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A bem da Nação

O TERRORISMO MARÍTIMO – I

 

 
1. INTRODUÇÃO 
 
 
O tema do terrorismo marítimo parece ser muito desenvolvido hoje em dia. Não se passa um dia sem anúncios de um ataque de piratas no Oceano Indico ou do desvio de um navio de comércio no golfo de Aden. Mas, falaremos exactamente da mesma coisa? O terrorismo marítimo e a pirataria serão dois lados de uma mesma actividade? Não parece. Em primeiro lugar, o próprio termo terrorismo tem várias definições, cujos alcances dependem da organização que as adoptou. Neste sentido, o termo terrorismo marítimo abrange um amplo leque de acontecimentos como ataques dirigidos a navios (exemplos do USS Cole e do navio-cisterna Limburg), desvios (Achille Lauro) e/ou o transporte de pessoas ou de material em apoio a actividades de grupos terroristas.
 
Achille Lauro
 
 
 
Existe uma distinção fundamental entre pirataria e terrorismo: a pirataria marítima define-se como actos de crime no mar para obtenção de ganhos económicos. De outro lado, o terrorismo marítimo refere-se a qualquer acto ilegal que tenha por objecto um navio, seus passageiros, frete ou tripulação, ou instalações portuárias com o objectivo de influenciar directamente ou indirectamente um governo. Em suma, o pirata actua por motivos privados, o terrorista por fundamentos políticos ou religiosos. Todavia, hoje essas definições não são bem herméticas e não há uma linha de separação estrita entre as duas. Efectivamente, as duas actividades podem ser ligadas, uma vez que a pirataria pode fornecer o financiamento das operações terroristas. Este trabalho, sem ocultar este último ponto, baseia-se sobre a distinção entre as duas noções e deixa, em consequência, a análise da pirataria em si.
 
Mais, o terrorismo parece ter desenvolvido desde o 11 de Setembro de 2001 uma nova face. O terrorismo “antigo” era constituído por acções típicas como tomada de reféns no caso do Achille Lauro em 1985 ou do City of Poros em 1988 com fins políticos (os grupos palestinianos, por exemplo). Com os ataques a Nova Iorque, uma nova dimensão foi atingida: a destruição maciça, sob a forma da destruição de edifícios, e a morte de milhares de pessoas em nome de uma ideologia religiosa. Assim, fala-se hoje de hiper-terrorismo mais do que de terrorismo simples. Segundo a expressão de Eric Frecon, não é já uma questão de ganhar a sua vida no mar, ou do uso do terrorismo para fins de reivindicações políticas, mas de assegurar a sua salvação (CESM, p. 4). Neste contexto, o quase silêncio da pesquisa científica sobre o assunto é surpreendente. Frente aos milhares de artigos sobre a pirataria, o terrorismo marítimo parece deixado à margem dos estudos.
 
No entanto, é sempre útil chamar a atenção sobre o papel essencial do mar. Constitui 71 % da superfície da terra e 80 % do comércio mundial é efectuado pelas vias marítimas (CESM, p. 4). O mar representa 40 % da produção mundial de petróleo e, além disso, 70 % da população mundial mora a menos de 300 km do mar. Assim, todas as condições parecem reunidas para fazer do mar e mais particularmente do comércio marítimo o alvo de preferência do terrorismo mundial. Efectivamente, é porque as ameaças são reais e múltiplas (2) que a comunidade internacional adoptou medidas de segurança que colocam em questão o antiquíssimo princípio da liberdade do mar (3).
 
 FRANÇOIS ESCARRAS

PENSAMENTOS MATINAIS - 3

 

 ESTILOS DE MANDO
 
  
No seu recente livro “Espuma do Tempo”, Adriano Moreira aponta o procedimento de Salazar por ocasião da tentativa de golpe de força de Botelho Moniz, ao tempo ministro da Defesa. Passava-se isto em Abril de 1961.
 
General Júlio Botelho Moniz
(Lisboa, 1900 - Lisboa, 1970)
 
 
Salazar valeu-se da lei. Demitiu o ministro e publicou a demissão no Diário do Governo antes que o ministro tivesse tempo de agir. Não castigou ninguém. Antes pelo contrário, logo que passada a onda, agarrou em alguns dos implicados e reintegrou-os no sistema com responsabilidades acrescidas. Adriano Moreira não nota contudo o que talvez tenha tido mais consequência e isto foi a motivação. O grito “para Angola, rápido e em força” motivou as gentes e calou a boca a possíveis recalcitrantes nas Forças Armada. O general Franco, no caso, teria fuzilado o ministro; Estaline tê-lo-ia torturado e morto nas tenebrosas cadeias do NKVD. Salazar limitou-se a motivar os espíritos para nova ação, contrária à proposta pelo sedicioso. E assim reteve o poder.
 
