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A bem da Nação

Um Verão no Pico de antigamente

A Carreira das malas
 
Naquele final dos anos trinta, com os cabos submarinos e a base americana dos hidroaviões, a Horta era um lugar cosmopolita que recebia gente de muitas nações. As companhias estrangeiras (Western Union, Pan American) movimentavam a Ilha do Faial.  Minha avó, uma senhora viúva, queria sossego para as férias de Verão da única filha,  uma jovenzinha de 11 anos.  Resolveu então que iriam se retirar para casa de parentes,  na pequena povoação da Terra do Pão,  na ilha em frente.
 

 

Era ainda escuro quando elas se levantaram.  Arrumaram as malas e o cesto com alguns pedaços de carne de vaca salgada, farinha de trigo,  açúcar, chá e café, produtos raros no Pico daquele tempo. Saíram das Angustias a pé até o cais da Horta para pegar a Calheta que ia para a Madalena. Mesmo no Verão, com mar calmo, atravessar o canal num barco tão frágil  como aquele era uma aventura. Temido era quando,  por algum capricho da natureza,  o mar se encapelava e enfurecido não deixava a embarcação atracar no cais. Nesses momentos trágicos um bote saía da Areia Larga  e corajosamente resgatava os passageiros, desembarcando-os em local mais seguro.
 
Chegaram a tempo de pegar a Carreira das Malas, uma espécie de ônibus em tamanho pequeno, que fazia com um outro a ligação entre as freguesias. Saltaram na estrada de terra batida e seguiram por uma canada até uma casa de pedra escura,   térrea, com uma mureta vazada por uma pequena entrada.  A porta da casa era em madeira, rústica, escurecida pelo tempo,  e "dava" para um pequeno alpendre. Os tios e primos já esperavam para o jantar em agitada alegria. Qualquer visita, na solidão daquela ilha,  era motivo de festa. Na cozinha enegrecida  pelo fumo da lareira,  o caldeirão fervia o peixe e a batata. No forno da parede,  o bolo de milho recendia. Latão de gordura, talha d'água, alguidar,  canecas de barro queimado, alguns talheres e pratos,  era todo o aparato da cozinha. Num canto discreto,  uma tina redonda em tábuas de madeira esperava a hora do banho.
 
A sala era muito simples,  uma mesa em prancha, uns banquinhos,  poucas cadeiras, Uma prateleira enfeitada  com paninhos bordados exibia algumas peças de louça branca. O assoalho era em tábua corrida.  No quarto,  onde elas ficavam, havia uma cama rústica de casal, encimada por um colchão de palha que afundava no meio com o uso. A colcha era feita  em quadradinhos tricotados em lã colorida que se uniam formando a coberta. Um guarda-fatos, um baú em madeira e uma cadeira compunham  o modesto mobiliário. A um canto,  uma armação em ferro segurava uma bacia de esmalte decorado. Abaixo  dela,   uma bilha de água.   Sob a cama um bacio, para as urgências nocturnas.
 
No terreno do quintal uma cabrinha garantia o leite do dia a dia. O chiqueiro com dois porcos, um poço,  a parreira, uma ameixeira e canteiros de couves tronchudas, batatas, cebolas, alhos, cebolinho e inhames,  era toda a riqueza da família.   O resto vinha do mar, ou da ilha em frente, quando não se obtinha, por meio de troca,  com o vizinho.
 
Depois da comida,  minha avó sentava-se com os irmãos para actualizar as novidades do Faial. Minha mãe e os primos iam correr as canadinhas em socalcos, procurando o que fazer, pesquisando os quintais,  até aos calhaus que se debruçavam sobre o mar. Foi num desses passeios que viram uma frondosa pereira ostentando suculentas peras, convidando-os à tentação. À noite,   planearam roubá-las.  Mas mamãe,   na escuridão,   sem conhecer o terreno,  não percebeu que o quintal do vizinho ficava num plano mais baixo  e ao se espichar para pegar as frutas, apesar dos gritos de alerta dos primos, caiu com estrondo,  acordando o vizinho, que desconfiado da intenção da malta, saiu à rua gritando: Xô, larapios, laparosos, raios os partam!
Tudo descoberto,  foi,  porém, desculpado.    Afinal eram só crianças traquinas que já tinham sido castigadas pela própria terra!
 
