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A bem da Nação

DOS JORNAIS...

 

INGOVERNABILIDADE
 
 
Quando o Primeiro-ministro vem a público declarar que o País está ingovernável, isso significa obviamente que ele se está a declarar incapaz de governar o País.
 
Assim, só há uma solução: a DEMISSÃO do Primeiro-ministro sem estar à espera que o Presidente da República tome tal iniciativa.
 
Eis o que me é dado parecer.
 
Meditemos e passem bem!
 
Henrique Salles da Fonseca

TRATADO DE LISBOA

 

 
 
 
No que se refere à Política Comum de Pescas da UE e ao recente Tratado de Lisboa, esta associação (Associação de Comerciantes do Pescado dos Açores) manifestou o seu total desacordo quanto à transferência para Bruxelas da gestão exclusiva dos recursos biológicos do mar não compreendendo que uma Política Comum de Pescas reconhecidamente desastrosa inclusivamente pelo Tribunal de Contas Europeu e que levou ao esgotamento de diversos recursos pesqueiros, possa ser ela agora a gerir recursos para os quais demonstrou total incapacidade.

Carlos Rego
In «Correio dos Açores», 31 de Janeiro de 2008

UMA PRENDA DE NATAL DA ANTÍGONA – 3

 

Uma época de filhos de cães – 3
 
A visão deste futuro mirífico foi bruscamente perturbada pelos latidos de um cão que dava a impressão de ser de uma espécie rara, desconhecida no bairro. Havia nestes latidos uma notável dose de insolência e como que um desafio lançado contra sabe-se lá que raça maldita. Subjugado e seduzido por este desempenho, Mokhtar dispôs-se a procurar o animal com a intenção de o adoptar, caso ele tivesse fugido a um dono autoritário e mal-educado. A ideia de passear com um cão pela trela enchia-o já de júbilo como um ataque subtil ao mito insuportável da supremacia do homem. Pôs-se assim a inspeccionar a esplanada, mas, em vez de um encontro amigável com um membro eminente da raça canina, foi ofuscado por um esplendor de cores cambiantes sob os raios pálidos de um sol de Inverno, bruscamente surgido de entre as nuvens, como que para participar neste surpreendente espectáculo feérico.
O responsável por esta intrusão excêntrica da moda, símbolo da modernidade, no cenário imundo da esplanada, era um jovem dos seus vinte anos, de físico atraente e porte aristocrático, sentado a uma mesa à entrada do café, e que exibia uma panóplia vestimentar de grande ousadia na escolha dos tecidos e das cores. Este jovem esteta envergara, para uma visita turística nestas paragens deserdadas, calças de linho branco, camisa de seda vermelha, bem aberta no peito, e casaco preto de caxemira, com um pequeno ramo de jasmim na botoeira. Para completar este traje magnificente e requintado, calçava sapatos de verniz, como os que usam os ministros e os proxenetas quando vão à ópera. Mas as originalidades deste enviado do diabo não se ficavam por aqui: estava a fumar um cigarro de haxixe, cujo fumo parado desenhava uma espécie de auréola sobre a sua cabeça.
Perante esta cena inusitada, Mokhtar aguardou calmamente o que se ia passar a seguir, estranhamente consciente de que este príncipe da elegância, perdido neste lugar, tinha para lhe transmitir uma mensagem da mais alta importância. Dir-se-ia que o portador da mensagem se apercebera desta expectativa e que estava pronto para lhe responder, pois, sem mais delongas, abandonou a sua pose descontraída, endireitou-se na cadeira, ergueu os olhos ao céu, e depois, com a determinação do cantor que entoa a ária que o celebrizou, pôs-se a ladrar com um tom implacável e obstinadamente sarcástico, parecendo assim exprimir a sua raiva para com os habitantes da casa em frente. Passado um momento, parou com os latidos e virou-se para Mokhtar, visivelmente satisfeito com a sua proeza.
Mokhtar aplaudiu discretamente para não acordar o homem adormecido no seu banco, único elemento de realidade tangível que o impedia de ficar alarmado. Sem qualquer dúvida, estes latidos continham um sentido oculto que ele tinha de decifrar o mais rapidamente possível, mas o imitador de cães furiosos não lhe deu tempo para isso ao desferir-lhe a seguinte frase insensata:
- Estava certo de que compreenderias.
- De onde vem essa certeza? – perguntou Mokhtar. – Gostaria muito de conhecer as razões dela.
O jovem pimpão, que se chamava Haydar, levantou-se para se ir sentar a uma mesa junto de Mokhtar e começou a falar com um tom fortemente caloroso, como se pretendesse cativar o seu interlocutor com vista a uma cumplicidade eterna.
- Passava por aqui, guiado apenas pelo acaso, quando te vi sentado, sozinho, neste café piolhoso. Mas, em vez da tristeza e do abatimento do solitário, pairava nos teus lábios um sorriso muito especial, o género de sorriso malicioso que é um desafio à infâmia universal. Sentias-te mais poderoso do que algum monarca jamais foi. Isto levou-me a pensar que tinha obtido a tua compreensão.
 Photo Albert Cossery Albert Cossery
FIM
Tradução: Luís Leitão
Revisão: Carla da Silva Pereira
  1979_2009
Trinta anos de minoria absoluta
Trinta anos de insolências
AntígonaRua da Trindade, 5 – 2º fte; 1200-467 Lisboa | Portugal; Tel. (+351) 21 324 41 70

