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A bem da Nação

MEMÓRIAS DO PORTUGAL RESPEITADO

 

 

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

 

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu Primeiro Secretário da Embaixada – dessa missão.

 

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, a pedido do funcionário encarregado da desk, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

 

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". No dia seguinte, sem aviso prévio, voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

 

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

 

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

 

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felísmino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

 

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

 

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

 

Estoril, 18 de Abril de 2010

 

 Luís Soares de Oliveira

O ENSINO DA ENGENHARIA

 E A DECLARAÇÃO DE BOLONHA – 1

 

Pelo Decreto-Lei nº 427-B/77, de 14/10, foi "instituído o ensino superior de curta duração", posteriormente alterado pela Lei nº 61/78, de 28/7.

 

Pelo Decreto-Lei nº 513-T/79, de 26/12, o ensino superior de curta duração passa a ser designado por "ensino superior politécnico". É ministrado "nas escolas superiores de educação e técnicas, agrupadas ou não em Institutos Politécnicos". São, pelo mesmo Decreto-Lei, criados 10 Institutos Politécnicos.

 

Pelo Decreto-Lei nº 263/80, de 7/8, foi criado o grau de mestre.

 

O Preâmbulo contém indicações menos exactas. O que aqui se diz não haver já era há muito existente, pelo menos nos cursos de Engenheiro Agrónomo e Engenheiro Silvicultor.

 

Pelo Decreto-Lei nº 264/80, de 7/8, foi estabelecida uma estrutura para estudos pós-licenciatura, ou seja, para os graus de mestre e doutor. Assim, foram criados, nalgumas universidades públicas, os Institutos Coordenadores de Estudos Graduados.

 

Não são referidas as Universidades dos Açores, do Algarve e da Beira Interior.

 

Na realidade e que seja do meu conhecimento, nenhum desses Institutos Coordenadores de Estudos Graduados entrou em funcionamento até 2001.

 

Pelo Decreto-Lei nº 303/80, de 16/8, foram criados alguns Institutos Politécnicos.

 

Refere o Decreto-Lei nº 513-T/79, de 26/12, que prevê a criação de "estabelecimentos de ensino superior politécnico" e diz (art.º 5º) que os estudos professados nos Institutos Politécnicos conferem o grau de bacharel.

 

*

 

Uma pormenorizada análise destes Decretos-Lei – em cujos preâmbulos se fazem afirmações pouco exactas e cujo articulado, como era evidente, causou grande confusão e enormes prejuízos ao País e a milhares de estudantes - ultrapassaria os limites permitidos a este texto. O sistema foi mal copiado da Grã Bretanha, pois não corresponde à divisão que existe nesse país e nos Estados Unidos, em que o ensino superior está dividido em "escola sub graduada" ("undergraduate school"), até ao grau de "Bachelor", e "escola graduada" ("graduate school") que dá os graus de "Master" e "Doctor".

 

Esta legislação constituiu a mais drástica alteração no esquema do ensino superior em Portugal na segunda metade do século XX. Infelizmente, apesar das boas intenções do legislador, as consequências imediatas foram:

- Pelo "enxerto" dum 4º grau académico no ensino superior - o mestrado, entre a licenciatura e o doutoramento - todas as licenciaturas portuguesas, qualquer que fosse o seu âmbito (e, como se sabe, era muito variável, em termos de duração e características) foram, internacionalmente, "promovidas" a bacharelatos. (É a quem tem um "Bachelor" que se manda fazer um "Master"). Isto é, qualquer médico ou engenheiro português (para falar dos cursos que conheço melhor) ficou automaticamente ao nível dum "Bachelor" inglês ou americano!

- Consequentemente, o grau português de bacharel, estando abaixo da licenciatura, deixou de ter qualquer validade internacional.

- Os institutos politécnicos, criados para darem o grau de bacharel e com um corpo docente de menos exigências que o das universidades, passaram a dar o grau de licenciado, a colaborar em mestrados e queriam dar doutoramentos. A incongruência é mais que evidente.

 

*

 

Por reconhecer estes defeitos, iniciei há mais de dez anos uma série de contactos com entidades responsáveis, com o objectivo de se corrigir este infeliz sistema, e propondo a solução que me parecia mais adequada. Não tendo encontrado qualquer reacção da parte dessas entidades, publiquei dois artigos de jornal, o primeiro em 1994 (1) e o segundo em 1995 (2).

 

O modelo proposto e que me parece ser o mais adequado é o seguinte:

 

1 - A imediata extinção dos “mestrados” (naturalmente, os que estão em curso serão concluídos)

 

2 - Os títulos académicos passariam a ser padronizados da seguinte forma:

Grau de Bacharel – 3 anos de disciplinas

Grau de Licenciado – 5 anos de disciplinas e 1 ano para fazer uma "tese de licenciatura"

Grau de Doutor – Após a licenciatura, com ou sem mais disciplinas (assunto a discutir), uma "tese de doutoramento".

