Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

ANATÓLIA – 2

 

 

Na Turquia, nós somos a paz telúrica!

 

Se o não fossemos, a terra não esperaria que puséssemos as rodas no ar de regresso a Portugal para tremer na Anatólia donde acabávamos de sair. Rezam as novas que o tremor foi benigno para as gentes, o que muito me reconfortou.

 

Nesta minha segunda visita à Turquia só não me foi dado diploma comprovando a frequência de um curso intensíssimo de História. E foi ao longo desse curso que testemunhei a violência dos terramotos que abalaram a Ásia Menor não deixando pedra sobre pedra e obrigando ao abandono de cidades inteiras. Foi o caso de Afrodisias, de Efeso, de Aspendos, de Simena e de tantas outras que ainda não regressaram aos mapas. Dizia o Padre Raphael Bluteau em 1712 que «hoje tudo são campos onde foi Tróia».

 

E se em Afrodisias as pedras apenas foram derrubadas mas não saíram do local, o mesmo não pode ser dito das demais em que a pilhagem assentou arraiais. Ironicamente, os maiores gatunos foram os arqueólogos que ficaram na História como os grandes e ilustres descobridores dessas cidades. Bastaria referir a vergonha por que passou Tróia às mãos alemãs de Heinrich Schliemann que na década de 1870 escavou a área transferindo para o Museu de Berlim a joalharia encontrada. E o nosso guia lá ia referindo os museus estrangeiros onde se encontram algumas das pedras (estátuas, frisos, etc.) que nos locais em que deveriam ter sido reerguidas foram substituídas por materiais modernos. Todos podemos assim testemunhar que os novos arqueólogos não andam por ali a enganar ninguém. E os actuais «escavadores» tanto são turcos como estrangeiros. Mas não são gatunos.

 

Tetrapylon, Afrodisias

 

Os campos de férias para intensificação das escavações decorrem normalmente no período do Verão mas nestes dias de Maio vi em Afrodisias a Universidade de Nova Iorque mantendo a actividade de remontagem dos elementos estruturais de diversos edifícios. A estatuária fica entretanto exposta no museu do próprio campus arqueológico aguardando pelo regresso à origem quando a reconstrução estiver concluída e a segurança do edifício assegurada. Basta comparar as fotografias do livro (1ª edição de 1989 à venda no museu) com o que observei para notar uma quantidade preciosa de trabalho no terreno. É claro que «a procissão ainda vai no adro».

 

E o mesmo se diga de Efeso em que a liderança dos trabalhos no terreno está a cargo duma Universidade alemã muito importante mas cujo nome me passou: escavações no Verão; remontagens e pormenores ao longo do ano. Lá estava um artista a fazer qualquer coisa no lintel da porta principal do prostíbulo, lá estavam gruas a erguer pedregulhos e lá estávamos nós, a multidão de turistas, a pagar o bilhete de ingresso para financiar todo o processo.

 

E que multidão era esta? Heterogénea, claro. Mas S. Paulo esteve em Efeso e foi aos efésios que dirigiu uma epístola solene. Foi na cena do enorme teatro que falou aos milhares que o escutaram e foi na prisão da cidade que aguardou pelo salvo-conduto que lhe restituísse a liberdade e lhe permitisse cumprir a sentença de expulsão. Sim, Efeso é hoje importante local de peregrinação cristã e bastou verificar a solenidade de muitos visitantes para percebermos que nem todos andavam ali de ânimo leve.

 

(*)

Teatro de Efeso onde S. Paulo pregou a nova Fé

 

 

Mas foi em Mira que testemunhei a Fé ortodoxa russa junto do túmulo de S. Nicolau: camionetas e camionetas de turistas russos empunhando uma pequena imagem vendida localmente que solenemente colocavam junto do túmulo do Santo enquanto – imagino eu – faziam alguma oração. Pode não ser a nossa mas é sempre com o maior respeito e emoção que observo as manifestações de Fé. Sim, eu sou dos que pensam que a Fé não se discute. E cumpro!

 

(**)

 Afinal, o «Pai Natal» era turco e foi bispo de Mira

 

Todos foram os dias em que regressámos aos hotéis de pernoita completamente estafados mas satisfeitos na perspectiva cultural. Mesmo assim, ainda conseguimos ter um dia para nadar sobre Simena, a cidade submersa na sequência de enorme cataclismo.

 

Como poderiam Conimbriga, Miróbriga e Balsa constituir instrumentos do desenvolvimento por que todos ansiamos? É claro que deve dar muito mais votos a distribuição de subsídios às companhias de teatro mesmo que estas nada interessem ao público...

 

Lisboa, Maio de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_7-f0UlTmT6A/S7zU7IUh8OI/AAAAAAAAATM/CtMvVvJmQ80/s1600/ephesus_theater.jpg&imgrefurl=http://phronemata.blogspot.com/2010/04/efeso-um-estudo-historico-cultural-e_11.html&usg=__Me2qNlumsrlIL0s1jfJt1BWQuNw=&h=450&w=600&sz=75&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=EdmGKUgEJ6D5VM:&tbnh=124&tbnw=154&ei=bs_YTdL3JdGDhQfV9-m_Bg&prev=/search%3Fq%3Dteatro%252BEfeso%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=0&sqi=2&page=1&ndsp=20&ved=1t:429,r:6,s:0&tx=76&ty=76

 

(**)http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_PcUOJHJ3New/R3FKejn271I/AAAAAAAAD9A/zh7s4oTSl2U/s400/church-of-st-nicholas-postcard.jpg&imgrefurl=http://cronicasdaanatolia.blogspot.com/2007/12/o-pai-natal-nasceu-e-viveu-na-turquia.html&usg=__bC6adcVyMti6_jq10TmnJ8rlGlY=&h=242&w=350&sz=25&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=b5dPOX0xPW5h8M:&tbnh=120&tbnw=160&ei=WtHYTev6Ho2WhQf65I3LBg&prev=/search%3Fq%3Dchurch%252BS.%252BNicolau%252BMira%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DG%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=219&sqi=2&page=1&ndsp=24&ved=1t:429,r:0,s:0&tx=95&ty=80

RELACIONAMENTOS

MADUFA-Relacionamentos.jpg

 

Numa sociedade individualista, onde todos se relacionam de uma maneira superficial, conviver em harmonia com o próximo e consigo mesmo é uma arte que exige destreza de equilibrista circense.