SIT TIBI TERRA LEVIS

 

Paul A. Samuelson morreu aos 94 anos
 
Paul Samuelson
 
Nascido em Gary, estado norte-americano do Indiana, em 1915, Samuelson frequentou a Universidade de Chigado tendo concluído a graduação em 1935. O mestrado e o doutoramento foram feitos em Harvard. 
 
Morreu ontem, 13 de Dezembro de 2009.
 
Na economia antiquada de 'laissez-faire', a prosperidade era de facto uma flor frágil. Mas para uma 'economia mista' moderna na era pós-Keynesiana, as políticas fiscal e monetária podem prevenir quedas crónicas.
 
(Expresso on-line)

O TEOREMA DE A CANÇÃO DE LISBOA

 

 
 
Portugal está em crise. Mas qual crise? Estamos em crise há dez anos e esta é nova.
 
Para compreender isto temos de separar duas coisas diferentes. A nossa primeira doença é a obesidade. Esta é a crise antiga, que vem da década de 90 e nunca mais se resolve. Portugal está balofo. Comeu mais do que devia e tem problemas de coração, digestão e locomoção por excesso de peso. Perdeu competitividade, empolou o orçamento, divergiu da Europa. A dívida total do país ao exterior (posição de investimento internacional) era de 8% do produto nacional em 1996. Em 2008 atingiu os 100%, sendo metade dívida pública. Isto é viver acima das posses, comendo mais do que devia!
 
O problema já fez fugir dois primeiros-ministros, o terceiro não teve tempo de fugir e o actual ainda não se sabe se fugirá. A história é fácil de contar. Com o Eng. Guterres, que entrou em 1995, o País comeu à farta e engordou à grande. Em 2001, com a dívida já nos 50% do PIB, ele foi ao médico, recebeu o diagnóstico e... fugiu para a ONU. Depois veio o Dr. Barroso, que leu a dieta e comprou fruta, mas em 2004, com a dívida nos 65%, fugiu para a UE. O Dr. Santana Lopes disse que "gordura é formosura" e puseram-no fora. Tão depressa que nem mudou os 65%. O Eng. Sócrates prometeu jejum, fez lipoaspiração, mas continuou a comer. Chegou-se aos 100%.
 
O nosso principal problema é esta terrível obesidade. Ou melhor, era. Porque de repente aconteceu algo que trouxe novos sintomas. O que sucedeu foi uma coisa impossível: uma epidemia mundial de tuberculose infecciosa, uma doença que não se via desde anos 1930. De repente, a tísica tornou-se tão dominante que temos de comer muito para ganhar forças. Para um país como Portugal isto dá a confusão. Agora o cardiologista exige dieta enquanto o pneumologista aconselha refeições reforçadas para curar a fraqueza. Que podemos fazer?
 
A resposta política é evidente. A prioridade neste momento tem de ser o emprego e para isso devemos usar dois instrumentos principais: orçamento e salários. Na despesa pública é preciso gastar, mas com cuidado. Devemos ajudar desempregados, empresas e pobres e é preciso salvar empregos viáveis. Mas tudo isto com o mínimo de gastos, por causa da obesidade. Relativamente aos salários é preciso moderação para enfrentar a crise, recuperar competitividade e fazer partilha justa dos sacrifícios. O Dr. Silva Lopes, em conferência recente, chegou a recomendar congelamento salarial.
 
