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A bem da Nação

O Big Bang e a Vida Eterna !

Filosofia descontraída!

 

 

Lembro os tempos da meninice. Da instrução primária. Já não usávamos fraldas- há bons anos, aliás – mas éramos tratados como seres quase irracionais. E o nosso grande objetivo era estar no secundário, ser um rapagão, jogar o futebol a sério; mais tarde, a vontade de usar calça comprida – à homem – e logo o desejo de ver as aulas terminarem, chegarem as férias, começar a deitar o olho às “gatinhas”, e não tardou a que, de repente, o bom tempo de estudante tivesse ido embora!

 

A seguir, casar. Como? O rendimento do primeiro emprego não dava para quase nada. Apesar disso não tardou a chegar a possibilidade de criar nova família. E vieram os filhos, os problemas, as brigas profissionais, a mudança de casa e de continente, a luta para sobreviver, apareceram os netos para nos trazer um ar de frescura e muita saudade, e nisto, num repente, se foi quase a vida toda. Já pouca sobra.

 

Entretanto, por muito que não queiramos, o pós-morte, dá que pensar. Medo, não, porque toda a gente sabe que isso é o mais certo que temos, mas o desejo de não se afastar “já”, ficar “só por mais alguns anos”, para não desamparar aqueles que ainda precisam de nós. Nada mais.

 

No dia em que o último suspiro for dado, quando se separa o corpo, já inútil, da alma, ou espírito, como será a “vida eterna”?

 

E aqui começa o pensamento às voltas, não à procura duma resposta, mas dum mínimo de entendimento.

 

Se a alma ou espírito, entram na vida eterna, começamos por uma contradição evidente: se essa vida é eterna, não teve nem terá fim, nem princípio, porque o que é eterno e infinito não tem limitação! E se não tem princípio, como é que a alma, só agora entra nessa vida? Não pode “pegar o bonde andando”!

 

De duas uma: ou essa conversa de vida eterna é “uma furada”, ou o que parece mais lógico, se bem que em aspetos metafísicos nada tenha muita lógica, a alma já existe desde sempre, e somente renova de “embalagem”.

 

O grande cientista Stephen Hawking, uma invulgar mente, sempre se considerou agnóstico, mas durante muito tempo "reconhecia que as leis da vida podem ter sido criadas por Deus, mas que Deus não intervém para quebrar essas leis". Lógico. Se foi Deus quem criou as leis, e a tal Bíblia diz que depois de criar o mundo Ele viu que “tudo estava bem feito”, e descansou, porque quebrá-las?

 

Mas agora o mesmo cientista vem dizer que "Deus pode não ter criado o Universo porque o Big Bang foi uma inevitável consequência das leis da física".

 

O problema, que me desculpe o professor Hawking, é saber então quem criou o Big Bang ou essa física e mais suas leis?

 

E tudo volta ao princípio!

 

Diz ainda Hawking, “porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e vai criar-se a partir do nada. Criação espontânea é a razão pela qual existe algo melhor do que nada, e o universo existe porque nós existimos. Não é necessário invocar a Deus para iluminar o papel de definir como o universo vai".

 

Em outras palavras: "o Big Bang não era fortuito. Era simplesmente inevitável".” Confuso.

 

Os cientistas bem querem provar que Deus não teve nada a ver com nada. Mas Alguém teve a ver com os elementos – por exemplo, a gravidade, as tais leis da física – para que do hipotético Nada, tivesse surgido Tudo!

 

Dizem que o Bing Bang terá ocorrido há uns treze ou quinze bilhões de anos. Tanto faz. Mas porque explodiu? Porque terá concentrado todo o universo numa força gravitacional incomensurável, e voltou uma vez mais a explodir. Este Bing Bang de que se fala foi o primeiro? Ou antes dele houve “n” outros?

 

Voltemos à nossa alma, e começamos a nos deparar com o pensamento hinduísta da reencarnação, o cristão com a ressurreição dos mortos, e outros de religiões da antiguidade.

 

Parece que no fundo é tudo igual, só que a interpretação tem ligeiras divergências. Quase podemos concluir que a nossa alma, o nosso espírito, o que nos dá o “sophos”, vem desde sempre e será para sempre.

 

Dizem os cristãos que os “bons” vão para o céu, os hindus que um indivíduo que se comportou santamente vai finalmente incorporar-se em Deus ficando parte integrante d’Este, e assim para todo o sempre, sem mais necessidade de voltar à terra!

 

Também se diz na cerimônia cristã que o finado “descanse em paz eternamente”!

 

A Via Lactea e seus Buracos Negros"...

 

Quem sabe se no momento do último suspiro a minha alma não entra logo noutro ser, noutra “embalagem” para, de castigo, ficar vagando pela terra até... Se possível, meu Deus, que não volte para um político, um corrupto. Se for puder escolher, antes um burro, com sua quase ilimitada humildade, trabalhando sempre sem se queixar!

 

Mas ninguém se deve preocupar muito com isso. De acordo com o calendário maia, e seus extraordinários e reconhecidos conhecimentos de astrologia, o tal fim do mundo, quem sabe se outro pré Bing Bang está muito próximo. No dia 21 de Dezembro de 2012, a Terra, o Sol e Venus estarão em perfeito alinhamento com a Via Láctea, no seu centro mais escuro, talvez onde exista um “Buraco Negro”. Nesse dia, no exato momento do solstício de verão no hemisfério Sul, a força gravitacional que resulta desse alinhamento previsto... sugará tudo!

 

O "templo" (?) de Chicen Iza

 

Como em pouco mais de dois anos nada vai mudar neste planeta, talvez ainda só para pior, que cada um medite sobre a sua alma e onde ela vai parar!

 

Se nada acontecer em 2012... também a verdade é que ninguém perdeu tempo com essa meditação!

 

Rio de Janeiro, 23-09-2010

 

 Francisco Gomes de Amorim

SERÁ QUE MAIS NINGUÉM VÊ ISTO?

  (*)

 

Os armadores da pesca não podem repercutir os aumentos de custos porque o método de formação dos preços está errado.