 

Desde pequenos somos preparados pela família e escola para nos sociabilizarmos. Aprendemos que para ter bons relacionamentos é preciso haver afinidades, interesses comuns e respeito entre as partes. Que num grupo, a individualidade é secundária aos interesses da colectividade; que a harmonia vem da alegria simples do contacto, da conversa informal, quase lúdica, onde um elemento catalisador, como um assunto em voga, um cafezinho, ou um copo de vinho, ajuda a manter o “espírito” agregador do grupo.

 

Observadores do comportamento humano defendem que nos relacionamentos devemos sempre levar em conta a sensibilidade alheia. Numa tertúlia, a palavra é o veículo de exteriorização de pareceres e ideias, logo, deve ser emitida com cuidado, pois se mal interpretada pode dar ensejo a conclusões erróneas e até mesmo a malquerenças ou raivas. O mesmo acontece com as manifestações de afecto ou simpatia, em excesso, podem despertar ciúmes, antipatias ou descrédito.  

 

Nos tratamentos entre amigos, mesmo que sejam íntimos, devemos evitar a vulgarização, que pode descambar para baixaria. Já as demonstrações de veneração mexem com a vaidade humana, levando à falsa impressão de que alguém possa se tornar indispensável para outrem, o que não é verdade. Nas conversas, é bom ter sempre em mente que o indivíduo quanto mais “civilizado ou ilustrado” faz como a Lua, só mostra uma face, que é nos detalhes, nas pequenas “deixas” e actos, que ele mostra a verdade. O discurso, regido pelos interesses, pode ludibriar, mas o comportamento, difícil de disfarçar, em algum momento  mostra o carácter.    

 

Todos nós temos qualidades e defeitos, por isso devemos evitar fazer julgamentos precipitados e corrigir quem quer que seja, pois não somos os donos da verdade. Tolerância e cortesia (na medida certa), evitar a vaidade (coisa comum), prestigiar o mérito (coisa rara), além de manterem a harmonia, são sinais de bom senso e inteligência.

 

Finalmente, na arte de bem se relacionar, devemos fazer como os franceses:

-“Parler sans accent” para ter razão,

 “Parler avec accent” para suscitar sentimentos!

 

Uberaba, 19/05/11

Mª Eduarda Fagundes 2010.jpg 

Maria Eduarda Fagundes

 

 

 

IN MEMORIUM: GENERAL BETTENCOURT RODRIGUES

 (*)

 

2MAI11

“A Guiné é defensável e deve ser defendida?

 Se sim, vamos escolher o melhor general

 disponível para a governar, vamos conti-

 nuar a fazer o esforço de lá manter os ho-

 mens necessários e de procurar dotá-los

 do material possível. Se não, prepararemos

 a retirada progressiva das tropas, para não

 prolongar um sacrifício inútil, designando

 um oficial – general, possivelmente um

 brigadeiro, para liquidar a nossa presença.”

 Marcello Caetano, a Costa Gomes

 Depoimento, pág. 180

 

           

 

Os três grandes generais das guerras liberais foram Saldanha, Terceira e Sá da Bandeira. Os três exerceram também funções governativas. Dos três, e no conjunto das características humanas, Bernardo de Sá Nogueira era, incontestavelmente, o mais completo, o melhor. Chegou a Marquês, enquanto os outros dois subiram a Duque. Nem Sebastião José chegou a tanto. A História tem destas coisas…

            No passado dia 28 de Abril, deixou o número dos vivos o General José Manuel Bettencourt da Conceição Rodrigues. Foi o melhor general de todo o século XX português. A afirmação só me compromete a mim e não pretende ser desmerecedora para qualquer outra figura.

            Bettencourt Rodrigues (BR), nasceu no Funchal, em 1918 – era também conhecido pelo “Zé da Ilha”, uma daquelas designações que enchem o mundo da camaradagem militar – ia completar 93 anos, em 5 de Junho. BR gostava de viver e teve uma vida cheia, mas não se lhe conhecem vilanias.

           A sua carreira militar foi brilhante e culminou com a nomeação, em Setembro de 73, para Governador e Comandante-Chefe da então Província da Guiné, onde o 25 de Abril de 74, o foi encontrar. Declarando não desejar aderir ao golpe de estado em curso, foi preso e transferido para Cabo Verde, com outros oficiais.

            Já na Metrópole e nada havendo de que o acusar foi, apesar disso, saneado pela mão do próprio General Spínola. Passou à reserva em 14 de Maio desse ano. Enfim, comportamentos que contam para o passivo da “revolução”.

            Desde então BR remeteu-se ao anonimato, não intervindo em nada, não se queixando de nada e recusando qualquer eventual cargo público. Apenas aceitou ser Presidente da Direcção da sua muito querida Revista Militar, cargo que ocupou durante 10 anos e do qual saiu por vontade própria, pois entendia que as pessoas não deviam ficar demasiado tempo à frente das instituições. Uma das muitas atitudes de lucidez e humildade que lhe conheci.