Tudo isto é muito bonito mas completamente fictício. Porque a real prioridade política este ano não será o emprego mas as eleições. A questão obsessiva serão três sufrágios. Por isso a política, nos dois instrumentos referidos, será muito diferente. Na despesa pública o que se fará é gastar, gastar, gastar, principalmente no que der votos. Nos salários, nos salários... bem... eh... vamos casar os homossexuais e pode ser que isso nos distraia.
 
Quer dizer que estamos perdidos? Claro que não. Apenas significa que não podemos contar com os políticos, coisa que sabemos desde a primeira dinastia. Entretanto, a economia e a sociedade terão de ir fazendo o necessário. Nesse sentido, a tuberculose até cria condições favoráveis para combater a obesidade. O novo rating e as taxas de juro superiores da dívida nacional implicam que a dieta será feita, quer se queira, quer não. É verdade que vem na pior altura, porque agrava as dificuldades da crise conjuntural. Mas isso também é algo que sabemos desde sempre. Quando as coisas são fáceis, metemo-nos em sarilhos e só pomos a casa em ordem quando não há alternativa.
 
Este é o "teorema d'A Canção de Lisboa", formulado brilhantemente no primeiro filme sonoro português de 1933 de José Cottinelli Telmo. O "Vasquinho da Anatomia" só começou a estudar quando perdeu a mesada das tias. Nessa altura, quando tudo parecia perdido, deu a volta por cima e, com fado e um copo de tinto, até aprendeu o esternocleidomastoideu.
 
É assim Portugal. Este teorema, aplicado em 1383, 1640, 1755, 1851, 1917, 1977 e 1983, será renovado em 2009.
 
joao cesar das neves full ...  João César das Neves
Professor universitário
 
(Diário de Notícias, início de 2009)
 

NO REINO DA DINAMARCA

 

 
 
A fraude do aquecimento global revelada na Wikipedia:
 
Em francês
 
http://fr.wikipedia.org/wiki/Incident_des_emails_du_Climatic_Research_Unit
 
Em inglês
 
http://en.wikipedia.org/wiki/Climatic_Research_Unit_e-mail_hacking_incident
 
 
A ser assim, conclui-se que a Polícia dinamarquesa recebeu ordens para prender 600 pessoas que nas ruas de Copenhaga denunciavam a fraude a fim de que a conversa dos maldosos pudesse continuar a subir à tribuna dos oradores. Deste modo puderam continuar a enganar Chefes de Estado e de Governo cujos Assessores não tiveram tempo de consultar a Wikipedia.
 
Pelos vistos, nem tudo vai bem no Reino da Dinamarca...
 
 Henrique Salles da Fonseca

UMA PRENDA DE NATAL DA ANTÍGONA – 2

 

Uma época de filhos de cães – 2

 

A Mokhtar não desagradou esta expulsão brutal, que lhe conferia um estatuto de dissidente político e de mártir da liberdade de expressão, capaz de suscitar o interesse, para além dos mares, dos intelectuais dos ricos países democráticos. Estes bravos pensadores, adeptos de um humanismo sem fronteiras, tinham a faculdade de tornar célebre a pessoa mais insignificante do planeta, desde que esta tivesse sofrido alguns vexames ou alguns meses de prisão por parte de um governo qualificado, para a circunstância, de ditadura sangrenta. Esta ideia divertia-o como uma enorme brincadeira.

Por um momento, entreteve-se com a perspectiva de um exílio dourado em terra estrangeira, solicitado e adulado por todas as cabeças pensantes do hemisfério ocidental.

Tratava-se, e ele tinha consciência disso, de uma apoteose longínqua, e mesmo improvável, pela simples razão de que o género de dissidência de que era o genial inventor nada tinha em comum com uma oposição a qualquer governo.

A Mokhtar todos os governos eram completamente indiferentes, fossem eles eleitos ou impostos pela força das armas, pois todos provinham do mesmo molde e eram compostos pelos mesmos malfeitores. Era, pois, estúpido querer derrubar um governo, para depois ficar diante de outro pior do que o anterior. E na obrigação de recomeçar indefinidamente esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única maneira de combater um regime político só podia conceber-se no humor e no escárnio, longe de toda a disciplina e das fadigas que qualquer revolução geralmente implica. Na verdade, tratava-se de conseguir uma distracção fora das normas e não uma prova debilitante para a saúde.

