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A bem da Nação

Aerodinâmica – 3

 

 
A folha de papel esvoaçou, engolida pelo autismo do remoinho. O texto escrito, mas por assinar, encontrava esta forma de publicação natural, directa e crua. As palavras editadas por uma sucessão de pequenos tornados. A centrifugação imposta pelo vendaval impunha outros significados às ideias abatanadas no caldeirão. A mensagem contorcida na folha resistia porque tinha alguma qualidade. A unidade de massa do papel conferia o peso aerodinâmico adequado. O voo da folha não foi suficientemente prolongado para dissolver a impressão e a aterragem do papel acabou por acontecer num terraço de um prédio construído nos anos quarenta. A folha pousou ao lado de um guarda-chuva partido. Se a folha tivesse olhos poderia observar o interior do apartamento. A sala de estar que dava acesso ao terraço estava recheada de livros e manuscritos. Um cesto de papéis com algumas folhas amarrotadas e outras tantas rasgadas, vítimas do controlo de qualidade. Ao canto da sala descansava uma bengala gasta, porventura cansada de tanto andar sem o amparo de uma bengala. Cinzeiros transbordavam de beatas, um claro indicador de múltiplas pausas para pensar ou sofrer a sós. Um isqueiro incendiara os cigarros mas não estava à vista. A dedução era gratuíta – não se vislumbravam fósforos queimados. O isqueiro, longe de olhares indiscretos estaria no bolso do incendiário e não tinha sido utilizado para exterminar os papéis contorcidos no cesto. Se tal acto incendiário tresloucado tivesse acontecido correriamos perigo. As folhas violentadas residiam num purgatório literário, numa espécie de semi-vida com pequenas chances de hospitalização, reabilitação e integração na sociedade das letras. O autor das ideias atiradas ao cesto não se tinha dado ao trabalho de fazer desaparecer todas as incongruências postas em papel. Era um profissional e já estava muito batido, sabia que para chegar lá era preciso pedalar muito e deitar alguma coisa a perder. Não se vislumbravam grémios de montanha. As etapas vencidas aconteciam na solidão do acto. As frases escritas e desprezadas faziam parte da encomenda para ocupar a coluna do semanário literário. Era assim há anos e ninguém questionava os procedimentos. Para falar honestamente e não escrever mentiras, ninguém tinha ido à fábrica ver onde e como a coisa escorria. O semanário tinha pedido um fornecimento de colunas por atacado e o resto era conversa.
 
Lá fora na varanda a folha de papel extraviada estava expectante, mas face ao exposto, o medo lentamente invadia-lhe o espírito. A visão daquele cesto de papéis estropiados perturbava e violentava. Sem dúvida tinha havido um holocausto de letras. As palavras amputadas já não fazim sentido, e deixavam de ser corpos de ideias. Era uma colecção macabra de letras, sem voz ou sentido. Uma nação inteira de consoantes e uma minoria de vogais esmagadas por uma força opressora. Uma tortura de dislexia aplicada sem misericórdia. As folhas toldadas dissimulavam a sua identidade, continham linhas impensáveis, dizeres inaudíveis e anunciavam a sua morte precoce. Se um orador versátil ensaiasse a leitura do desastre contido no cesto de papéis, decerto escutaríamos urros próximos da animalidade ou o uivar pesaroso do lobo. De certeza que por detrás do engendrado tinha havido uma sucessão de actos de desespero. A partir do terraço a perspectiva poderia levar a enganos, mas não estariamos longe da verdade se se ajuizasse que quem fez aquilo era capaz de violências maiores. O dono do apartamento está ausente mas há-de voltar para me matar – pensou a folha extraviada, algo aterrorizada. A página imaculada, prisioneira do terraço, tornava-se neurótica e no seu íntimo já sabia que o autor do paginacídio viria para a descobrir indefesa e à mercê quem sabe de uma tortura maior. Era uma questão de tempo.
 
(continua)
 
 John Wolf

UM PORTUGUÊS NA ANTÁRCTICA - 3

 

Mesmo!  
 