A rotina das férias era a mesma, passeios nas freguesias,  pegar amoras no silvado (voltavam sempre todos arranhados), comer frutas dos quintais, pescaria nos calhaus. Os rapazes brincavam de rodar pião,  atirar a malha,   jogar a trapeira (bola feita de meia velha  recheada de lã). As meninas aprendiam cantigas e faziam roupas para as bonecas de lã. No descanso, os  homens jogavam cartas ( sueca, truque, burro em pé,...) ou iam para a tasca afogar as mágoas.  
 
Na época das vindimas, as famílias colhiam os figos e as uvas e depois se reuniam nas adegas,  galpões em pedras vulcânicas,  muito rudimentares,  em geral afastados da povoação, onde passavam o dia  fazendo o vinho e a aguardente de figo. A comida era feita lá mesmo, em grelhas improvisadas. Tudo  acompanhado de muitas talagadas de vinho.   À noite voltavam para casa, em bandos, cantando pelas estradas,  tontos de tanta oferenda a Baco.
 
Foi,  porém,   numa das noites em que agente se reunia, à luz da lamparina de azeite de baleia, antes de deitar e após as sopas de leite migadas, que meu tio-avô Henrique, caixeiro viajante,  chegado de uma das suas viagens, mostrou para a família uma grande novidade: um gramofone.   Entusiasmado, com muito cuidado,  colocou a caixa numa cadeira, junto à mureta do alpendre. Montou a corneta, pôs o disco preto no prato, deu a manivela, e devagarzinho pousou a agulha que estava presa ao braço do aparelho.   Misto de surpresa e encantamento,  numa terra sem luz eléctrica e sem água encanada, ouviram pela primeira vez o som gravado. A música cadenciada, alegre, saltitante, cantada em voz feminina e afinada se espalhou pela redondeza. Curiosos, um a um os vizinhos se aproximaram e, enlevados,   sentaram-se nas pedras do caminho ou junto ao muro da casa para ouvir a música: 
                    ...Taí,
                     Eu fiz tudo pra você gostar de mim.
                    Não faça isso comigo não,
                    Você tem, você tem,
                    Que me dar seu coração....
 
Era Carmem Miranda,  a portuguesa que encantava o mundo cantando músicas brasileiras, chegando pela primeira vez, em disco, naquela terra esquecida por Deus.
 
 
 Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 18/05/09
 

DESTRUIÇÃO FISCAL

 

 
António é um quadro técnico da máxima qualidade, especialista no que quer que seja. Um daqueles tipos que são muito valiosos por serem muito espertos, muito inteligentes e muito trabalhadores, muito dedicados e muito sensatos, absolutamente geniais e muito do que quer que seja.

O António não tem empresas, não recebe dividendos, não herdou, não tem aplicações financeiras de milhões, não é proprietário de imóveis, não acede a private banking, não tem contas nas Ilhas Caimão, não tem pais ricos e nunca foi a Gibraltar. O António entrega a sua declaração de IRS em Março. Não tem nenhum rendimento para lá do seu ordenado.

No recibo de vencimento do António pode ler-se o montante de 4.300 Euros mensais brutos a que acresce subsídio de refeição. (Nota: 4.300*14=60.200).

O António é invejado por muitas empresas. Andam por aí umas multinacionais que não se importavam nada de o ir buscar e as head-hunters fazem-lhe propostas sedutoras. Pagam-lhe mais, se ele quiser ir para Espanha ou para os EUA.

O Dr. Silva, patrão do António, não o quer perder. Faz contas e decide premiar o esforço e a dedicação do seu melhor técnico atribuindo ao pacote salarial do António mais 10.000 Euros por ano.

O António fica muito feliz. 10.000 Euros por ano parece muito bom. Mas depois faz contas.

1. 10.000 Euros a dividir por 14 meses = 714 Euros/mês.
2. Taxa Social Única suportada pela empresa = 136 Euros/mês.
3. Taxa Social Única suportada pela empresa mas atribuída ao António = 64 Euros/mês.
4. IRS marginal (escalão dos 42%) = 234 Euros/mês.
5. Imposto de Selo = 3 Euros

Sobram ao António 269 Euros/mês que lhe permitirão adquirir 226 Euros de produtos com IVA a 21% excluindo, portanto, álcool, tabaco, combustíveis ou automóveis.

