Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

RECADO AO LEGISLADOR PORTUGUÊS

 

 

O ATESTADO MÉDICO

 

http://download3.globo.com/esporte/Info/Bolanascostas/AtestadoMedicoBotafogo.jpg

 

 

Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.

 

Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?

 

Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar a sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.

 

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Milícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI. O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.

 

Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente. Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.

 

Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.

 

Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.

 

Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade.

 

A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados.

 

Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.

 

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles se divorciam ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.

 

Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.

 

Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.

 

Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.

 

Urge mudar este estado de coisas. Está na sua mão, na minha e daqueles a quem a mensagem chegar

 

José Ricardo Costa

(professor de filosofia)

In jornal “O Torrejano”

OLIVENÇA, CATIVA HÁ 209 ANOS

 

 http://acultura.no.sapo.pt/Olivenca03.jpg

 

 

20 de Maio de 1801, Guerra das Laranjas, ocupação de Olivença.

 

Vão passados 209 anos de sequestro da Terra das Oliveiras. E hoje e sempre, o que de Olivença se vê e alcança são Terras de Portugal.

 

Neste 20 de Maio de 2010, guardemos Olivença e os oliventinos.

 

«Horizonte»

 

O sonho é ver as formas invisíveis

Da distância imprecisa e, com sensíveis

Movimentos da esp’rança e da vontade,

Buscar na linha fria do horizonte

A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –

Os beijos merecidos da Verdade.

 

Fernando Pessoa

In “Mensagem”

 

António Marques

(anterior Presidente do GAO-Grupo dos Amigos de Olivença)

SUGESTÃO DE LEITURA – 3

  

 

Título: LIVROS & CIGARROS

 

Autor: George Orwell

 

Editora: ANTÍGONA

 

Edição: 2010

 

George Orwell (1903-1950) — Eric Arthur Blair de seu nome de baptismo —, cuja celebridade se deve principalmente às obras de ficção política A Quinta dos Animais (1945) e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949), ambas editadas pela Antígona, foi também um ensaísta tão genial quanto prolífico. O seu estilo simples e coloquial, não raro mordaz, torna a sua prosa sedutora, mesmo para os leitores de hoje, decorrido mais de meio século. Escritor compulsivo, Orwell lançava sobre a actualidade social e política do seu tempo um olhar implacável, tendo sempre como trave-mestra da sua cosmovisão a denúncia do totalitarismo, sob todas as formas.

 

A ordem em que são apresentados os ensaios incluídos nesta colectânea é temática, ao invés de cronológica. Aos textos acerca da literatura e do mundo da edição seguem-se outros de cariz social e político, a maioria dos quais tem como pano de fundo o espectro da Segunda Guerra Mundial.

 

O último (e mais extenso) ensaio deste volume constitui um caso à parte na obra de Orwell. Em «Ah, Ledos, Ledos Dias» («Such, Such Were the Joys» no título original), ele revisita a sua infância e, em particular, as penosas experiências no colégio preparatório St. Cyprian’s, tecendo críticas ferozes ao sistema de ensino e à mentalidade reinante na sociedade inglesa da época. Dado o cariz profundamente pessoal deste ensaio, Orwell, que o terá concluído em 1947, deixou instruções para que apenas fosse publicado após a sua morte, o que veio a acontecer. E é neste texto comovente que percebemos, enfim, a génese do espírito indómito de Orwell, a sua determinação em resistir à tirania e em manter a dignidade, numa palavra, a certeza de que os fracos têm direito a rebelar-se contra a ordem estabelecida.

O FIM DO EURO?

 

 

O euro viveu os primeiros momentos de real perigo nos seus onze anos de vida. Aquilo que foi a crise grega descambou num risco geral, com o ataque dos mercados a revelar rachas insuspeitas no edifício monetário europeu. Será o princípio do fim?

