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A bem da Nação

O TURISMO NO DESENVOLVIMENTO DO SOTAVENTO ALGARVIO –IV

 

 

Nos artigos anteriores deixámos expresso o interesse na participação dos nossos leitores na discussão e no aprofundamento deste assunto que obviamente influencia a vida da maioria, digamos mesmo da totalidade da população do Sotavento.

 

O interesse e o nosso desejo de que isso acontecesse embora a minha experiência pessoal seja bastante negativa pois ao nossos concidadãos gostam muito de falar, e discutir mesmo, nos cafés e em casa ou onde der jeito mas participar activamente já é outra coisa ou melhor quase nada.

 

E de facto só tive um contacto de um leitor que me fez a pergunta seguinte: tem sido gasto bastante dinheiro com o programa ALLGARVE para tentar contrariar a baixa de procura por parte dos turistas mas como é que isso se encaixa nas sugestões que foram apresentadas nestes artigos e na perspectiva de uma subida de preço do petróleo que naturalmente vai fazer aumentar o custo das passagens de avião?

 

A pergunta é oportuna e revela uma preocupação legítima pelo que julgo importante, direi mesmo essencial responder-lhe tentando esclarecer um assunto que de facto é vital para o nosso desenvolvimento, mais exactamente para a nossa sobrevivência.

 

Com efeito a crise que agora nos aflige, isto é que aflige todo o mundo, é fundamentalmente uma fase da evolução caracterizada pelo aumento da população da Terra que era em 1900 cerca de 1 bilião e agora se aproxima dos 7 biliões, pela produção crescente de energia que é essencial para a vida em geral e para a comodidade e para o alto nível de vida em particular, quase toda assente na utilização de carvão e de petróleo.

 

Com especial incidência para este último por ser menos poluente e mais utilizável mas que atingiu já o máximo da capacidade de produção razão pela qual irá fatalmente ir aumentando o seu preço. Até porque conforme o seu preço vai subindo vão surgindo outras opções energéticas sempre mais caras mas algumas com potencialidades de menor impacto ambiental o que é mais um factor cada vez mais importante a considerar.

 

O conhecimento da evolução da humanidade face a choques do preço do petróleo começou a ganhar forma com o de 1972 mas nessa altura a população da terra era quase metade da actual e ainda não havia a consciência generalizada das consequências prováveis do aumento da produção de gases com efeito de estufa na vida da humanidade como hoje se verifica haver.

 

Para quem quer viver do turismo e dentro do que foi afirmado nos artigos anteriores o que interessa a toda a população afectada é que os turistas que nos visitem tenham a máxima capacidade de consumir bens e serviços que sejam fornecidos com a sua intervenção maximizada de forma a que o valor acrescentado que fica na região também seja maximizado.

 

Ora para se fazer um programa de dinamização da procura do destino Algarve e portanto também Sotavento há que definir que tipo de pessoas deverá ser abordado e quais serão as motivações que os farão decidir vir para cá passar férias ou trabalhar ou tratar-se ou viver.

 

O facto de haver a previsão de o custo das viagens ser mais alto só vem reforçar esta necessidade de gestão muito eficiente da publicidade e dos respectivos conteúdos.

 

Na verdade a lista dos conteúdos que veio publicada e que é apresentada em roteiros recentes não parece a mais efectiva pois certamente um aficionado por pesca desportiva, ou por fazer vela ou jogar golfe durante o inverno, ou caçar, ou fazer mergulho, que viva no norte da Europa, por exemplo, poderá considerar a vinda ao Algarve desde que o preço que lhe apresentem seja razoável e que tenha ofertas deste tipo com a qualidade indispensável.

 

Ora não tem sentido gastar dinheiro a oferecer danças populares e outras actividades que pouco ou nada influenciam a decisão favorável dos candidatos a turistas e não se vê investir por ventura menos que isso na promoção da qualidade do produto turístico que se oferece.

 

E isto não diz respeito apenas às entidades oficiais mas principalmente às particulares que não têm dado provas de entenderem que o rumo que têm seguido tem que ser alterado imediatamente se quiserem diminuir o desemprego dos trabalhadores e aumentar os lucros das suas empresas.

 

E por hoje ficamos aguardando mais participações.

 

 José Carlos Gonçalves Viana

“Isto é ditadura”

 

 

Contei à minha amiga uma história recente, de alguém em busca aflitiva de emprego, que fez a sua entrevista, começou o seu trabalho, depois de ter sido aceite, de ter preenchido os papéis necessários, depois de estar duas semanas a trabalhar e a esforçar-se bem, dando-se bem com as pessoas, disponível para prolongar o seu tempo de trabalho, sempre que requisitado… Na véspera assinou os papéis do contrato, no dia seguinte foi despedido por uma outra empregadora que não tinha ainda aparecido na história. Não percebeu porquê, a desculpa foi de um engano de dez euros na caixa, não se sabe se real se fictício. A minha amiga considerou:

 

- Os despedimentos que se fazem agora, sem explicação nenhuma! E ninguém se atreva a perguntar! Isto é ditadura. Antigamente, mesmo com razão, o despedimento não podia ser de qualquer maneira. Agora pode. O lápis azul voltou. A Manuela Moura Guedes e o Moniz perderam os seus empregos porquê? Esses também se podem queixar de ditadura. Ele começou a acusar demais. Essa história de haver liberdade acabou. Não há. Já não há. Alguém que se atreva a dizer mal! Essa história até custa a crer! Como é que se pode fazer isso?

 

- Não, ditadura é um regime com significado histórico, em que se condenam ideologias refractárias ao sistema. Aqui não se trata disso, trata-se de uma brincadeira de indivíduos, armados das suas falsas superioridades de empregadores, geralmente sem categoria mental, para brincar com os que eles consideram inferiores, porque estes estão na posição de necessitados de trabalho. Há outros casos, razões de vingança, razões de inveja, as ciganas devem esclarecer. A arbitrariedade aqui faz lei, ela nos dirige, o medo instalou-se. É certo que as ditaduras, hitleriana, stalinesca, de Ceausescu, dos ditadores africanos, de ditadores sul-americanos, chineses, etc., foram e são horrendas, sem sentido, de uma perversidade medonha, inverosímil, equiparável aos atentados da natureza cega, nos seus furacões, nos seus tsunamis, nas suas precipitações arrasadores, que não respeitam nada nem ninguém do “pobre bicho da Terra”. Mas impostas por chefes, mantinham a nobreza de uma monstruosidade proveniente dos cabecilhas, dos governantes, dos que detinham ou detêm o poder, que eles julgam sagrado, sobre os outros homens, como no tempo dos Tibérios. Hoje, trata-se de uma rede, com muitos nódulos – os mandantes de vária ordem – cujos débeis fios que os interligam deverão esforçar-se por se manter firmes, e aceitar prepotências sem rebeldia, caso contrário, afundam. Embora, como no caso da aranha e da sua teia, outro filamento cubra depressa a ruptura. Uma rede forte, muito cobarde e muito mesquinha, que não dá azo a independências, nem a desobediências, excepto nas escolas, para os alunos, onde reina a liberdade da indisciplina, sofismadamente, para uma vida posterior em que tal desvairamento educacional passará à história, mas só nessa altura os meninos o saberão. Ser-se livre? Mas como, se o medo impera? Democracia, sim, que o povoléu das chefias é quem manda, após o esforço domador meritório do chefe supremo.