            BR entrou para a então Escola do Exército, em 1936. Cursou Infantaria – a “Rainha das Batalhas” – sendo o 1º classificado do seu curso; entrou para o então Corpo de Estado-Maior, em 1951, com a classificação de “distinto”; frequentou o”Command and General Staff College”, Fort Leavenworth, EUA, em 1953; foi adido de Defesa em Londres; comandou o Regimento de Artilharia 1; foi Chefe de Estado-Maior do QG, em Angola, no início da guerra subversiva – onde esteve na origem da formação das primeiras tropas “Comando” – mais tarde comandou a frente leste, em Angola (70-73), onde as tropas sob a sua liderança esmagaram as forças inimigas e praticamente acabaram com a guerrilha, ao mesmo tempo que se promovia uma notável acção psico – social. E ainda teve tempo para, no intervalo da sua intensa actividade militar, ter feito parte do último governo do Prof. Salazar, como Ministro do Exército, transitando para o primeiro governo do Prof. M. Caetano, entre 1968/70, na sequência do curso de Altos Comandos, onde obteve a classificação de “muito apto”.

            Finalmente – não cabe neste escrito fazer a radiografia de toda a sua folha de serviços – quando a situação se tornou delicada no teatro de operações da Guiné, o governo foi procurar o melhor general disponível para tão ingente tarefa e escolheu-o, a ele. Não escolheu um “oficial general de baixa patente” para liquidar a situação…

            A situação era, de facto, delicada mas menos por acção do inimigo. É certo que a última grande ofensiva do PAIGC, congeminada em Conakri por instrutores cubanos e soviéticos, e iniciada dois meses depois do assassinato de Amílcar Cabral (20/1/73), sem dúvida levado a cabo por elementos da ala mais dura e marxista do movimento que aquele liderava, tinha deixado marcas nas FAs portuguesas. Mas foram estas que ganharam a batalha não o PAIGC…

            Mais grave teria sido o ambiente de desmoralização e até de revolta que tocou alguns oficiais do QG, em Bissau, originadas nas desavenças entre o Comandante - Chefe, Spínola e o Chefe do Governo, Caetano.

            Foi esta a situação (muito resumida) que o novo governador, BR encontrou quando chegou a Bissau. Não se pode ter certezas quanto ao evoluir de acontecimentos históricos que são subitamente interrompidos, mas estamos em crer que BR iria sair vitorioso dos desafios com que se confrontava.

            E tal convicção radica-se na afirmação supra de o considerar o melhor general português do século XX. Porque o afirmamos?

            BR obteve sucesso em todas as missões de que foi incumbido e reunia em si, um conjunto de características raríssimas de se juntarem na mesma pessoa.

            Ao chegar ao topo da carreira BR possuía, em simultâneo, a competência operacional e de comando de tropas, tanto em tempo de paz como em campanha, e uma elevada aptidão para trabalhos de planeamento e estado-maior. BR conhecia o género humano, sabia escolher os homens e não era afectado pela lisonja. E para um homem que tinha ocupado os maiores cargos, não se lhe vislumbrava uma ponta de afectação ou de vaidade.

            Tinha uma enorme capacidade de trabalho e a sua integridade e carácter eram à prova de bala. Era um português inteiro e, num país de tricas e azedumes constantes, gozava do raro privilégio ao respeito geral. De facto nunca ouvi “dizer mal” do general em qualquer ambiente. BR nunca prejudicou o seu país, ilustrou-o, e nunca manchou a Honra da Instituição Militar.

            Ora tudo isto configura uma personagem notável que, infelizmente, as novas gerações de oficiais e sargentos já não conhecem.

            A sua memória está apenas registada numa das salas de aulas do actual Instituto de Ensino Superior Militar, em Pedrouços, onde foi ilustre professor.

            À semelhança de Sá da Bandeira que não foi a Duque, BR, não foi a Marechal. A História tem destas coisas…

            Morreu um grande general português – que o seria também nos exércitos mais afamados – a Infantaria perdeu um dos mais dilectos descendentes do seu Patrono, o grande Nuno; o Exército viu desaparecer um dos seus comandantes mais ilustres e a Nação ficou pobre de um dos seus melhores filhos.

            Eu perdi um exemplo e um amigo.

            Guardarei, porém, um orgulho: o de poder dizer que o conheci.

            Foi das melhores coisas que me aconteceram na vida.

            Vai fazer-me muita falta.

 

 

José Brandão Ferreira

       TCor/Pilav(Ref.)

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.operacional.pt/wp-content/uploads/2011/05/foto-tgen-bethencourt-rodrigues-a-copy.jpg&imgrefurl=http://www.operacional.pt/in-memorium-general-bettencourt-rodrigues/&usg=__hBTfAcJczoadTvZl_eZbKVb43Fk=&h=448&w=324&sz=114&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=8fyfWWwwpBWngM:&tbnh=125&tbnw=115&ei=0CXWTd7APIKKhQf9jLnEBg&prev=/search%3Fq%3DGeneral%252BBettencourt%252BRodrigues%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=109&sqi=2&page=1&ndsp=25&ved=1t:429,r:4,s:0&tx=53&ty=72

 

ANATÓLIA – 1

 

 

Bem me lembrei de Timor Lorosae quando Ata, o nosso competente guia turco, nos disse que Anatólia significa «o brilho do Sol no leste». Pela Wikipédia fiquei a saber que: O nome deriva do grego Aνατολή (Anatolē) ou Aνατολία (Anatolía), que significa "brilho do sol" ou "leste"; a forma turca Anadolu deriva da versão grega original e é frequentemente associada com ana ("mãe") por etimologia popular.

 

Saídos de Lisboa, fizemos um voo de quase 5 horas e ao aterrarmos em Antália deparei com uma aerogare que me deixou «bouche bée». Passada a manga que nos traz do avião, entramos num recinto (de grande, não lhe posso chamar sala nem sequer salão) com um lago central e com esculturas clássicas a toda a volta como se estivéssemos a entrar num museu cuja missão fosse a de nos embasbacar.