Marcello Caetano, colocado anos mais tarde diante dos capitães descontentes, recorreu à lei: - publicou decretos. Era pura e simplesmente jurista. Não sabia torturar e muito menos motivar. Resultado: perdeu.
 
 Luís Soares de Oliveira

 

    

PARTILHANDO O TEMA “O POLVO E A TENAZ”

 

 
O artigo do Doutor Salles da Fonseca intitulado “O Polvo e a Tenaz” trata a génese e a evolução do problema que subjaz à visão de Oliveira Salazar sobre a sua política externa e a manutenção e defesa intransigente das colónias africanas. É com real propósito que este tema vem à colação, quando, hoje, visitamos as ruínas do castelo de ilusões em que se entrincheiraram até mesmo inteligências lúcidas do pensamento ocidental.  
 
Indo então à questão.
 
Se Stalin acabou por adoptar o que Trotsky preconizava sobre o expansionismo revolucionário além-fronteiras, só o fez, no entanto, de forma mais decisiva, ao surfar a onda favorável da vitória dos Aliados sobre o Nazismo. Era oportuno colher dividendos e aproveitar as debilidades de um mundo esfrangalhado por uma guerra demencial. Cabe é questionar se os efeitos da exportação ideológica teriam sido os mesmos caso tivesse vingado a prematuridade defendida por Trotsky. O mesmo é perguntar se a tese deste não teria morrido à nascença uma vez a semente lançada na terra em tempo talvez menos propício à sua germinação. Tudo tem a sua estação recomendável, até mesmo as ideias.
 
Ironicamente, isto leva-nos então a concluir que o instinto de um Stalin de pensamento granítico, aliado a uma calculada paciência estratégica, acabou por triunfar sobre um Trotsky de inteligência mais teórica e mais burilada.
 
Seria interessante especular sobre o rumo que o mundo teria tomado se tivesse acontecido uma falência prematura do expansionismo comunista, o qual, sem uma necessária consolidação doutrinária, poderia, de facto, consumir-se no próprio fogo da exaltação revolucionária e das paixões incontroladas ateado noutras geografias. Aliás, basta ver o caso da Espanha, citado pelo Doutor Fonseca no seu artigo.
 
É de especular também se a guerra-fria teria, assim, revestido outros contornos ou se uma forçada “contracção” da ambição soviética teria originado no pós-guerra um diferente ordenamento político na Europa e no mundo, uma vez que só a emergência das duas grandes potências mundiais impediu o retorno a uma situação multi-polar.
Mas hoje sabemos que espécie de seara produziu a semente revolucionária, na Europa do Leste como no resto do mundo. Hoje sabemos, reconhecendo justeza e validade ao pensamento estratégico de Salazar, que os soviéticos, os cubanos e os chineses apenas aguardavam ambiciosamente que os portugueses saíssem das colónias para, de forma mais ou menos sub-reptícia, lhes ocuparem os lugares de influência. Embora, com a evolução da maturidade política dos novos países de expressão portuguesa, associada à posterior implosão soviética, tenha, em devido tempo, mudado o tabuleiro em que aqueles passaram a jogar os seus interesses, não sendo descabido considerar que, esconjurados certos fantasmas, estão hoje reanimados os laços de afecto com Portugal forjados ao longo de séculos, mau grado erros, desacertos, desvios e adiamentos estratégicos cometidos quer pela administração central quer pelos governos coloniais. Neste momento, dentro do mundo lusófono, podemos, infelizmente, apontar a Guiné-Bissau como um dos mais trágicos exemplos de uma emancipação sob a égide da estratégia comunista. Timor é um caso mais singular. Noutras partes da África onde a experiência comunista foi ensaiada ou onde ela ainda subsiste, as consequências directas ou indirectas das “libertações” apressadas ou mal aconselhadas tornam porventura ainda mais negativo o saldo do insucesso, dado o imparável cortejo de desgraça, miséria e infortúnio que assola e mata a esperança daqueles povos.
 
Virá o tempo em que todas as contas da história serão feitas sem paixões nem preconceitos ideológicos. Nessa altura, poderá acontecer que o Homem de Santa Comba venha a ser olhado com olhos bem diferentes daqueles que lhe lançavam chispas mortais nos areópagos mundiais. Rendida a certas evidências, a história universal não deixará de lhe fazer justiça. Ou não fosse também o despeito e a inveja pela ousadia de um pequeno país a razão casuística do repúdio a que era votada a sua política externa.
 
