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A bem da Nação

POR QUE RAZÃO PORTUGAL QUASE NÃO TEM MARINHA – I

 

 
Uma das origens de Portugal que era ensinada na História que aprendi há bastante tempo era a herança dos Lusitanos de que se não conhecem as actividades marítimas. Outra, a da família de D. Afonso Henriques também era mais próxima dos seus parentes lioneses e castelhanos cujas actividades marítimas também não eram o seu forte.
 
Na costa havia vários locais onde havia pescadores e em alguns vestígios de navegadores como os fenícios e os celtas mas não havia tráfegos organizados pelos habitantes locais mas essencialmente os de passagem do sul para o norte com forte presença de mouros embora houvesse já um precedente personalizado pelo bispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmirez que nas vésperas da independência de Portugal, que ele aliás não levava em gosto, tinha tomado a iniciativa de organizar uma frota para combater os ataques efectuados nas costas deste território pelos mouros.
 
É certo que o nosso primeiro Rei logo se apercebeu da importância do porto de Lisboa conforme se pode apreciar por um mapa de Portugal em que a fronteira nascente era uma linha quase recta do extremo português do Douro até Lisboa pois assim tinha o apoio dos cruzados para acelerar ou até permitir a rápida expansão do reino para sul além duma via de transporte essencial.
 
Tanto D. Afonso III como D. Dinis perceberam a necessidade de intensificar as relações com o norte da Europa o que levou ao início da Marinha Portuguesa que permitiria cerca de um século mais tarde iniciar os descobrimentos marítimos.
 
Após a revolução de 1383-85 que instalou D. João I no trono fortemente apoiado pela burguesia de Lisboa e Porto onde havia elevada percentagem de judeus e com o apoio dos ingleses com quem tínhamos já relações económicas e estratégicas consolidadas graças ás ligações marítimas existentes e tendo vencido, embora temporariamente, a elite nobre ligada a Castela, iniciou-se a expansão marítima com a conquista de Ceuta e as navegações ao longo da costa de África e a penetração progressiva no mar oceano que levou à descoberta da Madeira, dos Açores e dos contornos do Oceano Atlântico.
 
É interessante notar que ao se tomar a decisão da conquista de Ceuta em 1415, o avultado número de navios participantes já indiciava a dimensão da nossa frota pois o período relativamente curto da sua preparação não possibilitava a construção ad hoc de tantos navios e não há notícia de se ter paralisado a nossa actividade marítima pelo facto de ter tantos navios afectos a esta iniciativa.
 
Quando em 1493 é assinado o tratado de Tordesilhas já os portugueses conheciam os contornos da América do Sul e começavam a saber como se comportavam as correntes e os ventos do hemisfério sul que permitiu a Vasco da Gama ter uma armada equipada com naus, em vez das caravelas das descobertas, para ligar Portugal à Índia e na viagem seguinte a Alvares Cabral oficializar a anterior descoberta do Brasil, o que indicia sem qualquer dúvida que, após a passagem do cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias, houve navegações exploratórias com esse objectivo.
 Ficheiro:Cantino Planisphere.jpg
Planisfério de Alberto Cantino (1502)
 
Aliás a célebre carta da Cantino, o próprio “achamento” do Brasil e os esforços de D. João II para conseguir a fixação do meridiano de Tordesilhas mais para oeste aumentam os indícios para a confirmação dessas navegações.
 
É importante notar que entre os nomes dos muitos comandantes das caravelas que desenvolveram todas estas navegações eram raros os nomes das famílias nobres que apareceram mais tarde já na carreira da Índia.
 
Também interessa realçar que a luta pelo poder entre as elites burguesa e nobre durante o século XV e de que são episódios importantes a batalha de Alfarrobeira e as lutas travadas por D. João II contra a casa de Bragança, terá o seu desenlace fatal com a perseguição aos judeus e a instalação no trono de D. Manuel I que não é mais um homem de Avis mas sim de Bragança que assim inicia um período de poder que dura até ao fim da monarquia embora com um curto intervalo filipino.
 
As consequências deste domínio da política portuguesa por uma elite por vezes dando provas de valentia mas pouco culta, pouco amiga de trabalhar, muito arreigada ao modo de vida dependente de rendas e portanto muito avessa ao trabalho manual, ao estudo, ao progresso científico, veio a conduzir Portugal à queda do império naval e depois à perda da revolução industrial e do desenvolvimento científico e económico do século XIX, embora tenha sido no século XV o principal motor do início da globalização e do renascimento, porque então a elite dominante era a burguesia com elevada percentagem de judeus. Esta possuía uma cultura promotora de desenvolvimento, a outra uma cultura de imobilismo e atraso. Entendendo-se como cultura, não o âmbito restrito dos Ministérios da dita, mas como o conjunto de atitudes, ideais e actividades que definem a capacidade de uma população para sobreviver e progredir.
 
Nos finais do século XV tínhamos a mais poderosa marinha da Europa que durante quase meio século ditou as regras do poder marítimo internacional.
 
Depois dos desastres sucessivos que foram os reinados de D. João III e D. Sebastião e a ocupação espanhola, a Marinha portuguesa tornou a recuperar algumas da sua qualidade e vamos encontrar durante o governo do Marquês de Pombal uma frota melhor equipada de que alguns navios parecem ter sido muito apreciados por Nelson no início do século XIX. Aqui uma vez mais vem ao de cima as dificuldades causadas pela cultura característica das elites dominantes que obrigaram o Marquês de Pombal a ir buscar famílias estrangeiras quando quis desenvolver indústrias em Portugal como aconteceu com as cerâmicas, os vidros, o vinho do Porto, os tecidos, etc.
 
O século XIX que começou com a ida da nossa frota para o Brasil donde não regressou e a primeira metade do século XX foram péssimos para a Marinha Portuguesa: quase não tínhamos navios e durante a guerra de 39-45 dependemos de navios ingleses para não ficarmos sem carvão para produzir electricidade.
 
Nos finais do século XIX com os caminhos-de-ferro iniciou-se o caminho da tolice destruindo o transporte fluvial como mais tarde se destruíram navios de passageiros quando surgiram os aviões a jacto e se substituiu o ferroviário pelo automóvel.
Até que veio em 1945 o célebre despacho 100 que relançou a marinha mercante portuguesa embora de forma que hoje nos pode parecer demasiado estatista mas provavelmente a única que funcionou num ambiente de iniciativa privada débil como era o nosso.
 