Pese embora alguma da minha militância anti-adjectivante, nada de mais apropriado me ocorre do que «lindo». Podia também invocar outras classificações tais como «grandioso», «fantástico», etc., mas volto à primeira forma: lindo! Tudo sobre chão de mármore que devia ter sido acabado de limpar.

 

Alexandre, o grande, espera pelos turistas

(cópia do original que se encontra no Museu)

 

 

Cumpridas as formalidades policiais e aduaneiras (sabiamente, a Turquia não é membro da UE), foram os vários grupos de turistas constituídos e lá seguimos em autocarros tão bons como os nossos a caminho do hotel.

 

O plural que usei até aqui não é majestático mas sim correspondente a um grupo de um pouco mais de 200 turistas portugueses que se sentiu atraído por um programa que me chegou pela Bertrand mas que a outros terá chegado pelo Círculo de Leitores ou pelo Automóvel Clube de Portugal. Nenhuma destas instituições me paga para eu aqui lhes fazer publicidade (o que logicamente eu recusaria pois o SAPO não o permite) mas na verdade há que as referir como «pieds à terre» em Portugal de uma qualquer instituição governamental turca que suporta os custos da nossa hospedagem em hotéis de 4 e 5 estrelas. Nós, os turistas, só pagamos a viagem de avião e as excursões locais.

 

Até ao momento em que escrevo estas linhas ainda não percebi exactamente qual o interesse do Governo Turco em nos proporcionar tanta mordomia mas do que não duvido é que nós, os turistas, saímos de tudo isto muito claramente beneficiados. Creio que todos os meus companheiros de viagem me acompanham em uníssono: venha mais disto!

 

Bem se vê que não somos Contribuintes turcos; se o fossemos, não sei se concordaríamos assim tão abertamente.

 

Com os ouvidos cheios da «crise» em que a demagogia pretérita nos meteu e de que a austeridade “strauss-kahniana” nos trata, a benigna recepção turca soou-nos como a melodia mãe de todas as harmonias.

 

(continua)

 

Lisboa, Maio de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca Henrique Salles da Fonseca

RUSSO E PORTUGUÊS

 

 

A língua russa que comecei a estudar em 1947, como sempre, sozinho, com a ajuda de livros que ia comprando, como começara a estudar o alemão em 1943, e o italiano, entre as duas, não por manias políticas, que nunca tive, mas por congénita predisposição para o estudo de línguas que não compreendia e queria compreender,  a língua russa, repito, é  grandiosa e linda, como aliás também o é o português, a minha língua-mãe.

 

O russo  moderno foi criado no século XVIII por Lomosonov,  aperfeiçoada no século seguinte por Pushkin, cultivada por uma grande plêiade de grandes escritores no século XIX.

 

Como o português moderno foi criado por Camões e António Ferreira no século XVI, e cultivada também por uma enorme plêiade de grandes escritores no século XIX.

 

E enquanto o russo antigo chegava ao Volga nos fins do século XVI, levado pelas tropas de Ivan IV, o Terrível, que conquistaram Kazan aos Tártaros, já  o português moderno de Camões chegara ao extremo oriental da Ásia, não para conquistar mas para comerciar e cristianizar.

 

Com isto quero dizer que Portugal, feito pequenino pela imperícia e malignidade dos políticos, não deve ter vergonha de se comparar com o gigante territorial que é a Rússia.

 

Aos interessados, envio um pequeno texto de Dostoevski,  junto com a tradução em Português. Para mim foi um exercício que espero continuar só para mim. Talvez o leitor se aperceba ou sinta o que acabei de dizer.

 

Joaquim Reis

 

 

 

 (*)  

Фёдор  Достоевский  --  Fiódor  Dostoevskii

 

ЗАПИСКИ  ИЗ  МЁРТВОГО  ДОМА

Memórias da Casa do Morto (ou da Casa Morta)

 

ЧАСТЬ  ПЕРВАЯ – PRIMEIRA PARTE

Введение --  Introdução

     В отдалённых  краях Сибири, среди степей, гор или непроходимых лесов,

     Nas longínquas regiões da Sibéria, entre estepes, montes e bosques intransitáveis,

попадаются изредка  маленькие города, с одной, много с двумя тысячами

encontram-se de longe a longe pequenas cidades, com um, muitas com dois milhares de

 жителей, деревянные, невзрачные, с двумя церквами – одной в городе, другой

habitantes,  rústicas, feias, com duas igrejas – uma  na cidade, a outra

на кладбище, -- города, похожие более на хорошее подмосковное село, чем на

no cemitério, -- cidades, semelhantes mais a uma boa aldeia nos arrabaldes de Moscovo, do que a

 город.   Они обыкновенно весьма достаточно снабжены исправниками,

uma cidade. Elas estão geralmente muito bem fornecidas de comissários da polícia,

заседателями и всем остальным субалтерным чином. Вообще в Сибири, несмотря

de assessores  e de todos os graduados subalternos. Dum modo geral na Sibéria, apesar

на холод, служить  чрезвычайно тепло. Люди живут простые, нелиберальные;

do frio, servir é extremamente quente. As pessoas vivem simples, não liberais;

 порядки старые, крепкие, веками освященные.  Чиновники, по справедливости

os costumes são antigos, fortes, consagrados pelos séculos. Os funcionários, de justiça

игающие роль сибирского дворянства – или туземцы, закоренелые сивиряки, или

desempenhando o papel da fidalguia siberiana – ou os nativos, siberianos de raiz ou

наезжие из России, большею частью из столиц, пргельщенные выдаваемым не

chegados da Rússia,  a maior parte das capitais, encantados  pela paga não      

в зачет окладом жалованя, двойными прогонами и соблазнительными

contabilizada como importância do vencimento,  pelas duplas vias  e  pelas tentadoras

 надеждами в будущем. Из них умеющие разрешать загадку жизни почти всегда

perspectivas do futuro.  Entre eles os que sabem resolver o enigma da vida quase sempre

остаются в Сибири и с  наслажлением  в ней укореняются. Впоследствии они

permanecem na Sibéria e com satisfação nela se radicam. Posteriormente eles

приносят богатые и сладкие плоды. Но другие, народ легкомысленный и не

obtêm ricos e doces frutos. Mas outros, gente  leviana e que não

умеющий разрешать загадку жизни, скоро наскучают Сибирью и с тоской себя

sabe solucionar o enigma da vida, em breve se aborrecem da Sibéria e com saudade se

спрашивают: зачем  они в неё заехали?

perguntam: para que foi que eles para lá vieram?