Pode parecer que quem escreve este comentário é um confesso salazarista ou anticomunista primário. Nem uma coisa nem outra. Trata-se apenas de acompanhar o Doutor Salles da Fonseca neste seu propósito de meter um pouco de fria racionalidade na análise dos factos da história, sem sujeição gratuita a ideologias políticas que, como todos os fenómenos sociais, também brilham ou bruxuleiam consoante os tempos e as modas.
 
 
Tomar, 10 de Junho de 2009
 Adriano Lima
 

BURRICADAS 60

 

dinheiro, esse desconhecido - III
 
v        A actual crise veio revelar que teoria e prática (esta na Regulação e na Supervisão) vivem ainda na época em que dinheiro era sinónimo de dinheiro/objecto (moedas metálicas, com valor intrínseco) e de MF (passivo à vista do Banco Central).
v        Nesses bons velhos tempos, o volume de dinheiro em circulação podia depender de muita coisa, mas não do risco a que os Bancos se encontrassem expostos. Tudo começou a mudar, porém, a partir do momento em que o ouro foi desmonetizado (1972) – e a realidade, hoje em dia, é já completamente outra:
-        O dinheiro que verdadeiramente alimenta e faz mover a esfera real da economia é a ME (passivo à vista dos Bancos);
-        Só as novas operações de crédito bancário têm a virtualidade de aumentar, de imediato, o volume de dinheiro que circula entre pessoas e empresas – já que as restantes fontes de emissão de dinheiro se encontram, num primeiro momento, circunscritas ao sistema interbancário;
-        As operações de crédito bancário têm, assim, um duplo efeito: (1) exportam” dinheiro do sistema interbancário para a esfera real da economia; (2) “importam” risco da esfera real da economia para o sistema interbancário;
-        Sendo passivo, a ME (na realidade, as diversas ME) só existe enquanto os Bancos que a tenham criado forem solventes;
-        E, para serem solventes, os Bancos devem satisfazer, também eles, uma dupla condição: (1) terem dinheiro (MEBC) bastante, ou poderem obtê-lo de imediato se lhes faltar (isto é, disporem de capacidade de endividamento junto do Banco Central, dos outros Bancos e dos Mercados Financeiros); (2) terem Capitais Próprios positivos e adequados, na opinião do Supervisor (à luz das regras prudenciais que estiverem em vigor) e dos Bancos contrapartes (aqui, é a disciplina do mercado a funcionar);
-        Os riscos que acabam mal constituem, para os Bancos, um duplo abalo: (1) a perda dinheiro (o processo de recuperação da MEBC que perdem sem drama para outros Bancos na sequência das operações de crédito bancário é interrompido); (2) a perda de Capitais Próprios (por força do reconhecimento contabilístico de prejuízos);
-        Um Banco que caia insolvente provoca uma redução brusca (mais ou menos acentuada, consoante a dimensão do Banco em crise) no volume de dinheiro em circulação: (1) quer na esfera real da economia (ME) - onde os Bancos sobreviventes podem não estar na disposição de suprir a falta; (2) quer no sistema interbancário (MEBC) - onde o Banco Central possui, no entanto, meios para reparar o dano;
-        Em suma. Uma perda patrimonial diminui sempre a capacidade do Banco atingido (e, por ricochete, dos restantes Bancos): (1) para renovar a oferta de dinheiro (ME) aos mercados; (2) para tornar possíveis novas trocas monetárias; (3) para permitir que a esfera real da economia prossiga sem grandes sobressaltos, tonificada pelo dinheiro que anda de mão em mão.
v        Facilmente se conclui que injectar MEBC (através de empréstimos vários) em Bancos que, nos últimos tempos, têm vindo a ser atingidos por uma enxurrada de perdas patrimoniais que lhes levam o melhor dos seus Capitais Próprios, é capaz de não adiantar grande coisa. Mas, pelos vistos, é o remédio mais receitado.
v        Os Bancos, para retomarem pacificamente o mister que é só deles (a saber: oferecer ME por contrapartida de riscos que considerem aceitáveis), necessitam tão-somente:
-            De reforçar os seus Capitais Próprios, para poderem acomodar mais risco (não confundir “mais risco” com “maior risco”, ou “risco agravado”) – e isso está ao alcance dos Investidores, do Governo e, em última instância, do Banco Central;
-            De ter uma visão mais clara dos riscos a que se exponham – o que, nem Investidores, nem Governo, nem Banco Central podem proporcionar de um dia para o outro.
v        Com tanto dinheiro (MEBC) a ser injectado continuamente nos sistemas interbancários (cerca de USD 6.5 biliões ao redor do mundo, segundo a última contagem) muitos temem que a inflação dispare, lançando a economia mundial em stagflação (inflação acelerada com crescimento económico nulo ou, mesmo, negativo) de má memória (aconteceu na 2ª metade da década de ’70, logo a seguir à desmonetização de ouro e ao primeiro choque petrolífero – e foi o diabo). Será assim?
v        Sim, não, talvez (pois é, Leitor, no fundo, no fundo, não passo de um economista). Eu explico-me. O dinheiro (MEBC) injectado pelos Bancos Centrais terá de ser reembolsado – e com juros. É certo que muitas destas operações têm prazos que podem ir até 3 anos, eventualmente renováveis. Mas, no final, terão de ser pagas – e a MEBC emitida acabará por ser reabsorvida e extinta pelos Bancos Centrais, com um efeito ligeiramente deflacionista (porque o que os Bancos vão reembolsar é superior aquilo que receberam).
v        Esta MEBC, enquanto tal, não está imediatamente ao alcance de pessoas e empresas (tomara a muitos Bancos Centrais, e a outros tantos Governos, que estivesse). Para chegar à esfera real da economia, só por via de novas operações de crédito bancário – e essas, para acontecerem, exigem: (1) mais Capitais Próprios; (2) menos incertezas sobre a actividade económica. É assim o ciclo de uma recessão com epicentro no sistema interbancário.
v        Estas injecções de MEBC só teriam um efeito inflacionista persistente se nenhum (vá lá, com uma ou duas excepções) dos Bancos que as receberam as restituísse (porque, entretanto, faliam, por exemplo). Mas mesmo num cenário assim tão extremo, os deficits da Balança de Transacções Correntes, com o tempo, encarregar-se-iam de eliminar parte do dinheiro em excesso. E a um surto inflacionista seguir-se-ia maior desemprego e a inevitável desvalorização cambial, para que um novo equilíbrio “macro” fosse encontrado.
v        O problema põe-se com mais acuidade nos subsídios orçamentais não reembolsáveis e, como acontecia nos estímulos monetários oriundos dos Bancos Centrais, nos subsídios orçamentais reembolsáveis, mas jamais reembolsados.
v        A reabsorção da MEBC que financiara os estímulos orçamentais só ocorrerá, e com um efeito ligeiramente deflacionista, a par e passo com o serviço da dívida pública que tinha sido monetizada pelo Banco Central, ainda que por interpostos Bancos. Mas tudo isso exige uma articulação perfeita entre a política orçamental, a gestão da dívida pública e as medidas destinadas a absorver MEBC (sem pôr em causa o equilíbrio externo).
v        Se os deficits da Balança de Transacções Correntes, entretanto, não falarem mais alto, um surto inflacionista? Sim, sem dúvida - se os Governos não tirarem com uma mão (via carga fiscal) aquilo que estão a dar com a outra (os subsídios orçamentais). Mas também a desvalorização da moeda nacional nas economias que ainda não abdicaram do instrumento cambial – e o desemprego massivo nas que integrem Uniões Monetárias sem serem competitivas por aí além nos sectores de bens transaccionáveis.
v        É este, justamente, o perigo que espreita: uma enorme volatilidade entre as moedas de referência no sistema financeiro internacional (USD, Euro, Yuan, Yen) - uma espécie de guerra cambial soft (soft por, em larga medida, escapar à acção dos Governos). Que Deus nos livre e guarde. (FIM)
 