 

Berta Brás

CURTINHAS Nº 83

 

 

TIQUES DE UMA “JUSTIÇA DE CLASSE” - II

 

 

 Falar em prestação de contas ao 3º Poder é como recitar os Versículos Satânicos em Meca: os nossos juízes abominam que as tendências (outros diriam, as idiossincrasias) das suas decisões sejam escalpelizadas e trazidas para a luz do dia.

 

 E quando não podem mesmo furtar-se a tal, porque a lei a tanto os obriga, recorrem a uma linguagem cifrada, cujo “verdadeiro sentido” só está ao alcance dos “verdadeiros iniciados”.

 

 Entendamo-nos. Se as sentenças são, no dizer da Lei, públicas, então é de esperar que sejam fundamentadas com clareza e bem sistematizadas, para que o público a que se destinam possa lê-las e compreendê-las sem dificuldade, se nisso tiver interesse.

 

 Qual quê? Quantas vezes se capricha na escrita erudita, palavrosa, em linguagem arrevesada, com remissões para remissões, ao longo de centenas e centenas de páginas, onde há que esgravatar muito para encontrar o fio lógico condutor da decisão proferida – o que nem sempre se consegue, aliás.

 

 Que o 3º Poder me perdoe, mas Lógica e Gramática são fundamentais: Lógica para a clareza do pensamento e para a boa arrumação dos fundamentos; Gramática para a clareza da escrita e para que a fundamentação se perceba. Acontece que, tanto uma como outra parecem andar algo arredias do “caldo cultural da justiça”.

 

 Um outro tique está ligado à “livre apreciação da prova”, regra que é vista como corolário dos princípios da independência e autonomia dos juízes. E estamos agora no contexto do “penal”, posto que no “cível” o juiz é, apenas, o árbitro que decide segundo o mérito dos argumentos esgrimidos pelas partes em litígio, sem investigar.

 

 As provas materiais, pela sua própria natureza, permanecem intactas (quando não são perdidas, destruídas ou inquinadas) desde a fase de investigação até à audiência de discussão e julgamento, valendo o que valerem. O mesmo já não se passa com a prova testemunhal, onde hoje se diz uma coisa para logo se desdizer amanhã, conforme soprarem os ventos.

 

 E lá vem o tique: só os testemunhos prestados na fase de julgamento fazem prova e relevam para formar a convicção do tribunal. Talvez porque legisladores e juízes não põem as mãos no fogo pela autonomia e independência (melhor se diria, a proficiência e a isenção) da investigação.

 

 Temos assim a aberração de testemunhos que o juiz de instrução tem em conta ao deduzir a acusação, logo serem varridos do processo e ignorados na fase de julgamento.

 

 Como nos surpreender, então, com a ligeireza (para não dizer desleixo, incompetência) na investigação de crimes que deixam no terreno escassa prova material? Para quê esforçar-se se, em audiência, o dito será dado por não dito?

 

 Bastaria que o juiz de instrução determinasse quais as provas testemunhais a veicular intactas para julgamento – e, muito provavelmente, a investigação tornar-se-ia bem mais capaz, e os julgamentos menos demorados.

 

 Por fim, o tique da “justiça de classe”. Quem assista, com olhos de ver, a um julgamento no “penal” não deixará de se surpreender com a cenografia: ali, juízes e acusados (os quais, recordo, gozam ainda da presunção de inocência) estão em mundos radicalmente opostos – situação que os juízes não perdem oportunidade para vincar bem vincado.

 

 Num dos resquícios mais evidentes do seu passado senhorial, os juízes são, ali, os “senhores”, o 1º estado; os acusados (ou pronunciados?), esses, são o 3º estado, o “povo ignaro”, mantido afastado mesmo dos seus advogados - apenas “coisas” cujo destino já lhes não pertence. Os juízes, pelo contrário, têm a serena certeza de que, façam o que fizerem, nunca serão “povo”.

 

 Daí a dificuldade que o “caldo cultural da justiça” tem de lidar com os casos em que outros membros do 1º estado se vejam arrastados para a posição de “povo” pronunciado. A cenografia fica baralhada. Não existe mais o Rei que, só ele, tinha o poder de julgar a nobreza. E o impasse (leia-se: “a aguardar melhor prova”) ou a absolvição envergonhada são, as mais das vezes, o resultado final.

 

 Estou ciente de que, na generalidade dos casos, o 3º Poder faz por julgar bem – e julga bem. Mas estou igualmente ciente de que, à primeira oportunidade, estes tiques vêm ao de cima, quer no espírito do legislador, quer na decisão do julgador.

 

 E isto porque o “caldo cultural da justiça” não se libertou, ainda, das suas raízes medievais e as leis programáticas têm levado de vencida os princípios orientadores do Direito.

 

 Enfim, todos fazem por não ver que a “justiça popular” nada mais é que uma forma de “justiça de classe” – apenas com o sinal trocado.

 

 (FIM)

 

Setembro de 2010

 

 A.P.MACHADO

O PARAÍSO TERREAL

 

 

Sem crise, crescimento vertiginoso, big cacique com 80% de aprovação, terra sem vulcões nem terramotos nem tsunamis nem furacões, a maior reserva natural do mundo, e a perspectiva de ser governado por uma terrorista, mentirosa e “metida a macho”, não é necessário dizer qual é esse país da felicidade terrena.

 

Mas... alguns números e opiniões de técnicos e especialistas são de fazer inveja a qualquer alienígena:

Um dos números curiosos é que o país tem o sistema telefónico via celular mais caro do mundo!

Com um custo 75% superior a Honduras o segundo mais caro, e 1.945% mais caro do que na Jamaica!