Depois de uma tarde e uma noite em Punta Arenas, levantar bem cedo, vestir tudo quanto for possível, porque se já está frio por aqui, lá, para baixo dos 62° de latitude Sul, a “coisa” vai pegar!
De ónibus directos para a porta do avião, uma bela manhã de sol, lá vamos no nosso confortável “aerolulão”, quase três horas de vôo, com os pés gelados, a caminho da Antárctica.
Chagados. À saída do avião, à nossa volta tudo branco! Tudo. Uns leves laivos da rocha aparecendo além e mais além ainda, para nos dar a certeza (?!) de que não tínhamos pousado em cima de nenhum iceberg, e uns poucos telhados de algumas instalações da Base Frei.   
A pista, e os arredores, tudo coberto de gelo e neve, e os nossos hábeis pilotos fizeram um pouso impecável. Palmas para eles, tanto mais que o comandante era o Ten. Cor. Portugal!
Primeira sensação nem foi de beleza ou espanto. Eu, senti-me o Capitão Scott! Apesar de bastante gente à volta, os parceiros da viagem e mais o pessoal da Base, a impressão é de um isolamento feroz! E de êxtase perante tamanha grandeza!
Tudo neve e gelo à nossa volta, uma “agradável” temperatura de -14°C, mas sensação de -500° por causa do ventinho e da neve que intermitentemente teimava em cair.
Recebidos na Base chilena Presidente Frei, por simpáticos oficiais chilenos, num pavilhão que chamam de hotel, mas que não tem acomodações para dormir. Só para receber os que por ali passam. Um cafezinho e... olhe lá!
Esta base chilena, bem com a russa, polonesa e brasileira ficam na Ilha Rei Jorge, pertencente ao arquipélago das Shetlands do Sul.
Um pouco de história: há muitos anos começou a briga internacional pela posse do continente antárctico. Estas ilhas são reivindicadas pelo Reino Unido desde 1908, pelo Chile desde 1940 e pela Argentina desde 1943. Com o Tratado da Antárctica, assinado em Washington, 1959, as reivindicações de soberania foram paralisadas, porque todos os países, além dos primeiros, queriam uma fatia do continente gelado. Sobretudo os do hemisfério sul, que argumentavam que seria como que o prolongamento do seu território continental. Depois estabeleceu-se que seria de quem para lá mandasse missões científicas, e, pelo tal Tratado se congelaram disputas territoriais. Na Antárctica, enquanto o Tratado for mantido não haverá exploração comercial de espécie alguma, e servirá apenas para pesquisa científica. Hoje são 27 os países que lá têm missões, mas poucos as têm ocupadas o ano inteiro, como o Chile e o Brasil.
O Chile, à espera que um dia aquilo tudo acabe em briga, o que é próprio dos homens, mantém a sua Base “habitada” o ano todo! Aliás cinco bases permanentes, o ano todo, e mais doze no verão, uma delas no paralelo 80°! Os oficiais que para lá vão levam mulheres e filhos, por dois anos, têm escola para as crianças, igreja, e isso poderá servir um dia para aquele papo do “uti possedetis” que já lhes deu o Canal de Beagle! Aliás em 1941 o Presidente chileno Don Pedro Aguirre Cerda, decretou, unilateralmente, a posse de parte da Antártida, compreendida entre os meridianos 53° e 90° W, terminando no Pólo Sul.
Parece que ninguém aceitou aquele papo dos chilenos, mas a verdade é que eles consideram aquela área seu próprio território, a Província Antárctica Chilena, e para aí chegar há que obter o visto de entrada no Chile! A verdade também é que o Tratado da Antárctica, o tal de 1959, não nega as reivindicações territoriais já existentes, para poder começar a haver algum entendimento entre as partes.
Desta Base é que se sai para a brasileira, Estação Antárctica Comandante Ferraz. Toda aquela área, este ano estava com muito mais neve do que parece ser habitual.
Ambas as Bases estão localizadas na Ilha do Rei George, afastadas, em linha reta, cerca de 17 milhas (náuticas!) ou 32 kms., uma da outra, cada uma em sua baía, o que dá, navegando, cerca de 27 milhas, sempre náuticas, visto que estamos no mar!
O tempo encoberto e o mar cheio de icebergs atrasaram a chegada do nosso navio “Ari Rongel” e o mau tempo a conveniente utilização do helicóptero – Hélibras UH-12/13 Esquilo – que só leva três passageiros por vez. Havia que transportar bastante gente de e para o navio. Os que haviam passado dezoito meses na Estação em vez dos doze previstos, loucos para voltar para casa, mais as suas bagagens, e os que tinham que para lá ir proceder a manutenções diversas. Teve que se utilizar também o bote do navio, mas as condições do tempo, com a grande altura de gelo e neve, tornavam o embarque e desembarque no bote uma operação de risco e malabarismo. A praia estava com dois metros de altura de gelo e neve! E furar um bote de borracha, por muito bom que ele seja, para o gelo... é piada! Perguntem ao Titanic!
O tempo ia passando e era preciso que o Hércules retornasse a Punta Arenas; havia que descarregar o navio com os “retornados” e suas “imbambas”. Após uma série de voos foi necessário reabastecer, a bordo, o helicóptero! Nevava, e os técnicos negaram-se a fazê-lo para evitar que um ou outro floco de neve entrasse no tanque! Poucos convidados pernoitariam na Estação, e foram os últimos a embarcar. Os mais novos nas primeiras viagens do helicóptero e no bote, este uns poucos minutos ziguezagueando entre o gelo, e por último, acompanhados do Sub Chefe do PROANTAR, os três “menos jovens”! Para ir do “hotel” chileno ao ponto de embarque, um a um, carregados nas moto-neves – snowmobiles – lá fomos, agarrados que nem preguiça em árvore, aos saltos, até onde deveria ser a praia! O bote estava lá sim... dois metros abaixo, e o caminho até ele, mesmo que tivéssemos andado só uma meia dúzia de metros, foi uma aventura! O gelo escorrega como manteiga e a possibilidade de uma queda ali...
Enquanto não entrávamos no bote o meu amigo apontou para o mar porque ali estaria a “passear” uma foca leopardo, das que não pedem autorização para comer um pinguim de uma só vez ou um pedaço de perna de gente. Com todo o equipamento de frio em cima da cabeça e mais os óculos, a verdade é que podiam lá estar mais de quinhentas focas que eu não via nada!
Por fim embarcados no bote de borracha. E novamente bem agarrados aos cabos laterais. O bote devagar por entre o gelo. E o gelo?
No meio da baía flutuavam, entre largas centenas, de todos os tamanhos, dois icebergs espectaculares, um imenso, todo plano por cima, parecia um enorme porta-aviões. O outro, talvez uns 30 a 40 metros de comprido e uma meia dúzia de altura, azul. Lindo. Lindo é pouco. Passámos bem junto a este e o espectáculo é deslumbrante. O azul, de intensidades diferentes, autêntica “água marinha”, coberto com uma bonita camada de neve ainda branca, é uma obra de arte maravilhosa, cheia de cavernas que lhe davam um efeito especial. A camada de gelo e neve na Antárctica tem uma espessura média de 2.750 metros de altura, chegando em alguns lugares a mais de 4.000. A compressão é enorme, e quanto mais se comprime, mais azul se torna o gelo. Estes icebergs vêm dos glaciares, muitos deles com mais de 2.000 anos! E é só com esse gelo brilhante que se pode saborear o autêntico whisky de 2.012 anos!
Pronto. Chegamos ao navio. Os últimos convidados, os jovens com uma média de idade de 72 anos, com aquele friozinho de fazer rachar o pensamento, mesmo através de luvas, gorro etc. vão ter que subir a bordo por escada exterior que começa com uma parte em corda e o resto com uns ferros molhados e escorregadios. Mas saímo-nos muito bem do teste e todos fomos louvados pela nossa juventude.
Finalmente a bordo, eram quase dez horas da noite, aliás dia, sem ter almoçado, recebidos pelo comandante e uma variedade de aperitivos de todas as qualidades na “Praça de Armas” do navio. Estômago confortado e o tal whisky que, se não tinha 2.012 anos, estava óptimo.
Entretanto a noite avançava, quase às 24 horas, e, para descer a terra e pernoitar na Estação, voltar a descer aquela escada horrível, sem ver nada... não era o que mais nos estava a sorrir, e houve quem sugerisse que dormíssemos a bordo! Sugestão aceite, o Imediato providenciou acomodações para todos.
Meia-noite e meia quando nos fomos deitar. Para mim demorou um pouco mais porque entrar naquele beliche exigiu um exercício de contorcionismo para o que não ia preparado. Ao fim de várias tentativas finalmente consegui enfiar as pernas pelo beliche e entrar nos braços de Morfeu!
No próximo texto visitaremos a EACF, faremos a viagem de retorno e... algo mais.
 