 

A crise internacional começou por ser, pelo contrário, uma excelente confirmação do projecto de integração. Num pânico generalizado, o lastro monetário conta muito. A dimensão do euro, como do dólar, absorveu os choques e protegeu os agentes económicos. A moeda única serviu como dique defensivo para as 16 economias integradas, que dentro da marina gozaram de estabilidade enquanto o mundo, incluindo os outros onze Estados membros, balouçava perigosamente lá fora na tempestade financeira. Apesar do muito que as economias do euro sofreram, foi muito menos do que suportariam separadas. Que confiança teriam os nossos credores se nesta turbulência ainda vigorasse o velho escudo?

 

Esta pergunta conduz-nos ao segundo elemento. É que se nós ainda tivéssemos uma moeda própria nunca nos teriam emprestado os montantes que agora nos sufocam. Ou seja, Portugal com o escudo (ou a Grécia com a dracma) há muito teria sido forçado a corrigir o seu desequilíbrio. Deste modo, se o euro constitui uma indiscutível segurança no meio da crise, foi essa segurança que permitiu a dimensão dos erros cometidos nos países que agora ameaçam o euro. Confiantes nas águas calmas dentro do molhe monetário, algumas economias acumularam tanta dívida a bordo que estão em maior risco de afundamento que muitas das que lá fora sofrem a borrasca.

 

Foi o euro mal concebido? A moeda única incluía à nascença um mecanismo para evitar precisamente este tipo de miopia. Lembra-se do Pacto de Estabilidade e Crescimento de 1997, que há uns anos era moda ridicularizar? Os tectos de 3% do PIB no défice do Estado e 60% na dívida foram considerados rígidos, simplistas, exagerados. Romano Prodi, presidente da Comissão, chegou a considerar o Pacto "estúpido" (Le Monde, 17/Out./2002). Por isso, em Março de 2005, o Conselho Europeu reformou as regras, passando os tectos a vagos valores indicativos. No ano passado, Portugal teve um défice de 9,4% do PIB, a Grécia atingiu os 13,6% e a Irlanda 14,3%. Indicativos?!

 

Os autores do euro tinham, pois, perfeita consciência de que a solidez da moeda única criaria uma enorme tentação para os esbanjadores. Por isso os tinham manietado com o Pacto. Era sem dúvida um método rígido, simplista, exagerado. Até se pode considerar estúpido. Mas era também, como se vê, eficaz. Levantada a rigidez, o euro ficou muito mais frágil.

 

E agora? A Europa ou ajuda os gastadores ou a união é desfeita. Mas, ao premiar a irresponsabilidade com mais apoios, o que garante que os dissipadores não vão aproveitar esse aval para continuar o delírio? Afinal, foi isso que fizeram com a segurança à entrada no euro. É verdade que serão vigiados pelos parceiros. Mas esses parceiros são os que irresponsavelmente os libertaram do Pacto e diziam vigiá-los em todo o tempo em que se afundavam em dívidas.

 

Desde o princípio deste ataque havia uma solução simples: obrigar os faltosos a ir ao Fundo Monetário Internacional. O FMI tem uma grande vantagem: é estúpido. Constitui uma espécie de Pacto de Estabilidade portátil para impor a países abusadores.

 

Infelizmente, surgiu o orgulho de clube. Parece que na sofisticada marina do euro é indigno que entre a polícia marítima. Mas tolices e hesitações no meio duma tempestade é que são mesmo muito estúpidas.

 

No fim, a solução foi criar a 9 de Maio um ainda vago "mecanismo de estabilização financeira", espécie de Fundo Monetário Europeu, subindo os muros do molhe. Mas o problema de fundo não está aí. Anunciaram-se os milhões mas não a disciplina. O mecanismo só impedirá o afundamento dos gastadores se incluir a dureza orçamental do FMI ou do antigo Pacto. Ou seja, se for estúpido.