Junho de 2009
 
 A. Palhinha Machado

CRÓNICA DE MOÇAMBIQUE

 

HADZABE
O povo que a Humanidade ignorou
 
 
 
A pré-história começou pela recolecção e caça
 
A humanidade evoluiu. O progresso apagou as marcas do tempo. A inteligência humana reinventou o mundo. Mundo novo. Mas o progresso não matou os traços da ancestralidade. Bosquímanos, Sun do Kalahari e Pigmeus da África Central. Com maior ou menor propensão mantêm seus hábitos. Fazem da natureza seu único e ideal habitat. Nomadismo. Caça e recolecção.
 
Muito poucas pessoas terão ouvido falar do grupo étnico Hadzabe, eventualmente, a tribo mais primitiva do planeta. Mais desconhecida. Em 1978 eram pouco menos de 1000. Vivem como a humanidade os fez há milhões de anos. Pré-história.
Desconhecidos pelo mundo e até pouco conhecidos no seu país. Como foi que o mundo os renegou?
 
Os Hadzabe constituem um dos vários grupos étnicos da Tanzânia, país irmão, berço de lutas de libertação no sul do continente africano. Vivem no nordeste da Tanzânia, província de Manyara. A região é famosa pela abundante fauna selvagem. Pelos parques nacionais Taranguire, Manyara e a zona de conservação de Ngorongoro (cratera) e ainda as planícies do Serengueti.
 