Rio de Janeiro, 22 de Novembro de 2009
 Francisco Gomes de Amorim

Aerodinâmica – 2

 

 
 
Para não levantar suspeitas ou apontar o dedo, não indicaremos nomes nem moradas. Iremos mais longe até anulando a genealogia ou a educação recebida pelos agentes. Não iremos referir cumplicidades, e entendendo esta abordagem no seu limite, teremos de aceitar que a explicação aqui dada acontece porque uma organização secreta forneceu a matéria considerada essencial a troco de algum dinheiro e que fechava definitivamente uma dívida antiga. Para tornar mais credível as razões indicadas ou as justificações, apenas podemos avançar que um sem número de senhas foi necessário para nos aproximarmos dos factos ou bem entendido, a verdade. Um labirinto descreve com precisão, a distância entre o ponto de partida e o pranto na leitura do texto, que permite entender este acontecimento terrível. Alertamos os mais sensíveis para a violência desta reportagem. E oferecemos a possibilidade de não envolvimento do leitor a partir de agora. Esta é a altura para decidir categoricamente o que se pretende entender. Mais tarde não valerá a pena bradar que não estava a par do que estava a suceder.
 
Quando acordou naquela manhã tinha tido um sonho maravilhoso. Era raro ter aquela clarividência mesmo desperto e a olhar-se ao espelho. De uma assentada a noite tinha plantado no seu espírito a totalidade das imagens. A magia residia na realização total e irrefutável do seu desígnio. Tinha de se mexer com um certo sentido de urgência para não desperdiçar a colheita de frases feitas. Era raro uma rede lançada na consciência, ou até para além da explicação, capturar tanto de uma só faina. A concretização do seu objectivo seria facilmente exequível com algumas ideias e umas resmas de papel. Sentia a emergência para expelir e salvar uma pluralidade de imagens, mas sabia que ao partilhar com os outros o tesouro iria vulgarizar o conceito, e a mensagem passaria a ser um travesti vulgar. A sua maturidade apenas agora lhe servia plenamente; oferecia-lhe a ferramenta do discernimento, muito útil para saber da essência da vida e explicá-la em forma de narrativa. A experiência desbastava passes desnecessários e eliminava intermediários oportunistas. Este sujeito tinha atravessado todos os estilos literários e deambulado por quase todas as filosofias pragmáticas. Para muitos era entendido como um alíbi perfeito para justificar dúvidas, mas a culpa não era dele. A responsabilidade do pensamento insalúbre era de uma parte substancial do seu ser. Era um escritor. Tinha começado a rabiscar como qualquer criança incapaz de soletrar, para mais tarde adestrar a escrita e caligrafar as ideias importantes que chegavam. Este sujeito deveria ser considerado um metroliterário – dedicado de forma irrepreensível à limpeza e perfeição do estilo, à afinação concedida pela largueza de espírito, deixando em aberto o desfecho das ideias, roçando com elegância a poesia mas permitindo a saída fácil daqueles leitores com problemas ligeiros de atenção, provocados pelo consumo de alcoól ou pela ausência de hábitos de leitura. Ao fim de anos de exercício, a máquina de escrever escravizada e barulhenta, deu lugar a um processador de textos, algo aceitável no seu entender. O aparelho dotado de tecnologia fazia trabalhar mais os dígitos e bastante menos os braços e ante-braços. A escrita ida e vinda no vaivém melancólico dos autores, voltava a ser silenciosa e era uma pena se o resto do mundo não percebesse os seus sonhos ou o seu pior pesadelo. À medida que o tempo passava, tinhamos ouvido falar que as sua ideias estavam a ser engolidas pelo dogma e pela intransigência, e a deglutição sem mascar das verdades inconvenientes provocava-lhe problemas digestivos. Havia alguém que confessara que uma úlcera maior tinha-lhe arrebentado o juízo. Outros porém não davam importância a essas considerações menos favoráveis. E podiamos acusá-los de imparcialidade, contudo importará referir que nos encontramos ainda no plano das percepções e dos juízos formados a partir de fragmentos transmitidos pela via oral. De facto, ninguém tinha sido o seu confidente ou tinha tido a ocasião flagrante de ver um texto seu compilado sobre a folha, para poder ulteriormente reflectir e formar uma outra opinião, favorável quem sabe. E depois aconteceu o que tinha de acontecer para despoletar reacções mais intensas. Pensa-se que terá sido num Domingo, e esse facto tem a sua importância relativa porque invulgarmente ele decidira escrever numa esplanada junto a um rio, cujo nome não vamos revelar por razões de segurança. E soprava algum vento que produzia um silvo, uma quase palavra ou a sugestão de que algo tinha de ser dito naquele momento.
 
