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A bem da Nação

Mia Couto

 mia_couto

 
Um inteligente fabricador de mitos “deslinguísticos
 
            Ele um dia pensou: “Vou desrevelar o meu povo, o povo a que eu despertenço, vou criar um universo de anedotário poético, vou desapontar sofrimento e ansiedade e grotesco, vou destrancar malvadezas dos homens que pilharam as terras e as subjugaram com cruelvadez, vou mitificar um universo de risota e dor, vou mostrar toda a minha empatia, vou seguir na esteira de Gabriel Garcia Marquez na mitificação, Vergílio Ferreira e outros, talvez franceses, na desconstrução verbal do estilo “nouveau roman”, vou ser astuto e subtil e inteligente, como poeta, como prosador, como linguista. E serei célebre.”
 
            E todos os que o leram e lêem abrem os olhos de espanto, as bocas de riso, as almas de encanto.
 
            Pela originalidade, sim, do discurso de alianças verbais e semânticas, ou de incorrecções gramaticais que, traduzindo influências lusófonas, insidiosamente pretende troçar dessa Lusofonia que os portugueses não conseguiram promover totalmente nas terras que lhes pertenceram por direitos de descoberta e de conquista.
 
            Como fizeram outrora Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Visigodos, Árabes, nas invasões progressivas aos solos distantes das suas pátrias, levando comércio e criando civilização nessa Península Ibérica que também o foi da gente lusa.
 
            Mia Couto sabe que pode torpedear esses aventureiros lusos de outrora, pois encontrou campo aberto, no solo nacional dos lusos de agora, para o acolher com ternura, na concordância com os ódios anticolonialistas e com os afectos africanistas.
 
            Sendo branco de coloração, a desempatia pelo branco da colonização é claramente sugerida na meiguice arteira com que descobre a raça negra da sujeição e da altivez também e da revolta. Também no grotesco da caricatura, e na poeticidade dos seus vários mitos.
 
            E tudo isso lhe fornece prémios. E fama. Talvez merecidos.
 
            Mas o encanto e a admiração que sinto transforma-se em desprezo. Pelo simples facto da sua coloração exterior branca.
 
            Fosse ela negra e admiraria as capacidades indiscutíveis da imaginação e do discurso, Viriato moderno no ataque ao intruso “Romano”.
 
             Assim, sinto o desprezo pela traição aos da sua raça.
 
            Berta Brás

MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO

 

O PERIGO DA ILUSÃO REALISTA 
 
Todos se lembram de no Verão passado os jornais assegurarem com absoluta certeza que por esta altura estaríamos com graves carências alimentares mundiais e fome em largas regiões. Passaram poucos meses e a previsão falhou completamente. Não há faltas e os preços caíram para menos de metade. Ninguém parece estranhar a discrepância.

Previsões destas não vêm da realidade. Não resultam de análises científicas, que não existiam, nem sequer dos potenciais esfomeados, pois aos pobres ninguém ouve. Quem gritava eram organizações humanitárias internacionais que, preocupadas com os preços alimentares, usavam os medos da opinião pública para pressionar os governos a subir-lhes o orçamento. Com a descida posterior dos preços o cenário catastrófico pôde ser arquivado. Outros interesses passaram a ocupar os media.

Tantos se assustaram tanto, todos acusaram os responsáveis, para agora tais temores estarem esquecidos. Mas os críticos não se sentem aliviados. Limitaram-se a mudar de susto, baseados nas novas previsões de catástrofe que os mesmos jornais trazem. Aliás, até culpam os mesmos políticos pelos novos terrores antecipados.

O mais curioso é que, apesar de falharem redondamente, os meios informativos não perdem credibilidade. São as mesmas publicações, os mesmos especialistas e comentadores que agora assustam o mundo com novas antevisões de calamidade, granjeando a adesão e convencimento de sempre. O que quer que digam, a gente acredita. Quando a crise se mostrar menos grave que os pânicos apregoados, ninguém desconfiará de quem os divulgou e esperarão com ansiedade os novos oráculos.

Afirmamos viver na "era da informação" e é verdade. Mas seria bom considerar a relevância da comunicação. Pensando bem, sobre as coisas que realmente interessam, sabemos menos que os nossos antepassados. Antigamente vivia-se na aldeia e todos conheciam tudo sobre todos. As casas tinham portas abertas e paróquia, botica ou barbeiro eram excelentes meios noticiosos. Hoje, com o anonimato urbano e privacidade escrupulosa, o nosso conhecimento é mínimo sobre o que nos afecta directamente. Mas sabemos imenso sobre coisas irrelevantes. Guerras e eleições longínquas, intrigas e conspirações mirabolantes e vasto sortido de desastres e calamidades constituem a dieta informativa quotidiana. Pensando bem, essas coisas não valem mesmo nada para a nossa vida.

O presidente americano tem muito menos influência na nossa existência que o presidente da Junta de Freguesia, mas vibrámos meses com a eleição de Obama e ignoramos até o nome do autarca local. Depois inventamos ficções, como a tese da "aldeia global", para justificar a nossa preferência informativa.

O motivo deste enviezamento é óbvio: a campanha do outro lado do Atlântico é muito mais divertida que a rotina prosaica. O nosso interesse pela informação não vem da necessidade de conhecimento, mas de um desejo lúdico. A realidade é profundamente rotineira, exigente, complicada, maçadora. Por isso desde as origens da raça humana foi grande a popularidade de mitos, epopeias, aventuras e romances. Mas esses tinham o defeito de serem fictícios. A era da informação, globalizando o âmbito, resolveu o dilema. Há sempre qualquer coisa interessante a acontecer no mundo. Os noticiários são reais e ao mesmo tempo fascinantes, com emoção, seriedade e violência. Apesar de, em geral, serem totalmente irrelevantes para nós.

A notícia não é ilusão, mas também não constitui conhecimento útil, porque distante. Mas, ao discutir esses magnos problemas planetários, cada um sente-se sábio e importante. No nosso sofá parece-nos, de alguma maneira, participar nesses assuntos grandiosos e decisivos.