O seu combate contra a ignomínia reinante não tornava necessário um grupo armado nem mesmo uma sigla que referisse a sua existência. Era um combate solitário, não uma congregação de massas ululantes, mas uma operação prazenteira de salvação da humanidade, sem lhe pedir a opinião e sem esperar uma autorização vinda do céu.

Há muito tempo que Mokhtar decidira que o seu papel na vida seria o de dinamitar o pensamento universal e os seus miasmas fétidos que atulhavam há séculos o cérebro fraco dos miseráveis.

Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes à superfície do Globo foram levadas a acreditar em tudo o que lhes conta uma propaganda que ofende em permanência a verdade. Afigurava-se-lhe com nitidez que o drama da injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de crer nos valores eternos da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programado para os manter para sempre na escravidão. Por exemplo, a honestidade.

Os pobres estão convencidos de que a honestidade é a virtude fundamental que lhes vai salvar a alma das chamas do inferno, e esta crença condena-os a uma miséria endémica, enquanto os ricos, cujos antepassados inventaram a palavra, sem jamais terem acreditado nela, continuam a prosperar. É certo que esta análise, aparentemente pueril, da economia capitalista, não satisfará os espíritos sérios, inimigos implacáveis da verdade, porque o seu simplismo impede-os de parecer profundos.

Três meses antes, quando se candidatou a este lugar de professor, Mokhtar não ambicionava de maneira nenhuma ser profundo em matéria de ensino. Professor era o emprego ideal para começar a pôr em prática a destruição do discurso pernicioso habitual em todos estes continentes, cuja tradicional impostura é proclamarem-se civilizados.

Com efeito, a escola proporcionava-lhe uma ocasião magnífica para influenciar jovens alunos, mais dispostos à subversão do que os adultos anestesiados de longa data pelo vocabulário dominante.

A indignação do director deu-lhe a certeza de ter sido bem sucedido, pelo menos em relação a uma parte ínfima da população, mas este magro resultado representava uma carga explosiva, manipulada por três dezenas de adolescentes dotados de uma consciência renovada, e que se preparavam para prodigalizar por todo o lado o seu novo saber. Mokhtar via este bando de alegres missionários crescer e disseminar-se por todos os países e, porque não, além-fronteiras em direcção às tristes cidades do Sul moribundo.

(continua)

 Albert Cossery

Tradução: Luís Leitão

Revisão: Carla da Silva Pereira

  1979_2009

Trinta anos de minoria absoluta

Trinta anos de insolências

AntígonaRua da Trindade, 5 – 2º fte; 1200-467 Lisboa | Portugal; Tel. (+351) 21 324 41 70

POSTAIS ILUSTRADOS XXXIV

 

 
 
FROM VATICAN WITH LOVE
 
Bento XVI
 I - The Annunciation *
 

"There seems to me to be absolutely no limit to the inanity and credulity of the human race. Homo Sapiens! Homo idioticus! Who do they pray to -- the ghosts?"
Sir Arthur Conan Doyle,
The Land of Mist, page 2, 1926 [1]

 
annunciation-mid
 
Foi notícia em primeira-mão, na Rádio Renascença! Bento XVI vem a Fátima em 2010! Estava a ouvir a Sonata da Anunciação, de Alceu Valença, no you tube e a música e o poema coincidem de tal forma com o anunciado que me pus logo a pensar e decidi colocar em estado de alerta a minha intuição sherlokholmiana! Foi assim como que uma série de luzinhas a acender-se e a apagar-se como nas luzes da árvore de Natal.
 
Coincidência ou uma “mãozinha” lá de “cima”? Algumas passagens do poema dizem-me muito, pela sua oportunidade temporal: ouvir a notícia e ler o poema [2]. Senão vejamos.
 
Estamos numa crise profunda e séria. Estamos na época de Natal, período das prendas... Esta vinda é como se aparecesse na hora em que de um acontecimento destes mais se carece. Um regalo? Para quê? Ainda não sei. Não conheço todos os parâmetros da decisão do Vaticano sobre a oportunidade desta visita em 2010. Nem, certamente, vou conhecer. Mas que esta visita cai como sopa no mel, isso cai. Não discuto esta decisão ao nível nem religioso, nem de Estado. Apenas vou tentar assimilá-la e equacioná-la com a situação nacional. Não quero rezar a fantasmas! Nem vou fazê-lo, mas vou tentar descortinar os benefícios e quem mais vai tirar partido deles.
 