 

O euro só sobrevive com métodos rígidos, simplistas, exagerados. Ou seja, métodos financeiros, recusando as subtilezas irresponsáveis dos políticos

  

foto noticia JOÃO CÉSAR DAS NEVES

 

DN 2010.05.17

BAFORDO

 

 

Do Dicionário Torrinha, edição de 1947, extraio que baforda é o nome atribuído a uma espécie de lança podendo também significar injúria. Não lhe conheço a etimologia mas confesso que, para meu gosto, é das palavras portuguesas foneticamente mais feias de que me lembro.

 

E de significado em significado, lá fiquei também a saber que bafordo era o nome por que eram conhecidos os torneios medievais no norte de Portugal, na Galiza, em Leão, etc. A esta palavra já lhe podemos reconhecer a etimologia mas não é pelo facto de mudar de género que deixa de ser do mais feio que aos meus ouvidos alguma vez soou na nossa doce língua.

 

Ambas soam a insulto. E dos piores! Mais ainda que hipotenusa.

 

E quando em 1140 os Exércitos de Afonso Henriques e de seu primo Afonso VII de Leão e Castela se encontraram em Valdevez para decidirem da vassalagem que deveria ou não ser prestada pelo português ao castelhano, conseguiram os eclesiásticos diplomatas em presença convencer os monarcas de que a Decisão Divina poderia ser a causa de um bafordo que substituísse batalha laica, desgastante e por certo aviltante para uma das partes.

 

Bafordo de Valdevez

https://farm4.static.flickr.com/3233/2868489439_d6ab91c884_o.jpg

 

Assim se fez e o resultado foi divinamente favorável a Portugal cujo Exército era bem menor que o seu contrário. Ficou Afonso Henriques dispensado de vassalagem e terá sido então que Afonso VII decidiu pôr fim ao uso do título de Imperador. E essa decisão terá sido de tal modo convicta que por morte deixou o Reino de Castela a seu filho primogénito Sancho – que viria a ser o III desse nome – e o Reino de Leão a seu filho Fernando, o II desse nome.

 

Mais: passados anos o Rei de Leão reconheceu ao Rei de Portugal a nobreza e o estatuto suficientes para tomar a sua filha Urraca em casamento.

 

Não terá sido por uma questão fonética que Fernando II rejeitou Urraca dando o casamento por findo mas sim porque o Papa assim o determinou com base no argumento de que eram parentes muito próximos (filhos de dois primos direitos) apesar de já terem um filho que viria a ser Rei de Leão com o nome de Afonso IX, o Baboso – lindo cognome…

 

Teias duma Nação nascente, a portuguesa.

 

Maio de 2010

 

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA: Mattoso, José – D. Afonso Henriques, pág. 179 – Círculo de Leitores, Ed. 2006

O ALENTEJO, A ÁGUA E A DESERTIFICAÇÃO

  

Alqueva

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2a/Alqueva_dam_portugal.jpg

 

 

 

O artigo de Ventura Trindade no Linhas de Elvas de 22-4-2010 chama a atenção para alguns problemas do Alentejo e do Algarve, nomeadamente a água e a desertificação. São problemas importantes e confrange-me ver o que Portugal não tem feito, especialmente através do seu Ministério da Agricultura, para se defender de algo que é fundamental para a nossa economia e para o bem estar dos cidadãos.

 

Repetidamente tenho lembrado a urgente necessidade dum grande projecto de florestação da serra do Algarve. Porque ela afecta as duas vertentes desse longo conjunto de serras, os benefícios resultantes são directamente recebidos pelo Algarve e pelo Baixo Alentejo. E recordo sempre o meu colega Professor Eng.º Silvicultor Manuel Gomes Guerreiro, que também tratou intensamente esse problema e cujos escritos, de há mais de cinquenta anos, deviam ser lidos e aprendidos.