Isso leva a mal-entendidos. No Verão passado todos sentimos a discrepância entre o preço pago na bomba de gasolina e o que os jornais diziam sobre o custo do barril de brent. Muitos protestaram e acusaram, mas sem notar que o primeiro era um valor directo, real, influente, enquanto o outro era um índice remoto, abstracto, efectivamente irrelevante.
2º Colóquio Social: «Empresários e Trabalhadores cristãos ...  João César das Neves
In “Diário de Notícias”, 12 de Janeiro de 2009

O TORPOR DAS MENTES

 

A INCAPACIDADE DE PENSAR
 
Uma das coisas mais difíceis para o homem – como ser vivo dotado de razão – é, curiosamente, pensar. E, claro está, muito mais difícil ainda é pensar bem. Enquanto que pensar bem qualifica, o pensar simplesmente quantifica, criando uma aparência de movimento que não é senão a ilusão provocada por uma sucessão de imagens repetitivas, disfarçadas por ténues diferenças epidérmicas que não alteram a sua constituição interna, mas que são suficientes para darem a falsa ideia de mobilidade. É óbvio que numa época como a nossa, onde impera a comunicação massificante, este é o meio, único, que convém e quem o faz adquirir de imediato um notório ascendente sobre a imensa multidão dos que foram educados para simplesmente não pensar.
 
Temos assim os que pensam bem, os que pensam simplesmente e os que são pensados porque simplesmente não pensam.
 
Os que pensam bem não convêm, de forma alguma, a esta sociedade carente de autênticos critérios morais e espirituais porque esses, tendo um discernimento claro acerca do bem e do mal, apontam o dedo, não com o fim de acusar, mas de curar e orientar o indivíduo e a sociedade. Pensar bem é ver claro, é ter capacidade de ver não só a curto prazo, mas também a médio-longo prazo, é procurar as causas profundas das coisas vencendo a inércia que nos limita aos efeitos superficiais. É, enfim, estar consciente da existência das duas outras categorias e, em vez de negá-las, aceitá-las alegremente como partes de sse maravilhoso mosaico que constitui a evolução humana.
 
Os que pensam simplesmente formam uma categoria mais vasta mas, ainda assim, limitada. Quando os primeiros emudecem ou são amordaçados pelos ventos históricos de signo inferior, estes fraudulentamente assumem-se como o escol, fabricantes já não de juízos mas de opiniões. Estas baseiam-se na sua própria ignorância e na alheia porque pensar simplesmente não é pensar bem. Não têm uma clara noção do que é o bem e do que é o mal tornando-se paulatinamente, movidos pela própria ignorância, amorais, isto é, incapazes de estabelecer a fronteira entre a moral e a imoralidade. Quando lideram são perigosos porque ambíguos relativamente aos valores essenciais e porque pensam e agem na amoralidade. Compõem a casta dos “intelectuais” usando e abusando de raciocínios hábeis e de motes persuasivos que confundem as multidões e empolgam os incautos e oportunistas. Levam a reboque nas suas elucubrações demagógicas e fantasias sensacionalistas os prosélitos de curta imaginação mas de basta ambição provinciana. A sua esperteza profunda (que não inteligência esclarecida) impede-os de conceber que seja a categoria mais elevada, a dos que pensam bem, a única a quem a natureza conferiu o dom raro e excelso de, legitimamente, governar, visto que não há nada mais legítimo do que governar os outros quando se se governa a si próprio.
(...)
 
  Eduardo Amarante
In “PORTUGAL – A MISSÃO QUE FALTA CUMPRIR”, ed. Zéfiro, Março de 2009, pág. 144 e seg.

O REI DE ESPANHA...

 

... VISITOU A MADEIRA
 
           
 
Sua Muito Católica Majestade, o Rei D. Juan Carlos visitou o Arquipélago da Madeira, lacuna agora colmatada, dos seus tempos de juventude em Portugal e dos seus posteriores afazeres de Estado. Juanito, para os amigos, mostra-se sempre simpático para com Portugal e os portugueses – e também não tem razão nenhuma para não o ser – fala português, uma coisa quase impensável para um espanhol e sobretudo num castelhano, e pensamos que tem ganho jus à consideração geral como homem e como estadista. Excedeu até as expectativas quando mandou calar aquele senhor que dá pelo nome de Chávez.
 
Por isso não há razão nenhuma de ordem pessoal para que o monarca de cerca de três quartos da antiga Hispânia não seja bem recebido no antigo reino de Portugal e dos Algarves. Quando, porém, as questões de Estado se intrometem nas visitas oficiais e nos passeios o caso muda de figura. E quando for caso disso os nossos representantes têm que pôr a coluna erecta, levantar o queixo, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe o que for de justiça.
 
Durante a visita à Madeira decorreu o aniversário da banda de música de Câmara de Lobos, onde actuou a banda local e …. a filarmónica de Olivenza (com “z”). Este evento foi promovido pela Secretaria de Estado Regional dos Assuntos Culturais.
           
Ora tal facto, à luz do diferendo que existe desde 1801/7 relativamente à ocupação ilegal daquela antiga e portuguesíssima vila – onde os espanhóis de resto, não têm razão alguma – só pode ser considerado uma provocação, ou uma distracção de mau gosto. Aliás, de Espanha poderia ter vindo uma banda de 30000 localidades diferentes, mas escolheu-se a de Olivença. Não foi certamente por acaso. Moncloa sabe do seu ofício e é pena é que do lado português andem todos aparentemente a dormir na forma e ninguém faça o trabalho de casa.
           
Vejamos: a questão de Olivença é sistematicamente ignorada em todas as cimeiras luso-espanholas (e não ibéricas, um erro elementar!) que se realizam todos os seis meses – a próxima vai ser em Elvas. Mas curiosamente o primeiro-ministro Zapatero escreveu uma carta à direcção dos Amigos de Olivença (GAO) – patriótica associação constituída em 1938, e que desde então luta denodadamente pelo retorno de Olivença à sua Pátria – exortava o GAO “a participar positivamente na resolução do assunto[1]. Mais tarde constituiu-se em Olivença o fórum “Além Guadiana” de iniciativa local para promover actividades de cariz cultural. Mas como se mostraram, de um modo geral favoráveis a Portugal, tal não terá agradado às autoridades espanholas, que logo se moveram contra aquelas “irreverências”. No passado dia 11 de Julho, deram-se até ao desplante de inaugurar um busto dessa figura sinistra que foi Manuel Godoy – principal carrasco da Olivença portuguesa – numa das salas da Torre de Menagem do Castelo daquela vila, mandado construir por … D. Dinis.
           