Mas é próximo do lago Eyasi que as últimas bolsas dos Hadzabe podem, ainda, ser encontradas. Bem próximo deste local, antropólogos britânicos, nos anos 60, descobriram fósseis de hominídeos que, de alguma maneira, comprovam as teorias sobre a África como berço da humanidade.
 
Ouvi falar nos Hazabe, pela primeira vez, em 2004. Estudantes do Colégio de Mweka falaram neles com misto de angústia, frustração e honra. Falaram da ancestralidade e pré-história que os tipificava. Um povo que se recusara à civilização, uma tribo que poderia sucumbir.
 
Caçadores e recolectores natos, os Hadzabe sobrevivem de frutos silvestres, de mel e de carne de caça. Para eles o mundo foi criado pelo Sol e pela Lua. O Sol permite que eles localizem suas presas. A Lua, que os ajuda a sonhar e a dar-lhes sorte na
caçada.
 
A caça é uma actividade essencialmente masculina. Caçam de tudo, mamíferos de grande, médio e pequeno porte. Caçam, sem piedade, outros predadores. Nada escapa! Tamanha ferocidade daria para entender como o ser humano se transformou no maior e mais temível predador do planeta. A par da caça colectam mel. Os Hadzabe sobem árvores para tirar mel ou caçar com a mesma mestria e facilidade com que qualquer primata o faria. As mulheres, para além de cuidarem dos filhos, são exímias a escavar raízes. Destas escavações retiram as calorias que os homens não conseguem trazer. Qualquer roedor teria inveja de as ver escavar e retirar das entranhas da terra as raízes do sustento. Todas as relações giram à volta da comida. Quando esta abunda, eles passam horas devorando, sem qualquer outra preocupação, tudo que a mãe natureza generosamente oferece.
 
Vida feita de comes e comes
 
Pessoas de invejável e tremendo apetite. Pessoas de estatura baixa se comparados com a média, pele escurecida pelos banhos forçados de sol, corpos franzinos. É impossível descortinar, por entre poupada roupa, reservas calóricas ou banha. Nómadas, sobrevivem no meio da selva, sem casas, tendas ou abrigos. Apenas a sombra das árvores. Em épocas de chuva refugiam-se em cavernas. Sem pertences, seus parcos haveres viajam com eles o tempo inteiro. Restos de ferro, uma pedra para afiar lanças e muitos tendões de girafa para fazer os arcos. Flechas e arcos são o cartão de identidade.
 
Com a ajuda de estudantes e professores do Mweka College, Tanzânia, travei contacto com os Hadzabe. Conversa longa e sofrida. Por vezes com tradução directa para Kishwaili. Outras só do Kidzabe, sua língua, para nenhuma outra. Falamos de como o falecido presidente Nyerere teria ordenado a construção de casas para os Hadzabe. Vã tentativa de os persuadir a mudar de vida e hábitos.
 
Mwalimo Nyerere, sem nunca os ter forçado, quis trazê-los, a qualquer preço, de volta ao mundo. Permaneceram nessas casas tão somente enquanto houve comida no seu interior. Assim que esta terminou, eles seguiram seu caminho e nunca mais regressaram. A Tanzânia falhara na missão.
 
Com os Masai, tribo conhecidíssima pelo semi-nomadismo, pastorícia e habilidade com a qual criam milhares de cabeças de gado, a história havia sido diferente.
Kidzabe é sua língua e, diga-se, dificílima de falar. Kidzabe é feita à base de clicks e estalidos, mímica e assobios. Tudo associado à sua sobrevivência e economia.
 
 
 
Caça
 
Assume-se que o ser humano tem a possibilidade de reproduzir aproximadamente 153 diferentes sons, em praticamente todas as línguas conhecidas. Os Hadzabe, por si sós, possuem até cerca de 145 sons distintos.
 
Kidzabe imita sons de animais, de pássaros. Tudo para confundir e não espantar a presa. A mímica é ordem de comando. Existem semelhanças entre as línguas dos
Bosquímanos e dos Sun. Aliás, os testes de DNA comprovam similaridades genéticas. Não admira, pois, uma intrínseca relação entre estas tribos. Nem admira que a caça tenha determinado a linguagem humana.
 
Aos irmãos Djequera e Sariboco Dufu perguntei como lidavam com a morte. Onde enterravam seus cadáveres. Os Hadzabe não acreditam que exista algo para lá da morte. A vida termina. Os cadáveres são cobertos com folhas. Depois é feita uma caçada. O animal morto é colocado junto ao cadáver. Não tardará que as hienas se sintam atraídas pelo cheiro. Estes vorazes predadores se encarregam, então, de finalizar o animal e o cadáver humano. Morte gerando e mantendo a vida. Por esta razão a hiena é o único animal que não é caçado pelos Hadzabe.
 