 

Também tenho insistido na importância de duas técnicas agrícolas de particular interesse para o Alentejo, as rotações das culturas - que até podem tornar mais rentável a cultura dos cereais, incluindo o trigo - e a drenagem das terras, esta ainda, mais uma vez, no Linhas de Elvas de 18-3-2010. As rotações de culturas, com inclusão de mais leguminosas (importantes para o enriquecimento dos solos) exigem investigação muito mais ampla do que tem sido feito. Recordo o trabalho realizado há mais de cinquenta anos na Estação de Melhoramento de Plantas, aqui em Elvas, pelo meu colega José de Almeida Alves. Embora em escala reduzida, esse trabalho mostrava resultados espectaculares, da maior importância para a agricultura, bem patentes em alguns talhões de ensaio, na Herdade da Gramicha, onde a Estação tinha o trabalho de melhoramento de forragens. Infelizmente, essa investigação não teve a continuidade que devia ter. A investigação agronómica, que teve um excelente impulso nas décadas de 1930, 1940 e ainda algo na de 1950, com dirigentes de bom nível, em que avultava o nome desse grande agrónomo que foi o Professor António Câmara e alguns dos seus colaboradores, tem desde então sofrido graves deficiências de comando, especialmente aos mais altos níveis, que atingiram aspectos de calamidade com o Ministro da Agricultura que há meses deixou de o ser. Ao longo dos anos e com mais intensidade - e sempre em crescendo - nas últimas duas décadas, os erros de comando na investigação agronómica não só entravaram muito trabalho que podia ser feito, como (deliberadamente?) causaram a destruição de muita investigação, alguma em fase final. Sofri, enquanto estava ao serviço, muita dessa destruição, incluindo trabalho que nesta altura já muito teria dado à economia portuguesa. O que hoje ainda resta é, em quantidade e qualidade, uma sombra do que já foi. Elvas certamente compreende o que aqui existia dantes - e tanto deu à agricultura alentejana, desde os tempos do trigo Pirana e do Grão da Gramicha - e o que há hoje. Ou o Ministério da Agricultura inverte urgentemente a política que tem sido seguida (como referi em anterior artigo) ou Portugal vai continuar ainda mais a afundar-se e o Alentejo poderá vir a sofrer a desertificação de que tanto se fala e tão pouco se faz.

 

 Miguel Mota

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 13 de Maio de 2010

ABRAÃO IBN EZRA

 

 

Ai de mim! Abateu-se sobre Sefarad a maldição do Céu

Grande é o luto que desabou sobre o Ocidente.

Eis por que as minhas mãos caíram e de meus olhos, de meus olhos brota água

Como fontes choram os meus olhos pela cidade de Ulissana

Um dia ficou como viúva.

Houve assassinatos e gente esfomeada a gemer por todas as partes

A casa das orações e louvores foi vilmente profanada

E gente estranha, hoste feroz, rasgou de Deus a lei verdadeira.

Eis por que choro, abato as mãos e a minha boca brada lamentações,

Pois não há ninguém tão aflito que, como eu, grite:

Quem me dera que a minha cabeça se desfizesse em água…

 

 

25 de Outubro de 1147, dia da conquista de Lisboa aos mouros, dia em que alguns Cruzados do norte da Europa não respeitaram a disciplina combinada pelos seus Chefes com D. Afonso Henriques, dia em que correu sangue pelas ruas da cidade - o saque, a destruição, a volúpia da conquista.

 

Nesse dia foi assassinado o Bispo moçárabe de Lisboa e arrasada a sinagoga. O Bispo não teve tempo para chorar a destruição da sua igreja; o rabi Abraão Ibn Ezra ainda teve tempo para chorar a desgraça que sobre a cidade se abateu.

 

Sim, nesse dia cessava a governação almorávida de Lisboa, a que permitia tanto o culto judaico como o cristão moçárabe de rito visigótico. Uma sociedade tolerante que em breve seria destronada de todo o Gharb pelos radicais Almóadas sob a acusação de fraqueza e corrupção.