Do lado de cá da raia, vários autarcas de municípios vizinhos, continuam a fazer e a dizer uma série de disparates, pois não há maneira de entenderem que se têm que desenvolver juntando-se à costa portuguesa, e não ao lado de lá da fronteira. É que no fim de serem chupados, os caramelos espanhóis, deixam sempre uma grande amargo de boca...
           
Ora na Madeira a coisa fia ainda mais fino: os nossos “hermanos” – manda a boa higiene e os bons costumes que os irmãos quando crescidos, devem viver em casas separadas – ainda alimentam reivindicações espúrias sobre as ilhas Selvagens e não devem gostar nada de actos de soberania portuguesa, como foi a recente visita de Jaime Gama, em Maio deste ano, enquanto presidente da Assembleia da República, àquele pedaço de território de grande importância estratégica.
           
E em tudo o que os espanhóis façam ou intentem, nós devemos desconfiar e é lamentável que os portugueses passassem a esquecer rapidamente os seus “segredos de família” e a andar com as “guardas” em baixo.
           
A banda de Olivença permaneceu quatro dias no Arquipélago e deu dois concertos, juntamente com a “Banda Recreio Camponês” de Câmara de Lobos: só fazia sentido recebê-la não como espanhola mas como indo de território português… Mas tudo passou despercebido entre autoridades, população e meios de comunicação social.
           
Curiosamente, ou não, lá apareceu mais uma sondagem cretina, feita pela Universidade de Salamanca e publicitada pelo “El Pais” (tido como próximo do PSOE), em que se afirma que percentagens elevadas de portugueses e espanhóis pretendem a (maldita da) União Ibérica.
           
E houve até um conhecido banqueiro português que veio afirmar a necessidade de “amalgamar” tudo o mais possível. Já não chegavam os grotescos Saramago e Mário Lino, se auto proclamarem traidores – ao dizerem-se iberistas! O segundo sendo ministro, continuou no governo; ao primeiro ofereceu-se-lhe uma fundação, paga com dinheiros públicos e com sede na casa dos bicos, moradia do grande Afonso de Albuquerque, que deve andar a ranger os dentes no túmulo.
           
Noutro âmbito é ainda de reter que o Arquipélago da Madeira é aquele que pode, verdadeiramente, fazer concorrência em termos de turismo às ilhas Baleares e sobretudo às Canárias. E é curioso (e lamentável!) que a única ligação marítima entre o Continente e o arquipélago seja feita entre Portimão e o Funchal por um ferry boat … espanhol.
           
Afinal o “manicómio em autogestão”não acabou nos tempos do famigerado PREC.[2]
                                                                                 
 João José Brandão Ferreira
                                                         TCor/Pilav (Ref)


[1][1] Carta entretanto enviada para o MNE e PR para os efeitos tidos por convenientes…
[2][2] Processo Revolucionário em Curso

KILOMBO


O vocábulo kilombo tem uma dupla conotação: uma toponímica e outra, ideológica. Eram assim designados os arraiais militares mais ou menos per­manentes, e também as feiras e mercados de Kasanji, de Mpungo-a-Ndongo, da Matamba e do Kongo.

A conotação ideológica da palavra kilombo, que em kimbunbu significa junta, união, está relacionada com uma das mais importantes instituições políticas do século XVII, em toda a região entre os rios Zaire, Kwango e Kuvo. A sua importância foi especialmente significativa nos antigos estados do Kongo, Matamba, Ndongo e nos estados Ovimbundu do actual Planalto Central angolano, onde provavelmente teve a sua origem.

Segundo Childs, que assinalou a semelhança entre alguns costumes Ovimbundu e os dos "Jaga", kilombo é sinónimo de Kakonda ou Cilombo, nome de um dos principais grupos Ovimbundu. O mesmo autor diz-nos ainda que Cilombo era a designação da "mulher" do herói-civilizador mítico Kakonda, fundador do estado com o mesmo nome. De origem Ovimbundu ou não, esta instituição foi assimilada por muitas forças políticas e militares da África Central ocidental, entre as quais os "Jaga"/Mbangala e os titulares Ngola-a-Kilwanji, tomando-se para a rainha Jinga e também para os Portugueses e para os "Jaga", num instrumento político e de organização militar decisivo.
 


A importância do kilombo como forma de organização militar, transpa­rece na legenda histórica sobre a origem dos "Jaga" e das suas instituições. Segundo a tradição histórica oral recolhida por Cavazzi, Temba Ndum-ba, heroína-civilizadora, resolveu um dia restaurar as antigas leis do "pai" e dos "antepassados", convencida que a rigorosa observância das mesmas tor­naria o seu nome glorioso e temido. Para assegurar o sucesso na guerra, Temba Ndumba impôs a kijila, que em kimbundu quer dizer "proibição" e que consistiu num conjunto de leis proibitivas, que implicavam certos tabus, como por exemplo a abstinência das carnes de porco, de elefante e de serpente. Segundo as leis kijila, os membros do kilombo eram também obri­gados ao comprimento de certos rituais de guerra, assim como a observâncias de cariz religioso, estas a cargo do xinguila, especialista adivi­nho.


Um dos rituais do kilombo, obrigava ao sacrifício de uma criança que devia ser pisada no pilão e reduzida a uma «massa informe», à qual se juntava ervas, raízes e uns pós. A massa de carne humana, depois de fervida e atingir a consistência desejada, era chamada maji-a-osamba, a «pomada milagrosa», com que os homens se deviam untar antes de partirem para a guerra. Acreditava-se que os rituais, em conjunto com a aplicação da maji-a-osamba, conferiam uma invulnerabilidade mágica aos iniciados, que de outra forma estariam expostos às susceptibilidades das forças naturais.


Uma outra lei kijila, que reflecte o cariz de especialização militar do kilombo, consistia na interdição de se criarem crianças dentro dos limites do acampamento, estipulando que os gémeos, que por razões de crença religiosa eram associados ao infortúnio e ao mau presságio, e os diminuídos físicos, fossem, por norma, sacrificados logo após a nascença.


A renovação do grupo era feita através da socialização de jovens prisio­neiros que, ao unirem-se com as mulheres do kilombo, se tomavam membros de pleno direito.