Conversamos sobre as técnicas de caça. Dos venenos colocados nas extremidades de suas lanças. Veneno extraído de plantas. Basta, então, explicavam, que a lança atinja a presa. Não importa a gravidade. O animal morrerá passados alguns minutos. O grupo de caçadores subsequentemente segue os rastos. Contam com a orientação dos abutres. A carne envenenada não constituía perigo para seu próprio consumo. O fogo, feito à mão e na hora, reduz a vitalidade do veneno. Satisfaz o apetite do caçador.
 
Os Hadzabe são exímios conhecedores de plantas. As plantas são farmácias a céu aberto. Curam todo e mais algum sintoma. Na verdade, não consomem vegetais. Djequera Dufu, ele próprio, foi atacado de surpresa por um búfalo. De fractura exposta na perna direita, garante que as plantas o curaram. Mesmo a malária, que dizima milhões em sociedades civilizadas, parece não fazer vítimas entre os
Hadzabe.
 
Amantes incondicionais da liberdade, os Hadzabe partilham tudo dentro do seu grupo. Viajam em grupos de quatro a cinco famílias. Nem parece. Para além de parentes consanguíneos, os grupos hospedam jovens caçadores de outras famílias.
Acreditam em amuletos. Absolutamente todos usam colares e são vacinados para se prevenirem das mordeduras de cobras e de outros animais. Não existem, porém, doutrinas ou religiões no seu seio.
 
Sol e Lua. Vento
 
Quando venta não se pode caçar. Os cheiros e odores são perceptíveis pela presa. Nem mesmo as relações matrimoniais são efémeras. Os Hadzabe respeitam suas famílias mas não se prendem à mesma mulher quando acham que atingiram níveis de saturação.
Quando a primeira mulher envelhece é substituída por uma mais nova. Duas mulheres em simultâneo é raro. Difícil de gerir. Mas acontece. O contacto ocasional com outros grupos étnicos colocou-os próximo do álcool e tabaco comercial. Álcool e cigarro converteram-se em presentes de luxo. Assim são feitas as aproximações.
 
Novas amizades
 
Hadzabe, como família, alucinados tentam compreender o dito mundo. Consomem o quanto seus corpos toleram. Por que razão os Hadzabe terão sido, aparentemente, esquecidos pela humanidade? Porque seu desenvolvimento não acompanhou a civilização e outras etnias? Não deve existir resposta. Não foi vontade divina. Assume-se que, pelo facto de viverem em zonas infestadas pela mosca tsé-tsé, próximo dos parques nacionais, foi evitado o estabelecimento de comunidades sedentárias, de pastores ou agricultores. A abundância de carne de caça, nesses parques bem preservados, manteve níveis de dieta e conforto razoáveis.
 
O sentido de liberdade e independência de sistemas também pode ser equacionado. A política de tolerância ilimitada dos tanzanianos, nas relações inter-tribais, também facilitou a permanência na selva.
 
O ideal de qualquer Hadzabe é a caça. Virar caçador. Aprender todas as técnicas de seus progenitores. Isso só se aprende na selva.
 
O presidente Kikwete, à semelhança de Nyerere, quer alterar a situação. Sabe-se de antemão que o recurso à força não surtirá efeito. Terão que ser usados incentivos diferentes. Algumas crianças Hadzabe estão sendo levadas para a escola.
Pode ser um primeiro passo. Afinal esta mudança terá de ocorrer. Os cenários mudaram. Com o aumento da população aumenta a pressão sobre o espaço vital dos Hadzabe. Interagem, mesmo sem querer, mais frequentemente com outras tribos.
 
Mas o mundo precisa de fazer muito mais pelos Hadzabe. Seus números reduzem-se a olhos vistos. Podem mesmo estar em vias de extinção. Os paradoxos do mundo e da civilização encontram nos Hadzabe campo fértil para os questionamentos. Como pode a humanidade ir para Marte e para Lua, fazer cirurgias laser, viver na luxúria e esquecer-se, bem do seu lado, que outro ser humano é pré-histórico?
 
 Jorge Ferrão
Reitor da Universidade Lúrio, Nampula, Moçambique

HERÓIS DE CÁ - 12

 A ESPADA E A PAREDE

 

 

 
D. Teresa, primeira rainha de Portugal
 
 
O imperialismo castelhano não dorme. Padece de insónia desde o dia 18 de Junho de 1116, data em que D. Urraca, rainha de Leão e Castela[1], se irritou com o facto de o Papa Pascoal II ter endereçado uma carta a sua meia-irmã D. Teresa na qualidade de Rainha de Portugal.
 