 

Mas Averróis cresceu e floresceu com os Almorávidas e foi com eles que passou à História…

 

Abril de 2010

 

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA: Mattoso, José – D. Afonso Henriques, pág. 179 – Círculo de Leitores, Ed. 2006

COMUNICAÇÃO, UMA ARTE

 

 

Comunicar não é arte fácil, exige consciência, conhecimento e capacidade de transmitir de alguma maneira, seja em palavras ou em imagens, uma ideia, um sentimento. Foi isso que percebi nos Colóquios da Lusofonia que ocorreram nos últimos dias (5 a 9 de Abril) em Florianópolis, Santa Catarina. Ver o esforço de alguns letrados em promover a literatura açoriana, apesar das dificuldades e do pouco interesse político a nível universitário, é de despertar nosso respeito.

 

Florianopolis

Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

http://www.destination360.com/south-america/brazil/florianopolis

 

Terra onde a educação foi sempre encarada como artigo de luxo, pois arranjar alimento era primordial para a sobrevivência, é de admirar a contribuição histórica e literária açoriana, à cultura e sociedade portuguesa. Talvez por ser um lugar onde o isolamento, a introspecção e o individualismo sejam características da personalidade insular a produção literária seja tão abundante, apesar de pouco divulgada. Seja por acomodação, ou por falta de ambição (para quê fama e dinheiro se já estão no paraíso terrestre!), a realidade é que quem se empenha em promover a cultura açoriana e os autores insulares são em geral os estrangeiros, agora mais recentemente nas vozes dos professores e escritores Lélia Pereira Nunes e Chrys Chrystello (e cols.). Através deles os Açores têm conseguido mais visibilidade nas comunidades de língua portuguesa e estrangeira, com as versões de obras literárias açorianas. Escritores como Daniel de Sá, Vasco Pereira da Costa, Cristóvão de Aguiar, José Manuel Bettencourt, Francisco Nunes P. Gomes, Olímpia Soares de Faria, Avelino de Freitas Meneses, Ermelindo Ávila, e tantos outros, merecem pela qualidade de suas obras todo esse empenho.

 

Embora emigrante, que vive no estrangeiro outra realidade sócio-cultural, como açoriana de nascimento e de muitas gerações antecedentes, sinto orgulho pelos destaques culturais da minha terra natal e agradeço intimamente àqueles que acreditam na arte da minha gente.

 

Uberaba, 14/4/2010

 

 Maria Eduarda Fagundes

ANGOLA - 1564

 

 

Do Padre Francisco de Gouveia

para

Padre Diogo Mirão (i)

 

1564

 

Depois de partida a outra gente no batel que se fêz em Pambalungo, ficámos aqui quatro pessoas cristãs das que viemos, s. o senhor Paulo Dias e eu e dois moços, e passámos muitos trabalhos, porque, além de nos não darem muitas vezes nada, nos espancam muitas vezes, pelo que a gente nos foge e deixa sós, e dizer isto a el-rei não muda nada, pelo que nós sofremos acomodando-nos com vender secretamente esta pobreza que temos, farrapos, coisas velhas, a fidalgos da terra a troco de mantimento. — Na cristandade se não faz nada.

 

Os reis grandes que são nomeados em Angola são Manicongo e Cutange e têm seus reis negros. Os fidalgos e pessoas nobres com que falamos não dão pelas coisas de Deus e o rei vemos mui poucas vezes e, quando lhe falamos nas coisas da fé, faz que não entende e, depois de importunado, diz que êle vira a aprender, e isto cheio de riso e zombando de nós.

 

  

http://www.gutenberg.org/files/20783/20783-h/images/139.png

 

Nosso amo, que se chama Gongacinza, me diz que el-rei ainda há pouco que começou a reinar e que por isso não dá ainda pelo que lhe dizemos, mas que tempo virá em que êle me mande chamar para o ensinar. Isto faz para nos deter, parecendo-lhe que enquanto aqui estivermos virão navios de portugueses aos portos com fazenda de que tirará proveito. — Outro dia diz que somos escravos de el-rei e que vamos fazer seu serviço, como algumas vezes fazemos, como de coser-lhe capas e outros vestidos de Portugal e brear almadias em que el-rei se lava e outras coisas semelhantes; e nisto passamos a vida.