O kilombo, como ideologia política, oferecia duas vantagens que, em muitos casos, foram decisivas para que fosse adoptado:
1. Era uma estrutura social em que os seus membros não se relacionavam segundo normas prescritas de parentesco consanguíneo gozando, por essa razão, de uma maior mobilidade social e de uma relativa equidade de estatuto e de oportunidades de promoção. Por essa razão, o kilombo tomou-se numa instituição supra-tribal, capaz de unir e aglomerar indivíduos de diversas origens étnicas.
2. O kilombo era também uma forma de organização militar rígida, apoiada num código moral vocacionado para criar guerreiros, conferindo, aos grupos que o adoptavam, um comportamento que muitas vezes se traduziu numa capacidade bélica superior.


A adopção do kilombo esteve ligada a grupos fraccionários, como foi o caso dos Kinguri, ou a chefes ambiciosos com projectos hegemónicos que, por insuficiente número de seguidores, não reuniam as condições objectivas para a realização dos seus projectos. Este foi o caso de Ngola-a-Mbandi, da rainha Jinga e dos Portugueses. Também os Kinguri, que aparentemente deixa­ram a Lunda sob pressão política e militar dos Luba, adoptaram as leis kijila do kilombo, como uma solução para os problemas de desintegração e divisão que emergiram quando ainda estavam submetidos à ideologia inerente ao título Kinguri. A sul do rio Kwanza surgiram alguns grupos de guerreiros chefiados por titulares kilombo, que incluíam títulos subordinados Lunda, Kinguri e Makota, denominados Mbangala, "Jaga"/Mbangala ou somente por "Jaga".


Um chefe em apuros, ou movido pela ambição, podia adoptar a organização do kilombo, ou/e reivindicar legitimidade à posse de um título que descendesse de um chefe kilombo.


Cerca de 1626-1627 a rainha Jinga, quando cercada pêlos exércitos de Ngola-a-Ari e dos seus aliados Portugueses, estabeleceu uma aliança com Kaza Ka Ngola, que detinha posições kilombo. "Casando" com "ele", a rainha Jinga adquiriu um título kilombo, tembanza, "primeira mulher", que lhe conferiu a legitimidade que porventura lhe faltava para preparar o maji-a-osamba. A apropriação desta posição kilombo por parte de Jinga, poderá explicar a forte influência que ela parece ter exercido ocasio­nalmente sobre alguns titulares, nomeadamente os "Jaga" Kalandula e Kabuku Ka Ndonga, entre 1640 e 1650.


Uma passagem da carta que a rainha Jinga escreveu ao governador Português Sousa Chichorro, datada de 13 de Dezembro de 1655, é bastante elucidativa quanto à circunstancialidade da adopção das leis kijila:


...«dou a minha palavra que, tanto que chegarem os reverendos padres com minha Irmã, tratarei logo de deixar parir e criar as mulheres seus filhos, cousa que até agora não consenti por ser estilo de quilombo, que anda em campo, o que não haverá, havendo paz firme e perpétua, e em poucos anos se tomarão minhas terras a povoar como dantes, porque até agora me não sirvo senão com gente de outras províncias e nações que tenho conquistado, e me obedecem como sua senhora natural com muito amor, e outros por temor».

 

Rio de Janeiro, 4 de Julho de 2009

 Francisco Gomes de Amorim

 

 

 

 

 

 

In "Economia e Sociedade em Angola * Na época da Rainha Jinga * Século XVII", por Adriano Parreira, Editorial Estampa, Lisboa, 1987

A árvore desconhecida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é raro no nosso interior mineiro o uso de plantas e raízes para tratamento de moléstias. Hábito popular herdado dos antepassados, carentes de profissionais médicos e de remédios.

 

Rica em plantas medicinais, a natureza brasileira foi a fonte e o laboratório onde os índios e os colonizadores acharam, pela experiência “in vivo”, o alívio para seus males. Verídicos ou não, muitos são os casos de sucesso relatados pelos que usaram esses recursos terapêuticos.

A medicina convencional sempre teve ressalvas e desconfianças daqueles produtos de plantas e raízes que prometem a cura de tudo, de unha encravada ao câncer. Mas casos aparecem que nos deixam a pensar.

Recentemente lembrei-me de um caso familiar, quando li uma crônica de um médico de capital, infectologista famoso, sobre as supostas propriedades anti-virais de um líquido de folhas de uma árvore desconhecida que, céptico, ele mandou examinar, a pedido de outro colega do interior.

Depois de muito tempo esquecido na prateleira do consultório do infectologista, por desencargo de consciência, o liquido foi encaminhado para ser examinado. Espantosamente a amostra mostrara, nos primeiros testes, efeito letal sobre o vírus HIV. Entusiasmado o laboratório pediu mais material, as folhas, de preferência, para tentarem identificar a planta e fazerem mais testes que comprovassem de fato a eficiência do produto.

Admirado com os resultados, o infectologista torna a contactar com o colega  para pedir mais material para novos exames. Mas qual foi a sua decepção quando o amigo lhe diz, pelo telefone, que não podia mais ajudá-lo. O preto velho que morava na fazenda, e que havia feito a infusão, havia morrido e com ele o segredo da árvore desconhecida.

 

Quando cheguei ao interior de Minas Gerais, constatei o quanto a flora do Cerrado era importante para esse povo mais antigo. Não me esqueço da história da minha sogra.

Jovem, com os filhos ainda pequenos, na luta pela sobrevivência, trabalhando na fazenda, ficou doente. Sua pele tornou-se sensível, eritematosa, com bolhas ardidas que rebentavam pelo corpo inteiro. A pele se desprendia ao menor contacto, deixando o corpo em chaga. O diagnostico foi feito, era Fogo Selvagem, ou cientificamente falando, Pênfigo foliáceo, doença auto-imune, bastante frequente, no centro–oeste brasileiro naquele tempo da década de 50.

As comadres logo acharam o remédio. Foram buscá-lo no Paraná, onde uma velha senhora fazia uma pasta com plantas, para passar na pele do doente. O resultado foi excelente, após doze meses de tratamento. Deitada em pêlo, sobre folhas de bananeira, periodicamente era banhada com água fervida com folhas de eucalipto e besuntada com essa estranha pasta. Bem alimentada e hidratada, decorrido um ano e meio estava saudável e a pele do corpo lisa e clara, sem nenhuma mancha. O segredo da pasta nunca foi revelado pela velha do Paraná, ficou perdido no passado, com o seu falecimento.