Sim, desde então que Portugal é uma espinha atravessada na garganta espanhola e se nós hoje nos preocupamos com estratégias de defesa, tempos houve em que o ataque foi a norma portuguesa. No sentido bélico, sempre tivemos que reagir à agressão castelhana; no sentido diplomático, foram muitas as tentativas para estabelecer a União Ibérica sob o controlo do trono português. Contudo, a única vez que tal ocorreu foi no sentido inverso ao sonhado pelos reis portugueses e, mesmo assim, Filipe II de Espanha viu-se obrigado a grandes subornos para alcançar os seus desígnios. Ficou célebre a sua expressão quando disse do trono de Portugal que «herdei-o, comprei-o e paguei-o».
 
Conscientes da pequenez portuguesa face ao vizinho terrestre, cedo os nossos dirigentes compreenderam que Portugal teria que ganhar dimensão ultramarina para poder enfrentar a espada espanhola. Essa epopeia começou em Ceuta no ano de 1415 mostrando que não temíamos a parede que o mar então representava.
 
A conquista de um Império foi a garantia da soberania nacional; a manutenção desse Império foi a razão de ser de Portugal como Nação soberana; a perda desse Império poderia muito provavelmente significar a passagem a mera região espanhola.
 
Não vamos agora ajuizar sobre as alternativas evolucionistas que durante o século XX se poderiam ter colocado; basta-nos constatar que essa era a visão histórica que prevaleceu até que Salazar formou opinião e passado algum tempo chegou ao Poder. O que agora nos interessa é perceber a lógica da decisão tomada em 1961 transcrita na célebre frase: - PARA ANGOLA RAPIDAMENTE E EM FORÇA!
 
Poderia não estar politicamente correcta nas arenas internacionais mas fazia tanto sentido interno quanto a outra polémica frase que dela resultava mas de cariz externo que nos colocava ORGULHOSAMENTE SÓS.
 
Sim, estávamos entre a espada espanhola e a parede americana que tanto cobiçava as riquezas angolanas.
 
Assim foi que nos últimos tempos de governação efectiva, José Gonçalo Correia de Oliveira, Ministro da Economia, se me queixava: - O Doutor Salazar só se interessa por política externa e não dá despacho ao resto do Governo.
 
Um ditador dá sempre despacho e não faz mesmo outra coisa.
 
Seria ele ainda um ditador?
 
Lisboa, Junho de 2009
 
Henrique Salles da Fonseca
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
D. TERESA, A PRIMEIRA RAINHA DE PORTUGAL, Cassotti, Marsilio –
– ed. A esfera dos livros, Lisboa, 1ª edição Junho de 2008


[1] -Por sucessão de sua Pai, o rei D. Afonso VI

HERÓIS DE CÁ - 11

 

O POLVO E A TENAZ
 
 
Que distinguia o intelectual Trotsky do bárbaro Stalin? Na teoria, nada; na estratégia, o primeiro considerava prioritária a globalização revolucionária enquanto o segundo achava que a revolução tinha que se consolidar na Rússia e só depois é que se deveria estender ao resto do mundo; no plano pessoal, tudo os opunha.
 
Foi numa tentativa de manter o pescoço em cima dos ombros que Trotsky «emigrou» para o México mas, temendo o seu regresso, o ditador soviético mandou alguns anos mais tarde, em 1940, os seus esbirros no encalço do fugitivo e fê-lo passar pelas armas lá mesmo no exílio.
 
 Weekly Worker 573 - Thursday April 21 2005
 Leon Trotsky
(1879- 1940)
 
Prevalecera oficialmente a estratégia da consolidação da revolução soviética na Rússia mas de facto o que prevaleceu foi a consolidação do Poder pessoal de Stalin.
 
Exilado o inimigo e consolidado o Poder pessoal, Stalin sentiu-se livre para levar a ideia trotskista por diante. Assim foi que se meteu a fundo na Guerra Civil Espanhola para afinal sofrer o vexame da derrota às mãos de Franco e seus apoiantes. Contudo, ainda teve tempo de transportar de Valência para Moscovo o ouro do Banco de Espanha a fim de o «salvar» das mãos dos nacionalistas. Foram necessários alguns anos para que a ferida espanhola na carne da URSS ficasse devidamente lambida. A internacionalização da revolução comunista nunca mais voltou a ter algum significado até que muitos anos depois Fidel Castro ousasse entrar no hemisfério americano.
 
O trotskismo morreu com Trotsky mas foi a vitória de Stalin que o encerrou em túmulo definitivo por muito que alguns intelectuais marxistas o neguem. Também o Padre António Vieira afirmou que o defunto rei D. João IV havia de ressuscitar para liderar o Quinto Império e todos nós hoje esboçamos um sorriso com tal ideia.
 