Feitas as contas, para o Dr. Silva «agarrar» o António, por cada 31,5 Euros que lhe der a mais, tem que alimentar o monstruoso Fisco com 68,5 Euros. É mais do dobro. Dos 10.000 Euros, nem sequer 1/3 são para premiar o António. Há quem ache que isto está bem, que é assim que deve ser...

Mas não é. Trata-se apenas da institucionalização do absurdo, da destruição da Economia pela via fiscal.

Final da história: O António vai trabalhar para Espanha. A nova empresa para que ele agora trabalha abre uma delegação em Portugal e conquista metade da quota de mercado da empresa do Dr. Silva que é obrigado a despedir 50 trabalhadores. Para protestar contra os despedimentos, o Sindicato organiza greves e estoira de vez com a empresa. O Dr. Silva, cansado, vende as acções a uma multinacional coreana e protege os dinheiros recebidos numa offshore bem longe de Portugal. Os coreanos encerram a produção em Portugal e passam a importar todos os produtos da Coreia e da China. Para fazer face às crescentes necessidades das políticas sociais e ao aumento de desemprego, o Governo aumenta o IVA para 23% e cria um novo escalão marginal de IRS de 48%.
 
Seguem-se histórias semelhantes com outros protagonistas mas todos submetidos a fiscalistas da mesma «escola».
 
Autor desconhecido
 
Recebido por e-mail
 
 
 

LIDO COM INTERESSE – 43

 

 
 
Título: HISTÓRIA DAS UTOPIAS
Autor: Lewis Mumford
Tradutora: Isabel Donas Botto
Editores: Antígona Editores Refractários
Edição: 1ª, 2007
 
 
 
 
Se há livros que dão prazer a quem gosta de espreitar um pouco para além do corriqueiro, este é um deles. Utilizando uma linguagem simples, acessível a quem não tem pretensões de cátedra, descreve de modo cativante os sonhos por que a Humanidade foi passando...
 
É curioso sabermos a partir das badanas que o Autor (1895-1990) era urbanista e não filósofo tendo sido membro dos principais institutos de arquitectura e planificação urbana no mundo anglo-saxónico. E realmente, a cidade foi e é objecto da utopia, local da sociedade perfeita em que tudo se rege por um objectivo idílico.
 
Se o homem não sonha com algo de diferente do mundo material, então não passa de um consumidor de oxigénio, verme bípede erecto mas quand même rastejante.
 
E tanto sonha para escapar do materialismo que o escraviza como sonha para mudar o mundo. Assim é que vai ao cinema para viver uma irrealidade utópica ou constrói o modelo em que pretende transformar o mundo.
 
É desta transformação que o livro se encarrega de nos recordar para que não passemos por cá só para nos enganarmos com ilusões escapistas.
 
Julho de 2009
 
Henrique Salles da Fonseca
 

OS MEDIA E O COMPORTAMENTO DA CRIANÇA

 

Os meios de comunicação são forças muito poderosas, que conseguem vencer pais, família, amigos, professores, conhecidos... e até uma nação.
 
A nossa cultura é muito permissiva, permito-me dizer promiscua, "é proibido proibir" alguém o disse, é URGENTE não ouvir este conselho.
 
 A CRIANÇA ouve, vê e lê, a toda a hora, anúncios que promovem os brinquedos bélicos, os heróis aguerridos, a agressividade, a lei do mais "esperto", a irresponsabilidade, a adulteração das palavras e dos seus significados, as frases com conotações sexuais, a beleza física, a comida "pré-fabricada",... Vê pessoas promovidas a "heróis da nação" por actos que de heróico nada têm.
 
 
 
Pensemos na obesidade que ataca cada vez mais as nossas crianças, que lhes afecta a saúde e, consequentemente, a qualidade de vida, o que tem reflexos na delapidação do nosso erário público. 
 
Passar horas em frente de um televisor, ou de um computador, impede-as de: ler um livro, ouvir contar uma história, falar com um amigo imaginário, sonhar que voam, colher uma flor, afagar um cão, acalentar uma boneca,  brincar às casinhas, jogar à bola, andar de bicicleta, trepar a uma árvore, escalar um muro...
 
Há estudos que comprovam que este imobilismo, muitas vezes acompanhado pelo consumo compulsivo de pipocas, de Chipicaos, de gomas, de chocolates,... aumenta e muito o índice de massa corporal, deste aumento até à obesidade vai um pequeno passo.
 