 

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/3c/Dostoevsky_1872.jpg/250px-Dostoevsky_1872.jpg&imgrefurl=http://es.wikiquote.org/wiki/Fi%25C3%25B3dor_Dostoievski&usg=__ybJp0AxaiGnHkyCbim9WvqaHudM=&h=312&w=250&sz=16&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=ePCl-tygZ5xnNM:&tbnh=160&tbnw=114&ei=NxLVTYLdOY6bhQeH7NiGDA&prev=/search%3Fq%3DDostoievsky%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26nfpr%3D1%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=296&sqi=2&page=1&ndsp=17&ved=1t:429,r:0,s:0&tx=56&ty=88

PORTUGAL AFUNDOU!!!

 (*)

 


Quer que aconteça um milagre económico no nosso país?

Então deixe-se de seguir dissertações de economistas ao serviço de  interesses que não os nossos! Não se deixe mais manipular pelo marketing!


Faça aquilo que os políticos, por razões óbvias, não podem recomendar sequer, mas que individualmente podemos fazer:

Torne-se DEFENSOR da nossa economia!

Para isso:

1. Experimente comprar preferencialmente produtos fabricados em  Portugal. Experimente começar pelas idas ao supermercado (carnes,  peixe, legumes, bebidas, conservas, preferencialmente, nacionais). Experimente trocar, temporariamente, uma qualquer cadeia de fast food pela tradicional tasca portuguesa. Experimente trocar a cola à refeição por uma água, um refrigerante, ou uma cerveja sem álcool, fabricados em Portugal.

2. Adie por 6 meses a 1 ano todas as compras de produtos estrangeiros que tenha planeado fazer, tais como automóveis, TV e outros electrodomésticos, produtos de luxo, telemóveis, roupa e calçado de marcas importadas, férias fora do país, etc., etc...

Leia com atenção e reencaminhe para que sejamos muitos a ter esta atitude!!!!

Portugal afundou, somos enxovalhados diariamente por considerações e comentários mais ou menos jocosos vindos de várias paragens, mas em particular dos países mais ricos. Confundem o povo português com a classe política incompetente e em muitos casos até corrupta que nos tem dirigido nos últimos 30 anos e se tem governado a si própria.

Olham-nos como um fardo pesado incapaz de recuperar e de traçar um rumo de desenvolvimento.

Agora, mais do que lamentar a situação de falência a que Portugal chegou e mais do que procurarmos fuzilar os responsáveis e são muitos, cabe-nos dar a resposta ao mundo mostrando de que fibra somos feitos para podermos recuperar a nossa auto-estima e o nosso orgulho. Nós seremos capazes de ultrapassar esta situação difícil. Vamos certamente dar o nosso melhor para dar a volta por cima, mas há atitudes simples que podem fazer a diferença.

O desafio é durante seis meses a um ano evitar comprar produtos fabricados fora de Portugal. Fazer o esforço, em cada acto de compra, de verificar as etiquetas de origem e rejeitar comprar o que não tenha sido produzido em Portugal, sempre que existir alternativa.

Desta forma estaremos a substituir as importações que nos estão a arrastar para o fundo e apresentaremos resultados surpreendentes a nível de indicadores de crescimento económico e consequentemente de redução de desemprego. Há quem afirme que bastaria que, cada português, substituísse somente 100 euros mensais as compras de produtos importados por produtos fabricados no país, para que o nosso problema de falta de crescimento económico ficasse resolvido.
Representaria para a nossa indústria, só por si, um acréscimo superior a 12.000.000.000 de euros por ano, ou seja uma verba equivalente à da construção de um novo aeroporto de Lisboa e respectivas acessibilidades, a cada 3 meses!!!

Este comportamento deve ser assumido como um acto de cidadania, como um acto de mobilização colectiva, por nós e como resposta aos que nos acham uns coitadinhos incapazes.

Os nossos vizinhos Espanhóis há muitos anos que fazem isso. Quem já viajou com Espanhóis sabe que eles começam logo por reservar e comprar as passagens, ou pacote, em agência Espanhola, depois, se viajam de avião, fazem-no na Ibéria, pernoitam em hotéis de cadeias exclusivamente Espanholas (Meliá, Riu, Sana ou outras), desde que uma delas exista e se encontrarem uma marca espanhola dum produto que precisem, é essa mesma que compram, sem sequer comparar o preço (por exemplo em Portugal só abastecem combustíveis Repsol, ou Cepsa). Mas, até mesmo as empresas se comportam de forma semelhante! As multinacionais Espanholas a operar em Portugal, com poucas excepções, obrigam os seus funcionários que se deslocam ao estrangeiro a seguir estas preferências e contratam preferencialmente outras empresas espanholas, quer sejam de segurança, transportes, montagens industrias e duma forma geral de tudo o que precisem, que possam cá chegar com produto, ou serviço, a preço competitivo, vindo do outro lado da fronteira. São super proteccionistas da sua economia! Dão sempre a preferência a uma empresa ou produto Espanhol! Imitemo-los!


Passe este texto para todos os teus endereços para chegarmos a todos os portugueses.
Quando a onda pegar, vamos safar-nos.