(continua)
 
 John Wolf

UM PORTUGUÊS NA ANTÁRCTICA - 2

 

A  caminho  do  muito  frio
 
Estávamos a voar de Pelotas para Punta Arenas no Chile, cruzando a Patagónia e deixado o Uruguai para trás, cheio de sol!
Seis horas de vôo, no “conforto” dum cargueiro, mais de metade do tempo com os pés gelados – preparação para o que estava para vir – serviço de bordo impecável, dadas as circunstâncias, e sempre sob a responsabilidade da “tia” Alice (só faltou um ou dois copitos de vinho!), visita à cabine de comando do avião, boa parte do tempo circulando em pouco mais de meio metro quadrado, para aliviar o frio e aproveitar para ir conhecendo, aos gritos, os parceiros da viagem, finalmente chegámos.
Desembarque no aeroporto, que é base militar muito bem estruturada – parece estar à espera dum ataque “inimigo” – onde a alfândega só se preocupou em saber se levávamos frutas ou quaisquer outros vegetais ou comestíveis. Proibidíssimo!
Temperatura: 1° C, vento forte, e sensação de freezer!
O programa previa, e cumpriu-se, pernoita em Punta Arenas, e no regresso da Antárctica mais duas noites, com um dia livre, de modo que, antes do gelo (quase) absoluto vamos falar de Punta Arenas.
Fica ali mesmo! No Estreito de Magalhães! Antes da abertura do Canal do Panamá, passagem obrigatória entre os oceanos, hoje uma cidade com cerca de 150 mil habitantes. Praticamente plana, muito ordenada e limpíssima – não se vê no chão um único pedacinho de papel, cigarro ou qualquer lixo – ninguém atravessa a rua sem ser nas passarelas para pedestres, e assim mesmo quando tiver o sinal verde e, para vergonha de muita terra que todos nós conhecemos, tem quatro museus. Interessantes.
Hotel – ficámos no Rey Don Filipe, simpático e confortável, um café da manhã miserável e uma cozinha de primeira! Contradições incompreensíveis! – e  por toda a cidade uma razoável variedade de bons restaurantes, com preços sem exploração.
Não vai a Punta Arenas quem não experimentar a “santoja” (santola) de que há diversos criaderos, deliciosas, a merluza negra ou o congro! Peixes daqueles frios mares, de primeira ordem! Como na Argentina, hay también muy buenas carnes, como el cordero, magnifico. Tudo isto, mesmo parecendo pleonasmo há que referir, acompanhado do vinho chileno, que o tem de todos os tipos e gran calidad!
Com o decorrer da viagem e várias refeições em conjunto, iam-se conhecendo melhor aqueles com quem se criaram vínculos mais fortes, seja pelo tipo de interesses gerais e, opiniões durante as conversas, talvez uma ligeira identidade na gourmandise ou na apreciação dum bom copo. Mas novas personalidades se conheciam, algumas que ajudaram a marcar esta aventura Antárctica com um ambiente, não gelado do frio, mas caloroso entre muitos participantes. Seria uma tremenda vergonha referir só alguns e arriscar a hipótese de esquecer outros. De qualquer forma fica aqui um abraço para os que mais marcaram estas novas amizades. Eles, se lerem isto saberão bem a quem me refiro.
Punta Arenas tem uma zona franca, e aí se encontram, sobretudo electrónicos, por preços incríveis, e muitos aproveitaram para dar um up-grade nos seus televisores, máquinas fotográficas, e outros. Vinhos, em qualquer supermercado, com preços demasiado apetecíveis! A vida no Chile é mais barata que no Brasil.
Uma tarde entrou no hotel um dos mais jovens membros da nossa expedição, radiante porque tinha comprado uma mala muito barata. Aproximei-me, ouvi a explicação e perguntei quanto lhe tinha custado: US$ 16. Barato.
- Onde comprou? Lá me explicou em qual loja, e se ofereceu de imediato para voltar lá e comprar uma para mim!
- Mas eu não tenho dinheiro. Vim só com o cartão de crédito porque nem sabia que teríamos tempos livres durante as etapas.
- Não tem problema. Eu compro e depois o senhor manda-me o dinheiro.
Sumiu. Talvez nem uma hora depois voltava com a minha mala! Tomei nota do seu nome e conta bancária, e depois de lhe agradecer, disse para com os meus botões: Isto só mesmo brasileiro é que faz! Obrigado mais uma vez, Ramoncito Ferreira Marques Júnior, nome de sabor castelhano, mas simpatia brasileira! Motorista do Almirante!
Na véspera do regresso ao Brasil fomos visitar um Parque Nacional, La Pinguinera Seno Otways, a cerca de 70 kms a NW de Punta Arenas. Trilhas bem definidas para os visitantes, das quais não podem sair para não perturbar a vida selvagem, e maravilhosa. Infelizmente o dia estava frio e chuvoso. Mas ver os pinguins, estar com eles ali mesmo ao lado, sem sequer se preocuparem a perder tempo a olhar para os visitantes, é uma graça. E creio que não há animal mais gracioso do que o pinguim com aquele seu ar de milionário arruinado, andar desengonçado, e casamento para toda a vida. Mesmo quando perde a parceira, “enviúva”, o pinguim não procura outra companheira! Nem vai para as boates atrás das gatas/os, não discute se o aborto é bom ou criminoso, não usa preservativo nem outros anti concepcionais! Mesmo estando arriscado a ser comido por uma foca ou uma orca, talvez fosse bom ser um pinguim! Porque não?
Os pinguins gostam de emigrar, se aventurar pelos mares a caminho de lugares mais quentes! Sobem pelas correntes frias, em parte do ano pela corrente das Malvinas que atinge a costa do Brasil, e pela de Benguela, pelo menos até ao sul de Angola.
Quem se lembra desta maravilha
Em, talvez, 1964, trabalhava eu em Angola, na Cuca, responsável comercial da Companhia que tinha duas fábricas de cervejas: Luanda e Nova Lisboa. Um belo dia o director da fábrica de Nova Lisboa, o meu querido amigo Alfredo Duarte Figueiredo, telefona-me: – Acabei de receber aqui um presente que te mandaram. – Para mim??? Eu não recebo presentes de ninguém! Quem mandou? – O nosso agente de Moçâmedes. – - - Um presente? O que é? – Um pinguim!
De facto receber um pinguim de presente, até àquela data eu não sabia de alguém a quem tal tivesse acontecido. Um pinguim!?!?
- Bem... guarda-o bem, vai-lhe dando uns peixes, que não tarda vou aí!
Passados poucos dias lá fui ver o “meu” presente. Tinha sido enviado numa grade de madeira. Assim que cheguei abri a tampa para ver bem o “presente” e logo fui acarinhado com uma bicada!
Resolvemos fazer, no terreno da fábrica, um pequeno lago, com uma cerca à volta, e lá deixar o bichinho que virou atracção! A notícia correu e passado um ano ou dois foram chegando mais presentes à fábrica: um leopardo, um leão, alguns antílopes e assim se criou um mini zoo!
Mas nós estávamos em La Pinguinera. Além dos simpáticos pinguins, tomando banho de mar, regressando da pesca, ou caminhando entre a praia e as suas tocas, algumas lebres, bonitas, grandes, passaram, também sem grande pressa, uma delas muito fotogénica deixando-se fotografar e seguindo depois o fotógrafo!
A região é uma espécie de tundra, mas a visita a parques naturais é sempre um “must”, e este está muito bem organizado, como aliás tudo quanto vimos no Chile.
A praça principal da cidade tem de um lado um belo edifício apalaçado, hoje monumento nacional, que foi mandado construir em 1890 por um emigrante português que ali chegara 30 anos antes. Marinheiro o típico colonizador português, segundo a história que dele conta, juntou imensa fortuna e construiu a sua bela mansão, onde hoje está um hotel de luxo, um bar demasiado fumegante, e um óptimo restaurante, muito bem decorado, onde se come também por preço aceitável, e onde a tal santoja estava óptima, mais ainda na companhia dos amigos e dum “Chardonnay 2005”! Huummm... No centro da praça uma bela estátua a Fernão de Magalhães – Fernando de Magallanes – que tem na base, além duma sereia, um índio, tudo em bronze. Dizem por lá que aqueles que apertarem o dedão do pé do índio, um dia voltarão. Está polido o tal dedão de tanto ser esfregado, e pode-se ver na foto.
 