 

Apesar de se saber que há casos de Pênfigo F. que têm remissão espontânea, e que havia naquele tempo pomadas à base de enxofre e piche nos tratamentos de antigamente, é de se ficar com a pulga atrás da orelha quando sabemos de casos como esses.  

 

A medicina tradicional, principalmente a europeia, tem dado espaço para novas substâncias naturais com comprovada eficácia, os medicamentos fitoterápicos. Para a humanidade é uma grande perda sabermos que a flora brasileira, do Cerrado à Amazónia, sabidamente rica em plantas medicinais, está sendo destruída sem estudos e pesquisas suficientes. É um material vital que se perde, como nos relatos dos casos populares da nossa terra.  

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 10/08/09

ASSIM FALAMOS - 2

  

A haplologia na deficiência vocabular da nossa competitividade deficiente
 
 
 Afeganistão - a competitividade dos transportes
 
 
            Trata-se de um palavrão elegante, este da haplologia, de origem grega, vocábulo que também poderia ter sofrido o fenómeno fonético de síncope silábica (haplogia), por simplificação, que o seu significado traduz, e só tal não aconteceu por ser de origem erudita, pouco conhecido e menos usado.
 
            Outros termos, mais gastos pelo uso, de duas sílabas contíguas semelhantes ou iguais, suprimiram a primeira das sílabas, exemplo do adjectivo saudoso, que, formado a partir de saudade, deveria dar em saudadoso, tais como bondadoso, maldadoso, piedadoso. Da mesma forma idololatria convergiu em idolatria, mineralologia em mineralogia, formicicida em formicida.
 
            São fenómenos fonéticos provenientes do uso corrente, que justificam outros casos de elisões que todos praticamos: (“inda” por “ainda”, “bora” por “embora”, etc.), obedecendo ao princípio muito humano da lei do menor esforço, que está na origem de tantos fenómenos de adulteração dos sons das palavras, propiciando a sua evolução, para só nos determos na prática da língua, desprezando outras práticas redutoras do esforço, que, com boa vontade, até podem conduzir à estagnação.
 
            É este fenómeno de haplologia que justifica, certamente, a redução da “competitividade a “competividade”, pronunciada por gente de formação superior, que nos bombardeia sem tréguas com a supressão de uma das sílabas -ti- indiferentes à maculação da língua, na sua ânsia, talvez, de expandir o fenómeno em causa – a competitividade com os países estrangeiros.
 
            No caso de saudoso, bondoso, etc, são os substantivos – saudade, bondade, piedade, maldade – que estão na origem dos adjectivos, a que se acrescentou o sufixo -oso. No exemplo citado acima é do adjectivo competitivo que se formou o substantivo com a junção do sufixo -(i)dade.
 
            Temos assim que, de competitivo + (i)dadese formou competitividade e não há estômago que se não contraia de asco, pela repetida supressão de uma das sílabas repetidas, na pressa inútil, talvez, de atropelar verdades e iludir os crédulos.
 
            Se não sabemos sequer utilizar os termos com que pretendemos enriquecer o nosso país na área económica, como podemos, de facto, incrementar os esquemas ideológicos que poderiam tornar mais real a nossa competitividade?
                                                                                              Berta Brás

POSTAIS ILUSTRADOS XXIV

 

 
TEOLOGIA DA ECONOMIA II
Parte III
(Continuação)
Tudo e Nada
A - O Lucro
 
 
“O povo é humanitário. O que há de mais
fundamental na criatura do povo é a atenção
estreita aos seus interesses, e a exclusão,
praticada sempre que possível, dos interesses
alheios” (O Livro do desassossego) [1]
 
 
Do Lucro e das variantes técnicas não vos vou fazer uma dissertação sobre as suas origens desde o “do ut des” [2] ou desde o aparecimento da primeira moeda [3]; isso fica para a apreciação de economistas, gestores, banqueiros, accionistas, empresários e quantos estão ligados ao fenómeno económico-financeiro.
 
O Lucro existe, sob variadas formas, qualquer que seja o modelo de economia; sem este, afinal, não eram compreensíveis o desenvolvimento económico e a circulação de capitais; e, porque existe, falarei dele... evitando o uso de termos técnicos[4]. Ou melhor, farei uma abordagem sobre como deveria ser aproveitado, em minha opinião, o Lucro.
 
Como expliquei períodos atrás, “Tudo e Nada” em título desta Parte III significa “riqueza epobreza”. Não me incomoda que haja ricos, mas incomoda-me que haja pobres. A miséria, o estado de pobreza extrema, não tem, segundo muitos, história; ou melhor, não tem direito à História; mas aí estão os campos de refugiados da Somália a confrontar-nos com o contrário; História que é a infâmia da Humanidade e permitida por nós, a Humanidade. Porém, se pobreza significa sacrifício e enormes dificuldades de sobrevivência, também, dessa faixa social emergem Homens do Futuro, como Albert Camus [5] que, corajosamente, vencem esse estigma [5].
 
Cabe aqui abordar, também, sem receio ou populismos demagógicos os classificados de ricos e, extirpadas aquelas frases bombásticas que são tiques das esquerdas intelectuais de: “os ricos que paguem a crise”; baboseiras que, felizmente, já não se ouvem amiúde, como no advento da nossa jovem democracia. Os ricos, com o seu dinheiro são uma das alavancas das economias porque detêm empresas e fazem girar o capital, o que significa que contribuem com o seu trabalho e fortuna para que as economias funcionem e haja desenvolvimento. É discutível se contribuem o suficiente, mas é inegável que contribuem [6]. Pagam impostos e se os pagam, não fugindo desse dever de cidadania, partilham com o Estado a subsistência da Comunidade, permitindo a este ter dinheiro para gerir o Bem Comum. Preocupa-me, isso sim, a gestão do erário público, feita pelo Estado (Governos) e o destino que se dá aos milhões de euros colectados por via do IRS, IRC, IMI, IVA, mais taxas, coimas e multas.
 