 

O leilão em lota é invertido (descendente), o que dá ao comprador o controle exclusivo do preço da transacção.

 

Se o leilão passar a ser normal (ascendente) e partindo dos actuais 'preços de retirada' como base de licitação, então o método de formação dos preços passará a ter lógica bilateral e os pescadores poderão passar a repercutir no preço de venda os acréscimos de custos, nomeadamente com o encarecimento dos combustíveis.

 

Eis por que as pescas portuguesas estão quase mortas.

 

E essa decisão não carece de qualquer decisão de Bruxelas: basta um Despacho Normativo do Ministro das Pescas.

 

Mas será que mais ninguém vê isto?

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

(*) http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/08/pesca-arrastao1.jpg&imgrefurl=http://www.infoescola.com/ecologia/pesca-de-arrastao/&usg=__SromVEdvl-oId5nxpSw6vf5ANxE=&h=362&w=430&sz=99&hl=pt-pt&start=0&sig2=BSDMK4Dznstwy8GJFBdJhw&zoom=1&tbnid=4STDzzRXIGA33M:&tbnh=121&tbnw=158&ei=R02_TNrENYWG4QbskJTnAQ&prev=/images%3Fq%3Dpesca%252Bde%252Barrasto%26um%3D1%26hl%3Dpt-pt%26sa%3DN%26biw%3D1003%26bih%3D551%26tbs%3Disch:1&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=661&vpy=102&dur=31&hovh=206&hovw=245&tx=148&ty=94&oei=R02_TNrENYWG4QbskJTnAQ&esq=1&page=1&ndsp=15&ved=1t:429,r:3,s:0

CATURRICES 10

 

LIGADOS À MÁQUINA - VIII

 

 Pois é, Caro Leitor. A febre de opinar sobre o futuro OE que parece ter atingido todos os que, entre nós, chegaram à idade da fala, também me contagiou. De tal maneira, que até me leva a interromper a linha de raciocínio que tenho estado a seguir. Pois seja!

 

 Ter ou não ter OE, eis a questão que nos atormenta. Falsa questão. Hélàs! O dilema é bem mais shakespeariano: “Ser ou não ser um OE à altura da situação”.

 

 Vejamos. Temos tido OEs das mais variadas cores – e não foi isso que nos poupou à situação desgraçada em que hoje nos encontramos. É certo que todos eles eram, invariavelmente, mauzotes, pouco credíveis e pior executados – e talvez esteja aí a razão de já ninguém, por esse mundo fora, nos levar a sério (em matéria financeira; porque no reino da diplomacia, a “máquina portuga” mais uma vez brilhou à altura da sua fama internacional, que é surpreendentemente muita).

 

 Um OE inadequado, em que não se acredite ou que seja manifestamente mau será a prova provada de que nós não nos sabemos governar: nos tempos de bonança, desbaratamos; nos tempos de penúria, é o desnorte.

 

 Não me parece que um OE qualquer, só porque cumpre o ritual, dê sossego aos de dentro, muito menos aos de fora. O que estes querem (e, com eles, os seus olhos e opinion makers, as Agências de Rating) – e o que nós, contribuintes, devemos exigir - é um programa de trabalho governamental credível, nas mãos de um ministério competente.

 

 Tanto mais que, sendo este Governo minoritário, a rejeição do OE não implicará automaticamente a dissolução da AR. E poderia ter o bónus adicional de instilar, no PS, o bom senso q.b. para propor outro PM e uma equipa mais capaz.

 

 Quanto à vida em duodécimos, nem se fará sentir. Sem OE aprovado, o Governo:

(1) entra em gestão, não podendo aumentar despesa (nem reduzir receita; o aumento de impostos, esse, é da competência exclusiva da AR) - desde logo, uma boa notícia;

(2) os limites de cabimento orçamental serão precisamente aqueles que o Governo achava excelentes para 2010 (e o Governo terá de sobreviver mais um ano com a sua própria medicina - pelo que a tese do “prémio”, ou da “saída à papo-seco”, é, no mínimo, ridícula);

(3) nada obriga o Governo a esgotar os duodécimos, pelo que a austeridade é possível (assim o Governo queira e tenha capacidade de liderança para tal).

 

 As mudanças estruturais, essas, são da competência da AR e não do Governo. Por isso, é bom que os deputados arregacem as mangas e mostrem, por uma vez, o que valem.

 

 Aliás, todo este afã em torno do OE só põe a nu o pavor de uma classe política que se pavoneia com as penas da liderança, que exige ser paga pelo seu propagandeado dom de liderar, mas que treme só de pensar que o povo votante lhe grite por uma vez: lidere!

 

 Para mim, um OE à altura terá de lidar com quatro objectivos, vértices de uma mesma realidade:

(1) pôr fim ao crescimento da Dívida Externa;

(2) reduzir o ritmo de crescimento da Dívida Pública (só se emitindo nos mercados internacionais para renovar a Dívida Pública Externa existente), o que implica reconduzir de imediato o deficit orçamental a um volume que possa ser financiado internamente;

(3) organizar, para os investidores residentes, um mercado da Dívida Pública como deve ser;

(4) evitar uma crise bancária.

 

 O resto, as reformas estruturais (ver a próxima Caturrice), que seja AR a deitar mãos à obra e a mostrar trabalho. Para isso foi eleita, e para isso é paga.

 

 Do pouco que tem vindo a público, só o deficit orçamental parece preocupar Governo e Oposições. Vistos por este ângulo, os prenúncios não poderiam ser mais sombrios.

 

 Uma discussão interessante é aquela que gira em torno das deduções fiscais em sede de IRS. E é interessante por duas razões: uma, teórica; a outra, que bule com a pretensa coerência do nosso regime fiscal.

 

 Discutem os teóricos destas coisas sobre se há, ou não, “equivalência ricardiana” (o pobre do David Ricardo parece que não tem nada a ver com o caso, mas enfim). Haverá, se as pessoas, perante um estímulo fiscal financiado por Dívida Pública, começarem a poupar, neutralizando-o, porque sabem que, mais cedo ou mais tarde, essa dívida terá de ser paga (com mais impostos, naturalmente). Ou se reagirem a mais carga fiscal reduzindo o aforro, por anteciparem menos impostos (logo, mais rendimento disponível) no futuro.