 
Como é de calcular eu fui dos que não perdeu essa hipótese e esperança!
Até à próxima, na Antárctica!
 
Rio de Janeiro, 19 de Novembro de 2009
  Francisco Gomes de Amorim

Aerodinâmica - 1

 

 
 
A época em que tudo aconteceu não é assim tão importante, podemos afirmar retrospectivamente. A temporalidade dos factos, o ângulo histórico, a distância, o desprendimento ou o envolvimento emocional, se arrastados à força para o interior do enredo seriam sempre fantoches pouco credíveis e nem serviriam para desculpar o sucedido. As testemunhas se arroladas não confirmariam os factos, nem se lembrariam de uma forma inequívoca. Perante um tribunal de média instância, não teriam nada a perder ou ganhar e não iriam partilhar a angústia daqueles que tomavam um partido ou reclamassem justiça ou sangue. Por isso o que iam dizendo foi registado por bondade ou condescendência, e até respeito, mas não para benefício da reconstituição das frases. Afinal tinham-se deslocado de distâncias consideráveis para prestar declarações. Tinham vindo de outros capítulos. Residiam noutros parágrafos e nalguns casos tinham emigrado para outros livros para escapar ao inquérito. O dito por uns era escutado com falsa atenção para ser descartado no momento seguinte, mas apenas os próprios tinham conhecimento do truque. O ambiente pesaroso fazia desconfiar dos participantes. Pairava no ar uma segunda natureza apreendida de forma tão perfeita que deixava de o ser. Era uma consciência selvagem, andando por aí à solta tentando convencer os outros da expiação. O bode convocado sumariamente para corroborar os factos, passava a ser uma cabra tosquiada, posta a nu, uma prostituta apalavrada vezes sem conta para ir ao encontro do cliente. Os outros relatores, igualmente hábeis no engano, poderiam até ser considerados simpáticos marginais. Tinham um ar composto mas havia uma certa sugestão de outra coisa qualquer. Não paravam de sorrir como se desejassem dissimular um outro estado sinistro. Uma contractura facial que incomodava. E iam ajuizando, dando bitates, especulando sobre a logística do sucedido dando resposta a perguntas não formuladas, mas isso não era importante para o caso e poderia ser ignorado. A única relação em vias de se agudizar era aquela entre os próprios visados, mas nunca tinham sido formalmente apresentados, para no instantâneo seguinte provavelmente se odiarem raivosamente. As partes interessadas não tinham tido a oportunidade para alcançar um estado irreversível que culminasse em insultos, na promessa de um duelo ou numa imediata troca de tiros. Os danos reais se medidos nunca poderiam ser indemnizados. E a coisa poderia ter ficado feia. Algo tão horrível como esperas e encomendas de porradas e escoriações. Se tudo isto acontecesse num anfiteatro repleto de críticos, teriam surgido comentários clássicos. Mais teria valido se tivessem ficado quietos.
 
