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A bem da Nação

Burricadas - 4

 

Chuva de molha-tolos ( IV )

v      Desde sempre, a teoria económica lidou mal com o volume de moeda em circulação (isto é, a liquidez ou massa monetária). Lá terá as suas razões: de facto, assim, à primeira vista, se todos os preços duplicarem, e se os rendimentos nominais (salários, rendas, etc.) de cada um de nós duplicarem também, dir-se-ia que ninguém sai, nem beneficiado, nem prejudicado.

v      A esta luz, a liquidez é completamente irrelevante - e, talvez por isso, tem sido banida dos modelos “macro”. Mas o facto de baralhar premissas que são correntes na teoria económica também terá a sua quota-parte de responsabilidade no desprezo com que é habitualmente tratada.

v      Um exemplo: nos tempos que correm, só as estratégias de política monetária em preço (isto é, baseadas na instrumentalização de taxas de juro nominais através de taxas directoras) têm foros de cidadania por esse mundo fora (apesar de o BCE, forçado pelas circunstâncias, ter vindo a reconhecer cada vez maior importância à variação da massa monetária).

v      Acontece, porém, que o que assim se retrata não é a liquidez com que nos deparamos na vida real. [Aliás, a ideia que resumi mais acima só é válida: (1) se o equilíbrio for estático e assim se mantiver indefinidamente; (2) se a liquidez for distribuída sob a forma de “mesadas” (por dádiva) e, não, através de trocas monetárias; (3) se a riqueza não existir ou, existindo, não puder ser transferida de período para período; (4) se as escalas de preferências individuais forem igualmente invariantes (mas não forçosamente idênticas). Tudo muito longe da realidade, como é bem de ver.]

v      Na vida real, o volume de moeda em circulação varia constantemente – e os empréstimos bancários são uma causa importantes dessas variações. Na vida real, as trocas monetárias, as operações financeiras e as transferências de rendimento estão a modificar, continuamente, a distribuição da liquidez pelos sectores de actividade, pelas empresas e pelos indivíduos. Na vida real, os Bancos Centrais estão, umas vezes, a injectar liquidez nos seus sistemas bancários, outras, a removê-la – prova provada de que a liquidez conta. Na vida real, os mercados de bens e serviços e o mercado do trabalho reagem às variações da liquidez – e são especialmente sensíveis às variações bruscas, aos “saltos”.

v      Ora são precisamente estas duas formas de encarar a liquidez – variação temporal e dispersão – que têm consequência a nível “macro”. Até porque o equilíbrio dinâmico de uma economia não se compadece com todo e qualquer “salto” na massa monetária, e esfuma-se quando a liquidez está mal distribuída.

v      Perdoe-me, Leitor, a deambulação. Mas penso que, sem estas noções, muito do que está a acontecer será, no mínimo, desconcertante.

v      Quis o destino que a economia dos USA registasse nos últimos anos ritmos de expansão da massa monetária que eram, numa perspectiva histórica, muito elevados.

v      Causas próximas? O financiamento do deficit orçamental e do deficit da Balança de Transacções Correntes (os tais deficits gémeos); uma política monetária acomodatícia por parte da Federal Reserve, ainda preocupada com as consequências do 09/11, do crash (suave, apesar de tudo) das Bolsas e de um ou outro escândalo financeiro; o superavit da Balança de Capitais não monetários - tudo terá contribuído, certamente, para uma tal expansão.

v      Mas era da actividade bancária que partiam os impulsos decisivos, tanto mais que os Bancos americanos, em geral, haviam entrado no novo milénio bastante capitalizados e com apreciável liquidez (fruto da evolução económica na década de ’90, que não cabe aqui descrever).

v      Vê-se agora para onde se encaminhou essa liquidez que a Federal Reserve tardou em esterilizar primeiro, e em remover depois: esvoaçou pelas Bolsas de Valores e acabou por poisar, em grande número, no sector imobiliário.

v      E aqui fez a sua aparição outra das “leis económicas”: se as taxas de juro nominais baixam, é “natural” que a massa monetária se expanda. Provavelmente terá sido por estar convencido da inevitabilidade desta “lei” que a Federal Reserve ia olhando com alguma complacência para a expansão acelerada da liquidez que as estatísticas monetárias americanas revelavam, mês após mês.

v      O certo é que um sistema bancário que se baseie unicamente nesta “lei”, ignora o risco – e os que ignoram o risco caminham para o desastre.

v      Preservar a estabilidade financeira implica reconhecer que, quando na origem da expansão da liquidez estão os empréstimos bancários, o que acontece com a exposição dos Bancos ao risco é tão importante quanto o que se passa com as taxas directoras. Aparentemente, na Federal Reserve os indicadores do risco a que os seus Bancos se iam expondo tardaram em dar sinal – deviam estar mal calibrados.

v      Ou, talvez, o problema não fosse ainda a desafinação dos indicadores. Desde logo, porque as operações de titularização faziam crer que os Bancos (originadores) se haviam livrado do risco (passado o diabrete...) e que o risco já não residia no sistema bancário, mas algures - ainda que não se soubesse muito bem onde.

v      E talvez uma outra “lei”, uma “ideia feita” mais, das muitas que giram por aí, impedisse que a realidade fosse vista com olhos de ver: afinal, tratava-se de empréstimos hipotecários – e as casas de habitação sempre são garantias rock solid. Ou não?

v      Não, não são - por muitas e excelentes razões que não vêm aqui ao caso. O que vem ao caso é constatar que as casas de habitação são também activos financeiros e, enquanto tal, oferecem risco: risco de mercado.

v      Ora, acontecia que, ao tempo, os Bancos americanos (como os Bancos europeus, também) não tinham de divulgar: (1) o valor, a preços do mercado (mark to market), das garantias reais que lhes aproveitavam; (2) o rácio entre esse valor e o crédito assim garantido. Quase todos agiam (e agem?) como se o valor das garantias hipotecárias fosse certo e imutável, sempre e só aquele que os levara a decidir pelas operações, em primeiro lugar. Puro engano.

v      O que hoje se teme, também, é que todas essas garantias hipotecárias poderão não ser suficientes se, em desespero de causa, começarem a ser executadas, inundando o mercado imobiliário de casas para venda. Isso afectará, certamente, o valor de mercado de todas as garantias hipotecárias, mesmo daquelas que respaldam empréstimos de baixo risco (mais um exemplo de que, nos mercados, nada está ao abrigo dos riscos que se propagam à velocidade da luz).

v      E as parcelas dos empréstimos hipotecários que as garantias não cobrirem poderão exigir que alguns Bancos, sem alternativa, tenham de reforçar os seus capitais próprios – levando-os a recorrer ao mercado de capitais. Novas emissões a puxar para baixo as cotações....como estranhar, pois, esta sensação de crise?

v      A agravar tudo isto, alguns financiadores (sobretudo, Bancos locais e financeiras), na corrida aos empréstimos hipotecários, não recuaram perante nada. Sabe-se que há um número ainda por apurar de operações com capitalização de juros (eufemisticamente, “amortizações negativas”) que podem levar os devedores a esforços financeiros incomportáveis, e os Bancos credores a ficarem expostos a riscos superiores aqueles que têm vindo a divulgar.

v      Em suma: é de esperar uma boa dose de happening naquilo que o futuro nos reserva. (cont.)

 

A. PALHINHA MACHADO

 

Setembro 2007

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