 

 Boas notícias para a teoria: pelo menos por cá, não há sinal de “equivalência ricardiana”. Qualquer aumento de imposto hoje, sabemos todos, será sempre seguido de mais impostos amanhã. Entre nós, novos impostos geram sempre mais despesa pública - nunca, por nunca ser, superavits orçamentais. E a imaginação dos Governos, dos políticos e da Administração Pública não tem limite quando se trata de gastar o dinheiro dos contribuintes.

 

 A discussão tem, porém, a virtude de trazer à luz do dia as incoerências do regime fiscal – e, pior, a impreparação do legislador:

(1) a verdadeira carga fiscal é a Despesa Pública, que terá de ser paga, ou agora, ou lá mais para diante – e é sobre isto que importa legislar;

(2) são também deduções fiscais (em sede de IRC) os encargos financeiros das empresas - mas esses parece serem intocáveis, com as consequências funestas que já descrevi;

(3) o que faz sentido discutir a nível político é a carga fiscal directa por agregado familiar – uma discussão impossível com as leis fiscais que temos.

 

 Dá a ideia de que o Governo lê no Financial Times o que se está a fazer aqui e acolá para repor a ordem nas contas públicas, e corre a imitar o que lhe cai no goto, ainda que não perceba muito bem os detalhes. O anunciado imposto sobre o Passivo dos Bancos é um excelente exemplo do que seja a imaginação traduzida do inglês. E é patético (pateta?).

 

 O intuito parece ser distribuir a carga fiscal pelos Bancos de modo mais equitativo, por se considerar que os Resultados do Exercício são maus indicadores do acréscimo patrimonial a tributar – o que é um facto (mas não pelas razões que por aí se ouve).

 

 Ora, este imposto (que tem mais de tributação indirecta que de directa) pode ser facilmente repercutido. Não, nos investidores de obrigações emitidas ou de empréstimos tomados nos mercados financeiros; não, nas contrapartes dos mercados interbancários (MMIX e MM local); mas nos depositantes (diminuindo a remuneração dos depósitos) e nos empréstimos bancários (ampliando os spreads, agora sem qualquer ligação ao risco a que o Banco mutuante se expõe).

 

 O que é dizer, este imposto peregrino terá como contribuintes finais:

(1) os devedores do crédito bancário - sem que daí decorram mais provisões para atender a mais incumprimentos, aliás, previsíveis (um golpe mais na estabilidade financeira da Banca);

(2) os depositantes - sujeitando-os a uma dupla tributação e minando ainda mais as razões para aforrar (como financiar internamente a Dívida Pública, em tais circunstâncias?).

 

 Convém avisar o Governo que um imposto destes tem por único propósito contrariar as distorções na composição do Passivo dos Bancos, quando a política monetária além fronteiras é demasiado expansionista face à situação da economia doméstica. Por isso, só deve abranger os fundos tomados nos mercados interbancários ou nos mercados financeiros (quando por prazos curtos) e, desse modo, repor a atractividade dos depósitos.

 

 Se o Governo soubesse o que está a fazer e quisesse “matar dois coelhos com uma cajadada”, não tinha mais que tributar os Gastos com a Estrutura dos Bancos (Pessoal, Fornecimentos, Serviços, etc.):

(1) atingiria directamente um dos factores que mais fragiliza os nossos Bancos, hoje em dia, chamando-os à razão;

(2) não seria fácil repercutir, quer para montante, quer para jusante;

(3) e teria uma liquidação fiscal muito facilitada.

 

 Convenhamos. Não será, nem o deficit orçamental, nem a Dívida Pública, a chamar pelo FMI. Serão, sim, ou uma Dívida Externa (onde os Bancos marcam presença maioritária) que não seja mais possível refinanciar, ou um sistema bancário à beira da ruptura.

 

 Resta uma esperança. O crescimento económico não é uma espécie de fenómeno meteorológico como muitos analistas e comentadores nos querem levar a crer. É uma feliz conjuntura em que os de fora puxam e os de dentro empurram. Alguém quer empurrar?

 

(cont.)

 

  A.PALHINHA MACHADO

CATURRICES 09

 

LIGADOS À MÁQUINA - VII

 

 Se a realidade obedecesse à teoria convencional, os problemas com que hoje nos confrontamos tinham remédio santo (gentileza do FMI): desvalorizar a moeda, reequilibrar as contas públicas e esperar que a inflação acabe por roer o peso da dívida excessiva no rendimento real disponível.

 

 Mas não. Os nossos problemas actuais não encaixam exactamente no cenário que a teoria prevê, pelo que será inútil insistir na litania das mezinhas tradicionais. Explico porquê.

 

 Desde logo, porque o instrumento cambial (a taxa de câmbio) já não está nas nossas mãos, mas nas do BCE. Logo, não podemos mais contar com a desvalorização da moeda nacional para:

 

(1) baixar de supetão os CUT (Custos Unitários do Trabalho);

(2) repor de golpe a competitividade das nossas actividades que ainda geram uns “Euros externos”;

(3) e meter de vez algum bom senso na ilusão de que somos endinheirados.

 

 Depois, porque o sobre-endividamento da nossa desgraça é Dívida Externa (do Estado e da Banca), pelo que a inflação da teoria, um fenómeno exclusivamente doméstico deixá-la-ia intacta. A única inflação que nos poderia valer seria a que se verificasse ao nível da Zona Euro - mas alguém acredita nisso, com a Alemanha ao leme?

 

 Enfim, o reequilíbrio das contas públicas terá de acontecer a partir de uma situação em que uma bolha de crédito bancário empolava as receitas fiscais e, malgrado isso, o deficit orçamental atingia níveis incomportáveis (ou impossíveis de financiar, no que vem dar ao mesmo). Assim, o aperto orçamental terá de ser maior do que aquele que vem nos livros.