 

Em determinados cursos, o grau de "Bacharel" talvez possa ser constituído pelos primeiros três anos duma “Licenciatura”. Mas, nos casos dos bacharelatos profissionais, tal não pode suceder, embora algumas disciplinas semestrais possam ser creditadas para a licenciatura correspondente. Um bacharelato profissional terá de ter algumas disciplinas básicas, mas com menor amplitude do que as da correspondente licenciatura, o mesmo sucedendo em relação às disciplinas técnicas. Um caso típico é o dos engenheiros técnicos, cujos três anos do curso não poderão ser os primeiros três anos duma licenciatura em engenharia.

 

Para esses bacharelatos profissionais será ainda exigido um ano de estágio, onde o candidato praticará, sob supervisão, a profissão que irá depois exercer. O relatório de estágio do candidato (que não deverá ser um trabalho de investigação num tema restrito, mas a descrição dos trabalhos profissionais efectuados) e o parecer do orientador serão necessários à obtenção do diploma. O estágio poderá ser efectuado na escola que concede o grau ou em qualquer outra instituição, pública ou privada, que a escola considere qualificada para o efeito e onde exista um orientador que seja considerado idóneo.

 

A tese de doutoramento não poderá deixar de dar uma significativa contribuição para o avanço do conhecimento no campo em que se situa.

 

Propus, também, a extinção da separação entre ensino superior universitário e ensino superior politécnico como duas entidades individualizadas, passando a considerar-se todo o ensino superior como ensino universitário, com os seus três graus de "Bacharel", "Licenciado" e "Doutor". (O grau português de "Licenciado" seria, obviamente, o correspondente ao "Master" inglês ou americano).

 

Os actuais Institutos Politécnicos seriam integrados nas Universidades que estivessem mais próximas ou com que tivessem maiores afinidades. O caso da Universidade do Algarve, onde o reitor já dirigia os dois organismos, podia considerar-se meio caminho andado na direcção que considero mais correcta.

 

Também propus a extinção da carreira docente específica do ensino superior politécnico, ficando apenas uma carreira docente universitária. Os professores dos institutos politécnicos com qualificações idênticas às de qualquer nível da carreira docente universitária transitariam para ela. Os que tivessem qualificações intermédias, manteriam essas categorias até fazerem as provas para o nível seguinte da carreira universitária.

 

Alguns dos actuais institutos politécnicos, transformados em pólos das universidades, poderão, quando atingirem dimensão física e corpo docente suficientemente qualificado, ser transformados em universidades, separando-se, assim, daquelas a que estavam ligados.

 

Em 1995 (2) escrevi: "Penso que o sistema que proponho é bastante mais equilibrado que o actual, com grandes vantagens para o País e para ao seu enquadramento internacional. Como na União Europeia existem grandes discrepâncias entre os diferentes países, considero que Portugal deveria propor para a Europa a adopção do sistema aqui esquematizado. No entanto, não pretendo que este esquema seja a última palavra e, naturalmente, apresento-o como base para discussão".

 

Apesar de ter discutido o assunto com diversas pessoas, entre elas um Ministro da Educação e dois Secretários de Estado do Ensino Superior, a sugestão não teve qualquer eco.

 

(continua)

 

 Miguel Mota*

 

* Engenheiro Agrónomo, Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado Referências

 

(1) - Mota, Miguel – Achegas para o novo estatuto da carreira docente universitária. Público de 2 de Julho de 1994

 

(2) - Mota, Miguel – A propósito da Escola Superior Agrária de Elvas, o Ensino Superior Agrícola. Linhas de Elvas de 5 de Maio de 1995

 

Publicado na "Ingenium" (Revista da Ordem dos Engenheiros) Nº 65, Fevereiro 2002

O PONTO E A ALAVANCA

 

 

Foi Arquimedes de Siracusa que afirmou um dia – creio que já depois do lendário grito “Eureka” com que anunciou que descobrira a fórmula de obtenção do volume dos corpos, partindo da água da banheira onde se banhava – que, com um ponto de apoio e uma alavanca ele moveria o mundo.

 

Tratava-se de um sábio, talvez descrente dos mitos que explicavam a criação do mundo e a sua infinita variedade. Daí a arrogância do dito que serviria, no entanto, a outros sábios e a outras descobertas posteriores.

 

Entretanto, um povo com tendências místicas, achara que tal criação do mundo, que povos politeístas atribuíam a poéticos deuses responsáveis pela organização de guerras e a criação de heróis na Terra, fora, pelo contrário, ordenada por um só Deus e que esse Deus a ele confiara pessoalmente o seu papel nessa criação, ditando-lhe umas leis que ficaram inscritas na pedra e anunciando, progressivamente, depois de muito castigar os homens, a vinda dum Messias que com a sua morte os salvaria.

 

Politeísmo, monoteísmo, formas de justificar aquilo que o Homem procura em vão conhecer, o problema da Criação, o problema do Criador. Religiões responsáveis pela criação de obras humanas, com maior ou menor veracidade, mas cuja autoria se perde na noite dos tempos – caso das epopeias gregas, caso das narrativas da Bíblia. E todas elas de extraordinária profundidade e beleza, a par de uma criatividade que nos maravilha, mau grado a bruteza de tantas delas, aliadas ao sentido do milagre nas histórias bíblicas do Velho Testamento, e até do Novo, de que a morte de Cristo seria a mais cruel e inútil.

