liderança do PS que requerem um carisma superior ao de Coelho para de novo se instalarem na banca do poder fazer e, finalmente, o inimigo público número um, Passos Coelho, entre os diversos inimigos públicos referidos por CFA, que incluem os socialistas, concorrentes ou não, cujo ego ofusca os nobres ideais do socialismo de antanho, como fora – certamente que na opinião de Clara - o de Mário Soares, cuja nobreza de ideais ainda hoje o trazem à tona noticiarística para dizer o mesmo que sempre disse, resumido, se bem me lembro, aos conceitos badalados de liberdade e democracia e apimentado com as informações sobre os seus conhecidos e as suas amizades como o fizera sempre. De resto, fazendo o que todos fizeram, no contributo para a redução do Estado e do povo portugueses à situação de mendicidade sem tréguas, e provavelmente sem conserto.

 

Porque o fazer, com poder, tem uma maleabilidade de superior alcance, que nos levou, de há longa data, mau grado os ideais benfazejos do socialismo, que Clara Ferreira Alves recorda dos seus tempos idealistas da jovem bem-intencionada que fora, a esta situação degradada, materialmente e espiritualmente.

 

De resto, concordo com ela nas afirmações sobre António José Seguro, que só um partido “tosco” pode apoiar.

 

Tudo isto vem à baila, apesar do texto “Inimigos Públicos” ser já antigo, porque me chocou a frase referida, das doutorais CNN e na BBC, citadas por Ferreira Alves, de que “os portugueses apearam José Sócrates porque as medidas de austeridade que este tentou impor foram consideradas insuficientes”, e escolheram “Passos Coelho porque este prometeu medidas mais duras”, o que me parece ser desprezível falsidade, aproveitada constantemente ainda, pelos vários opositores, para ocultarem os motivos reais da escolha – o regime de fraude e de dolo permanente instituído por José Sócrates, de contínuo empenhamento ao estrangeiro seguido de falsas promessas de pagamento da dívida, e de insistência em medidas ruinosas, deixando recair sobre o novo governo a responsabilidade e o odioso de medidas ainda mais drásticas, antes que o lixo dos julgamentos fizessem afundar de vez o país.

 

E assim nos vamos entretendo, neste país de galhofa, onde a superioridade consiste não em ajudar à construção, mas em atirar pedras sobre o moribundo, coveiros que somos, por falta de ideais. Reais.

 

Que me parecem, contudo, existir, no Governo de Passos Coelho.

 

  Berta Brás

A VIDA DEPOIS DOS CONCEITOS

Friedrich Nietzsche (1844 —1900) 

 

«Uma vez que o velho Deus abdicou, governarei o mundo doravante» - assim apregoava Nietzsche, o pai do niilismo.

 

A era niilista manifestou-se muito antes do que o filósofo imaginara: catorze anos depois da sua morte iniciou-se a Primeira Guerra Mundial e depois dela a Europa ficou nas garras do fascismo, do comunismo e do nazismo. E pouco tempo depois da primeira, sofreu outra guerra pior ainda que a anterior.

 

Desprezada a Civilização no que ela continha de valores perenes dando corpo à dignidade humana, a violência triunfou sobre a verdade e sobre a bondade. Dezenas de milhões de vidas foram aniquiladas sob o aplauso de dezenas de milhões de admiradores da violência. Sim, porque o niilismo só pode conduzir à ditadura, à violência e à aniquilação.

 

E como começou ele?

 

Perante o igualitarismo, todos têm razão, a ninguém é reconhecido o estatuto de sábio e tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático; morto o conceito de que «o peso material determina o valor do oiro e o peso moral determina o valor do homem», a matéria reina e o dinheiro é a divindade suprema. Moral? A cada um, a sua.

 

- O que é bom para o oiro é bom para ti! Comercializa-te, adapta-te! Tudo o que te torna mais rico é útil; o que não for divertido é inútil e pode desaparecer.

 

Cada um que se valha a si próprio e os outros que se «virem» se conseguirem e, se não, tanto melhor pois mais fica para o vencedor entesourar.

 

Eis um conjunto de indivíduos que tudo fazem para vingar individualmente em prejuízo do próximo. A inveja ganha adeptos. Só que isto não é uma sociedade e muito menos uma Civilização. E onde não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

 

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. E a ditadura, sempre radical, gera a violência e esta é a destruição.