É tão fácil passar um fim-de-semana inteiro em frente de um ecrã! Não é que a CRIANÇA não gostasse de ir brincar para outro lugar, até talvez gostasse, mas sempre que começa um novo filme ou um novo jogo, a dopamina (*) actua sobre os tecidos cerebrais e antes que ela se aperceba já o Sol "foi dormir".
 
Cada "dia" que passa, neste corre-corre da vida moderna, o tempo para a CRIANÇA dedicar à actividade física e mental vai sendo cada vez mais curto.
 
Pensemos na violência que tanto tem alimentado os media, com relatos que vão ao absurdo do pormenor.
 
Não é apanágio dos dias de hoje os pais queixarem-se contra a pressão da sociedade. Actualmente há uma diferença, para além da alteração de determinados valores sociais, há a proliferação da tecnologia, que os desvaloriza.
 
Existem cada vez mais crianças a usarem linguagem agressiva, quer no modo como é expressa corporalmente, quer nas palavras usadas, a desrespeitarem e a ameaçarem fisicamente os outros. Muitas destas crianças não estão com este tipo de atitude a reproduzirem o que vêem ou ouvem em casa, estão a reproduzir o que vêem e ouvem nos meios de comunicação.
 
Infelizmente, sempre houve, há e haverá crianças com perturbações a cometerem actos semelhantes ou ainda piores, capazes de comportamentos extremos e que não foram influenciadas pelos media.
 
Como definir o que é um comportamento extremo? Este depende sempre do que é normal. Se na sociedade em que está inserida, é "normal" a aceitação de insultos, de confrontos verbais e físicos, o comportamento extremo pode ir até à situação de crianças que matam outras crianças, o que infelizmente, é cada vez mais frequente em países como os Estados Unidos, a Inglaterra e outros.
 
A ligação entre os meios de comunicação e as atitudes e comportamentos tem sido motor de arranque para investigações bastante aprofundadas, exaustivas e cientificamente comprovadas.
 
E que dizer do desempenho escolar?
 
A capacidade de leitura das nossas crianças tem vindo a diminuir e a culpa, infelizmente, não é apenas dos professores, a solução seria muito mais fácil. Saber ler requer tempo, são necessários, em média, quatro ou cinco anos para se adquirir a capacidade básica de leitura.
 
A televisão e o computador oferecem uma informação imediata, não é necessário esforço, é um caminho fácil por isso a CRIANÇA pouco motivada para a leitura, sente-se frustrada e desiste do "esforço" muito facilmente.
 
Há, evidentemente, muitos outros factores que estão por trás da crise de leitura das nossas crianças, mas, uma coisa é certa, se elas passarem muito tempo em frente ao televisor ou ao computador, essa capacidade não se desenvolve ou então, a duração desse desenvolvimento é extremamente longa, com grandes custos para todos nós.
 
Nem tudo está perdido!
 
Como fazer frente a este panorama? Como minimizar os efeitos negativos apontados?
 
A educação de uma CRIANÇA não passa por a desligarmos totalmente dos media. Tal seria impossível, além disso, estes meios podem oferecer oportunidades de informação bastante preciosas.
 
Há que ponderar num equilíbrio, orientá-la de forma a saber tomar decisões que a tornem num cidadão responsável.
 
Sem conhecer receitas e sem grandes pretensões, vou enumerar princípios simples, do conhecimento de todos, com base no bom senso:
 
  • Ter sempre presente que uma mensagem é, normalmente, compreendida de forma diferente por uma criança de 3 anos e outra de 7 ( a título de exemplo);
  • Estabelecer regras, que devem ser explicadas, a limitarem o número de horas que podem ser dedicadas aos meios de comunicação;
  • Durante as refeições meios de comunicação "fora de serviço";
  • No quarto da criança, computador, televisão ou jogos de vídeo não devem entrar;
  • Estar atento ao tipo de programas a que a criança pode aceder;
  • Ter regras bastante precisas sobre o uso da Internet;
  • Saber dizer NÃO.
                                         ..........
 
CORRAM PAIS! Há muito que passou a hora de ligar, ou desligar, o bem estar físico e psíquico dos vossos filhos com os media.
 