O comércio, sem dúvida. É uma benção para os lojistas, sobretudo os de Fátima. Nunca fui tão puritano que critique o comércio religioso de Fátima. Primeiro porque ninguém obriga ninguém a comprar o que quer que seja; segundo, porque é um negócio honesto, comparando com a roubalheira e corrupção que por aí prolifera. Mas, e politicamente? Quem se vai servir disto? É o que tenciono descobrir e comunicar-vos... Certamente, que os leitores, almas puras, isentas de malícia, não estão ainda a vislumbrar quem se pode aproveitar politicamente desta vinda pontifícia, para ficarem bonzinhos e safar uns quantos corruptos. Não as que estão a pensar e costumam ser concedidas anualmente. Dão muito nas vistas se forem propostas já no “ramalhete” do fim de ano. Ainda não estão a ver? Ah já perceberam! Isso mesmo! São as amnistias que são propostas pelo Governo ao Presidente da República. Os crimes de corrupção não são crimes de sangue, não estarão abrangidos pelas limitações da Lei. As penas são quase sempre pequenas, em comparação com os crimes cometidos. Por isso se lhes chama “colarinho branco”, por se passarem num ambiente de camisa e gravata. A malta veste fatiota e tudo.
 
Esperemos que eu esteja enganado e não esteja a antecipar uma coisa que ainda não passou pela cabeça de Suas Excelências, ou então, estou a ser estúpido e a lembrar ao Diabo coisas de que ele nem se lembra. Talvez eu até esteja a ser mauzinho, mas, já tanta coisa aconteceu e com tanto descaramento e desfaçatez que deixei de ser um crente do sistema político em que, actualmente, vamos sobrevivendo.
 
À cautela, vou já aqui avisando que a vinda do Santo Padre pode vir a ser aproveitada para estas “diligências” – as propostas de amnistias. Afinal, “ninharias” administrativas – as amnistias – que até podem passar despercebidas, se não estivermos alerta... Apesar de tudo, confio que não sujeitem o Senhor Presidente da República a uma proposta de amnistia, aproveitando tão glorioso momento festivo.
 
As amnistias têm o seu momento próprio, as suas razões administrativas, de gestão de espaço prisional, e humanitárias. Com as razões humanitárias até concordo, por isso, talvez seja melhor deixar a questão ao alto critério do Senhor Presidente da República. Afinal, todos nós temos o direito a um desabafo... ou à indignação, como Mário Soares, Presidente, recordou ao actual Presidente da Republica, quando Primeiro-Ministro.
 
 Luís Santiago
 
* A Anunciação
 
[1] “Não me parece haver absolutamente nenhum limite para a inanidada e a credulidade da raça humana. Homo Sapiens! Homo Idioticus! A quem rezam eles – a fantasmas?” A Terra da Neblina, página 2, Sir Arthur Conan Doyle, Livre Domínio Público E-Books do Classic Literature Library.
 
[2] “Tu vens! Tu vens! Eu já escuto os teus sinais! A voz do anjo sussurrou meu ouvido! Eu te anuncio nos sinos das catedrais...”.
 
 
 
 
 

TGV? Só em Portugal

 

 


Já nem a SNCF, a CP francesa, quer mais o TGV. Em Julho alterou a última e antiga encomenda da linha para Nice. No mais, cancelou o TGV, optou por 60 composições tipo light-fast-train, que chega aos 160km/h, e, o que é o mais importante, acelera e trava com rapidez.
 
O que importa numa viagem não é a velocidade máxima mas sim a média. Esta é ditada pela aceleração e pela travagem, pelo número de vezes que o comboio pára e pelas curvas.

A meta não é transportar 220 pessoas de um ponto a outro, o que o avião faz até por menos dinheiro. O objectivo é interligar os recursos de um país, espalhados pelas riquezas naturais e humanas das cidades situadas ao longo da via. É para potenciar estes recursos que se fazem obras púbicas.
 
Em Espanha, o cidadão que não usa a RAVE paga 1,1 mil milhões em subsídios para manter as linhas. A Inglaterra cancelou os planos do TGV entre Londres e Manchester. A própria Alstom já testou o AGV, similar ao Alfa, substituto do TGV. Desde 1998 o TGV tenta entrar na Austrália e não consegue. O mesmo na Suécia, Argentina, Brasil, EUA.