 

Albert Camus (Argélia, 1913 — França, 1960)

 

Foi depois de muita desgraça que na tarde de 29 de Outubro de 1946, Albert Camus perguntou ao anfitrião André Malraux e ao grupo de outros convidados em que se destacava Jean-Paul Sartre – todos nascidos no niilismo e no materialismo histórico - se não achavam serem eles próprios, naquela sala, os maiores responsáveis pela falta de valores na Europa ocidental e se não estaria na hora de declararem abertamente que estavam errados, que os valores morais existem realmente e que doravante tudo fariam para restabelecer e clarificar esses princípios perenes e quiçá eternos. «Não acham que seria o princípio para o regresso de alguma esperança?»

 

E hoje?

 

Julho de 2011

 

  Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Riemen, Rob – NOBREZA DE ESPÍRITO, UM IDEAL ESQUECIDO, Bizâncio, Lisboa, Abril 2011

CONSPIRAÇÃO

 (*)

 

Cada vez mais vozes denunciam a verdadeira razão da crise da dívida europeia. Afinal não se trata de despesismo de gregos, irlandeses e portugueses. Os enormes défices orçamentais são apenas detalhes e o endividamento insustentável, consequência de décadas de erros e abusos, não tem nada a ver com a questão.

 

Tudo não passa de meros pretextos para ocultar a suprema conspiração. É preciso ser cego, dizem, para não ver que isto é um ataque descarado, primeiro ao euro e depois à União Europeia. Os instrumentos são os bancos e as agências de rating, em nome dos famigerados mercados, que tudo devoram e nada respeitam.

 

Confesso que a minha limitada inteligência não consegue acompanhar elucubrações tão elevadas e complexas. Por isso fico silencioso perante os majestosos raciocínios. Permito-me apenas uma perguntinha: quem ganharia com a derrocada do euro e da UE?

 

Uma coisa dessas criaria um terramoto financeiro muito mais grave que a falência do Lehman Brothers. Os bancos teriam perdas enormes e os mercados volatilidade explosiva. Além do campo financeiro, a queda afectaria a produção de toda a economia europeia, provocando uma brutal recessão que, dado o nível de integração mundial, se espalharia pelo planeta. Só um arqui-terrorista ou um super-vilão de cinema, interessado na miséria global, poderia querer provocar uma coisa dessas.

 

Sem ofender tão eminentes analistas, parece-me que a outra explicação, a da dívida irresponsável e dos credores com medo compreensível de perder os seus empréstimos, é bastante mais plausível.

 

  João César das Neves

DESTAK 13 | 07 | 2011

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://depetris.files.wordpress.com/2010/04/conspiracy.jpg&imgrefurl=http://depetris.wordpress.com/2010/04/05/conspiracy-talk/&usg=__1chMkzfgbgNiIsx1aCuFIL_uMy8=&h=499&w=494&sz=25&hl=pt-PT&start=0&sig2=gqEd1VT6YAFjcwgBIqjwkQ&zoom=1&tbnid=2w8M2j0fIdTKHM:&tbnh=107&tbnw=105&ei=7fofTsn2KMio8QOqwonEAw&prev=/search%3Fq%3Dconspiracy%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1093%26bih%3D538%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=327&vpy=96&dur=2919&hovh=226&hovw=223&tx=120&ty=115&page=1&ndsp=20&ved=1t:429,r:2,s:0&biw=1093&bih=538

CATURRICES - 26

 

Detalhes - II

 

Se a Caturrice anterior foi convincente q. b., algumas favas podem começar a ser contadas desde já:

 

-  O combate ao deficit orçamental visa, simultaneamente, equilibrar as contas públicas (para reduzir as necessidades de financiamento do Estado) e reconfigurar a procura interna (contraindo-a, como é inevitável quando a capacidade de endividamento se esfuma).

 

-  Para conferir maior solidez à Banca há que agir, simultaneamente, sobre os seus Capitais Próprios, aumentando-os (bom seria em € 12 mM, ou mesmo um pouco mais - mas onde encontrá-los se não no pacote financeiro da troika?), e sobre os seus Balanços, encolhendo-os. Consequentemente, a procura interna vai ter que entrar em compita com o SBT e o Sector Estatal por disponibilidades de crédito bancário também elas em quebra - e, por certo, menores que os empréstimos que forem sendo reembolsados.

 

NOTA: Não teria de ser fatalmente assim. Mas, por cá, preferimos sempre a intermediação dos Bancos ao livre funcionamento de mercados financeiros bem organizados e bem regulados. É mais uma factura que vamos ter de pagar.