 Maria Teresa Monteiro
 
 (*) A dopamina é um neuro-transmissor, que tem como função estimular o sistema nervoso central; está por detrás da dependência do jogo (incluindo os tecnológicos), do sexo, do álcool e de outras drogas. Numa linguagem "vulgar" pode dizer-se que é o químico do cérebro "feliz".
 
 
 
 

Ainda Fernando Pessoa

 

 
 
 
 
 
Filho de uma açoriana da Ilha Terceira e de um português do Continente, o lisboeta Fernando Pessoa foi o maior poeta moderno da língua portuguesa. Lido e traduzido em numerosos países, é o mais discutido poeta português. Segundo o professor de Literatura da Língua Portuguesa da USP, Massaud Moisés, sua obra foi micro-filmada em mais de 130 rolos (27.500 páginas). Escreveu e assinou sob diversos heterônimos, foi muitos num só. Os embates entre seus personagens versavam basicamente sobre as idéias filosóficas e sociais. Sua obra MENSAGEM foi a única publicada ainda em vida do poeta. É um poema épico e otimista anunciando o Quinto Império de Portugal.
Foi o poeta mais retratado do século 20. Figura discreta, de chapéu, óculos, capa, cabisbaixo, vestia-se à moda da época. Solitário, nunca casou ou deixou filhos, ao que se saiba. Bebedor contumaz morreu aos 47 anos de problemas hepáticos na sua amada Lisboa.
 
 
 ...................................                        
 Ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.”.
Fernando Pessoa
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 25/06/09

HERÓIS DE CÁ - 17

 

 OUTRAS VISÕES - III
 
 
No início da década de 70 do séc. XX os trabalhos ciclópicos espreitavam o Governo Português. Haveria Homem para lhes fazer frente?
 
Estava Marcello Caetano numa posição de funâmbulo circense tentando garantir a manutenção do modo imóvel de vida a que Salazar conduzira Portugal enquanto os seus esperançosos apoiantes lhe pedíamos o desmantelamento controlado do Estado Novo sem sofrermos o aperto da tenaz soviética e eis que a direita mais conservadora chefiada pelo Almirante Américo Tomaz lhe impõe residência fixa durante uma semana no Palácio de Queluz. Assim, sem mais explicações para além de que a ordem era para parar com essa «coisa» de mudanças.
 
Verdade ou mentira, foi a notícia que circulou cá por fora dos círculos do Poder e todos acreditámos que a «guerra» estava perdida: a direita radical não admitia sequer o velho estratagema de mudar alguma coisa para que tudo continuasse na mesma; queria tudo na mesma e ponto final na evolução na continuidade de que Marcello Caetano falava nas suas «Conversas em família» no horário mais nobre do praticamente único canal da RTP[1].
 
 
 
A mudança de nome de União Nacional para Acção Nacional Popular e de PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) para DGS (Direcção Geral de Segurança) foi isso mesmo: mudança de nome.
 
Conta-se que na apresentação de cumprimentos ao novo Presidente do Conselho, o então Director Geral da PIDE, Major Silva Pais, terá sido aconselhado por Marcello Caetano a ir primeiro cumprimentar o respectivo Ministro, o do Interior, antes de o cumprimentar a ele próprio, Chefe do Governo. A ser verdadeira, a história significava a «descida de Divisão» a que a Polícia política estava a ser conduzida deixando de reportar directamente ao Presidente do Conselho como sucederia antes com Salazar, para passar a despachar com o Ministro da respectiva tutela. Logo na tomada de posse e eis que a direita mais radical se sentia a tomar um duche de água fria.
 
«Vendo o filme ao contrário», dá hoje para compreendermos como a direita conservadora cerrou fileiras logo no início do primeiro Governo post-Salazar com vista a impedir quaisquer mudanças no Regime[2].
 