 

Neste ano de sessenta e quatro se queimou a cidade de Angoleme, onde el-rei então residia e dez vezes se pôs o fogo em diversas vezes, fazendo sempre grande estrago em casas, fazenda e gente, mas da ultima ardeu sem ficar casa, de maneira que foi necessário levantar-se el-rei para daí a duas léguas a outra sua povoação, e daí a poucos dias se veio a Cabaça, metrópole de seus reinos, onde agora reside e nos com êle, fazendo aqui nova cidade e em novo sitio; foi a coisa mais espantosa o fogo de Angoleme, que eu nunca vi nem os negros se acordam de tal, porque uma cêrca tamanha como os muros da cidade de Évora, com cinco ou seis mil casas de palha e madeira muito grossa e muros de paus altos e grossos, tecidos de palha e canas, assim por todas as ruas da cidade ateado tudo em um estranho e vivo fogo por todas as partes com mui tempestuoso vento, era o mais medonho estrondo que se podia imaginar. — Começou com uma hora da noite e acabou uma ou duas horas ante-manhã pouco mais ou menos, deixando tudo arrazado e feito em cinza e carvão; e, conquanto as gentes que acudiam a êste fogo serem perto de mil pessoas, que logo se ajuntaram ao tanger dos seus chocalhos para arrecadar a fazenda de el-rei, se queimou infinidade, assim da terra como da de Portugal. — Era tão bravo êste fogo, que, nas mui altas palmeiras de que a cidade estava toda cheia, andavam tão fortes as línguas dêle, que com serem verdes ardiam como tochas e, como eram altas e cheias de rama, tomavam maior vento, pelo que faziam maior estrondo, e toda a terra que descobríamos com a vista estava tão clara como se fora ao meio-dia, sendo tão alta noite. Neste fogo morreu muita gente queimada que se não pode salvar, outra que se mandou queimar e lançar ao mesmo fogo para o aplacarem, que bem pouco lhe aproveitou, porque o Diabo assim o costuma com êles e com todos os seus servos, que é obrigá-los a fazer-lhe muitos serviços e maldades que lhes ordena, sem fazer por êles nenhuma coisa das que lhe pedem, antes tudo ao contrário. — Fêz, como digo, muito espanto êste novo fogo em toda a gente da terra e o que mais espanto fêz foi estarem as nossas casas pegadas com os muros de el-rei, não lhes fazendo nenhuma das vezes o fogo nada, antes vinha sempre morrer na nossa testada como milagrosa, e que ninguém o vira que o não atribuísse a grande milagre. E outra coisa que nao fêz pouco espanto foi verem nosso fato na rua sem guarda e não se furtar coisa alguma e o seu com muitas guardas se roubou quasi todo, coisa que nêles causou mui grande admiração, e falava toda a terra nisto. Nós atribuímos a especial providência e misericórdia de Deus.

 

Todos nos diziam que a igreja e coisas que de Deus nela tínhamos nos guardavam e por isso folgavam muitos de nos ter por vizinhos, por se verem livres do fogo e crer que por isso foram livres, como êles também crêem, por estarem a par da igreja, principalmente um gentio fidalgo, parente de el-rei, bem valoroso e capitão-mór dêste reino.

 

Ao primeiro de Novembro de mil quinhentos e sessenta e quatro.

 

P. Francisco de Gouveia

 

- - - * - - -

 

A dureza do cativeiro aumenta. Os portugueses são espancados com frequência e, para não morrerem de fome, sujeitam-se a “vender secretamente esta pobreza que temos, farrapos, coisas velhas»!