 

-  O futuro do SBnT é, assim, bastante previsível. Incerteza, incerteza, só quanto a saber até que ponto o pacote financeiro da troika poderá, e conseguirá, retardar a contracção da procura interna – concedendo ao SBnT alguns anos mas para se ajustar.

 

-  Enfim, a sorte, quer do PIB, quer do desemprego, vai depender, em larguíssima medida, da evolução do SBT – o que é dizer: do “IDE que cria empresas”.

 

Tudo isto (PIB, procura interna, SBT, SBnT, desemprego) se passa na esfera real da economia. E, então, a esfera nominal da economia, estruturada em torno da criação, distribuição, transmissão (por via contratual e não contratual) e extinção da liquidez?

 

Vê-se melhor partindo do outro extremo: como seria se ainda dispuséssemos de moeda própria e pudéssemos mexer na taxa de câmbio? Nesse cenário, a medida primeira teria sido, sem dúvida: desvalorizar (por aí começam todos os programas de reequilíbrio “macro” que o FMI tutela).

 

E todas as restantes medidas, fossem elas quais fossem (controlo apertado dos movimentos transfronteiriços de capitais e das importações de bens e serviços, etc.), girariam em torno da desvalorização cambial - que é a maneira mais rápida, e mais democrática, de reduzir o rendimento real (o poder de compra) e, consequentemente, a procura interna: num primeiro momento, atinge todos por igual (ainda que, com o passar do tempo, a distribuição do rendimento registe enorme variabilidade: uns, aproveitam-na bem; outros, assim-assim; outros, ainda, são por ela duramente penalizados).

 

Surpreenderia se essa desvalorização cambial - ao reduzir instantaneamente o valor em moeda estrangeira dos custos locais de produção (e, em especial, os Custos Unitários do Trabalho) - não estimulasse, de imediato, o SBT. Daí se dizer que desvalorizar é, de facto, uma maneira simples e expedita de pôr a procura interna a subsidiar as exportações.

 

v  Mas não era fatal que todas as componentes da procura interna se contraíssem por igual. Assim aconteceria inevitavelmente com a componente alimentada por bens e serviços importados, como é bem de ver. Mas as restantes componentes poderiam registar uma contracção mais ligeira - ou, mesmo, expandir-se, se o Governo recorresse ao BdP (leia-se: ao financiamento monetário da Dívida Pública) para suprir a quebra nas receitas fiscais.

 

NOTA: Foi o que aconteceu durante a 2ª Carta FMI (1983-85), quando a liquidez do sistema bancário (isto é, o total das Reservas que os Bancos detinham junto do BdP) mais que quintuplicou no curto espaço de 18 meses, porque o Governo de então ia cobrindo os desequilíbrios no exercício orçamental com o dinheiro que pedia emprestado ao BdP. Mais tarde, com o fim das restrições ao crédito bancário, o BdP teve de lançar um empréstimo (que os Bancos foram forçados a tomar) para absorver toda essa liquidez, antes que ela provocasse uma “bolha de dívida” e pusesse a inflação fora de controlo.

 

Em todo o caso, a inflação seria sempre a outra face destas medidas compensatórias, de natureza orçamental, destinadas a atenuar os efeitos da desvalorização cambial sobre o rendimento – o que é dizer, sobre a procura interna e, por arrastamento, sobre o SBnT e o desemprego.

 

E se a inflação diluía os estímulos que o SBT havia recebido por via da desvalorização cambial, diluiria também o peso do serviço da dívida denominada em moeda nacional no rendimento corrente. Dito de outro modo: o mesmo serviço da dívida iria deixando, dia após dia, mais rendimento disponível para gastar - isto se a economia não caísse em recessão.

 

Resumindo: é a conjugação do controlo sobre os movimentos transfronteiriços de bens, serviços e capitais, com o financiamento monetário (isto é, pelo Banco Central) da Despesa Pública - e não tanto a desvalorização cambial - que:

(1) sustenta a actividade no SBnT (já sem boa parte dos bens e serviços importados que distribuía internamente);

(2) impede que o PIB registe uma queda ainda mais acentuada;
(3) induz um processo inflacionista que vai tornar as dívidas (pública e privada) mais suportáveis (desde que o PIB não recue);

(4) permite manter níveis elevados de liquidez interna, sobretudo no SBnT - e, dessa forma, evita a desagregação do tecido económico em actividades prósperas (o SBT) e actividades decrépitas (o SBnT).