Actualmente, fala-se muito em baixar os impostos. Não creio que seja a altura ideal para fazê-lo, mas está na hora, apesar de ano após ano ser promessa eleitoral, está na hora, dizia eu, de reduzir a despesa e escolher bem os seus objectivos intervencionistas, sob pena de comprometermos cada vez mais, o futuro das gerações vindouras. Sempre fui defensor do imposto único sobre o rendimento e que na génese deste imposto se aliviasse o mais possível a quota contributiva da matéria colectável referente aos rendimentos exclusivamente provenientes do trabalho. Todo o modelo e critérios de despesa deveriam ser revistos. Poderá levar anos a alterar esta maneira de gerir, mas, terá de ser alterada. Mais duas ou três gerações pelo menos; porém, a questão reside sempre, qualquer que seja o modelo de Estado que tivermos, nesta forma como se gerem os dinheiros públicos. Há uma maneira de estar portuguesmente anquilosada e distorcida! Fernando Pessoa refere, com insistência, nos seus textos “o provincianismo português”.
 
Lucros onde ir buscar receitas existem, mas malbaratam-se recursos financeiros, desviando-os do objectivo último para que foram encaixados. Uma das maneiras de prender os governantes à natureza da receita era consigna-la, contrariando a regra orçamental da não consignação. Teriam de enquadrar a despesa nos objectivos da receita. Um exemplo: o imposto sobre veículos devia ser consignado à construção e reparação de estradas, às entidades fiscalizadoras do trânsito, p.ex., as multas de trânsito deveriam ser canalizadas para escolas de condução, hospitais, apoio às vítimas de acidentes, etc... O desvio da receita só seria aceite em casos excepcionais devidamente fundamentados. Emperraria a máquina do Estado? Pois, a intenção é essa, não sermos tão expeditos a gastar dinheiro... Uma minha Amiga gere, por ex., as suas despesas de casa por envelopes catalogados e tem o dinheiro destinado para cobrir os vários encargos que tem distribuído pelos envelopes. A minha Amiga, sem conhecimentos técnicos de procedimentos de contabilidade, instituiu, para si, a contabilidade digráfica e criou centros de custos.
 
Mas, regressando ao lucro e repassando as informações do mercado de capitais, as instituições financeiras e bancárias nacionais tiveram, segundo a LUSA, um lucro cerca de 2,9 biliões de euros em 2008, 40% a menos que no ano 2007. Mesmo assim e com perdas, é muito dinheiro.
 
(continua)
 
 Luís Santiago
 
[1] “Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa”, pág. 54, Casa das Letras, 2ª Edição – Maio
de 2009;
[2] Troca directa: “dou para que me dês”;
[3] A primeira moeda conhecida foi o machado de silex;
[4] Recordo um livro que li – não me lembro do autor nem do título – que nos falava de
sociedades secretas e da linguagem dos sábios só inteligível entre estes;
[5] Prémio Nobel. Recomendo a Leitura do romance autobiográfico “O Primeiro Homem”;
[6] Capa da Revista “Exame” de Agosto 2009 – “Os 25 mais ricos de Portugal – As suas fortunas
perderam 8,5% do seu valor. Ainda assim totalizam 17718 milhões de euros, o que equivale a
10,7% do PIB de 2008”. Notícia nas págs. 34 a 42.
 

GALIZA E PORTUGAL

 

LÍNGUA E CULTURA COMUNS
UMA VISÃO DE AMBAS AS PARTES
 
 
 
 
I – Devemos iniciar o tratamento da Lusofonia pelo tema do AUTOCONCEITO que de si mesmo têm os portugueses e, por extensão, a valoração que fazem da sua própria língua e cultura.
 
II – O segundo problema, ao nosso ver, radica na força com que os portugueses apoiam a defesa e utilização da sua língua própria.
 
III – Um terceiro problema – não menos importante – radica na visão que têm os portugueses do mundo lusófono e da utilidade da sua língua dentro do concerto da política linguística mundial.
 
IV – O quarto problema relaciona-se com o desconhecimento sobre a realidade da Galiza, mãe e berço da língua portuguesa, que tem em geral o povo português. É preciso conhecer a apoiar a Galiza melhor desde Portugal e incluir esta comunidade dentro do mundo lusófono, ao que por língua, cultura, tradição e história pertence.
 
V – Por último, ao nosso modesto entender, o problema número cinco relaciona-se com a política linguística e cultural públicas – e também privadas – de Portugal.
 
Explicitados tais problemas, faz-se necessário entrar a analisá-los um por um.
 
1º - Os portugueses infra valoram exageradamente o que é seu. É, portanto, urgente e necessário modificar o auto-conceito que de si mesmos têm os portugueses. Portugal pode ensinar em muitos campos aos demais países do mundo: no ensino, na cultura, na defesa do património, no artesanato, nas artes, no respeito pelas ideias dos demais, na defesa da natureza e da vida, etc.
 
Portugal é, para nós, um dos povos mais cultos do mundo. Infelizmente, são os portugueses os que não acreditam neles mesmos. Portugal é um dos países com maior imaginação e criatividade do planeta. O dia em que o povo português se faça um bocadinho “chauvinista”, à moda francesa, dará um passo à frente muito importante.
 
O primeiro que necessita um povo é acreditar nele mesmo e superar todo o tipo de complexos de inferioridade. A língua portuguesa, além de formosa, é extensa e útil. A cultura portuguesa é, por enlaçar com a tradição mais autêntica e com o povo, de alto nível, muito superior à de qualquer outro país. Tão só falta que os portugueses e portuguesas tomem consciência do que estamos a dizer. Quem tem que sentir inveja são os outros de Portugal, não ao contrário. O cuidado com que em Portugal se trata a música, o folclore, as artes tradicionais, as festas populares, os monumentos com valor artístico, os museus, o livro, etc., é realmente exemplar e modélico para qualquer outra cultura. Vocês mesmos têm arquitectos paisagistas. Vocês mesmos têm parques naturais extraordinários. E não estamos a falar de um Portugal ideal senão real. Ainda conservam as feiras que já estamos a perder nós. Por não falar da cultura do vinho que tão esplendidamente conservam desde tempos históricos. Cuidar do vinho também é cultura. Conservar o artesanato autêntico também é cultura. Apoiar os ranchos folclóricos e outros grupos musicais também é cultura.
 