 

 Mas não é tudo. Resta ainda o sobre-endividamento externo dos nossos Bancos (sobretudo, no MMIX/mercado monetário interbancário em Euros e, agora, junto do BCE), para o qual a teoria, apanhada de surpresa, não tem remédio “macro” que nos valha. Terapia para isto, de efeitos rápidos, só os prosaicos aumentos (ou entradas) de capital.

 

 E convém pensar, desde já, em aumentos de capital muito, mas mesmo muito substanciais, porque esvaziar a bolha vai dar lugar a crédito malparado em catadupa - que os Capitais Próprios dos Bancos terão de absorver (isto, se não vier alguém com a peregrina ideia de um “bad bank”, para que sejam os contribuintes a pagar também mais esta factura da crise: o crédito malparado).

 

 Assumamos por uma vez: durante mais de dez anos gastámos à tripa forra, por conta do futuro - e o futuro chegou-nos no final de 2009. No ínterim fez história o dito: “Há mais vida para além do deficit”. Claro que há. Mas é só para nos dar uma oportunidade para pagarmos até ao último cêntimo a dívida em que os deficits entretanto se transformaram.

 

 Se fui claro até agora, começa a surgir com nitidez a saída para a crise em que endividamento desregrado face ao exterior nos lançou:

 

 - Reduzir em muito (da ordem dos 16%, como na Letónia) os CUT para, no mínimo, reequilibrar a BTC – mas o que seria desejável era começar a obter superavits para se ir amortizando alguma coisinha da Dívida Externa (só que isto não se consegue da noite para o dia);

- Encontrar o ponto de equilíbrio entre o desendividamento do Estado e a estabilidade financeira do sistema bancário (caminho do qual pouco se conhece e que terá de ser percorrido às apalpadelas);

- Satisfazer internamente todo e qualquer novo acréscimo da Dívida Pública;

- Ir amortizando aos poucos parte da Dívida Pública Externa (sem com isso agravar o desequilíbrio da tesouraria externa dos nossos Bancos, coisa complicada), seja através de superavits orçamentais, seja através da substituição de Dívida Pública Externa por Dívida Pública Interna;

- Convidar (como Don Corleone convidava) os nossos principais Bancos a procederem, sem demora, a aumentos de capital.

 

 Como se vê, descrever a saída para a crise nem sequer é difícil – o próprio diagnóstico nos indica por onde ir. Concretizá-la é outra coisa. Exige ideias claras, capacidade técnica, coragem política e liderança.

 

 A medida mais urgente é, sem sombra de dúvida, travar o endividamento externo do Estado. E isso é possível:

 

- Desenvolvendo instrumentos orientados especificamente para a Dívida Pública Interna (e, por favor, não me falem nos Certificados do Tesouro);

- Fazendo coincidir a taxa de juro das novas emissões de Dívida Pública Interna com a taxa de juro de equilíbrio de longo prazo (à volta dos 4%-5%);

- Organizando um mercado secundário digno desse nome para a Dívida Pública Interna, de modo a conferir-lhe suficiente liquidez;

- Como último recurso (que eu não vejo tão distante assim), lançando “empréstimos patrióticos” de subscrição obrigatória em função dos rendimentos individuais disponíveis, sejam quais forem origem e natureza.

 

 Para estimular o aforro por cá (e contribuir para a conversão da Dívida Pública Externa em Dívida Pública Interna), a cooperação dos Bancos é indispensável: ou repõem de moto próprio a atractividade dos depósitos bancários - ou terão de ser convencidos a fazê-lo, com a introdução de um imposto compensatório (isto é, com taxa variável, de tal modo que o custo final para o Banco Tomador coincida com a taxa de juro de equilíbrio de longo prazo) sobre os fundos captados no mercado interbancário e nos mercados financeiros (aqui, se por prazo igual ou inferior a 2 anos).

 

 Estou em crer que a conjugação de condições atractivas na Dívida Pública Interna com a liquidez proporcionada por um mercado secundário bem organizado acordará, de vez, os nossos Bancos para a importância de gerirem com mais cuidado as suas Bases de Depósitos – e para as virtudes da concorrência. O aforro agradecerá, reconhecido.

 

 É provável que estas duas medidas sejam mais eficazes no reequilíbrio da BTC (por via da redução das importações de bens de consumo e de serviços) do que na eliminação (e digo eliminação, não redução) dos deficits orçamentais. E que a redução de importações contribua ainda mais para a queda das receitas fiscais. Por isso, não há alternativa ao corte das despesas – a começar pelos gastos com as chefias (é aqui, e não no número de funcionários públicos, como é papagueado insistentemente, que está a raiz do mal).

 

 Na vida real, crise rima com insolvências. Por cá, muitas empresas vão cair insolventes e muitos devedores individuais não vão poder pagar (mesmo que vivam 100 anos mais). Não é preciso ser bruxo para prever o rombo que o crédito malparado vai fazer nos Capitais Próprios dos Bancos (aliás, já começou a fazer - e ainda a procissão vai no adro)

 

 Por isso, os Bancos têm de estar convenientemente preparados para os dias difíceis que se aproximam a passos largos – vindos, agora, pelo lado do Activo (as dificuldades de financiamento, essas, atingem o Passivo, como se sabe). O que é dizer, têm de dispor de programas de recapitalização para os próximos 5 anos – credíveis e que entrem já em linha de conta com o surto de crédito malparado que aí vem (melhor, que já cá está).

 

 Se eles não conseguirem recapitalizar-se, teremos nos braços, além das 3 crises que já hoje nos atormentam (a crise de Dívida Externa, a crise de Dívida Pública e a crise orçamental) uma crise bancária –e, então sim, não poderemos dispensar o aconchego do FMI e do Fundo Europeu de Estabilização.

 

 Se um tal momento chegar, esses empréstimos de resgate devem ser encaminhados, preferencialmente, para a recapitalização dos nossos Bancos. Com a vantagem adicional de ser possível reciclar algum desse dinheiro para converter Dívida Pública Externa em Dívida Pública Interna (através de uma sequência de operações que não cabe aqui descrever).