 

O monoteísmo, prevalecendo sobre outras formas de teísmo, na formação do judaísmo, islamismo, cristianismo, espíritos racionalistas tentariam pôr em causa, posteriormente, o problema dos dogmas, defendendo a liberdade de pensamento, combatendo a superstição, como o fizeram os filósofos da Revolução Francesa, como Voltaire, com o seu frio deísmo racionalista, ou Rousseau, com o seu poético deísmo sentimental, seguidores, de resto, da filosofia inglesa, defendendo a liberdade e a tolerância religiosas, responsabilizando a própria natureza humana pelos seus males e misérias. Muitos mais filósofos se lhes seguiram, os adeptos do agnosticismo teísta ou ateísta, que nega ao homem a possibilidade de definir cientificamente Deus, os primeiros baseando na fé a sua crença, os segundos negando Deus.

 

É esta última a posição de Saramago, que se proclama ateu e que escolhe uma personagem bíblica para condenar a Bíblia, como livro de “maus costumes”, a pretexto de que ficou marcado em criança já, pela injustiça de Jeová contra Caim.

 

Entre as várias parábolas tão poéticas ditas por Jesus aos seus apóstolos, também lembro a história do “Filho Pródigo” como uma história de injustiça, que poderia atrair igual vingança do irmão cumpridor, que nunca teve vitelo nem banquete a festejá-lo. Mas a doutrina de Cristo é de bondade e perdão, temos que a aceitar, enquanto que a de Jeová é de vingança e retaliação.

 

Não é caso para se condenar duma assentada uma obra tão extraordinária criada pelo homem, até porque, ressalvada a perícia de alguma obra sua, o ponto e a alavanca de Saramago não têm a dimensão para destruir que tiveram os de Arquimedes para construir, movendo.

 

Berta Brás

CARDEAL JACINTO

 

 

Pretendendo Afonso VII de Leão e Castela que o Arcebispo de Braga se submetesse ao Arcebispo de Toledo que se intitulava Primaz de toda a Hispânia, conseguiu que o Papa enviasse o Cardeal Jacinto como seu legado a fim de impor essa hierarquia.

 

Contudo, nem o Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, nem o seu amigo D. João Peculiar, Arcebispo de Braga, aceitavam qualquer submissão que não directamente ao Papa.

 

Depois de várias negociações na Galiza e em Castela que saíram goradas, o Cardeal decidiu entrar em Portugal e dirigir-se a Coimbra para impor ao Rei a decisão do Papa (leia-se de Afonso VII de Leão e Castela).

 

Os factos poderão não ter ocorrido exactamente como consta da Crónica do inglês Mestre Rogério de Hoveden que acompanhou os cruzados ingleses na conquista de Lisboa aos mouros:

 

Nesse mesmo ano [1187], o Cardeal Jacinto, então legado papal para toda a Hispânia, depôs muitos abades, quer por causa dos seus méritos, quer pelo seu comportamento temerário. Querendo também destituir o Bispo de Coimbra, Afonso, Rei de Portugal, não permitiu que ele o destituísse. Pelo contrário, mandou que o dito Cardeal abandonasse a sua terra imediatamente porque, de contrário, cortar-lhe-ia um pé. Ouvindo isto, esse legado regressou imediatamente a Roma e o Bispo de Coimbra ficou com a sua Diocese em paz.

In Chronica magistri Rogeri de Hoveden (Londres, finais do séc. XII)

 

A lenda popular homóloga era bastante mais extensa:

 

E o papa lhe enviou uu cardeal que lhe demonstrasse a fé. Aqueste cardeal veo per casas dos reis de Espanha e honrárom-no muito e dissérom: “Senhor, aqui vos vem uu cardeal de Roma, porque sodes miscrado com o papa, por este bispo que assi fezestes”. El-rei disse: “Nom me arrepeesco”. E dissérom-lhe: “Todos os reis o vêem receber e lhe beijam a mão”. Disse El-rei estonce: “Nom seeria tanto honrado cardeal nem apostólico se i veesse, que me desse a mão a beijar, que lha eu nom cortasse o braço polo côvado, e desto el nom podia falecer.”

 

E aquestas parávoas houve-as de saber o cardeal, quando chegou a Coimbra, e houve grande medo. El-rei nom quis sair a recebê-lo, e ali teve o cardeal que era mal. E o cardeal, que chegou, foi-se pêra o Alcácer d’el-rei. E el-rei recebeu-o estonces mui bem em seus paaços, e disse-lhe logo: “Cardeal, que veestes aqui fazer, ca de Roma nunca me veo bem senom mal? E qual riqueza me enviou de Roma pêra estas hostes que faço sempre, que nunca quedo de dia nem de noute de guerrear com mouros? E, dom cardeal, se trazedes algo, que me dedes, se nom ide-vos vossa via”. E o cardeal disse: “Eu soo viido por vos demostrar a fé de Jesu Cristo”. El-rei disse: “Tam boos livros temos nos acá, como vós em Roma. E tam bem sabemos que veo Deus em na Virgem Santa Maria, como vós alá, os Romãos. E nom queremos outra cousa de Roma. Mais dem-vos agora todas aquelas cosas que fazem mester, e elas e nós veremos, eu e vós, se Deus quiser”.