 

E tudo acabará bem:

(1) se a inflação não fugir ao controlo;
(2) se os Bancos tiverem Capitais Próprios suficientes para absorver o crédito malparado e outras perdas patrimoniais que os processos de ajustamento “macro” fazem sempre disparar;

(3) se o SBnT dispuser de liquidez suficiente para se adaptar às novas realidades (por exemplo, substituindo importações). E, já agora, se não houver entraves (legais e/ou psicológicos) à mobilidade sectorial e geográfica da população activa (mas estes são outros contos).

 

Ora, o programa da troika:

(1) não reformula nem suspende as obrigações de Portugal enquanto membro de uma União Económica;

(2) não esclarece como se processará o ajustamento “macro” quando a desvalorização cambial está fora de questão e os movimentos transfronteiriços de bens, serviços e capitais permanecem totalmente liberalizados;

(3) para lá de umas referências breves à recapitalização da Banca e ao prometido pacote financeiro, nada diz sobre o que prevê para a liquidez geral da economia.

 

Nele, é como se toda a liquidez de que a economia portuguesa carece de ora em diante fosse aquela, e só aquela, que a BTC e o serviço da Dívida Externa exigirem. E tudo o que ficamos a saber é que:

(1) nada de desvalorizar a que é, agora, a nossa moeda nacional (o euro);

(2) nada de introduzir controlos sobre a importação de bens e serviços e a exportação de capitais;

(3) nada de recorrer ao financiamento monetário da Dívida Pública (ressalvada a boa vontade do BCE) para ir provendo a economia (e, em especial, o SBnT) com liquidez suficiente;
(4) nada de contar com a inflação para amenizar o serviço da dívida (a inflação que nos valeria, neste momento, seria a da Zona Euro - não, a doméstica).

 

Deste modo, nada suavizará o efeito conjugado do desendividamento interno e das medidas que o programa da troika impõe sobre a procura interna – inclusive, aquelas componentes que deixam intacta a BTC e que têm necessidades de liquidez muito próprias.

 

E o SBnT, moldado como foi nos últimos dez anos pelo endividamento fácil, mergulhará, muito provavelmente, numa crise de liquidez - arrastando com ele o PIB e o desemprego.

 

v Concluindo: se a nossa maior esperança reside no SBT e no “IDE que cria empresas” (daí a apreciável vantagem que a Irlanda tem sobre nós), será o SBnT a empurrar-nos para a renegociação parcial da Dívida Externa (como na Grécia).

 

v  Quem diria que este pequeno detalhe que é esquecer a liquidez endógena (aquela que nada tem a ver directamente com “Euros Externos”) nos reserva tantas surpresas?

 

(FIM)

 

 A. PALHINHA MACHADO

 

A força deles veio do Mar

 

 

 

Allain Peyrefitte, Membro da Academia Francesa e professor do Collège de France, decidiu valer-se da História para estudar a divergência Norte-Sul que caracterizou o processo do desenvolvimento económico europeu. Destes seus estudos e conclusões dá-nos conta no seu livro La Societé de Confiance[1].

 

A forma como aborda a questão mostra que Peyrefitte é historiador mas não é historicista. Considera que a ética económica não nos foi dada, imposta, ou revelada, e não obedece a leis imutáveis. Comporta-se como um sistema inteligente que se transforma a si próprio.

Mesmo assim, o autor admite que nas remotas origens da formação do modelo económico europeu se encontra a Teologia. Não concorda porém com leituras - como a de Max Weber - que atribuem ao Protestantismo a progenitura da ética capitalista moderna, uma vez que a sequência cronológica dos factos as desmente.

 

Os mosteiros e as ordens religiosas medievais teriam sido os primeiros agentes económicos europeus de consequência e isto porque organizaram o espaço social para a produção e comércio. (Os nossos reis afonsinos que trouxeram as ordens religiosas para Portugal e aqui as protegeram, sabiam o que faziam). A Ordem dos Templários/Cristo adicionou o crédito financeiro ao quadro existente e assim ajudou a expansão do comércio. Diferente das restantes Ordens que visavam a satisfação das necessidades básicas, a dos Templários já tinha em vista a acumulação de riqueza. Começou-se pois a distinguir entre capital e trabalho. O sistema transferia regularmente proveitos da periferia para o centro (ao tempo, Roma). Isto tudo prova que a mentalidade da época configurava uma ética, senão já capitalista, com certeza pré-capitalista ("capitalismo antigo" como o autor lhe chama).