 

 Restam as medidas estruturais para corrigir um Estado disfuncional.

 

(cont.)

 

 A.PALHINHA MACHADO

A CRISE

 

 

A crise por que passamos em Portugal tem a ver não só com a má governança mas também com a exaustão do modelo de desenvolvimento instalado. A primeira causa resulta no excesso da despesa pública; a segunda provoca os défices nas balanças comercial, de transacções correntes e na de pagamentos.

 

O recurso aos mercados de capitais para cobertura do défice público e o endividamento externo do sistema bancário português revelam as fragilidades de um modelo que já podemos considerar absurdo.

 

Se durante o consulado salazarista o isolamento internacional nos conduzira a um equilíbrio mercantilista auto-sustentável, com o advento da revolução comunista esse equilíbrio foi desfeito e a produção de bens e serviços transaccionáveis drasticamente perturbada.

 

Reduzida a capacidade produtiva e reforçado o consumo em resultado dos aumentos revolucionários de salários, produziram estes fortíssimas tensões inflacionistas, os fluxos comerciais externos passaram a apresentar défices crescentes em resultado da quebra da produção e do crescimento do consumo; os capitais internos fugiram da instabilidade social e os externos deixaram de entrar; o Estado foi progressivamente chamado a assumir responsabilidades nos segmentos mais recônditos da economia; a Função Pública passou a constituir o refúgio possível para uma mão-de-obra à deriva no epicentro duma sociedade em grande convulsão.

 

Se a revolução comunista foi vencida internamente com relativa facilidade, as suas consequências económicas perduraram e várias foram as tentativas para lhes minorar os efeitos. Mas porque a aprendizagem democrática foi lenta, esses danos fizeram-se sentir sem que alguém conseguisse estancar a indisciplina laboral e a hemorragia de capitais, assegurasse a reposição da confiança e a retoma de um modelo de desenvolvimento sustentável.

 

E de remendo em remendo, com algumas «visitas» do FMI, chegámos à CEE.

 

Se analisarmos o histórico estatístico internacional, vemos Portugal com elevados índices de Formação Bruta de Capital Fixo (vulgo, Investimento) o que nos foi enchendo de satisfação mas logicamente nos conduziu à pergunta sobre a razão pela qual nem assim conseguirmos dar o salto no desenvolvimento. E a resposta só podia ser uma: o investimento que vínhamos fazendo não era o necessário ao nosso desenvolvimento.

 

Na nossa Formação Bruta de Capital Fixo assumiram grande relevo a construção e as obras públicas.

 

A política incentivadora da aquisição de casa própria foi indiscutivelmente um dos instrumentos políticos de maior eficácia no combate ao comunismo (não é revolucionário quem tem algo a perder) e assim foi que alcançámos um dos mais elevados índices de habitação própria no mundo ocidental. Ou seja, a política que esteve na base desse índice alcançou claramente os objectivos que dela se esperavam deixando de fazer sentido nela persistir por logicamente se dever admitir uma progressiva escassez da procura.

 

As obras públicas eram uma necessidade óbvia pois chagáramos a 1974 com uma rede rodoviária ineficaz e, por exemplo, com um verdadeiro problema ecológico resultante de graves insuficiências a nível do saneamento básico. A modernização rodoviária foi o apanágio de alguns Governos e o saneamento básico foi motivo para sérios endividamentos autárquicos. A obra surgiu e o cenário actual é bem melhor do que há uma trintena de anos mas a remuneração dos capitais investidos não foi globalmente assegurada e o défice do Estado agravou-se. Grande parte das obras de inequívoca utilidade pública não se enquadraram numa política de equilíbrio das contas públicas e, pior ainda, dado o grau de dependência endémica da Economia Portuguesa relativamente a factores externos de produção, nem sequer foram capazes de alcançar os objectivos clássicos duma política keynesiana. Em conclusão e grosso modo, o Investimento Público alcançou objectivos de conforto e qualidade de vida da população residente mas não tem sido um factor de desenvolvimento global da Economia Portuguesa.

 

Se a estas matérias juntarmos a opção de combate ao aumento de preços pela abertura à concorrência (leal?) externa e pela emissão «à la diable» de crédito ao consumo, ficamos com o cenário devidamente desenhado para compreendermos as causas dos nossos actuais problemas: exorbitantes défices das contas públicas e balanças comercial, de transacções correntes e de pagamentos que representam sério risco à soberania nacional.

 

Verter mais dinheiro bom sobre um mau modelo é esbanjamento e estultícia. É hoje imprescindível imaginarmos um novo modelo de desenvolvimento.

 

O novo modelo para a nossa Economia tem que assentar no urgente relançamento da produção de bens e serviços transaccionáveis a começar pela Agricultura e pelas Pescas cujos problemas são sobretudo (se não apenas) de índole comercial ; a Indústria (naval, de equipamentos agrícolas, etc.) desenvolver-se-á como consequência natural da retoma do Sector Primário.

 

O benchmarking permanente da nossa competitividade ditará por certo as políticas que irão sendo de aplicação necessária mas não parece que devamos persistir num cenário de desbragamento perante a agressão comercial de economias em que não há respeito pelas condições de trabalho, em que não há liberdade sindical, em que a protecção do ambiente é letra morta.

 

As contas públicas carecem de reequilíbrio e este tem que ser alcançado pela redução radical da despesa corrente na certeza, porém, de que o relançamento da actividade produtiva provocará um aumento das receitas.

 

Na despesa pública corrente assumem especial relevo as Despesas com Pessoal sendo que o despedimento de funcionários deixará de ser necessário se a actividade produtiva voltar a constituir uma alternativa.

 

Tudo, desde que a Fiscalidade deixe de ser a actual impulsionadora da economia paralela.