Marcello Caetano ainda terá conseguido encorajar uns quantos «jovens amigos» que na Assembleia Nacional constituíram a «ala liberal» dentro do Partido único mas pouco ou quase nada se conseguiu para além duma crescente procura dos Diários da Assembleia Nacional onde nos deliciávamos com os diálogos travados entre os «jovens amigos» de Marcello Caetano e os outros Deputados a quem ele nunca chamou de seus inimigos mas que cá fora todos sabíamos que o eram. Nunca antes nem nunca mais depois desse período o Diário da Assembleia Nacional teve tanta procura pelo público em geral uma vez que era a única publicação portuguesa que à época não era submetida à Censura Prévia. Os censores tinham sérios problemas em truncar as transcrições amiúde feitas pelos jornais, semanários e revistas de grande circulação pois afinal aquele era, constitucionalmente falando, o lugar apropriado para a discussão política. E as notícias que nos chegavam cá fora eram suficientes para percebermos que nada mudaria sem que se tivesse que fazer algo mais do que falar, falar, falar…
 
Iniciativas económicas que se pretendiam estruturantes como o Pólo Industrial de Sines mostraram-se mais demoradas na produção de resultados palpáveis do que a própria durabilidade da situação política. O mesmo se diga relativamente à abertura do Ensino Superior à iniciativa privada com Évora a dar os primeiros passos que bastante mais tarde – em 1979 – haveriam de conduzir à reabertura da Universidade pública [3].
 
Quanto ao Ultramar, alguma coisa foi tentada no sentido de uma maior autonomia de cada Província Ultramarina a ponto de que ainda se passaram a intitular «Estados» mas – como nas demais alterações – tudo se resumiu a mudança de nome e apenas isso. Quando imaginávamos que se seguiria uma evolução no sentido do modelo britânico da Commonwealth of Nations em que o próprio Banco de Portugal mantivesse uma posição central na política monetária de todos, eis que mais uma vez tudo se gorou e a direita radical impediu qualquer evolução.
 
Estavam os campos definidos: a «ala liberal» da ANP (em que sobressaía Francisco Sá Carneiro) apoiante de Marcello Caetano, do lado evolucionista; os ultras (em que sobressaía Francisco Casal Ribeiro) apoiantes do Almirante Américo Tomás, do lado conservador.
 
Alguns factos mereciam preocupação e ponderação por parte dos evolucionistas:
 
  • O fim da guerra no Vietname;
  • O aparecimento do «Movimento dos Capitães»;
  • A ordem que o PCP deu aos seus jovens militantes no exílio para que ingressassem nas fileiras das Forças Armadas.
 
Já lá vamos...
 
Julho de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - O Canal 2 da RTP foi criado em 1968 por «ordem» de Marcello Caetano assim como a própria RTP nascera pela sua mão quando era Ministro da Presidência de um Governo de Salazar. Nesses tempos as emissões televisivas eram limitadas a algumas horas diárias.
[2] - Os salazaristas referiam-se ao Regime (com maiúscula) como o correspondente ao Estado Novo de 1926 corporizado na Constituição de 1933 por antinomia à República de 1910 corporizada na Constituição de 1911.
[3] - Fundada em 1559 pelo Cardeal D. Henrique antes de subir ao Trono e extinta pelo Marquês de Pombal em 1759 com a expulsão dos Jesuítas.

BOAS NOTÍCIAS

 

Auto de fé 
 
Segundo Robert Wright[1], Deus está vivo e o seu feitio  melhorou consideravelmente nos últimos tempos. Já não tem os temíveis ataques de furor e esqueceu as práticas cruéis que cultivava no passado; já não dispara raios e coriscos nem tão pouco cuida de fazer chegar a cada mortal a respetiva quota de sofrimento. Tudo isso são águas passadas. Hoje, Deus  é tolerante, pacífico, amável, paciente e bondoso. Deus é Deus, não por ser perfeito, mas por ser perfectível.
 
Para Wright, a interpretação válida dos textos sagrados é a que prevaleceu em cada época histórica. Como tudo mais, também é evolutiva. Voz do povo, voz de Deus. O que o povo dizia – e o que diz – corresponde ao pensamento divino do tempo. Por exemplo, nos idos levíticos, o mandamento “ama o teu próximo” era entendido literalmente. Os “próximos” eram os da mesma família, os da mesma aldeia e os da mesma tribo. Só na Idade Moderna (europeia) passou a ser entendido como os da mesma nação. Na era das ideologias, o próximo passou a ser, ora a classe ora a raça. Depois  falou-se de semelhantes mas só hoje se aceita que “os próximos” inclui os antípodas. O Mandamento era um apelo à identificação. Hoje é o contrário porque  Deus deseja que a identificação seja ultrapassada.
 