 

E o cardeal se foi estonce pêra sua pousada, e mandou logo dar cevada aas sãs bestas e enviou por tôdolos clérigos da cidade quando cantava o galo. E excomungou toda a cidade e cavalgou e foi-se sa carreira. E quando foi a luz andara já ele duas léguas. E el-rei levantou-se de menhãa e disse: “Vamos veer o cardeal”. E os vassalos lhe dissérom: “Senhor, ido é já sa via, e excomungou-vos e todo vosso reino.” E el disse: “Dade-me o meu cavalo e irei após o cardeal”. E dérom-lhe entom o cavalo. E vistiu sa pele e cingiu sa espada e foi depôs ele e alcançou-o em uu lugar que dizem Santa Maria da Vimieira. E deitou-lhe a mão no cabeçam, e sacou a espada e quisera-lhe talhar a cabeça. E dissérom quatro cavaleiros que chegárom: “Senhor, por Deus nom façades, ca, se o cardeal matades, terom os de Roma que de todo em todo sodes herege”. E estonce disse el-rei esta parávoa: “Vós dades a cabeça ao cardeal, ca senom eu a levara dele”. E o cardeal lhe disse: “Rei, nom me façades mal. E qual preito vós quiserdes tal porei convosco”. El-rei disse estonce: “Pois quero que em todos meus dias nom seja Portugal excomungado e que nom levedes daqui ouro nem prata, nem bestas senom três”. E estonce lhe filhou quanto haver lhe achou, e ouro e prata e tôdalas bestas senom três. E disse el-rei: “Esto quero de vós em serviço”. E disse el-rei ao cardeal: “Quero que vós me enviedes carta de Roma que nunca Portugal seja excomungado em todos meus dias, que eu o ganhei com esta minha espada. E quero que me leixêes aquele vosso sobrinho, filho de vossa irmãa, em penhor, atá que seja aqui a carta. E, se a quatro meses aqui nom for a carta, que eu talhe a cabeça a vosso sobrinho”. E veo-lhe a carta aos quatro meses.

 

E dês ali adiante ele foi bispo e arcebispo. E em todos seus dias nem uu nom fez al em toda sa terra senom o que ele quis”.

 In “D. Afonso Henriques”, José Mattoso, pág. 198 e seg.

 

Cardeal Jacinto Borboni-Orsini

(Papa Celestino III)

 

Eis mais um episódio de espada que conduziu ao reconhecimento da independência de Portugal.

 

Abril de 2010 

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

AS FASES DA VIDA

 

Foto: Arquivo particular

 

Dizem os psicólogos e filósofos que viver o seu tempo implica em adequar comportamentos às diferentes necessidades de cada etapa da vida. Viver a vida é aprender a lidar com perdas e ganhos, é fazer escolhas, seguir caminhos, é entender e aceitar as mudanças que marcam o nosso destino, quando não há mais volta.

 

Para a criança o passado é quase inexistente, foi ontem, ainda não deixou marcas suficientes para construir uma história. O presente se faz de uma maneira intensa, marcante, onde a cognição dá à criança aquele ar puro, abstracto, inocente, de quem olha o mundo pela primeira vez. O futuro é um largo e dilatado horizonte, onde não se vê o fim, só inúmeras possibilidades fantasiosas.

 

É na infância que percebemos e aprendemos a ver o que nos cerca, a conhecer pessoas e objectos de maneira clara, sem preconceito de qualquer espécie, de uma forma natural e intuitiva, livres de pensamentos volitivos. É nessa fase da vida que o cérebro procura incessantes novidades para se alimentar e desenvolver, para armazenar imagens e sensações na memória. No futuro isso lhe dará a consciência, a básica cosmo-visão, a compreensão que, junto à educação e à genética, a fará um adulto lúcido ou toleirão, um bom ou mau cidadão. Nos lares normais e estruturados é na meninice que se é mais feliz. O mundo infantil se resume a quadros familiares, teatrais restritos, repetitivos, exclusivos, onde a criança vive harmoniosamente protegida e suprida nas suas elementares necessidades.

 

Os anos passam, a criança cresce e se transforma num jovem em busca de identidade própria. Tem anseios e desejos, sonha, tem ilusões. É a idade das inquietações, quando se espera tudo do mundo, principalmente a felicidade. É o tempo das revoltas ao ver as injustiças, é quando se quer mudar o mundo, acusando-o da pobreza material e da vacuidade da sociedade. É nesse tempo que se entende que para se conseguir o que se quer é preciso abdicar de algo, fazer sacrifícios, lutar. É na juventude que se aprende que realizar sonhos tem um preço. É nessa época de vigor, de escolhas ainda não sedimentadas, de tentativas, de erros e acertos, que o futuro é possível.

 

À medida que se aproxima a maturidade pouco a pouco se fecham portas, diminuem as opções de vida, as alternativas profissionais. Não se decidindo, o homem acaba sendo levado pelas oportunidades ou pelas necessidades. Aos 40 anos está completo. É um profissional, tem uma posição social e responsabilidades familiares. É a fase das realizações, das conquistas, das vaidades. Mas também é a época das perdas, dos lutos, dos arrependimentos, das frustrações, quando a vida não lhe traz o que gostaria. Mudar de comportamento, de vivências, é cada vez mais difícil. A vida fica menos flexível, as oportunidades são menores, o campo de actividades mais restrito. Porém, se as energias vitais ainda são suficientes e se ainda tem “ fichas para gastar”, com ajuda do psicólogo, pode recomeçar.