 

Lisboa, Setembro de 2010

 

 Henrique Salles da Fonseca

“HOJE É SÓ MINEIROS”

 

 

- Não, hoje é só mineiros – considerou a minha amiga, indiferente a quaisquer outros subterrâneos das nossas lucubrações provenientes das transmissões mediáticas diárias, agudizadas em previsões mais catastróficas ainda, que a catástrofe sobre os trinta e três mineiros do Chile, em que todos se salvaram e para mais são reconhecidos como heróis nacionais, tal como outrora os “bourgeois de Calais” que o Rodin esculpiu. Mas estes até foram apresentar-se ao rei inglês, Eduardo VI, descalços, em camisa e com a corda ao pescoço, para salvar os habitantes da cidade, que o rei inglês queria render pela fome. Não chegaram a morrer, mas posteriormente tiveram uma estátua em Calais, o que não aconteceu com o nosso Egas Moniz que também foi com a família nos mesmos trajes humilhantes dos ricos burgueses franceses, para resgatar a palavra que jurara ao rei de Leão, e não lhe conheço nenhuma estátua tão célebre assim, não sei se por falta de Rodin, mas é também porque nem todos acreditam na história da hombridade de Egas Moniz, acham que tudo não passa de lenda, pois os nossos feitos como nação são muitas vezes atribuídos à lenda, também não sei se por termos inveja, já que os nossos feitos de agora são outros, não contêm tanta heroicidade, nem espírito de sacrifício para se honrar a palavra como o nosso Egas, ou para salvar uma cidade como os ricaços de Calais.

 

As palavras são como as cerejas.

 

- Mas como foi possível uma coisa daquelas, sem condições de segurança, a tantos metros de profundidade? – perguntei eu que mal tenho podido assistir às reportagens, devido aos muitos afazeres da domesticidade.

 

A minha amiga não é de cerimónias e largou com imponência:

 

- Deve ter havido grossa falcatrua. Faltam condições, não posso falar, vão ser averiguadas. Alguma coisa está errada, arriscar daquela maneira! … Aquilo afinal é ouro e cobre. - As coisas que a minha amiga descobre! – E, se fecha, é o ganha-pão daquela gente. Porque ali estavam aqueles. Cá fora estão muitos que trabalham ali.

 

- Mas foi um feito memorável, com a colaboração dos grandes, sempre os mais generosos e os mais capazes. A Alemanha, a NASA, o homem é um ser fantástico!

 

- Mas se não fossem os media não teria havido, talvez, um salvamento tão espectacular.

 

- E talvez sim, que as grandes potências gostam de mostrar o seu poder e a sua bondade.

 

- Oh! Sempre o seu poder! Nem sempre a sua bondade!

 

Decididamente a minha amiga hoje está para contrariar.

 

Berta Brás

CATURRICES 08

 

 

LIGADOS À MÁQUINA - VI

 

 Já desde 2002 que era evidente a estratégia dos Bancos portugueses:

1º) Endividar-se por atacado e a curto prazo nos mercados interbancários europeus (MMIX; onde não eram tantos assim os Bancos que lhes davam troco);

2º) Lutar por quota de mercado cá dentro (pela via da facilidade, obviamente: crédito pessoal para aquisição de casa própria, para consumo e para extravagâncias; crédito ao sector público para mais consumo e mais extravagâncias);

3º) Aproveitar todas as oportunidades para fazer, lá fora, umas quantas operações de titularização que atenuassem o mismatch (isto é, o desequilíbrio no tempo entre pagamentos certos e cobranças incertas) em que viviam e dessem algum alívio ao sufoco do roll over (a necessidade de renovar, renovar sempre as dívidas no MMIX).

 

 Quando a quota de mercado é, para accionistas, analistas e tutti quanti, o critério supremo da excelência de um Banco - o modo como ele se endivida, o nível do seu endividamento e o risco a que está exposto são minudências a que ninguém liga. E, por cá, ninguém ligava.

 

 Tudo começou quando ficou assente que Portugal seria um dos Estados fundadores da União Monetária. A partir desse instante, desaparecido o cheiro a risco cambial, que até então afugentara os investidores estrangeiros, duas vontades uniram-se com entusiasmo: (1) a de emprestar, protagonizada por alguns Bancos lá de fora;

(2) e a de pedir emprestado, que agitava os nossos Bancos.

 

 Lá fora, no MMIX, a liquidez era mais que muita, e os juros baixos. Cá dentro, vivia-se um longo período de seca e os juros eram puxadotes. Daí, o entusiasmo:

- Os Bancos lá de fora passavam a escoar mais alguma liquidez com melhor retorno e sem terem de afectar Capitais Próprios a estas novas oportunidades de negócio (singularidades do Acordo de Basileia de 1988);

- Os nossos Bancos entravam numa época de afluência como nunca tinham conhecido

- liquidez, praticamente a que quisessem, e margens de intermediação (ou seja, a diferença entre os juros que praticavam e os juros que tinham de pagar) de fazer inveja (recordo-me bem do que, por esses dias, os Bancos estrangeiros comentavam sobre o “paraíso português” – aliás, foi esse o único oásis que por cá se viu).

 

 Para os nossos Bancos, esta forma de se financiarem nem sequer era novidade. Desde a 2ª Carta do FMI (1983 -85) que já dependiam da liquidez que o BdP cedia com parcimónia, mas sem exigir garantias específicas. No MMIX foram encontrar o mesmo método, mas com volumes incomparavelmente maiores e bem longe de uma ou outra pergunta mais indiscreta que, por desfastio ou birra, o BdP entendesse fazer.

 

 E o Bdp? Ah! Como se orgulhava da facilidade com que os nossos Bancos se financiavam lá fora! “Que não havia quaisquer dificuldades no financiamento externo da economia” era o seu santo e a sua senha, quando olhava de soslaio para os crescentes deficits da BTC.

 

 Escapava-lhe, é certo, que os nossos Bancos, ao privilegiarem o financiamento por grosso (no MMIX e através das operações de titularização), faziam-no em prejuízo da Base de Depósitos, instalavam um cartel de facto que abolia a concorrência (se os principais Bancos se financiavam todos às mesmas taxas, porquê competirem em preço no crédito e nos depósitos; e os restantes, sem Capitais Próprios para aventuras, e demasiado pequenos para terem acesso directo ao MMIX, iam a reboque) - e acabavam aos poucos com os motivos para aforrar. O resultado iria aparecer, como era fatal, sob a forma de deficits crescentes da BTC.