2º - Também a experiência nos diz que não se distinguem precisamente os portugueses pela defesa que, especialmente nos foros internacionais, fazem da própria língua. Outra vez o negativo complexo de inferioridade e de infra valorização da sua língua que têm os portugueses, leva-os a utilizar nos diferentes foros o francês ou o inglês (ou mesmo um horrível castelhano). E não o que seria natural: a língua portuguesa. Fazem assim por considerá-la de menor rango. Sem dar-se conta que na CEE, pata pôr um exemplo, depois do inglês e do castelhano, o português é a língua mais importante. Meus queridos amigos, diante do francês, do alemão, do italiano, etc. Esta atitude dos portugueses – incompreensível, olhe-se4 por onde se olhe – dos intelectuais e mesmo dos políticos, infelizmente bem poderia perdurar. Atitude que leva por exemplo a que nas reuniões da CEE ou do Conselho da Europa, por despreocupação dos afectados, faltem os tradutores e intérpretes portugueses, ou pelo menos se existem sejam brasileiros. Por se não o sabem diremos-lhe que o governo espanhol – ou os seus representantes – não dão início a reuniões se não estão nas cabinas os tradutores para a língua castelhana. São políticos bem diferentes mas que sempre as leva de perder a língua portuguesa, por culpa dos próprios portugueses. Ainda nos lembramos daquele ministro português que podendo – e devendo! – falar em português o fez em inglês. É urgentíssima a mudança de atitudes neste tema. Porque a língua portuguesa, ademais de formosa e de ser a nossa (com o que já abondaria), é a segunda língua românica mais importante do mundo depois do castelhano, a terceira mais importante da CEE, a língua oficial de sete países soberanos e cooficial com o castelhano na Galiza, além de ser falada em comunidades doutros continentes, nomeadamente Ásia e Oceânia. A utilização da língua própria pelos portugueses em todos os foros nacionais e estrangeiros é irrenunciável. O que não é incompatível com a defesa do conhecimento de outras línguas e do plurilinguismo que desde sempre tem defendido o povo português. A diferença da Espanha, em Portugal é normal que os intelectuais dominem, além da sua, outras línguas. Achamos que isso é bom e positivo, revelando uma maior cultura.
 
3º - Portugal, que teve o valor e a audácia de levar a língua galaico-portuguesa ao mundo, deveria nesta altura deixar por um tempo de mirar-se a si mesmo de maneira narcisista e abrir-se outra vez – como no século XV – ao mundo. Nomeadamente, ao seu mundo, que não é outro que o mundo lusófono. O que faz necessário adoptar uma atitude mais aberta e mais generosa que até agora. Tem de estabelecer desde já laços estreitíssimos – mesmo marchando de mãos dadas no concerto mundial – com Brasil, com Angola, com Moçambique, com Cabo Verde, com Guiné-Bissau, com São Tomé e Príncipe, com Timor, com Goa, onde ainda se conserva a nossa língua. Sem esquecer tão pouco, meus amigos, a Galiza que deverá ser incluída como mãe e berço da língua, por direito próprio na comunidade lusófona.
 
4º - Tudo quanto se paga pela aproximação cultural e linguística entre Portugal (nomeadamente o Norte) e a Galiza será sempre pouco. O desconhecimento mútuo é quase proverbial, embora cada dia se organizem mais encontros entre ambos os povos. O desconhecimento mantém de pé os preconceitos e estereótipos que uma e outra parte tem sobre um e outro povo. Que são tão negativos como irreais. Portugal tem que ver a Galiza como prolongação de si próprio. Por língua e cultura a Galiza é um troço de Portugal. A Galiza é uma grande Olivença, para que de uma vez por todas os portugueses vejam a Galiza como uma região mais próxima a Portugal que a Espanha., à qual por razões históricas de infeliz recordo pertence. A Galiza sofreu cinco séculos de castelhanização – muitas vezes brutal – e ainda assim o povo (camponês e marinheiro) manteve ouro em o pano, em palavras de Castelão, a sua própria língua. Contra vento e maré. Contra persecuções sem conta. Contra proibições indignas as mais das vezes. Por isso a Galiza necessita de Portugal compreensão pelos seus problemas e mesmo apoio se houvesse hipótese.
 
Galiza necessita dos livros, das revistas, dos jornais, dos programas de TV, do cinema, do vídeo, etc., portugueses ou brasileiros. Galiza necessita ser conhecida a fundo pelos portugueses. Galiza necessita que se conte com ela para qualquer planificação cultural, linguística e mesmo económica de carácter lusófono. Galiza necessita ter mais, maiores e melhores comunicações com Portugal. Por terra, por mar, por ar, por telefone e pelos meios de comunicação. Não podemos continuar de costas viradas. Portugal deve saber também quem são os galegos que de verdade amam Portugal, pois infelizmente não são todos. Há muitos que de boca para fora dizem que querem a Portugal mas infelizmente só de boca para fora. Há muitos que por não amar a Galiza não amam Portugal ou vice-versa. E é necessário desmascará-los. Os portugueses devem começar por ter a consciência de que a Espanha não é, embora o pareça, una. As únicas comunidades comuns no Estado espanhol com Portugal são a “Olivença pequena” e a “Olivença Grande”, a Galiza.
 
Por razões culturais, linguísticas, históricas e mesmo pela forma de ver a vida e de pensar ou pela idiossincrasia dos dois povos: o galego é o português. Todos os galegos bons e generosos que houve no nosso mundo cultural amaram Portugal: Murguia, Rosália de Castro, Pondal, Curros, Vilar Ponte, Viqueira, Castelão, Risco, Cuevilhas, Lousada Diegues, Carrá, Otero Pedraio, Cabanilhas, Carvalho Calero, Jenaro Marinhas (este felizmente ainda vivo), etc. Existe no pensamento galego mais autêntico e europeísta uma linha de continuidade que passa pela unidade cultural e linguística de Galiza e Portugal. Também Portugal tem muito que aprender da Galiza, pelo que esta sofreu ao longo dos séculos. Com os novos meios não seria utópico pensar que Portugal terminasse por ser no futuro uma “Olivença imensa”. Preocupa muito aos galegos ver a alegria com que em Portugal, desde as administrações públicas – apoiam o levantamento de postes repetidores para ver a TV espanhola. Infelizmente tal alternativa não se corresponde em paralelo com o levantamento de postes repetidores para ver na Galiza a TV portuguesa. O mesmo exemplo valeria para a rádio, o livro, o vídeo, as revistas ou os jornais.
 
Amigos portugueses, lembrem-se que não se deve esquecer desde Portugal a Galiza, esse belo troço atlântico português de coração, mas não de amo.
 