Não porque queiramos desculpar os actos praticados, mas um conjunto de circunstâncias ditou o grau de exasperação. O único problema, enfrentado desta forma frouxa, relaciona-se com a ideia de circunstancialidade. A análise deste drama indica que a cadeia de eventos e o seu desfecho, não se deve a uma lista de condições imprescindíveis. Este bilhete, passado sub-repticiamente, funciona como um sério aviso para os perigos que enfrentamos. Assim que o ler, destrua-o de imediato.
 
(continua)
 
 John Wolf

“A minha geração”

 

Gosto das pessoas que falam da sua geração como sendo uma geração uniformemente culta, ledora dos filósofos, ensaiada nos socialismos humanitários, que se vê bem que o foram – humanitários – porque são os que socializam os fundos nacionais em termos individuais, todos bem na vida, aliás merecidamente, porque são intelectuais sólidos e previdentes, quase dos únicos humanos a merecer os benefícios da aura e da honra. E digo quase, porque da geração actual beneficiária dos fundos que o socialismo lhe providenciou, a maioria não se embebe dessas doutrinas de generosidade generalizada às classes trabalhadoras, porque lhes prefere a sua própria rede de generosidade eficientemente generalizada a cada nódulo.
 
 Na minha geração também havia já ledores de Marx e Engels, e do Freud, explorando com este – que, aliás, se tem mantido firme nos nossos tempos – os recônditos da libido e do superego nas suas obras insignes. Mas faziam-no escondidamente, não fosse a PIDE rebuscar-lhes as obras, como aconteceu no liceu Salazar em Lourenço Marques, onde, no meu 7º ano liceal, creio que em 52 ou 53, a polícia política foi buscar colegas nossos, logo pela manhãzinha, levando-os consigo para os calabouços, onde estiveram dias – alguns, menos firmes nas suas convicções, apenas horas – a ser interrogados sobre as suas leituras e actividades.
 
Anos depois viu-se a diferença entre os de convicções mais firmes e os de convicções menos firmes, talvez apenas intelectualmente curiosos: estes fizeram a tropa e a guerra, aqueles safaram-se para Paris e outros sítios com mais recursos aprazivelmente intelectuais e sócio-económicos.
 
Mas eu não me posso gabar de ter acompanhado os meus colegas intelectuais nas suas viagens políticas. Deixados os enredos romanescos dos livros azuis ou rosa da adolescência, enveredámos – eu e outros como eu – pelos escritores portugueses, franceses, brasileiros, americanos, etc., de colecções que então as livrarias produziam e nos serviam, mais para explorarmos os aspectos romanescos do que para aprofundarmos os valores politizadores. De política não se falava, tudo corria no melhor dos mundos, tínhamos um ensino arrumado, como arrumados estavam os percursos escolares, nas exigências de um saber a sério, embora com pouca amplitude ideológica. Mas não esqueço o encanto que o ensino proporcionava, distribuindo bilhetes do “Círculo de Cultura Musical”, salvo erro no cinema Gil Vicente, onde ouvi e vi Sequeira Costa, os irmãos Vasco e Grazi Barbosa, Villaret, Marcel Marceau e outros mais. Serve a referência para mostrar que não era tão destituído assim o nosso ensino então, como se quer fazer crer. Só que não permitia certas leituras que se achavam destrutivas de valores que o Estado Novo defendia.
 
Apenas, quando falo em geração – a minha geração – não posso deixar de referir outros que não liam Marx, mas também não liam Martin du Gard nem Somerset Maugham, nem Cervantes, nem Eça e não passavam do livro da primeira classe.
 
Falar da “minha geração” com tanto orgulho, como já vi fazer é, pois, uma forma vaidosa e falsa de exibir unilateralmente uma falsa condição social. Porque cada geração é formada por inúmeros indivíduos das mais diversas dinâmicas – físicas, intelectuais ou assim-assim.
 
Mas o valor da expressão também varia conforme o ponto de vista. Fala-se na geração de setenta, na geração romântica, na modernista, com conotação de superioridade intelectual, como eu ouvi hoje, referenciada, com grande orgulho por quem a pronunciou ou escreveu. Mas quando Almada Negreiros, no seu “Manifesto Anti-Dantas” afirma que “Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um cóio de indigentes, de indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos e só pode parir abaixo de zero!”, ele fala dos burgueses conservadores, dos literatos também, mas que pertencem a uma camada oposta, sem ideais progressistas. E troça desses, por seguirem preconceitos banais, de grande atraso mental, geração que “só pode parir abaixo de zero”.
 
Mas, concordo, as gerações reconhecidas na história, são as que muito leram, ou muito escreveram, como diria a minha amiga, p’r’à frentex. Talvez as pessoas que não estão incluídas na designação não se importem assim tanto.
 
Também nas batalhas só são conhecidos os nomes dos heróis. Os soldados dos pelotões não contam. Embora estivessem lá. Resta-lhes a consciência de terem estado e cumprido. Assim se lembrassem deles e da sua bolsa parcimoniosa os da geração beneficiária do comando da Nação. Ou mesmo os da geração ledora de Marx e Engels, para aplicarem a sábia doutrina humanitária, estimulando, nesse sentido, a beneficiária no comando, retirando, da rede, a corrupção, alargando a rede dos beneficiados.
                                                                                                                                                           Berta Brás

CHIEF SEATTLE

 

Carta de 'Chief Seattle' ao Presidente dos 
Estados Unidos em 1852
 
 
O Presidente informa que deseja comprar a nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu ou a terra? A ideia é-nos estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como poderão vocês comprá-los?
 