Será um primeiro passo na direcção certa!

Os governantes que venham a trás de nós se é que querem sair do buraco em que nos meteram.

 

VIVA PORTUGAL

 

 

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://cdn.ehelpcarolina.com/wp-content/uploads/2009/03/crise_economica.jpg&imgrefurl=http://www.ehelpcarolina.com/pro-futuro-de-carro-eletrico-e-sem-%25E2%2580%259Ceconomes%25E2%2580%259D/&usg=__AStYHTWLI9YAvJbhv7b_mTRNjLo=&h=344&w=302&sz=52&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=j8MxW04Ehad0OM:&tbnh=154&tbnw=135&ei=X8jKTbinEYHDhAe8somqAg&prev=/search%3Fq%3Dcrise%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=609&page=1&ndsp=15&ved=1t:429,r:14,s:0&tx=56&ty=84

GRANDES HOMENS

Portugal declarou guerra a Tripoli!

 

 

Desde que, em 1551, o corsário turco Dragut, transformou a pequena enseada de Tripoli num ninho de piratas, o mediterrâneo passou a ter menos sossego. Entretanto os franceses e os venezianos, por diversas vezes bombardearam fortemente aquele reduto.

 

Durante a guerra entre a Inglaterra e a França de Napoleão, Portugal foi solicitado pela sua “grande” aliada, para juntar forças e atacar o Imperador.

 

Assim, uma pequena esquadra portuguesa foi incorporada à do Lord Nelson, que começou por combater os inimigos no mediterrâneo, uma vez que o Canal da Mancha tinha defesa assegurada.

 

Em 1799 a esquadra conjunta estava fundeada em Palermo. Portugal continuava em guerra com os piratas do Magrebe, e os franceses tinham ocupado Tripoli para melhor controlarem o Mediterrâneo.

 

Nelson, também em paz com o Bachá de Tripoli, recebeu no seu navio o chefe da esquadra portuguesa, o Marquês de Nisa, Dom Domingos Xavier de Lima, quando ali estava também Simão Lucas, cônsul britânico em Tripoli. O Marquês entendeu que através da intermediação de Nelson e do cônsul, poderia obter uma paz vantajosa com o Bachá. Nelson gostou da ideia mas disse que, além da paz, o Bachá deveria entregar o cônsul e outros cidadãos franceses. O Marquês achou a exigência bárbara, mas pôs o projecto em marcha, dispondo a nau Afonso de Albuquerque em ordem para esse serviço, que poucos dias depois, hasteando a bandeira inglesa, fundeou a um tiro de espingarda das baterias de Tripoli, num fundo de somente quatro braças! Com a mesma bandeira mandou um escaler a terra com o cônsul medianeiro, que voltou uma hora depois dizendo que o Bachá estava disposto a negociar a paz com os portugueses. Logo se hasteou a bandeira portuguesa na nau, que foi saudada de terra, e da nau.

 

Consultar esta obra(*)

D. Domingos Xavier de Lima, 7.º Marquês de Nisa (1765-1802)
Desenho de Domenico Pellegrini

 

O comandante tinha dado pouco tempo ao cônsul para obter o acordo, porque estava em condições difíceis de manobrar se o vento mudasse. O Bachá então requereu a presença do comandante e o Marquês entregou o comando ao capitão de fragata José Maria Almeida, com ordens, por escrito, de empregar todas as medidas enérgicas contra a cidade se ele não voltasse a bordo naquela noite.

 

Volta o Marquês com a palavra do Bachá que dentro de dias despachava os franceses para Constantinopla e a nau levantou ferro porque o tempo estava a piorar e, depois dum temporal, em mar aberto, regressa a Tripoli. Nessa madrugada entrou no ancoradouro uma polacra (veleiro de três mastros) que fundeou bem por baixo das baterias da cidade e abriu fogo com as suas dezoito peças de bateria e diversos mosquetes, contra a nau, que respondeu só para as da fortaleza, uma vez que não queria danificar o outro navio, mas tomá-lo de abordagem. Saíram da nau três escaleres com trinta voluntários, sob o comando de José de Almeida, levando uma única peça e do lado de terra acorreu a guarnição do vice-almirante do Bachá, carregando escopetas e arcabuzes, em auxílio dos cento e cinquenta tripulantes.

 

Dos escaleres não se deu um tiro, enquanto não chegaram à queima-roupa e saltassem à abordagem com espadas e pistolas. Invadem a embarcação, de parte a parte fazem-se prodígios, mas os portugueses são invencíveis. Dos trinta, todos ficam feridos e um morto com os miolos de fora. Dos mouros, cinquenta mortos, e os outros atiraram-se ao mar. Os vencedores rebocam o navio conquistado para junto da nau, e daí respondem ao fogo da fortaleza.

 

No dia seguinte continua o ataque à cidade, quando se avistam duas embarcações ao largo. O chefe da esquadra manda içar a bandeira tripolina, e dá ordens à polacra que, quando em posição conveniente desse uma “banda” à maior que parecia uma fragata, e se apossasse dela e do brigue! Assim se fez. Fogo bem dirigido e manobra rápida, os tripolinos não esperavam o ataque, mas travam com os portugueses um terrível combate.

 

A polacra servia de escudo à nau Afonso; as duas embarcações inimigas tinham mais de quatrocentos homens de guarnição, mas assim mesmo foram abordados e conquistados!

 

O Marquês manda a seguir que levem a polacra para perto de terra com ordem de a incendiarem.

 

À vista de tamanho destroço e receio de maior mal, o Bachá mandou içar a bandeira branca e foi obrigado a aceder a todas as demandas, não só do tratado de paz como à entrega dos franceses!

 

A única coisa que o Bachá pedia era que lhe restituíssem os dois navios e a tripulação que se aprisionara.