5º – Será correcta e suficiente a política levada a cabo pela administração portuguesa para divulgar a língua e a cultura portuguesa no mundo e, nomeadamente, nos âmbitos da lusofonia e nas comunidades de emigrantes portugueses na Europa e na América, ou mesmo na Oceânia. Conhecemos as dificuldades económicas pelas que nos últimos anos está a passar o Estado português, que na maioria das vezes tem de suplantar com imaginação. Mais, dentro destas dificuldades, o Governo Português não deveria “escatimar” esforços para divulgar a língua e a cultura portuguesas, para apoiar a divulgação da literatura e do livro português – para nós de um grande valor tanto na forma como no conteúdo e na variedade – para a apoiar a realização de programas de vídeo, cinema, rádio e TV conjuntos entre todos os países lusófonos, incluída a Galiza. Para realizar publicações conjuntas de jornais e revistas dentro do mundo lusófono. Para abrir nas cidades mais importantes, nomeadamente nos países lusófonos, incluída a Galiza, Institutos de Língua e Cultura Portuguesa (com professores e dinamizadores). Para mandar aos PALOP’s livros, revistas, materiais de ensino. Para evitar o que está a acontecer em Guiné-Bissau que pode levar a que este país abandone a nossa língua, trocando-a pela francesa. Para divulgar as artes plásticas, o teatro, o cinema, o artesanato, etc., por todo o mundo e especialmente o lusófono, incluída a Galiza. Organizando ciclos e circuitos itinerantes em esquecer as comunidades portuguesas de emigrantes e os Centros Portugueses espalhados por todo o mundo: na Europa, no Brasil, nos EUA, no Canadá, na Austrália e na África.
 
Como exemplo convém citar a última decisão do Governo espanhol de dedicar um bom punhado de dinheiro para criar nas cidades do mundo os chamados “Institutos Cervantes” para divulgação da língua castelhana. Portugal deveria apoiar-se para oferecer serviços culturais nas diferentes Embaixadas de Portugal em todo o mundo, ao estilo do que faz por exemplo a França e a Alemanha. E não deveria esquecer da possibilidade que existe de realizar convénios entre Centros Galegos e Centros Portugueses de emigrantes, verdadeiros aliados naturais, no que se poderiam levar em frente programas culturais conjuntos de cooperação. Tenho dito.
 
 José Paz Rodrigues
Professor Titular de Didáctica e Organização Escolar – Universidade de Vigo;
Presidente da Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa
 
 
 
InGALIZA PORTUGAL – UMA SÓ NAÇÃO”, ed. Nova Arrancada, Lisboa, Outubro de 1997
 

Olha lá os reis

 

 

            - Olha lá os reis, que estão a ser recebidos sabe por quem?
            Não sabia.
         - Então não viu o noticiário?
            Não tinha visto, confirmei tristemente, com o peso na consciência. Desculpei-me:
            - A essa hora dá o “Allô, allô” e logo a seguir o “Sherlock Holmes”, não posso prescindir.
            - Mas já deram tanta vez!
            - O que é bom nunca cansa. De resto, é mais uma necessidade de evasão das brutalidades da vida que me faz perder, às vezes os noticiários. Mas eles vão repetir.
 
            Estávamos a falar do aumento de inscrições na disciplina de espanhol em substituição do francês, nas escolas e logo a minha amiga considerou que não tarda aí a integração do nosso Portugal na Espanha.
 
            Estrebuchei de raiva, incapaz de assumir tal perspectiva. Continuou, indiferente ao meu estrebuchar:
            - Então não sabe? Recebidos na Madeira, por aquele doido do Jardim. Ele tem que se portar bem à mesa, tem que ter cuidado!
            - Ah! Os Reis de Espanha já estão habituados às parolices, mesmo em espanhol. O Rei Juan Carlos até mandou calar o Hugo Chaves, cheio de razões para isso. À Madeira vai só de visita, e o Alberto João sabe com quem lida. Servilismos são connosco e o Jardim não foge à regra, se lhe convier.
            - É verdade, mas eu acho que é o doido que ainda faz obra!
            - Mas foi ele a recebê-los?
            - Não, o Cavaco foi lá à Madeira, com a esposa, prestar vassalagem. Não vi o Jardim. Mas ele deve ir a qualquer repasto de gala.
            - Esperemos, então, que se porte à altura e que não trate desta vez o Presidente por Sr. Silva.
 
            Vivemos num país em franca erosão, é certo, mas não se pode admitir tudo, mesmo ao Jardim, que, embora rei na sua quinta, não lhe dá isso o direito de desconsiderar o Presidente do seu país da maneira como o faz.
 
            A propósito disso, porque me parece que ambos o amam, já que pertencem à velha guarda que respeitava o solo pátrio, vou contar uma fábula de La Fontaine sobre a necessidade de sermos todos solidários, para salvaguardarmos a nossa independência e as nossas vidas, embora em diferentes escalões:
            É a história de um burro que levava o dono no dorso, ao mercado, acompanhados do cão. O dono adormeceu e o burro não esperou mais: pôs-se a roer os cardos à volta, até ficar de papo cheio. O cão pediu então: - “Baixa-te um pouco para eu poder comer do pão do cesto.” – “Estás maluco, respondeu o burro. “Espera que o nosso amo acorde primeiro”. O cão, esfomeado, submeteu-se, não estando em condições de competir, por ser baixo. Nisto, um lobo aparece ao longe. –“Amigo, pede o burro apavorado, defende-nos do lobo.” – “Ná, agora não posso, que estou debilitado. Espera que o nosso amo acorde primeiro. Podes sempre ferrar um par de coices no lobo.” Mas o lobo foi-se ao burro que nem sequer teve tempo para tugir, quanto mais para escoucear! E o lobo o levou na goela, que estava também a precisar de retemperar as forças da sobrevivência.
 
            Tinha razão o cão. A solidariedade é imprescindível, nesta coisa da sobrevivência, na luta contra o inimigo. Se o burro que leva o dono quer tudo para si e trata com cinismo o cão, chegada a ocasião quem fica cínico é o cão, como aliás lhe compete por etimologia.
 
            E lá vai tudo por água abaixo, a ponto de nos perguntarmos, por o desconhecermos, preocupados com mais este alerta integracionista que várias vezes tenho escutado à minha amiga e que faz parte de uma corrente antiga de iberismo salvador: “Que mais nos irá acontecer? Será que vamos parar à boca do lobo?”
                                                                         
     Berta Brás

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