 

 Obviamente, as preocupações “macro” do BdP iam noutro sentido: o desequilíbrio orçamental, o desequilíbrio orçamental é que nos afastava do paraíso que os Bancos estrangeiros (ou porque eram míopes, ou porque queriam mostrar-se simpáticos, vá-se lá saber) diziam avistar por estas bandas.

 

 As quotas de mercado que todos os nossos Bancos perseguiam com denodo davam assim lugar a uma corrida para ver quem conseguia emprestar mais por minuto, mas sem grandes diferenças no custo total para o devedor (a inovação dos nossos Bancos ia toda para arredondar o seu retorno, através de comissões e débitos vários).

 

 Emprestar, emprestavam eles:

(1) de preferência, a quem apetecesse comprar e não tivesse no bolso dinheiro para tanto, nem fizesse grande questão sobre quanto isso lhe custaria;

(2) com algum finca-pé, a quem quisesse produzir para saciar esta febre de compras;

(3) nem pensar, àqueles que empreendessem essa actividade eminentemente arriscada que é produzir para exportar (“E por lá? Também há quem empreste para comprar, assim, a rodos, como cá dentro?” interrogar-se-iam os nossos avisados Bancos).

 

 Não sem razão, reconheço. A grande maioria das empresas portuguesas estava (e continuou a estar) endividada até aos cabelos, pagava (e continuou a pagar) mal aos fornecedores cá dentro (os lá de fora exigem cartas de crédito), exibia (e continuou a exibir) capitais que só existiam na imaginação fértil dos contabilistas – enfim, entrava na era da liquidez abundante e do crédito fácil debilitada por falta de capital e muitas dívidas.

 

 Então, porque não se capitalizaram elas para aproveitar a conjuntura expansionista, desencadeada por uma bolha de crédito bancário em que todos viam virtude? Porque (é aqui que entram os Governos):

(1) entre nós, a fiscalidade premeia o endividamento e penaliza a capitalização;

(2) em vez de exigirem às empresas mais capital, os Governos iam-lhes oferecendo linhas de crédito generosas para elas se endividarem ainda mais (“Que é isso de autonomia financeira?” pensariam os nossos governantes “Nós somos óptimos, a inveja da estranja, e vivemos a crédito também”).

 

 A realidade estava, porém, à vista: desde 1997-98 (e, seguramente, a partir de 2001) que cavalgámos uma bolha de crédito que o MMIX financiava. Uma bolha que encharcava de liquidez a construção civil, as obras públicas, a distribuição e as empresas na órbita do OGE – tudo actividades que não só não geram “Euros externos”, como os absorvem em grande quantidade. Disso se queixava a BTC, mas ninguém lhe dava ouvidos.

 

 Esta bolha de crédito bancário reservava, porém, outras (más) surpresas.

 

 Ao nível da execução orçamental, os Governos não percebiam que o crescimento das receitas fiscais era causado, não tanto pela maior eficiência da máquina fiscal, mas mais pela expansão acelerada do Sector de Bens não Transaccionáveis (SBnT: a construção civil, as obras públicas e a distribuição, entre outros) que representava, de longe, a maior fatia da matéria colectável e onde os nossos Bancos faziam desaguar a maior parte da liquidez que pediam emprestado lá fora.

 

 Dito de outro modo: com o nível que a Despesa Pública tinha atingido, os deficits orçamentais só não eram incomensuravelmente maiores porque o crédito bancário inflacionava as receitas fiscais. Imagine-se para onde irá o deficit orçamental quando a bolha esvaziar (o que terá de acontecer, mais tarde ou mais cedo).

 

 Ao nível “macro”, todos fingíamos não ver que a bolha estava a moldar, de maneira dificilmente reversível, a economia portuguesa:

(1) pelo lado da oferta, centrando-a no SBnT (o tal que não gera “Euros externos”);

(2) pelo lado da procura, criando a ilusão de que todas as intenções de consumo poderiam ser concretizadas.

 

 A teoria “macro” que, na verdade, interessa para o caso reza assim: nas economias “seguidoras” (como a portuguesa) é o SBnT que determina os Custos Unitários do Trabalho (CUT) – e os CUT são um dos factores mais decisivos da competitividade externa.

 

 Entre nós, empolado por uma bolha do crédito bancário com tão frágeis alicerces, o SBnT:

(1) cresceu desmesuradamente;

(2) fez crescer o PIB (para grande contentamento dos analistas);

(3) inflacionou as receitas fiscais (idem);

(4) em dez anos, deu um piparote de 30% aos CUT - enquanto na Alemanha caíam cerca de 15% (isto passou-lhes ao lado);

(5) e deu cabo da BTC (que consideravam perfeitamente financiável ad aeternum).

 

 Perguntam, tantos de nós, como foi possível que tudo isto acontecesse? Foi assim.

 

(cont.)

 

  A.PALHINHA MACHADO

OLHAR EM FRENTE – 1

 

 

QUEM SE FIA…E DE QUEM?

 

 

CTT de Tavira, repleto de clientes.

 

E digo clientes porque, na transformação sofrida, de Serviço público para empresa do Estado, os utentes deixaram de ter um papel mais ou menos importante nos objectivos perseguidos.

 

Papel e importância que, na alienação de empresa, preparada para breve em nome da regulação do deficit orçamental, vão decerto figurar em níveis de satisfação muito precários.

 

Após privatização, estarão em primeiro lugar as prestações aos gestores, depois o lucro, depois a consolidação patrimonial, mais adiante a frota para a Administração. Se algo sobrar, pode ser que se invista na melhoria estrutural, na criação de postos de trabalho e, nessa altura, se pensar a sério em fazer chegar ao utente – perdão, ao cliente – um serviço de maior qualidade.