 

Avaliou-se a fragata em trinta mil pesos, um terço dos quais o Bachá pagaria aos valentes marinheiros e o brigue, em nome de Sua Alteza o Príncipe de Portugal, se lhe fazia de presente, como era costume sempre que se contratava com os otomanos.

 

Aceites as condições salvaram as baterias de terra e as duas embarcações prisioneiras, com a bandeira portuguesa no tope dos mastros, em sinal de respeito, respondendo a nau, que se foi afastando sempre com a bandeira nacional hasteada até perder terra de vista!

Conhecido pelo Príncipe Regente tão valoroso feito, promoveu todos os intervenientes, por distinção em combate, aos postos acima.

 

 in “Quadros Navais”, do Almirante Celestino Soares.

 

 N.- O que se passa com os portugueses de hoje, que deixam, inertes, que lhe destruam o país?

 

Rio de Janeiro, 31/03/2011

 

Francisco Gomes de Amorim

 

(*)http://purl.pt/369/1/ficha-obra-marques-de-nisa.html

 

A CAMPANHA ALEGRE

 

Fernão Mendes Pinto, foi um aventureiro e escritor português do século XVI, que, em vinte e um anos a peregrinar, durante os quais foi “treze vezes cativo e dezassete vendido” no continente asiático, em condições, por vezes, de uma tão sensacional e esmagadora brutalidade que em nada difere dos exageros da epopeia antiga, pese embora a diferente natureza humana e física dos participantes e dos espaços da sua narrativa surpreendente.

 

Nos capítulos finais de Peregrinação, F. M. Pinto descreve-se como testemunha participante no episódio de oferta de uma espingarda a um príncipe japonês, a primeira espingarda que apareceu no Japão, oferecida pelo português Diogo Zeimoto ao nautaquim da ilha japonesa de Tanixumá, “com boa tenção e por boa amizade, e por lhe satisfazer parte das honras e mercês que tinha recebido dele”. O nautaquim afirmou estimar “ mais do que todos os tesouros da China”, esse objecto estranho e mortífero, e em breve os súbditos do príncipe fabricaram milhares.

 

(*)

Um grupo de portugueses no Japão, no sec. XVII, ou “Nanban” ("bárbaros do Sul", como eram chamados)

 

De modo que “se encheu a terra delas em tanta quantidade, que não há já aldeia ou lugar, por pequeno que seja, donde não saiam de cento para cima, e nas cidades e vilas mais notáveis não se fala senão por muitos milhares delas. E por aqui se saberá que gente esta é e quão inclinada, por natureza, ao exercício militar, no qual se deleita mais que todas as outras nações que agora se sabem” (Cap. 134 de Peregrinação).

 

Também, nos séculos XIX e XX, Wenceslau de Moraes (1854-1929), que no Japão viveu 33 anos, descreveria várias facetas do povo japonês, entre as quais as «frontes amplas, de inteligentes ou de cismadores; olhar profundo por vezes de inspirados; e um sorriso fácil sempre em assomar, benévolo, cortês» (Traços do Extremo Oriente).

 

«O temperamento asiático, a piedade filial, a etiqueta do feudalismo, a moral budista e ainda outras circunstâncias imprimiram na alma japonesa essa feição de particular altruísmo, que tanto distingue o nipónico de todos os outros homens; o indivíduo é causa ínfima, não deve contar para nada diante do superior ou mesmo do igual. É na acção combinada de todos estes factores, transmitida por hereditariedade e pela educação desde remotas eras, que se deve ir buscar a causa primária do sorriso indígena.» (Cartas, III).

 

«Sentimento delicadíssimo é esta crença (o culto dos mortos), que unifica a alma da nação, que promete persistir, embora a corrente do cepticismo da época modifique e apague as outras crenças. O povo japonês poderá um dia descrer do sintoísmo e do budismo; o que será difícil de conceber é que ele perca o seu culto pelos mortos, transforme os seus cemitérios em campos de cultura ou em parques de recreio, destrua os altares familiares, cesse de reverenciar a memória dos ascendentes, de considerá-los membros, apenas ausentes, da família e protectores do lar, ainda a distância.

 

É ao culto pelos mortos que a nação deve as suas qualidades mais brilhantes, incluindo o patriotismo, esse amor sagrado pelo torrão natal, que foi também torrão natal das gerações extintas.» (O Bom-Odori em Tokushima)

 

Tokushima! Foi este nome, tão badalado ultimamente, como o será para sempre Hiroshima, que trouxe a evocação desse livro “O Bom-Odori em Tokushima” que o meu pai tinha na sua estante e que mais tarde recuperei em parte, comprando uma edição sobre Wenceslau de Morais, de 1970, da Portugália Editora, contendo excertos de obras várias de Morais, com uma excelente introdução de Armando Martins Janeira sobre os méritos de um escritor e de uma obra cujos traços mais característicos são a ternura e a delicadeza com que descreve o povo japonês que admira. Tokushima onde morreu, onde ficaram sepultadas duas das mulheres que amou, Tokushima a terra do Bom-Odori, festa dos Mortos!

 

Tokushima foi referida no dia 11 de Março, como outras terras japonesas abaladas pelo sismo e o tsunami de Sendai, não varridas mas lavadas por um monstruoso tsunami, de águas poderosamente invadindo a terra e tudo empurrando na sua violência, causando seguidamente explosões na Central Nuclear de Fukushima, com riscos gravíssimos de que milhares sofreram as consequências. E as consequências do caos gerado por muito tempo se farão sentir.

 

Mas é um povo ordeiro, habituado a sofrer e a respeitar, um povo inteligente que do seu arquipélago fez das mais poderosas nações do mundo, e isso por razões de disciplina, trabalho e inteligência, detectadas já por dois escritores nossos, não tardará que se recomponham.