 

O homem ao chegar a velhice está mais ilustrado, tem mais a oferecer que para receber da sociedade. Sabe quem é. Liberto das paixões, das tolas vaidades, não precisa disputar mais nada. Sabe que tudo um dia acaba. A vitalidade física cai, perde as ilusões, a memória apaga as más recordações, retém os bons momentos, como flashes. Fica o conhecimento abstracto subentendido na infância, conceitos e valores pessoais, visão do passado. A vida urge, encurta porque a memória do tempo rotineiro vivido aos poucos se esfumaça. O velho vivencia o que acumulou de conhecimento em si mesmo. Faz o que pode e depois esquece.... É a memória falhando. O que lhe importa ao final de seus dias é a segurança material, o carinho da família, o bem estar. À consumação das energias vitais, quando expira o seu tempo existencial, a morte natural passa a ser leve, até desejada como o descanso final.

 

Uberaba, 01/04/10

 

 Maria Eduarda Fagundes

DEUS FOI QUEM DEU OS DENTES

 

Para aqueles que ainda não leram algo sobre essa outra “aventura”: em 2001 fui estar seis meses em Moçambique, como voluntário, ajudando na maravilhosa obra do Pai Américo, a Obra da Rua ou Casa do Gaiato. Na Massaca, Boane , a 45 km. de Maputo.
Há muito, muito que falar sobre esta Obra espantosa, mas hoje vão só dois “clichês” bem simples.
A Casa do Gaiato vista da horta. O cone ao fundo é o telhado da lindissima capela.

 
Aquilo a que, soberbos, os países ricos classificam de civilização, e que o dicionário eufemisticamente teima em traduzir por perfeição do estado social, não é mais do que um modus vivendi que, através da força do dinheiro e/ou órgãos de informação e difusão, se vai espalhando pelo mundo.
Não respeita fronteiras nem tradições, invade a privacidade, promove guerras e revoluções e a seguir empresta dinheiro para resolver situações criadas pela venda de armas, derruba e elege governos, e despreza os valores tradicionais.
Roma civilizou com o gládio, a inquisição com a água benta, os portugueses com a cruz e a espada, o Hitler tentou com os Panzers e Stalin com genocídios, os americanos com os dólares e a fissão dos átomos, e por aí segue a civilização, sendo a última moda as ONGs e os Projectos de Cooperação.
 
De repente, bem lá no interior duma qualquer selva tropical, onde habitam pigmeus ou insulares aborígenes asiáticos, entra um veículo motorizado, um rádio, uma revista pornográfica, que de entrada faz essa gente simples rir alegre e santamente e a seguir começa a perverter, e logo se põe o problema sobre o que está certo ou errado.
De que vale o milenar culto dos antepassados, se nos países civilizados os velhos são um lixo, um estorvo, e só quando morrem é que as pessoas fingem chorar a sua perda? Nem sempre!
De que vale uma Carta Universal dos Direitos do Homem se, nesses países civilizados, a voz da justiça tanta vez é abafada pela força da política, do dinheiro, dos lobbys e venda desenfreada de armas, minas anti pessoal e drogas?
Vasco e Jeremias. Em 2001, a estes ainda os dentes mal lhes haviam chegado!

 

 

Todos sabemos que a tal civilização pode trazer bem estar e melhoria de vida. Na verdade a quem? Àqueles que atraídos pelo mito das cidades acabam numa mísera barraca, à espera que da mesa dos bafejados caia uma migalha que lhes passe às mãos? Aos que na ânsia de usufruir dos bens modernos viajam como animais pendurados em velhos e desmantelados caminhões, ou os que todas as manhãs, e tardes, amontoados dentro de ónibus (autocarros, machimbombos, chapas, etc) com o imenso calor dos trópicos, correm para um sub emprego que na maioria dos casos nem lhes paga o básico para sua subsistência?
As ilusões vão-se perdendo, o Papai Noel deixa de ser um mito poético para ser unicamente uma festa da ganância comercial, assim como o Dia das Mães e o Dia das Crianças, e os civilizados passam a viver exclusivamente voltados para a força do dinheiro.
Abandonam-se os valores morais e as formas de religião tradicionais dando lugar àquelas que descobriram na crendice popular uma forma de rápido e violento enriquecimento, e a matéria acaba liquidando o espírito.
A um gaiato de 10 anos, moçambicano, cara alegre, cabeça rapada, orelhas em destaque, que ao rir mostrava a falta dos dois dentes incisivos de cima, por estar na idade da muda, perguntava para brincar com ele:
- O que você fez aos dentes? Comeu? Perdeu?
- Caíram!
- E onde estão agora?
- Na telha. E apontava para cima da casa.
- !?
Um religioso que ali estava, rindo também, explicou:
É tradição. Quando caem os dentes à criança, como foi Deus que lhos deu, ela atira-os para o ar, para Deus, para que Ele lhe devolva outros novos!
Quanta poesia, quanto respeito, quanta certeza no ciclo natural!
Felizmente ainda não estava totalmente civilizado, e por isso permanecia em comunhão e respeito para com o que os civilizados chamam de cosmos, mesmo sem saberem o que significa.