Era e é.
 
(continua)
 
Sociedade de Geografia de Lisboa
Secção de Transportes
1 de Outubro de 2007
 José Carlos Gonçalves Viana

Francisco Gomes de Amorim

 

 
 
Nasceu em Averomar (nome mais lindo não há!), freguesia de Amorim, Concelho da Póvoa de Varzim, Portugal, em 13 de Agosto de 1827. Faleceu em Lisboa em 4 de Novembro de 1891.
 
É dele mesmo este auto-retrato:
II
“Advertência”
(da 1ª Edição de “Cantos Matutinos” de 1858. Ortografia original) – continuação
“Ao completar os meus doze annos, comecei a envergonhar-me de não saber ler, e appliquei-me voluntariamente, e com tanta dedicação, que aprendi em poucos mezes. O primeiro livro que me foi ás mãos, e que hade ter um dia em outra parte um capítulo especial, foi a História de Carlos Magno. Eu não lia só para mim, queria auditório, e era bem pouco escrupuloso na escolha delle! A quantos pretos, tapuyos e mulatos apanhava, nos momentos em meu patrão sahia de casa, lia a morte de Roldão, e elles desatavam num berreiro de choro, tão feio e temeroso que vexaria o próprio Adamastor.
O meu segundo livro foram os Lusíadas de Camões.
Não escrevo estes apontamentos para a posteridade me fazer a biographia; faço-os para os leitores dos Cantos Matutinos. Do rapaz endiabrado e picaresco, que eu confesso ter sido, pode-se esperar tudo, menos um bom poeta. Aos que, depois de saberem os pontos capitaes de arrevesado começo de vida, não acharem toleráveis os meus versos, responderei: que os façam melhores; lastimando que o censor não passasse pelas mesmas provas que eu passei.
No Pará era raro, n´aquelle tempo, o patrão que permittia aos seus caixeiros accuparem na leittura as horas vagas; mas o fructo prohibido aguça o apetite; a tyrannia inspira naturalmente o desejo de resistência, e por isso era também raro o caixeiro que não se entregava com avidez a leituras clandestinas. E a isso talvez deve aquella cidade o grande numero de mancebos illustrados, que hoje dirigem o seu commercio. Entre elles é vulgar o conhecimento dos nossos melhores clássicos, e tanto se tem desenvolvido nos ultimos annos o gosto do estudo, que o mais humilde caixeiro de taberna não ignora nenhuma das modernas publicações portuguezas.
Brigando com a má vontade e opposição que encontram por vezes as minhas tentativas estudiosas, decorei em poucos mezes todas as estancias dos Lusiadas, e foram ellas as primeiras lições que eu tive de poesia e de historia. A brutalidade de alguns patrões, e o meu indócil carácter, que repelia a servidão, fizeram-me tomar ódio eterno à vida de caixeiro.
Meu irmão, e um primo de quem eu era hospede, fizeram esforços desesperados para me domar. Depois de se convencerem de que eu me não sujeitava ao commercio, perguntaram-me se queria seguir outra qualquer carreira; se me sentia com vocação para artista, militar, padre, médico, ou advogado; deram-me a escolher todas as profissões compromettendo-se a mandarem educar-me convenientemente; porém eu não me decidi por nenhuma. E uma vez que me apoquentaram mais do que de ordinário, à cerca do meu destino, respondi ao acaso -  que me fizessem calafate.
Meu irmão, que apesar de toda a sua gravidade e bom senso, tinha apenas mais anno e meio do que eu, achou-me muita graça; porém meu primo que era homem sério e que estava cansado das minhas extravagancias, (segundo elle dizia), avançou uma mão para me pegar na orelha, que eu tive a prudência de a pôr fora do seu alcance – fugindo de casa.
As grandes florestas estavam perto; havia muito tempo que eu aspirava com delícias o perfume que trazia dos sertões a brisa nocturna. A causa da minha repugnância a todas as occupações era o desejo e a curiosidade, que me mordiam noite e dia, de correr para essas eternas solidões que me chamavam de longe. Sentia-me como atacado de nostalgia das selvas, que eram a pátria do meu pensamento.
Um dia de madrugada, tendo-me despedido somente do meu sempre bom irmão, embarquei n’uma canoa que se destinava ao fabrico de gomma elástica, e parti para o rio Xingú. Logo que me vi no meio das florestas virgens conheci que tinha achado o meu reino, o paiz da fantazia. Habituei-me à presença quotidiana da onça, do tigre, e do tamanduá; ás mil variedades de serpentes, aos jacarés, aos gentios de todas as raças, e à sua existência, costumes e festins bárbaros. Pareceu-me que a vida errante da tribo fôra de propósito creada para a minha organização; dentro em pouco tempo, a côr da minha pele era egual á dos tapuyos. Deixei a espingarda pela frecha; a língua portugueza pelo dialecto gutural dos jurunas, ou pela língua dos tupis; preferi, enfim, o selvagem ao homem civilizado, e comecei a vagabundear pelos bosques, como o tinha feito nas campinas do Minho.
Não sei se tive razão; mas o certo é que seguia meu caminho para auxiliar e desenvolver a primeira tentativa que fizera na leitura.
Tornei a perder os livros de vista, e ainda com menos saudade do que no momento de embarcar para o Brazil, e talvez que também com menos vontade de me volver a elles. É verdade que o gérmen tinha ficado de algum modo enredado no meu cérebro. Eu sabia os Lusíadas, e não os deixava esquecer, repetindo mentalmente uma ou outra estancia, quando esperava, com a corda do arco retezada e a tacoára em punho, a passagem da anta ou do veado.
Depois de vagar um anno pelas matas e cachoeiras do Xingú, subi o Amazonas, e fui completar meu décimo terceiro anniversario na villa de Alenquer, situada no braço do mesmo rio, entre dois grande lagos – Curumú, e Surubiú.
N´essa povoaçãosinha, de que não posso lembrar-me sem uma doce melancolia, encontrei um dia, em casa d´uma família indígena, e dentro de cesto forrado de folhas de bananeira brava, quatro ou cinco livros velhos. Um destes era o poema Camões, de Almeida Garrett, edição do Rio de Janeiro.
Li-o, e a essa leitura, repetidas vezes depois, se devem não só  os Cantos Matutinos, porém todos os meus modestos opúsculos.
Aquelle poema transformou-me repentinamente, e sem eu saber como; principiei a ver debaixo de outra aspecto os rios, os lagos, as florestas, e as montanhas. Pareceu-me que as flores derramavam maior perfume, e se vestiam de mais vivas cores; que o céu e os astros brilhavam pela primeira vez aos meus olhos, e que toda a natureza tomava formas novas e sublimes. Julguei entender o canto das aves, o murmúrio das águas, e o gemer da brisa entre as assucenas bravas e as mimosas gigantes. As harmonias do verso vibravam na minha alma; ouvi dentro em mim outra voz que balbuciava, traduzindo as minhas sensações por meio de palavras cortadas, vagas, encoherentes, e inintelligiveis para o mundo, e que eu não como nem onde as aprendia! Cuidei-as inspiradas por Deus, e sei que me foram reveladas por essa elegia sublime do grande poeta, que já não vive!
Ousei dirigir uma carta a Almeida Garrett em que lhe contava, com a mesma simplicidade e singeleza com que agora o faço, tudo o que deixo escrito; e concluía perguntando-lhe se o que eu sentia então seriam indícios que revelassem em mim a ave que pretende voar antes de lhe nascerem as azas. A carta gastou muito tempo em descer da beira dos Andes, e atravessar o Atlântico. Depois della partir, eu sorria-me da louca tentativa que fizera, e deixei de esperar uma resposta que já me parecia impossível de obter. Mas no fim de dois annos e meio, a resposta chegou ás minhas mãos. Era uma consolação, um estimulo, um impulso.
Encontrei-a no Pará em 1844,tendo eu já dezassete annos. Divulguei a noticia, e toda a gente quis ver a carta do poeta, que alli é e foi sempre adorado. Duvidou-se que fosse delle; mas entre os curiosos appareceu um que reconheceu a lettra. Era negociante honrado, e os incrédulos não tiveram remédio senão curvarem-se diante da sua palavra. Já ninguém se ria das minhas passadas criancices; olhavam-me quasi com respeito; e os caixeiros que haviam sido meus contemporâneos estalavam com desejos de me proclamar poeta, visto que eu me correspondia com o que era para elles, e para mim, quase um semi-Deus.
Resolvi então voltar a Portugal, com a firme vontade de vir para Lisboa estudar, e decidido a morrer na lucta, se tanto fosse preciso. No momento da minha partida, fui bastante temerário para consentir que se publicasse um soneto de despedida aos meus amigos, do qual aproveitei doze linhas para zurzir os maledicentes. Era a primeira vez que o meu nome ousava ir desacommodar os typos, e Deus sabe se não teria sido melhor o deixal-os dormir sem me tornar jamais seu conhecido!
 