Outro equilíbrio interessante entre as várias regiões paradisíacas: o gás, de consumo caseiro e industrial custa, no Rio de Janeiro, mais 37% do que em São Paulo, a capital da indústria e da finança nacional!

Como o paraíso paga os juros mais altos do mundo, o que, como é evidente, atrai capital especulativo a curto prazo, e com isto, para pagar esses juros vai-se aumentando a famosa dívida interna. Dívida essa que passa dos 61% do PIB nacional. (Um bomba relógio). A UE limita esse endividamento a 60%! E a previsão é que a taxa básica ainda aumente mais 2% até ao fim do ano!

 

É o melhor paraíso: emprestando dinheiro ao governo a mais de 10% ao ano... se tiver alguma poupança amealhada não precisa trabalhar!

 

Segundo o jornalista Elio Gaspari este paraíso “é um dos países onde mais se trabalha para sustentar o governo que, por sua vez, melhor remunera seus gordos credores. De uma lista de 135 países, o Estado paradisíaco, que tanto arrecada, disputa com o Turquemenistão a menor taxa de investimento do mundo. Um dia, bomba relógio, o efeito Madoff vai bater-lhe à porta.

 

Para o eleitor ignorante anunciou-se e propalou-se aos sete ventos que o país finalmente pagara a dívida externa – leit motiv dos raivosos ataques da ex teórica esquerda – e que passou até a credor do FMI! Sensacional. Mas pagou como? Emitiu obrigações do Tesouro a cinco e dez anos, mundo afora, garantindo (?) pagamento de 6%, limpinhos, ao ano!

 

Além disso tem coisas que as minhas meninges não conseguem alcançar. Por exemplo: há dias fui comprar um medicamento. O atendente foi buscar a caixinha, passou no código de barras e eu li na tela do computador 49,75!!! Perguntei, pasmado: - 49 reais? – Não; isto é o desconto! – 49,75% de desconto é algo inimaginável, e assim mesmo as farmácias ganham brutalidades, porque finalmente o preço do medicamento ainda conseguiu ficar em mais do dobro do que nos EUA!

 

Mas também tem coisas “óptimas”: os medicamentos pagam, SÓ, 39% de impostos ao Estado!

 

Um automóvel produzido neste paraíso e exportado para a Argentina ou México é vendido nesses países por cerca de 30% menos do que na terra onde nasceu! A média geral de impostos que os felizes habitantes deste Éden pagam é de 36,5% do PIB. Quase o mesmo do que a Noruega onde a saúde, a educação, a investigação, a... deixa p´ra lá!

 

Diz o big cacique no meio dos seus inflamados e ridículos discursos: “O povo tem que pagar impostos altos para termos um Estado rico”! Fantástica esta noção economia! Esqueceu Sua Sabedoria que a economia não se faz de impostos, muito pelo contrário, mas fomentando a produção, criando infra-estruturas e postos de trabalho em vez de distribuição de esmolas eleitoreiras.

 

E ainda surgiu em Portugal – ó pobre país! – um movimento para levar o big cacique para secretário Geral da ONU! Santa ignorância ou malvada subserviência, agora que o Éden está a crescer, à REVELIA DO GOVERNO?

 

Acaba de cair da França um ministro que gastou, oficialmente doze mil euros em cigarros! Ou ele fumava muito, ou distribuía a convidados. Soube-se disso e o ministro... dançou.

 

Neste Paraíso a dança é outra. É a famosa dança da pizza, com distribuição de tanto dinheiro da roubalheira, que os “beneficiados” têm que transportar a grana escondida nas cuecas, nas meias, na carteira da deputeda, perdão, de-puta-da (o que é o mesmo!).

 

A nossa querida empresa monopolista petroleira tem um poderio financeiro incalculável e quase inesgotável. Precisa de conselheiros. Tudo amigalhaços: ministros, dirigentes sindicalistas e até a preposta candidata a substituir o big cacique. Como já têm ordenados – altos – do governo, vão ali buscar mais cinquenta mil dólares por mês para compensar a fadiga dos “conselhos”: reúnem-se uma vez por mês, quando... Uma ONG, e eu não gosto muito de ONGs, calculou, há pouco tempo que neste Paraíso se desviam (palavra simpática para dizer roubam) todos os anos mais de 100.000.000.000, isso mesmo, mais de cem biliões de dólares. O big cacique não vê, nem sabe de nada, os filhos e a camarilha ficam podres de ricos, os sindicatos são “abastecidos” com verbas do governo, criam-se milhares, centenas de milhares de cargos públicos altamente remunerados, e assim mesmo o país cresce. Só neste ano o big chefe encontrou lugar para mais 37.000 – isso, trinta e sete mil – comparsas que endividam mais o Estado em cerca de $ 2 biliões de reais por ano! Mas são mais 37.000 votos a favor! ~

 

Às vésperas das eleições Sua Indecência distribuiu mais meio bilhão de reais! COMO? 50% para o partido do governo e o que o apoia. Para o da oposição... 0,5% !

 

Aqui se desenvolveu o mais moderno sistema de urnas de votação. Electrónico! Foi um sucesso quando apareceu, mas NENHUM outro país do mundo comprou o sistema! Porquê? Basta alterar o programinha que os votos mudam de canal!!!

 

Assim mesmo o país cresce. Não admira. As entidades privadas sabem que este Paraíso é do tamanho de um continente, que tem milhões e milhões de hectares de terras agricultáveis, que é rica em minério e agora em petróleo, e, com governo ou sem ele, fazem “acontecer”. E o país cresce.

Até quando?

 

Rio de Janeiro, 5 de Julho de 2010

 

 

 Francisco Gomes de Amorim

ÁGUA SUJA

 

 

Pouco a pouco a noite descia sobre largo e tranquilo planalto do Triangulo Mineiro. O calor abrasador do dia dava a vez ao ar fresco. As estrelas no céu tropical surgiam como translúcidos e faiscantes diamantes derramados sobre um manto de veludo azul-escuro. Não havia concorrência da luz artificial dos postes das cidades. A lua crescente, argêntea, clareava os caminhos que levavam os peregrinos a Água Suja. Lanternas e cajados nas mãos, garrafas de água amarradas à cintura, faixas luminosas cruzadas no peito, em bandos ou sozinhos, os devotos da Nossa Senhora da Abadia seguiam a passos lentos, seguros, para os festejos do dia 15 de Agosto. Carros e barracas ao longo do trajecto lhes davam apoio.