 
Numa das deambulações para captar em foto algumas imagens do povo, passei junto a uma casa onde estava uma mulher sentada à sombra a peneirar farinha. Ao lado um filhote de uns 2 anos. Disse-lhes adeus, sorriram e descontraídos corresponderam, com muitos outros adeus! Segui em frente. O filhote levantou-se e veio até à esquina da casa sempre a olhar para mim. Parei, para ver por onde seguir, olhei para trás e lá estava ele, ali a uns escassos metros. Disse-lhe adeus de novo. Sorriu e saiu a correr para mim! Quando chegou ao meu lado agarrou logo na minha mão. A mãe levantou-se veio atrás e quando o viu ao meu lado chamou-o: Zé! O tal de Zé disse logo “Não” e não largava a minha mão, com uma cara muito bem disposta! Devia querer ir passear comigo! A mãe tirou para fora um recheado peitão a ver se ele se interessava pela comida. “Não”.
Sempre com uma cara divertida, mas com a certeza de saber que naquele momento não era esse o programa que o atraía. A mãe aproximou-se (peitão já recolhido dentro da blusa, como é óbvio), ele largou a minha mão e fugiu. Lá foi ela atrás, apanhou-o, deu-lhe a mão, e quando os dois voltavam da grande “fuga”, uns cinco ou seis metros, fotografei-os. Vai aqui a foto deles.
Boa “praça”, o Zé!!


Do livro "Loisas da Arca do Velho", de Francisco G. de Amorim, 2001 - Livro inédito!
18-jan.2010

 

 

 

 

 

Do livro "Loisas da Arca do Velho", 2001 – Livro inédito!

 

 

 

 

ENERGIAS RENOVÁVEIS NEGLIGENCIADAS

 

 

Portugal está hoje melhor do que há quase trinta anos, quando publiquei um artigo a chamar a atenção para o que o país devia fazer no sentido de reduzir os elevadíssimos custos da importação de combustíveis (1). Além da energia hídrica, que já nessa altura era algo utilizada, o que se incrementou em tempos recentes foram principalmente a energia eólica e as células fotovoltaicas. (Há suspeitas de os consumidores estarem a pagar electricidade cara para que alguns tenham lucros chorudos e até tentarem travar outros aproveitamentos, mas isso é outro problema). No entanto, continuam a ser negligenciados ou muito pouco desenvolvidos alguns aproveitamentos que podem fazer diferença significativa. Para além dum melhor aproveitamento dos óleos de fritar, que julgo ser ainda uma pequena fracção do total, gostaria de chamar a atenção para dois casos em que poderemos fazer muito melhor do que actualmente.

 

Tem havido referências a fornos solares muito simples, até de construção caseira, destinados a cozinhar alimentos usando simplesmente o calor do sol. Apesar disso, não há uso generalizado nem são evidentes esforços da parte dos governantes ou das indústrias privadas para a sua divulgação. É um caso que bem pode ser tratado nas escolas, fazendo parte dos trabalhos manuais, como já vi notícia até na televisão, mas que não creio estar generalizado. De construção caseira ou por produção industrial, simples e barata, poderiam aproveitar o sol em quintais e varandas, poupando gás ou electricidade. Talvez os vendedores de combustíveis não gostem mas a economia nacional e a de muitas famílias agradecem.

 

Um outro aproveitamento é o do biogás, também chamado gás dos pântanos ou gás do estrume. É principalmente constituído por metano, um gás de fórmula simples, CH4 (cada molécula composta por um átomo de carbono e quatro átomos de hidrogénio), obtido a partir da fermentação de resíduos orgânicos, incluindo esgotos. Pode ser produzido em pequenas unidades, particularmente nas zonas rurais, ou em grandes instalações e é usado directamente, por queima, para aquecimento, ou em motores de explosão, incluindo geradores de electricidade. Comprimido, em garrafas com as usadas para o gás butano, pode ser usado em veículos automóveis. Os autocarros do transporte público na cidade de Helsingborg, na Suécia, utilizam o biogás produzido numa grande unidade. O líquido sobrante é levado para os campos por pipeline e utilizado pela agricultura, como um óptimo fertilizante.

 

A produção do biogás tem ainda o bom resultado de combate à poluição, algo particularmente importante em zonas como aquelas em que há grande concentração de explorações de suínos. Incrementando a utilização destes casos simples, Portugal pode dispensar uma grande parte da actual importação de combustíveis fósseis.

 

 Miguel Mota

 

(1) Mota, M. A agricultura é que há-de substituir o petróleo. Vida Rural Nº 128, Fevereiro de 1982

POSTAIS ILUSTRADOS XL

 

AINDA A REGIONALIZAÇÃO!

 

 

«O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há

sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo»

Fernando Pessoa

 

 

Como eu previa, este tema da Regionalização tem muitos cépticos. Mas os cepticismos com que fui confrontado são lógicos e requerem da minha parte algumas explicações mais concretas sobre o pensamento que fundamentou esta abordagem ao tema em discussão. É este respeito que devo ao debate de ideias que me leva a dar prioridade aos dois primeiros e-mails que recebi, que são de dois Amigos meus e que não quiseram comentar no blog o meu texto anterior “Quem tem medo da Regionalização”. Não são pessoas que temam identificar-se porque já se identificaram publicamente muitas vezes e as suas posições são conhecidas.