Cada parte desta terra é sagrada para o meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada insecto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência do meu povo.
 
Conhecemos a seiva que circula nas árvores como conhecemos o sangue que circula nas nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pónei, e o homem, pertencem todos à mesma família.
 
A água brilhante que corre nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue dos nossos ancestrais. Se lhes vendermos a nossa terra, vocês deverão lembrar-se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias da vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.
 
Os rios são nossos irmãos. Eles saciam a nossa sede, conduzem as nossas canoas e alimentam os nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se dedicaria a um irmão.
 
Se lhes vendermos a nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha o seu espírito com toda a vida que ampara. O vento, que deu ao nosso avô o seu primeiro alento, também recebe o seu último suspiro. O vento também dá aos nossos filhos o espírito da vida.
 
Assim, se lhes vendermos a nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.
 
Ensinarão aos vossos filhos o que ensinamos aos nossos? Que a terra é a nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra. O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo.
 
Uma coisa sabemos: o nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.
 
O vosso destino é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pónei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência.
 
Quando o último pele-vermelha desaparecer, junto com a sua vastidão selvagem e a sua memória for apenas a sombra de uma nuvem movendo-se sobre a planície… estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?
 
Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos a nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como a temos cuidado. Gravem nas vossas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na, como Deus nos ama a todos.
 
Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês.
 
Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, todos somos irmãos.
 
 
in 'O Poder do Mito', Joseph Campbell
 

burricadas 62

 

Much ado about nothinG. or NOT?
 
v        Começo por esclarecer que a vida sexual dos outros não me interessa absolutamente nada. Nem nas capas das revistas “cor-de-rosa” reparo.
v        Por outro lado, não deixam de me fazer alguma espécie situações como aquelas que (não) se vêem no centro de Luanda: raríssimas foram as vezes em que me cruzei com um parzinho a namorar.
v        Mas, confesso, toda esta polémica em torno do casamento entre duas pessoas do mesmo género (ah! língua portuguesa, como és rebuscada) não cessa de me surpreender. [Só o pudor me levou à redundância de juntar “duas” e “casamento”; reconheço, porém, que não tenho argumento que se aguente contra a poligamia de uns tantos adultos conscientes, capazes e apetentes]
v        Surpreende-me, primeiro, que tenham sido as vozes mais canoras contra o “casamento”, essa bafienta instituição burguesa, a virem propugnar agora (com invejável pertinácia, reconheço) pelo casamento homossexual.
v        Porque, uma de duas: (1) ou o casamento, enquanto instituição, já não está conforme os cânones da modernidade – e isso nada tem a ver, obviamente, com o género de cada um dos cônjuges; (2) ou está – e não haverá nenhuma razão para, no plano da ideologia, arrumar o casamento heterossexual no sótão dos trapos démodés.
v        Em boa verdade, deveria eu ter escrito “uma de três”. E a terceira possibilidade é justamente a mais rotunda incoerência no pensamento dos quadrantes que apareceram a advogar o casamento homossexual. Apenas isto: querem levar a deles avante, sem se dar sequer ao incómodo de honrar os adversários com argumentos, se não convincentes, pelo menos lógicos.
v        Uma vez que a convivência democrática assenta, também, na lógica dos argumentos trocados e no respeito mútuo entre todos os que nela participem, este “quero porque quero” deixa-me esclarecido sobre o que posso esperar de uns quantos dos meus concidadãos.
v        Surpreende-me, depois, que haja quem, nos dias de hoje, queira por força estar casado, quando nada obriga a tal. Ou seja, ao stress dos afectos junta-se, alegremente, a sujeição voluntária a um emaranhado de vínculos jurídicos que não é nada fácil desatar.
v        Ou talvez não me surpreenda, se o que se pretende é estender ao parceiro todas as regalias (nomeadamente, nos planos fiscal e assistencial) que o Estado Providência reservava, até agora, aos cônjuges heterossexuais. E, convenhamos, não é isso a igualdade perante a Lei?
v        Mas porquê, então, pôr como condição (a qual só poderá ser uma condição para ornamentar, que se presume sempre verificada – a menos que se regresse à presença de testemunhas independentes na câmara nupcial, ou à prova do lençol) a prática sexual? Não será isto, ainda, discriminar sob novas formas?
v        E fica no ar a pergunta incómoda: porque é que o Estado Providência tratava com tamanho desvelo o casamento heterossexual? Alguém cuidou de averiguar porquê?
v        E menos me surpreenderá se o que se quer é usar subtilmente a Lei para calar o escárnio com que a nossa cultura, cruel, sempre mimoseou a homossexualidade – apesar de esta não ser tão rara assim ao longo da História Pátria.
v        Com a devida vénia, penso que: (1) assumir livremente obrigações cujo cumprimento pode ser imposto por via judicial é coisa que só aos próprios deverá interessar; (2) acolher sob o manto protector do Estado Providência novas situações é matéria de contas e de governação, não de ideologia (e, ou me engano muito, ou mal se sentirão o acréscimo de despesa e a quebra de receita que tudo isto vai implicar).
v        Contudo, o que me surpreende deveras é que o problema de fundo continua ignorado, como se não existisse. E qual é esse problema?
v        É este, tem um sabor algo darwiniano e passa cada vez menos pelo casamento “de lei”: Como evitar o colapso demográfico? Como evitar que o número de indivíduos que nascem e crescem portugueses diminua progressivamente até à extinção?
v        Dito de outro modo: como é que a Nação (enquanto grupo social com uma língua e uma cultura próprias, e ainda capaz de exercer uns vestígios de soberania) vai perdurar por uns tempos mais?
v        Ou a geração actual, num alarde de egotismo extremo, não quer gerações vindouras, consumindo e desbaratando, hoje, num ambiente de fim de festa tudo o que foi sendo acumulado ao longo de quase 9 séculos?
v        Eis um problema político por excelência, que se prende com o modo como a comunidade se pensa e se organiza em Estado. Ou, numa expressão tão em voga, se auto-estima.
 