 

À semelhança de Santiago de Compostela, na Galiza, todos os anos na primeira quinzena de Agosto, romeiros saem de outras cidades triangulinas vizinhas a pé, a cavalo, de carro de bois, de automóveis, de ónibus, e percorrem até mais de 200 km para prestar homenagens, agradecer graças alcançadas e pedir favores, à padroeira do Triangulo Mineiro e Alto do Paranaíba. São noites e madrugadas de caminhadas arriscadas, à beira das estradas, nos acostamentos ou em caminhos de terra paralelos, pois durante o dia o calor abrasador cozinha-lhes os miolos, derrete-lhes os calçados, dá-lhes bolhas nos pés. Quando o sol está a pino, o que logo acontece, aproveitam para descansar, se alimentar e dormir em acampamentos localizados em áreas arborizadas, previamente demarcadas.

 

Preservando a tradição dos antepassados, os devotos de Nossa Senhora da Abadia, forasteiros, pedintes e visitantes, fazem romaria. Chegam cansados, mas esperançosos e contentes, à pequena cidade de Romaria, antiga Água Suja, movimentando o fraco comercio, distribuindo esmolas e alimentos, fazendo novenas, assistindo missas, participando das procissões, revigorando a fé, cada um à sua maneira.

 

Região outrora ocupada por tribos indígenas, algumas frontalmente avessas à aproximação do branco, o extremo-oeste mineiro foi tardiamente colonizado por faiscadores, garimpeiros, fazendeiros, a maioria aventureiros que buscavam riqueza fácil que o solo pudesse oferecer. Após tentativas e iniciais fracassos, ao fim conseguiram se estabelecer. Ganharam sesmarias, criaram raízes nas terras do Triangulo Mineiro. Trouxeram as famílias, amigos, parentes, tradições e crenças, muita vontade de vencer. Se é verdade que através das devoções religiosas pode-se adivinhar as origens de uma povoação, podemos dizer que o Centro-oeste mineiro teve na sua formação gente vinda do norte de Portugal, quando cultua a padroeira Nossa Senhora da Abadia e dos Açores, quando festeja o Divino Espírito Santo. Fatos que podem ser comprovados pelos dados da história local.

 

No centro-oeste mineiro a devoção à Santa começou à época da Guerra do Paraguai (1864-1870), quando o Brasil por falta de engajamento popular, precisou fazer recrutamento forçado. No interior, para despistar o governo, as famílias davam aos rapazes nomes que poderiam ser aplicados em ambos os sexos, e os homens abandonavam suas casas e trabalhos para não serem encontrados e escaparem à convocação militar. Assim foi que muitos garimpeiros que não queriam trocar a bateia pela baioneta deixaram os garimpos de Bagagem (hoje Estrela do Sul) e embrenhados nas matas, pesquisando córregos da vizinhança, descobriram diamantes no Córrego de Água Suja (devido à coloração amarelada das águas na lavagem do cascalho). A descoberta logo se espalhou e com a crescente afluência de gente, aí nasceu um povoado. Baptizaram-no com o mesmo nome do córrego. Descendentes de bracarenses, os garimpeiros implantaram a devoção a Nossa Senhora da Abadia, já venerada em Goiás (Muquém), onde anualmente faziam romaria. Prometeram construir uma igreja caso o Estado os esquecesse. Atendidos, na tentativa de manter a tradição, e estando Muquém muito distante, pediram e tiveram autorização do Bispo de Goiás, D. Joaquim, para cultuar a Santa no recente povoado. Em 1870 construíram uma capela e encomendaram a imagem que veio do Rio de Janeiro, trazida pelo viajante português Custódio da Costa Guimarães. Inicia-se então a devoção de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja, hoje Romaria (Arquidiocese de Uberaba). Em 1872 edificaram a Igreja, e em 1930 inauguraram o Santuário de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja, conhecido em toda a região.

 

 

Imagem actual

 

Dentre as inúmeras graças e histórias acontecidas conta-se o caso do Padre Tristão de Mendonça Carneiro.

 

...Era 1878, vindo de Goiás, trazia a permissão do Exmo. Diocesano para administrar os sacramentos na capela aí existente, nas fazendas e roças do lugar. Estatura regular, robusto, olhos azuis e vivos, tinha características de homem de acção evidentes. A par de suas actividades espirituais resolveu tirar de um Córrego da redondeza chamado Paiol, um rego para abastecimento de água ao povoado. Para tal conclamou os fazendeiros e moradores da vizinhança para pôr mãos à obra. António da Cunha Ferreira, dono de três fazendas próximas, por algum motivo particular, tentou embargar a obra. Como o dito fazendeiro chegou ao local com a intenção, porém, sem as formalidades legais, o padre não lhe deu atenção. Três dias depois apareceu um oficial de Justiça, mas este foi rechaçado porque não trazia, conforme exigia o padre, a papelada em termos. Passados mais 4 dias, serviço quase concluído, o padre assistindo aos trabalhos debaixo de uma árvore, chegaram dois oficiais de Justiça, com a papelada em mãos, exigindo do padre o embargo da obra. Conferido os termos, o padre Tristão aceita a intimação. Chama o pessoal e pergunta à frente dos dois oficias se algum deles estava trabalhando por conta dele. Com a negativa, disseram que ali não havia patrão, que estavam trabalhando cada um por sua própria conta e só parariam depois que cada um recebesse uma intimação, nos termos legais. Deste modo concluíram o serviço que é até hoje uma realidade. Indignado com o fracasso de suas diligências, o fazendeiro resolveu vingar-se. Foi a um amigo e pediu-lhe a indicação de alguém capaz de executar o seu plano mortal. Contratou um tal de José Vitorino, e deu-lhe as instruções.

Vésperas de Natal e Ano Novo, o padre Tristão que estava de viajem marcada, resolveu à última hora não ir. Coincidência ou intervenção da Santa, o matador de tocaia aguardou em vão a passagem do padre no Capão dos Rodrigues. Depois de muita espera resolveu ir a Água Suja, dar ciência ao patrão do que acontecia. Logo que chegou à cidade foi à Igreja, onde a missa já estava no meio, à elevação. Ao entrar no recinto, seu tropel chamou a atenção. Ao ver o padre, procurou com o olhar o patrão que, ao vê-lo, cai repentinamente fulminado, não se sabendo porquê. Trouxeram água fresca, em vão tentaram reanimá-lo... Era já um cadáver. O padre Tristão ainda ficou mais um ano na paróquia até que se mudou para Poços de Caldas, onde faleceu.