Ninguém, que tenha o hábito de ler jornaes, pode ignorar as minhas relações com o fallecido visconde de Almeida Garrett. Desde o momento em que nos encontrámos pela primeira vez, até áquelle em que o vi expirar-me nos braços, proferindo o meu nome, e dizendo-me estas derradeiras palavras: “já o não vejo!” Devi-lhe sempre a maior affeição e os melhores conselhos que um filho pode receber de seu pae. Foi elle o meu mestre; porém, apesar de todos se dizerem seus discípulos depois da sua morte, elle não deixou ninguém que o represente na terra. Segundo a expressão de Theofilo Gauthier “cada poeta célebre leva consigo o seu segredo quando desce à sepultura.”
 
Rio de Janeiro, 22 de Março de 2009
Francisco Gomes de Amorim (Neto)
 

Francisco Gomes de Amorim

 

 
 (continuação)
 
Averomar («A-ver-o-mar») na actualidade.
Nasceu em Averomar (nome mais lindo não há!), freguesia de Amorim, Concelho da Póvoa de Varzim, Portugal, em 13 de Agosto de 1827. Faleceu em Lisboa em 4 de Novembro de 1891.
 
É dele mesmo este auto-retrato:
I (2)
Advertência
(da 1ª Edição de “Cantos Matutinos” de 1858. Ortografia original)
Foi então que os engajadores, espalhando noticias exaggeradas, ou falsas, acerca das enormes riquezas do Brasil, e da facilidade com que ellas se obtinham, conseguiram desvairar um grande numero de rapazes da minha aldeia. Meu irmão Manuel foi umas das suas victimas, se não engajada, enganada pelos alliciadores. Para o acompanharmos ao bota-fóra, eu e a minha familia fizemos a jornada do Porto. Alli nos demorámos até quase à saída do navio que devia conduzil-o, e como eu ia a bordo todos os dias, os agentes procuravam seduzir-me para que fosse também para o Brasil, promettendo levar-me quase de graça. Incitaram-me tanto, e tão saudoso eu me sentia do meu irmão, que era o meu braço direito nas brigas escolares, que por fim pedi a minha mãe que me deixasse seguir o meu destino. Tinha havido já uma revolução domestica, para se consentir na partida de meu irmão, tão novo ainda; mas perante o meu pedido, todos puzeram as mãos na cabeça, e fizeram a minha mãe responsavel, perante o ceu e a terra, pelas desgraças que de futuro me succedessem se ella condescendesse com similhante loucura. Com tudo, eu chorei tanto, e tão bem, que não houve remedio senão fechar os olhos a todos os sacrificios, lançar mão dos recursos extremos, e deixar-me ir pela barra fóra com dez annos incompletos.
Para fazer justiça a meus queridos e bondosos compatriotas, declaro que todos foram sensiveis à minha partida, perdoando-me, ou esquecendo generosamente as numerosas memorias que deixei a quase todos, nas arvores derreadas, nas paredes caídas, e nas searas pisadas durante as minhas excursões de vagabundo. Quanto a minha mãe, nunca mais teve alegria, nem perdoou a si o haver-nos deixado partir, a mim e a meu irmão, para um paiz desconhecido.
Eu tambem chorei muito, com saudades d´ella, nos primeiros oito dias; mas a viagem foi-se tornando trabalhosa, e os perigos desvaneceram quase as magoas da ausência. O amor de mãe não tem rival na terra, e foi por isso que a minha ficou inconsolável, e que eu me fui habituando tão cedo a passar sem ella!
Depois de uma viagem a que não faltaram a fome, a sede, as calmas e tormentas, chegámos a essa formosa terra de Santa Maria de Belem do Pará, que tinha de ser testemunha dos meus altos feitos, e de me deixar um dia eterna saudade.
Santa Maria de Belém do Pará
Apenas desembarcámos, formaram-n´os em turmas no cães da alfandega, para que os negociantes da cidade viessem escolher d´entre nós aquelle que mais lhe agradasse.
Eu estava alli, sem saber para quê, no meio de uma multidão de gente de todas côres, que se ria de mim e dos meus compatriotas, ao mesmo tempo que varios homens branco, e vestidos quase todos também de branco, gyravam em torno de nós. Os meus companheiros iam desaparecendo, mas a mim ninguém me queria. Um d´aquelles homens vestido de branco andou muito tempo a mirar-me por todos os lados, chegou-se a mim duas vezes, levantou-me a cabeça, mandou-me fallar, e murmurou várias palavras das quaes eu percebi as ultimas, que foram as seguintes: isto não presta! Outros olhavam-me com commiseração, e diziam: É uma consciência trazer crianças como aquella. Um preto aproximou-se também, perguntou-me o meu nome n´uma lingua quase barbara, e accrescentou depois: se eu o queria servir! Outro, roto e descalço, carregou-me sobre os olhos o bonet que eu tinha na cabeça, com grande applauso de apupos dos seus patricios e amigos presentes. Um homem, depois de nos examinar a todos, disse duas palavras ao capitão do navio, que alli estava dirigindo o seu negocio, e intimou o meu irmão que o seguisse, sem lhe declarar para onde, nem em virtude de que direito o levava, e sem que o pasmo nos permitisse que nos despedíssemos uns dos outros; de maneira que na mesma terra, n´uma cidade pequenissima, só depois de seis mezes é que eu tive noticias de meu irmão! E à maior parte dos meus patrícios e companheiros de viagem nunca mais os tornei a ver...