Por que não adoptar o que todos os países estão a fazer ferrovias mistas e Light-Alfa, que chega aos 250 km/h, pendular, mais baixo e moderno para passageiros; e carga em carruagens leves em high-strength-steel, nos horários entre os rápidos de passageiros e durante a noite. Se houver algum troço de linha com muitos comboios simultâneos, considerar a terceira via, como já se faz, por exemplo, na Suécia, por uns cinco quilómetros antes e após as grandes estações, para que os rápidos lá possam disparar, enquanto os lentos aceleram ou travam nos carris tradicionais. O moderno sistema de sinalização já o permite.
Querem meter goela abaixo o velho TGV em Portugal? É este o preço por termos um português na UE? Ler mais detalhes no livro "Como Sair da Crise".
 
 Jack Soifer
In OJE – 27 de Outubro de 2009

UMA PRENDA DE NATAL DA ANTÍGONA - 1

 

A Antígona (1) ofereceu aos seus leitores as primeiras páginas do romance para sempre inacabado de Albert Cossery, que morreu aos 94 anos, em Paris, em Junho de 2009, no hotel onde vivia há mais de sessenta anos.

Estas páginas manuscritas foram encontradas no seu quarto e constituem o princípio de um romance sobre o qual o escritor trabalhava, escrevendo, segundo ele, uma linha por semana…

De Albert Cossery, a Antígona publicou todos os seus títulos:

A Casa da Morte Certa

A Violência e o Escárnio

As Cores da Infâmia

Mandriões no Vale Fértil

Mendigos e Altivos

Os Homens Esquecidos de Deus

Uma Ambição no Deserto

Uma Conjura de Saltimbancos

E, de Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery.

 

Uma época de filhos de cães – 1

 

Mokhtar sentou-se na esplanada de um café de aspecto sórdido, mas cujo rádio difundia uma melodia da cantora mítica que lhe fazia lembrar Malika, a sua mãe, que não podia ouvir este lamento de um amor perdido sem que os olhos se lhe marejassem de lágrimas.

A esta hora matinal, para além de um jovem adormecido sobre um banco, como um destroço rejeitado pela noite, o local proporcionava uma calma, sem dúvida precária, mas por agora propícia à reflexão.

Evidentemente, não estava nas suas intenções reflectir de novo sobre a perenidade da estupidez humana, nem vituperar os lastimáveis dirigentes deste mundo, pois todos estes indivíduos se encontravam há muito esgotados e não eram merecedores de qualquer outra crítica mais aprofundada. Numa palavra, o que ele desejava de imediato era um recanto tranquilo onde pudesse recordar – antes que perdesse todo o sabor – o incidente burlesco que precipitara o seu despedimento do lugar de professor de uma escola de um bairro popular da cidade costeira, considerada histórica, a que chamam Alexandria.

Tudo começara por uma discussão sem motivo aparente com o director do estabelecimento escolar, um homem pleno de ignorância e, ainda por cima, casado com uma mulher feia. Esta dupla particularidade tornava-o detestável e intolerante nas suas relações com as pessoas inteligentes e solteiras.

Após algumas insinuações pérfidas acerca da concupiscência ligada ao celibato, este gerador de crianças degeneradas acusara-o de ter feito esquecer aos seus alunos, no espaço de alguns meses, o que eles haviam demorado muitos anos a aprender.

Mokhtar, nada surpreendido com este elogio que considerava absolutamente merecido, não pôde resistir à tentação de dar uma estocada definitiva e global na hierarquia, mesmo que esta fosse de medíocre qualidade. Respondeu com um tom de comiseração, como se estivesse a dar os pêsames a um viúvo amargurado, que os seus alunos tinham mesmo assim aprendido uma coisa muito importante para o futuro: que o director desta escola era um burro, e que era preciso substitui-lo por um burro de verdade, certamente mais agradável de contemplar.

Para qualquer espírito livre dos preconceitos seculares de sacralização do homem, era evidente que tratar um humano de burro constituía um insulto para o burro. Mas o director, incapaz de assimilar uma doutrina tão audaciosa, pôs-se a gritar que um louco estava a querer degolá-lo, atraindo com os seus berros uma matilha de salvadores benévolos que agarraram Mokhtar e o atiraram, com as imprecações habituais, para fora da escola.

(continua)

Albert Cossery

Tradução: Luís Leitão

Revisão: Carla da Silva Pereira

 

Antígona

1979_2009

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