(Texto resumido, retirado de uma caderneta de um filho de Irahy (MG), presente na Monografia da Paróquia e Santuário Episcopal de Água Suja de N. S. da Abadia (P. Primo Maria Vieira)

 

Origem da devoção a Nossa Senhora da Abadia

 

 

N.S. da Abadia de Santa Maria do Bouro, Amares

Fonte da foto: Nossa Senhora da Abadia

(A história de uma devoção)

Mons. Primo Vieira

Romaria, MG

 

Segundo o geógrafo e agente de Pastorais (na Igreja N.S de Fátima de Uberlândia), Geovane da Silva e Sousa, fundamentado em pesquisas do Mons. Primo Vieira: Foi à época das invasões árabes na terra de Braga, onde mais tarde seria Portugal, que monges cenobitas esconderam a imagem esculpida em pedra de Nossa Senhora. Achada séculos depois, em 1107, numa caverna por frades do Mosteiro do Monte de São Miguel (Paio Amado e frei Lourenço), começa aí a devoção à Virgem. Foi por essa época que o superior desses monges recebe o nome de abade e o mosteiro de Abadia. A partir daí a Santa passa a receber o nome Nossa Senhora da Abadia.

 

Com as viagens dos descobrimentos e as migrações portuguesas o culto à Santa se espalhou por todos os continentes aonde chegou a colonização lusa. Apesar de Nossa Senhora da Conceição ser a padroeira de Portugal, a veneração a Nossa Senhora da Abadia foi a primeira genuinamente portuguesa.

 

No Brasil, o culto a Nossa Senhora da Abadia começou na Bahia em 1718, Jandira (Diocese de Alagoinhas). Mas foi no centro-oeste brasileiro, talvez por ter recebido maior contingente nortenho português, que a devoção à Virgem teve maior repercussão. Da Bahia, a Goiás (Vila Boa de Goiás), de Muquém (GO) a Minas Gerais, principalmente nas áreas de Mineração e Garimpo, no Triangulo Mineiro e Alto do Paranaíba Ela é a padroeira.

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 09/09/10

Triangulo Mineiro, MG

 

Para saber mais:

Monografia da Paróquia e Santuário Episcopal de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja. (Padre Primo Maria Vieira)

Nossa Senhora da Abadia, A história de uma devoção. (Mons. Primo Vieira) Obra póstuma

Conhecendo Romaria (Geovane Silva e Sousa)

Pescar no prato

 

 

O dia estava um pouco enublado o que não impedia contudo de sentir o mar, ali a nossos pés. A calmaria dominava, interrompida apenas, de quando em quando, por uma leve brisa que nos brindava com o perfume da maresia. Quando o almoço foi servido, os caturras deram-se por amplamente recompensados pela trabalheira de descobrir a tasquinha perdida nas escarpas costeiras da Serra de Sintra - "lá, onde a terra acaba e o mar começa" . Vieram saborear o sargo, uns, e, outros, a dourada pescados por ali perto e encaminhados diretamente do mar para a grelha e desta para o prato. O peixe foi servido com o proverbial acompanhamento de batata a murro regada pelo azeite luso e salada de pimentos, a preceito. Para apoio, o melhor que a baga da Bairrada produz. São caturras crónicos o Tiago peregrino, o Artur general, o Jacinto biólogo, o Otto germânico, o Victor «médio»-empresário, o Elias matemático, o Jorge financeiro e o Celso luso-tropical.

 

À hora de atacar o prato, dizia Tiago : - "Já não leio jornais, não ouço rádio, nem vejo televisão. Está tudo controlado, tudo envenenado. Só leio blogs. Estes, sim, são genuínos."

 

Jorge interrompeu: "Genuínos serão mas não consistentes. Em matéria informativa, a profusão gera a confusão. A profusão atenta contra a coesão do sistema o que torna mais difícil acertar na escolha do caminho".

 

Tiago retorquiu: - "O caminho faz-se caminhando. Eu faço o meu".

 

Celso, colocando-se como seu costume no contraponto, observou: -"Mas só caminhas por onde te deixam caminhar".

 

Artur dava sinais de crescente nervosismo. Não se conteve mais tempo: - "Qual ca-mi-nho?", interrogou, martelando as sílabas. "Estamos sempre na mesma mer-da. Quando pensávamos que tínhamos andádo muito, acabamos por perceber que nem sequer saímos do ponto de partida. A única coisa que os da minha geração fizeram na vida foi descartar opções vindas do passado; rejeitaram as doutrinas ditas «bem estruturadas» e ideologias falaciosas. Isto eles fizeram, mas ninguém conseguiu descobrir novos caminhos. Tinham-nos ensinado que nos devíamos sacrificar pelo grupo - ou nação, como lhe queiram chamar. Um dia percebemos que o grupo não é solidário e os traidores levam a melhor sobre os leais. O grupo não existe - é pura ficção."

 

Tiago, saboreando o Bairrada, cortou: - "Existe a pessoa."

 

Celso ainda murmurou - "E o sistema" - mas não foi ouvido. Elias, embora em luta com uma espinha, suplantou-o com uma tirada impulsiva: - "O indivíduo é excremento; só serve para adubar. Ou integramos um grupo ou nada somos. A verdade está na identidade".

 

Victor, até aí silencioso, explodiu: - "Qual grupo, qual identidade! Os grupos existem para a pancadaria. Quando era miúdo, a minha mãe escondia-me debaixo da saia para que eu não apanhasse alguma cacetada vadia ou um golpe de sabre mais enérgico de um soldado da GNR durante as refregas frequentes lá no Barreiro. O grupo permite ao homem dar largas ao seu instinto selvagem".

 

Jacinto saiu do seu habitual estado letárgico e, com surpreendente entusiasmo, exclamou: "Isso é quântico! Aí está! Segundo a teoria, a partícula ínfima do sistema só sobrevive iludindo as regras do mesmo. A mãe do Victor esconde-o debaixo da saia; furta-o à pancadaria - que era a regra - e ele sobreviveu. A teoria colhe".

 

O sorriso condescendente com que Otto acompanhava a conversa gelou; o seu semblante endureceu. Tomou a palavra e sentenciou - "A Teoria Quântica poderá ser válida na Física mas no domínio das Ciências Humanas não tem aplicação. O sistema dura enquanto serve os interesses dos que dominam. A hierarquia está lá para impor a obediência aos restantes. Só assim, progredimos."

 

Celso pegou na deixa: - "A maneira mais fácil de impor a obediência é converter o cidadão em soldado. Assim dizia Bismarck. O Victor tem razão. O grupo tende para a violência. Tolstoi dedica um capítulo inteiro do «Guerra e Paz» à discussão do porquê Napoleão decidir invadir a Rússia quando tudo poderia obter do Czar sem guerra e ninguém - nem os sargentos - desobedeceram a Napoleão. O escritor rende-se à tese da predestinação e diz: "Reis e Imperadores são escravos da história". Razão curta a de Tolstoi. Napoleão quebrou as pazes, primeiro a de Amiens e depois a de Tilsit porque se deu conta de que se a trégua persistisse ele deixaria de ser obedecido. A guerra, sempre a guerra, porque esta lhe trazia a obediência".