Achava-me quase só, e sem perceber que estava n´um mercado de escravos brancos, e que era considerado refugo pelos entendedores! Por fim, do meio dos poucos homens de branco que alli se achavam ainda, sahia um, vestido de pardo, acariciou-me, pondo-me a mão no rosto, e convidando-me a seguil-o. Então rebentaram-me as lágrimas com violência; até alli encarara feramente a desgraça que não via, mas que sentia. Do momento, porém, em que me chegou a vez de partir, como os outros, sem saber para onde, chorei. Mas o meu patrão era um excellente e honrado homem. Chamava-se o sr. José Maria Fernandes, e inscrevo aqui o seu nome para sua satisfação. O digno comerciante vive ainda, apezar do rehumatismo que o maltracta; se estas linhas lhe chegarem à mão, peço-lhe que me perdoe a muita marmelada que lhe devorei, porque também eu lhe perdoo a prodigalidade com que me servia de palmatoadas, cada vez que o meu pundonor nacional me fazia quebrar a cabeça do preto, ou preta, que insultava o meu paiz ou a minha pessoa.
Comecei de tal modo a minha aprendizagem de caixeiro, que no fim de um anno podia com razão lisongear-me de ser o terror da maior parte da gente que frequentava o estabelecimento.
Não era pela minha força physica, nem pela minha figura, creio eu! O certo é que não sei d´onde me vinha audácia para tão grandes commetimentos; mas ainda que o insultador fosse um gigante, não ia sem correcção. As minhas armas eram os pezos da balança, os copos, as garrafas, e nos grandes apuros cortava as difficuldades saindo para a rua, e correndo o agressor à pedrada. De dois resultados que isto podia ter, um era sempre infallivel, no caso de haver cabeça quebrada: ou eu comprava à força de agua-ardente o silencio da victima, ou a palmatória se encarregava de me cortar os vôos de tão despropositado heroísmo.
Finalmente, chegou um dia em que o meu patrão declarou positivamente, que já não me podia nem queria soffrer. Eu tinha tirado à cara d´um homem elegantíssimo, que me dirigira um dito grosseiro, com quatro arráteis de manteiga de vacca. O desgraçado era creado, ou escravo, do presidente da província; andava sempre recendente de perfumes e vestido de roupa alvissima, trajo de que tinha grande presumpção e vaidade. Porque o não servi com a rapidez que exigia, e julgando-se offendido na sua qualidade de servo do chefe do paiz, permittiu-se a liberdade de me dizer uma palavra, que eu entendi não dever deixar passar, e respondi, batendo-lhe ás mãos ambas com uma enorme colher de manteiga sobre o nariz.
Confesso que por muito tempo me ensorberbeci, e tive esta acção por uma das mais brilhantes do primeiro período da minha vida. Os cabellos, admiravelmente frisados do meu adversário tornaram-se n´um estado lastimoso, e a cara ficou tão bem coberta que, a não ser a differença da matéria, parecia que eu queria modelar para lhe mandar fazer o busto. A victima pôde apenas tirar a manteiga dos olhos, ao tempo que eu, espantado mas não arrependido da minha audácia, enterrava novamente a colher no barril para repetir a dose à primeira tentativa de ataque que elle fizesse. Porém não era essa a sua intenção; mal abriu um olho, partiu como um raio pela porta fora, e foi mostrar-se ao meu patrão, que morava do outro lado da rua.
Em satisfação ao presidente e ao seu lacaio, apanhei duzias de palmatoadas; porém visto que ellas não evitaram de perdermos o freguez, quis o meu patrão desistir dos meus serviços com prejudiciais, e fallou a todos os seus visinhos, a fim de ver se algum me queria para as suas lojas; mas a minha reputação tinha chegado longe. Responderam todos atterrados, que não queriam nem ver-me! E foi necessário procurar-me um estabelecimento no extremo opposto da cidade, onde eu era ainda desconhecido, mas onde dentro em pouco me tornei de uma tal popularidade, que dezoito anos são já passados sem que ella tenha desaparecido inteiramente!
(continua...)

 

Francisco Gomes de Amorim- 1

 

 

Nasceu em Averomar (nome mais lindo não há!), freguesia de Amorim, Concelho da Póvoa de Varzim, Portugal, em 13 de Agosto de 1827. Faleceu em Lisboa em 4 de Novembro de 1891.

 

É dele mesmo este auto-retrato:

I

Advertência

(da 1ª Edição de “Cantos Matutinos” de 1858. Ortografia original)

Eu tinha pouco mais de nove annos, quando algumas leis repressivas do tráfico da escravatura preta encaminharam a especulação dos negreiros para o commercio dos escravos brancos. A Inglaterra usava da sua influencia sobre Portugal, e os traficantes não se tinham ainda lembrado de inspirar ás auctoridades da África portugueza o patriótico pensamento de se associarem com elles, para se vingarem da pressão exercida pelos ingleses sobre o innocente negócio.