Fundamentalmente o que evoluiu foi a percepção do conflito social. Era então entendido como de soma zero. O ganho de um seria o prejuízo do outro [+1-1=0]. A intolerância e a beligerância tinham aqui a sua raiz. Admite-se hoje que o conflito pode ser de soma variável. Mediante cooperação, todos podem ganhar, ainda que desigualmente.
 
Para Wright, o monoteísmo foi - e é - importante na medida em que contribuiu para radicar no homem a ideia de que a moral deve presidir na orientação da sociedade. Por outro lado, o monoteísmo não teria impedido a evolução em qualquer das religiões que o praticam.
 
Wright deixa por explicar por que razão o homem se dedica tão empenhadamente a esta tarefa de aperfeiçoar a moral corrente.  Quem lhe soprou tal instinto? Quem lhe conferiu tal vocação?
1 de Julho de 2009
 
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira
 
PS. Este apontamento foi feito no dia do meu 82º aniversário. De boa saúde, graças a Deus.
 
(1) - Robert Wright, The Evolution of God, Little, Brown and Company, 2009

Os Açores de hoje e os Açores de ontem

 

 

 

  Foto retirada do livro AMBIENTES AÇORIANOS, ( pág. 57) de Francisco Ernesto de Oliveira Martins

 

 

Os Açores de hoje são muito diferentes dos Açores de outrora. Estradas bem asfaltadas e cuidadas no lugar das de terra e pedras. Casas modernas, adaptadas com todo o conforto, substituíram as acanhadas e frias moradias de pedra. O alimento ontem escasso e caro, hoje, importado, pode-se obter a qualquer hora. As distâncias longas e intermináveis, vencidas com as embarcações, se reduziram para minutos ou poucas horas com os aviões. O estudo tornou-se mais acessível e prolongado, com o incremento de escolas públicas de qualidade e a Universidade dos Açores, em Ponta Delgada. E o mais importante, as conquistas dos benefícios sociais e da cidadania estão aí para todas as gentes, garantindo-lhes a dignidade e suprindo as carências do dia a dia.

 

Já os antigos açorianos não tiveram essa sorte. Lutaram muito para se fixarem na terra e tirar dela e do mar a sobrevivência. Enfrentaram os caprichos da natureza, as dificuldades do território, passaram fome. Por longos anos conviveram com o ostracismo que se abateu sobre as ilhas. Quando precisaram emigrar, regaram com suor e sangue a nova terra, ajudaram na construção de outras nações. Pela necessidade muitas vezes se anularam e se submeteram. Mas foram eles que propagaram a língua, a cultura e a fé do seu povo, como marcas de sua presença em todas as partes do mundo aonde chegaram. Resgatar a saga e memória desses antepassados é preservar a identidade do povo açoriano. Só assim as jovens gerações, do conforto e da tecnologia, podem avaliar a qualidade de suas raízes, quem são e de quem provieram.

 

Já os descendentes dos emigrantes, que nasceram e vivem lá fora, têm uma outra forma genética e psicológica de ser. São produtos da miscigenação e de outro ambiente. Não são os açorianos de hoje e nem os de antigamente.  É um novo povo, que se reconhece como filho da nova terra, apesar das origens ilhoas. No entanto, quando conhecem a história dos seus avós, aprendem a valorizar mais as suas raízes, a derrubar enganosos preconceitos.

 

Como açoriana que viveu a infância nos Açores e que voltou à sua terra já madura, como turista, vejo as diferenças das épocas. A importação de linguajar, modos e costumes, a adopção de outras comodidades e modernidades estrangeiras. A construção de casas com outra arquitectura, a inserção de diferentes hábitos alimentares e culturais são coisas que estão alterando perigosamente o perfil físico e antropológico dos Açores. Deve-se desenvolver sem perder a identidade. Talvez por isso, é que os governos regionais de certas ilhas, como Pico, Faial, São Miguel,..., investem forte nos intercâmbios culturais com Santa Catarina (Brasil). A finalidade é de fazer o caminho inverso da emigração, trazendo de volta a cultura e a arquitectura açorianas antigas, preservadas ali durante séculos graças ao abandono e esquecimento daquele povo colonizador que ocupou parte do sul brasileiro.  É uma tentativa açoriana de reavivar as raízes. É uma forma de mostrar aos Manezinhos de Florianópolis as suas origens.  

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 24 de Junho de 2009.

 

 Açores de hoje

 

 Flores, Açores 2007 ( foto de Maria Eduarda Fagundes)

 

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