 

Jacinto, encantado com a perspectiva aberta pela sua transposição, nem ouviu o discurso de Celso. Continuou: "Diz a Teoria que as partículas relapsas, ao iludirem a regra do sistema, alteram a polaridade do mesmo e tornam-no inviável. Foi o que aconteceu aqui em Portugal, no tempo da guerra de África. Número crescente de jovens salvaram a pele emigrando. No caso, a saia da mãe foi substituída pela bolsa do pai ou por ajudas do exterior. Assim, retiraram à hierarquia o poder de decisão em matéria tão fundamental como a mobilização; ir ou não ir para a guerra, decidir a vida e a morte. A partícula evadiu-se, a polaridade inverteu-se e o regime ficou ferido de morte ".

 

Tiago reforça: -"Sempre entendi que o Sermão da Montanha teve por objectivo prevenir-nos contra os influentes que manipulam o sistema, (naquele tempo, os fariseus). A polaridade, como Jacinto lhe chama, é perigosa. Cabe ao justo encontrar o seu próprio caminho. Esta verdade revelada há mais de dois mil anos põe-me ao abrigo dos problemas de consciência que a vós preocupam e atrapalham."

 

Jorge fumava e tossia. Por fim, lutando contra o catarro, articulou: "No fundo, vocês estão de acordo". Rah, Rah, nova tosse. Após esta, continuou: - "Fora da sistema social nada existe. Devemos contudo reconhecer que o sistema deve servir a todos e não apenas aos «cartolas»".

 

Jacinto riu-se e comentou. "Esse é o paradoxo: o sistema só sobrevive se esgotar a energia das suas partículas ínfimas; mas, liquidadas estas, o sistema não sobrevive. Terá que ser substituído. O sistema não é portanto uma verdade universal – é mero artifício e transitório.

 

Celso tenta concluir: - "Parece claro que, para manter a coesão social, se impõe equilibrar o sistema ou conceber sistemas mais equilibrados. Com tal finalidade, o blog é útil, muito útil."

 

Elias trocara já o Bairrada pelo escocês de vinte anos mas a observação de Celso obrigou-o a não deixar arrefecer a vaca: - "Estás profundamente enganado. O que mantém a coesão não é o equilíbrio de proveitos mas, sim, a sanidade da doutrina. Os indivíduos que se afastam voltarão quando reconhecerem que a doutrina está certa. Reconhecer o erro dá significado à vida."

 

Celso, com uma sombra de tristeza no olhar, rematou: "Esquece. A vida não tem significado; tem encanto. É tudo".

 

***

 

Por esta altura, o Sol afastara o nevoeiro e a paisagem do mar e da Serra mostrava-nos a sua beleza empolgante. Artur puxou da cigarrilha e mandou vir a sobremesa: - pudim flã. Não havia mais nada. Constatamos, aí e então, que, onde não há escolha, a polaridade do grupo mantém-se.

 

 

Estoril 1 de Setembro de 2010.

 

Luís Soares de Oliveira

CURTINHAS Nº 82

 

 

TIQUES DE UMA “JUSTIÇA DE CLASSE”

 

 

 Esta enxurrada de notícias sobre os mais mediáticos casos de justiça tem trazido à luz do dia quanto o nosso 3º Poder é dado a tiques. Tiques que têm o condão de lançar luz sobre o “caldo cultural da justiça” onde aqueles que têm por missão aplicar o Direito parecem comprazer-se.

 

 E escrevo “aplicar o Direito” porque o Direito vai muito para além da Lei escrita. São, antes do mais, e acima de tudo, os princípios que vão orientar a produção legislativa.

 

 Onde estão, entre nós, esses princípios orientadores? Quem os conhece? Quem os cita - quando temos uma Constituição programática, e a norma especial derroga, com enorme desfaçatez, a norma geral?

 

 Este o primeiro tique: os juízes dizem que é seu dever aplicar a Lei (escrita), mas raramente se os ouve ou lê a fundamentar as suas decisões naqueles princípios (ao contrário do que se verifica na common law anglo-saxónica).

 

 Um outro tique que, de tão presente, já passa despercebido: “A judicatura deve ser independente e autónoma”. Pois deve. Mas não só.

 

 Como Órgão do Estado, o 3º Poder tem o dever de prestar contas – e de fazê-lo perante todos nós, cidadãos. Porque todos nós temos o direito de saber por onde andam, e para onde caminham aqueles que lhe dão o rosto.

 

 Quando assim não acontece, afirmar que o poder judicial (manifestação primordial da soberania) emana do povo é sustentar uma ficção – e mais vale, então, falar sem rodeios da unção e entronização dos juízes.

 

 Obviamente, aplicar o Direito não é o mesmo que dar execução ao OGE. Mas é um atentado à lógica mais elementar concluir-se daqui que responder pelo modo como o Direito está a ser aplicado contrariaria frontalmente a independência dos juízes - se não fosse, desde logo, uma impossibilidade absoluta.

 

 Pois não é que, tal como os juízes, também os restantes Órgãos de Soberania (e, em boa verdade, o aparelho administrativo do Estado) devem exercer os respectivos múnus com total independência e livres de conflitos de interesses? Haveria que desobrigá-los, então, da aborrecida tarefa de se explicarem, de começarem por revelar o que se propõem fazer e de virem dizer, de tempos a tempos, o que na realidade fizeram?

 

 Argumenta-se que o juiz presta contas às partes e à Sociedade quando fundamenta a sua decisão – e isso basta. Assim é (voltarei a este ponto na Curtinha seguinte), mas não basta.

 

 Não basta porque importa conhecer o que pensam dos princípios norteadores do Direito, e como os interpretam, todos e cada um dos juízes que compõem os Tribunais de última instância (Relação e Supremo), pois é aí que os casos ficam definitivamente julgados.

 

 Audição pública dos candidatos a esses lugares - por uma Comissão Especializada da Assembleia da República (e não pelo círculo restrito dos pares), com actas publicadas, à americana - em vez de ascensão automática por antiguidade? Sem dúvida.

 

 Mas ainda não basta. Pelo menos no foro penal, as sentenças das diversas instâncias deveriam ser objecto de estudo sistemático por peritos (eles sim, independentes), cujas conclusões teriam por destino óbvio quem tem o dever de administrar a máquina judicial.