 

As questões foram umas mais genéricas e doutrinárias e outras mais específicas e práticas.

 

Comecemos pelas genéricas.

 

O centralismo é, de facto, a solução contrária à regionalização, assim como a perspectiva de só devermos existir e funcionar como um todo nacional. Centralizar significa aglutinar todas as decisões num só poder no centro; regionalizar obriga a que as decisões partam de vários centros localizados fora do poder central, ainda que ligadas ao ideário e comportamento centralizadores com aquele sentimento mítico de que tudo deve ser igual para todos. Sabemos que na vida real tal conformidade é diferente.

 

Regionalizar, neste caso, dividir para governar, não tem, na minha perspectiva, a intenção maléfica do “divide ut regnes” tão ao gosto do pensamento dos ditadores. Não! Aqui, dividir tem o significado de facilitar, de aumentar a eficácia e eficiência das decisões destinadas ao cumprimento público, tornando a máquina do Estado mais acessível e visível aos cidadãos, por estar mais próxima e os seus responsáveis poderem ser mais facilmente identificados e questionados [1]. Não esqueçamos que as funções e actividades de qualquer organismo regional não deixam de ser funções públicas e, consequentemente, de Estado; este, por ser mais próximo, torna-se inevitavelmente mais pequeno.

 

As classes sociais, mesmo elitistas e professando o modelo económico capitalista não colidem com a geografia comportamental do espaço regional. Nenhuma destas posições doutrinárias e sociais, que me foram expostas em relação ao meu texto anterior, deixa de perspectivar-se com o estar-se numa região e trabalhar-se sob a égide do poder regional.

 

Tanto quanto sei e comecemos pelos capitalistas, os negócios a nível regional têm maior capacidade de sobrevivência. Verifica-se, na realidade portuguesa, que as grandes empresas internacionais, sedeadas em território nacional, são aquelas que optam pela deslocalização, abandonando a região e os que nesta vivem, à sua sorte. Estas empresas não tiveram um surgimento e uma base regional. São voláteis porque a razão da sua existência sustenta-se em negócio sem raiz geográfica identificada, enquadrado, portanto, e apenas, na economia global.

 

 Diríamos que é um negócio do Mundo. As grandes, médias e pequenas empresas de raiz regional, continuam, a maior parte delas, em pleno desenvolvimento, só há que criar maior profundidade a esse enraizamento e em mais regiões, dando-lhes a oportunidade de evoluir para as periferias de modo concertado e lógico.

 

Quanto ao estatuto regional colidir com alguma elitização de classes não vejo o porquê. Um economista, um advogado, um médico, não deixam de pertencer a uma elite cultural e profissional pelo facto de dedicarem inteiramente o exercício do seu munus a uma Região. Recordam-se daquela polémica de um congresso do PSD com uma intervenção de um Homem do Norte sobre elitistas e sulistas? [2] O centralismo, o elitismo, a perspectiva nacional, fortemente enraizada nos conceitos de Pátria e Nação e a defesa do modelo capitalista não se excluem da minha ideia de Regionalização. Em primeiro lugar porque regionalizar, no meu projecto, não significa opor-se ao centro; mas, partir do centro e que este se reflicta e se fixe num ponto concreto do benefício. A decisão é aplicada mais celeremente, com menos degraus hierárquicos e mais facilmente identificada em relação ao poder de que emana. Menos Estado, menos burocracia, menos despesa pública, mais desenvolvimento sustentado em alicerces mais credíveis, mais economia.

 

Sou da opinião que, no período antes e próximo do 25 de Abril de 1974, vivíamos um modelo de capitalismo monopolista de Estado. Também muitos economistas Amigos partilham desta minha opinião. Ora, passados tantos processos revolucionários em curso, tantos governos ditos de direita, ditos de centro, ditos de esquerda, que capitalismo é que, actualmente, vivemos, mesmo com o capitalismo em crise?

 

Portugal está a entristecer. Fico-me com Fernando Pessoa [3]:

 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

 

(continua)

 

 Luís Santiago

 

[1] Esta realidade é mais visível no plano das Autarquias, nomeadamente, nas Câmaras e Juntas de Freguesia. Presidentes de Câmara e Vereadores há que são verdadeiros “artistas” a evitar o contacto com a “populaça” que votou neles e durante 4 anos ninguém põe a vista em cima de suas excelências, porque o “emprego” que lhes arranjaram dá muito trabalho e não lhes concede o tempo suficiente para ouvirem os cidadãos munícipes ou fregueses. Presidentes de Junta há que, com a maior das tranquilidades julgam perfeitamente normal a arrogância de tentarem evitar ser incomodados (porque lhes dá muito trabalho) e não cumprem a Lei quanto à publicidade dos actos para evitar aglomerados nas reuniões públicas mensais dos executivos a que estão por Lei obrigados a fazer para não serem surpreendidos com contestações inesperadas. É a prepotência no seu melhor. Só uma Regionalização séria e competente, acompanhada de uma legislação sobre o processo eleitoral, que combatesse estes hábitos enraizados de falta de fiscalização política por comodismo e falta de combatividade, deixando tudo ao “superior” critério dos eleitos poderia trazer uma nova cultura de procedimentos;