Os negreiros correram pois para o continente do reino, e ilhas dos Açores, e dentro em pouco os mercados do Brasil abundavam novamente em carne humana, com grande vantagem para os consummidores, que podiam comprar escravos brancos mais baratos do que os pretos.

Os engajadores inundavam, como agora, as provincias do norte do reino, agarrando gente por todos os meios possiveis, e não sei mesmo se por alguns impossiveis, porque elles eram homens para grandes dificuldades. Investiam com as próprias autoridades ! e não posso avançar que seduzissem alguma, indo-a vender aos brasileiros, como fizeram a um pobre rei africano, que foi meu remador, affirmo que os filhos dos regedores de aldeia, e ainda dos administradores dos concelhos, eram os que de preferencia cubiçava a caprichosa exploração dos agentes. A razão desta distincção era talvez com o intuito de escarnecer d´um poder, que não queria ou não podia coarctar este criminoso trafico. O certo é que ninguem escapava à sua influencia, e que por fui eu fui victima deles, ainda que indirectamente, e por minha vontade.

A minha terra é uma linda aldeia chamada Avelomar, situada n´uma praia do Minho; pela sua situação e abundancia de população não podia ella deixar de ser um dos theatros de operações dos engajadores; e por se ligarem a esta circumstancia todos os acontecimentos da minha vida, permitta o leitor que eu ponha já em scena a minha humilde pessoa.

Nasci sem nenhuma circumstancia que possa dar relevo a uma biographia, e declaro que me criei como toda a gente, sem nenhum acontecimento notavel que, distinguindo os meus primeiros annos, me levasse mais tarde ao livro das infancias celebres.Eu não tinha agudezas, não era engraçado, e não aprendia coisa alguma. Os meus talentos limitavam-se a escolher cada dia um meio differente, que me livrasse de ir á escóla, porque n´ella me esperavam certas familiaridades d´um instrumento, cujo nome latino me havia inspirado horror á erudição do meu mestre. O instrumento era a ferula; e o professor andava-me sempre de olho em cima, porque, devo dizel-o, ainda que me custe, eu desacreditava o seu methodo de ensino. Entrei aos cinco annos para a sua aula, e sahi quase aos dez sem saber assignar o meu nome, ou soletrar duas palavras! Verdade é que tinha adquirido sobre os meus camaradas uma superioridade incontestavel nos exercicios archeologicos de atirar a funda, apanhar passaros a laço, e, visto que é preciso confessar tudo, em achar pretextos plausiveis para não dar lição, cada vez que isso me competia.

A minha boa mãe era a única pessoa que ainda não tinha perdido as esperanças de me vêr emendado; todos os mais, parentes, conhecidos ou mestres, me prophetisavam um futuro desastroso, declarando-me inutil para tudo. Um visinho muito rabujento,ao qual eu tinha derrubado uma parede para apanhar um ninho de pintasilgo, fez-me o tremendo prognostico de que eu ainda havia de acabar malfeitor de estrada! Deus lhe perdôe, porque tinha excelentes uvas e eu vingava-me n´ellas da maledicencia do proprietario.

As minhas occupações mais favoritas eram grandes correrias pelas praias do Minho, onde eu ia empoleirar-me nos rochedos mais elevados a olhar para as ondas horas esquecidas, cada vez que via passar as azas brancas d´um navio a duzentas braças da costa. Fóra d´isto, vagabundeava pelos campos dias inteiros, contemplando as cristas azuladas das serras de Barroso e de S. Felix, sem me lembrar de almoço ou de jantar, e ainda menos dos cuidados de meus parentes.

Estas distracções, em similhante edade, não podiam deixar de dar nas vistas a toda a gente. Aconselharam a minha mãe que me arrumasse, fosse como fosse, porque eu tinha ares de lunatico, além de ser um vadio que não queria aprender coisa alguma. Chegaram a assustal-a, apezar dos meus poucos annos; e um lavrador nosso parente offereceu-se para me corrigir, se quizessem entregar-me aos seus cuidados. Á vista da minha rudeza, tiraram-me da escóla, com grande satisfação do mestre, e a minha familia resolveu que eu seria agricultor. Apenas, porém, me haviam installado em casa d´aquelle que pretendia fazer-me gente, levantei contra elle cinco tias, que bebiam os ventos por mim, por causa d´um puchão de orelhas. Elle queixou-se a minha mãe, e eu fui chamado á barra; mas pedi uma sessão secreta, e n´ella convenci de que elle me assassinaria infallivelmente, se me deixassem lá ficar. Não há logica para as mães como as lagrimas dos filhos. Fiquei em casa, mas por pouco tempo. Um cordoeiro da Póvoa de Varzim comprometteu-se a mandar-me ensinar a ler e escrever correctamente, com a condição de que eu viveria em sua casa para vigiar o estabelecimento. Mas quando lá me apanhou, mandou-me virar á roda, do mesmo modo que se eu f^ra um dos seus aprendizes. Estava arranjado comigo! Formei-lhe perante a minha santa mãe um capitulo muito mais odioso do que o do lavrador, e o affecto materno, commovido com a descripção dos horrores e maus tractos, que eu pintava com certa viveza de colorido, arrancou-me a esse novo tyrano, reconduzindo-me triumphante ao lar domestico.

(continua)

 

SINTO VERGONHA DE MIM

Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto"

Ruy Barbosa

Ruy Barbosa de Oliveira (Salvador, 5 de Novembro de 1849 — Petrópolis, 1 de Março de 1923)

AGONIZA O SEGREDO BANCÁRIO SUÍÇO

 

A Suíça tremula. Zurique alarma-se. Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes. Poderia dizer-se que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão velando um moribundo. Esse moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.
 
O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama. O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira [18MAR09]. A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça - viu-se obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados a defraudar o fisco. O banco protestou mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos Estados Unidos. Os suíços, então, passaram os nomes. E a vida bancária foi retomada, tranquilamente.
 
Mas, no fim da semana [21 e 22MAR09], o ataque foi retomado. Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS fornecesse o nome dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais. O banco protestou. A Suíça está temerosa. O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário seja inscrito e ancorado pela Constituição federal.
Mas como resistir? A União de Bancos Suíços não pode perder a licença nos EUA pois é nesse país que aufere um terço dos seus benefícios.
 
Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido. O segredo bancário suíço não é coisa recente. Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934 embora já existisse desde 1714. No início do século XIX, o escritor francês Chateaubriand escreveu que «neutros nas grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas».
 
Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe económica. Para Hans Rudolf  Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União de Bancos Suíços custaria 300 biliões de francos suíços ou seja, cerca de 264,5 biliões de dólares[1].
 
E não se trata apenas da UBS. Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira. O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredobancário, fazem frutificar três triliões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os activos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensões, são nitidamente minoritários.
 
 e-isenfluh 2006 - aîné II - JAB Suisse romande
Esta suiça não deve andar com vontade de rir
 
Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros "offshore" do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caraibas ou Extremo Oriente. Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham em bancos.
 
O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um caráter sacramental: guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são actos que se revestem de uma majestade ontológica que nenhuma palavra deve macular e que se realizam em silêncio e recolhimento...
 
Mas agora surge um outro perigo, depois desse duro golpe dos americanos: na minicúpula europeia que se realizou em Berlim em preparação do encontro do G-20 em Londres, França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais. "Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional", vociferou a Chanceler Angela Merkel.
 
No domingo, o encarregado do Departamento do Tesouro britânico, Alistair Darling, apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias. Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20 de Londres, onde serão debatidas as sanções a serem adoptadas contra os paraísos fiscais.
 
Há muito tempo se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas. Hoje, estamos em crise.Viva a crise!!!
 
Barack Obama, quando era Senador, denunciou com perseverança a imoralidade desses remansos de paz para o dinheiro corrompido. Hoje ele é Presidente. É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país. Nos anos 30 os americanos conseguiram laçar Al Capone. Sob que pretexto? Fraude fiscal.
 
 Gilles Lapouge
 
 
 


[1] - CHF 100,00 = USD 88,16
 

O “cluster” do Mar de 1974 a 2008

 

 
Evolução e potencialidades actuais – IV
 
 
Para elaborar um primeiro esboço da referida matriz tentei basear-me na classificação por domínios adoptada no Anuário da Ciência e Tecnologia da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnologia, mas embora me tenha ajudado tive que adoptar uma listagem diferente.
Não posso deixar de precisar em que consiste a desvantagem da situação actual em relação aos séculos XII a XV: nessa época possuímos tecnologia a par, ou mais avançada, em tudo o que se relacionasse com o mar, (e outras) dos povos mais adiantados, agora a lista atrás indicada só corresponde a uma pequena parte das tecnologias existentes e na maioria dos casos estamos ainda na fase da leitura.
E aqui está o desafio: vamos ficar assim dependendo do que o estrangeiro nos ofereça correndo o risco de perdermos a nossa própria identidade depois de sermos despojados do mar que temos ao nosso dispor e não termos sabido aproveitar tal qual novo mapa cor de rosa ou vamos proceder como aconteceu com os nossos antepassados de cuja herança ainda hoje aproveitamos os restos.
Da parte que me cabe só aceito a segunda e assim espero vir a merecer a honra que me foi concedida ao ser eleito membro desta Academia.
 
 
                                                       Transportes marítimos
                                                                  Pesca
                                                                            Aquacultura
                                                                                       Minerais
                                                                                                  Turismo
 
Materiais-Prod. e transf.                 
       Metálicos                                  o        o                   o        
       Plásticos                                   o         o                   o
       Fibrosos                                    o         o                   o
      Sinterizados                                                               o
      Vítreos                                                                       o
Informática                                      o         o         o        o          o
Hidrodinâmica                                 o        o
Aerodinâmica                                  o        o
Mecânica                                         o        o                    o
Hidráulica mar.                                o        o          o                    o
Hidráulica sistemas                          o        o                    o
Electrónica                                       o        o          o        o          o
Electricidade-forçamotriz                o        o          o        o          o
Telecomunicações                           o        o          o        o          o
Robótica                                                                o        o
Transp. e manip. Materiais              o                    o        o
Telecomandos                                 o         o                    o
Ultra-sons                                                   o                    o
Resistência de materiais                  o         o                    o    
Análise química                                                     o         o
Energia                                            o         o                     o
Biologia mar.                                             o          o
Eng. Genética                                                        o
Hidrologia e oceanografia                         o          o          o
Matemática aplicada                                 o          o          o  
Eng. Alimentar                                          o          o
Geologia                                                                            o
Psicologia apl.                                  o       o                      o
Fisiologia apl.                                                                    o
“fim de citação”
 
Como se pode avaliar rapidamente, as áreas tecnológicas abrangidas são inúmeras e com graus diferentes de aprofundamento mas todas, ou talvez mais sensatamente quase todas, dentro das nossas possibilidades de desenvolvimento imediato pois não podemos perder de vista que um dos objectivos essenciais a atingir é o da criação de postos de trabalho sustentáveis, aliás como dever ser sempre o desenvolvimento de um país bem governado.
Assim teremos actividades como, por exemplo, os transportes marítimos como terceira bandeira que levam mais tempo a ganhar dimensão quanto a investimentos porque implicam o desenvolvimento de empresas de capitais elevados que só poderão existir após as mudanças de enquadramento necessárias mas que entretanto poderiam criar oportunidades de trabalho quase de imediato se desenvolvermos a Escola Náutica. No entanto convém recordar que em 1974 a frota mercante portuguesa que havia crescido baseada no nosso tráfego ultramarino já estava a crescer no mercado internacional e se tivéssemos progredido nessa direcção poderíamos ter aproveitado a nossa posição geográfica central para desenvolver a capacidade de “transhipment” e a criação de pontos logísticos internacionais com navios nacionais, sem esquecer o desenvolvimento correlativo da construção e da reparação naval.
Mas antes de ir mais além é preciso criar uma cultura de Mar, mas uma cultura activa e não meramente contemplativa e gastronómica e isso só se consegue com a formação náutica da juventude em particular e da possibilidade da actividade náutica por vasto número de praticantes.
Para o que, é essencial a existência de elevado número de postos de amarração e de acessos eficazes ao mar por pequenas embarcações que não precisam de estar sempre na água de forma a que a prática náutica não seja acessível apenas a quem seja rico como acontece com a maior parte das marinas. Portugal tem nos seus estuários e rias largas possibilidades para instalar pelo menos 30 a 40 000 postos de amarração deste tipo, além de algumas marinas mais ligadas a empreendimentos turísticos de gama alta.
Pensar-se apenas na náutica de recreio com objectivos turísticos é um erro grave porque só é possível ter o grau desejável de qualidade de serviços se houver um mercado alargado que inclua grande número de praticantes de todos os perfis.
Por outro lado a existência deste mercado alargado permite haver construção naval específica competitiva até podendo passar a ser exportadora como já somos em alguns casos, infelizmente ainda muito poucos.
As Pescas e a Aquacultura também têm potencialidades de crescimento mas as primeiras terão que ser reestruturadas pois os estudos e planos realizados em 1982 para preparar estas actividades para a futura entrada na CE ficou por fazer até hoje do que resultou o seu atraso e a baixa produtividade actual.
O aproveitamento dos fundos para obtenção de minerais e outros fins tem futuro com interesse mas implica grandes investimentos e demoras sensíveis nos respectivos retornos o que dada a debilidade da nossa estrutura empresarial significa que virá a ser praticada por empresas estrangeiras onde poderemos colocar técnicos portugueses se entretanto conseguirmos prepará-los convenientemente.
Quanto às questões energéticas a primeira forma de energia a aproveitar é o vento como propulsor directo e depois como base para a produção de electricidade como se faz em terra e com os problemas mais ou menos idênticos.
A produção de energia eléctrica pelas ondas e pelas marés na nossa costa será muito limitada e daí ficar como de importância secundária. Seria bastante mais útil investir-se em sistemas de protecção das costas.
Não vou gastar o vosso tempo com mais descrições de potencialidades que na verdade até há mas que no estado em que estamos não adianta.
Com efeito aquele texto que apresentei atrás foi escrito há 23 anos, como já disse, e não só nada adiantou como aliás logo a seguir até piorou quando a febre da rodovia quase apagou o transporte marítimo do mapa português.
Como disse Peter Drucker o que se pretende de uma Administração, seja de uma empresa ou de um País, é que não tome muitas decisões mas em vez disso tome poucas mas boas. E que assuma que tomar uma decisão efectiva só é verdade se a realizar em tempo útil.
 