 

 E destinadas também a aferir da transparência, consistência e comparabilidade das sentenças que tenham sido proferidas – e, neste ponto, seriam um auxiliar precioso para os próprios juízes.

 

 Estes, porém, têm preferido refugiar-se na sombra dos bastidores logo que, com a leitura da sentença, o pano cai. Ainda que alguns, de quando em vez, apreciem as luzes da ribalta, mas sempre em circunstâncias que não os envolvem directa e pessoalmente.

 

(cont.)

 

Setembro de 2010

 

  A.P.MACHADO

LIDO COM INTERESSE - 52

 

 http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.museu.presidencia.pt/item_images/retratos_large7.jpg&imgrefurl=http://www.museu.presidencia.pt/presidentes_bio.php%3Fid%3D25&usg=__QtkUtoDIR2OzRlcok50uJciuvhE=&h=519&w=420&sz=162&hl=pt-BR&start=0&zoom=1&tbnid=qyKYAgBc4QPTfM:&tbnh=123&tbnw=109&prev=/images%3Fq%3DManuel%252BTeixeira%252BGomes%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26rlz%3D1T4SUNA_enPT292PT293%26biw%3D1003%26bih%3D500%26tbs%3Disch:1&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=881&ei=fruLTN3XCtKBswbQ-sTkAQ&oei=fruLTN3XCtKBswbQ-sTkAQ&esq=1&page=1&ndsp=22&ved=1t:429,r:1,s:0&tx=60&ty=59

 

 

QUEM DIRIA…

 

  

Membro de família abastada, Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão no ano de 1862 e pelos 10 anos ingressou no seminário de Coimbra até que passou para a Universidade a fim de cursar medicina. Mas a boémia foi mais forte do que o rigor científico e assim foi que o jovem se passou a dedicar mais às artes, ou seja, à estroina.

 

O abastado pai convenceu-se então de que mais valia continuar a dar-lhe a mesada e deixá-lo viver a sua vida de rapaz, já então com mesclas de literatura, pintura e escultura. Mudando-se para Lisboa, optou pela literatura e passou a colaborar em revistas e jornais… até que o pai o conseguiu atrair para os negócios da família (frutos secos, nomeadamente algarvios) e o fez viajar pelo Mediterrâneo e Europa firmando contratos um pouco por toda a parte. O próprio escreveu na sua “Miscelânea”: Fiz-me negociante, ganhei bastante dinheiro e durante quase vinte anos viajei, passando em Portugal poucos meses.

 

Foi neste período que ganhou mais mundo do que aquele que já de cá levava, passou por experiências que lhe proporcionaram grandes recordações e nos facultaram a nós, seus leitores, páginas admiráveis. Senhor de vasta cultura, pôs no papel episódios rocambolescos e de muito outras ordens, por exemplo, aqueles que nos deixou intitulados “Duas novelas eróticas”. Quem diria…

 

Republicano, a sua vida política ao serviço do novo regime começou logo em 1911 e prolongou-se até 1918 no espinhoso cargo de Embaixador em Londres. Levar a Velha Albion a reconhecer a jovem e ainda pouco estável República Portuguesa não era tarefa fácil uma vez que os monarcas britânicos tinham laços familiares com os depostos monarcas portugueses que viviam exilados em Inglaterra. Mas conseguiu insinuar-se de tal modo que ao fim de alguns anos a família real o passou a convidar para o palácio com toda a naturalidade. Sabe-se, por exemplo, que a rainha Alexandra lhe pediu para lhe decorar o gabinete oriental no Palácio de Buckingham.

 

Normalizadas as relações diplomáticas entre Portugal e a Grã-bretanha, foi a vez de em 1918 Sidónio Paes subir ao Poder demitindo o Embaixador em Londres que regressou ao Algarve para gerir directamente as suas propriedades.

 

Contudo, o fim do consulado sidonista fez com que logo em 1919 Teixeira Gomes fosse novamente chamado à diplomacia, desta feita em Madrid e em Londres.

 

Como Presidente de República, ocupou o cargo entre 5 de Outubro de 1923 e 11 de Dezembro de 1925 mas demitiu-se antes do fim do mandato deixando-nos com o seu conhecido desabafo: A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia-a-dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas; sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros.

 

Com o advento do Estado Novo em 1926, auto-exilou-se em Argel onde retomou a escrita dos seus livros até que morreu em 1941. O seu corpo foi trasladado para Portugal em 1950 mas os seus escritos já cá estavam. Por exemplo, esses contos eróticos.

 

É de nos perguntarmos sobre o que será mais estranho: se um escritor do erotismo chegar a Presidente da República; se um Presidente da República divagar pelo erotismo.

 

Ainda estou na minha: quem diria…

 

Setembro de 2010

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Manuel Teixeira Gomes, DUAS NOVELAS ERÓTICAS – Contexto Editora – Lisboa, 1995 http://www.leme.pt/biografias/portugal/presidentes/gomes.html

 

O TURISMO NO DESENVOLVIMENTO DO SOTAVENTO ALGARVIO III

 

 

Conforme planeado vamos iniciar agora o tratamento da náutica de recreio que é de facto a maior falha ainda existente no Sotavento embora seja assunto falado há bastante tempo mas que tem sido menosprezado pelos responsáveis quer a nível nacional ou local por razões de ordem cultural e alguma ignorância.

 

Dado o afastamento da nossa população das actividades marítimas em geral verificado após 74 é natural que a sua maioria não tenha conhecimento do que é a actividade náutica que pretendemos desenvolver no Sotavento pois inclusive na TV o que aparece mais frequentemente são as visões dos mega-iates de alguns magnates o que dá a ideia de que náutica é só isto. O que é tremendamente falso.

 

As embarcações a usar começam por pequenos barcos a remos e à vela a partir, digamos como ordem de grandeza de 3,5 a 4 m de comprimento até atingir dimensões de dezenas de m de comprimento, velas com mais de uma centena de m2 e motores de centenas de cavalos de potência.

 

Ora no Sotavento existem três zonas de águas a saber: o interior da Ria Formosa, o mar e o Rio Guadiana cada uma delas com características diferentes que implicam também utilizações diferenciadas.

 

Assim na primeira deverá privilegiar-se o uso de pequenas embarcações à vela, remos e motores eléctricos ou de baixa potência pois no seu interior não devem ser aceites altas velocidades nem embarcações de grande porte ou motos de água.