Não é o nosso caso, mau grado as gentes esforçadas que tivemos na nossa história. Como diz a minha amiga, referindo-se à festança do PS, nós embarcamos mais na “Campanha Alegre” da irresponsabilidade, o Governo PS é o tsunami natural do país que somos.

 

carnaval data 2011 Data do Carnaval nos anos 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015 (**)

Uma autêntica «campanha alegre»

 

E que aceitamos. Não veneramos os mortos do nosso passado, como o povo japonês, preferimos ser subservientes aos vivos do nosso presente, mais semelhantes aos habitantes do continente africano, com quem aprendemos o batuque.

 

Mas a minha filha anda assustada. Ela vê, na loucura destes ajuntamentos nacional-socialistas, uma escalada ao modo nazi. Eu fico-me pelo batuque.

 

Berta Brás

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://i168.photobucket.com/albums/u166/conversasdepintor/conversas%2520de%2520pintor/NanbanGroup.jpg&imgrefurl=http://conversasdepintor.blogspot.com/2008/12/blog-post.html&usg=__kkdC7GwUDSSAgx3KD9BHoe6nWDk=&h=640&w=480&sz=123&hl=pt-PT&start=14&zoom=0&tbnid=UATSgydBk8A3BM:&tbnh=137&tbnw=103&ei=3HXITY9Jx4z7Bou6wLoG&prev=/search%3Fq%3DFern%25C3%25A3o%252BMendes%252BPinto%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch0%2C511&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=134&vpy=370&dur=1326&hovh=137&hovw=103&tx=92&ty=81&page=2&ndsp=15&ved=1t:429,r:5,s:14&biw=1007&bih=681

 

(**)http://blogpop.com.br/entretenimento/curiosidades/data-do-carnaval-nos-anos-2011-2012-2013-2014-e-2015/

AS CAUSAS DO DESEMPREGO NA EUROPA

 

 

A Europa tem uma taxa de desemprego relativamente alta que, nalguns países, como a Espanha, atinge valores muito elevados. A União Europeia considera esse problema importante (certamente que o é) e está incluído na agenda da presidência portuguesa. Não conheço o que está preparado e só sei o que li nalguns jornais sobre as intenções relativas à forma de atacar o problema. Mas talvez seja útil procurar as causas do mal, para melhor aplicar a terapêutica.

 

Na década de 1960, depois de se falar no "atraso científico" da Europa em relação aos Estados Unidos, passou a falar-se no "atraso tecnológico", pois as empresas europeias eram frequentemente batidas pelas americanas, que trabalhavam com tecnologia mais avançada.

O então Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert MacNamara, na sequência duma visita à Europa, fez em 27 de Fevereiro de 1967 um discurso que ficou famoso. Nesse discurso afirmou que o que tinha visto era um "atraso de gestão" ("managerial gap"), porque, tendo bons cientistas e bons operários, o que havia era uma gestão muito deficiente, que não era capaz de criar e desenvolver empresas eficientes.

 

(A propósito da ciência, comentei esse discurso no artigo “Atraso científico e atraso administrativo”, publicado no “Jornal do Comércio” de 2/3 de Setembro de 1967, posteriormente transcrito no livro”Problemas da Investigação Científica. Problemas da Agricultura”, editado em 1969)

 

Do que observamos, pode concluir-se que o desemprego europeu é o resultado precisamente duma incapacidade de gestão, a diferentes níveis. Há falta de iniciativa e capacidade para criar novas empresas - e há tanto por fazer! - e falta de capacidade de gestão para imprimir às empresas existentes a eficiência e o desenvolvimento necessários a uma tecnologia moderna e eficiente.

 

O exemplo dum caso concreto poderá ajudar a compreender esse atraso de gestão, causador dum atraso tecnológico.

 

Há tempos fui procurado por um colega que, embora aposentado duma grande empresa, continuava a dar-lhe colaboração. Desejava saber mais informações sobre "transgénicos", porque estavam a considerar entrar na sua produção. Mas logo me informou que o que iriam fazer era algo de pequena dimensão porque, disse, "não podemos competir com a Monsanto".

 

Lembrei-lhe que, há algumas décadas, a empresa dele era muito maior do que a Monsanto. Mas, embora tivesse uma grande parte (talvez a maior) dos seus produtos destinados à agricultura, nunca teve senão um pequeno arremedo de investigação agronómica. Se os seus gestores tivessem tido a capacidade necessária, a empresa teria ganho muito mais dinheiro - com transgénicos e não só - e seria hoje bem mais importante do que a Monsanto.

 

Se Portugal quer desenvolver-se mais - e o desemprego, aqui, embora menor do que a média da União Europeia,(1) é bem superior ao dos Estados Unidos - deverá treinar e escolher muito bem os gestores, a todos os níveis. E, particularmente nas empresas do Estado ou em que ele tem participação, deixar de nomear gestores por quaisquer critérios partidários (ou das variadas outras forças que manobram por detrás da cortina) estimulando e privilegiando a competência e a capacidade.

 

O assunto do desemprego vai estar proeminente durante a presidência portuguesa da União Europeia, a decorrer. Para além das "estratégias" que se anunciam, será importante estimular e pôr ênfase na capacidade de gestão, tanto nas grandes empresas (onde a boa gestão, em vez de admitir pessoal à toa, o que leva aos despedimentos posteriores, cria empregos reais e necessários) como na criação de pequenas empresas (muitas das quais poderão crescer enormemente, como foi o caso da Microsoft), nos múltiplos sectores onde há uma ampla margem para trabalhar.

 

 Miguel Mota

 

_______________

(1)   Lembro que isto foi escrito no ano 2000. Hoje é o que se sabe...

 

 

Nota do Autor - Em 12 de Maio de 2000 publiquei no jornal "Linhas de Elvas" o artigo acima transcrito. Como se sabe, o problema agravou-se enormemente e confere ainda maior actualidade ao que então escrevi.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D