É interessante recordar que por volta de 1960 os três grandes desígnios do Governo de então foram: fazer o Alqueva, o novo aeroporto de Lisboa e uma central nuclear. E a realidade bem a conhecemos.
Nestas últimas décadas fizeram-se planos e programas nos quais se gastaram verbas colossais mas as decisões, as tais poucas mas boas e realizadas, ainda estamos à espera delas.
Perspectivam-se grandes investimentos em transportes mas vemos com enorme preocupação serem tratados um a um sem os enquadrarem nos sistemas a que pertencem e sobre os quais nada se diz e pouco se sabe.
Começou-se a falar do Mar e não faltam entidades a organizar reuniões, almoços, congressos, estatutos e muitas coisas mais excepto ir para o Mar naturalmente usando embarcações, isto é, desenvolvendo uma Marinha que abranja todas as áreas que a devem constituir ou seja desde a segurança e a defesa até à investigação científica, passando por todo o universo das actividades marítimas.
E como vimos atrás são precisas apenas algumas, poucas mas boas decisões.
E principalmente que haja quem as tome.
 
FIM
 
       Lisboa, 29 de Setembro de 2008
 
   José Carlos Gonçalves Viana

GEOMETRIA FINANCEIRA

 

Um belo dia, há algumas décadas atrás, coube-me  presidir a uma reunião do conselho de administração de um banco de capitais portugueses e ingleses que operava na África portuguesa, como então era designada uma das melhores fatias do continente negro. O accionista britânico estava representado por Mr Baker,  homem de poucas falas. Gabava-se de ter entrado para o “seu” banco – sempre o mesmo – aos 18 anos, onde tinha tido por primeiro dever dar corda ao relógio do amplo hall de atendimento ao público, instrumento que regia o ritmo da vida da instituição. Reformara-se aos 60 anos, no cargo de director do crédito, peça fundamental da engrenagem bancária.
 
Para a reunião estava agendada uma questão bicuda, daquelas que sistematicamente dividem os banqueiros, por muito experientes que sejam. Tínhamos um excelente cliente que excedera há muito os limites recomendados de crédito individual e continuava a solicitar mais crédito para ampliar o seu negócio. Se não atendido, o cliente passar-se-ia com armas e bagagens para a concorrência. A dúvida colocava-se pois entre a prudência e a ganância. Todos os presentes se pronunciaram: - uns pela ambição, outros pela cautela. Só o britânico se manteve arredado da discussão. Vi-me pois obrigado a solicitar o seu parecer. Baker escusou-se. Não podia falar porque ainda não encontrara o “ângulo”. Pediu 24 horas para se pronunciar. Fiquei aí e então a saber que a mente do financeiro é geométrica: no princípio,  está o ângulo.  
 
No dia seguinte, conforme prometido, Mr. Baker trouxe a resposta. O importante era não dar à concorrência, de mão beijada, um cliente daquele porte e influência. O “ângulo” de observação apropriado foi, portanto, a posição no ranking bancário.
 
Isto vem a propósito da actual crise e dos esforços feitos pela administração Obama para a debelar. Para entender o que se está a passar e o sentido das medidas tomadas e anunciadas, teremos que procurar o ângulo, ou seja a perspectiva sob a qual são vistos os fenómenos financeiros no centro decisório.
 
Diria que a prioridade das prioridades actuais se situa na preocupação de garantir que os tomadores dos bonds (obrigações) do Treasury americano não irão faltar, nem sequer escassear. Com efeito, as medidas tomadas pela administração Obama visam desencorajar aplicações alternativas: - o juro dos depósitos bancários perto do zero torna o Treasury Bond atractivo; o ouro mantido a um preço assustadoramente alto desencoraja o entesouramento;   a pressão sobre os governos europeus desaconselha políticas alternativas de natureza tanto fiscal como monetária.   Dir-se-ia que o Treasury Bond continuará a ser peça vital na estratégia anti crise americana:  procura-se assegurar liquidez hoje à custa da inflação amanhã. E isto porque enquanto a Administração americana puder continuar a endividar-se a baixo juro, sem receio de soluções de continuidade, a Casa Branca manterá o protagonismo tanto na cena interna como na internacional.  Washington não abdica pois da sua condição de líder entre as nações e dispõe-se a correr os riscos financeiros inerentes à manutenção dessa posição, ainda quando estes se apresentam com proporções calamitosas.   O ranking continua a ser essencial. Mr. Baker teria feito o mesmo.
 