 

A inovação da contabilidade de partidas dobradas adoptada no Norte de Itália, no século XIV, abriu irreversivelmente o caminho à laicização. A prestação de contas fiável dispensou o recurso aos monges para guarda de activos líquidos. A actividade bancária passou a ser gerida por agentes privados laicos entre si associados. O instituto da dívida pública veio no encalço. As famílias de banqueiros privados tornam-se tão poderosas que tiveram que ser prontamente assimiladas pelo centro hegemónico. Banqueiros, eclesiásticos e senhores feudais tornaram-se patronos dos artistas. A Itália produziu a Renascença e o centro continuou a sujeitar - e, a partir de agora, também a deslumbrar - a periferia.

 

Para se apropriar de mais-valias, o centro hegemónico criou "produtos" (ontem, como hoje). Coletas, dízimos, heranças, confiscos, sucederam-se e, por fim, as indulgências provocaram a revolta dos agentes periféricos, encabeçada por Martim Lutero. As indulgências terão sido o mais tóxico de todos os "produtos" daquele tempo. Em resposta àquilo que considerou abusivo, o monge agostinho afixou as suas "Noventa-e-cinco Teses" à porta da igreja de  Wittenberg (1517). Estava criada a divergência religiosa. A divergência económica é contudo anterior à religiosa. Vejamos.

 

Ao longo de todo o período medieval, Veneza e Génova mantiveram as vias comerciais marítimas abertas. Três séculos antes da Reforma religiosa, a Liga Hanseática organizou o comércio no Báltico e Mar do Norte em moldes corporativos semelhantes aos de Veneza e de Génova. O comércio marítimo produziu ali um padrão de ética laica sui generis. Sendo a fonte de riqueza o mar - e não a terra, presa fácil das hierarquias continentais - os que navegavam em oceano aberto e comerciavam além-mar passaram a dispor em larga medida de liberdade de movimentos negada aos restantes.

 

Abre-se assim o caminho à valorização do indivíduo em detrimento do sistema, da iniciativa em prejuízo da disciplina, da concorrência em vez da conformidade.

 

A própria Liga Hanseática não resistiu ao surto de individualismo que o comércio marítimo gerou. Os armadores de Amesterdão, beneficiados pela geografia que lhes abria o Oceano, acabaram por centralizar todo o comércio de cereais e produtos florestais da região. À data da Convenção de Westefália, - 1643, início do Período Moderno - a cidade de Lübeck, promotora da Liga Hanseática, já fora relegada para a posição apagada de periferia sobrevivente. O fenómeno repetir-se-ia em várias épocas e várias latitudes. Os Holandeses aperceberam-se qua via do enriquecimento rápido passava pela apropriação do comércio externo alheio e tornaram-se mestres em tal arte que passaram a exercer nas mais diversas longitudes e altitudes. Dois séculos mais tarde, Amesterdão seria, por seu turno, marginalizado a favor de Londres. Mas Londres pouco acrescentou à ética que se formou na Holanda. Portanto é o fenómeno holandês que deve ser estudado para quem quiser conhecer a origem e natureza da divergência da ética económica a Norte e a Sul.

 

***

 

Os Frísios, povos germânicos da borda do Mar-Oceano, com um historial de lutas pela liberdade que vem desde o combate contra as legiões do César até à resistência aos tércios do Duque de Alba, forneceram o elemento humano que, a partir do século XV, chamou a si a função anti-hierárquica. Nasceu assim a figura do lobo do mar destemido e sem escrúpulos, inspirador do gentil-homem pirata (que a Rainha Isabel I da Inglaterra tanto admirava) e antepassado longínquo dos robber-barons que dominaram o século XIX americano. EM 1483, quando a peste dizimou os braços que trabalhavam a terra na Europa, os Frísios puseram os seus vizinhos Gelderesen a laborar na agricultura, não para matar a fome, uma vez que o alimento lhes vinha do mar, mas tão somente porque a escassez do produto agrícola por toda a Europa tornava este comércio altamente lucrativo. Aí aprenderam que lucro e abundância raras vezes correm parelhas. Perceberam também que a desgraça alheia pode reverter em benefício próprio. Mais tarde, aprenderiam também que a estupidez humana pode produzir o mesmo resultado. Viriam assim a desenvolver múltiplas formas de criar escassez no mundo e provocar descaminhos noutras economias, conhecimentos que o Sul não absorveu.  