Mas se o polvo trotskista morreu, a entrada da Rússia na Guerra Civil Espanhola revelou a estratégia da tenaz que perdurou até à queda do Império Soviético em 1989: isolar a Europa Ocidental dos seus parceiros externos e privá-la das matérias prima ultramarinas de modo a que à penúria caísse na esfera soviética. Isso implicava transferir o Império Português para o domínio da URSS na esperança de que o resto da África se seguisse num movimento que Moscovo sonhava como imparável perante o fascínio da propaganda comunista e do «canto» de algumas Kalashnikovs AK47.
 
Só neste enquadramento internacional se compreendem muitas das decisões que Salazar tomou enquanto deteve o Poder efectivo e nunca será demais repetir que esta estratégia soviética, a da tenaz, foi decisiva para a definição de toda a política externa salazarista. O mesmo se diga relativamente a muitas matérias inerentes à dimensão política interna.
 
Mas o sentimento de se estar entre a espada e a parede também foi decisivo para muitas dessas atitudes que Salazar não hesitou assumir. Já lá vamos…
 
Lisboa, Junho de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca

CRÓNICA DO BRASIL

 

As Barbas do(s) Imperador(es)
 
Só os medíocres são populares. – Oscar Wilde
A soberba é o maior expoente da ignorância – Paolo Mantegazza
 
Muito bom o livro com o título acima (no singular!), da escritora Lília Schwarcz (Companhia das Letras, 1998), sobre a vida de Dom Pedro II. São cerca de 600 páginas de boa história do Brasil e da vida de um homem que pela graça de Deus já nasceu para ser imperador.
Homem bom, culto, protector das artes, como convém a qualquer imperador que se preze, sobretudo quando essa protecção sai dos cofres do povo, é evidente, a quem coube imperar numa época confusa, tumultuada pelas ideias da Revolução Francesa e todos os gritos de independência que varriam as Américas desde a Declaração dos Estados Unidos.
 
Frouxo, ou fraco, como queiram, manietado pelos grandes senhores de terras e pela maçonaria, enfeitado com cocáres de índios, imperador de escravos, não soube ou era incapaz de governar.
 
Quando, em 1889, lhe foram dizer: “Imperador! Vossa Majestade não é mais Imperador” (beleza de convicção política, hein?), e lhe deram 24 horas para abandonar o Brasil, Dom Pedro lá se foi triste e saudoso, velho e quieto, sem revolta, desejando para o Brasil o melhor futuro possível. E não consta que fosse mentiroso, nem ladrão.
 
Passam-se 120 anos, o futuro teima em chegar, e um novo imperador desponta nos raios fúlgidos do assalto à democracia, seja com a preparação da herdeira do trono, à la Kim Jong-il, a la Bashar al Assad, que herdaram a presidência de seus papás, a la Mubarak que a quer passar a um filho, ou com a perspectiva de terceiro mandato.
 
Nunca neste país se havia fazido isto (sic lula). Mas como tudo vale a pena se alma não é pequena, e sobretudo porque os cofres públicos, apesar da escandalosa dívida pública são mãe generosa, o novo império bolivariano (também a la Chavez, Correa, ou Morales) está a preparar o golpe a la eternidade: o 3° mandato, e quem sabe se seguido por um mandato tampão de mais uns 5 anos, para... para... enriquecerem mais ainda, se possível isso for.
 
Moral da história: caminhamos para novo império da corrupção e da alienação total da res publica e da moral da República, tendo já quase uma centena de deputados dado entrada com pedido de revisão da constituição.
 
Cláusulas pétreas na nossa constituição são somente as que permitem que se roube à vontade e que, por exemplo, se permita que o presidente do STJ , o tal SUPREMO  tenha como colegas oito juízes que são seus empregados na firma de advocacia que mantém paralelamente ao cargo oficial.
 
Isto enquanto sua majestade dom lula I insiste na sua desbocada verborreia, tendo afirmado, sobre este gravíssimo e tristissimo desastre do avião da Air France, que para um país que encontra petróleo a 6.000 metros de profundidade, encontrar a caixa preta do avião a 2.000 é coisa simples.
 
Ignorante, não trabalha, nem nunca trabalhou na vida, a não ser o tempo necessário para cortar um dedo e usufruir uma aposentadoria superior à que teria se tivesse trabalhado 30 anos, ainda se permite fazer piada de boteco, quando o mundo inteiro sofre com este desastre.
 
Compensa-o o ministro da defesa que afirmou que uma palete de madeira, encontrada no mar, era, sem dúvida, uma peça do Airbus. Para o ministro da defesa (?) do Brasil os aviões ainda são construídos em madeira!
 
Não sei se dê vivas à República se à Monarquia! Nem como pôr as barbas de molho. As nossas.
 
Rio de Janeiro, 5 de Junho de 2009
 
 Francisco Gomes de Amorim

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