 

Os exemplos em áreas que foram (e não deviam ter sido) privatizadas não nos deixam outra perspectiva que não seja o cepticismo.

 

Mas, a nossa crónica não tem a ver com esta temática.

 

O facto do meu talão de atendimento ter um número bastante alto, deu tempo e jeito para observar os diversos tipos de utilizadores que estavam à minha frente. Era dia de vales da Segurança Social, percebi depois. Mais propriamente, RSI (rendimento social de inserção).

 

Uma senhora dos seus cinquenta anos, não mais, bem nutrida e de garganta bem afinada, constatou com o pessoal do balcão o facto de que o “vale” não tinha chegado.

 

- Eu não percebo estes carteiros, o vale já cá devia estar…

 

A funcionária, com muita paciência, lá lhe deu o número de telefone da estação para ela, logo que recebesse o vale de correio, perguntar se haverá dinheiro em caixa para o pagamento, pois, como é sabido, os CTT só pagam os vales se houver disponibilidade em cofre.

 

Voltou-se a senhora para outra cliente que ela não conhecia de lado algum:

 

- Já no mês passado também demoraram, mas isso foi culpa deles. A segurança social anda sempre atrasada…

 

E no seu falajar de estridência acima da média, antes de sair, ainda interpelou outro dos que esperavam a sua vez:

 

- Isto não pode ser. Eles atrasam-se, mas eu preciso do dinheiro. Vá lá uma pessoa fiar-se na Segurança Social!

 

Perante o seu aspecto e eventual capacidade e desenvoltura, movendo-se em perfeitas condições e falando alto e bom som, fiquei a pensar:

 

- Ela não se fia na Segurança Social. Será que temos de nos fiar em gente que nada produz mas cada vez mais exige que o País a sustente?

 

 Luís Horta

VAMOS TOMAR UM CHÁ?

 

 

Bule de Chá (Dinastia Qing)

Fonte: O livro do Chá (J. Duarte Amaral)

 

 

Escalda-se o bule de preferência de porcelana, cerâmica vitrificada ou vidro. Note: o bule deve ser limpo com água e rodelas de limão, nunca use detergente! E deve ser usado sempre para esse mesmo fim: fazer o chá.

 

Deita-se uma colher de chá ou um saquinho (de musselina) por chávena no bule. Evite as saquetas de papel que podem liberar com o calor substancias tóxicas que fazem mal à saúde.

 

Deitar água filtrada bem quente, quase a ferver, sobre as folhas de chá que estão no separador. Abafa-se e deixa-se em infusão por 3 minutos (chá preto). Retira-se as folhas para não dar gosto de cozidas ou passa-se no coador para servir.

 

Deve-se evitar adoçar para não alterar o gosto do chá ou então usar mel. Consumir até dez minutos, em chávena de porcelana previamente escaldada, para aproveitar o aroma e as propriedades benéficas do liquido.

 

Como o chocolate e o café, o chá, bebida universalmente difundida, é apreciada pelas suas propriedades aromáticas, palatáveis e salutares há mais de quatro mil anos. Entre nós, quando oferecida, é sinal de bom gosto e hospitalidade. Originário das montanhas do sudeste da Ásia, planta da família das camélias, ritualizada na China, Japão e Índia, na Europa chega a ser usado até como remédio. Apesar de algumas controvérsias, segundo o Livro do Chá ( J. Duarte Amaral), na Inglaterra tomar chá à tarde acompanhado de bolinhos é hábito nacional introduzido em 1662 por D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV de Portugal e esposa do rei Carlos II da Inglaterra.

 

 

 

D. Catarina de Bragança (pintura a óleo)

Museu dos Coches, Lisboa

Fonte da foto: O Livro do Chá (J. Duarte Amaral)

 

Depois de colhido, as folhas emurchecidas e processadas (enroladas, fermentadas, secas e embaladas) transformam a clorofila em teofilina responsável pela cor castanho escura do chá preto. Comercializado em folhas e saquinhos é consumido no mundo inteiro. Na composição do chá há uma gama enorme de substâncias que lhe dão diversificadas propriedades. Além da teobromina, consagrado bronco dilatador, tem xantina, alcalóide semelhante à cafeína, ácidos amino-orgânicos, saponinas, polifenóis anti-oxidantes, sais minerais, lipídios, flúor, ácidos graxos, carotenóides, e polissacarídios voláteis responsáveis pelo aroma. Essa rica composição possibilita efeitos como:

-Alivia dores de cabeça, cólicas e vertigens.

- Combate a fadiga física e mental.

-“Purifica” estômago e fígado

-Estimula a função digestiva, renal e cerebral

-Activa a memória

-Facilita a diurese

-Mitiga a sede -Tem capacidade protectora antioxidante

-Previne cáries dentárias (quanto usado em bochechos após as refeições)

-Acelera a digestão e o metabolismo do colesterol

-Diminui a incidência da hipertensão arterial (não tem cloreto de sódio)

-Estimula a recuperação de doentes

-Inibe a produção intestinal de numerosas substâncias cancerígenas

-Ajuda a emagrecer

-Previne a formação de cálculos renais

-Combate o mau hálito principalmente na ingestão de alho, cebola e bebidas alcoólicas.

-Sem açúcar, é a bebida ideal para os obesos.

 

Em uso tópico ou local, foi usado como anti-micótico nos pés, acalma as irritações de pele. Dá brilho aos cabelos quando usado para enxaguá-los. Em compressas embebidas de chá ajuda a aliviar olheiras quando os olhos estão cansados. Mantém as cores dos tecidos. Pode ser usado para adubar plantas. No Oriente, dá até prognósticos para o futuro, quando as folhas se depositam no fundo da chávena, permitindo uma interpretação pelo adivinho.

 

“Uma chávena de chá por dia ou mais livra-te de ir parar nos hospitais; Uma chávena de chá por dia mantém a doença arredia!”Diziam os ingleses e americanos defendendo o seu produto. Com tantas qualidades, eu te proponho: Vamos tomar chá?

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 10 de Outubro de 2010

 

Dados: O Livro do Chá (J. Duarte Amaral)

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