Janeiro de 2010
 
 A. Palhinha Machado
 

MEDIDAS DE POLÍTICA PARA 2010

  

PEDIDO
 
Peço-lhe que refira um máximo de dez medidas de política que, na sua opinião, resolveriam os nossos problemas. Peço-lhe também que não ultrapasse os 5000 caracteres (incluindo espaços). Mais lhe peço que me autorize a publicar as suas respostas no meu blog “A bem da Nação” em http://abemdanacao..blogs.sapo.pt/
(nome real ou pseudónimo, conforme o seu interesse)
 
6ª Resposta
 
Meu caro Amigo Dr. Salles da Fonseca!
 
 
Tem que juntar aos pressupostos do Cenário o seguinte: "admita que é um génio"
 
Apesar de tudo aqui vão algumas medidas que, devido à minha formação tecnocrática, são muito concretas e sucintas:
 
Imediatas
 
1- Congelamento por um ano dos salários e promoções do funcionalismo público, incluindo a Administração Central, as Autarquias, os Institutos (qualquer que seja o seu estatuto, desde que o estado domine, de uma maneira ou de outra) e nas Empresas Públicas, Autárquicas ou de Parceria.
 
2- Aumento do IVA (valor a ver)
 
3- Redução de 3/4 do número de assessores e consultores ( as suas funções seriam prosseguidas pelos Serviços)
 
4- Resolução de todos os contractos de consultadoria com entidades externas aos Serviços.
 
 
Menos imediatas mas a executar no prazo de um ano
 
5- Encerramento de todos os Institutos e afins passando as suas funções a ser exercidas pelos serviços.
 
A iniciar imediatamente mas com implementação mais faseada:
 
6- Apoio às empresas exportadoras(medidas várias)
 
7- Criação de 3 Grupos de Trabalho para no espaço de 3 meses propor soluções concretas para a Justiça, Educação e Corrupção ( Estes grupos seriam compostos por personalidades reconhecidas efectivamente como competentes nas respectivas matérias,seriam logisticamente assessorados pelos Serviços dos respectivos Ministérios e remunerados com valor a estabelecer mas a pagar no final dos 3 meses se os cumprissem)
 
8- Criação de um Grupo de Trabalho (Sempre com prazos limites mas aqui, mais alargados) para definição das funções que o Estado deve efectivamente exercer.
 
De mais difícil implementação mas imprescindível para não voltarmos ao mesmo:
 
9- Alteração do Regime para Presidencialista e da eleição dos deputados para Círculos Uninominais
 
Medidas urgentíssimas:
 
10- Criação de uma força militar para minha protecção pessoal e do Presidente que me apoiasse.
 
 E pronto; aqui estão as minhas medidas.
 
João Franco
 

MEDIDAS DE POLÍTICA PARA 2010

 

 
PEDIDO
Peço-lhe que refira um máximo de dez medidas de política que, na sua opinião, resolveriam os nossos problemas. Peço-lhe também que não ultrapasse os 5000 caracteres (incluindo espaços). Mais lhe peço que me autorize a publicar as suas respostas no meu blog “A bem da Nação” em http://abemdanacao..blogs.sapo.pt/
(nome real ou pseudónimo, conforme o seu interesse)
 
5ª Resposta
 
 
AS MINHAS MEDIDAS
 
Reforma sem penalizações para trabalhadores com 40 anos de descontos
- Permitiria a renovação do pessoal das empresas; o Estado deixa de pagar subsídio de desemprego e passa a pagar reforma.
 
Perdões fiscais
- Se o Estado permite aos contribuintes incumpridores que paguem as suas dívidas em condições especiais altamente favoráveis, deve também permitir aos cumpridores pagarem nas mesmas condições daqueles que não puderam pagar a tempo.
 
Fomentar o empreendedorismo jovem
- Os jovens com menos de 35 anos apresentam projectos empresariais, recebendo como incentivo o valor correspondente a 5 anos de subsídio de desemprego.
 
Fixar prazos para os Tribunais tomarem decisões
- Aos Advogados é exigido o cumprimento escrupuloso de prazos, normalmente curtos, mas os juizes mantêm sem despacho vários processos durante anos a fio, sem qualquer penalização disciplinar ou efeito na carreira.
 
A escola deve preparar os alunos para a vida activa
- A escola tem sido o palco dos sindicatos de professores. A escola deveria ser o palco dos alunos, de onde se espera que saiam preparados para a vida real.
 
Os programas de formação profissional devem ser definidos de acordo com as necessidades das empresas
- Quem define os programas de formação está a pensar nos alunos de hoje e não nos alunos que vamos formar daqui a 4 ou 5 anos. Não é assim que se formam jovens para a vida.
 
O Estado deve pagar a tempo e horas aos seus fornecedores
- O Estado não paga a tempo às empresas, mas pede-lhes o pagamento especial por conta - tipo imposto adiantado. Cobra muito antes e paga muito depois! 
 
Criar a Carteira Profissional
- Cada profissional deve ter um cartão em que ficam registados todos os cursos de formação que frequentou e as classificações obtidas. Este cartão atesta a categoria profissional do seu titular e o investimento em formação. Já houve até há talvez 30 anos. Entretanto, deixou de ser emitido.
 
Daniel Soares de Oliveira Daniel Soares de Oliveira

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