[2] Este conceito bipolar, visto assim, tem incidências mais perigosas de divisão nacional entre populações do que por via de uma regionalização integrada e bem feita. O que se passa realmente a nível político é que questionada sobre a relevância destas posições e do seu interesse político nacional, a détente política estima da sua sobrevivência e do aparelho partidário que lhe permite um emprego pago pelo orçamento do Estado. Chegámos a um ponto em que a ruptura com este modelo existente está eminente. É a hora! Senão veja-se, um político é morador num sítio e a Lei permite-lhe ir candidatar-se a uma Junta ou uma Câmara noutro lugar com o qual não tem relacionamento de espécie alguma. Ao nível da Freguesia esta posição é esclarecedora e evidente. Um Presidente de Junta, que não mora nessa Freguesia, mas noutra, candidata-se a esta outra onde não se lhe reconhecem laços de afectividade local. Os partidos criaram o maior centro de emprego de que há memória, só comparável com as arbitrariedades, asneiras, compadrios políticos, ilegitimidades, ilegalidades, subserviências pessoais e sustentação da incompetência da infeliz primeira República e, para infelicidade nossa, a maior fraude politica que actualmente vivemos é que a Liberdade de que supostamente gozamos é uma liberdade autorizada e consentida só para quem tenha uma posição de vénia para com o poder instalado democraticamente, tenha este a cor que tiver. É esta a actual mentalidade dos senhores da política quanto aos servos da gleba: quem não se curva, é liminarmente afastado do seu direito ao exercício da cidadania e da indignação; direito esse manifestado ao mais alto nível, há muitos anos, por um presidente da república português, em exercício, a um primeiro-ministro português, em exercício;

[3] In “Mensagem”.

INVESTIGAÇÃO AGRONÓMICA

Intervenção de Miguel Mota no

 

Fórum TSF sobre Inovação

 

em 23 de Novembro de 2009

 

 

Moderadora – Vamos já ao encontro do primeiro ouvinte, Miguel Mota, é Professor Catedrático jubilado, liga-nos de Oeiras. Bom dia.

 

Miguel Mota – Muito bom dia e muito obrigado por esta oportunidade para falar aos portugueses, especialmente dum problema tão importante como é este da inovação que, como já foi dito, depende da investigação científica.

 

Eu não sei o que vai fazer o Ministro da Agricultura que tomou posse há pouco, mas se não inverter rapidamente e drasticamente o que tem sido feito nos últimos tempos de destruição da agricultura, com especial ferocidade pelo ministro que, felizmente, já não está em funções, Portugal continuará, cada vez mais, na cauda da Europa.

 

E é exactamente pela investigação agronómica que deve começar, travando a destruição em curso e recuperando e ampliando aquilo que em tempos já tanto deu ao país e agora está uma amostra pequeníssima do que já foi. E deve começar pela Estação Agronómica Nacional, recentemente destruída, extinta, quero dizer, pela segunda vez! A primeira tinha sido com outro ministro e restaurada tempo depois.

 

Para além da grande contribuição que deu para a ciência, foram numerosos os casos em que, inovando, deu resultados económicos importantes à agricultura portuguesa. E, já agora, falo dum outro caso a ser destruído, que é a Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, cuja contribuição também foi enorme.

 

O grande público não se terá apercebido destes factos, mas eu posso mostrar um caso que toda a gente conhece, embora, provavelmente, ignorem a origem. Toda a gente conhece a uva D. Maria, que existe nos mercados, uma uva de bagos grandes, branca, muito doce e que já deu ao país muito dinheiro desde que foi introduzida. O que as pessoas não sabem é que ela resultou da investigação agronómica feita aqui em Oeiras, na Estação Agronómica, num trabalho brilhante de Genética, do meu infelizmente já falecido colega José Leão Ferreira de Almeida. Cruzou diferentes variedades, fez selecção e, entre as várias que conseguiu, uma delas foi essa que ele baptizou com o nome de sua mãe, D. Maria. O que a uva D. Maria dá ao país todos os anos, em relação àquelas que ela substituiu – é um caso de inovação dos mais típicos – é com certeza muito superior a tudo quanto a Estação Agronómica gasta. E quantos mais casos como a uva D. Maria deixaram de ser produzidos? Eu sei bem o que é essa destruição, pois conseguiu destruir grande parte do trabalho que eu ali fiz durante os muitos anos em que fui Chefe do Departamento de Genética.

 

O actual ministro deverá inverter esta destruição que, aliás, está patente em qualquer supermercado. Quando vamos a um supermercado e compramos batatas, cebolas, alhos e cenouras vindas de fora, isso quer dizer que a nossa agricultura está num estado miserável. E o responsável número um é, naturalmente, quem estiver à frente da pasta do Ministério da Agricultura.

 

Era isto que seria preciso fazer para Portugal sair da cauda da Europa.

 

Muito obrigado.

 

 Miguel Mota

EXPRESSÕES POPULARES - 4

 Do tempo da Maria Cachucha

 

 

 

Origem: A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, ao som das castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio.

 

Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris.

 

Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

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