 

Os locais mais apropriados para a instalação de portos de recreio começando de poente para oriente são: Olhão, que já iniciou o seu desenvolvimento náutico mas que ainda tem capacidade para mais, Fuzeta que está muito atrasada mas tem capacidade para algumas centenas de postos de amarração de embarcações de pequena e média dimensão mas exige o tratamento dos canais de acesso e barra de forma eficaz e estável, Santa Luzia que tem capacidade para cerca de mil postos de amarração de pequena e média dimensão, Tavira –cidade com capacidade de cerca de centena e meia de postos de amarração de pequena e média dimensão, Tavira 4 Águas com capacidade para mais cerca de duas centenas de postos de amarração de pequena e média dimensão, Tavira- Forte do Rato cerca de 4 a 5 centenas de postos de amarração de média e grande dimensão apenas limitada pela barra, Cabanas com capacidade para cerca de mil postos de amarração de pequena e média dimensão a menos que a obra em curso não o permita o que seria mais que lamentável para não dizer criminoso, Cacela com capacidade para 2 centenas de postos de amarração de pequena dimensão, todos estes no interior da Ria Formosa.

 

A seguir temos a zona da Ponta da Areia, aproveitando o molhe da foz do Guadiana para protecção oriental e construindo um molhe de protecção a poente que permite a construção de um porto de recreio com capacidade para 2000 postos de amarração de média e grande dimensão e com custos de movimentação terras muito baixo com nítida vocação para embarcações de passagem, e já no interior do Guadiana, na Moita uma marina residencial e municipal com 2000 postos de amarração de todas as dimensões.

 

É claro que isto exige a conservação das barras e dos canais, que como se tem verificado não é feito correctamente para o que é necessário haver verbas anuais volumosas. Para isso sugere-se a criação de uma taxa ou equivalente anual por posto de amarração de 10 euros para as menores e crescente com o comprimento da embarcação de forma à média ser da ordem dos 20 euros o daria uma receita superior a 200000 euros manuais, embora esteja convencido que melhor estudada esta sugestão, poderá conseguir-se valor mais elevado.

 

Cada uma destas unidades deverá ser concessionada a uma empresa privada ou mista com as Autarquias, escolhidas por concurso, que investirão e pagarão uma verba anual pela concessão que assim será mais uma verba para as entidades a quem cabe a responsabilidade da Ria e dos Portos, além da fiscalização que terá que ser muito mais eficiente e portanto exigindo a compensação correspondente.

 

Após a recepção das contribuições dos nossos leitores continuaremos esta análise de forma a se poder atingir soluções mais aperfeiçoadas e bem esclarecidas.

 

 

 José Carlos Gonçalves Viana

FALSIFICAÇÃO DA HISTÓRIA

 

 

A tentativa de cortar as raízes da civilização europeia, que tem ocupado alguma intelectualidade nos últimos 250 anos, é um fenómeno único na história humana. Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana por uma ficção pseudo-científica que alimenta o corropio de ideologias. Em resultado, empirismo, utilitarismo, positivismo, marxismo, nazismo, existencialismo, pós-modernismo têm-se sucedido, degradando uma elevação cultural que modelou o mundo.

 

Peça central desse esforço é uma esmagadora falsificação histórica, indispensável na luta contra a tradição. Filósofos, propagandistas, pseudo-especialistas esforçam-se por manipular a verdade do passado, criando mitos oportunos para as suas doutrinas. Distorções dessas não são sustentáveis e foram há muito denunciadas pela historiografia séria. Mas vivemos a fase paradoxal em que, apesar disso, as tolices persistem nas vulgarizações mediáticas.

 

Exemplo gritante é o das Cruzadas, de que o grande sociólogo Rodney Stark acaba de publicar uma desmistificação. O caso é candente porque, além de servir há décadas para humilhar a Igreja, a ficção é hoje usada no suposto choque de civilizações entre Islão e Ocidente. O livro God's battalions; the case for the crusades (Harper One, New York, 2009), não traz dados novos. Limita-se a compilar resultados da vasta literatura científica que destroem por completo a visão popular vigente.

 

Os erros são múltiplos. Os inimigos dos cruzados não eram os muçulmanos, mas os turcos, recém-convertidos ao Islamismo e invasores recentes da Terra Santa. Muitos árabes, oprimidos pelos conquistadores, aplaudiram as expedições ocidentais. Assim as Cruzadas não foram um capricho irracional mas nasceram de "séculos de tentativas sangrentas de colonizar o Ocidente e súbitos novos ataques aos peregrinos cristãos e aos lugares santos" (p. 8).

 

Também a imagem comum de bárbaros ocidentais atacando os sofisticados e tolerantes muçulmanos é falsa. O preconceito anticristão pós-iluminista exaltou os feitos islâmicos e glorificou Saladino desprezando os soldados europeus. Pelo contrário, havendo atrocidades de parte a parte, regra na época, a superior técnica cruzada permitiu, face a enorme desvantagem numérica, manter um reino e rica cultura "que, pelo menos ao longo da costa, durou quase tanto quanto os EUA são uma nação" (p. 245).

 

É falso ainda que a motivação fosse o ganho, colonização ou conversão à fé cristã. "As Cruzadas não foram organizadas e dirigidas por filhos excedentários, mas pelas cabeças de grandes famílias que estavam perfeitamente conscientes que os custos de ir em cruzada excederiam largamente os muito modestos benefícios expectáveis: a maior parte partiu com imenso custo pessoal, alguns conscientemente arruinando-se para ir." (A finalidade, incompreensível para os materialistas actuais, era espiritual: "Eles sinceramente acreditavam servir nos batalhões de Deus." (p. 248)

 

As manipulações são muitas mais, servindo os mais variados propósitos. Por exemplo, "as actuais memórias e fúria muçulmanas sobre as Cruzadas são uma criação do século xx." (p. 247)

 

Este é apenas um tema entre muitos. Apresentando como factos incontroversos os preconceitos mais boçais, historiadores de pacotilha têm-se esforçado por exaltar os seus heróis, denegrindo opositores. Isto leva o público informado a ter do passado uma caricatura grotesca.

 

Em particular, a Igreja tem sido alvo preferencial da falsificação histórica. Exagerando males, omitindo virtudes, generalizando aberrações, a Igreja é acusada de tudo. Cruzadas, Inquisição, heresias, Papado, Escolástica, mosteiros, relações com a ciência e democracia, como agora a dignidade dos sacerdotes, tudo tem sido infectado por esta magna falsificação. Nem se compreende como entidade tão perversa pôde sobreviver e prosperar. A ponto de muitos cristãos devotos caírem na esparrela, vivendo envergonhados da história da sua fé.

 

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

 

DN 2010-09-06

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