Estoril, 31 de Março de 2008
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira
 

POSTAIS ILUSTRADOS – XIII

 

 
A Segurança do Cidadão Português
 
“Um homem é aquilo que é, mais
aquilo que faz e aquilo que lhe
acontece. Um homem é quem é, mais o
seu bom nome, a sua honra, os
princípios que traiu ou não traiu. E vive
com isso e é julgado por isso pelos
outros. Mas nem tudo o que nos
acontece, nem todo o julgamento dos
outros, depende das nossas acções ou
da nossa vontade.”
Miguel Sousa Tavares,
in semanário Expresso
 
 
Acerca deste tema da Segurança, tínhamos ficado, eu, o Sr. Coronel Adriano Miranda Lima e o Sr. Dr. Henrique Salles da Fonseca, resumindo, na abordagem da questão da PSP e da GNR e de esta última ser considerada uma força paramilitar. Um outro Coronel e meu amigo pessoal, o Sr. Coronel Amadeu Rodrigues, Inspector Superior do IGAI, alertou-me para o facto de se tratar de uma falsa questão, porquanto o actual Estatuto da GNR foi elaborado para corresponder a uma fórmula organizativa e disciplinar que põe em pé de igualdade a PSP e a GNR. Este mesmo Sr. Coronel, gentilmente, enviou-me uma entrevista concedida pelo Comandante-geral da GNR ao Diário Notícias de 24-01-2009, em que o mesmo afirma ipsis verbis que "assaltantes ainda disparam pouco". Entrevista e comentários que, com a devida vénia ao Diário Notícias e à Jornalista, passo a transcrever
“Entrevista. O comandante-geral da GNR, general Nelson Santos, admite que não conseguiu tirar das secretarias para funções operacionais tantos homens quanto o Governo tinha prometido. Mas está convicto de que a reorganização da GNR criou uma força de segurança muito mais eficaz no combate ao crime. Mostra-se orgulhoso das missões internacionais e acredita que a GNR está a contribuir para a paz no mundo "Os criminosos ainda hesitam em disparar"
JORNALISTA VALENTINA MARCELINO – De que forma a reestruturação da GNR vai ser notada pelo cidadão comum?
 GENERAL NELSON SANTOS - Ao racionalizar meios e ajustar o dispositivo, pretende-se libertar efectivos para a actividade operacional e dar resposta mais pronta e articulada aos problemas da criminalidade. Mais do que socorrer a vítima que precisa de apoio (este apoio sempre esteve e estará assegurado) queremos é que haja menos vítimas em resultado do combate que a Guarda fará à criminalidade com a organização agora implantada e os recursos disponíveis. Consolidada a reestruturação, teremos com certeza uma GNR melhor apetrechada e mais eficaz.
- O principal objectivo da reorganização era, precisamente, libertar dois a três mil efectivos para reforçarem as patrulhas no terreno, segundo as previsões do
Governo. Foi conseguido?
- Aceito que quando isto foi pensado houvesse essa expectativa de colocar esta gente em quantidade. Neste momento, 1330 é o valor máximo que conseguimos.
Mas a reforma não está acabada. Daqui a seis meses o processo será reaberto e é possível que tenhamos que actualizar este número, aumentando-o. Por outro lado, é minha intenção recorrer ao outsourcing em muitas actividades da Guarda, o que também vai permitir a disponibilização de mais elementos.
- Também foi prometida a entrada de 1800 civis para a GNR e PSP, para substituir elementos em funções de suporte e poder transferi-los para funções operacionais...
- Para a GNR não foi possível recrutar nenhum. Temos uma carência de licenciados em direito e engenheiros electrotécnicos. Fizemos a consulta e não tivemos resposta nenhuma.
- Os novos operacionais vão já começar a fazer patrulhas nas ruas?
- Vão ter um período de reciclagem de conhecimentos. No início vão ficar sujeitos a um "estágio" com acompanhamento de militares mais experientes.
- Como é que estas pessoas encararam a mudança?
- Mudar a GNR é um processo doloroso. Até para mim. Foi nossa grande preocupação que isto custasse o mínimo possível para as pessoas. Dei ordens para que, sempre que possível, os militares ficassem colocados dentro do distrito onde estavam e o mais próximo possível da sua residência. Penso que na generalidade dos casos isso aconteceu. Esta foi uma reforma profunda e completa. É a grande transformação da Guarda em 100 anos de história. Implicou transformação estrutural, transformação na ocupação de espaços e alterações na vida das pessoas. Profundas. E tudo isto teve que ser feito com a GNR a funcionar.
- O crime em Portugal está mais violento?
- Penso que não. Segundo os elementos que dispomos, os criminosos ainda hesitam em disparar. Provavelmente porque sabem que as consequências de um disparo são bem mais gravosas no caso de serem capturados. Salvo excepções, não sentimos ainda a chamada violência gratuita. Nota-se que mesmo quando há manifestação de alguma atitude de defesa por parte das pessoas, isso não provoca maior agressividade dos criminosos. Felizmente para os portugueses que tem acontecido pouco.
- Como é que a GNR caracteriza o crime violento na sua área de intervenção?
- Distingo três categorias. Uma, praticada por indivíduos isolados, que assaltam alguém, com arma ou não, com o objectivo de obterem resultados imediatos.
Normalmente estão associados à droga. É a que tem maior peso estatístico. A segunda são os grupos, mais ou menos organizados, que assaltam de forma planeada por exemplo bancos, estações dos CTT ou carrinhas de transporte de tabaco. Normalmente esta criminalidade, em alguns casos, está associada ao
carjacking que iniciam os seus assaltos roubando primeiro uma viatura. A terceira categoria são os chamados epifenómenos, como foi o assalto àquela carrinha de transporte de valores na auto-estrada do sul e que nem será organizado em Portugal.
- E qual vai ser a estratégia da GNR?
- Por um lado fazer prevenção com as patrulhas diárias. Por outro, apostar muito nas operações de maior envergadura, com alvos estabelecidos. São as operações especiais de prevenção criminal que surtem enorme efeito. Por um lado transmitem sentimento de segurança ás pessoas. Depois incomodam mesmo os criminosos. As nossas informações provam que na área onde actuamos há sempre uma acalmia do crime. Este trabalho tem sempre ligação à investigação criminal. As nossas detenções de maior sucesso, por exemplo as ligadas ao carjacking, deveram-se ao trabalho destas equipas.
 
(continua)
 
 Luís Santiago

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