 

Na propagação da fé cristã não havia também quaisquer progressos: o rei, ou fazia que não os entendia ou francamente zombava das crenças dos cativos, caídos sob as garras do feiticeiro-mor Gongacinza, que os ia enganando conforme lhe convinha.

 

Todavia os portugueses já tinham igreja em Angoleme, como se vê da parte final do documento.

 

A carta dá a indicação dos reinos limítrofes de Angola: Manicongo e Cutange (Cassange?), mas fá-lo tão incompletamente e duma forma tão cortada tão cortada, que fica a suspeita de ter a carta sido truncada neste ponto.

 

Em face do grande incêndio que quasi por completo destruiu Angoleme, residência do rei, êste mudou para outra povoação, a duas léguas de distancia. Daí deslocou-se para Cabaça (ii), metrópole de seus reinos «onde agora reside e nós com êle, fazendo aqui nova cidade e em novo sítio».

 

A igreja portuguesa de Angoleme escapara do incêndio. (iii)

 

Rio de Janeiro, Maio de 2010

 

 Francisco Gomes de Amorim 

 

 

 

 

(i) Provisão de 10 de Setembro de 1555 expedida a Diogo de Teive, mandava entregar ao Provincial da Companhia nestes reinos, que era Diogo de Mirão, o Colégio das Artes, para que os Padres dirigissem e lessem as Artes e tudo o mais que lessem os mestres franceses».—Historia da Literatura Portuguesa, de Mendes dos Remédios, pag. 328 (5ª edição).

(ii) Nbanza-a-Cabaga, segunda côrte ou segunda banza — Da Mina ao Cabo Negro, L. Cordeiro, pag. 10, nota. Ver outra derivaçao em Lopes de Lima, intr., pag. ix, nota 4ª.

(iii) do livro Relações de Angola (Primórdios da Ocupação Portuguesa) – Pertencentes ao Colégio dos Padres da Companhia, de Luanda, e transcritas no Códice existente na Biblioteca Nacional de Paris. Prefaciadas, comentadas e anotadas por Gastão de Sousa Dias. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1934.

 

SUGESTÃO DE LEITURA - 2

 

 

Título: Milton

Autor: William Blake

Tradução, introdução e notas: Manuel Portela

Editor: Antígona

Edição: Novembro 2009

293 Páginas (inclui 51 ilustrações a cores)

 

Milton continua a publicação das obras de William Blake (1757-1827, artista e poeta), encetada em 1994 com a primeira edição de Cantigas da Inocência e da Experiência, sempre pela experiente e poética mão de Manuel Portela.

 

Milton encena a viagem de auto descoberta e renovação do herói que lhe dá título. No primeiro livro do poema, John Milton regressa do céu ao mundo dos mortais. Sob a forma de um cometa, penetra no corpo de William Blake. A relação entre o poeta vivo e o seu predecessor dramatiza as pulsões contrárias da consciência individual e uma luta sem tréguas pela afirmação da imaginação e da visão contra a mera exterioridade do mundo material. No segundo livro, Milton une-se à sua emanação feminina, Ololon, progredindo em direcção à superação apocalíptica das divisões entre sexos, entre vivos e mortos e entre a consciência humana e as suas projecções alienadas no mundo exterior.

 

Este enredo integra inúmeras referências e alusões, que vão desde a Bíblia à vida pessoal de Blake, em particular a difícil relação com o seu mecenas William Hayley. Mas a reescrita dos mitos da criação e a recriação mítica de factos biográficos são apenas duas das múltiplas dimensões desta viagem psiconáutica. Milton é também uma obra sobre a dilaceração do sujeito humano e sobre a presença das forças genesíacas e apocalípticas do universo na forma e nos desejos do corpo.

 

A sua fantasia visionária é, antes de mais, um produto da letra e da escrita como invenção simbólica do humano e como emulação da forja criadora. Como nos restantes livros iluminados, os actos de escrever, desenhar, gravar, imprimir e pintar parecem conter, nas suas interacções, a própria possibilidade do pensamento.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D