 

A atitude dos Frísios holandeses difere da de outros primos germânicos continentais também protestantes. Os outros prezam acima de tudo a disciplina, a perfeição e o rigor; já os Frísios elegem como valor supremo a confiança em si e nos seus companheiros. O mar ensinou-lhes que a solidariedade entre humanos perante o perigo ainda é o melhor garante da salvação terrena. A confiança seria pois a chave do modelo económico e social holandês. Para esta gente, a Bíblia era clara e inteligível e dispensava interpretações e interpretes. A missa, diziam-na eles. A ordem pública mantinha-se por voluntariado, como ilustrado pela "Ronda da Noite" de Rembrandt. Na administração da cidade, a unanimidade era de regra. E assim chegaram ao "não-governo" (ninguém mandava) estabelecido em Amesterdão a partir de 1648. A cidade tornou-se rapidamente sede da liberdade burguesa livre pensadora. Indivíduos do Sul de propensão liberal - judeus ibéricos, banqueiros de Antuérpia, huguenotes franceses, etc. - vieram e ali fixaram residência. 

A religião teve obviamente o seu papel no processo. Não poderia deixar de o ter uma vez que era ao tempo a matriz de comunicação. O Calvinismo deu forma ao clima cultural e intelectual local, ao zeitgeist daquele tempo e daquela gente. Mas apenas forma, não substância. Peyrefitte diz-nos que os rudes comerciantes de Amesterdão pensavam em Calvino, mas só ao Domingo. Os povos que tomaram Calvino à letra - Gelderesen, Escoceses e Genebrinos - tarde ou nunca progrediram. Por isso, Peyrefitte entende que a força da gente de Amesterdão vinha do mar, não da fé.

 

Não surpreende pois que a ética capitalista do Norte tenha assumido o cunho sórdido que vários analistas vindouros denunciaram. A ganância escabrosa que se apoderou dos holandeses choca a sensibilidade humanista do resto da Europa, mas os racionalistas locais, com as suas vistas virada para o lucro, decidiram que "o vício do cidadão acaba por ser a virtude da sociedade".

 

***

 

Quem procurou subordinar a Economia à Teologia foi o Sul. O Concílio de Trento (1563) decidiu que, para enfrentar a revolta periférica e restaurar a autoridade da Igreja Romana, haveria que lançar mão da centralização absoluta com exclusão dos recalcitrantes[2].

Anátema passou a ser a palavra-chave; condenar, excomungar e excluir, as práticas escolhidas. E o crente assimilou os hábitos do Inquisidor. Enquanto no Norte se instalava a confiança, no Sul, instalava-se a desconfiança. No Norte, estimulava-se a iniciativa privada, criavam-se instrumentos de cooperação, festejava-se a racionalidade e abriam-se as portas aos refugiados da perseguição tridentina, enquanto que, no Sul, perseguiam-se os empreendedores, confiscavam-se os capitais, expulsavam-se as elites e combatia-se a inovação. Ao longo dos 3 séculos seguintes, o Sul estagnou e o Norte prosperou. Pior, porém, a contribuição perene do Protestantismo foi o sentimento que se instalou no Norte de desconfiança em relação ao Sul, ali tido por aproveitador do trabalho alheio. O sentimento perdura e ainda hoje é a principal causa de mal-estar na União Europeia.

 

***

 

Agora que estamos todos metidos no mesmo saco, a única solução parece ser estudarmo-nos uns aos outros, racionalizar as diferenças, superar os desentendimentos; eliminar as desconfianças. Nem tanto ao mar, nem
tanto à terra. E assim poderemos finalmente aproveitar o que cada um tem de bom - e que não é pouco. Esperemos que isso aconteça.

 

Estoril, 8 de Julho de 2011

 

  Luís Soares de Oliveira



[1] Alain Peyrefitte, La Societé de Confiance, Odile Jacob, Nouvelle  Édition, Paris, 2005, 720 páginas.

 

[2] O que Peyrefitte nos diz, hoje, sobre as causa do atraso do Sul da Europa é precisamente o mesmo que disse Antero de Quental na sua contribuição para o ciclo de Conferências do Casino, (Lisboa, 1871), sob o título "Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos". Antero também atribuiu ao Concílio tridentino as causas do nosso mal.

 

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